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A REVISTA CULTURAL DO VALE EUROPEU M A R Ç O 2 0 1 6 / / D I S T R I B U I Ç Ã O G R A T U I TA

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Editorial

por Clara Weiss Roncalio

O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses. José Saramago A primeira edição da Valeu de 2016 está saindo em um ano que, mal acaba de começar, já se encontra no seu quarto de vida. O tempo passa mesmo rápido. Há uns dois anos, um amigo português falou sobre o sonho de criar uma revista com enfoque na cultura da região. Um amigo português que fez dessa terra de alemães e italianos o seu lar e sempre viu aqui o que muitos que nasceram não enxergam, um lugar para ser explorado. Mas explorado no mais belo sentido. Um lugar para se tirar proveito, seja pelas belezas naturais, pela arquitetura, pelas comidas tradicionais. Às vezes, é preciso vir um forasteiro para mostrar o valor que essas coisas têm. Não que quem é daqui não goste de passear, de ir nas cachoeiras, pra São Bernardo, pro Morro Azul, não saiba apreciar e não goste dos pratos típicos, não note a beleza e os detalhes das casas enxaiméis. Mas não vê o potencial desse conjunto, não vê o que o mundo, se soubesse, adoraria ver. Por isso, batemos na mesma tecla, por isso a insistência na preservação dessas construções históricas, em mostrar a gente daqui, pessoas que fazem a diferença, seja em suas casas, na casa dos outros, na nossa cidade, em outros lados do mundo. Ao Brasil chegaram de navio, ao Vale Europeu, de bicicleta. Quem começou a fomentar o turismo na região foi o pessoal do cicloturismo, que hoje tem suas rotas consolidadas. E o que são essas rotas? São as paisagens, as estradinhas do interior, as casas, seus ranchos, seus jardins. Além de uma falta de estruturação por parte dos governos municipais, e também do Estado, quase não há apoio por parte dos empresários no que se refere

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ao turismo. Com exceção de Pomerode, onde eles se juntaram e promovem, além das principais festas, cursos de formação voltados para a área. Os mais diversos setores do comércio, e mesmo pessoas que poderiam vir a lucrar (e muito!), ainda não despertaram para a importância que o turismo pode ter na nossa região. São coisas simples que podem ser feitas. Já pensou parar de bicicleta numa casa de colono e poder comer um pão de milho feito no forno à lenha com queijinho e melado? O quanto isso, uma das coisas mais simples que existe, pode ser especial?! Talvez seja apenas o que falta para a manutenção física e cultural, de lugares que continuam sendo derrubados para darem lugar a caixotes sem alma. Hoje, esse sonho português já tem um ano de vida. Esperamos que a VALEU possa continuar desempenhando seu papel, seja o de pressionar os governos daqui para preservarem o que temos, seja para despertar num colono da Mulde a vontade de continuar na sua terra, colhendo e oferecendo os frutos que ela dá (para quem por ela passar). Navegar é preciso; Viver não é preciso Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: “Navegar é preciso; viver não é preciso”. Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) e a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa raça. Fernando Pessoa


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colaboradores

Julia Bailer Reinert

Acadêmica de Jornalismo da Universidade Regional de Blumenau (FURB), atua no setor de jornalismo da Rede Cultura de Rádios.

Adônis de Deus

Fotógrafo timboense radicado na Itália, colaborador das conceituados revistas Vogue Itália e Photo France.

Leo Victor Koprowski

Formado em Direito pela FURB, Leo é advogado e consumidor compulsivo de música nova.

Aline Tillmann

Formada em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda, pós-graduada em Marketing Empresarial, proprietária e diretora geral da Bmais Comunicação.

Lopo de Castilho

É licenciado em História, e desde longa data tem participado em diversas iniciativas de promoção de vinhos, bem como de defesa de produtos de Denominação de Origem Controlada. É o fundador e responsável pelo projecto Museu do Saca-Rolhas.

Beto Barreto

Dono da loja Happy Timbó. É colunista social do Jornal Café Impresso. Além da Valeu colabora para as revistas Studiobox de Portugal e Angola.

Luiz Garcia

Jornalista e cronista. Graduado em Comunicação Social com habilitaçao em jornalismo pela Universidade do Vale do Itajaí. Editor em publicações corporativas e institucionais.

Clara Weiss Roncalio

Clara é repórter principal e editora da VALEU. Ativista na defesa dos direitos dos animais e do meio ambiente.

Margot Friedmann Zetzsche

Enfermeira na Secretaria Municipal de Saúde de Timbó, Professora de Saúde Coletiva na FURB. Fotógrafa e escritora amadora.

Daniel Fabricio Koepsel

Professor de História na rede pública e privada de ensino em Santa Catarina. É graduado em história pela Universidade Regional de Blumenau e autor do Representações da cidade: discussões sobre a história de Timbó.

Mey Fuchter

É natural de Indaial e mora há cinco anos em Munique, Alemanha. Trabalha como blogueira e escritora, colaborando com várias publicações, tanto na Alemanha quanto no Brasil, e nas horas vagas devora livros e luta boxe.”

Esdras Floriani Holderbaum

Nascido em uma família de artistas, trabalha como produtor musical e remexer, através do projeto Soundyouwish.

Thérbio Felipe

Professor Sobre Rodas, conferencista, Turismólogo, Gastrônomo e Administrador Hoteleiro, escritor, experiente cicloturista.

Grazielle Monica Gueths Pansard

É psicóloga e cultiva medos infantis só para exercitar a coragem. Contato: grazimg.monica@gmail.com Celular: (47) 8404-5242 - Blog: grazimonica.blogspot.com.br

Thyara Antonielle Demarchi

Pedagoga e Mestre em Educação. Viciada em suculentas e cactos. Felícia de corpo e alma. Amante de discos, livros e árvores.

Heitor Castel’Branco

Trabalha como Técnico Superior de Turismo e, durante o verão, exerce funções de Guia de Mergulho na empresa Norberto Diver. Colabora em diversos trabalhos na érea do Turismo e com a revista StudioBox Viseu.

Tiago Minusculi

Tiago é formado em etiqueta a mesa e comportamento no meio gastronômico. Maitre, sommelier registrado na Itália com certificado internacional reconhecido, atribuído pela AIS Associazione Italiana Sommeliers.

João Albuquerque Carreiras

João Albuquerque Carreiras é arquiteto paisagista licenciado pelo Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, em Portugal. Viajante compulsivo é autor de inúmeros artigos de viagens.

João Moreira

Editor e Repórter principal da Revista Valeu. VALEU // 7ª EDIÇÃO

Jonathan Wisley Benvenutti

Jonathan Wisley Benvenutti, estudante de arquitetura, formado em Desing de interiores, Atualmente Projetista e Designer de interiores na WB Planejados e Sob medida Timbó.

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MARÇO. 2016 DIREÇÃO // Bruno Esteves EDIÇÃO // João

Moreira . Clara Weiss Roncalio Andrade . João Moreira DESIGN GRÁFICO e redação // Studiobox.pt Fotos Capa e Editorial // Adônis de Deus IMPRESSÃO // Tipotil Indústria Gráfica COORDENAÇÃO // Susana

TIRAGEM // 1000

CONTATOS //João

UNIDADES

47 9168-5244 Clara 47 8822-0029 geral@revistavaleu.com.br


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Adônis de Deus

O reflexo do mundo pelos olhos de Deus Talvez poucos saibam que Adônis de Deus, que durante alguns anos revelou as fotografias de muitos timboenses, se transformou em um dos colaboradores mais interessantes da célebre revista Vogue e com alguns dos seus trabalhos selecionados pela revista Photo France, ícone mundial da fotografia. O jovem colaborador da Photo Hobby partiu para Floripa e daí para Itália, onde vive com a família há 14 anos, captando em imagens um pouco do mundo que tem viajado. No final do ano passado esteve em Timbó e, em uma parceria da San Pellegrino com a Vogue, expôs uma pequena mostra do seu trabalho para a conceituada revista internacional de moda no Bistrô Magnani, na sequência da qual, aceitou o convite da Revista Valeu para conversar sobre o seu trajeto. Revista Valeu (RV) - Como começou esta paixão pela fotografia? Adônis de Deus (AD) - Começou há muitos anos na Photo Hobby. A minha irmã trabalhava lá, no laboratório e eu na época fazia o curso de desenho técnico mecânico. Um dia ela me disse para eu passar pela loja e falar com o Nilton, o proprietário, porque estavam querendo contratar alguém. Aí fui lá, conversei e comecei a trabalhar. Interrompi o curso que estava fazendo para iniciar no laboratório como auxiliar. Só depois de um ano de estar ali é que se iniciou a minha aventura com a fotografia. Tudo começou quando me convidaram para participar no Concurso Fotográfico de Timbó para o calendário da cidade e, se bem me lembro, tirei o segundo lugar. Peguei uma máquina emprestada da vitrine do Nilton para participar e fui na Thapyoka, onde ainda tinha a casa antiga e tudo mato em volta e desci, fiz doze cliques e um deles foi selecionado. RV - Você se lembra exatamente qual foi a foto?

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AD- Lembro, lembro. – Adônis de Deus, com o olhar perdido no horizonte, como que recuando no tempo, até o momento mágico em que tudo começou. – Aí iniciou tudo. Fiquei ainda alguns anos na Foto Hobby, depois me transferi para Florianópolis, onde fui trabalhar noutro laboratório, com a coincidência curiosa do proprietário ser amigo do Nilton. Foi engraçado porque ele estava na dúvida de pegar a loja com estúdio fotográfico em cima, ou apenas a loja. Aí eu disse: pega o estúdio que vamos fazer andar. Eu não tinha nenhuma experiência com estúdio fotográfico. – Risos.

RV - Deixa esclarecer uma dúvida. Nessa época já existia foto digital? AD - Era o início, mas eu trabalhava com analógico. Em Florianópolis, eu comecei a trabalhar com foto de moda, com uma clínica odontológica que tinha como modelo uma Miss Brasil de Balneário e fui trabalhando. Aí, chegou um momento em que um amigo meu, que trabalhava na Itália, me desafiou para ir trabalhar com ele, porque tinha surgido uma oportunidade. Nessa época eu estava bem, mas sempre gostei de viajar e decidi ir, por três meses. Acabou dando certo. Comecei a trabalhar numa empresa de importação no setor de acessórios de moda. RV - Nada a ver com a fotografia. AD - Não. Sempre fotografando, mas o trabalho não tinha nada a ver. Tinha de começar por algum lado, não é? – Um leve sorriso no rosto, como que antecipando o sucesso que viria a obter. - Os trabalhos que ia fazendo, levava num laboratório onde os fotógrafos mais conhecidos revelavam as suas fotos, aí um dia, o cara do laboratório me perguntou: Pode conversar? Eu disse que sim e começamos a falar sobre as minhas fotografias. O editorial que tu faz é assim mesmo ou é montagem? – Perguntou. – Eu expliquei o meu método de trabalho, conversamos e ele me convidou para fazer um trabalho com ele, como assistente. Me lembro até hoje, eu tava com a bolsa a tiracolo com a máquina fotográfica e eu fiz umas fotos também. Da segunda vez, ele me falou assim: tu não vai vir como assistente para carregar a bolsa, tu vai fotografar também, porque o teu trabalho vende. Ele tinha agregado algumas fotos minhas da primeira sessão e tinham sido bem aceites no mercado. Até hoje eu faço trabalho de freelancer para ele. RV - E abandonou a empresa de acessórios de moda? AD - Não. Continuo trabalhando com comércio exterior nessa área, mas onde vou, levo sempre a máquina atrás e estou sempre fotografando. RV - Olhando para o teu portfólio, encontramos fotos de moda, numa onda bem Vogue, Photo, mas também imagens muito Cartier-Bresson, Robert Capa, retratando momentos do dia-a-dia das pessoas, das cidades, e até retratando sentimentos. Essa dualidade tem a ver com a inspiração ou com as propostas de trabalho?


AD - Com os dois, na verdade. Eu gosto de fazer ensaios de moda, de criar o ambiente, mas isso faço mais como trabalho, porque as fotos mais casuais, mais de momentos, são as fotos que eu bato quando passeio, quando viajo. RV - Outra coisa curiosa nas tuas fotos é o fato de intercalares o preto e branco com cores muito fortes. AD - Eu gosto desse contraste. Por exemplo, para fazer um editorial de moda eu gosto de fazer um mix entre a moda e a arte. Como essa foto da banheira que você viu aí e que foi um catálogo que eu fiz para uma empresa que trabalha com importação.

RV - Para trabalhos como este, tu tens de ter uma liberdade de decisão e uma autonomia, muito grandes. AD - Sim. Muitas vezes, o cliente quer controlar tudo e nesses casos eu dou a minha sugestão, mas não imponho nada. Embora essa liberdade criativa tem de existir. Respeito muito o trabalho dos meus colegas que fazem moda de uma forma mais tradicional, mas eu gosto dessa ligação com a arte, dessa liberdade, que acaba por resultar melhor para o cliente. Gosto de fotografar de uma forma mais criativa. RV - Regressando por momentos ao início desta tua aventura com a fotografia, tu começou logo com moda? AD - Bem, primeiro veio o paisagismo. Até por causa do tal concurso fotográfico para o calendário de Timbó, em que participei durante 2, 3 anos. Depois canalizou para a moda.

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RV - De que forma a tua experiência num laboratório fotográfico moldou a tua forma de fotografar e o teu gosto pela fotografia? AD - Foi revelando as fotografias de outras pessoas que essa curiosidade surgiu. Que massa esse momento, que legal essa paisagem e aí surge a vontade de revelar as tuas próprias fotos. RV - Com a fotografia digital perdeu-se um pouco essa magia? AD - Olha, muito trabalho que cê tá vendo aí no portfólio, é analógico tá. Essa foto aí – Adônis apontando para uma das fotografias do seu portfólio – da bóia na piscina, por exemplo.

O analógico é bacana porque de cada imagem eu tenho um clique só. É engraçado porque quando comecei a trabalhar com o digital, não tinha aquela coisa do pessoal, de bater vinte fotos para escolher uma. Trabalhava como se fosse ainda analógico. Fazia duas fotos, tal…era mais forte que eu. Lá no laboratório em Itália onde faço trabalho de freelancer, o Márcio falou para mim: Adônis bate dez, vinte cliques, não tem problema. Só que mesmo ele falando isso aí, ele percebia que eu batia 2, 3 fotos. Não por não querer, mas não estava habituado. Também porque eu acho que a fotografia é educar o olho. Com o tempo, o olho tende a perceber se uma imagem é válida ou não. RV - Como é que você definiria a fotografia?

RV - Como evoluiu o teu percurso fotográfico até este ponto de estares fazendo matérias para a VOGUE? AD - Sabes, a Vogue é uma revista que eu sempre admirei, como conceito, de imagem, contemporânea, de tendência e tem outra revista que eu quero falar que é a Photo France, que é uma referência mundial a nível da fotografia. Essa é uma revista que eu comprava já aqui, antes de fazer fotografia e nem falava italiano. Tinha um senhor de Florianópolis que conseguia para mim a revista, atrasada uns meses, mas eu adorava. Falando de fotografia mundial, eu acho que aquela revista ali é uma vitrine. Uns anos depois, quando eu regressei a primeira vez ao Brasil, descobri uma essas revistas todas guardadas e aí sim, como já falava italiano, pude ler. Risos. - Com a Vogue a coisa foi assim, eu entrava sempre no site para ver online a revista e no site tem um cena em que você se pode inscrever. Preenchi um profile e comecei a mandar imagens. O que acontece, eles avaliam as imagens e se consideram que encaixa no perfil deles, no estilo, aí a foto ganha o carimbo Vogue e vai diretamente para o meu profile dentro da Vogue. Tu podes mandar 100 fotos e todas serem descartadas. Desaparecem do teu profile no site porque não correspondem ao que eles pretendem. Eu mandei uma, duas e pô, foi, ficou. Depois mandei outra e foi. Aí eles dão a possibilidade de fazer um e-commerce à Londra – referindo-se a Londres em italiano – onde tu passas a ganhar um percentual da utilização dessas fotos. Daí pra frente me estimulou muito, essa coisa da Vogue, sabe. RV - Isso aconteceu mais ou menos há quanto tempo?

AD - A fotografia poderia ser definida como um reflexo do mundo.

AD - Faz uns três anos. Mais ou menos. Agora não me lembro bem. Para Itália eu fui em 2002. Sim, talvez 3 anos.

RV - E da alma? Da tua alma?

RV - Desculpa, continua.

AD - Também, porque tem muita coisa que eu fotografo, que não tenho nem palavras para te explicar. É uma coisa emotiva, que vem de dentro, que pra passar, só pela imagem. Por isso que muitas vezes não dou título às imagens.

AD - Depois teve também um concurso mundial da revista Photo France, com pessoas de mais de 120 países, em que participei e cheguei na semifinal, com aquela foto da banheira, na categoria moda e com esta – apontando para uma belíssima fotografia intitulada “People”, de pessoas passeando numa praça cheia de pombos – que foi escolhida e saiu na revista, numa edição bem bacana, em 2013. A minha primeira entrada na Photo France. Depois também preenchi o profile da página da internet deles e aconteceu uma coisa bem legal: tem uma empresa de consultoria econômica que é partner da revista, a KPMG, que queria renovar um dos seus ambientes com novos talentos e entre 50 mil fotografias que olharam, foram escolhidas 200 e entre elas, essa minha. Aí o pessoal da redação me ligou, para fechar o contrato. Foi bem legal!

Por breves instantes, ficamos em silêncio, olhando algumas das fotografias que Adônis trouxe para nos mostrar, em busca desse olhar introspectivo, desse fragmento de segundo em que o capta para a eternidade o seu estado de alma. RV - Existe alguma inspiração adicional para a fotografia pelo fato de estares vivendo em Itália e as cidades serem tão ricas em termos arquitetônicos e históricos?

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AD - Pra mim sim, embora a minha foto seja mais contemporânea. Mas esse lado histórico é inspirador sim. Sobretudo quando viajo. Muitas vezes, se não consigo fazer imagens, anoto, para depois voltar e bater uma foto ali. Nisso a Europa ajuda, ajuda.


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RV - Como é que você vê Timbó, tantos anos depois? AD -Timbó é uma pedra quem tem vindo a ser lapidada e que hoje está brilhando, entendeu? Ela tem o seu brilho. Então isso, pô, eu fico feliz. Pô, cada vez que eu volto vejo algo de novo. As avenidas mais iluminadas, mais cuidadas, os ambientes mais aconchegantes, até tem uma revista como a Valeu. – Rindo. – Quando eu vi a primeira vez a revista pensei, nota 10. Será mesmo daqui? Muito bacana, esteticamente, fala do que precisa, da cultura, da gastronomia, dos artistas, muito bacana mesmo. RV - Tem algum fotógrafo que seja uma inspiração? AD - Tem vários, até é difícil escolher. Helmut Newton, no preto e branco, na imagem artística do feminino, depois tem David Lachapelle, que é um grande artista de moda, o cara é um monstro, falando de fotografia de moda, de criação, pô, o cara é fantástico, e tem outros, Patrick Demarchelier, também e Mario Testino, peruano e o cara está em todas, um personagem que na simplicidade das fotos dele, capta a imagem certa no momento certo e tem uma visão bem bacana.

RV - Desviando um pouco da fotografia, como é que olhas o Brasil morando fora há tanto tempo? AD - A minha visão olhando de lá para cá, é que lá é um país que já atingiu uma certa idade, não é? Atingiu uma maturidade e estabilizou. Hoje, teve esse período de crise, com muitos problemas, mas é um país estável. Eu vejo o Brasil como uma potência mundial só que ainda é muito novo e tem sido muito mal gerido, desde sempre. Devia ser incentivado um intercâmbio cultural intenso com os países europeus. Para mim, que tou lá, vou viajar para outros países, vejo a economia de outros países, vejo o comércio, vejo a arte e aprendo, absorvo. Acho que a partir do momento em que o cara tem essa visão aí, tudo se torna mais nítido. Isso é que falta nas nossas “elites”. RV - O brasileiro é muito bem acolhido em qualquer parte do mundo, não é?

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AD - Na Europa muito. Isso, eu posso falar. A música abriu muito esse caminho. A bossa-nova e o samba. Quando a gente fala que é brasileiro, todo mundo começa: caipirinha, samba. – Risos. – Mas, não é uma imagem negativa. É a imagem de que aqui o povo com pouco faz a festa. Chega ao fim-de-semana, se reúne, toca uma música, compra umas geladas, faz um feijão e aproveita a vida. Lá não é assim. O pessoal vive preso ao trabalho esperando ansiosamente aqueles 20 dias de férias para se divertir, para desanuviar. Se bem que aqui no Médio Vale, notei que muita gente prefere economizar um pouco para poder viajar e isso é muito legal. Amplifica a visão das pessoas.

RV - Essa sensibilidade para a fotografia, para captar uma imagem, um momento é algo que se vai desenvolvendo com a experiência ou é um olhar um pouquinho mais atento que se tem quando passeia, quando caminha? AD - Isso, eu vou-te resumir assim, João: todo o mundo vê, mas poucos enxergam. Porque a gente pode olhar o mesmo copo e vamos fazer a mesma foto, a tua será sempre diferente da minha e a minha da tua. Tem a ver com a educação do olhar, que não vem do dia pra noite. É uma coisa a lungo termine, não pára, não pára. Eu quando viajo procuro estar atento e ir visitar museus, procurar arte contemporânea, que é a que mais gosto, instalações, pinturas, porque isso educa o olhar. Quando estive na Coreia, passei uma tarde a visitar galerias de arte. Entrei numa que por fora você não dava nada, mas dentro, putz, trabalhos fantásticos. RV - O que é que sentiu quando vendeu a primeira foto na Vogue? AD - Nem sei dizer… quando mandei a primeira foto e veio com o carimbo Vogue, eu te confesso que pensei, quanto tempo passou, quanta dedicação, mas valeu a pena! Vou até contar uma história: quando estava para nascer o meu filho, o Gianluca, naquela semana de hospital eu conheci o Hélio, que hoje é amigo de família e ele praticamente trabalha há 40 anos na Vogue, na edição, é ele que coordena a edição da Vogue Itália e, meu Deus, isso foi muito legal. Ele está farto de convidar para ir lá na redação, mas eu… não estou pronto, ainda.


Apesar do reconhecimento internacional do seu trabalho, Adônis de Deus é, como esta pequena história bem revela, duma humildade estonteante. Tem orgulho no seu trabalho, no seu portfólio, mas não se lhe antevê a mais pequena nota de soberba. Talvez seja essa humildade que faz das suas fotografias obras de arte. A simplicidade com que registra pequenos momentos aleada à ousada elaboração com que visiona o mundo da moda, moldadas por uma visão simples, mas atenta do mundo à sua volta. por João Moreira

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Manny Pellin Gonรงalves

o garimpeiro decorador

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Design dá ao mundo algo que ele não sabia que sentia falta Paola Antonelli

Então meu tio foi reformar a casa dele que é enorme. Ele perguntou se eu queria cortar a madeira pra fazer lenha. Eu disse que me encarnava, mas só se eu pudesse pegar o quanto eu quisesse. Deixei tudo cortado e a Fê passou com a Saveiro, que foi socada pra casa. Guria, eu gastei dois sacos de prego, um saco de cimento e uma mangueira de luz. Demorei duas semanas. E fiz um deck lá em casa. Fê: “E fez um deckzasso!” Então, surgiu a Garimpo Hippe. Revista Valeu: Por que esse nome?

Foi numa tarde de sexta-feira quente de verão que o Manny chegou com a Fê (Fernanda Oliveira) na Rua Recife 143, sede da Valeu. E também com umas garrafas de Heineken (o calor era mesmo insuportável!). Conheci o Manny no ônibus, na época, eu ia pra Faculdade e ele pro Colégio. Figuraça. Sempre chamou a atenção. Acho que por ser uma dessas exceções que nascem e vivem em cidades pequenas, mas com uma alma que pertence ao mundo. Nascido no dia 23 de outubro de 1990, foi criado pela mãe e talvez por essa convivência exclusiva com a figura materna, cedo se sentiu atraído pela decoração de espaços a que gostava de dar novas roupagens. Revista Valeu: Como começou essa história com a decoração? Manny: Ai, guria... deixa eu pensar... Eu tava há dois anos parado, sem estudar e um ano sem trabalhar. Eu digo que tem a mão de Deus em algumas coisas, guria. Minha mãe foi na Igreja e levou uma carta da diocese de Blumenau pra casa. Ela tem costume de colocar esses folhetos no meio do jornal. Um dia eu tava folheando e tal... não sei o quê, e essa carta tava em umas paradas do SENAI de cursos e bolsas, e o único que me chamou a atenção foi o de desenhista arquitetônico. Eu trabalhei na Colcci em Blumenau, durante quatro meses. Na verdade, eu comecei a trabalhar lá porque fui fazer o curso do SENAI, que eu reprovei por falta! (risos) Meu Deus, guria, eu me matava! Aquele CEUTI era um saco! Aí eu voltei pra casa, pra Timbó, e comecei a fazer umas paradas pra me ocupar, umas pulseiras e outras coisas. Primeiro fazia pra mim e depois comecei a fazer para alguns amigos. Desde pequeno curti fazer cabanas e essas coisas assim. Então, eu montei um espaçozinho lá em casa no quintal. Meus amigos que me visitavam de vez em quando me traziam coisas: móveis, coisas de decoração, cadeira que a galera jogava fora. Tinha acontecido uma enchente nessa época e muita gente jogou muitos móveis fora.

