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RV - De que forma a tua experiência num laboratório fotográfico moldou a tua forma de fotografar e o teu gosto pela fotografia? AD - Foi revelando as fotografias de outras pessoas que essa curiosidade surgiu. Que massa esse momento, que legal essa paisagem e aí surge a vontade de revelar as tuas próprias fotos. RV - Com a fotografia digital perdeu-se um pouco essa magia? AD - Olha, muito trabalho que cê tá vendo aí no portfólio, é analógico tá. Essa foto aí – Adônis apontando para uma das fotografias do seu portfólio – da bóia na piscina, por exemplo.

O analógico é bacana porque de cada imagem eu tenho um clique só. É engraçado porque quando comecei a trabalhar com o digital, não tinha aquela coisa do pessoal, de bater vinte fotos para escolher uma. Trabalhava como se fosse ainda analógico. Fazia duas fotos, tal…era mais forte que eu. Lá no laboratório em Itália onde faço trabalho de freelancer, o Márcio falou para mim: Adônis bate dez, vinte cliques, não tem problema. Só que mesmo ele falando isso aí, ele percebia que eu batia 2, 3 fotos. Não por não querer, mas não estava habituado. Também porque eu acho que a fotografia é educar o olho. Com o tempo, o olho tende a perceber se uma imagem é válida ou não. RV - Como é que você definiria a fotografia?

RV - Como evoluiu o teu percurso fotográfico até este ponto de estares fazendo matérias para a VOGUE? AD - Sabes, a Vogue é uma revista que eu sempre admirei, como conceito, de imagem, contemporânea, de tendência e tem outra revista que eu quero falar que é a Photo France, que é uma referência mundial a nível da fotografia. Essa é uma revista que eu comprava já aqui, antes de fazer fotografia e nem falava italiano. Tinha um senhor de Florianópolis que conseguia para mim a revista, atrasada uns meses, mas eu adorava. Falando de fotografia mundial, eu acho que aquela revista ali é uma vitrine. Uns anos depois, quando eu regressei a primeira vez ao Brasil, descobri uma essas revistas todas guardadas e aí sim, como já falava italiano, pude ler. Risos. - Com a Vogue a coisa foi assim, eu entrava sempre no site para ver online a revista e no site tem um cena em que você se pode inscrever. Preenchi um profile e comecei a mandar imagens. O que acontece, eles avaliam as imagens e se consideram que encaixa no perfil deles, no estilo, aí a foto ganha o carimbo Vogue e vai diretamente para o meu profile dentro da Vogue. Tu podes mandar 100 fotos e todas serem descartadas. Desaparecem do teu profile no site porque não correspondem ao que eles pretendem. Eu mandei uma, duas e pô, foi, ficou. Depois mandei outra e foi. Aí eles dão a possibilidade de fazer um e-commerce à Londra – referindo-se a Londres em italiano – onde tu passas a ganhar um percentual da utilização dessas fotos. Daí pra frente me estimulou muito, essa coisa da Vogue, sabe. RV - Isso aconteceu mais ou menos há quanto tempo?

AD - A fotografia poderia ser definida como um reflexo do mundo.

AD - Faz uns três anos. Mais ou menos. Agora não me lembro bem. Para Itália eu fui em 2002. Sim, talvez 3 anos.

RV - E da alma? Da tua alma?

RV - Desculpa, continua.

AD - Também, porque tem muita coisa que eu fotografo, que não tenho nem palavras para te explicar. É uma coisa emotiva, que vem de dentro, que pra passar, só pela imagem. Por isso que muitas vezes não dou título às imagens.

AD - Depois teve também um concurso mundial da revista Photo France, com pessoas de mais de 120 países, em que participei e cheguei na semifinal, com aquela foto da banheira, na categoria moda e com esta – apontando para uma belíssima fotografia intitulada “People”, de pessoas passeando numa praça cheia de pombos – que foi escolhida e saiu na revista, numa edição bem bacana, em 2013. A minha primeira entrada na Photo France. Depois também preenchi o profile da página da internet deles e aconteceu uma coisa bem legal: tem uma empresa de consultoria econômica que é partner da revista, a KPMG, que queria renovar um dos seus ambientes com novos talentos e entre 50 mil fotografias que olharam, foram escolhidas 200 e entre elas, essa minha. Aí o pessoal da redação me ligou, para fechar o contrato. Foi bem legal!

Por breves instantes, ficamos em silêncio, olhando algumas das fotografias que Adônis trouxe para nos mostrar, em busca desse olhar introspectivo, desse fragmento de segundo em que o capta para a eternidade o seu estado de alma. RV - Existe alguma inspiração adicional para a fotografia pelo fato de estares vivendo em Itália e as cidades serem tão ricas em termos arquitetônicos e históricos?

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AD - Pra mim sim, embora a minha foto seja mais contemporânea. Mas esse lado histórico é inspirador sim. Sobretudo quando viajo. Muitas vezes, se não consigo fazer imagens, anoto, para depois voltar e bater uma foto ali. Nisso a Europa ajuda, ajuda.

Valeu Março 2016  
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