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Negra cheia de cor

por Julia Bailer Reinert

Texto produzido pelo GT Jornalismo Voluntário COLMEIA 2015 Acadêmica de Jornalismo da FURB: Julia Bailer Reinert Supervisão e orientação: professor Sandro Galarça Jornalista responsável: Nane Pereira Fotos Nane Pereira

Negros os olhos, pele e cabelo rastafári. Colorida a vida, rabiscos e desenhos nos muros da cidade e no corpo. Nascida gaúcha, de coração blumenauense, Natele Petersen, de 22 anos, já viveu mais a vida do que muitos de 50. Artista de nascença, com 18 anos ela colocou a mochila nas costas e saiu. Sem rumo, destino ou programação. Viveu e vive da arte manual, marginal, simplória e cheia de amor em toda pedrinha de cada pulseira.

Mas vive, principalmente, do amor e da coletividade de cada um que cruza seu caminho. Ela tem curso técnico de administração, mas é graduada pela rua. Foram quatro anos de viagens por todos os cantos do Brasil. Natele foi manézinha, gaúcha, matogrossense, índia e hoje ainda carrega um pouquinho de cada nacionalidade no coração. Viveu uma experiência inigualável e ainda inacabada. “Colocar a mochila nas costas é fácil, o difícil é tirar”, diz. Depois dessa vivência com diversas culturas, Natele não voltou a mesma. Hoje acorda todos os dias, sorri, espalha felicidade e é feliz como se não fosse ter a oportunidade de fazer isso de novo.Tudo o que é e vive hoje, aprendeu com a vida e com os outros ao seu redor. Uma exímia artista apaixonada pela arte, essa negra de cabelos bagunçados chama atenção sentada no

seu pano, todas as tardes, vendendo artefatos em miçangas. “O teu lugar não é aí. Vai trabalhar. Vai estudar”: escuta de vez em quando o julgamento alheio. Porém, hoje ela não se importa mais com preconceito ou em viver para agradar os olhos da comunidade julgadora. “Já fui muito mais presa em ser eu mesma pelos outros. Mas hoje não me influencia mais, tá ligado?”, acrescenta. Uma bomba de cores. Isso é o que foi a passagem de Clóvis Truppel na vida da Natele. Um artista plástico que se alimentava da rua como ela. Foram dois anos vividos intensamente, com o mais puro e verdadeiro amor. Ele foi o furacão mais lindo e cheio de vida da história dela. Mas se foi. Deixando um coração tomado por saudades e um legado respeitado por todos. Existe a Natele antes e a de depois de Clóvis. “Ele agitou a minha vida e eu acalmei a vida dele”. Em dez minutos, essa moça cumprimentou, acenou, beijou, abraçou e foi reconhecida por mais pessoas do que um alguém normal é no dia. Natele transpira leveza. Apesar de ser uma canceriana de personalidade extremamente forte, tem uma paz de espírito inacreditável. Para ela tudo é lindo, mágico e tem um significado. Acredita que cada um vive uma missão destinada para si. E talvez seja isso que a faça ser simples e querida por todos. O viver da arte marginal é visto como uma coisa triste e sem cor, porém, para quem sabe aproveitar, tem mais alegrias e cores do que outros. A Trupe perambula é um exemplo disso. Um coletivo de arte e uma casa cultural, é o lugar que acolhe a Natele todos dias. São pessoas que juntas, procuram dar o melhor para as outras. Os olhos negros dessa moça são mais coloridos do que os de muita gente. O sorriso é mais sincero e a alma mais liberta. Quem dera existissem mais Nateles por aí, procurando a simplicidade em todo cantinho. Natele foi atração imperdível no GT Artesanato da quarta edição do evento COLMEIA (do Coletivo Laboral Multicultural de Experimentações e Intervenções Artísticas, realizado em parceria com o Teatro Carlos Gomes), que ocorreu nos dias 19 e 20 de setembro, em Blumenau.

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Valeu Março 2016