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Editorial

por Clara Weiss Roncalio

O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses. José Saramago A primeira edição da Valeu de 2016 está saindo em um ano que, mal acaba de começar, já se encontra no seu quarto de vida. O tempo passa mesmo rápido. Há uns dois anos, um amigo português falou sobre o sonho de criar uma revista com enfoque na cultura da região. Um amigo português que fez dessa terra de alemães e italianos o seu lar e sempre viu aqui o que muitos que nasceram não enxergam, um lugar para ser explorado. Mas explorado no mais belo sentido. Um lugar para se tirar proveito, seja pelas belezas naturais, pela arquitetura, pelas comidas tradicionais. Às vezes, é preciso vir um forasteiro para mostrar o valor que essas coisas têm. Não que quem é daqui não goste de passear, de ir nas cachoeiras, pra São Bernardo, pro Morro Azul, não saiba apreciar e não goste dos pratos típicos, não note a beleza e os detalhes das casas enxaiméis. Mas não vê o potencial desse conjunto, não vê o que o mundo, se soubesse, adoraria ver. Por isso, batemos na mesma tecla, por isso a insistência na preservação dessas construções históricas, em mostrar a gente daqui, pessoas que fazem a diferença, seja em suas casas, na casa dos outros, na nossa cidade, em outros lados do mundo. Ao Brasil chegaram de navio, ao Vale Europeu, de bicicleta. Quem começou a fomentar o turismo na região foi o pessoal do cicloturismo, que hoje tem suas rotas consolidadas. E o que são essas rotas? São as paisagens, as estradinhas do interior, as casas, seus ranchos, seus jardins. Além de uma falta de estruturação por parte dos governos municipais, e também do Estado, quase não há apoio por parte dos empresários no que se refere

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ao turismo. Com exceção de Pomerode, onde eles se juntaram e promovem, além das principais festas, cursos de formação voltados para a área. Os mais diversos setores do comércio, e mesmo pessoas que poderiam vir a lucrar (e muito!), ainda não despertaram para a importância que o turismo pode ter na nossa região. São coisas simples que podem ser feitas. Já pensou parar de bicicleta numa casa de colono e poder comer um pão de milho feito no forno à lenha com queijinho e melado? O quanto isso, uma das coisas mais simples que existe, pode ser especial?! Talvez seja apenas o que falta para a manutenção física e cultural, de lugares que continuam sendo derrubados para darem lugar a caixotes sem alma. Hoje, esse sonho português já tem um ano de vida. Esperamos que a VALEU possa continuar desempenhando seu papel, seja o de pressionar os governos daqui para preservarem o que temos, seja para despertar num colono da Mulde a vontade de continuar na sua terra, colhendo e oferecendo os frutos que ela dá (para quem por ela passar). Navegar é preciso; Viver não é preciso Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: “Navegar é preciso; viver não é preciso”. Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) e a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa raça. Fernando Pessoa

Valeu Março 2016  
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