Manny: O nome foi porque, desde o início, nunca tive grana pra “investir”, e a única opção que eu vi foi “garimpar” Foi dai que surgiu o Garimpo! E o “hippie” foi consequência de ver a vida de uma forma mais leve, mais humana e simples! Daí, como pra mim tudo tem que ter um “toque diferente”, ficou Hippe! Garimpo Hippe. Do quintal de casa para o centro da cidade Manny: Eu sempre brinco, comecei no meu quarto, do meu quarto fui pra minha casa, aí passei pro meu quintal, depois pra Oliver e aí só cresceu. Fê: Surgiu essa sala no centro de Timbó e minha irmã queria abrir uma loja de roupa. Eu disse que sabia quem poderia decorar. Falei pro Manny e perguntei se ele topava montar a loja. Ele disse logo: Meu, fechou!! Manny: A decoração da Oliver eu fiz em dois meses e meio, porque eu nunca tinha feito nada. Era diferente, eu tinha o compromisso, não era minha casa que eu podia errar e fazer de novo. Também não conhecia nada, nem sabia onde conseguir uma mão de obra qualificada. Manny: Eu vi pela decoração da Oliver, que muita gente curtiu. Não ficou muito rústico, nem super moderno. Agrada a pessoa mais velha, que se identifica com os móveis mais antigos e também os jovens que acham cool, que acham massa... Em seguida, me contrataram pra fazer a reforma de um sex shop. Era praticamente uma farmácia e virou um sex shop de verdade, com um teto de bordel e uma iluminação bem bacana. Depois veio a oportunidade de fazer o 572 Cocktail Bar. Dei sorte de conhecer a Ornella no Sarau Mortadela no ano passado. Aí tive a ideia de usar as obras dela pra fazer as mesas do bar. Como descreveu perfeitamente o meu amigo João Moreira, na matéria que fez sobre o bar na quinta edição da Valeu: “para isso contribuiu muito a mescla decorativa desenvolvida por Manny Gonçalves Pellin, a alma da Garimpo Hippe, responsável pela decoração, apostada num retro cosmopolita, que resume de forma extraordinária o espírito do bar.” E é isso, a decoração do bar mais badalado da cidade é um dos seus atrativos principais.

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decoração bar 572

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decoração da Oliver Tree

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decoração casa do maurício

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Revista Valeu: E então foram aparecendo novos trabalhos? Manny: Sim, o Maurício Weingartner me contratou pra reformar uma parte da casa dele, um espaço em que tudo era desregrado. Entre a cozinha e a sala pra área de festas eu coloquei os arpões e as varas de pesca dele, que ficavam tudo num quartinho jogado. E como ele é músico, dei um lugar de destaque para os instrumentos que antes ficavam num canto qualquer. Eu fui até comer peixe com polenta na casa da vó da Giseli, que é esposa do Maurício. Lá que foi irado a cena!!! Essa é uma das partes gratificantes do meu trabalho!

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Manny: Também fiz a decoração do bar da casa da Yasmin Mafra. Era uma sala comprida com uma área morta e ela decidiu que queria fazer um bar. Ela curte fusca e tem um amarelo. Coloquei um capô de fusca como decoração. Virou o Bar da Yayá.

decoração BAR DA YAYÁ 20


decoração galpão marcos Decker Reformei a área de festas da casa do Marcos Decker. Quando eu vi que ele ainda tinha guardada a primeira bicicleta dele, percebi que rolava um carinho especial por ela. E também porque ninguém esquece da primeira pedalada, né?! Eu coloquei ela em cima da mesa de sinuca.

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decoração flor de liS

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Manny: Fiz também a decoração da Loja Flor de Lis. Revista Valeu: Você utiliza algum software para seus projetos? Eu não uso o Autocad. Me entendo com meus rabiscos. Não nasci pra ser arquiteto, não consigo trabalhar na frente de um computador, não é isso que eu quero pra mim. Eu tenho que pegar e fazer a parada, fazer o negócio acontecer, me sujar, fazer a cena. Por exemplo, a parede de tijolinhos do 572, perto do banheiro, no meu projeto inicial, era pra ser até em cima, fechada. Na hora em que os pedreiros estavam fazendo, eu vi que ficava legal até onde ela estava e pedi pra eles pararem. Por isso eu sempre tenho que estar na obra. Eu tenho que explicar como eu quero. Revista Valeu: Como escolhe as pessoas para trabalhar nos seus projetos? Manny: Abro mão se a pessoa tiver alguém de confiança ou então levo alguém que eu conheço. Eu sou bem sincero né, guria. Já tenho que falar na cara. Meio que as pessoas já veem que eu sou meio doido! Revista Valeu: Acontecem muitos contratempos durante as obras? Manny: Não vou dizer que eu não me estresso. Imprevistos acontecem. Um dos meus projetos foi feito num prédio bem antigo, aí um cano estourou. E isso acontece quando tu meio que já fechou um orçamento. É que nem pegar uma goiaba bichada, saca? Mas é isso aí, tu continua comendo, só tirar o bicho! Tem que quebrar toda a parada e isso são dois dias a mais que tu não contavas na obra. Revista Valeu: De onde vem a inspiração? Manny: Muitas vezes eu sonho com alguma parada. Algumas ideias vêm antes de eu ter um trabalho fechado. Só espero o louco da vez chegar! É bem isso que Manny transmite na página da Garimpo Hippe: Tudo imaginado, muitas vezes sonhado e ganhando forma.

Eu ando e tiro fotos de modelos de janelas que não vão mais existir, das grades de ferro que faziam antigamente, com diversos detalhes. Hoje é tudo reto. Há quinze, vinte anos quem tinha uma casa toda com móveis sob medida era ricaço. E, hoje em dia, todo mundo pode ter isso. Agora querem resgatar essas peças que não são feitas em MDF, que não são comuns. Revista Valeu: E a relação com os clientes, esse primeiro contato, como acontece? O contato que tu tens com os clientes é muito importante. É preciso conhecer os gostos, o jeito da pessoa. Sacar o que é importante pra ela. Eu chego no lugar e vejo as peças chave. Tem que entender e sentir o valor sentimental que as pessoas têm por determinados objetos. Tento resgatar peças que fizeram parte da história da pessoa. Essas atmosferas que o Manny pensa, sonha e cria, procurando sempre conhecer as pessoas para quem trabalha, fazem com que um simples ambiente estreite laços entre as pessoas. Convidar alguém para entrar na sua casa, no seu bar, na sua loja, é também se expor, é mostrar sua intimidade. E quando abrimos esse nosso lado verdadeiro, o que acabamos por transmitir é um aconchego, um conforto. Manny tem esse cuidado, de entrar na nossa casa pela porta da sensibilidade e resgatar os objetos que fomos guardando por razões afetivas e que, de certa forma, definem um pouco a história de cada um de nós. “Sempre em que eu entro nos projetos, em qualquer lugar, eu me sinto em casa.” Essa é a magia de Manny e das suas criações. Por um tempo, o garimpeiro decorador, entra na alma dos espaços que pretende transformar, olha em redor com a atenção de um curioso, absorve a energia e cria, com uma simplicidade estonteante. Talvez por isso, as suas decorações sejam tão surpreendentemente confortáveis e acolhedoras, mesmo quando mais ousadas, é que no fim de contas, Manny precisa se sentir em casa, não é, guri? Por João Moreira e Clara Weiss Roncalio

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Negra cheia de cor

por Julia Bailer Reinert

Texto produzido pelo GT Jornalismo Voluntário COLMEIA 2015 Acadêmica de Jornalismo da FURB: Julia Bailer Reinert Supervisão e orientação: professor Sandro Galarça Jornalista responsável: Nane Pereira Fotos Nane Pereira

Negros os olhos, pele e cabelo rastafári. Colorida a vida, rabiscos e desenhos nos muros da cidade e no corpo. Nascida gaúcha, de coração blumenauense, Natele Petersen, de 22 anos, já viveu mais a vida do que muitos de 50. Artista de nascença, com 18 anos ela colocou a mochila nas costas e saiu. Sem rumo, destino ou programação. Viveu e vive da arte manual, marginal, simplória e cheia de amor em toda pedrinha de cada pulseira.

Mas vive, principalmente, do amor e da coletividade de cada um que cruza seu caminho. Ela tem curso técnico de administração, mas é graduada pela rua. Foram quatro anos de viagens por todos os cantos do Brasil. Natele foi manézinha, gaúcha, matogrossense, índia e hoje ainda carrega um pouquinho de cada nacionalidade no coração. Viveu uma experiência inigualável e ainda inacabada. “Colocar a mochila nas costas é fácil, o difícil é tirar”, diz. Depois dessa vivência com diversas culturas, Natele não voltou a mesma. Hoje acorda todos os dias, sorri, espalha felicidade e é feliz como se não fosse ter a oportunidade de fazer isso de novo.Tudo o que é e vive hoje, aprendeu com a vida e com os outros ao seu redor. Uma exímia artista apaixonada pela arte, essa negra de cabelos bagunçados chama atenção sentada no

seu pano, todas as tardes, vendendo artefatos em miçangas. “O teu lugar não é aí. Vai trabalhar. Vai estudar”: escuta de vez em quando o julgamento alheio. Porém, hoje ela não se importa mais com preconceito ou em viver para agradar os olhos da comunidade julgadora. “Já fui muito mais presa em ser eu mesma pelos outros. Mas hoje não me influencia mais, tá ligado?”, acrescenta. Uma bomba de cores. Isso é o que foi a passagem de Clóvis Truppel na vida da Natele. Um artista plástico que se alimentava da rua como ela. Foram dois anos vividos intensamente, com o mais puro e verdadeiro amor. Ele foi o furacão mais lindo e cheio de vida da história dela. Mas se foi. Deixando um coração tomado por saudades e um legado respeitado por todos. Existe a Natele antes e a de depois de Clóvis. “Ele agitou a minha vida e eu acalmei a vida dele”. Em dez minutos, essa moça cumprimentou, acenou, beijou, abraçou e foi reconhecida por mais pessoas do que um alguém normal é no dia. Natele transpira leveza. Apesar de ser uma canceriana de personalidade extremamente forte, tem uma paz de espírito inacreditável. Para ela tudo é lindo, mágico e tem um significado. Acredita que cada um vive uma missão destinada para si. E talvez seja isso que a faça ser simples e querida por todos. O viver da arte marginal é visto como uma coisa triste e sem cor, porém, para quem sabe aproveitar, tem mais alegrias e cores do que outros. A Trupe perambula é um exemplo disso. Um coletivo de arte e uma casa cultural, é o lugar que acolhe a Natele todos dias. São pessoas que juntas, procuram dar o melhor para as outras. Os olhos negros dessa moça são mais coloridos do que os de muita gente. O sorriso é mais sincero e a alma mais liberta. Quem dera existissem mais Nateles por aí, procurando a simplicidade em todo cantinho. Natele foi atração imperdível no GT Artesanato da quarta edição do evento COLMEIA (do Coletivo Laboral Multicultural de Experimentações e Intervenções Artísticas, realizado em parceria com o Teatro Carlos Gomes), que ocorreu nos dias 19 e 20 de setembro, em Blumenau.

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Susan Müller e seus florais de Bach

o poder curativo das plantas “A Vida não espera de nós sacrifícios inatingíveis, ela apenas pede que façamos nossa jornada com alegria em nosso Coração e para ser uma bênção para todos aqueles que nos rodeiam. Se nós fazemos o mundo melhor com a nossa visita, então nós cumprimos a nossa missão.” Dr. Edward Bach Imagine a cena: no início dos anos 30 do século passado, um investigador universitário, patologista e bacteriologista do University College Hospital e do London Homeopathic Hospital, passeando pelos campos verdejantes do País de Gales em uma manhã ensolarada, foca a sua atenção nas gotículas de orvalho que cobriam as folhas das plantas ao seu redor, intuindo que alimentadas pelo Sol virariam reservatórios dos poderes curativos das plantas sobre as quais pousavam e inicia uma laboriosa investigação, que o leva ao desenvolvimento da terapia floral que acabou ganhando o seu nome. Parece uma cena de filme, mas não é. Esta imagem bucólica e quase mística está na origem de um método de tratamento que a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece como complementar das terapias alopáticas desde 1976 e que tem vindo a ganhar cada vez mais adeptos em todo o mundo, os Florais de Bach.

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De fato, Edward Bach, o bacteriologista que decidiu abandonar todo o seu trabalho como investigador convencional e um lucrativo consultório em Londres, partindo para Gales para procurar na natureza o poder curativo das plantas, foi o pai deste revolucionário método de tratamento, a que os especialistas chamam de “sutil”, por ter como base a energia vibracional.

Mas, afinal, como é que o orvalho sobre as plantas pode curar? Segundo o próprio Dr. Bach: “Elas não curam, atacando a moléstia, mas inundando-nos o corpo com as formosas vibrações da nossa Natureza Superior, na presença das quais a moléstia se derrete, qual neve ao calor do sol”. Será que algo de tão poético funciona realmente? A OMS diz que sim e os investigadores de Física Quântica dedicam-se há muito ao seu estudo. Para tentar perceber melhor o funcionamento desta terapia, conversamos com Susan Muller, farmacêutica e analista clínica que há 13 anos decidiu, literalmente, mudar de vida e dedicar-se ao estudo dos Florais de Bach e à homeopatia. A casa de Susan e Loy, bem no centro de Timbó é uma espécie de oásis dentro da cidade. Na enorme varanda que antecede a entrada, um sem número de beija-flôr debicam água em um reservatório pendurado para o efeito, enquanto dezenas de borboletas de todas as cores prendem a nossa atenção. Susan recepciona-nos com um café acabado de coar, que tomamos em frente a um jardim cuidadosamente tratado, antecâmara perfeita para o início da conversa acerca da terapia floral: Susan: Então, vamos começar. Essa revista aqui – Mostrando um exemplar de uma revista de farmacêutica - é própria lá da profissão. Não é uma revista recente, é de 2012, mas ela aborda justamente o tema dos florais do ponto de vista farmacêutico, que é uma visão importante, porque as pessoas questionam “sim, mas isso faz efeito?”, “isso é uma coisa mística ou é realmente um medicamento que tem efeitos concretos e aprovado pela ANVISA?” “É


aprovado pela Organização Mundial de Saúde?” Então, esse texto todo tira essas dúvidas e, esclarece que é um medicamento já totalmente aprovado no mundo inteiro e utilizado por diversos países. Só que a divulgação não é como a da alopatia – referindo-se ao termo utilizado por homeopatas e defensores de medicinas alternativas para designar os tratamentos convencionais à base de produtos farmacológicos que tem a indústria farmacêutica por trás, que promove tudo. Por isso eu gostaria que vocês levassem, porque tem coisas, que são muito da farmacêutica e ajudam a compreender. Valeu: Isso é muito importante porque vai ao encontro daquilo que pretendemos, que é perceber exatamente como funciona esta terapia. Susan: Existe toda uma técnica de captação da energia. Os nossos antepassados se utilizaram de produtos naturais, mas fazendo chá... então, no floral a técnica é diferente. Apesar de existir a técnica de fervura, para extração de energia, nos florais é usada outra técnica a do efeito dos raios do Sol sobre as gotas de água que se formam nas plantas que é, digamos, realmente uma criação... Valeu: Uma investigação do Dr. Edward Bach e que resultou na criação de uma fórmula de concentração da energia naquela extração que se faz em cada planta. Susan: Exatamente! É a forma como a energia atua nas pessoas o mais importante do floral como também da homeopatia. Na homeopatia o fundamental é o médico homeopata entender o que o paciente precisa. Porque não existe um remédio pra uma doença. Existe um remédio pra uma pessoa que tem determinados sintomas emocionais. Então essa é a grande diferença. Não existir uma bula pra você receitar um floral como existe na alopatia. Doença do fígado trata com isso, isso e aquilo, dores de cabeça usa um analgésico. Com o floral não, no floral existe uma pessoa com uma questão emocional e essa questão é percebida pelo profissional e ele vai saber que medicação dar. Então nesse ponto, é o mesmo principio da homeopatia, a forma de receitar. Valeu: Vamos voltar um bocadinho atrás e entrar no lado mais pessoal. Como foi a sua descoberta do floral? Susan: No inicio foi mais uma curiosidade. Porque eu me formei em análises clinicas, primeiro farmácia e depois análises clínicas. Sempre trabalhei em laboratórios, hospitais e também tive uma farmácia. Mas, o farmacêutico e o bioquímico não têm um contato com o doente, tem o contato com o material do doente, ou então, simplesmente, entregam um medicamento. No Brasil não é autorizado o farmacêutico orientar, indicar medicação né?... Então digamos, eu sempre tive essa questão paralela de atuar na profissão, mas de ter a curiosidade de saber como é que funcionava aquele outro lado. E também é próprio da minha família, meu pai é médico, tios médicos...

e então você tem essa convivência familiar e desperta para essas questões. Meu pai chegava em casa e contava que fulano estava assim, assim, e que a questão era mais emocional do que física. Ele tinha essa sensibilidade. Eu sempre gostei dessa parte e lá pelas tantas, quando deixei do laboratório e trabalhei mais com farmácia comecei a ter mais curiosidade e a procurar mais essas medicinas alternativas. Mas, deixa eu ver como eu entrei em contato com os florais. – Susan pensativa, olhando através da janela. - É, foi uma amiga que convidou para assistir sobre esse tema, eu me encantei com o assunto e me interessei em fazer o curso e aprender. Junto disso, eu fiz homeopatia, pós-graduação em homeopatia, porque eu entendi que eu ia perceber melhor os florais se eu tivesse o aprendizado da homeopatia. Então foi assim, eu fiz as duas coisas ao mesmo tempo. mas com a intenção de trabalhar com terapia floral. Valeu: E resultou? Essa ideia de que a homeopatia permitiria um melhor entendimento dos florais? Susan: Muito, muito... tem tudo a ver. Tanto que o criador dos florais é discípulo do Hahnemann que é o criador da homeopatia. Só que a homeopatia veio muito antes, acho que... não sei ao certo a data, mas no século XIX e os florais são de meados do século XX. Valeu: E quando testou os florais pela primeira vez? Susan: Já durante o curso você vai experimentando os florais em si mesmo e vai tendo um aprendizado sobre autoconhecimento e vai evoluindo dentro da própria terapia. Valeu: Quando fala em autoconhecimento o que é que significa efetivamente? Susan: Perceber como você é. Eu sei que sou tímida, eu sei que sou retraída... a gente fica observando os defeitos né. Mas, e por trás disso? O que existe por trás disso? Talvez pelo fato de entender que isso é um defeito meu, eu tenho uma vontade muito grande de reverter isso, de não ser assim. Então, a timidez é uma questão minha, mas existem muitas. Cada pessoa tem a sua questão. Você se reconhece com medos, algum medo de infância, algum trauma, então você vai atrás disso. Por exemplo, por que eu tenho medo de lagartixa? É um exemplo, muito banal, mas são coisas simples que vão desencadeando o teu temperamento, o teu perfil pra idade adulta e que você vai carregando ao longo da vida. Valeu: E na sua experiência como terapeuta nessa área, as pessoas querem descobrir isso em si mesmas ou querem apenas tratar-se de um problema específico? Susan: São muito poucas as pessoas que querem ir a fundo e se descobrir. Isso é muito raro. As pessoas são assim, elas querem um resultado imediato. Tanto que quando você tem uma dor de cabeça você vai tomar um analgésico, mas, e a causa da dor de ca-

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beça? Não seria melhor você descobrir por que você tem dor de cabeça? Tive uma paciente que acordava com dor de cabeça quase todas as manhãs. E eu perguntei: mas você adormece bem, tem um sono tranquilo, sonha muito? Aí ela disse: poxa eu sonho muito e com coisas muito fortes, minha família, minha mãe que já morreu... Então é fácil de entender. O sonho, enquanto a gente está dormindo, é uma coisa real, você sofre todas as tensões durante o sonho. É fácil de entender que ela não tem um sono tranquilo. Que ela deve ter uma batalha toda noite e acorda com dor de cabeça. A função da terapia floral não é dar um analgésico é acalmar a pessoa durante a noite. Valeu: Teve algum caso em que a terapia tenha resultado numa transformação importante nessa pessoa, numa mudança efetiva? Susan: Ah! A pessoa se transforma, não tenho dúvidas. Tenho uma paciente de quase 10 anos, ela é muito batalhadora, mas ela tinha muitas dificuldades, e... ela não se sentia capaz de as ultrapassar. O floral foi uma coisa que a incentivou, lhe deu força, lhe tirou o medo, e essa pessoa conseguiu levar uma vida legal, superar suas questões, educar os filhos e se tornar uma pessoa super profissional e ir em frente. Hoje continua sendo muito batalhadora e com sucesso. Então, sim, tem alguns casos de grandes transformações. Esse caso que tô citando é bem evidente. Não vem ao caso falar quem é, mas é alguém que começou de baixo, humilde, com problemas sérios, com uma família pra cuidar e muito sozinha e que conseguiu ultrapassar essas dificuldades e seguir em frente. O floral auxilia a encontrar tranquilidade, a conseguir pensar antes de tomar uma atitude. Valeu: Dá mais equilíbrio, é isso? Susan: Exatamente, o floral, eu não vou dizer que ele vai te trazer o equilíbrio, porque se você estiver totalmente equilibrado você não é um ser humano, mas ajuda. Valeu: Vamos a uma questão mais pratica do floral. Você falou que tinha pacientes que estão consigo há 10 anos, por outro lado tem outros que estão há uma semana e já notam a diferença. Existe algum tempo específico para o tratamento? Susan: Eu sempre sugiro para as pessoas pelo menos fazerem o primeiro retorno, não tomarem somente um floral sem retornar. Isso é, pra mim, o mínimo. Às vezes não acontece. A pessoa tomou o floral: ah, eu fiquei legal e pronto. Como terapeuta eu aconselho a que insistam pelo menos no segundo floral, pra deixar isso um pouco mais firme, porque o problema pode retornar e esse estimulo por um mês, às vezes não é o suficiente, tem que insistir dois meses, três meses. Por exemplo, uma questão que eu atendo bastante, são pessoas com síndrome do pânico e que está associado a decepções, traumas, a coisas mais sérias, mais importantes, que criam medos na pessoa. Então, nesses casos, um mês não é o suficiente, são necessários, no mínimo, três meses de trata-

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mento. Noutros casos mais leves, o segundo floral já resolve, até porque depois que a pessoa percebe a importância, ela mesma vai voltar. Acontece muito, ela deixar de tomar seis meses e voltar a ter os mesmos problemas, então ela vai pensar: “não mas, isso me ajudou, vou usar novamente né”. Valeu: Há quanto tempo se dedica à Terapia Floral? Susan: Há 13 anos. Valeu: E ao longo desse tempo como tem sido a receptividade das pessoas? Por que o floral não é assim tão divulgado. Susan: A receptividade é muito boa. Mas, o principal entrave para o desconhecimento tem a ver com a própria indústria farmacêutica que precisa vender os medicamentos químicos né e tem uma divulgação muito forte, não só em cima da população, mas também em cima dos médicos, ao mesmo tempo que denegre a imagem de todas as terapias não convencionais, apesar de que os médicos já entenderam que este tratamento paralelo até favorece, facilita o trabalho do médico. Valeu: Aproveitando essa deixa existe alguma incompatibilidade do uso de florais com medicações convencionais? Susan: Nenhuma. Podem ser usados com qualquer medicamento, inclusive psicotrópicos. Não há interferência nenhuma. O que acontece é que existem pessoas que se tratam intensamente com psicotrópicos e, como sabemos, os psicotrópicos entorpecem a pessoa. Então a energia que você sente com a terapia floral e que faz você despertar para as suas questões, às vezes é entorpecida pelo psicotrópico, logo você não vai tão facilmente perceber o que te acontece como em uma pessoa que não toma esse tipo de medicamento Valeu: Ok. Agora para entender um pouquinho melhor o funcionamento do floral, existe algum efeito físico do tratamento? Susan: Não, absolutamente nenhum. É totalmente energético. Não tem nada a ver com outro tipo de tratamentos, que têm efeitos depurativos. O floral desencadeia uma serie de estímulos que vão atuar fisicamente, isso sim... se você tem muita preguiça, você é uma pessoa que se sente muito cansada, existe um estimulo pro corpo reagir. Mas quem vai produzir a adrenalina vai ser a própria pessoa... não o floral, o floral é apenas o estímulo que permite acelerar essa produção. Valeu: Regressemos ao seu exemplo pessoal. Olhando pra traz o que você acha que ganhou com o conhecimento do floral e a sua utilização? Susan: A principal mudança que o floral me trouxe foi a coragem de encarar a minha vida e permitir-me decidir por mim. Tanto que nessa época o floral foi


o primeiro passo pra eu me separar. Não que tenha sido a solução né – Susan sorrindo. - Poderia ter sido o inverso, descobrir que eu queria continuar. Mas, pra mim foi estímulo que necessitava pra eu me separar e mudar completamente a minha vida. Passei a ser outra pessoa. Passei a ser a Susan, a ser autêntica. E não vou te dizer que eu me tornei uma pessoa corajosa. O floral pra coragem é o que eu mais tomo, sempre preciso de um estímulo, sabe? Autenticidade. – Susan com um ar pensativo - O que deixa as pessoas felizes, na verdade, é poderem ser o que elas querem ser. Acho que isso é básico no ser humano. Deixar de ter traumas, fantasmas. Valeu: Você tenta passar esse estímulo aos seus pacientes? Tenta passar essa mensagem de que talvez seja mais importante você descobrir-se? Susan: É, é o que eu tento... não, é fácil não... Valeu: Por quê? Por que as pessoas têm medo dessa auto-descoberta? Susan: A auto-descoberta é uma coisa muito gradativa... não é assim. – Susan estalando os dedos - A vida, desde o nascimento até a idade madura vai colocando diversas situações pra gente e cada situação pode ser uma descoberta. O floral desperta a pessoa pra enxergar melhor a vida, pra se enxergar melhor a si própria.... e pra aprender, principalmente, para aprender. Acho que é uma questão muito importante do floral é aprender a se relacionar, porque isso é uma questão muito forte das pessoas. Valeu: Por quê?

