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RV - Como é que você vê Timbó, tantos anos depois? AD -Timbó é uma pedra quem tem vindo a ser lapidada e que hoje está brilhando, entendeu? Ela tem o seu brilho. Então isso, pô, eu fico feliz. Pô, cada vez que eu volto vejo algo de novo. As avenidas mais iluminadas, mais cuidadas, os ambientes mais aconchegantes, até tem uma revista como a Valeu. – Rindo. – Quando eu vi a primeira vez a revista pensei, nota 10. Será mesmo daqui? Muito bacana, esteticamente, fala do que precisa, da cultura, da gastronomia, dos artistas, muito bacana mesmo. RV - Tem algum fotógrafo que seja uma inspiração? AD - Tem vários, até é difícil escolher. Helmut Newton, no preto e branco, na imagem artística do feminino, depois tem David Lachapelle, que é um grande artista de moda, o cara é um monstro, falando de fotografia de moda, de criação, pô, o cara é fantástico, e tem outros, Patrick Demarchelier, também e Mario Testino, peruano e o cara está em todas, um personagem que na simplicidade das fotos dele, capta a imagem certa no momento certo e tem uma visão bem bacana.

RV - Desviando um pouco da fotografia, como é que olhas o Brasil morando fora há tanto tempo? AD - A minha visão olhando de lá para cá, é que lá é um país que já atingiu uma certa idade, não é? Atingiu uma maturidade e estabilizou. Hoje, teve esse período de crise, com muitos problemas, mas é um país estável. Eu vejo o Brasil como uma potência mundial só que ainda é muito novo e tem sido muito mal gerido, desde sempre. Devia ser incentivado um intercâmbio cultural intenso com os países europeus. Para mim, que tou lá, vou viajar para outros países, vejo a economia de outros países, vejo o comércio, vejo a arte e aprendo, absorvo. Acho que a partir do momento em que o cara tem essa visão aí, tudo se torna mais nítido. Isso é que falta nas nossas “elites”. RV - O brasileiro é muito bem acolhido em qualquer parte do mundo, não é?

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AD - Na Europa muito. Isso, eu posso falar. A música abriu muito esse caminho. A bossa-nova e o samba. Quando a gente fala que é brasileiro, todo mundo começa: caipirinha, samba. – Risos. – Mas, não é uma imagem negativa. É a imagem de que aqui o povo com pouco faz a festa. Chega ao fim-de-semana, se reúne, toca uma música, compra umas geladas, faz um feijão e aproveita a vida. Lá não é assim. O pessoal vive preso ao trabalho esperando ansiosamente aqueles 20 dias de férias para se divertir, para desanuviar. Se bem que aqui no Médio Vale, notei que muita gente prefere economizar um pouco para poder viajar e isso é muito legal. Amplifica a visão das pessoas.

RV - Essa sensibilidade para a fotografia, para captar uma imagem, um momento é algo que se vai desenvolvendo com a experiência ou é um olhar um pouquinho mais atento que se tem quando passeia, quando caminha? AD - Isso, eu vou-te resumir assim, João: todo o mundo vê, mas poucos enxergam. Porque a gente pode olhar o mesmo copo e vamos fazer a mesma foto, a tua será sempre diferente da minha e a minha da tua. Tem a ver com a educação do olhar, que não vem do dia pra noite. É uma coisa a lungo termine, não pára, não pára. Eu quando viajo procuro estar atento e ir visitar museus, procurar arte contemporânea, que é a que mais gosto, instalações, pinturas, porque isso educa o olhar. Quando estive na Coreia, passei uma tarde a visitar galerias de arte. Entrei numa que por fora você não dava nada, mas dentro, putz, trabalhos fantásticos. RV - O que é que sentiu quando vendeu a primeira foto na Vogue? AD - Nem sei dizer… quando mandei a primeira foto e veio com o carimbo Vogue, eu te confesso que pensei, quanto tempo passou, quanta dedicação, mas valeu a pena! Vou até contar uma história: quando estava para nascer o meu filho, o Gianluca, naquela semana de hospital eu conheci o Hélio, que hoje é amigo de família e ele praticamente trabalha há 40 anos na Vogue, na edição, é ele que coordena a edição da Vogue Itália e, meu Deus, isso foi muito legal. Ele está farto de convidar para ir lá na redação, mas eu… não estou pronto, ainda.

Valeu Março 2016  
Valeu Março 2016  
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