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o filme das nossas vidas Todos nós, por um motivo ou outro, temos um filme que nos marcou para sempre e que podemos definir como “O Filme da Nossa Vida”. Talvez não seja o melhor filme que vimos, nem sequer se enquadre naquilo que ousamos definir como “bom cinema”, mas por qualquer razão, é o filme de que nos recordamos com mais frequência e aquele que nos vem à cabeça quando, desafiados, nos pedem para falar sobre cinema. “O filme das nossas vidas” pretende ser isso mesmo. Um desafio à capacidade de passarmos para o papel a magia que olhamos na tela e que nos marcou para sempre. Um estímulo à forma como interpretamos aquilo que vimos. Um olhar pessoal sobre o olhar, já por si pessoal, do realizador. A Revista Valeu lança um desafio aos seus leitores e colaboradores, para que nos enviem, para publicação, o seu olhar sobre o filme que mais os marcou, o filme a que se arriscariam a chamar o filme da sua vida.

O FILME DA MINHA VIDA Noutros tempos, em que minha cinefilia era muito mais praticante, gostava do jogo de tentar adivinhar os filmes da vida de amigos e conhecidos, numa perspectiva, que tenho por correcta, que eles muito dizem da personalidade de cada um. E fazia-o com sucesso e uma óptima taxa de acerto. Há outras formas de descrever a personalidade de alguém, mas poucas conseguem um tal acerto como “filme da nossa vida”. Perante isto, deveria ser-me fácil a escolha do meu filme da vida. Nada mais errado, por um motivo muito simples, não tenho um filme da minha vida, mas vários filmes que em determinada altura foram o filme desse momento da minha vida. No seguimento do que já disse, poderia ser isto atribuído a um estranho caso de múltipla personalidade, mas apesar de nunca ter consultado um discípulo do Dr. Freud sobre o assunto, julgo não ser esse o caso. Explico, falando de amor. O “filme da nossa vida” é um reflexo da nossa personalidade, sim, mas é também uma paixão consolidada, séria e definitiva, como o amor da nossa vida. Isso explica porque ainda não encontrei “o” filme da minha vida, como ainda não encontrei “o” amor da minha vida. Foram algumas paixões intensas, alguns enamoramentos, fragmentos de tempo apaixonados, mas nunca uma paixão definitiva, sólida, permanente. E já não sei se falo da minha vida amorosa ou do filme da minha vida. Para além disso, parto sempre de um pressuposto, os filmes da nossa vida não têm de ser os melhores filmes que vimos na vida. Há obras-primas absolutas que não me entram na alma, como há pessoas perfeitamente bonitas que nunca nos irão despertar mais do que uma admiração estética, incapazes de arrancar algum fogo de paixão, ao invés de outras, imperfeitas, sem a absoluta delicadeza dos traços, que nos arrebatam para além dos limites da razão.

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Relembro as minhas paixões que associo, sem grande dificuldade, a períodos da minha vida. “ET” que me fez chorar lágrimas de perda quando ela, felizmente, não entrara ainda na minha infância. “Stand by me”, o meu filme da adolescência, do momento em que a criança que há em nós se esconde para poder reaparecer um dia. “O Império do Sol”, que me mostrou como a vida de um adolescente não tem de ser fácil. “Os Marginais”, onde o lirismo technicolor envolve um enorme drama, deixando no entanto a luz da esperança nos cabelos loiros do protagonista. “O Clube dos Poetas Mortos”, na sua belíssima demonstração do que pode ser o poder do livre pensamento e as consequências que o mesmo acarreta. Este é um filme de uma geração, um filme de uma década, que me deixou num vale de lágrimas, a mim e a todos os que saíam da sala como num concerto de choro colectivo, disfarçado a custo por lenços e mãos na cara. A perfeição arrebatadora de “O Leopardo”, de Visconti, e de “La Dolce Vita”, de Fellini, ou os recentes “Gran Torino” e “A Grande Beleza”. Estes e muitos outros me despertaram paixões que não perduraram, como tantas outras que encontramos na vida. A minha escolha acaba por ser então a de um filme sobre o amor, sobre a paixão, sobre essa coisa tão indefinível e irracional que aproxima duas pessoas que aparentemente nada têm em comum. Fazia zapping numa qualquer noite de Domingo, quando encontrei Ethan Hawke, jovem, num comboio. Deixei ficar e entrei num mundo que passou a acompanhar o meu. Foi assim que vi pela primeira vez “Antes do Amanhecer” e foi aí que me apaixonei irreversivelmente por este filme, ingénuo, imperfeito, mas fascinante. Jesse conhece Céline (Julie Deply) no comboio, ambos regressam a casa, Jesse irá apanhar em Viena um voo para o EUA, Céline tem por destino Paris. O poder do amor à primeira vista leva Jesse a conseguir convencer Céline a sair em Viena e a passar

Valeu Março 2016  
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