Page 91

Chegamos em “La Habana” - a Capital, ao anoitecer e pudemos ver a cidade nas últimas luzes da tarde, enquanto o avião da Copaairlines sobrevoava aguardando o pouso. Um taxi desconjuntado nos levou para a capital de Cuba tantas vezes vista em nosso imaginário por tudo que ouvimos e lemos sobre este país tão heróico e ao mesmo tempo isolado do mundo globalizado. Como seria ver de perto o que acontece em Cuba? Escuras foram as primeiras impressões na autopista bem cuidada que leva do aeroporto à cidade e onde não se enxergam as placas de sinalização. Os cubanos precisam poupar energia que é muito cara e difícil, num lugar onde a sua geração depende de termoelétricas e de petróleo. O motorista se enfiou pelas vielas de Habana Vieja, a parte antiga da cidade, estreitas e com passagem para apenas um carro, procurando o endereço de nosso hotel. Empacamos. Parece que um carro lá da frente quebrou e entupiu todo o trânsito. Era uma rua muito escura, espremida entre edifícios históricos, mas ainda não alcançados pelo processo de restauração que ocorre na maior parte da cidade. Curiosos e meio ressabiados olhávamos para os lados: os velhos prédios são habitados por famílias humildes que vão se ajeitando como podem, numa bagunça de varais de roupa colorida, apartamentos enjambrados, gatos e fios de luz atravessados, mezaninos improvisados pela necessidade e facilitados pelo pé direito muito alto das construções centenárias. Pelas calçadas, os bicitaxis - espécies de riquixás cubanos - iam voltando se espremendo entre a parede e o carro para fugir ao pequeno congestionamento. No meio da confusão se escuta um flautista ensaiando uma melodia ligeira, e mais além, o ritmo inconfundível de um grupo de salsa, chamando para a festa!

Os habitantes dos velhos casarões O desafio de restaurar e conservar o casario Histórico e seus ocupantes!

veículo adaptado em coletivo e nosso meio de transporte em La Habana.

Quando nossos olhos vão acostumando com a escuridão vemos que a rua está cheia de gente: as portas das casas se abrem para fora e os moradores põem suas cadeiras na calçada. Os bicitaxis são ponto de encontro da molecada da vizinhança, que fica aboletada em bandos, em cima dos assentos poltronas aproveitadas de velhos ônibus. Mais tarde lemos no jornal Granma[1] que a restauração do casario histórico não pretende deslocar moradores dos prédios “tugurizados”. O centro histórico – dizem tem que ser restaurado preservando sua história viva: Os ocupantes das casas. Vai ser - e está sendo - um desafio monumental, pois os moradores são milhares de pessoas e os prédios históricos estão quase todos lá, preservados, testemunhando o fato de quando não se prioriza lucro imediato, o patrimônio arquitetônico permanece. La Habana de hoje tem quase todas as jóias arquitetônicas que estavam de pé nos anos 50. E as velhas árvores, que já eram frondosas dos tempos do ditador Batista, se espremem altaneiras nas praças e ruas molestando as calçadas à vontade - ninguém lhes deita olhares de destruição.

91

Valeu Março 2016  
Valeu Março 2016  
Advertisement