Susan: Porque ajuda você a entender o próximo, a entender o posicionamento do próximo. Tem pessoas que são agressivas com você, tem pessoas que são fechadas e o floral ajuda a saber lidar com isso. Pra pessoas agressivas você tem que aprender a dar limites e pra pessoas fechadas você tem que aprender a dar abertura. Se você não se abre para o outro, como é que você vai esperar desse outro que se abra para si? Então, esse aprendizado também é uma coisa muito legal, e isso é pra vida inteira. Até porque as pessoas, quando não conseguem lidar com os outros entram em depressão, ficam tristes. Porque isso não é só uma questão com estranhos, é muito uma questão de dentro de casa, o que afeta as pessoas muito mais. Valeu: E o floral ajuda de que forma? Susan: De uma forma muito curiosa, porque o floral é um remédio em si. Ele estimula essas questões independente de haver uma terapia ou do paciente revelar alguma coisa de mais pessoal, entende? Não há essa necessidade, o próprio floral é que vai atuar. Um exemplo é o fato de funcionar com animais e bebês, né? Valeu: Pode explicar um bocadinho melhor? Como é que funciona? Susan: É muito comum o uso do floral na medicina veterinária. Eu tive algumas experiências usando com animais. Tive um caso de um gato, agora bem recente. O gato está com 20 anos e a dona mudou de domicilio, saiu de uma casa e foi pra um apartamento. Naquela semana de mudança deixou o gato

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na casa porque queria limpar o apartamento e levar o gato quando tivesse tudo prontinho. Enfim, chegou a hora do gato ir pro apartamento e ele sempre foi um bicho super dócil, um gato assim que não faz mal pra ninguém. Chegou no apartamento ele virou um bicho agressivo. E ninguém mais conseguia lidar com ele. Então, vamos fazer o floral pro gato! No terceiro dia o gato já foi se acalmando, já voltou a ser aquele gato tranquilo, sossegado, que só come e dorme. Valeu: E por que floral para bebês? Susan: Porque tem crianças que já vêm com alguma questão da gestação e de nascimento. Nascimento sempre é um trauma né? Então tem assim questões bem especificas de bebês né? E depois quando criança... Valeu: Nesses casos você conversa com a mãe e com o pai, para perceber o problema? Susan: Em geral a mãe, ela sabe bem o que acontece. E após essa conversa em que avaliamos os possíveis problemas defino o floral. Valeu: Agora uma questão mais prática, apenas dá consultas, em Timbó? Susan: Em Timbó, mas também tenho dado atendimento em Bombinhas, quando eu estou lá. Mas, lá eu não tenho um local específico, um consultório. Acaba por ser na minha casa. Valeu: Quando um paciente a procura, como funciona a consulta? Susan: Normalmente temos uma conversa e eu faço um questionário para tentar perceber quais os receios, os medos, aquilo que a aflige. No fundo, quais são as preocupações que a fizeram procurar-me. Em função disso, com essa informação já compilada, procuro na tabela dos florais, aquele ou aqueles que mais se adequam e que irão agir energeticamente no problema que é trazido pelo paciente. É uma fórmula com base da qual eu defino o floral que depois é preparado na farmácia de manipulação. É um frasquinho com um preparado farmacêutico que depois é tomado diariamente. Susan transmite uma calma e uma tranquilidade absolutas. Fala pausadamente, com uma voz suave que nos embala. Nada em Susan Muller faz antever a insegurança com que luta diariamente com o auxílio dos seus florais. Pelo contrário, transmite uma confiabilidade automática, quase encantatória que, imaginamos, agradará aos seus pacientes. No jardim que rodeia a casa, alguns quero-quero passeiam altivos pelo gramado, olhando-nos com sobranceria, enquanto um sabiá assobia um som celestial. Por aqui tudo parece ter encontrado o seu equilíbrio. Susan Muller atende na Rua Fritz Lorenz nº 76 – Sala 3, no Bairro Quintino e pode ser contatada através do email loysusan58@yahoo.com.br ou pelos telefones: 33827469 e 8829-4235.

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Por João Moreira e Thyara Antonielle Demarchi


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carta dos assustados Sobre nossos medos. Os infantis e os adultos.

Apenas seres dotados de coragem é que possuem capacidade para confessar o que faz os seus cabelos arrepiar.

- O que te assusta? Perguntou a menina de olhos auspiciosos. - O fantasma de Anne Frank, respondi.

Parte I. O lado A do medo. Lembro, especialmente, de dois medos que me assombravam na infância: Medo A) Tratores. Medo B) “O Fortuna” – A música. Explico. Medo A) Tratores. Idade precisa: período pré-operatório, de acordo com as confabulações de Sir Jean Piaget. Tratores eram seres sem explicação. Assustavam e ponto. O terror me subia pelas pernas e seguia até o último fio de cabalo branco fino e esvoaçante, como denunciam as fotos do álbum de família, sempre que via um deles se aproximar. Se era o tamanho monstruoso (sim, eu me impressionava com coisas pequenas o que fazia meu mundo ser bem interessante), formas grotescas ou o som estrepitoso, não sei. Será para mim um eterno mistério. Fato, era que tratores me faziam esbugalhar os olhos e sempre que um pintava à minha frente ou na linha do horizonte, eu não sabia se corria, se chorava ou se ficava.

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Na dúvida, fazia o que de melhor podia fazer: Nada. É. Nada. Assim, esperava o trator passar e com ele o medo, que eu via ir embora de carona naquela máquina assustadora. Desde bem cedo descobri a potência que existe no fazer nada, essa coisa vazia. “O vazio é o meio de transporte pra quem tem coração cheio”, canta Paulinho Moska. Ócio criativo? Não fazia ideia do que isso significava. No entanto, de alguma forma, entendia sobre a importância de fazer nada em algumas situações. As crianças sabem. Muita coisa. Na infância o universo conspira descobrimentos. Por isso imagino que a esta mesma época em que eu me iniciara neste fazer – o da paciência, em outras palavras, Manoel de Barros investia na criação de teorias que mais tarde, em 1996, viriam a compor seu pequeno grande “Livro sobre Nada”. O universo tem tramas. Vazios, nadas... nós, paciências. Voltando a encruzilhada das dúvidas: “não decidir é uma grande decisão”, aviso aos navegantes! Fabrício Carpinejar, Para onde vai o amor? Crônicas de Fossa (Bertrand Brasil, 2015). Fabrício, amor não se escreve, se vive. Amor escreve sim! Letra e palavra são amantes. A vida, esse passado-presente-futuro, é história.


E nossa história mora onde? Livros são como casas. São nossas histórias contadas por outros. É verdade que quando eu não estava sozinha (provavelmente na maioria das vezes já que tive a sorte de ser uma criança bem acompanhada), era bem mais fácil enfrentar o trator. Por exemplo, tudo ficava mais fácil quando, enquanto esperava aquele maquinário monstruoso passar, minha mãe segurava minha mão e lá de cima, do alto dos seus 1 metro e 60 centímetros de altura, ela lançava o seu olhar acompanhado de um sorriso leve e que eu sabia ler. No sorriso e no olhar leve de minha mãe estava escrito: Confiança.

Parte II. O lado B do medo. Medo B) “O Fortuna” – A música. Idade precisa: Operações concretas, Jean Piaget. Aqui, a história começa numa piscina. Uma piscina única que habitava a única escola pública com piscina da cidade do FITUB! Um luxo! Pelo menos era isso que eu ouvia os adultos falando, que aquela era a única escola pública da cidade que oferecia piscina e aula de natação às crianças e aquilo parecia motivo de muito orgulho. Era mesmo. Quiçá todas as escolas públicas pudessem oferecer tais oportunidades. Enquanto país da educação precisamos aprender a caminhar de acordo com nossa missão. Voltando ao orgulho dos adultos, porque eu via-os discursando sobre aquela, a nossa, ser a única escola pública do município com piscina eu também saía por aí repetindo o discurso e como todos, me orgulhava dele.

Fui aluna de natação da Escola Básica Municipal Alberto Stein e a nadar aprendi brincando, como é recomendável que sejam os aprendizados infantis: uma brincadeira. Nadar não era coisa séria pra mim e coisa que criança que é criança saber fazer bem, sem dúvida nenhuma, é brincar. Chato é aquele momento em que alguém, quase sempre um adulto, avisa que está na hora da brincadeira terminar. No mundo dos adultos quase tudo tem hora para acontecer. A vida tem seus tempos, seus ciclos. É assim que funciona. A vida tem seus momentos. Nesse caso, quem me pediu para a brincadeira acabar e virar coisa séria foi minha então professora de natação, que viria a se tornar minha treinadora e por quem guardo carinhosas lembranças. Assim como minha mãe, também ela me inspirou confiança convidando-me a integrar a equipe oficial de natação da escola. Se eu aceitasse seria uma das representantes da escola nos jogos estudantis da cidade e região. Odiei a ideia. A brincadeira sofreria monstruosas mutações e seria coisa séria o que sem dúvida, para uma criança que só queria brincar, ficaria muito, mas muito chato. A resposta ao convite foi enfática, levemente tímida: “acho que não”. Mais duas, três tentativas da profe, em dias alternados, tempo para pensar e por fim, cedi. Antes, duas vezes por semana brincar de nadar na água; Depois, todos os dias da semana treino. Antes, pouco me interessavam as habilidades esportivas dos colegas que brincavam de nadar comigo (quem se importava com isso se para brincar todos tinham habilidade?); Depois, já que não era mais brincadeira, eu precisava aprender as tais habilidades e percebia, com certo desespero, que minha melhor habilidade continuava sendo a brincadeira. Achava aquilo de treinar para competir uma verdadeira chatice. Mas não queria decepcionar a profe, muito menos a mim mesma já que havia aceitado o desafio e segui em frente. Curioso foi perceber as transformações no meu corpo provocadas pelo excesso de treino. De criança elegante, ao invés de um corpo atlético, eu passava a adquirir um “corpitxo” elegantemente roliço.

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O motivo: Os treinos e a ideia que os motivava (a competição) me davam dores de barriga. Não conseguindo me alimentar adequadamente antes das aulas por causa de “problema dos nervos” (leia-se neuroses infantis, gênesis) quando ele terminava, já com o nível de energia no mindinho do pé, ia eu cambaleando até a cantina da escola para repor as energias com um pastel de banana, a famosa “bananinha”, que dava para comprar com as moedas da minha mesada (tive a chance de aprender a administrar meu próprio dinheiro ainda criança). E como era divertido me besuntar de açúcar depois dos treinos! “Meu troféu’’, falava sozinha enquanto saboreava aquela gostosura. Claro que isso não acontecia todo os dia, até porque a mesada era bem modesta. Mas em alguns sim. Vieram as competições e o instante derradeiramente inaugural: Ginásio do SESI, Jogos Estudantis da Primavera (1995), dia de competição e minha primeira experiência com ela: A música. Sim! Com a música! Imagino que para tornar a coisa toda mais emocionante (quem não gosta de fortes emoções uma vez ou outra para driblar o tédio?), alguém pôs na vitrola do ginásio uma das poesias do Carmina Burana, musicada por Carl Orff (18951982), “O Fortuna”. A música fluía invadindo todos os cantos empoeirados daquele ginásio enorme, ecoando aquelas notas assustadoras, a todo vapor! A essa altura eu já começava a me sentir num grande barco furado e a música, para meu desespero, só aumentava a ansiedade. Aquela música assustava muito mais que competir. Era ela a encarnação sonora de todos meus pesadelos infantis! É verdade que o medo de competir era uma mentira que eu inventara. Meu medo era na realidade, da perda. De perder, você sabe. Fracassar... Nadadores a postos, preparação, o árbitro anuncia a largada e lá vai! Uma máquina mortífera na água! Perto dos meus adversários eu estava morta de tão cansada e bem no início da prova. De nadadora em potencial eu estava mais próxima de uma “Pequena Miss Sunshine” – o filme, das águas. Pelo menos sempre me sobrava uma medalha de bronze. E o melhor, o desafio estava superado. Eu aprendera a atravessar a nado a piscina do medo sem me afogar, além de poder ouvir a música dos meus pesadelos infantis (esses sempre são os mais assustadores) sem paralisar.

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Hoje quando ouço “O Fortuna”, cuja interpretação feita pelos caras do The Piano Guys é emocionante, percebo nela uma música simplesmente divina, um som dos deuses! Também acho interessante a versão do astro pop da música clássica, André Rieu. Já a de Carl Orff - o criador da obra, é indiscutível. Todas as versões estão disponíveis no youtube. E por fim, não posso deixar de observar: Ela ainda me assusta e sempre que a ouço, sinto que meus sentidos são convidados a dançar.

por Grazielle Pansard, janeiro de 2016.


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turismo em timbó

é agora ou nunca! entrevista com a Diretora de Turismo de Timbó - Flavia Cipriani O Vale Europeu está na moda. Foi preciso a onipresente Globo dedicar o primeiro Globo Repórter desse ano à região, para que os agentes de turismo despertassem da letargia em que têm vivido nas últimas décadas e descobrissem no turismo a trilha perfeita para o crescimento econômico dos próximos anos. De fato, desde que o programa foi para o ar que não se fala de outra coisa. As ligações caem em catadupa nos telefones de hotéis, agências de receptivo e organismos públicos responsáveis pelo setor. Chegam questionamentos de todo o Brasil sobre como chegar, o que visitar, qual a melhor época do ano para vir. Só para se ter uma ideia da dimensão desta procura, o site do Circuito do Vale Europeu de Cicloturismo, que habitualmente tem uma média de 500 visitantes, atingiu um pico de 25 000 visualizações. Ninguém estava preparado para esta repercussão e é interessante perceber o porquê. Afinal, o Vale Europeu tem todas as condições para ser uma das regiões mais dinâmicas do país em termos turísticos. Foi abençoado por uma natureza exuberante, com paisagens de cortar a respiração; tem uma arquitetura única em todo o Brasil; uma gastronomia rica e variada; uma cultura muito própria e atrativa; um calendário de eventos de raiz etnográfica diversificadíssimo; um caminho para mochileiros com 221 quilômetros e o primeiro circuito de cicloturismo do Brasil. Isto para não falar nas inúmeras cachoeiras, na maior tirolesa das américas, nas dezenas de cervejarias artesanais, no variado e rico artesanato ou nos pequenos sítios, onde ainda se produzem verduras e frutas sem veneno e com o gosto de antigamente. Então, o que levou a que, salvo honrosas e dedicadas exceções, só agora se olhe para o potencial turístico da região como fator de desenvolvimento? Por que durante anos mochileiros e cicloturistas foram olhados de soslaio e considerados turistas de segunda? De que forma se organizam entidades públicas e privadas para promover e dinamizar o turismo da região?

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Sendo Timbó a porta de entrada do circuito de cicloturismo que está na mira de todos os brasileiros, convidamos Flávia Cipriani, que assumiu recentemente o fardo de agitar as águas do turismo em Timbó por nomeação do atual governo municipal, para responder a estas e outras questões e, sobretudo, para conversar sobre o setor, que todos as organizações econômicas internacionais definem como a indústria do século XXI. - A gente chegou no ápice de promoção do Vale Europeu. – Atira Flávia ainda mal acabada de chegar à sede da Valeu. O sorriso no rosto não disfarça o contentamento com a promoção gratuita da região conseguida com a reportagem televisiva. Por trás de um ar descontraído e jovial e de uma afabilidade contagiante, Flávia esconde, ou talvez não, uma timidez que a leva a fugir dos holofotes e a se focar no muito trabalho que ainda existe para fazer. Tem sido assim desde que aceitou o convite para assumir o cargo de responsável do turismo da cidade, na dependência direta de Jorge Ferreira, Presidente da Fundação Cultural de Timbó. - A gente trabalha de uma forma regionalizada. O turista vem pra conhecer o Vale Europeu. Quer comer comida alemã, comer cuca, beber cerveja, conhecer o artesanato, as belezas naturais da região. Não vem só para conhecer Timbó ou Pomerode. É muito importante ter essa consciência. A região só se afirma como um todo. Por isso se criou o Consórcio Intermunicipal do Médio Vale do Itajaí, que congrega 9 municípios com duas áreas de atuação: a gestão dos resíduos e do turismo e que tem coordenado, em conjunto com os empresários do setor, as ações turísticas que são levadas a cabo: roteiros, eventos, circuitos… As prefeituras da região têm que trabalhar no sentido de dar o suporte ao Consórcio, de agregar juntamente com o Consórcio, com esses roteiros, de ver o que falta, e fazer esse trabalho de unificação. Sentes que essa unificação existe ou é difícil conciliar os anseios de nove municípios?


- Nunca é fácil conciliar vontades, que por vezes são até antagônicas. Tem Prefeituras que visionaram a importância do turismo para a região há muito tempo e outras que não atribuem tanta importância. Depende muito do peso que o turismo tem para cada uma e dos próprios atrativos turísticos que existem. Mas o caminho tem de seguir nesse sentido. O cicloturismo tem sido o carro chefe do turismo no Vale… - Sim, sim. Os dois produtos consolidados da região são o cicloturismo, em primeiro lugar, e os mochileiros. Embora com alguns problemas, sobretudo na parte alta do percurso, no caso do cicloturismo, esse é um produto consolidado e que funciona. Que problemas são esses? O que falta? - Muita coisa, sinalização, por exemplo. Para mudar a sinalização tem que se recorrer à Instância de Governança da região. Quem lidera a Instância é o Convention & Visitor Bureau de Blumenau. Na última reunião em que estive, senti uma certa insatisfação por parte dos municípios com essa questão de ter que passar por Blumenau. Até porque, durante anos, Blumenau não quis fazer parte do circuito de cicloturismo. Agora Blumenau está se vendo como parte do Vale Europeu. Percebeu que fica mais fortalecida assim. Estas questões geram entraves e dificuldades. O Consórcio gere o turismo do Médio Vale, mas para algumas coisas depende da Instância de Governança liderada por Blumenau, que por sua vez depende da Secretaria de Turismo do Estado. Isso complica, entendem? E Timbó? - Nós de Timbó temos de dar valor para as coisas. Porque estamos muito bem comparados aos outros municípios. Nós estamos bem preparados para o turismo, mas não valorizamos. Temos muito potencial. Timbó tem potencial para ter um roteiro, mas precisa de investimento, de uma estruturação. Temos três cervejarias artesanais, fábrica de chocolate, produtores orgânicos, artesãos, artistas, museus, entre os quais, o Museu da Música com o maior acervo de instrumentos musicais da América Latina, boa gastronomia, bons hotéis. A cidade transformou-se, está atrativa. Depois de tudo que foi feito, acho que a próxima administração tem que despertar para o turismo. Esse é o caminho. Porque a nossa cidade ainda é muito voltada para a indústria. Chega fim do ano e tudo fecha, não tem um restaurante aberto, o comércio fecha. Fica uma cidade morta. Como trabalhar o turismo sem essa estrutura? Eu vejo que falta investimento da iniciativa privada em relação a equipamentos turísticos. Faltam opções que prendam o turista na nossa cidade. Faltam roteiros dentro da cidade para entreter o turista. Não temos subsídio para isso. Mas o que seria necessário de investimento para criar esses roteiros?

Quando eu entrei na Fundação Cultural de Timbó fui para Joinville para estudar um roteiro que eles fazem com os colonos, que é bem interessante. Na época, receberam um subsídio do governo federal para conhecerem agricultores franceses que fazem parte de um roteiro criado como forma de fomentar o turismo na região. Eles te levam para tu conheceres a propriedade, os produtos que têm para oferecer. Eu voltei com uma estimativa de valor, pois formar esse roteiro envolve vários processos, cursos de capacitação, reuniões, estruturação de cada propriedade, entre outros. Era impensável. Houve algumas tentativas de organizar alguns eventos, por exemplo, o festival gastronômico e acabou por não acontecer porque os diversos empresários do setor não quiseram participar. Então, eu sinto uma falta de respaldo da iniciativa privada. Porque o turismo em Timbó não deve depender só da Prefeitura. Não sei quando surgiu este afastamento, este distanciamento, mas a verdade é que sinto muito essa falta de cooperação. Mesmo na ligação entre os diversos atores do setor. Além desse distanciamento que existe entre os empresários, outra coisa que causa um entrave para o turismo não eclodir é o medo da concorrência, que, ao invés de ser vista como incentivo para se fazer um produto de qualidade ou oferecer sempre o melhor serviço, é vista com maus olhos, como um inimigo. - O próprio comércio não se envolve. Na Festa do imigrante nós tentamos incentivar as lojas a fazerem a decoração. O próprio pessoal daqui se veste a caráter para ir na Oktober, mas não se veste assim para ir na festa da cidade. Essa falta de união do setor privado é mesmo um entrave, ao contrário do que acontece em Pomerode, onde os empresários do turismo se uniram para promover a cidade e hoje são o motor turístico da cidade, organizando os maiores eventos e com um sucesso enorme. Todos ganham. Se bem que é bom lembrar que lá teve um deputado por trás, mandando dinheiro e tem também uma secretaria de turismo. A propósito dessa desunião, há uma história interessante que o Wolfgand Rudolph nos contou a propósito do projeto que iniciou em frente à sua empresa de criar uma área para ciclistas, ajardinada e que ele pretendia que fosse o início de corredor verde que ligaria Timbó a Rodeio. Ainda tentou convencer os proprietários dos terrenos vizinhos, mas sem sucesso. É um bom exemplo dessa dificuldade de união, de entendimento. - É isso mesmo. E que legal esse espaço que eles têm. Eu não conhecia a área externa da Rudolph e há dias fui lá e fiquei encantada, merecia estar aberta ao público para visitação. Eu, inclusivamente estou tentando junto com o Murilo, responsável dos jardins, que isso venha a acontecer.

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Quais são tuas ideias para o futuro turístico da cidade? Pretendo fazer um guia cultural, com os principais eventos da cidade. Fiz um roteiro com os três museus da cidade, inclui também o arquivo histórico, um ambiente de consulta que contém muitas informações sobre nossa história e sobre os locais com interesse turístico. Este ano estou programando um evento grande, o Expobike, que vai acontecer no Pavilhão de Eventos. Nos dias 11, 12 e 13 de novembro. Esse ano o Circuito do Cicloturismo do Vale Europeu completa dez anos, teremos palestras, oficinas, exposição de fotografia, arte, bicicletas antigas, vamos convidar um pessoal de outros circuitos de cicloturismo do Estado, vai ter o encontro catarinense de cicloturismo. Será feito em parceria com o consórcio. No dia 14 começa o Velotur, será uma semana fazendo o circuito. Também vamos fazer novamente um concurso fotográfico, o concurso dos jardins das casas e também entre as empresas. Também faremos um vídeo institucional do turismo em Timbó. Ideias não faltam à Flávia e a sua determinação está estampada no rosto. Porém, agora é hora de se organizar e de pensar no futuro da cidade. A criação de uma secretaria é fundamental para dar esse salto no turismo em Timbó. O desafio foi lançado, por isso, consideramos importante ouvir o posicionamento do atual Prefeito Laércio Schuster Júnior sobre a questão e sobre seu entendimento da importância do turismo no futuro da cidade e da região. Revista Valeu - Com o impacto que teve o Globo Repórter sobre o Vale Europeu, parece que todo o mundo despertou para a importância do turismo como fator de desenvolvimento da região. Por ser a cidade receptiva por excelência do Circuito de Cicloturismo do Vale, Timbó está numa posição privilegiada para ser o motor desta indústria verde. Como é que o Prefeito encara esta mudança de paradigma de desenvolvimento de uma cidade pólo industrial, para uma cidade pólo turístico e cultural? Laércio - O impacto que teve a reportagem do Globo Repórter só veio a reforçar a certeza que eu já tenho há muitos anos: que o turismo é uma indústria limpa e na qual temos que investir hoje para colher os frutos a médio e longo prazo. Por conta disso fizemos nos últimos anos uma série de investimentos nesse sentido, a exemplo do Parque Central, do Parque Henry Paul, da Praça Frederico Donner, da revi-

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talização da área central, dos investimentos em melhorias na infraestrutura do Morro Azul e também no Jardim Botânico. O investimento em turismo precisa ser permanente, independente do partido que esteja à frente da Prefeitura. São os casos de Gramado, no Rio Grande do Sul, e de Pomerode, aqui do lado da nossa cidade. Quanto à cidade de Timbó ser um polo industrial, ela irá continuar a ser, até porque é uma característica muito forte da nossa imigração. Porém, o turismo pode conviver harmoniosamente com a indústria e ser uma parceira do comércio e da prestação de serviço. Timbó e o Médio Vale têm muito a oferecer nessa área, mas é importante que os investimentos não parem. Com o decorrer do tempo, os benefícios serão sentidos por todos em nossa região. Revista Valeu - Neste enquadramento, não será chegado o momento de entregar ao setor a importância que conquistou por mérito próprio, elevando o Turismo à dignidade de Secretaria? O Município tem em mãos algum projeto visando a criação dessa Secretaria? Laércio - Com o desenvolvimento do turismo e a valorização do setor será inevitável a médio prazo a transformação da Diretoria de Turismo da Prefeitura em Secretaria. Hoje, porém, a estrutura existente supre as nossas necessidades. Além disso, não podemos esquecer que estamos passando hoje por uma crise econômica e um clamor social pelo enxugamento e maior eficiência da máquina pública, em todos os níveis e esferas de poder. Portanto, hoje não há condições nem financeiras nem sociais de criarmos novas estruturas no município, que luta para manter a qualidade de vida das nossas famílias, apesar da queda na arrecadação e da queda nos repasses dos governos Estadual e Federal. Por outro lado, o turismo não pode ser encarado apenas como um objetivo do poder público. É preciso o empenho da iniciativa privada, que, apesar da crise, também tem feito investimentos, a exemplo do Blue Hill, esse belo hotel construído ao lado da Prefeitura. O nosso Vale atravessa um momento único na sua história. Depois do esforço de desbravamento dos colonos fundadores, que em meio à natureza souberam aproveitar as condições únicas da região e da dedicação dos seus descentes, apostando na exploração das riquezas minerais do seu fértil subsolo e na indústria como meio de crescimento econômico, é chegada a hora de seguir a trilha do desenvolvimento sustentável e ecologicamente equilibrado que o turismo oferece. Uma região que promove o turismo, tem orgulho no seu passado, honra a memória dos seus ancestrais e preserva a sua história, ao mesmo tempo que semeia de forma consolidada as sementes do de um futuro melhor para seus filhos e netos. Como afirmou Flávia Cipriani, é momento de unir forças, esquecer bairrismos e vaidades pessoais e caminhar juntos, empresários, municípios, agentes de turismo, artesãos e produtores locais e todos nós, cidadãos, em direção a um futuro melhor. por Clara Weiss Roncalio e João Moreira


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municipalização Mapa do desmembramento da cidade de Blumenau e as localidades municipalizadas em 1934 Fonte: Arquivo Público Prof. Gelindo Sebastião Buzzi Timbó – SC.

Timbó tem 81 ou 146 anos de existência? No mês de março a cidade de Timbó comemora 81 anos de Emancipação Política, que como historiador prefiro chamar de municipalização, ou seja, neste mês há 81 anos ocorreu o desmembramento da localidade de Timbó da cidade de Blumenau, Portanto, a localidade foi elevada à categoria de município, ou, como gostamos de dizer, cidade de Timbó. Uso o termo municipalização porque a nomenclatura emancipação evoca a inexistência de instituições políticas, faz transparecer a inexistência de lutas políticas de uma localidade que já tem intenções políticas e sociais desde o século XIX, quando foi ocupada pelos primeiros imigrantes alemães e italianos. Tão logo, é no dia 25 de março que Timbó completa 81 anos de municipalização, entretanto, esta data passa inerte e invisível junto a população Timboense. O principal motivo deste esquecimento na comemoração desta data, dá-se porque o calendário de Festas da Cidade, através de sua memória coletiva, sempre privilegiou mais a história da fundação da localidade Timbó e de sua imigração, em detrimento da municipalização. Portanto, estamos acostumados a dizer que a data de aniversário da cidade é a data de fundação e, aí sim, poderíamos dizer que Timbó fará 146 anos.

