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Quinta de lemos

Por amor às origens.

A imponência majestática da Serra da Estrela ao fundo, tingindo de negro um irrepreensível azul celeste que domina todo o horizonte, é o que nos prende a atenção. Dos prédios incaracterísticos que vão ladeando os primeiros quilómetros da Estrada Nacional 231, que liga Viseu a Nelas e que em breve darão lugar a pequenas vinhas cuidadas, não ficará senão uma brevíssima lembrança. É a Serra que olharemos quase até virarmos à direita em direcção a Silgueiros, mesmo quando escondida pelas cúpulas de velhos pinheiros ou de ancestrais oliveiras que dominam a paisagem. Depois, como por magia, as vinhas começam a atrair a nossa atenção, intercaladas por velhos casarios de granito e por imponentes moradias, mescla de arquitectura centro-europeia e da fértil imaginação edificadora dos seus proprietários. Vinhas novas, na sua maioria, a avaliar pelo compasso em que foram plantados os bacelos, permitindo o uso dos tractores no auxílio das tarefas agrícolas. Vinhas irrepreensivelmente tratadas, bem podadas, um mimo para a vista. Vinhas tão novas como os enólogos que delas cuidam e que se têm empenhado nas últimas décadas em recuperar para o vinho do Dão, nestas margens ensolaradas do rio a que roubou o nome, o prestígio e, sobretudo, a qualidade de outros tempos. É uma dessas novas vinhas do Dão que vamos visitar cruzadas as estreitas ruas de Passos de Silgueiros, pequena aldeia beirã, riquíssima na tradição etnográfica da região, em direcção à Quinta de Lemos, sonho tornado realidade pelo espírito empreendedor de Celso de Lemos, filho da região, cedo emigrado para a Bélgica de onde, após os estudos em engenharia química e quase duas décadas de trabalho na área do têxtil, regressou para fundar a Abyss & Habidecor, a empresa têxtil nacional que, segundo o Wall Street Journal, fabrica as melhores toalhas do mundo, utilizadas por Barack Obama, por Putin e pelos clientes dos exclusivos hotéis Burj Al Arab, no Dubai e Grand Hyatt, em Hong Kong. Chegamos à Quinta de Lemos com o Sol quase a pôr-se no horizonte, iluminando de encarnado as videiras despidas de cor, como que em repouso para um novo ciclo que em breve despontará. Subimos a pequena estrada de terra batida, rodeada de vinhedos, em direcção ao restaurante que domina a encosta e onde nos espera uma conversa à volta da cozinha portuguesa com o novíssimo Chef Diogo Rocha, a quem Celso de Lemos confiou a tarefa de fazer da Mesa de Lemos um dos melhores restaurantes de Portugal.

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Valeu Março 2016  
Valeu Março 2016  
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