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OS DESMEMBRAMENTOS E O COMBATE ÀS FORÇAS REGIONAIS NA DEC. 30 Vargas estava associado à política militarista e se tornou presidente provisório a partir de um Golpe de Estado, em outubro de 1930, permanecendo quinze anos no poder. Sua atuação como presidente caracterizou-se por uma política centralizadora, com características fascistas e medidas populistas, que culminou com a dissolução do Congresso Nacional. Além de controlar os poderes executivo e legislativo dos estados e municípios, Vargas também nomeou interventores federais de sua confiança para administrar os estados de acordo com seus interesses. A reestruturação política, em vigor no Brasil da década de 1930 representa a perda das forças oligárquicas e o aparecimento de uma nova elite política, composta por militares, diplomados e também industriais. A política organizada por essa elite heterogênea, desde o início, intencionava a centralização do poder nas mãos do Governo Federal, por isso, “o poder do tipo oligárquico, baseado na força dos estados, perdeu terreno” (FAUSTO, 2001:182. A partir de então, o discurso do poder público iniciou uma abordagem voltada à crítica da sociedade brasileira, cujo passado foi ditado pelas oligarquias e marcado “[...] pela ausência da Nação que dorme [...] e o seu despertar é datado por uma revolução: trinta” (DE DECCA, 1994:73). O historiador Boris Fausto reforça que a substituição da elite oligárquica não se fez por uma grande ruptura, ou seja, as oligarquias não desapareceram; apenas ocorreu a centralização das decisões político-econômicas, com o intuito de enfraquecer os regionalismos que, até então, influenciavam fortemente a política brasileira (FAUSTO, 2001:182). Essa proposta também afetou Santa Catarina e o município de Blumenau, que sofreram influências da política getulista. Na década de 1930, o município de Blumenau incorporava cidades como Indaial, Timbó, Pomerode, Rodeio, Benedito Novo, Rio dos Cedros e outras. Essa característica conferia um grande território para Blumenau, que podia ser considerado um município de destaque no setor econômico, situação que não era vista com bons olhos pelo governo, pois a política nacional desejava combater as forças políticas regionais em detrimento da construção de um ideal nacionalista e unitário. Como parte deste processo, sob a justificativa de que os distritos teriam maior autonomia política, ocorreu o processo de desmembramento do município de Blumenau que, por sua vez, manteve pequena parcela de seu território. Os desmembramentos geraram divergências entre a opinião pública. Os setores descontentes fizeram protestos contra as decisões do governo do estado catarinense e a imprensa blumenauense manifestou-se contrária às divisões, pois entendia que Blumenau, até aquele período, havia se tornado “[...]

evidentemente a maior e a mais próspera parcela administrativa do Estado de Santa Catarina” (A CIDADE DE BLUMENAU, 1934), destacando que a redução do território blumenauense não passava de uma manobra para enfraquecer a cidade economicamente. Mas a crítica da imprensa blumenauense ultrapassava a questão econômica, pois alegava que o retalhamento do território de Blumenau, do ponto de vista político, apenas incentivava “[...] o aparecimento de pequenos núcleos autônomos, de cujo seio brotarão as tricas locais, as competições pessoais e a desorganização administrativa” (A CIDADE DE BLUMENAU, 1934). Esse combate da imprensa contra a separação dos territórios levava em consideração a ideia de que os desmembramentos apenas serviam para quebrar a suposta homogeneidade adquirida pelo município durante anos, atribuindo seu crescimento, econômico, político e cultural a essa unidade. Ao contrário do discurso da imprensa, a historiadora Méri Frotscher ressalta que o município de Blumenau, nesse período, era constituído por uma heterogeneidade econômica, política e cultural. Porém, alguns segmentos da elite blumenauense investiam em um discurso regionalista, acirrado a partir das divisões do município. Sem dúvida, esse combatente discurso em defesa da “unidade” transformou o município em local visado pela política de Vargas e fundamentou a ação da Campanha de Nacionalização a partir do advento do Estado Novo (FROTSCHER, 2003:200-201). Em Blumenau, havia uma espécie de concordância entre as lideranças políticas quanto às decisões separatistas em Santa Catarina, entendidas como injustas e oficializadas por intermédio dos decretos de criação dos novos municípios. A ideia recorrente estava vinculada ao propósito de vingança, utilizado pelo governo para esfacelar Blumenau. Por conta disso, o estado atuava evidenciando em seus decretos que os desmembramentos eram de interesse da população dos distritos, e que o município de Blumenau absorvia “[...] 40% da renda dos distritos, impedindo assim o desenvolvimento dos mesmos” (A CIDADE DE BLUMENAU, 1934). Certamente, o enfoque no setor econômico era uma estratégia para retirar o foco da conotação política dos processos de desmembramento.

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Valeu Março 2016  
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