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Essa supervalorização de uma data em detrimento à outra também gerou um forte esquecimento de fatos históricos importantes para a cidade de Timbó. Tão logo, a municipalização não resume-se apenas a um decreto que encerra-se num pedaço de papel manuscrito já amarelado pelo tempo. Mas o decreto nº 527 de 28 de Fevereiro de 1934, na verdade, tem por trás de suas linhas um conjunto de lutas e disputas políticas não só locais, mas também manobras políticas estaduais e federais, com o objetivo de enfraquecer politicamente a cidade de Blumenau. Portanto, o surgimento de cidade como Timbó tem como pano de fundo a divisão das forças políticas regionais do Vale do Itajaí, visto que, a cidade de Blumenau na década de 1930 era uma grande força econômica e política podendo ser uma força incômoda aos planos do governo estadual de Aristiliano Ramos e uma força política contrária ao Presidente Getúlio Vargas, que pretendia desfigurar seu golpe final com a instalação do Estado Novo em 1937. Essas lutas políticas regionais e federais na verdade revelaram um grade plano do governo de Getúlio Vargas, que realizou uma sistemática política de desmembramentos na cidade de Blumenau, culminando com o surgimento de muitas cidades no Vale do Itajaí.


OS DESMEMBRAMENTOS E O COMBATE ÀS FORÇAS REGIONAIS NA DEC. 30 Vargas estava associado à política militarista e se tornou presidente provisório a partir de um Golpe de Estado, em outubro de 1930, permanecendo quinze anos no poder. Sua atuação como presidente caracterizou-se por uma política centralizadora, com características fascistas e medidas populistas, que culminou com a dissolução do Congresso Nacional. Além de controlar os poderes executivo e legislativo dos estados e municípios, Vargas também nomeou interventores federais de sua confiança para administrar os estados de acordo com seus interesses. A reestruturação política, em vigor no Brasil da década de 1930 representa a perda das forças oligárquicas e o aparecimento de uma nova elite política, composta por militares, diplomados e também industriais. A política organizada por essa elite heterogênea, desde o início, intencionava a centralização do poder nas mãos do Governo Federal, por isso, “o poder do tipo oligárquico, baseado na força dos estados, perdeu terreno” (FAUSTO, 2001:182. A partir de então, o discurso do poder público iniciou uma abordagem voltada à crítica da sociedade brasileira, cujo passado foi ditado pelas oligarquias e marcado “[...] pela ausência da Nação que dorme [...] e o seu despertar é datado por uma revolução: trinta” (DE DECCA, 1994:73). O historiador Boris Fausto reforça que a substituição da elite oligárquica não se fez por uma grande ruptura, ou seja, as oligarquias não desapareceram; apenas ocorreu a centralização das decisões político-econômicas, com o intuito de enfraquecer os regionalismos que, até então, influenciavam fortemente a política brasileira (FAUSTO, 2001:182). Essa proposta também afetou Santa Catarina e o município de Blumenau, que sofreram influências da política getulista. Na década de 1930, o município de Blumenau incorporava cidades como Indaial, Timbó, Pomerode, Rodeio, Benedito Novo, Rio dos Cedros e outras. Essa característica conferia um grande território para Blumenau, que podia ser considerado um município de destaque no setor econômico, situação que não era vista com bons olhos pelo governo, pois a política nacional desejava combater as forças políticas regionais em detrimento da construção de um ideal nacionalista e unitário. Como parte deste processo, sob a justificativa de que os distritos teriam maior autonomia política, ocorreu o processo de desmembramento do município de Blumenau que, por sua vez, manteve pequena parcela de seu território. Os desmembramentos geraram divergências entre a opinião pública. Os setores descontentes fizeram protestos contra as decisões do governo do estado catarinense e a imprensa blumenauense manifestou-se contrária às divisões, pois entendia que Blumenau, até aquele período, havia se tornado “[...]

evidentemente a maior e a mais próspera parcela administrativa do Estado de Santa Catarina” (A CIDADE DE BLUMENAU, 1934), destacando que a redução do território blumenauense não passava de uma manobra para enfraquecer a cidade economicamente. Mas a crítica da imprensa blumenauense ultrapassava a questão econômica, pois alegava que o retalhamento do território de Blumenau, do ponto de vista político, apenas incentivava “[...] o aparecimento de pequenos núcleos autônomos, de cujo seio brotarão as tricas locais, as competições pessoais e a desorganização administrativa” (A CIDADE DE BLUMENAU, 1934). Esse combate da imprensa contra a separação dos territórios levava em consideração a ideia de que os desmembramentos apenas serviam para quebrar a suposta homogeneidade adquirida pelo município durante anos, atribuindo seu crescimento, econômico, político e cultural a essa unidade. Ao contrário do discurso da imprensa, a historiadora Méri Frotscher ressalta que o município de Blumenau, nesse período, era constituído por uma heterogeneidade econômica, política e cultural. Porém, alguns segmentos da elite blumenauense investiam em um discurso regionalista, acirrado a partir das divisões do município. Sem dúvida, esse combatente discurso em defesa da “unidade” transformou o município em local visado pela política de Vargas e fundamentou a ação da Campanha de Nacionalização a partir do advento do Estado Novo (FROTSCHER, 2003:200-201). Em Blumenau, havia uma espécie de concordância entre as lideranças políticas quanto às decisões separatistas em Santa Catarina, entendidas como injustas e oficializadas por intermédio dos decretos de criação dos novos municípios. A ideia recorrente estava vinculada ao propósito de vingança, utilizado pelo governo para esfacelar Blumenau. Por conta disso, o estado atuava evidenciando em seus decretos que os desmembramentos eram de interesse da população dos distritos, e que o município de Blumenau absorvia “[...] 40% da renda dos distritos, impedindo assim o desenvolvimento dos mesmos” (A CIDADE DE BLUMENAU, 1934). Certamente, o enfoque no setor econômico era uma estratégia para retirar o foco da conotação política dos processos de desmembramento.

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Blumenau Unido era o movimento de manifestação na cidade de Blumenau repudiando a política de desmembramentos realizada pelos governos estadual e federal. Fonte: Arquivo Público Prof.Gelindo Sebastião Buzzi – Timbó – SC.

Entretanto, as camadas populares, incitadas pelas lideranças locais, também manifestaram apoio público contra os diversos desmembramentos na cidade de Blumenau. Ocorreram mobilizações contrárias à separação dos territórios de Gaspar, Hammonia, Indaial e Timbó. A mobilização de alguns segmentos da comunidade ficou conhecida como Movimento “Blumenau Unido”, mas seus esforços foram em vão. Em 1935, a imprensa blumenauense registrou que “o povo de Blumenau não teve grandes dificuldades [...] com referência aos interesses econômicos do município. Já os interesses políticos foram caracterizados por desilusões bem intensas que feriram, por fim, a homogeneidade do povo blumenauense [...]”(A CIDADE DE BLUMENAU, 1935). A suposta homogeneidade do município era alicerçada em justificativas de origem étnica, fator que contribuiu para a quebra dessa situação. Importante mencionar que Blumenau, entre 1934 e 1938, “[...] perdeu cerca de 90% de sua área, limitando-se a 1.160 Km2”,(PETRY; FERREIRA; WEISS, 2000:170) o que, invariavelmente, também ocasionou uma grande perda de eleitores, reduzindo seu poder de decisão frente ao estado.

MUNICIPALIZAÇÃO DE TIMBÓ Dentro deste contexto intervencionista da política nacionalizadora de Vargas ocorre a criação do município de Timbó viabilizada no governo de Aristiliano Ramos, através do Decreto Nº. 527, datado de 28 de fevereiro de 1934. Importante ressaltar que o texto introdutório do Decreto Nº. 527 pretendeu retirar a conotação política do ato, pois Aristiliano Ramos evidencia que a municipalização de Timbó é primeiramente fruto do apelo popular dos distritos, de Benedito-Timbó, Encruzilhada, Benedito Novo e Rodeio. Em seguida, enfatiza a densidade de sua população e a grandeza de seus territórios; e, por fim, o desenvolvimento econômico conquistado pelos distritos, assim como a possibilidade de suas rendas serem aplicadas exclusivamente em seu próprio território, possibilitando “[...] um mais rápido desenvolvimento do seu progresso”.(GOVERNO DO ESTADO DE SANTA CATARINA, 1934) Desta forma o novo município de Timbó passou a ter quatro distritos: Benedito-Timbó, considerado o distrito Sede; Encruzilhada, região de Rio dos Cedros; Benedito Novo e Rodeio. Conforme extrato do decreto que segue a baixo: Art. 1º - Fica elevado à categoria de município, com a denominação TIMBO, o território que compreende os distritos de BENEDITO TIMBÓ, ENCRUZILHADA [Ri o dos Cedros], BENEDITO NOVO e RODEIO, desmembrando do município de Blumenau [...] Art. 2º - A sede do novo município será o atual povoado de BENEDITO TIMBÓ, que é elevado à categoria de vila com a denominação de Timbó. Art. 3º - Fica designado o dia 25 de março vindouro para se proceder a instalação desse município. Art. 4º - Revogam-se as disposições em contrário.

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A instalação do município ocorreu apenas no dia 25 de março do mesmo ano. A Superintendência Municipal de Timbó foi instalada na mesma sede do antigo distrito e seus dois primeiros intendentes nomeados pelo interventor Aristiliano Ramos. O primeiro a ocupar a administração municipal, Capitão Ernesto João Nunes, ficou à frente do município até fins de 1934, e sua principal atuação foi na organização dos serviços municipais após sua instalação. O segundo intendente, Tenente Alberto Mayer, permaneceu no cargo até 1935 (BUZZI, 1969: 64). O novo município que antes era distrito da cidade Blumenau ficou com a seguinte configuração geográfica de acordo com o decreto:

AO NORTE pela Serra do Mar A LESTE – da Serra do Mar, seguindo o divisor das águas entre o Rio dos Cedros e texto, até a mais alta cabeceira do Rio Kellermann AO SUL – Da mais alta cabeceira do Rio Kellermann, seguindo os atuais limites entre Indaial e Benedito-Timbó até a cabeceira do Ribeirão Diamante e por este abaixo até a foz, no rio Itajaí açu. Por este acima até o atual divisor entre os distritos de Ascurra e Rodeio e por este divisor atual até as cabeceiras do Rio Bendito e deste ponto pelo divisor das águas até a nascente do Rio dos Cedros.

A OESTE Pela Serra do Mar O novo município de Timbó, recém elevado à categoria de Município, apresentava um território maior do que compreende atualmente, ou seja, cidades como Rodeio, Rio dos Cedros, Benedito Novo, pertenciam ao munícipio de Timbó. Contudo, o município de Timbó rapidamente perderia partes de seu território, a exemplo de Rodeio que foi elevado a categoria de município visto que o Governo de Estado sofreu uma dura derrota eleitoral em 1936, quando o partido integralista derrotou o partido liberal que era ligado ao Governo estadual durante o governo provisório de Getúlio Vargas. Portanto, uma história de lutas políticas, disputas acirradas se revelam no aniversário da cidade, mas que passa invisível pelo calendário de festas da cidade que optou por comemorar com mais pompa o mito fundador e um conjunto de construções históricas forçadas, quando, na verdade, possui um história rica sobre a criação da cidade. Parabéns a Timbó e timboenses pela passagem de mais um ano e por sua rica história! por Daniel Koepsel – Historiador

Referências Bibliográficas: A CIDADE DE BLUMENAU, 28/12/1935. Acervo: Arquivo Histórico José Ferreira da Silva. Blumenau/SC. _________, 03/02/1934. Acervo: Arquivo Histórico José Ferreira da Silva. Blumenau/SC. _________, 21/02/1934. Acervo: Arquivo Histórico José Ferreira da Silva. Blumenau/SC. BUZZI, Gelindo Sebastião. Centenário de Timbó: a pérola do vale: 1869– 1969. Blumenau: Gráfica 43 S.A., 1969. FAUSTO, Bóris. História concisa do Brasil. São Paulo: EDUSP: Imprensa Oficial do Estado, 2001. FROTSCHER, Méri. Da celebração da etnicidade teuto-brasileira à afirmação da brasilidade: Ações e discursos das elites locais na esfera pública de Blumenau (1929-1950). 2003. 269 f. Tese (Doutorado em História Cultural) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. GOVERNOS DE SANTA CATARINA. Decreto de No. 527, de 28 de fevereiro de 1934. Acervo: Arquivo Publico Professor Gelindo Sebastião Buzzi. Timbó/SC

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O Grupo do Facebook as Casas da Minha Cidade foi criado em setembro do ano passado, para as pessoas postarem fotos de casas e construções que chamam a atenção pela sua beleza arquitetônica. Não necessariamente ficam localizadas na cidade de quem publica. O nome foi dado para que elas sejam valorizadas dentro do Município em que se situam e também para enfatizar a responsabilidade do mesmo na preservação destas. São as casas da nossa região que ganham o enfoque, mas já foram postadas fotos de outros estados e até de outros países. O objetivo é justamente divulgar e mostrar essas construções mais antigas e que, em alguns casos, estão ameaçadas, seja pela falta de dinheiro para a sua manutenção ou mesmo pelo setor imobiliário, que vê nestes terrenos lugares perfeitos para a construção de novos prédios. A importância do Grupo vai além de mostrar fotos de casas bonitas, é uma forma de catalogar e, assim, demonstrar a importância pela relevância arquitetônica e histórica dessas construções. Nas próximas edições da VALEU, vamos contar um pouco da história dessas casas, quando foram construídas, quem as construiu e a história de seus moradores, mostrando detalhes de sua arquitetura.

As casas da minha cidade 1

por Clara Weiss Roncalio

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1– Rodeio – foto: Josimar Tais; 2 – Indaial – Capela Nossa Senhora do Perpétuo Socorro – foto: Britta Germer de Paiva; 3 – Timbó – Museu da Música – foto: Ana Claudino dos Santos; 4 – Indaial – foto: Iraci Schwartz; 5 – Ascurra – foto: Iraci Rautenberg; 6 – Rodeio – foto: Michele Ferretti; 7 – Benedito Novo – foto: Josi Curth, 8 – Benedito Novo – foto: Mara Francine da Silva.

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Comprei, o rótulo era bonito Não é de hoje que eu e você já fizemos isso alguma vez na vida. É muito comum, mas não correto, escolhermos comida, livros, roupas, carros e por ai vai pelo o que aparenta ser. Vinhos e bebidas em geral não ficam fora dessa lista. Muitas são as pessoas que compram vinho pelo rótulo e o formato da garrafa, sem sequer pensar se ele lhe agradará. Muitas vezes, pode até dar certo esse tipo de escolha, mas garanto a você que não é a forma mais segura de comprar alguma coisa, em especial, vinhos. Não é de agora que rótulos são manipulados com selos e medalhas de premiações que tão pouco importa para dizer se o vinho é bom ou merecedor de tal colocação. É normal que cada país crie uma forma de deixar sua produção “verdadeiramente” original, para poder se destacar e criar certa confiabilidade no seu produto e seus produtores. Grande é a quantidade de pessoas que já sabem e se decepcionaram com a entrada da China na Europa, comprando vinhedos e “château” na França, por exemplo. Não se preocupando em manter suas qualidades, mas sim, aumentar sua produção e lucratividade em cima de séculos de trabalho duro. “Isso não é uma critica é uma pena”. A cada dia que passa, percebo mais e mais vinhos “simples” com seus rótulos cheios de medalhas e prêmios que comparados a grandes vinhos com seus rótulos cada vez mais “clean” os deixam com um ar de forçado. É de nosso interesse saber o que levar para nossa adega ou degustar no dia-a-dia sem ser lesado pela falta de profissionalismo de certos produtores e importadoras. Devemos buscar por produtos e produtores que confiamos. Quando vamos abrir nosso paladar a novos sabores, devemos buscar informações dos mesmos para ter uma idéia se aquele produto corresponde a normas previstas em lei de cada país e, o mais importante, ao nosso paladar. Os vinhos aqui do Brasil têm tido um grande destaque em sua produção e sabores. Temos avançado muito em nossa busca por vinhos cada vez mais redondos. Claro que temos ainda um longo caminho pela frente, mas a tecnologia tem estado ao nosso lado para cada dia criarmos micro climas mais favoráveis a produções mais valorizadas para degustadores de diversos conhecimentos e anseios. Ainda assim, temos vários preconceitos pela frente para superarmos. Fico triste quando vejo clientes que preferem comprar vinhos importados, pois dizem que nossos vinhos não são dignos. Verdade seja dita que muito temos avançado e somos muito reconhecidos lá fora, sendo que aqui muitos produtores são desmerecidos pelo preconceito e falta de conhecimento de quem compra. Levando

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“degusta dores” a serem iludidos por rótulos desconhecidos e pagarem três ou quatro X mais por vinhos que têm a mesma propriedade organoléptica dos vinhos nacionais. Já presenciei vários casos de pessoas que compraram caixas de lebres e tomaram gato. Como em todos os ramos de produtos, o mundo do vinho não fica fora de decepções pela embalagem. E pra complicar mais ainda, temos os rótulos falsificados de várias bebidas. Revendedores de má fé que iludem seus clientes com produtos falsos como seu caráter. São várias as casas especializadas em bebidas que, para burlar o imposto cobrado, acabam caindo na tentação de revender produtos de baixa qualidade com rostinho de beldades para conseguir preço e rotatividade. Desconfie de um lugar quando a cotação de preço for muito abaixo dos outros lugares pesquisados. Quando sua embalagem estiver violada e faltando o selo que é obrigatório. Busque por produtos de origem confiável e de importadoras, lojas, adegas que você conheça. Olhe sempre selos numerados e registrados pelo órgão regulador do país. Isso ajuda em diversos aspectos as pessoas que trabalham para fazer chegar até você o produto que fabricaram com muito trabalho e suor. E deixe de ser bobo e ficar apenas olhando o “desenho” do rótulo e busque conhecer mais, pois quanto mais você souber, menos enganado por aparências e vendedores você será. A dificuldade de conseguir encontrar vinhos mais acessíveis devido à grande carga de impostos que estamos enfrentando, torna a busca um pouco mais difícil, mas nunca menos prazerosa. Abraço. por Tiago Minusculi


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Saca-Rolhas, Chave do Paraíso A Chave, talvez ainda mais do que o Saca-rolhas, é um objecto tão familiar para a maioria da humanidade, que muitos de nós só lhe damos o devido valor, quando a perdemos ou ela se danifica e ficamos impedidos de abrir uma qual quer fechadura, seja ela da nossa casa, carro ou até de um simples armário… Todavia, se pensarmos um pouco, certamente nos recordaremos também que este simples objecto está repleto de uma profunda carga simbólica. Por esse motivo é frequente vermos a chave em imensas representações, por exemplo em pinturas e desenhos, em símbolos de Vilas e Cidades (Heráldica municipal), e até na publicidade; Quem nunca viu publicidades em que se afirma que certa empresa ou produto, é a chave para o nosso sucesso ou até mesmo da nossa felicidade? Pois bem, para nós, aqui no Museu do Saca-rolhas, a Chave também é um objecto da nossa Paixão! E porquê? Pela simples razão de que, entre os saca-rolhas figurativos, existem inúmeros destes utensílios vínicos, que exteriormente apresentam a forma de uma chave. Mas recuemos até ao passado, para tentar “desvendar” um pouco desta História… Enquanto objecto, a Chave, é extremamente antiga. E como todos sabemos, este objecto, só faz sentido quando se destina a abrir algo, seja ele uma fechadura ou um cadeado. Sem pretender entrar em muitos detalhes, enquanto a maior parte da Humanidade era nómada, ela só era útil para primitivos cadeados, que se destinariam a fechar arcas onde se guardava algo precioso; mas à medida que a Humanidade se foi tornando sedentária, e surgiram as primeiras grandes Civilizações, ela ganhou especial importância, pois passou a destinar-se também a portas de edifícios. A confirmar esta tese, a fechadura dotada de Chave mais antiga que se conhece, foi descoberta nas ruinas da Cidade de Nínive, capital da antiga Assíria. Mas seria no antigo Egipto que estas antigas fechaduras e chaves em madeira, terão sido aperfeiçoadas. Recordamos aos nossos leitores mais fiéis, que também terão sido os antigos Egípcios, os primeiros a fabricar pequenos frascos /garrafas de vidro, rolhados com cortiça; E que estes, é muito provável que também necessitassem de uma

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“chave” para serem abertos, ou seja de um “saca-rolhas”, no sentido mais lato da palavra. Segundo o Historiador Romano Plínio, o Velho, o verdadeiro inventor da fechadura e da chave, terá sido inventor, escultor e arquitecto Grego, Teodoro de Samos, no século VI antes de Cristo. Seja como for, a verdade é que muitos séculos mais tarde, este objecto se tornaria um importante elemento simbólico para o catolicismo, religião na qual o Vinho também desempenha um papel altamente emblemático. Como todos sabemos, a chave é o símbolo de São Pedro, o Homem a quem Jesus Cristo concedeu o poder para abrir e fechar as portas do Céu. Daí que a chave seja também o símbolo do sucessor de Pedro, o Papa.


Mas, para além de um atributo de São Pedro, a chave também consta da representação simbólica de muitos outros santos Cristãos, como seja o caso do Rei São Fernando, São Ricardo, Santo Humberto, São Raimundo de Penhaforte, Santa Marta, ou de Santa Zita. Porém além do seu significado religioso, a chave também é um símbolo extremamente importante. Por isso, ainda hoje, numa época em que nenhuma cidade necessita de muralhas para se proteger, o símbolo mais importante que um Presidente de Câmara de uma Cidade pode oferecer a alguém, são as “Chaves da Cidade”! Indo buscar a sugestão para a sua existência, seja nas chaves de São Pedro, as que abrem as portas do paraíso, seja nas chaves das muralhas de uma qualquer cidade, a verdade é que a “Chave” ainda hoje permanece como um dos temas figurativos mais retratados no Universo dos Saca-Rolhas. São geralmente de uma qualquer liga metálica, seja ela latão, bronze, zamac ou alumínio… Todavia também existem em madeira e até mesmo em plástico! Exteriormente, a maior parte deles, em pouco ou nada se distinguem do tipo de chaves de porta, mais usuais no século XIX e início do século XX. Mas quando se puxa ou, nalguns casos, quando se desatarraxa, o punho, da parte central da mesma, destapa-se a preciosa espiral destinada a desarolhar garrafas de vinho. Alguns modelos possuem também no interior da argola do punho, saliências destinadas a abrir “caricas” (Tampa circular, metálica e sem rosca, de garrafas de cerveja ou de refrigerantes; Equivalente no português do Brasil: chapinha). Se em matéria de funcionamento, as chaves-saca-rolhas, por serem do tipo “extracção directa”, exigem uma certa força e destreza por parte de quem vai abrir a garrafa, a verdade é que em matéria de coleccionismos e de estética, são sempre peças apreciadas. Foram fabricadas nos quatro cantos do mundo, ao longo de todo o século XX, e muitas delas são ainda produzidas em pequenas oficinas ou unidades de pequena industria, frequentemente sem qualquer tipo de marca de fabrico ou de identificação; Pior ainda, no que aos coleccionadores diz respeito, é o facto de, por exemplo, um modelo inicialmente fabricado na Alemanha, ter sido copiado e fabricado também por fabriquetas na Polónia ou….quem sabe, até em Portugal ou no Brasil! Por isso são, regra geral, de difícil identificação e catalogação.

Conjunto de Saca-rolhas Chave: Nenhum deles apresenta o nome ou marca do respectivo fabricante, mas o primeiro (a contar da esquerda), tem inscrito o número 22 nas duas partes ; o segundo, de inferior qualidade, é um saca-rolhas promocional de um conhecido fabricante de Cervejas. O 3º, de maiores dimensões, para além de ter a particularidade de ter inscrito o número 8 no topo de espiral, era inicialmente cromado. E finalmente, o 3º, possivelmente fabricado em Portugal, tem a originalidade de, o corpo da chave, ser levado na boca de uma estatueta de um cão.

por Lopo de Castilho

Falando em Portugal, não poderíamos deixar de mencionar um dos principais fabricantes Lusos de saca-rolhas decorativos, que também teve chaves-saca-rolhas no seu catálogo, a BARBEITOS, de Lisboa. O tipo mais raro destes saca-rolhas, são aqueles que efectivamente desempenham duas funções, isto é, que como chave, servem efectivamente para abrir uma fechadura, e no seu interior dispõem de uma espiral que também lhes permite “abrir” o mais precioso dos recipientes: uma garrafa de vinho! É com uma chave destas, que brevemente, esperamos vir a inaugurar oficialmente o edifício do Museu do Saca-rolhas, mas esta é uma história que ficará para um próximo artigo.

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Quinta de lemos

Por amor às origens.

