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tas vezes os chefes montam um prato muito bonito, mas quase impossível de transportar, dá vontade de dizer, porque não levas tu? Temos de ter noção do nosso trabalho e do trabalho que desempenham as pessoas que estão connosco. Facilitar as coisas, para que realmente resultem perfeitas. - Qual foi o jantar que mais gozo te deu preparar? - É sempre uma pergunta difícil, mas a abertura do Mesa de Lemos, para mim, foi excepcional. Surgiu de uma brincadeira. Eu ia viajar para a Madeira e lembrei-me de colocar no facebook algo do tipo: se abrirmos o restaurante no dia x, quem é que está interessado? Cheguei a Lisboa com o restaurante cheio. 40 pessoas. Assustei-me. Fui uma semana para a Rota das Estrelas para a Madeira e quando voltei tive mesmo de assumir. Tinha de ser no dia que tinha lançado. Nessa noite, restaurante cheio, sentei-me naquele piano – Diogo apontando para um piano colocado estrategicamente na entrada do restaurante. – que toca sozinho, aumentei o som e finjo que estou a tocar, nem imaginam a ovação quando paro. Pensei, estamos feitos ao bife. – Gargalhada geral. – Levantei-me e expliquei que o piano tocava sozinho, mas ninguém acreditou. Ainda hoje há pessoas que pensam que fui eu que toquei aquela primeira música. A partir daí, o jantar decorreu de forma perfeita. Foi uma noite maravilhosa. Se me perguntares: ó Diogo, esse foi o teu melhor menu? Nem de perto, nem de longe, porque eu acho que o meu melhor menu é sempre o último, mas o cenário, o empenho da equipa, foi perfeito. - É importante ter uns “gandas malucos” como os teus administradores, que permitem tudo isto, todo este tempo de pesquisa, toda esta exigência com o produto, todo este dinheiro investido neste espaço e nesta tua equipa? - É fundamental. As pessoas que lideram este projecto são, de facto, grandes apaixonados. Ponto. Ok? Trabalham diariamente noutro sector para divulgar diariamente este projecto, da Mesa de Lemos e da Quinta de Lemos. Essa coragem deles é única e a disponibilidade que em permanência demonstram, sem cobranças e com a perfeita noção que a não é com a nossa função de servir refeições que cobrirão o investimento que aqui fizeram, é extraordinário e dá-nos uma tranquilidade e uma segurança muito grandes para trabalhar e ambicionar fazer o melhor. Além disso, há uma concordância perfeita em relação ao projecto. O Celso decidiu investir aqui, porque aqui estavam as suas raízes e porque, como eu, ainda acredita na região. Cada detalhe deste espaço retracta essa paixão pela terra, pela sua terra. Por isso está sempre a promover artistas locais e nacionais, que convida para exporem aqui e a batalhar pela divulgação da região e de tudo o que é Portugal, para fora e para nós próprios.

- Se tivesses de definir a tua cozinha numa palavra, qual seria essa palavra? - Deixa-me dizer que a minha cozinha nunca é só minha. É uma cozinha de uma equipa. - Talvez me tenha expressado mal. Referia à cozinha da Mesa de Lemos. E Portugal não vale, por razões óbvias. - Simplicidade. Claro que à simplicidade poderíamos juntar outra: o gosto. Essa coisa do robalo saber a robalo, entendem? Um dia um cliente chamou-me e disse-me: esse pato estava maravilhoso, fantástico, irrepreensível, mas deixe-me dizer-lhe que era um prato muito simples. Eu respondi-lhe: então, deixeme agradecer-lhe porque esse foi um dos melhores que já recebi. Numa outra circunstância, fiz de entrada um bacalhau à lagareiro para um cozinheiro e ele emocionou-se a comer. Isto é daquelas coisas que têm uma dimensão absolutamente extraordinária. – Ele próprio emocionado. O restaurante começa a encher e, sentados nos confortáveis sofás da entrada, com uma imponente panorâmica para a vinha iluminada, somos sistematicamente interrompidos pelos clientes que querem cumprimentar o artesão, que confeccionará o menu que irão degustar. Diogo é de uma afabilidade estonteante. Talvez porque saiba da importância da simpatia para cativar os clientes que o visitam, mas acima de tudo, porque gosta tanto do que faz que isso transpira na energia que emana durante a conversa, mesmo durante uma conversa tão longa como esta com que nos brindou. Diogo levanta-se para as despedidas, enquanto lança mais uma provocação: - Uma grande parte dos restaurantes em Portugal copia muito e ninguém tem coragem de dizer isto. Há restaurantes que estão a abrir e estão a deixar as pessoas loucas, mas aquilo é tudo cópias. Há uma grande falta de coragem sobre esta matéria por parte dos críticos que deviam dizer, meus amigos, isto é bom, mas já comi melhor em outros lados. Numa das mesas, é aceso o cepo de que Diogo falava, dando aconchego a este início de noite fria de Inverno beirão. por João Moreira

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Valeu Março 2016  
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