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O motivo: Os treinos e a ideia que os motivava (a competição) me davam dores de barriga. Não conseguindo me alimentar adequadamente antes das aulas por causa de “problema dos nervos” (leia-se neuroses infantis, gênesis) quando ele terminava, já com o nível de energia no mindinho do pé, ia eu cambaleando até a cantina da escola para repor as energias com um pastel de banana, a famosa “bananinha”, que dava para comprar com as moedas da minha mesada (tive a chance de aprender a administrar meu próprio dinheiro ainda criança). E como era divertido me besuntar de açúcar depois dos treinos! “Meu troféu’’, falava sozinha enquanto saboreava aquela gostosura. Claro que isso não acontecia todo os dia, até porque a mesada era bem modesta. Mas em alguns sim. Vieram as competições e o instante derradeiramente inaugural: Ginásio do SESI, Jogos Estudantis da Primavera (1995), dia de competição e minha primeira experiência com ela: A música. Sim! Com a música! Imagino que para tornar a coisa toda mais emocionante (quem não gosta de fortes emoções uma vez ou outra para driblar o tédio?), alguém pôs na vitrola do ginásio uma das poesias do Carmina Burana, musicada por Carl Orff (18951982), “O Fortuna”. A música fluía invadindo todos os cantos empoeirados daquele ginásio enorme, ecoando aquelas notas assustadoras, a todo vapor! A essa altura eu já começava a me sentir num grande barco furado e a música, para meu desespero, só aumentava a ansiedade. Aquela música assustava muito mais que competir. Era ela a encarnação sonora de todos meus pesadelos infantis! É verdade que o medo de competir era uma mentira que eu inventara. Meu medo era na realidade, da perda. De perder, você sabe. Fracassar... Nadadores a postos, preparação, o árbitro anuncia a largada e lá vai! Uma máquina mortífera na água! Perto dos meus adversários eu estava morta de tão cansada e bem no início da prova. De nadadora em potencial eu estava mais próxima de uma “Pequena Miss Sunshine” – o filme, das águas. Pelo menos sempre me sobrava uma medalha de bronze. E o melhor, o desafio estava superado. Eu aprendera a atravessar a nado a piscina do medo sem me afogar, além de poder ouvir a música dos meus pesadelos infantis (esses sempre são os mais assustadores) sem paralisar.

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Hoje quando ouço “O Fortuna”, cuja interpretação feita pelos caras do The Piano Guys é emocionante, percebo nela uma música simplesmente divina, um som dos deuses! Também acho interessante a versão do astro pop da música clássica, André Rieu. Já a de Carl Orff - o criador da obra, é indiscutível. Todas as versões estão disponíveis no youtube. E por fim, não posso deixar de observar: Ela ainda me assusta e sempre que a ouço, sinto que meus sentidos são convidados a dançar.

por Grazielle Pansard, janeiro de 2016.

Valeu Março 2016  
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