A imponência majestática da Serra da Estrela ao fundo, tingindo de negro um irrepreensível azul celeste que domina todo o horizonte, é o que nos prende a atenção. Dos prédios incaracterísticos que vão ladeando os primeiros quilómetros da Estrada Nacional 231, que liga Viseu a Nelas e que em breve darão lugar a pequenas vinhas cuidadas, não ficará senão uma brevíssima lembrança. É a Serra que olharemos quase até virarmos à direita em direcção a Silgueiros, mesmo quando escondida pelas cúpulas de velhos pinheiros ou de ancestrais oliveiras que dominam a paisagem. Depois, como por magia, as vinhas começam a atrair a nossa atenção, intercaladas por velhos casarios de granito e por imponentes moradias, mescla de arquitectura centro-europeia e da fértil imaginação edificadora dos seus proprietários. Vinhas novas, na sua maioria, a avaliar pelo compasso em que foram plantados os bacelos, permitindo o uso dos tractores no auxílio das tarefas agrícolas. Vinhas irrepreensivelmente tratadas, bem podadas, um mimo para a vista. Vinhas tão novas como os enólogos que delas cuidam e que se têm empenhado nas últimas décadas em recuperar para o vinho do Dão, nestas margens ensolaradas do rio a que roubou o nome, o prestígio e, sobretudo, a qualidade de outros tempos. É uma dessas novas vinhas do Dão que vamos visitar cruzadas as estreitas ruas de Passos de Silgueiros, pequena aldeia beirã, riquíssima na tradição etnográfica da região, em direcção à Quinta de Lemos, sonho tornado realidade pelo espírito empreendedor de Celso de Lemos, filho da região, cedo emigrado para a Bélgica de onde, após os estudos em engenharia química e quase duas décadas de trabalho na área do têxtil, regressou para fundar a Abyss & Habidecor, a empresa têxtil nacional que, segundo o Wall Street Journal, fabrica as melhores toalhas do mundo, utilizadas por Barack Obama, por Putin e pelos clientes dos exclusivos hotéis Burj Al Arab, no Dubai e Grand Hyatt, em Hong Kong. Chegamos à Quinta de Lemos com o Sol quase a pôr-se no horizonte, iluminando de encarnado as videiras despidas de cor, como que em repouso para um novo ciclo que em breve despontará. Subimos a pequena estrada de terra batida, rodeada de vinhedos, em direcção ao restaurante que domina a encosta e onde nos espera uma conversa à volta da cozinha portuguesa com o novíssimo Chef Diogo Rocha, a quem Celso de Lemos confiou a tarefa de fazer da Mesa de Lemos um dos melhores restaurantes de Portugal.

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Diogo Rocha tem ar de chef de cuisine. Olha-nos ao longe, sentado a uma enorme mesa com a sua equipa, pedindo um momento para que nos possa dar atenção. - Este edifício nunca foi pensado para ser um restaurante. É preciso ter esta noção. O objectivo deste projecto era conceber um espaço digno para receber os clientes mundiais da Abyss & Habidecor e obviamente dar apoio a alguns clientes da Quinta de Lemos. Isto nas devidas proporções, levando em consideração que a Abyss & Habidecor tem 35 anos de história e cerca de mil e muitos clientes no mundo inteiro e a Quinta de Lemos é bastante recente. Mas, a ideia inicial foi essa. Por um lado, criar um espaço na região que correspondesse às exigências dos clientes da Abyss & Habidecor e por outro, como estamos a falar de um produto têxtil de elevada qualidade, que permitisse o contacto directo, táctil com o produto. Daí tudo ter sido inicialmente pensado numa escala reduzida, que permitisse a quem viesse visitar-nos, ter a sensação de estar em casa. Uma casa rodeada de vinhedos. – Diogo entreabrindo um sorriso, ao mesmo tempo que aponta para paisagem escurecida pelo fim de tarde. - Com três quartos, uma cozinha aberta, dimensionada para cerca de 10, 12 clientes. – Meu Deus, se eu soubesse… - Diogo largando uma pequena gargalhada de mea culpa. – e uma pequena piscina. Tudo bem acolhedor. - Em que fase do projecto é que entras? - Eu assumi, mais ou menos, na fase da abertura da cozinha, como uma espécie de consultor. Começámos a organizar uns jantares para o Celso, – referindo-se ao proprietário - para a equipe e para a Abyss & Habidecor. Experiências pontuais. Um dia o Celso disse que teríamos de tornar estes eventos em algo de mais permanente. Eu estava metido em outros projectos, na época, e nem sempre conseguia conciliar datas com as pretendidas por ele. Passava a ser uma exigência a tempo inteiro e nós impusemos uma condição. Projectarmos a abertura do restaurante ao público. - Nós, quem? - A minha equipa. - Apresenta-nos a tua equipa. - Também ela foi crescendo com o tempo e com as exigências óbvias a cada fase do projecto, mas hoje, ao meu lado, tenho a Subchefe Inês Beja, o Beto, que é o nosso pasteleiro e o Hélder que é o cozinheiro de 1ª. Na sala tenho o escanção, que é o Rui Madeira, a Raquel como Relações Públicas, o João, como Chefe de Sala e a Mariana e o Nuno. No início era só eu. Fui a primeira pessoa a chegar e andei por aqui sozinho durante mais ou menos meio ano fazendo, essencialmente, pesquisa de produtos.

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a ousadia de ser português


O homem põe tanto do seu carácter e da sua individualidade nas invenções da cozinha, como nas da arte. Eça de Queiroz

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Porque a premissa base do nosso conceito era termos apenas produtos portugueses. Ora, isto levantava um problema. Se os nossos têxteis eram considerados uns dos melhores do mundo, a bitola estava lá em cima, logo, pelo menos as nossas matérias-primas teriam de ser das melhores do mundo. Isto é um desafio muito, muito exigente. E permanente. - Alguns desses produtos são regionais? - Inicialmente a ideia era usarmos produtos exclusivamente regionais. Porém, isso revelou-se inviável. A começar pelo peixe, não é? – Pergunta retoricamente entre risos. – Por isso a nossa opção é de começarmos pela selecção dos produtos regionais e quando isso não é possível, alargamos a busca até ao limite das fronteiras de Portugal. Com excepção para o chocolate. E mesmo assim, teimosamente, durante o primeiro ano, não tivemos uma única sobremesa com chocolate, mas acabou por ser inevitável. Acabámos por ceder e hoje trabalhamos só com chocolate de São Tomé, pelas óbvias ligações a Portugal. - Depois desse primeiro meio ano de “solidão”, – risos - como se foi desenvolvendo o conceito Mesa de Lemos? - Verdade! Meio ano de solidão. – Retoma Diogo com um sorriso saudoso no rosto. – Percorrendo o país de carro. O que, aliás, continuo fazendo. Ainda no outro dia fui a Rabaçal. Chego a Rabaçal e digo assim: estou na vossa terra, quero queijo. Fui ao café e o senhor tinha por lá queijo para vender. Eu disse-lhe que ia à procura de queijo e ele, automaticamente, respondeu – Eu vendo. – Mas eu queria ir mesmo ao produtor. E estabelece-se aquela meia conversa do tipo, pois o produtor, isso é difícil e tal. Até que eu lhe expliquei que era cozinheiro e que queria perceber onde o queijo era feito, como e por quem. Então ele entendeu e disse-me: Vá à casa tal, bate à porta e diga que vai da parte do Nuno do café e peça para falar com o Sr. Engenheiro. Lá fui e consegui. Isto para explicar como este tipo de pesquisa é complicada. - Isto tem muito a ver com uma coisa importante que decidimos desde o início, de que não vamos ser mentirosos. O que quero dizer com isto? Que existe um cliché de que os cozinheiros vão ao mercado todos os dias. Mentira. - Quando muito o mercado vem a vocês diariamente. – Risos. - Exactamente! Ora nós, se dizemos que vamos ao mercado, vamos mesmo ao mercado e se dizemos que vamos ao produtor, vamos mesmo ao produtor. Não temos um único fornecedor de grande escala. Todos os nossos produtos são comprados directamente ao produtor e alguns no mercado tradicional. - Essa opção foi difícil, no sentido em que implica um grande número de pequenos fornecedores, nem sempre regulares e constantes no fornecimento?

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- Não só foi, como ainda é difícil! Por exemplo, há dias precisei de leite de ovelha, mas só precisava de litro e meio. Tive de ir eu buscar ao produtor. Hoje, por acaso, recebemos cinco quilos de cogumelos pé-de-carneiro. No início, como é natural, fomos bombardeados de propostas de diversos produtores e o produto que mais nos foi oferecido foi o cogumelo shitake. Os produtores de shitake saíam daqui todos desanimados porque eu lhes dizia que era um produto que não era autóctone e por isso não nos interessava. Este produtor de pés-de-carneiro apareceu-me há mais de um ano e aconteceu o mesmo. Agora ligou-me, porque passou a ter produto que sabe que nos interessa. Durante muito, muito tempo, não tive um prato de porco na carta, porque não encontrei uma carne de porco verdadeiramente excepcional. Hoje, e isso pode parecer estranho, porque estamos abertos há um ano e meio, fizemos ao jantar, quando vocês chegaram estávamos a acabar, uma prova de cabrito. Para a região isto pode parecer um escândalo! Mas ainda não tínhamos encontrado o perfil do cabrito que nos satisfazia plenamente. A nível dos peixes, compramos directamente à lota de Peniche. Antigamente, antes de estar aqui, estava habituado a pedir um determinado peixe porque tinha na carta e se o meu fornecedor habitual não tinha, teria de conseguir com outro. Agora não. Se a lota não tem, nós também não temos. É como os produtos fora da época. Não temos. - Nós é que somos tão gulosos que queremos comer todos os produtos sempre que nos apetece. E não tem graça nenhuma, porque nos desiludimos. - É bem isso. O tomate é um excelente exemplo. Nós aqui temos uma pequena horta que eu digo que é uma horta de sinal, porque a nossa produção é muito pequenina e embora o restaurante pareça pequeno, esta semana, por exemplo, já servimos mais de 60 clientes. - Esclarece-nos uma coisa, o restaurante está aberto ao público? - Só sextas e sábados ao jantar. Depois da fase da pesquisa, quando decidi dedicar-me exclusivamente à Mesa de Lemos, tinha deixado claro que essa opção só faria sentido se o restaurante passasse a abrir ao público. Assim foi. Com um objectivo muito claro: sermos um dos melhores restaurantes de Portugal. – Assume, endireitando-se na poltrona, como que ganhando consciência do peso da responsabilidade do que acaba de afirmar. – E não temos qualquer problema em dizer isto, porque acreditamos no nosso trabalho e acreditamos na nossa equipa. Acho que às vezes, em Portugal, temos medo de dizer que somos bons, nós sabemos que ainda não somos bons, mas sabemos que temos potencial. - Foi assim que abriu o restaurante, depois de muitos testes, muita pesquisa e encontrando o equilíbrio


entre o conceito pretendido pelos proprietários e as nossas próprias ideias sobre o que conceptualizamos para este espaço. Baptizei-o de Mesa de Lemos, para fugir ao nome Quinta, que na região estava muito conotado a espaço de eventos, festas, casamentos e inspirando-me na mesa do chefe, aquela além, onde estávamos a jantar. – Diogo apontando para uma enorme mesa localizada junto à cozinha. – A mesa pensada para os tais doze clientes. - Então, em Abril, Maio, abrimos ao público. Melhor, fomos abrindo a porta. Abrimos sem dizer que estávamos abertos. Sextas e sábados ao jantar. Possivelmente este ano, vamos fazer alguma alteração. Estamos a pensar abrir para mais algumas refeições, mas ainda estamos a estudar quais. - Domingo ao almoço? - Não. O almoço de Domingo é um almoço de conforto, familiar de grande partilha. Cabrito assado, vitela de Lafões na púcara de barro. Comidas bem tradicionais que nos fazem prolongar o almoço, ficarmos à mesa. Para algo assim, teria de modificar o conceito. - E qual é esse conceito? - É cozinha portuguesa inspirada em cozinha tradicional. Isto porquê? Como eu sou um tipo muito novo, permito-me lançar algumas farpas, por isso aqui vai: a maioria dos restaurantes que se dizem de cozinha tradicional portuguesa, infelizmente, cozinham com carne da Argentina ou de Espanha, legumes de África do Sul, uma coisa impressionante, no outro dia apercebi-me que estamos a ser bombardeados por fruta sul-africana, o que é surreal! Laranja da África do Sul em Portugal? Há aqui qualquer coisa que está mal! Então, se há alguém que pode dizer que faz cozinha portuguesa somos nós, porque nós apenas usamos produtos portugueses. A nossa linha, até pelo perfil do têxtil a que estamos ligados e que se reflecte no próprio espaço, na construção, é minimalista, com linha simples, clean. É essa mensagem que queremos transmitir. Para entenderem, nós começamos o nosso menu com uma batata cozida, um ovo e uma cenoura. Começamos assim a contar a nossa história, explicando que aqueles três produtos, simplesmente cozidos, são a base da nossa cozinha. São dois produtos da terra e o ovo. Quase um momento simbólico, para que as pessoas entendam que estão num restaurante que, pelo menos, dá uma atenção diferente ao produto. - Três produtos que não são fáceis de encontrar, realmente bons. - Exactamente. No início, como eu já falei, o peixe foi um problema que eu percebi que tinha de resolver logo, para obter com uma qualidade irrepreensível, porque por maior boa vontade que as pessoas tenham em te fornecer o melhor, não é a mesma coisa. Mas isso, eu até percebo, já não percebo é porque é que não consigo encontrar bons grelos localmente. Têm de existir, por isso a minha obrigação é procurá-los. E apresentá-los com simplicidade. O que

pretendemos é ser geniais na simplicidade. Esse é o nosso desafio. - Um retorno à Maria de Lurdes Modesto? - De certa forma sim, porque fazemos uma cozinha inspirada na cozinha tradicional. Porquê? Porque são os sabores de que nós gostamos. Eu dou aos clientes aquilo que gosto de comer. Às vezes tenho de ouvir o cliente. Saber ouvir, porque posso gostar muito de algo que não agrade à maioria dos clientes. A nossa principal missão é cozinhar para os outros. Dar prazer aos outros, não é dar prazer ao meu ego. Isso não existe. Porque eu posso fazer um prato que acho o melhor do mundo, mas se as pessoas não gostarem, algo não está bem. Não é? - Eu dou muitas vezes este exemplo: de que serve ter um stand de Ferraris, se o pessoal só compra Fiats? - Ou só sabe andar de Fiat. - Exactamente. - Mas isso aconteceu muito em Portugal. As pessoas frequentarem os restaurantes dos grandes chefes de cozinha, elogiarem, mas efectivamente não gostarem. Ou dizerem que conheciam e nunca terem entrado. Não achas? - Eu conheço uma história engraçadíssima que ilustra bem isso, de um empresário que dizia que gostava imenso de ir ao meu restaurante e nunca lá entrou. – Risos. – E eu tive imensos clientes, amigos dele, que iam lá recomendados por ele. - Fez-te uma óptima propaganda, pelos vistos. - Sim, sim! – Entre risos. – Agora falando mais a sério, quando uma pessoa entra no meu restaurante vem à procura de uma experiência e é isso que temos de lhe proporcionar. Eu não posso defraudar a pessoa. A carta muda consoante a minha inspiração, infelizmente eu não sou capaz de criar todos os dias. Eu conto uma história diariamente, que será igual durante algum tempo, mas que vai mudando em função da minha inspiração. Por exemplo, se olharem para o restaurante, vocês pensam: estes tipos não têm o restaurante montado. Não há copos, nem pratos, nem talhares nas mesas. Quando o cliente chega é exactamente assim que o restaurante está. A tal filosofia de que falava antes. Tudo limpo, clean e de repente as coisas começam a aparecer. E o que aparece primeiro? Uma fogueira. É assim que lhe chamamos. É um cepo a que ateamos fogo, ao mesmo tempo que entregamos ao cliente uma infusão de alecrim com mel e uma toalha embebida na mesma infusão de alecrim. Esse cepo a arder representa as nossas lareiras e fogueiras do interior. Acolhedoras, reconfortantes. A partir daí começamos a contar a nossa história. Vem a batata, a cenoura e o ovo. A simplicidade da nossa cozinha. Mas, como dizia, a batata tem

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Diogo ĂŠ um conversador nato, por isso a conversa vai decorrendo sem grandes regras e, felizmente, sem tempo, regada por um excelente espumante branco do DĂŁo.

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de ser muito boa, a cenoura exemplar, o ovo perfeito e o fio de azeite que corre absolutamente divino. Lá está, o produto tem de ser óptimo, o segredo é não estragá-lo muito. – Diogo entreabrindo um sorriso a que correspondemos, em sinal de compreensão. - E a história continua até terminar com uma cepa de videira, onde vêm os petit fours que acompanham o café. - Depreendemos que essa história de que falas decorra durante um menu degustação. - Exactamente. Nós só temos um menu degustação que pode ser mais ou menos extenso. O mais completo é composto por 11 momentos, incluindo snacks e sobremesas e o mais curto 7 momentos. Todos os pratos têm um guião. E qual é esse guião? É a história do que está a ser servido. - Dá-nos um exemplo. - De um guião? Por exemplo, da carne. Quando a carne é servida, o chefe de sala só não informa o nome do novilho, por que de resto passa todas as informações. Neste momento estamos a trabalhar com novilhos de 198 meses, de uma raça que resulta do cruzamento entre charolesa e alentejana, resultando numa carne com um sabor mais intenso, o que achamos preferível, com 28 dias de maturação na carcaça e come apenas erva e cereais. Vem de Idanha-a-Nova, na Beira Interior. O que nós acrescentamos a esta carne que é cozinhada durante uma hora a 45º para ficar mais macia (nem é bem cozinhar, porque a 45º a carne não cozinha, é apenas para que não aconteça o que é tão habitual quando coramos a carne de um lado e do outro, ficar fria no meio, ora esta hora de forno garante que isso não aconteça quando a coramos e que fique bem enxuta, não largando aquele sangue que não é agradável de ver no prato) é uma batata-doce e cebola de curtume que trago dos Açores, onde vou pelo menos uma vez por ano. E o prato fica completo: o salgado da carne, o doce da batata, o vinagre da cebola e o molho da carne, extraído durante 24 horas e finalizado em mais 4 ou 5 horas. Lá está a simplicidade, três ingredientes, cozinhados de forma simples, com sabores definidos e depois algo que eleve o prato, que neste caso é o molho da carne. Há pouco falávamos da Maria de Lurdes Modesto e isto é algo de que eu tenho uma noção bem clara, nós utilizamos técnicas clássicas. Eu sou apaixonado pela cozinha clássica e quero recuperar essas técnicas, que deixaram de ser usadas porque levavam muito tempo. Mas, nós temos esse tempo, para a confecção dos caldos, dos molhos e de tantas outras coisas. É o nosso DNA. O DNA da cozinha portuguesa, dos seus sabores, dos seus aromas, de que todos temos saudades. - Como é que essa recuperação das técnicas da cozinha clássica se reflecte na tua carta? Já percebemos que o conceito passa pela escolha criteriosa dos produtos, cozinhados de forma simples para realçar os

sabores e com um elemento congregador que permita o êxtase da experiência gastronómica. Mas, como encaixas a cozinha clássica nesta viagem que pretendes tão minimalista? - Esse é o desafio. Começamos com sabores muito suaves, depois fazemos uma provocação e descemos de novo, precisamente porque o momento que eu quero realçar de certa forma é o dos queijos, porque, entretanto, o cliente já fez o menu todo, com diversas experiências de sabor e quando chega ali, é necessário que ainda sejamos capazes de surpreender, numa espécie de grand finale. Daí a minha preocupação com os queijos portugueses. Neste momento estamos a trabalhar com um queijo velho de São Miguel, com o mínimo de 24 meses de cura, que é absolutamente extraordinário, não há ninguém que não adore. Bate qualquer Grana Padano. Isso é muito importante, surpreender com produtos nacionais. Não preciso de foie gras para mostrar que é possível fazer um menu degustação de alta qualidade. Estive agora em Nova Iorque no fim do ano, onde nunca tinha estado e naturalmente fiz um roteiro de restaurantes e o que aconteceu foi que os produtos que encontrei na maioria dos restaurantes são exactamente iguais aos que encontro em Paris, Londres, Bruxelas e isto não faz sentido. Em todos os restaurantes com estrelas – referindo-se às célebres estrelas do Guia Michelin – tens dois produtos inevitáveis: foie gras e vieiras. Gosto muito, mas meu Deus! Temos de usar os nossos produtos e ser capazes de surpreender com eles. Por exemplo nesta carta, um prato de que duvidámos, mas está a ser um sucesso, é composto de três ingredientes: tártaro de lavagante, filete de salmonete e o mais fora e que nos fez duvidar, fígado de tamboril. Nós costumamos brincar que é o nosso foie do mar. – Diogo exibindo um sorriso de orgulho. Diogo é um conversador nato, por isso a conversa vai decorrendo sem grandes regras e, felizmente, sem tempo, regada por um excelente espumante branco do Dão. - Hoje está aqui connosco o Márcio Baltazar que é o chefe de pastelaria do Ocean, que tem duas estrelas Michelin, – Diogo referindo-se ao restaurante de fine-dinning do Vila Vita Parc Resort & Spa, no Algarve e chefiado pelo austríaco Hans Neuner, eleito chef do ano em Portugal em 2009 e 2012. – e que vai estar a cozinhar connosco hoje e amanhã, confeccionando as sobremesas. O Márcio é muito como eu, gosta de sair à rua e ver o que existe que possa ser utilizado para valorizar o prato. Trabalhar com o que há. Aproveitar tudo. Voltando ao prato de que vos falei, se temos um óptimo tamboril, vamos aproveitar apenas o filete, se quando abrimos vemos um fígado maravilhoso que dá vontade de comer? Eu sei que aos cozinheiros dá sempre vontade de comer tudo. – Diogo soltando uma gargalhada sonora. – Mas, entendem? Vamos aproveitar. Este é que é o desafio da cozinha portuguesa: reinventarmos os nossos produtos.

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- A cozinha portuguesa nasceu assim, do reaproveitamento, da capacidade de criar com muito pouco ou quase nada. A gastronomia alentejana é bem o exemplo disso. Tudo se aproveitava e não estamos a falar apenas de restos, mas mesmo do aproveitamento integral dos produtos. Os talos de couve são um bom exemplo. - Isso mesmo! Eu tenho um prato em que apenas utilizo talos de couve, precisamente para obrigar as pessoas a sair da zona de conforto a que estão habituadas e a regressarem às origens. Introduzir algo que não seja só o puré ou o filetezinho. Um outro produto nosso que começa a sobressair é o bacalhau. O nosso bacalhau não é da Noruega, é da Islândia que tem, para mim, o melhor bacalhau do mundo. Se há produto que identifica Portugal é o bacalhau. Para terem uma ideia, uma vez fui fazer um festival ao Brasil, em que tinha de cozinhar durante uma semana, à zona de Recife, Petrolina e tinha desenvolvido as ementas para cada um dos dias, mas quando cheguei lá, só fiz bacalhau! Ai de mim que assim não tivesse sido. Matavam-me logo. É o produto português por excelência, por isso nós tínhamos de ter, aqui, um bacalhau que fosse de uma qualidade irrepreensível. – Estalando os dedos, como para reforçar a importância de ter um “bacalhau de estalo”. – Então, começámos a procura do produtor, não da grande escalada, porque sabemos que na grande escala o processo de secagem e a demolha foram alterados, até porque há mercados que preferem assim, mas nós não, nós queríamos um bacalhau que lembrasse o bacalhau de antigamente, que era um bacalhau gordo, amarelado, que abria em leque, mas mantendo a ligação, não desmanchando.

- Vamos começar a fazer. Por isso essa preocupação. Temos cerca de 2000 oliveiras… - Galega? - Sim, mas também Aberquina e Picoal, até porque queremos fazer o que já fazemos com os vinhos, ter as castas e os blends, porque é algo que em Portugal existe pouco. Em Roma vi uma oleoteca, onde se vendiam apenas produtos derivados do azeite, das diversas regiões produtoras de Itália, muito interessante. Algo que eu gostaria de ter aqui em Portugal, mas que sei que não iria vingar, porque nós temos alguma dificuldade em dar valor a estes produtos. Se pensarem, quantas pessoas são capazes de distinguir realmente um bom bacalhau? Quantas pessoas apreciam realmente um bom azeite? - Até há pouco tempo, o hábito de consumo era para azeites extraídos a quente, com muito tempo de tulha e até com algum ranço. Não se conheciam outros. Mas, isso mudou muito, não achas? - Sim, claro. Mas essa era a tradição. Não tem mal. Era o que existia. De facto as coisas, no azeite, no vinho, mudaram muito para melhor, mas há um produto em que estupidamente, se mudou para pior: é o vinagre. Os nossos vinagres, antigamente eram belíssimos, porquê? Porque havia tempo, o tempo que ele precisa para maturar, em boas pipas de vinho e aguardente, onde era esquecido para ser usado anos mais tarde. Hoje o vinagre que compramos é muito mau. É ácido ascórbico.

- Aqueles bacalhaus da Rua do Arsenal?

- Tirando o Moura Alves, que é muito bom.

- Isso mesmo. E foi isso que conseguimos encontrar. O nosso bacalhau é da Islândia, numa selecção feita exclusivamente para o nosso restaurante e com, pelo menos, dois anos de cura. Ficou perfeito. – Por brevíssimos momentos, fez-se um silêncio absoluto em todo o restaurante, como que em respeito por essa informação, que Diogo repete, reforçando a sua importância. – Perfeito. Até acabámos por fazer a brincadeira de comercializar, no fim do ano passado, para o El Corte Ingles e mercado tradicional cinco toneladas de bacalhau, mas com nove meses de cura. É a tal preocupação com o produto.

- O melhor do mundo. Por isso percebem que o desafio da Mesa de Lemos é escolher criteriosamente cada item e conjugá-los de forma harmoniosa. Eu não posso ter o trabalho de ir aos Açores escolher o queijo, ir a Itália aprender sobre azeites, ir à Islândia escolher o bacalhau, visitar o pasto onde o gado se alimenta e depois isto não resultar no que servimos, na experiência que pretendemos que o cliente viva.

- Bem trabalhado, acabam por comercializar quase todos os produtos. – Lançamos em jeito de desafio. - Sim, sim. – Diogo com um sorriso nos lábios. – Outro exemplo é o azeite. No final do ano fui a Itália, primeiro a Roma, porque tinha agendado uma prova com o melhor provador de azeites do mundo, que é italiano e está em Roma e com quem eu queria aprender algumas coisas e depois a Florença. - Desculpa interromper, mas vocês fazem

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azeita aqui na Quinta de Lemos?

