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Manny: Fiz também a decoração da Loja Flor de Lis. Revista Valeu: Você utiliza algum software para seus projetos? Eu não uso o Autocad. Me entendo com meus rabiscos. Não nasci pra ser arquiteto, não consigo trabalhar na frente de um computador, não é isso que eu quero pra mim. Eu tenho que pegar e fazer a parada, fazer o negócio acontecer, me sujar, fazer a cena. Por exemplo, a parede de tijolinhos do 572, perto do banheiro, no meu projeto inicial, era pra ser até em cima, fechada. Na hora em que os pedreiros estavam fazendo, eu vi que ficava legal até onde ela estava e pedi pra eles pararem. Por isso eu sempre tenho que estar na obra. Eu tenho que explicar como eu quero. Revista Valeu: Como escolhe as pessoas para trabalhar nos seus projetos? Manny: Abro mão se a pessoa tiver alguém de confiança ou então levo alguém que eu conheço. Eu sou bem sincero né, guria. Já tenho que falar na cara. Meio que as pessoas já veem que eu sou meio doido! Revista Valeu: Acontecem muitos contratempos durante as obras? Manny: Não vou dizer que eu não me estresso. Imprevistos acontecem. Um dos meus projetos foi feito num prédio bem antigo, aí um cano estourou. E isso acontece quando tu meio que já fechou um orçamento. É que nem pegar uma goiaba bichada, saca? Mas é isso aí, tu continua comendo, só tirar o bicho! Tem que quebrar toda a parada e isso são dois dias a mais que tu não contavas na obra. Revista Valeu: De onde vem a inspiração? Manny: Muitas vezes eu sonho com alguma parada. Algumas ideias vêm antes de eu ter um trabalho fechado. Só espero o louco da vez chegar! É bem isso que Manny transmite na página da Garimpo Hippe: Tudo imaginado, muitas vezes sonhado e ganhando forma.

Eu ando e tiro fotos de modelos de janelas que não vão mais existir, das grades de ferro que faziam antigamente, com diversos detalhes. Hoje é tudo reto. Há quinze, vinte anos quem tinha uma casa toda com móveis sob medida era ricaço. E, hoje em dia, todo mundo pode ter isso. Agora querem resgatar essas peças que não são feitas em MDF, que não são comuns. Revista Valeu: E a relação com os clientes, esse primeiro contato, como acontece? O contato que tu tens com os clientes é muito importante. É preciso conhecer os gostos, o jeito da pessoa. Sacar o que é importante pra ela. Eu chego no lugar e vejo as peças chave. Tem que entender e sentir o valor sentimental que as pessoas têm por determinados objetos. Tento resgatar peças que fizeram parte da história da pessoa. Essas atmosferas que o Manny pensa, sonha e cria, procurando sempre conhecer as pessoas para quem trabalha, fazem com que um simples ambiente estreite laços entre as pessoas. Convidar alguém para entrar na sua casa, no seu bar, na sua loja, é também se expor, é mostrar sua intimidade. E quando abrimos esse nosso lado verdadeiro, o que acabamos por transmitir é um aconchego, um conforto. Manny tem esse cuidado, de entrar na nossa casa pela porta da sensibilidade e resgatar os objetos que fomos guardando por razões afetivas e que, de certa forma, definem um pouco a história de cada um de nós. “Sempre em que eu entro nos projetos, em qualquer lugar, eu me sinto em casa.” Essa é a magia de Manny e das suas criações. Por um tempo, o garimpeiro decorador, entra na alma dos espaços que pretende transformar, olha em redor com a atenção de um curioso, absorve a energia e cria, com uma simplicidade estonteante. Talvez por isso, as suas decorações sejam tão surpreendentemente confortáveis e acolhedoras, mesmo quando mais ousadas, é que no fim de contas, Manny precisa se sentir em casa, não é, guri? Por João Moreira e Clara Weiss Roncalio

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Valeu Março 2016  
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