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um dia com ele. A história é apenas isto. Simples. Aparentemente simples, fossem as relações humanas e as pessoas simples. Por vezes a maior profundidade esconde-se na simplicidade e este filme é o exemplo. Os diálogos e a construção das personagens são notáveis e transformam uma história singela num grande filme. Méritos vários, desde o realizador, Richard Linklater (que também escreve o argumento com Kim Krizan), aos actores Ethan Hawke e Julie Delpy. O filme poderia ser um belo postal sobre Viena, sobre a sua beleza e os seus recantos, guiados pela beleza jovem dos protagonistas, mas é muito mais do que isso, é um verdadeiro hino à paixão. Aquela noite em Viena passou a ser parte de mim, como outras noites em Lisboa, Rio, Paris, ou Berlim. Noites de encontro de almas pelo poder da paixão. Noites em que duas pessoas se cruzam por acasos da vida, e por outros acasos se encontram, esbarram, colidem, se apaixonam, por horas, dias, ou por toda uma vida. Jessie e Celine, Norte América e França, em Viena. Uma improbabilidade geográfica e cultural que afinal faz todo o sentido, como tantas outras, pois como dizia Vinicius “A vida é arte do encontro, Embora haja tanto desencontro pela vida”. Este poema podia ser o subtítulo deste filme, assim como dos dois outros que o seguiram. Sim, o filme da minha vida é um, que na realidade são três. “Antes do Amanhecer” tornou-se um fenómeno de culto, o que levou a que a mesma equipa se reencontrasse sete anos depois para filmar uma continuação passada…sete anos depois. Surge assim “Antes do Anoitecer”, desta vez com as personagens a deambular por Paris. Se o primeiro filme é o da ingenuidade e pureza do fim da adolescência e início da idade adulta, aqui os personagens já são jovens adultos responsáveis e com vidas próprias em construção, com a colisão entre sonhos e realidades. Ao fim de ou-

tros sete anos surge “Antes da Meia-noite”, o filme da maturidade e da idade adulta, em que o casamento é o tema central. A originalidade de uma trilogia que acompanha o crescimento das personagens em tempo real com sete anos a distarem cada filme faz deste um objecto único, bem como a envolvência dos actores no guião e em todo o processo criativo, apenas possível num filme que se tornou em muito mais do que um simples filme, mas um projecto de vida para todos os envolvidos. A genuinidade passa em cada cena e o cinema aproxima-se da realidade de uma forma bela, como bela é a forma como são mostrados os cenários escolhidos para contar a história. Estado de graça será a melhor forma de definir o que foi conseguido nestes filmes, um absoluto estado de graça que reflecte uma clara paixão como os mesmos foram feitos.

No primeiro filme as personagens despedem-se com a promessa de um reencontro um ano depois no mesmo sítio. Sem troca de telefones ou moradas, com o destino entregue à imprevisibilidade. Eu escolho despedir-me com as palavras que Céline canta no final de “Antes do Amanhecer”: “Let me sing you a waltz”. Texto por João Albuquerque Carreiras

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Valeu Março 2016  
Valeu Março 2016  
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