- Conta-nos um bocadinho do teu percurso até chegares a este patamar de poderes viajar o mundo em busca das melhores influências e dos melhores produtos. - O meu percurso académico e profissional foi quase simultâneo. Fiz a escola em Coimbra, Licenciatura no Estoril e Mestrado no Politécnico da Guarda sobre gestão na área do turismo, mas a minha tese é sobre os produtos certificados da Serra da Estrela, que reduzi a um lácteo, o queijo, a uma carne, o borrego e a uma fruta, a maçã Bravo de Esmolfe. Obviamente o queijo foi o Serra de Estrela, mas com um projecto de o fazer em tamanho grande, porque se repararem, os grandes queijos são sempre grandes, em tamanho. Em todo o mundo, os bons queijos são todos


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grandes. O queijo da Serra é maravilhoso, mas para nós, porque passamos a fronteira e não o encontramos, então temos de encontrar formas de o divulgar. Quando é que o queijo dos Açores passou a vender, quando decidiram começar a vendê-lo às fatias. - Como o maravilhoso queijo picante da Beira Baixa. - Exactamente. Eu costumo dizer e sei que isso vai causar polémica, que nós gostamos do queijo da Serra de Estrela porque não gostamos de queijo. – Diogo entre risos. - Continuando o meu percurso, acabo por me cruzar com o Victor Sobral em 99 no Terreiro do Paço, Bela Vista, Encontros e, até acabar os meus estudos em 2007, estive sempre nesse registo. Fui fazendo alguns estágios no Vila Jóia, no Valle Flôr na época do Aimé – referindo-se ao Chef Aimé de Barroyer, francês casado com uma portuguesa, que fundou e dirigiu o restaurante do Hotel Pestana Palace, localizado em Lisboa, no antigo Palácio Vale Flôr, depois foi contratado para o mais antigo e célebre restaurante lisboeta, o Tavares Rico e hoje faz as delícias de quem procura o sol da Caparica, no seu informal, Rambóia, que abriu em parceria com Roger Branco, o empresário responsável pela Hamburgueria do Bairro. – Depois, com o fim do curso, acabei por ficar um ano no Hotel da Urgeiriça, porque estava perto de casa e porque ainda não desisti da região, é uma das minhas características – afirma com uma pitada de orgulho – seguindo-se a Dão Sul, na altura em que lançam o projecto do enoturismo da Quinta de Cabriz em Carregal do Sal, a Quinta do Encontro em Anadia e o Paço dos Cunhas em Santar, como chefe executivo do grupo, isto depois de ter montado as duas cozinhas e escolhido a equipa de cada uma, até surgir o convite do Celso e vir para aqui. Entretanto, desde 2009 que sou professor no Politécnico e como tenho uma grande paixão pela Feira do Vinho do Dão, organizo sempre uma brincadeira nessa altura, convidando algumas pessoas para cozinhar comigo, o ano passado convidei o então ministro Miguel Poiares Maduro, o actor Victor de Sousa e o Luís Abrantes, é um momento de descontracção, mas que ajuda a promover a região e a nossa gastronomia. Faço muita promoção, não só da Quinta de Lemos, mas da região. Para terem uma ideia, no ano de 2015 fiz 53 workshops ou show cookings, como lhes quiserem chamar. Deu uma média de um por semana. Em todo o país, de norte a sul. É uma coisa incrível para uma estrutura como a nossa. Fazemos isto, lá está, porque ainda acreditamos na região. Aqui só temos vinhos da Quinta de Lemos na carta e o espumante e o branco são do Dão. Nos outros produtos, como expliquei, não pudemos reduzir-nos à região, mas no vinho sim. À quinta e no caso do branco, como o branco que produzimos é muito amadeirado, à base de Encruzado e para alguns pratos eu preciso de um vinho mais fresco, com Malvasia, temos outra opção, mas também do Dão. - Há pouco disseste que, como és novo, podes dizer tudo, por isso vamos às provocações.

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Nas últimas décadas temos assistido a uma mudança na cozinha portuguesa, com o aparecimento de uma série de chefes conceituados que conquistaram uma notoriedade de quase pop stars. Isto foi positivo, ou acabou por se cair num conceito redutor de cópia do que é feito lá por fora? - É curiosa essa pergunta, porque eu acho que a cozinha portuguesa tem três grandes momentos: o primeiro é de facto com a Maria de Lurdes Modesto, o Chefe Silva e outros que apareceram na época e que fizeram a cozinha ganhar uma dimensão diferente, mais profissionalizada. Em França há duzentos ou trezentos anos que os Chef de Cuisine são pessoas importantes, reconhecidas, em Portugal nunca foram. Com essa geração passaram a ser reconhecidos. A Maria de Lurdes Modesto deu uma nova dimensão à cozinha portuguesa, preservando e muitas vezes recuperando tradições ancestrais da nossa culinária. Depois veio uma nova vaga, a geração do Victor Sobral, do Fausto, do Figueiredo e muitos outros, que elevaram a gastronomia a uma fasquia altíssima, porque foram eles que começaram a experimentar coisas. Abandonaram a cozinha tradicional e ousaram coisas novas. Entretanto apareceu a nouvelle cuisine, em 1980 e aí descambou. Havia gente a fazer experiências absolutamente malucas, que não tinham nada a ver, mas foi necessário fazê-las. - Foi esse corte radical que permitiu à tua geração olhar para a cozinha tradicional de uma outra forma? - Isso mesmo. Eles próprios, essa gente que se arriscou a fazer coisas absolutamente loucas, acabaram por regressar à cozinha tradicional. Depois então, apareceram novos chefs como o José Avillez, o Sá Pessoa, o João Rodrigues, entre muitos outros que estão num patamar de alta cozinha, a fazer um outro tipo de cozinha, que em Portugal não tem muito mercado, é preciso dizer isto. Tem algum mercado e é muito importante que exista, mas não tem muito mercado. Digo isto quando penso em mim ou no Miguel Laffan no Alentejo, quando penso no Paulo Matos no Six Senses Douro Valley, ou no Victor Adão que está a fazer um trabalho no Flôr de Sal em Mirandela, que são localizações que não são comuns. É o interior. - Vens de encontro a outra provocação que gostaríamos de te lançar. Uma coisa é encontrares restaurantes de referência no Algarve, em Lisboa, no Porto, outra é a proliferação de óptimos restaurantes em locais absolutamente inusitados, no meio desse interior desertificado de que falavas. A que se deve este, digamos, movimento? - À aposta de muito boa gente que ainda acredita nas potencialidades do resto país, sobretudo do interior. Muitos deles, senão a maioria, estrangeiros ou portugueses que viveram no estrangeiro e que anteciparam este novo movimento turístico que busca as


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raízes, o genuíno. Uma das coisas de que sinto mais orgulho e que me incentivou a aceitar este desafio, é o facto de este restaurante não estar em Lisboa nem no Porto. Deixa-me acrescentar uma coisa que está ligada com a pergunta anterior. Muitas pessoas perguntam-me a opinião sobre estes novos concursos de gastronomia da televisão e eu respondo sempre que acho fantástico. Nunca se falou tanto de boa comida. Além de que, com esses programas as pessoas perceberam melhor o trabalho que tudo isto dá e a exigência de muitos dos pratos que até então não valorizavam. É que uma coisa é cozinhar para amigos, em casa, outra é estar à frente da cozinha de um restaurante. Vejam o meu exemplo: a primeira vez que fiquei responsável por uma cozinha tinha 17 anos e com 24 estava a coordenar um grupo com 3 cozinhas, mas isso só foi possível porque com 5, 6 anos já sabia o que queria fazer. Na altura a minha mãe pensou: isto, coitado, passa-lhe. - Ainda bem que não passou. - Depois viu-me ir para Coimbra estudar para cozinheiro e licenciar-me no Estoril, pensando que eu ia ser um desgraçado, porque só ia para a cozinha quem não sabia fazer mais nada. - Até na tropa era assim. – Risos - Verdade, verdade. Estes programas ajudaram a mudar isso. Até na telefonia. Ontem, no carro, fiz um zapping pelas rádios e parou na Renascença e estava uma senhora qualquer a dar uma receita de costeletas de cebolada. Eu perguntei-me, costeletas de cebolada numa rádio nacional? Mas faz sentido. As pessoas dão as receitas daquilo que comem no dia-a-dia e mais uma vez fala-se de gastronomia. Diogo bate as mãos como que aplaudindo. – Isso é importante. Às cinco e meia da tarde, alguém falou de gastronomia numa rádio nacional. - Qual é a tua expectativa para os próximos anos do Mesa de Lemos? - Como já disse é sermos um dos melhores restaurantes nacionais. Um dos restaurantes de referência de Portugal. - Mantendo este perfil meio exclusivo, abrindo poucos dias e muito focado em grupos fechados? - Isso não é bem assim, aconteceu numa determinada fase, que era de descoberta, de selecção, de experimentação. Até porque quem conhece o Celso e a sua família, sabe que não são nada dados a essa exclusividade. São muito de coração, muito de terra, muito de ligação às pessoas. Neste exacto momento João, o chefe de sala, apresenta-nos um especialíssimo queijo de São Miguel acompanhado de uma regueifa. Não é à toa que

Diogo viaja todos os anos para os Açores. Desta sua paixão pelas vulcânicas ilhas do Atlântico, resultou a descoberta do mais perfeito queijo de São Miguel que alguma vez provámos. Uma textura perfeita, consistente, derretendo lentamente na boca e um sabor único, fruto dos 24 meses de cura, que lhe conferem uma intensidade ideal. O acompanhamento com a regueifa resulta na perfeição, pois o adocicado deste pão entrançado de origem marroquina e popularizado no norte do país, atenuam a intensidade da cura deste queijo açoriano, motivo suficiente para uma visita ao Mesa de Lemos. Diogo continua a conversa, encantado com o nosso deleite a cada pedaço de queijo de São Miguel que vamos experimentando. - Nós não queríamos ser nada exclusivos. Não no sentido pretensioso do termo. Não somos, nem podemos ser, por motivos logísticos, um restaurante de massas. Temos apenas 25 lugares, nesta primeira fase, e no máximo poderemos crescer para 40 e isso sim, confere-lhe alguma exclusividade. A nossa ambição é abrir os cinco dias da semana, até porque temos noção de que só conseguiremos atingir a ambição de ser um dos melhores de Portugal se isso acontecer. Por várias razões: porque as pessoas vão olhar para nós de maneira diferente, porque é difícil entender o motivo pelo qual só trabalhamos 3 dias por semana, por outro lado, como restaurante temos, de facto, de trabalhar mais dias, até porque ser genial uma noite não é difícil, mas ser genial todas as noites é que é difícil. Essa regularidade, essa consistência é que toda a diferença. Até porque é muito complicado estares motivado 7 dias por semana. Isso tem muito a ver com as pessoas. O Márcio, que está de férias no Ocean e eu convidei para vir “brincar” connosco, motiva-se a ele próprio em permanência. Hoje já queria fazer não sei quantas sobremesas e os pães. Tive de lhe dizer para ter calma, o objectivo é divertirmo-nos. Mas ele é assim. Vocês acreditam que ele faz um pão de algas no Ocean, de fermentação natural e trouxe o fermento com ele para não correr o risco que morresse? Isso diz tudo sobre a sua motivação. São os tais pormenores sobre os cozinheiros que muitas vezes não passam. Do amor que têm pelo que fazem. Também, porque muitas vezes são encenadas. – Risos. Somos interrompidos pela simpática Raquel comunicando a chegada eminente de um grupo de Lisboa, com reserva efectuada há várias semanas. Aliás, no fim-de-semana em que conversamos com Diogo Rocha, o restaurante está esgotado e no próximo, apenas na sexta há uma mesa livre. Consciente da necessidade de terminar esta conversa que já vai longa, Diogo retoma, num tom ligeiramente mais apressado. - Mesa de Lemos é um projecto que nós achamos que leva alguma consolidação e está num crescendo. A equipa está formada e bem entrosada. Sabem que eu sou exigente, mas também sabem que só exijo o possível e gosto de explicar as minhas decisões. Mui-

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tas vezes os chefes montam um prato muito bonito, mas quase impossível de transportar, dá vontade de dizer, porque não levas tu? Temos de ter noção do nosso trabalho e do trabalho que desempenham as pessoas que estão connosco. Facilitar as coisas, para que realmente resultem perfeitas. - Qual foi o jantar que mais gozo te deu preparar? - É sempre uma pergunta difícil, mas a abertura do Mesa de Lemos, para mim, foi excepcional. Surgiu de uma brincadeira. Eu ia viajar para a Madeira e lembrei-me de colocar no facebook algo do tipo: se abrirmos o restaurante no dia x, quem é que está interessado? Cheguei a Lisboa com o restaurante cheio. 40 pessoas. Assustei-me. Fui uma semana para a Rota das Estrelas para a Madeira e quando voltei tive mesmo de assumir. Tinha de ser no dia que tinha lançado. Nessa noite, restaurante cheio, sentei-me naquele piano – Diogo apontando para um piano colocado estrategicamente na entrada do restaurante. – que toca sozinho, aumentei o som e finjo que estou a tocar, nem imaginam a ovação quando paro. Pensei, estamos feitos ao bife. – Gargalhada geral. – Levantei-me e expliquei que o piano tocava sozinho, mas ninguém acreditou. Ainda hoje há pessoas que pensam que fui eu que toquei aquela primeira música. A partir daí, o jantar decorreu de forma perfeita. Foi uma noite maravilhosa. Se me perguntares: ó Diogo, esse foi o teu melhor menu? Nem de perto, nem de longe, porque eu acho que o meu melhor menu é sempre o último, mas o cenário, o empenho da equipa, foi perfeito. - É importante ter uns “gandas malucos” como os teus administradores, que permitem tudo isto, todo este tempo de pesquisa, toda esta exigência com o produto, todo este dinheiro investido neste espaço e nesta tua equipa? - É fundamental. As pessoas que lideram este projecto são, de facto, grandes apaixonados. Ponto. Ok? Trabalham diariamente noutro sector para divulgar diariamente este projecto, da Mesa de Lemos e da Quinta de Lemos. Essa coragem deles é única e a disponibilidade que em permanência demonstram, sem cobranças e com a perfeita noção que a não é com a nossa função de servir refeições que cobrirão o investimento que aqui fizeram, é extraordinário e dá-nos uma tranquilidade e uma segurança muito grandes para trabalhar e ambicionar fazer o melhor. Além disso, há uma concordância perfeita em relação ao projecto. O Celso decidiu investir aqui, porque aqui estavam as suas raízes e porque, como eu, ainda acredita na região. Cada detalhe deste espaço retracta essa paixão pela terra, pela sua terra. Por isso está sempre a promover artistas locais e nacionais, que convida para exporem aqui e a batalhar pela divulgação da região e de tudo o que é Portugal, para fora e para nós próprios.

- Se tivesses de definir a tua cozinha numa palavra, qual seria essa palavra? - Deixa-me dizer que a minha cozinha nunca é só minha. É uma cozinha de uma equipa. - Talvez me tenha expressado mal. Referia à cozinha da Mesa de Lemos. E Portugal não vale, por razões óbvias. - Simplicidade. Claro que à simplicidade poderíamos juntar outra: o gosto. Essa coisa do robalo saber a robalo, entendem? Um dia um cliente chamou-me e disse-me: esse pato estava maravilhoso, fantástico, irrepreensível, mas deixe-me dizer-lhe que era um prato muito simples. Eu respondi-lhe: então, deixeme agradecer-lhe porque esse foi um dos melhores que já recebi. Numa outra circunstância, fiz de entrada um bacalhau à lagareiro para um cozinheiro e ele emocionou-se a comer. Isto é daquelas coisas que têm uma dimensão absolutamente extraordinária. – Ele próprio emocionado. O restaurante começa a encher e, sentados nos confortáveis sofás da entrada, com uma imponente panorâmica para a vinha iluminada, somos sistematicamente interrompidos pelos clientes que querem cumprimentar o artesão, que confeccionará o menu que irão degustar. Diogo é de uma afabilidade estonteante. Talvez porque saiba da importância da simpatia para cativar os clientes que o visitam, mas acima de tudo, porque gosta tanto do que faz que isso transpira na energia que emana durante a conversa, mesmo durante uma conversa tão longa como esta com que nos brindou. Diogo levanta-se para as despedidas, enquanto lança mais uma provocação: - Uma grande parte dos restaurantes em Portugal copia muito e ninguém tem coragem de dizer isto. Há restaurantes que estão a abrir e estão a deixar as pessoas loucas, mas aquilo é tudo cópias. Há uma grande falta de coragem sobre esta matéria por parte dos críticos que deviam dizer, meus amigos, isto é bom, mas já comi melhor em outros lados. Numa das mesas, é aceso o cepo de que Diogo falava, dando aconchego a este início de noite fria de Inverno beirão. por João Moreira

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Trilhando Sonhos Thiago Fantinatti Prefácio por Therbio Felipe M. Cezar, o Professor Sobre Rodas

Viajantes. Este livro fala sobre nós. Nunca pensei que, ao ler uma obra, eu me descobrisse incluído pelo autor. Jamais imaginei que quem o escreveu falaria tão bem de mim a ponto de convocar minhas angústias, meus sonhos e esperanças enquanto a leitura transcorresse. Não, não espere deste um livro cuja primeira e a última página se encontram naquele espaço amorfo chamado ‘lugar comum’. Tampouco espere que o autor recorra a uma escrita rebuscada, muito pensada e articulada, pouco natural. Não creia, também, que haverá uma conclusão ao final da escrita, pois informo de antemão que o autor do livro continua lá, em alguma curva, subida ou abraço de boas-vindas. Como regressar de uma experiência destas? Como dar tal experiência como concluída? Este livro, mais que tudo, é um convite ao questionamento e à companhia da dúvida. Explico-me. O que resume, dentro do possível, nossa experiência de conhecer é o ato, comum e inexorável, de questionar. A certeza, por sua vez, é uma ilusão, porquanto é efêmera. Deveríamos ter medo da certeza, não da dúvida. Vivemos na companhia da pergunta, não na solidão da resposta. E, pasmem, há ainda pessoas que têm medo de ter medo. Qual atitude nos tornaria mais humanos do que admitir que tememos? Entendo que é o que nos mantém vivos. Não há fórmulas que correspondam, uniformemente, às situações vividas por indivíduos diferentes. Como responderíamos, cada um de nós, às questões: “e agora, devo seguir ou permanecer?”, “qual caminho devo tomar?”, “tenho pouca água, será que é o suficiente?”, “o que ou quem encontrarei pelo caminho?”, “e se eu desistir, como será?”, “e se eu não desistir, será que sobreviverei?”. Certamente, nossas respostas não seriam as mesmas. Talvez, elas nem mesmo existissem. Mais uma vez, a solidão da resposta. Outra observação com a qual este livro colabora é a de que não existe um mundo senão aquele que construímos com os outros.

O encontro entre os diferentes faz nascer um mundo e é nele que a sensação de estarmos vivos pode ser mais linda ou menos interessante. E neste mundo, futuros leitores do Thiago, tão importante é a chegada quanto a partida; a necessidade que temos de ser acolhidos é tal qual a necessidade dos outros de acolher-nos. Afinal, somos todos viajantes. Thiago Fantinatti, autor do livro e coadjuvante do Caminho, respondeu a todas as perguntas com outras perguntas. Somente as pessoas realmente humildes não precisam de certezas. Thiago pode ter hesitado em decidir pelo caminho ‘a’ ou ‘b’ em algum momento, porém não hesitou em questionar-se, em colocarse à prova da dúvida, em verificar suas capacidades e acreditar no improvável. Por fim, das mais importantes sugestões que o livro faz, uma delas me arrebata. Desde que assumi minha porção cicloturista, décadas atrás, afirmo que ‘todo caminho leva a algum lugar e a alguém’. Para a grande maioria das pessoas esta frase se debruça sobre o óbvio. Porém, afirmo que em busca do extraordinário esquecemos de dar importância ao óbvio, e assim, criamos lacunas em nossa existência jamais ocupadas por coisa alguma. Acredito que nossos caminhos não nos levam a qualquer lugar e a qualquer pessoa. Ao contrário, nos levam às pessoas com as quais precisamos realizar a experiência de gerar um mundo, por vezes, durante poucos minutos (eu diria, eternos), nos lugares mais apropriados para que tal fenômeno aconteça, seja uma alameda, um colina, o borde de um riacho, um posto de gasolina, um hostel, ou até na cerca daquela casa que paramos para, exaltando a dúvida, pedir uma orientação ou um revigorante e cheio de vida copo de água. Os caminhos trilhados por Thiago levaram ao sonho de encontrar nos lugares mais impensáveis, as melhores pessoas. Sozinhos não construímos mundo algum. Este livro é feito, página a página, por personagens de mundos construídos com Thiago. E ele os carregou por nós em seus alforjes até aqui, para que pudéssemos construir um mundo juntos. É claro que Thiago não sabia, ao primeiro dia de viagem, que levava também na bagagem a mim, a você e ainda a um sem-número de companheiros que viria a conhecer anos mais tarde graças aos mundos criados por nossos encontros. Se assim não fosse, eu não estaria humildemente prefaciando esta obra.

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O resultado foi a criação do Espaço Nikkei, com produtos que suprem especificamente as necessidades dos japoneses no Brasil, que hoje são aproximadamente 1,5 milhão de pessoas das comunidades nipo-brasileiras, atuantes em atividades sociais de diversas áreas. Atualmente o Brasil é o País com a maior comunidade japonesa do mundo, segundo o IBGE. No Japão ou no Brasil, os Nikkeis e familiares contam com diversas soluções para facilitar sua vida. Tudo com a segurança e a estrutura do maior banco privado da América Latina.

esqueça a crise, VAMOS FALAR DE SEGMENTAÇÃO DE MERCADO!

Encontrar novos nichos de mercado se torna uma das vertentes mais eficazes para combater a perda de mercado e alavancar novas possibilidades de lucratividade. Sabe-se que o setor de inovação dentro das empresas é um dos que mais cresce, pois se torna indispensável na reinvenção de ideias diárias e promoção de novas oportunidades. “A prática moderna do marketing exige a divisão do mercado em grandes segmentos, a avaliação de cada um deles e a determinação dos segmentos-alvo a que a empresa pode atender melhor.” (KOTLER, 2000, p.108). Para que ocorra a segmentação dentro de certa área é imprescindivel à elaboração de um projeto que tenha como base dados de mercado, como, concorrência, potencial de expansão, viabilidade, custos e diferenciais em relação ao que já existe. A expansão em diferentes nichos de mercado tornase cada vez mais comum entre grandes empresas, pois é possível atingir públicos ainda pouco explorados, aumentando as opções para conquistar e fidelizar segmentos. A estratégia deve ser elaborada com base nas oportunidades e desafios globais, minimizando riscos e aumentando as chances de sucesso. CASE - BRADESCO NIKKEI: Desde a fundação em 1943, em Marília – SP, o Bradesco apresenta grande afinidade com a comunidade japonesa no Brasil. O Bradesco afirma em seu texto institucional que alguns dos traços comuns entre a empresa e os nipo-brasileiros é o respeito pela tradição e pelo trabalho. Para atender essa demanda o Bradesco desenvolveu uma área exclusiva para orientar e auxiliar a vida financeira dos descendentes que desejam trabalhar no Japão, com produtos diferenciados e suporte para várias questões convenientes de quem decide morar em outro país.

DESAFIO: INOVAR É PRECISO!

Inovar é um desafio constante, empresas que não valorizam a inovação acabam por se tornar obsoletas em meio

a tantas opções de produtos e serviços ofertados todos os dias, insistentemente e de diferentes maneiras. O estudo de caso Bradesco Nikkei apresenta informações importantes em relação ao atendimento de novos nichos de mercado. Seu interesse em atender de forma diferenciada esse novo mercado após perceber o aumento da colônia nipônica em solo brasileiro foi algo muito feliz. Os diferenciais são palpáveis, pois existe uma preocupação em atender as necessidades de seu publico, não só nas questões financeiras, mas também no cotidiano. Ser útil é um fator importante na fidelização dos clientes, já que a concorrência é grande e todos buscam o melhoramento de seus serviços. Através da análise dos dados coletados é possível concluir que existe uma relação humanizada entre o banco e seus clientes, estabelecendo laços que vão além do que se espera de uma instituição financeira. Pode-se afirmar que os clientes de forma geral estão cada vez mais exigentes e bem informados, buscam serviços de qualidade e benefícios que facilitem as suas vidas. Pesquisam, se informam e realizam compras racionais, porém se ligam emocionalmente às marcas que suprem suas expectativas e surpreendem na prestação de serviços. por Aline Tillmann – Publicitária, empresária e especialista em Marketing Empresarial.

REFERÊNCIAS: KOTLER, P. – Administração de marketing – 10ª Ed. São Paulo: Prentice Hall, 2000. BRADESCO: www.bradesconikkei.com.br

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Arquiteto que sonha Não acredito em idade, acredito nas estações, que tornam sua vida um histórico de momentos. Você constrói cada linha e curva do seu sonho, assim como Niemeyer projetou as linhas e curvas de suas obras, projetando o impossível, mas que saiu do croqui e está de pé em todas as estações. A vida é real, assim ,como seu sonho que muitas vezes é esquecido ao acordar, arquiteto sonhador, molde seu coração, e ame sem limites.

Jonathan Wisley Benvenutti Jonathan W. Benvenutti

Formado em Desing de interiores, acadêmico e amante de arquitetura, Atualmente Projetista e Designer de interiores na WB Planejados e Sob Medida Timbó.

Um conceito contemporâneo para um espaço humanizado, onde o ambiente comporta área de festa, para 15 pessoas, aconchegante e cores bem marcantes, amarelo quebrando tom de preto e cinza, um leve amadeirado, traduzindo o rústico no mundo moderno. O ambiente tem 35 m².

Um ambiente inspirado nas belezas orientais de uma forma leve, utilizando cores minimalista de maneira contemporânea, cinza, preto, branco e uma pequena mistura de madeira. Decorações temáticas, envolvendo planta como bambu mosso e alguns objetos, luminária oriental, espadas. Alguns detalhes em led, trabalhando iluminação indireta e aconchegante. O espaço comporta área gourmet e festas. O ambiente tem 30m ².

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O soul radian de Anderson P Quarta-feira de cinzas; restam oito dias para o fim do prazo para a entrega dos textos, e permaneço em dúvida sobre o que escrever para a primeira edição de 2016 da VALEU!.

Algumas ideias reverbam em minha cabeça: o incrível disco testamento de David Bowie, o ótimo segundo álbum do DIIV ou o disco de estreia do ainda pouco conhecido Anderson .Paak. Todos são álbuns que ando ouvindo bastante nesse início de ano e merecedores de um espaço na VALEU!. Já é noite, estou deitado em minha cama ouvindo a rádio americana KEXP pelo computador (é sempre ela!), quando começa a tocar uma música que me faz levantar da cama instantaneamente. A voz era conhecida, mas naquele momento ainda não sabia precisar que música era aquela. O nome no player do iTunes então denuncia: Anderson .Paak – The Season / Carry Me. A música do californiano é daquelas que causa impacto positivo já nos segundos iniciais. Naquele momento não havia mais duvidas, e você amigo leitor agora é testemunha, era sobre o disco de estreia do californiano Anderson .Paak que eu iria escrever. Malibu é um disco de um estilo musical leve e carregado de influências do soul e R&B. Desde a primeira vez que ouvi esse álbum, sinto a música do Anderson como uma mistura entre o soul do D`Angelo e o hip-hop/pop do Frank Ocean. Ou seja, não há como o resultado não ser interessante.

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A produção é certamente o ponto forte desse álbum. O piano, como a capa do disco já aponta, é a base para o flow de Anderson, geralmente acompanhado pela confluência groovy entre guitarra, baixo e sopros. A narrativa confessional, inerente ao bom hip-hop, sustenta as letras desse disco, notada já nos minutos iniciais, quando Anderson canta sobre sua mãe, uma fazendeira da Coréia do Sul, e seu pai, que ficou preso por vários anos. Estou ouvindo o álbum pelo Spotify enquanto escrevo esse texto, e preciso dizer que nesse momento, mais especificamente durante a penúltima faixa do álbum, já mudei de opinião quanto a minha música favorita do disco por quatro vezes. A canção que ocupa essa posição no momento, de nome Celebrate, poderia muito bem ser uma composição de autoria de outro grande artista da música: Stevie Wonder. Malibu é assim, um disco que causa impacto positivo no ouvinte já no primeiro contato com sua música, independentemente de qual faixa represente esse momento. por Leo Victor Koprowski


nte Paak

Artista:

Anderson .PaakĂ lbum: Malibu Gravadora: EMPIRE/ OBE / Steel Wool / Art Club

Faixas essenciais:

Put Me Thru, The Season / Carry Me e Celebrate.

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QUAL A TRILHA Parte 5 – Lado A… Lado B! SONORA DA SUA VIDA? UOON 1 do album VRIOON… nomes que parecem sair de um filme de ficção científica, de nada extraterrestre há, muito pelo contrário, pois é uma estrutura musical singular para nomes, da mesma forma, singulares. Uma viagem sonora que gera quase transe pelas batidas repetidas, camadas de sintetizador introspectivo e um piano, marca registrada do fenomenal Ryuichi Sakamoto, que nos direciona para um caminho também singular criado na mente de cada um que escuta esta obra na íntegra. No último texto comentei como a trilha sonora para um filme pode ser importante para reforçar a história que sendo apresentada. Da mesma forma a trilha VRIOON, que escolhi para escrever esta texto, tem a mesma responsabilidade. Estou escrevendo no meu estúdio, portas fechadas, meia luz, o ar aromatizado pelo café preto fresco passado na hora sempre descansando à esquerda inferior da minha visão periférica. Pela estrutura da sala, a única coisa que consigo escutar é a música e o som do teclado do computador ao receber o impulso dos meus dedos direcionados pelos estímulos do meu pensamento. Este é o meu filme e esta é a trilha sonora deste momento da minha vida. Ryuichi Sakamoto, nascido em 1952 (Nakano - Japão), mestre com ênfase em música eletrônica e música étnica é um colecionador de Oscar, Grammy e Globo de Ouro. Ícone do seu meio, colaborou com os mais diversos artistas de renome mundial que vão de David Bowie até Caetano Veloso, passando pelos também mestres Iggy Pop e David Byrne. Versatilidade em vida e da mesma forma é um artista que tem a competência de permitir que suas músicas sejam versáteis ao ponto de poder ser ouvida em qualquer tipo de ambiente. O que quero dizer é que a mesma música pode ser fundo da sala de espera do consultório do seu dentista, seu companheiro de rádio no trânsito ou mesmo ser o enfatizador para cenas de um filme de qualquer natureza. Esta é a beleza! Permitir que frequências arranjadas sejam refletidas pelos objetos sonoros e se transformem em ondas que são percebidas como música. O mais importante é tentar perceber o que há por trás destas notas musicais. Por mais belas, felizes ou introspectivas que possam parecer, elas refletem um pensamento ou sentimento criado pelo artista. Na realidade, se formos mais ao fundo, costumo dizer que qualquer música já existe… ela está ali... pronta para ser capturada a centímetros de distância do seu criado e o homem sendo nada mais que um catalizador criativo em traduzi-la do mundo etéreo para o mundo físico. Por isto “lado A e lado B, oriundo do dos discos de vinil. O lado A do disco historicamente continha músicas mais comerciais e o lado B músicas experimentais, diferentes ou alternativas. Muitos artistas inclusive apresentam como “seu verdadeiro Eu” ao apresentarem obras neste lado do disco. Da mesma forma, convido você leitor a criar seu próprio lado B dentro da existente e vasta possibilidade sonora que temos hoje a disposição. Para ajudar, deixo ao final deste texto sugestões como pontapé inicial para sua lista Lado B. Lista de trilhas sonoras para ouvir: 1) Uoon 1 - Ryuichi Sakamoto 2) Orpheus - David Sylvian 3) They Being Dead Yet Speak - Jóhaan Jóhannsson 4) The Promise - Michael Nyman 5) Waves - Japanese Wallpaper 6) Old Crown - Yuko Nishiyama 7) Heidi Bruehl - Tosca 8) Spheres - Mike Oldfield 9) Monk´s Dream - Thelonious Monk 10) Jupiter George – Dauwd

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Para ouvir mais sobre trilhas sonoras e outras pesquisas musicais, basta procurar por Esdras Floriani Holderbaum no Spotify, aplicativo para smartphones, e seguir várias das listas que diariamente eu atualizo. Lá criei uma lista exclusiva para a Revista VALEU com as sugestões apresentadas nos meus textos. Aproveite e tenha bons momentos!


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Leo Maier

Imparável com uma guitarra nas mãos.

Data: 17 de abril (domingo) Local: Ahoy (Rua São Paulo, 2083, Itoupava Seca - Blumenau - SC) Horário: 19h Entrada: R$15 Show de abertura com Cristiano Ferreira. Venda de EP´s no local a R$10 cada. Nós lá estaremos! “Guitar In My Hand” é o novo EP de Leo Maier e não podemos imaginar melhor título para um trabalho seu. É assim que o imaginamos, guitarra na mão, entregue aos devaneios musicais com que cedo aprendeu a perder-se, ou melhor, a encontrar-se, tendo como pano de fundo o grito pungente dos negros do sul dos Estados Unidos. É de Blues que falamos e talvez nunca tanto, como neste “Guitar In My Hand”, com que o já consagrado “bluesman” blumenauense, decidiu prestar tributo a Clarence ‘Gatemouth’ Brown, uma das suas principais referências musicais. Clarence Brown, nascido em 1924 na Louisiana, começou a tocar guitarra com cinco anos de idade e até à sua morte em 2005, nunca mais abandonou a música, com exceção para o tempo em que serviu no Exército Americano, durante a II Guerra Mundial. Exímio tocador de rabeca e violino foi como baterista que começou a percorrer a América, tendo mesmo tocado com algumas Big Bands de Jazz. Porém, era no Blues, com marcadas influências do Cajun e do

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Bluegrass, que Clarence se sentia em casa, ou não fosse ele filho do mais francês dos estados americanos. Criador de uma sonoridade muito própria, que lhe valeu o epíteto de último dos grandes bluesman da Louisiana, “Gatemouth” encontrou em Leo Maier um digníssimo representante do seu estilo musical, a avaliar pela faixa que dá nome ao EP e que tivemos o privilégio de ouvir em primeira mão. Com uma guitarra virtuosíssima, que a bateria de Dayvk Martins e o baixo de Danilo Brito completam na perfeição, Leo embala-nos numa viagem às planícies do Mississípi, rasgadas por velhas estradas de ferro, pontuadas, de tempos a tempos, por pequenas estações de onde mágicos da guitarra como Clarence, partiam em busca do sonho de uma vida melhor. Porém, é na magistral “Jazzin´The Blues” que o amadurecimento musical de Leo Maier mais se faz sentir. Esta nova música de sua autoria é absolutamente envolvente. Dayvk é irrepreensível na bateria e o “groove” de Danilo extraordinário, mas é o arrepiante


diálogo entre guitarras que entabula com Cristiano Ferreira, que faz deste “Jazzin´The Blues”, um dos temas centrais deste EP e uma música que ficará para a história do Blues nacional.

Watson” (um tributo ao grande Junior Watson), “Drivin´ With The Band” e “Jazzin´ The Blues”, que completam este trabalho de 6 faixas que será lançado dia 17 de abril no Ahoy, na cidade de Blumenau.

Em quase vésperas da apresentação deste novo trabalho, a Revista Valeu conversou com Leo Maier. Aqui fica o resultado desta pequena entrevista:

Revista Valeu – O Dayvk está de novo contigo, não só na bateria, mas também como responsável pela belíssima arte da capa, com foto da Mariana Florêncio. Quem são os outros músicos que colaboraram neste projeto?

Revista Valeu – Tal como prometido aquando da conversa que tivemos por altura do lançamento do teu primeiro EP, dia 17 de Abril, domingo, pelas 19h, apresentas o novíssimo “Guitar In My Hand”. Fala-nos um bocadinho sobre este novo trabalho. Leo Maier - Gravamos este EP em 3 dias. Dois para gravar a parte instrumental e um para os vocais. Revista Valeu – Em Blumenau, como o primeiro? Leo Maier – Não, desta vez o estúdio escolhido foi o Beretta, que fica em Florianópolis. Revista Valeu – Lembro-me que na época já tinhas mais ou menos uma ideia do repertório que iria constar. Como foi a escolha do repertório? Leo Maier - Escolher o repertório nunca é fácil, ainda mais quando você é influenciado por um “mar de mestres” dos mais variados estilos. Assim, como no primeiro EP, resolvi pegar músicas pouco conhecidas até mesmo para fãs de Blues. Revista Valeu – O teu fascínio pelo Lado B. – Risos. – E quais são, pode saber-se? Leo Maier – Sim. Escolhi “You´ve Bee Goofing” do Jimmy Nolen, “Guitar In My Hand” do Clarence ‘Gatemouth’ Brown e “I´ve Got News For You” do Goree Carter. Todos os três, guitarristas e cantores que fazem parte da minha formação musical. O título deste trabalho é “Guitar In My Hand”, uma forma de homenagear o genial Gatemouth Brown, uma das minhas maiores influências na guitarra. É também uma maneira de dizer que às vezes a única coisa que resta nas mãos (ou na vida) de um músico, é seu instrumento, sua música... As letras dos Blues contam belas histórias, trazem uma poesia simples, verdadeira. Todas as músicas escolhidas para este trabalho (assim como no primeiro) trazem histórias do nosso dia-a-dia. Revista Valeu – Mas, segundo sei, tens algumas músicas tuas. Leo Maier: As músicas autorais são, “Shuffle For Mr.

Leo Maier - Os músicos que me acompanharam neste trabalho foram: Dayvk Martins (bateria), Danilo Brito (baixo) e novamente o convidado especial Cristiano Ferreira (guitarra). Um momento muito marcante, para mim, foi no final da música “You´ve Been Goofing”, onde eu e o Cristiano fazemos uma “conversa” através de nossas guitarras e que flui de uma maneira naturalmente incrível. Além de meu amigo e professor, ele é um dos meus guitarristas favoritos de Blues e seu fraseado e timbres únicos enriqueceram ainda mais este EP. O Dayvk é um dos maiores bateristas de Blues da atualidade, um incansável pesquisador, extremamente criativo e com muita identidade na sua maneira de tocar. Ele é uma das pessoas que mais me encorajam para gravar e divulgar meu trabalho e sua bateria soa fantástica neste EP. Thanks, bro! O discreto Danilo Brito é um gigante do contrabaixo e do groove. Trabalhou muito neste disco, pois além de tocar, fez toda mixagem e me auxiliou em diversos momentos. Contar com este time me traz muita confiança e certeza de horas de aprendizado e boas risadas. Sou eternamente grato a vocês! Revista Valeu – Um time e tanto! Vejo que ficou pelo caminho a ideia do quarteto, incluindo o piano. Leo Maier – Por enquanto. Neste segundo EP quis consolidar o som do primeiro. É um EP de continuidade e para isso era importante manter a formação: duas guitarras, um baixo e uma bateria. O piano introduziria uma sonoridade diferente, algo distante do som que pretendia e que vejo como uma continuidade do primeiro EP. Revista Valeu – E para quando o primeiro LP? Leo Maier – Para logo, logo. Esse é o passo seguinte. Revista Valeu – Ainda para este ano? Leo Maier – Se tudo correr bem, sim. Mas, por agora o objetivo é mesmo este novo EP. Aliás, quero convidar a todos para o lançamento do EP “Guitar In My Hand”. por João Moreira.

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o filme das nossas vidas Todos nós, por um motivo ou outro, temos um filme que nos marcou para sempre e que podemos definir como “O Filme da Nossa Vida”. Talvez não seja o melhor filme que vimos, nem sequer se enquadre naquilo que ousamos definir como “bom cinema”, mas por qualquer razão, é o filme de que nos recordamos com mais frequência e aquele que nos vem à cabeça quando, desafiados, nos pedem para falar sobre cinema. “O filme das nossas vidas” pretende ser isso mesmo. Um desafio à capacidade de passarmos para o papel a magia que olhamos na tela e que nos marcou para sempre. Um estímulo à forma como interpretamos aquilo que vimos. Um olhar pessoal sobre o olhar, já por si pessoal, do realizador. A Revista Valeu lança um desafio aos seus leitores e colaboradores, para que nos enviem, para publicação, o seu olhar sobre o filme que mais os marcou, o filme a que se arriscariam a chamar o filme da sua vida.

O FILME DA MINHA VIDA Noutros tempos, em que minha cinefilia era muito mais praticante, gostava do jogo de tentar adivinhar os filmes da vida de amigos e conhecidos, numa perspectiva, que tenho por correcta, que eles muito dizem da personalidade de cada um. E fazia-o com sucesso e uma óptima taxa de acerto. Há outras formas de descrever a personalidade de alguém, mas poucas conseguem um tal acerto como “filme da nossa vida”. Perante isto, deveria ser-me fácil a escolha do meu filme da vida. Nada mais errado, por um motivo muito simples, não tenho um filme da minha vida, mas vários filmes que em determinada altura foram o filme desse momento da minha vida. No seguimento do que já disse, poderia ser isto atribuído a um estranho caso de múltipla personalidade, mas apesar de nunca ter consultado um discípulo do Dr. Freud sobre o assunto, julgo não ser esse o caso. Explico, falando de amor. O “filme da nossa vida” é um reflexo da nossa personalidade, sim, mas é também uma paixão consolidada, séria e definitiva, como o amor da nossa vida. Isso explica porque ainda não encontrei “o” filme da minha vida, como ainda não encontrei “o” amor da minha vida. Foram algumas paixões intensas, alguns enamoramentos, fragmentos de tempo apaixonados, mas nunca uma paixão definitiva, sólida, permanente. E já não sei se falo da minha vida amorosa ou do filme da minha vida. Para além disso, parto sempre de um pressuposto, os filmes da nossa vida não têm de ser os melhores filmes que vimos na vida. Há obras-primas absolutas que não me entram na alma, como há pessoas perfeitamente bonitas que nunca nos irão despertar mais do que uma admiração estética, incapazes de arrancar algum fogo de paixão, ao invés de outras, imperfeitas, sem a absoluta delicadeza dos traços, que nos arrebatam para além dos limites da razão.

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Relembro as minhas paixões que associo, sem grande dificuldade, a períodos da minha vida. “ET” que me fez chorar lágrimas de perda quando ela, felizmente, não entrara ainda na minha infância. “Stand by me”, o meu filme da adolescência, do momento em que a criança que há em nós se esconde para poder reaparecer um dia. “O Império do Sol”, que me mostrou como a vida de um adolescente não tem de ser fácil. “Os Marginais”, onde o lirismo technicolor envolve um enorme drama, deixando no entanto a luz da esperança nos cabelos loiros do protagonista. “O Clube dos Poetas Mortos”, na sua belíssima demonstração do que pode ser o poder do livre pensamento e as consequências que o mesmo acarreta. Este é um filme de uma geração, um filme de uma década, que me deixou num vale de lágrimas, a mim e a todos os que saíam da sala como num concerto de choro colectivo, disfarçado a custo por lenços e mãos na cara. A perfeição arrebatadora de “O Leopardo”, de Visconti, e de “La Dolce Vita”, de Fellini, ou os recentes “Gran Torino” e “A Grande Beleza”. Estes e muitos outros me despertaram paixões que não perduraram, como tantas outras que encontramos na vida. A minha escolha acaba por ser então a de um filme sobre o amor, sobre a paixão, sobre essa coisa tão indefinível e irracional que aproxima duas pessoas que aparentemente nada têm em comum. Fazia zapping numa qualquer noite de Domingo, quando encontrei Ethan Hawke, jovem, num comboio. Deixei ficar e entrei num mundo que passou a acompanhar o meu. Foi assim que vi pela primeira vez “Antes do Amanhecer” e foi aí que me apaixonei irreversivelmente por este filme, ingénuo, imperfeito, mas fascinante. Jesse conhece Céline (Julie Deply) no comboio, ambos regressam a casa, Jesse irá apanhar em Viena um voo para o EUA, Céline tem por destino Paris. O poder do amor à primeira vista leva Jesse a conseguir convencer Céline a sair em Viena e a passar


um dia com ele. A história é apenas isto. Simples. Aparentemente simples, fossem as relações humanas e as pessoas simples. Por vezes a maior profundidade esconde-se na simplicidade e este filme é o exemplo. Os diálogos e a construção das personagens são notáveis e transformam uma história singela num grande filme. Méritos vários, desde o realizador, Richard Linklater (que também escreve o argumento com Kim Krizan), aos actores Ethan Hawke e Julie Delpy. O filme poderia ser um belo postal sobre Viena, sobre a sua beleza e os seus recantos, guiados pela beleza jovem dos protagonistas, mas é muito mais do que isso, é um verdadeiro hino à paixão. Aquela noite em Viena passou a ser parte de mim, como outras noites em Lisboa, Rio, Paris, ou Berlim. Noites de encontro de almas pelo poder da paixão. Noites em que duas pessoas se cruzam por acasos da vida, e por outros acasos se encontram, esbarram, colidem, se apaixonam, por horas, dias, ou por toda uma vida. Jessie e Celine, Norte América e França, em Viena. Uma improbabilidade geográfica e cultural que afinal faz todo o sentido, como tantas outras, pois como dizia Vinicius “A vida é arte do encontro, Embora haja tanto desencontro pela vida”. Este poema podia ser o subtítulo deste filme, assim como dos dois outros que o seguiram. Sim, o filme da minha vida é um, que na realidade são três. “Antes do Amanhecer” tornou-se um fenómeno de culto, o que levou a que a mesma equipa se reencontrasse sete anos depois para filmar uma continuação passada…sete anos depois. Surge assim “Antes do Anoitecer”, desta vez com as personagens a deambular por Paris. Se o primeiro filme é o da ingenuidade e pureza do fim da adolescência e início da idade adulta, aqui os personagens já são jovens adultos responsáveis e com vidas próprias em construção, com a colisão entre sonhos e realidades. Ao fim de ou-

tros sete anos surge “Antes da Meia-noite”, o filme da maturidade e da idade adulta, em que o casamento é o tema central. A originalidade de uma trilogia que acompanha o crescimento das personagens em tempo real com sete anos a distarem cada filme faz deste um objecto único, bem como a envolvência dos actores no guião e em todo o processo criativo, apenas possível num filme que se tornou em muito mais do que um simples filme, mas um projecto de vida para todos os envolvidos. A genuinidade passa em cada cena e o cinema aproxima-se da realidade de uma forma bela, como bela é a forma como são mostrados os cenários escolhidos para contar a história. Estado de graça será a melhor forma de definir o que foi conseguido nestes filmes, um absoluto estado de graça que reflecte uma clara paixão como os mesmos foram feitos.

No primeiro filme as personagens despedem-se com a promessa de um reencontro um ano depois no mesmo sítio. Sem troca de telefones ou moradas, com o destino entregue à imprevisibilidade. Eu escolho despedir-me com as palavras que Céline canta no final de “Antes do Amanhecer”: “Let me sing you a waltz”. Texto por João Albuquerque Carreiras

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postaisVII perdidos por João Albuquerque Carreiras

Fevereiro 2016 João Albuquerque Carreiras

Salamanca, Espanha 28-XI-06 Minha querida Voltei onde nos conhecemos. Como sabes gosto de voltar, de percorrer de novo os caminhos que marcaram a minha vida, de reviver com outros olhos o passado de que fui construído. Voltei e tudo está igual assim como tudo está diferente. Salamanca permanece a cidade deslumbrante que conhecemos. A Plaza Mayor nunca vazia e sempre cruzada qualquer que seja o nosso caminho, com a pedra de Villamayor brilhando ao sol de fim de dia como se os bustos quisessem ganhar vida e libertarem-se das colunas sobre as quais repousam. Os estudantes, sempre os estudantes como nós fomos, num burburinho que dura todo o dia e se acentua quando a noite já caiu e grupos se encontram debaixo do relógio, esse tão habitual e recorrente ponto de encontro dos tempos em que os telemóveis não existiam e precisávamos de hora e sítio. Percorri sem destino, como tantas vezes, estas ruas que me encantam, como se me encontrasse no cenário de um filme sobre a minha vida e tudo estivesse elevado a um estado onírico de paixão. A Calle Rua, que passado o arco nos leva direito às Catedrais, essa coisa tão única que Salamanca tem de manter duas catedrais, uma encaixada na outra. Voltar ao Pátio de Escuelas, relembrar os “Burgueses de Calais” que aqui estiveram

expostos, e pensar na história, no conhecimento, nas pessoas que aqui passaram. Entrar no claustro de “Las Dueñas” e maravilhar-me, como da primeira vez, com este lugar tão único e meu, onde fico apenas olhando e sentindo a especial aura que o envolve, sem esquecer de, à saída, comprar os deliciosos bolos feitos com carinho pelas freiras de clausura. Não me canso de passear nesta cidade, de descer ao rio e olhar da outra margem do Tormes a silhueta da cidade ao pôr-do-sol. Voltei aos nossos sítios, aqueles onde deixámos correr o tempo em conversas infinitas sobre nós, a vida, o mundo, os nossos sonhos, em frente a tapas e copos de vinho. Aos lugares onde dançámos até de madrugada, onde sorrimos e esquecemos o mundo. Alguns fecharam, não se fechando nas nossas memórias, outros permanecem iguais, ou quase iguais, pois já por nós não são habitados. Gosto de voltar por tudo o que permanece igual, mas também pela nostalgia do que mudou, acima de tudo gosto de voltar, ainda que o que mais falte sejas tu. Tu e os outros que fizeram da nossa vida em Salamanca um momento especial que mudou o nosso destino. Nem que seja por nos termos conhecido. Só por isso já teria valido a pena. Sendo que para além disso houve Salamanca, esta cidade que é minha.

“Un beso enorme, te echo de menos”, João

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Kilians “Lugar ideal para conhecer pessoas e ouvir música”

Englischer Garten “Aqui venho quando preciso de paz”

Munique é um destino conhecido por todos, graças à Oktoberfest e à cerveja. São seis cervejarias na cidade, dentre elas a Hofbräuhaus, gigante em tamanho e popularidade. Mas Munique é muito mais que cerveja. É um lugar com tradição, cultura, arte e entretenimento. Munique foi amor à primeira vista. Já tinha lido tanto sobre a cidade, que sabia que seria difícil voltar pra casa. Nunca voltei. Munique é uma criança em corpo de um adulto. É um vilarejo tradicionalista, dentro de uma grande, cosmopolita cidade.

minha munique

Você conhece e viaja o mundo inteiro, sem sair de dentro da cidade. Você aprende, se perde e se reecontra. Você cresce.

Olympiapark - “Lugar que visito quando preciso me inspirar”

Schloss Nymphenburg “Um dos mais lindos que já visitei”

HB - “cervejaria mais famosa do mundo”

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Rathaus “prefeitura da cidade à noite”


Café white Rabbits Room “Um dos mais fofos da cidade”

O que fazer Se você curte história e cultura, pode se perder dentro dos mais de 60 museus espalhados pela cidade. E o melhor: a maioria dos museus tem entrada por somente um euro aos domingos! Dentre os meus favoritos, estão o Deutsches Museum - maior museu de ciência e tecnologia do mundo -, Münchner Stadtmusem - onde você aprende mais sobre o nazismo na cidade -, Museum Mensch und Natur - sobre história natural. Adoro especialmente as amostras de areia e pedras preciosas do mundo inteiro -, Museu do palácio de Nymphenburg - a ala das charretes reais é impressionante e o Museum Fünf Kontinente - sobre a cultura do Oriente, da África, da América do Norte, América do Sul e Oceania. Há também galerias ótimas, onde você pode ver e comprar obras de arte de artistas contemporâneos como Andy Warhol, L.T.E e Banksy.

Para comer e sair à noite Há cozinhas do mundo todo aqui, mas não saia da cidade sem experimentar o tradicional café da manhã bávaro, composto por salsichas brancas, pretzels e cerveja de trigo (Weissbier) e um Schweinebraten com Knödel (Lombo de porco e batata preparada com farinha e pãozinho). À noite, visite o pub irlandês Kilians, lá você pode conhecer pessoas do mundo todo e ouvir música boa ao vivo. No verão vá tomar um drink no Rooftop Bar do Mandarin Hotel. Só a vista da cidade já faz o bar valer a pena. E para conhecer bem a cidade, alugue uma bike e vá pedalando. A cidade é linda! Fale com Mey: fuchter.mey@gmail.com fb.com/meyfuechter por Mey Fuechter

Oktoberfest “pronta pra festa!”

Wise “com amigos durante a festa mais esperada do ano”

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30 de janeiro de 2012

Cuba, Primeiras impress천es de uma viajante... Margot Friedmann Zetzsche

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Chegamos em “La Habana” - a Capital, ao anoitecer e pudemos ver a cidade nas últimas luzes da tarde, enquanto o avião da Copaairlines sobrevoava aguardando o pouso. Um taxi desconjuntado nos levou para a capital de Cuba tantas vezes vista em nosso imaginário por tudo que ouvimos e lemos sobre este país tão heróico e ao mesmo tempo isolado do mundo globalizado. Como seria ver de perto o que acontece em Cuba? Escuras foram as primeiras impressões na autopista bem cuidada que leva do aeroporto à cidade e onde não se enxergam as placas de sinalização. Os cubanos precisam poupar energia que é muito cara e difícil, num lugar onde a sua geração depende de termoelétricas e de petróleo. O motorista se enfiou pelas vielas de Habana Vieja, a parte antiga da cidade, estreitas e com passagem para apenas um carro, procurando o endereço de nosso hotel. Empacamos. Parece que um carro lá da frente quebrou e entupiu todo o trânsito. Era uma rua muito escura, espremida entre edifícios históricos, mas ainda não alcançados pelo processo de restauração que ocorre na maior parte da cidade. Curiosos e meio ressabiados olhávamos para os lados: os velhos prédios são habitados por famílias humildes que vão se ajeitando como podem, numa bagunça de varais de roupa colorida, apartamentos enjambrados, gatos e fios de luz atravessados, mezaninos improvisados pela necessidade e facilitados pelo pé direito muito alto das construções centenárias. Pelas calçadas, os bicitaxis - espécies de riquixás cubanos - iam voltando se espremendo entre a parede e o carro para fugir ao pequeno congestionamento. No meio da confusão se escuta um flautista ensaiando uma melodia ligeira, e mais além, o ritmo inconfundível de um grupo de salsa, chamando para a festa!

Os habitantes dos velhos casarões O desafio de restaurar e conservar o casario Histórico e seus ocupantes!

veículo adaptado em coletivo e nosso meio de transporte em La Habana.

Quando nossos olhos vão acostumando com a escuridão vemos que a rua está cheia de gente: as portas das casas se abrem para fora e os moradores põem suas cadeiras na calçada. Os bicitaxis são ponto de encontro da molecada da vizinhança, que fica aboletada em bandos, em cima dos assentos poltronas aproveitadas de velhos ônibus. Mais tarde lemos no jornal Granma[1] que a restauração do casario histórico não pretende deslocar moradores dos prédios “tugurizados”. O centro histórico – dizem tem que ser restaurado preservando sua história viva: Os ocupantes das casas. Vai ser - e está sendo - um desafio monumental, pois os moradores são milhares de pessoas e os prédios históricos estão quase todos lá, preservados, testemunhando o fato de quando não se prioriza lucro imediato, o patrimônio arquitetônico permanece. La Habana de hoje tem quase todas as jóias arquitetônicas que estavam de pé nos anos 50. E as velhas árvores, que já eram frondosas dos tempos do ditador Batista, se espremem altaneiras nas praças e ruas molestando as calçadas à vontade - ninguém lhes deita olhares de destruição.

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A frota Cubana

Depois de uns 15 minutos a confusão no transito se esclarece: há mais a frente um velho Pontiac quebrado, mas os mecânicos já estão trabalhando. Os condutores das bicicletas ajudam a organizar o pequeno engarrafamento que se desloque de ré, até desobstruir a viela. Ao rodear a quadra vemos o carro cor de rosa que parece ter saído dos filmes da Hollywood dos anos 50. Uma lâmpada portátil no chão e um monte de ferramentas, o mecânico deitado em baixo do carro, já em plena ação. Guincho? Parece que por aqui não tem. A oficina vai até o carro. Aliás, deve ser uma excelente profissão neste país, pois metade da frota é de carros do tempo em que o calendário de Cuba parou e fez uma longa curva na história. Finalmente, após achar o hotel, luxuoso palacete dos antigos importadores, deixamos nossas mochilas e saímos nas ruas escuras. Os porteiros atenciosos da Habaguanex - companhia turística do governo - nos asseguram que não há perigo. Os assaltos são raríssimos ou inexistentes. Não existem armas em poder da população civil. É uma sensação estranha, para os freqüentadores das grandes cidades do mundo, caminhar pelas ruas escuras e musicais desta metrópole[2], sem sentir medo de ladrões ou violência. Um lugar no mundo onde o crack e o tráfico de drogas e armas praticamente inexiste. Andando devagar podemos ver e ou-

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vir músicos a cada, poucos passos. Grupos de salsa, jazz, música clássica ou folclórica de tão boa qualidade, que chega a dar raiva! Como é que pode? Tanta gente boa tocando em um só lugar e num só dia? Depois de alguns dias, vemos que a noite de Cuba é assim mesmo. Cheia de música, dança e gente do mundo todo. Um bom jazz nos convida a entrar num bar e beber a música. Ao nosso lado, observamos um velho turista inglês de roupas floridas, longos cabelos brancos e sapatos ridículos. Ele abre uma maleta, retira seu instrumento musical e ataca Dave Brubeck num saxofone afinadíssimo, de improviso, se enfiando na banda. A surpresa faz a delícia da platéia e diversão condescendente dos músicos – eles não precisam de mais uma estrela – mas tudo faz parte do show – Cuba precisa e gosta dos turistas. E tem uma hora que dá na gente uma pontada de tristeza e inveja, porque não? Ali em Cuba todo mundo sabe o que é música boa. Ha bons conservatórios e escolas de música. Escuta-se música de qualidade nos táxis, nas bicicletas, nas praias e nas moradias pequenas amontoadas das vielas e prédios de Habana Vieja e demais bairros mais modernos com suas casas elegantes. E parece que em nosso país perdemos a capacidade de ouvir música de boa qualidade... O que aconteceu com a educação musical em um país


que tinha uma das mais belas músicas no mundo? Os músicos cubanos, parece que ainda não sabem o que aconteceu com o repertório brasileiro: ao nos ouvir falar o português já vão atacando a Garota de Ipanema, Aquarela do Brasil e Tom Jobim.

O enfermeiro de família é uma figura conhecida no bairro. A singeleza das instalações não diz que os indicadores de saúde são do primeiro mundo (mortalidade infantil, expectativa de vida)

Numa destas noites de música, um cantor nos pede pra conferir sua pronúncia do Samba de Uma Nota Só do Tom Jobim. Conta que um brasileiro ouviu e não entendeu nada. Naturalmente que o brasileiro não conhecia a música, explicamos para o surpreso cantor. A pronúncia do cubano, embora com sotaque, estava corretíssima. Ele ficou mais tranqüilo. Afinal, tinha ensaiado um bocado e visto o vídeo do velho Tom a cantar montes de vezes. As semanas seguintes nos trazem encontros deliciosos com este povo alegre e acolhedor. Praias incríveis, a cidade palpitante de vida, as marcas da história e da revolução e a ideologia que alguns podem chamar de romântica, outros de ultrapassada, mas que sem dúvida marcou a história da política de nosso tempo. O povo sofre com a escassez de muitas coisas: mas a mortalidade infantil e a expectativa de vida ultrapassam as taxas dos paises ricos. Há educação de qualidade para todos e segurança nas ruas. Cuba sempre será uma polêmica discussão - pra render horas de conversa. Em alguns dias, saímos de nosso luxuoso hotel para ficar na casa de uma familia cubana. Um hostel singelo, mas muito mais acolhedor porque nos servem e se sentam a mesa conosco os donos da casa. Estamos mais perto da Cuba de verdade. Somos recebidos numa unidade de saúde por um simpático enfermeiro de família que nos apresenta pra vizinhança e leva a conhecer o cotidiano de seu trabalho. Ele e o médico são muito queridos nos arredores. A noitinha ele nos recebe em sua casa para um café. Aliás, receber bem é uma rotina por aqui. Em Cuba não precisa muita coisa pra fazer uma festa! O embargo econômico imposto pelo “Irmão do norte” sacrifica a vida dos cubanos. Há falta de tudo, mesmo dos insumos mais elementares. Mas os cubanos continuam se virando como dá e como podem – a prova de que há sim, vida sem consumo. Os velhos carros rodam e na casa onde ficamos um manete de motocicleta substitui com vantagens o cabo da cafeteira. E as plantações de fumo vicejam (não me perguntem como!) sem venenos e sem agrotóxicos.

Prosseguimos nossa caminhada pela escura e musical cidade. Ao dobrar em uma das vielas, nos surpreendemos com a Plaza de la Catedral, uma espécie de praça de alimentação ao ar livre, rodeada de edificações do período colonial espanhol. Há balcões e arcadas, a catedral majestosa, o piso de pedra, mulheres em trajes africanos jogando búzios, pondo cartas de tarô, mesinhas cheias de gente, dança, flores e música. No palco, o Balé da TV Nacional de Cuba e vários cantantes locais fazem o ensaio geral do espetáculo de réveillon, que será muito bem cobrado dos turistas pelo preço dos cabarets mais famosos de Paris. Cuba sabe cobrar muito bem em Euro e Dólar. Afinal, sua maior arrecadação é o turismo.Mas o ensaio geral nos dá a oportunidade de ver o show de graça. Amanha temos um compromisso longe dos turistas. Comemoraremos o Réveillon em um dos velhos casarões, junto com uma família Cubana. Entre os transeuntes que apreciam o show dois lindos turistas observam, cada qual por seu lado. Um chinês, tomando vinho branco e do outro lado um italiano. Fitam ambos o palco com olhos sonhadores. De vez em quando cruzam os olhares. Quando vamos embora, uma hora depois, os dois estão bebendo vinho juntos e conversando animadamente. Em que língua será que falam? Saímos da Plaza com pena de ir embora, mas estamos mortos de canseira. A caminhada de reconhecimento pelos arredores do hotel levou horas ao invés dos 40 minutos que estávamos planejando. Já estamos encantados e nem vimos esta cidade à luz do dia!

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Semanas depois, “com a alma repleta de chão” e de “ la revolucion” - em nosso retorno - levamos na bagagem de mão, muito bem acondicionados os frascos de um medicamento precioso contra câncer: são para tratar um médico de família brasileiro, velho militante marxista, com câncer. Seus amigos se cotizam e lhe presenteiam com o precioso remédio. Temos a incumbência de trazê-lo. E a alegria de saber que nesta edição da revista, quatro anos depois o “doutor” continua vivo e clinicando. O que o curou? A ideologia, o medicamento, ou o carinho dos amigos? Queremos arriscar que foi tudo junto! ballet nacional de cuba

As preciosidades arquitetônicas de La Habana

Cuba mostra que é possível plantar fumo sem venenos.

“Cuba respira cultura” [1] Granma é o jornal oficial do Comitê Central do Partido Comunista Cubano.Seu nome provém de um iate denominado Granma que transportou Fidel Castro e 81 outros rebeldes, para as praias de Cuba em 1956, iniciando a Revolução Cubana.O Granma foi fundado em 3 de outubro de 1965 e nasceu da união de outros dois jornais: os matutinos Revolución e o Hoy.A primeira edição do jornal data de 4 de outubro daquele ano, dia em que o PURSC mudou o seu nome para Partido Comunista Cubano (PCC).Wikipédia

O sol se despede na Marina Heminguay

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[2] La Habana, como é chamada a capital de Cuba, possui aproximadamente três milhões de habitantes e é um conglomerado de várias municipalidades.


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Açores

O SEU PRÓXIMO DESTINO DE FÉRIAS É sempre motivo de satisfação e orgulho para qualquer “escritor” quando aquilo que escreve ou publica tem aceitação por parte do público. Afinal é para ele que os textos são preparados e pensados. Tendo estado a colaborar com a revista Valeu, no Brasil, e com a revista StudioBox, em Portugal, e tendo sido autor de alguns artigos sobre os Açores, foi com muito orgulho que me foi comunicado o interesse de vários leitores pelas ilhas, manifestando o desejo de conhecerem esse pedaço de paraíso na Terra, demonstrando que consegui atingir o que qualquer escritor ou autor deseja, cativar e prender a atenção de quem lê Por esse motivo, e tendo-me sido pedido pela direção da revista Valeu, este artigo é inteiramente pensado com o objetivo de aconselhar os Açores enquanto destino de férias, procurando responder a algumas perguntas para as quais qualquer turista desejava obter respostas: Para onde ir? Quando ir? Como ir? Onde ficar? O que fazer? O que visitar?

Para onde ir? Açores, claro. Nove ilhas, divididas em três grupos: o Grupo Oriental com as ilhas de São Miguel e Santa Maria, o Grupo Ocidental, com as ilhas das Flores e do Corvo, e o Grupo Central, com as ilhas da Terceira, Graciosa e as ilhas do Triângulo (Fail, Pico e São Jorge).

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É possível visitar as ilhas todas numa só viagem? Sim, se se planear ir durante um mês ou se se quiser andar numas férias com as malas atrás, saltando regularmente de ilha em ilha. Para mim, férias são férias e, mesmo em férias ativas e cheias de experiências, tem de haver sempre lugar ao descanso, ao repouso, tanto da mente como do físico, recarregando as “baterias” para o regresso ao quotidiano e à rotina do trabalho e do dia-a-dia. O meu conselho: Visite bem algumas ilhas de cada vez e assim terá sempre um motivo extra para regressar aos Açores. Divida as nove ilhas em quatro grupos para visitar, um com as ilhas de São Miguel e Santa Maria, outro com as Flores e Corvo, outro com a Terceira e a Graciosa, e ainda outro com as ilhas do Faial, Pico e São Jorge. E reserve uma semana (sete a nove dias) para cada um destes quatro pequenos destinos dentro do grande destino chamado Açores. Quando ir? Os Açores têm um clima marítimo com temperaturas amenas que variam desde os 16ºC no inverno aos 26ºC no verão e geralmente durante a noite não são inferiores aos 18ºC. Graças a este clima, os Açores estão permanentemente cobertos de flores. Contudo, devido à grande percentagem de humidade no arquipélago, tem-se a sensação de as temperaturas serem bem mais elevadas. A chuva é uma presença mais ou menos constante durante todo o ano, sendo mais forte e constante durante o inverno. Uma característica própria dos Açores é uma variedade de condições climatéricas a acontecer durante o mesmo dia, onde se pode ter chuva, sol, vento e acalmia, intercalados ou em dife-


rentes combinações. Nos Açores é comum ouvir-se dizer que, se não se está a gostar do tempo, em 10 minutos já se tem outro. As temperaturas do mar sofrem influência da Corrente do Golfo, sendo também elas amenas e entre os 14ºC no inverno e os 24ºC no verão, podendo atingir picos de 26ºC. Sendo o clima ameno e tendo as ilhas uma aparência extremamente verdejante durante todo o ano, não existe propriamente uma altura ideal para ir, tudo dependerá daquilo que procura. O melhor será procurar as datas especiais de cada ilha e juntar alguma diversão às suas férias. Apesar disso, o meu conselho é que procure visitar as ilhas durante o período do verão europeu, mais concretamente entre maio/junho e setembro/outubro.

Como ir? São várias as alternativas para voar para as ilhas a partir de Lisboa. Da mais económica (cuidado com o peso e o tipo de bagagem) a Easy-jet, que voa somente para São Miguel, à TAP com voos para as ilhas de São Miguel e Terceira, e à SATA com voos para todas as ilhas e com ligações regionais diárias entre todo o arquipélago. Entre todas as companhias que voam para os Açores há uma oferta de vários voos diários, aumentando a oferta durante o período do verão. Para quem vive no Brasil a maneira mais fácil talvez seja fazer a marcação através da TAP. Esta, em parceria com a SATA, oferece voos que ligam várias cidades Brasileiras a todas as ilhas do arquipélago. Tendo ainda a possibilidade de utilizar a opção multi-city e marcar as suas passagens já com ligações entre ilhas. Poderá optar por voar diretamente ou por passar um dia ou dois na Capital Portuguesa.

Onde ficar? A oferta é variada, mesmo sem a presença dos grandes grupos internacionais hoteleiros, mas com a presença do maior grupo português, o Grupo Pestana e com a oferta de grande qualidade que está presente nos hotéis do Grupo Bensaúde. Podemos ainda encontrar vários hotéis, pousadas, pensões, hospedarias e até quartos, apartamentos e casas para arrendar durante as férias. Através de vários sites de internet é fácil aceder a esta informação, nem que seja utilizando um simples “motor de busca” como o Google. Além da hotelaria tradicional os Açores ainda oferecem vários parques de campismo e algumas Pousadas da Juventude. Um alojamento muito procurado e de grande qualidade são as Casas Açorianas, o turismo em espaço rural e o turismo de habitação. Aqui a oferta é também variada sendo cada vez maior a procura, por parte dos turistas, de um estilo típico de antigas pe-

quenas casas, hoje recuperadas, e que serviam no passado para funções agrícolas, as Adegas. Através de uma qualquer agência de viagens ou procurando na internet, facilmente se encontra informação relativa às unidades de alojamento disponíveis nos Açores, tanto através do “Booking”, do “Trivago” ou de outro site especializado. E a oferta está disponível para vários tipos de “bolsas”. Aconselho uma visita ao site www.casasacorianas. com para conhecer mais um pouco sobre este meio de alojamento cada vez mais célebre nas ilhas.

O que fazer? Muito há para fazer nas ilhas … canoagem/kayaking, canoagem, geoturismo, golfe, iatismo, parapente, observação de aves, passeios a cavalo, passeios de bicicleta/BTT, passeios pedestres/trilhas, surf, saúde e bem-estar, pesca desportiva e Big-game (pesca de espadim, espadarte, atuns, …) até aos ex-libris que são a observação de cetáceos (os açores são considerados o melhor lugar do Mundo para esta atividade, são cerca de 34 espécies que podem ser observadas no Mar dos Açores), os passeios de barco e de botes baleeiros e o mergulho com escafandro. Não esquecendo de provar a gastronomia Açoriana. Sobre esta matéria já tive o prazer de escrever para a revista Valeu em edições anteriores, pelo que não vou agora alongar-me, repetindo aquilo que facilmente poderão ler novamente através do site da revista Valeu, revistavaleu.com.br: “Turismo de Experiência, a nova realidade”, “Os Açores e o Turismo Náutico”, “Açores, um paraíso no imenso Azul Atlântico“. A expressão “rodeado de natureza por todos os lados” bem que podia ser usada para tipificar a Região dos Açores. O arquipélago oferece condições únicas para o desenvolvimento do turismo de natureza, graças ao seu património natural único, o qual verteu as suas influências num património arquitetónico e cultural cheio de idiossincrasias. Essa herança foi preservada e classificada e inclui a biodiversidade marinha, a flora e a fauna, cavidades vulcânicas e geopaisagens, parques e jardins botânicos, bem como outros recursos naturais exclusivos de cada ilha. Toda esta bio e geodiversidades, juntamente com as cidades e aldeias tradicionais dos Açores, apresentam oportunidades sem igual para o turismo de natureza. Nos exemplos da qualidade e riqueza à espera de serem exploradas incluem-se as rotas turísticas temáticas, como aquelas dedicadas ao vinho, vulcões ou termalismo, trilhos pedestres delineados através de deslumbrantes paisagens naturais, mergulho e fantásticos campos de golfe com vista para o mar e a montanha (Turismo dos Açores, 2016). Da gastronomia Açoriana muito há a dizer, desde os peixes e mariscos, grelhados, fritos, guisados, assados, em caldeiradas ou em caldos de peixe, sobressaem pela frescura, às lagostas, cavacos, santolas e caranguejos onde se juntam os crustáceos como as cracas ou as lapas. Em São Jorge, crescem as únicas

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amêijoas do arquipélago e umas das melhores do Mundo. A carne de vaca dos Açores tem indicação geográfica protegida. Os torresmos de molho de fígado e os enchidos são iguarias a não perder. Os queijos Açorianos também merecem destaque, estando o Queijo de São Jorge a encimar uma tradição de múltiplos e saborosos produtos lácteos. Nas frutas e para além de bananas e maçãs, o clima Açoriano permite também o cultivo de frutas exóticas como o araçá ou a anona. O ananás e o maracujá de São Miguel têm direito ao selo de garantia Denominação de Origem Protegida. A doçaria com sinais de tradição conventual assume especial força no conjunto de bolinhos e docinhos típicos de cada ilha, que surpreendem pelos nomes e sabor. No Pico, Graciosa e Terceira produz-se vinho, agora à base de novas castas e em complemento do outrora famoso verdelho. Cerveja, refrigerantes, vinhos licorosos, licores de frutos e aguardentes complementam uma oferta variada. O cultivo do chá em São Miguel é mais uma nota de exotismo nos prazeres da mesa Açoriana. Mundialmente famoso está o Cozido das Furnas, carnes e legumes que se cozem numa panela enterrada em solos geotérmicos.

O que visitar? Muito há para visitar nos Açores, desde Centro Culturais a Centros de Interpretação, desde Jardins e Parques a Monumentos Naturais, Paisagens, Reservas Naturais e zonas balneares, até aos Museus, ao Património e às festividades. Nas festividades o aspeto etnográfico mais característico dos Açores é o culto ao Divino Espírito Santo que se estende de Maio a Setembro tendo como epicentro da festa pequenas capelas conhecidas por “impérios”. Dos programas festivos podem constar arraiais, marchas, concertos de música, provas desportivas náuticas, eventos culturais, feiras de gastronomia, mostras de artesanato e até touradas. As tradições seculares, os Açores juntaram um conjunto de eventos modernos para evocar o passado, de olhos postos no futuro. A Semana do Mar (Faial), Festa dos Baleeiros (Pico), Cais de Agosto (Pico), Maré de Agosto (Santa Maria), Semana Cultural das Velas (São Jorge), Sanjoaninas (Terceira), Festas da Praia (terceira) ou Festa do Emigrante (Flores) são pontos altos num calendário festivo muito preenchido.

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A classificação pela UNESCO do centro histórico da cidade de Angra do Heroísmo e da Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico como Património Mundial da Humanidade são reconhecimentos de monta. Tal como a classificação das ilhas Graciosa, Corvo e Flores como Reservas da Biosfera. E locas de visita obrigatória. Noutras frentes, o arquipélago afirma-se como destino turístico de excelência e respeitador dos valores ambientais e socioculturais. Assim o atestam iniciativas e galardões nacionais e internacionais, como a eleição da Lagoa das Sete Cidades e da Paisagem Vulcânica da Ilha do Pico como Maravilhas Naturais de Portugal. Ou o epíteto de “segundas melhores ilhas do mundo do ponto de vista do turismo sustentável”, onde, a par da simpatia das populações, se enaltece uma preservação ambiental bem sucedida e um desenvolvimento turístico feito de forma harmoniosa. O Geoparque Açores, que em breve se candidata às redes europeia e global sob os auspícios da UNESCO, representa o mais recente desafio nesta caminhada (Turismo dos Açores, 2016). A arquitetura é um dos principais pontos de atração que poderá ver nos Açores. Moinhos de vento e azenhas, varandas de ferro forjado, fornos e chaminés, ruas, ruelas e becos estreitos e casas de paredes inteiramente de pedra escura, são outros elementos que dão tipicidade a cada uma das ilhas. Através de variadas coleções etnográficas, os museus açorianos refletem uma história muito ligada ao cultivo da terra, criação de animais, artesanato e pesca. A caça à baleia ganha especial atenção nas ilhas do Pico e do Faial, com vestígios e relatos de uma época interpretada por homens valorosos. O espólio de arte sacra preenche salas de exposição museológica, mas grande parte do valor artístico permanece no interior das igrejas. Desde visitar as lagoas açorianas, os vulcões, as grutas, a Marina da Horta, as cascatas de água quente em plena floresta Atlântica, as vinhas do Pico e a sua montanha, as piscinas naturais, muito há que fazer nestas ilhas e muito ficará para se visitar, visita após visita!

Para melhor conhecer todas as respostas de uma maneira mais desenvolvida é aconselhável uma visita aos sites de internet oficiais dos Açores. As recomendações recaem sobre o www.visitazores.com, pt.artazores.com www.destinazores.com por Heitor Castel´Branco


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Um passeio pela profundeza azul Recentemente inaugurado, o Museu Oceanográfico Univali é uma visitação obrigatória para conhecer a incrível diversidade da vida sob e sobre os oceanos Santa Catarina é um estado abusado. Onde talvez menos se esperasse, com uma população de quase 7 milhões e 1,12% do território nacional, é nele onde se erguem empreendimentos que chamam a atenção pelo ineditismo e grandeza. Em Joinville, está a única filial da maior escola de dança do mundo, o Bolshoi. Em Penha, há 20 anos o Parque Beto Carrero World se consolida como o maior da América Latina. E mais recentemente, desde 14 de dezembro de 2015, o estado acumulou outro título de orgulho: o de ser sede do maior museu oceanográfico da América Latina. O empreendimento surgiu com um acervo grandioso, que o posiciona entre os quatro principais do País em história natural. Quem passeia pelos 4 mil metros quadrados do Museu Oceanográfico Univali, em Balneário Piçarras, poderá perceber toda a extensão e variedade desse acervo. E mais do que isso, impressionar-se com a possibilidade de observar espécimes que despertam fascínio e curiosidade. O interesse por essa viagem seca pelos mares já levou muita gente até o MOVI, como é chamado. Desde sua inauguração, já foram mais de 20 mil pessoas que percorreram corredores que nos conduzem a uma experiência didática pelo ecossistema marinho. O programa agrada adultos e deslumbra crianças. Não é para menos. Tanques exibem diversas espécies do grande senhor dos mares: os tubarões. Um painel com mandíbulas do maior predador dos oceanos é uma visão impactante: o visitante pode ver de perto a “produção em série” de dentes dessas espécies. Pura necessidade de sobrevivência: um espécime pode chegar a perder 30 mil dentes ao longo de sua vida, que varia entre 20 e 45 anos. Em outra coleção cheia de peças de diferentes formatos e tamanhos, uma espécie que também captura a atenção do público é a concha gigante, uma das mais procuradas por colecionadores, que se destaca naquele que é o maior acervo de conchas da América Latina. O MOVI também ostenta o título de segunda maior coleção de tubarões e raias no mundo, além de segunda maior coleção de tartarugas marinhas da América Latina.

Museu Oceanográfico Univali

enterrados na areia pela mãezona réptil. Ao lado dessa instalação, pode impressionar-se também com o exemplar de uma tartaruga jamanta num cenário de praia. A coleção de mamíferos marinhos é a maior do País. Golfinhos, baleias, focas, lobos e leões marinhos fazem parte do acervo. Para os defensores da vida animal, um alívio: todos os espécimes das coleções foram retirados da natureza já mortos. O visitante mais atento pode distinguir marcas diversas nos exemplares. “São sinais que justamente mostram um pouco da história de vida desses espécimes”, valoriza o curador do museu, o geógrafo e doutor em Zoologia, Jules Marcelo Soto. O professor é o principal responsável pelo acervo que posiciona o MOVI entre os grandes empreendimentos do gênero no mundo. Um esforço quase obsessivo que remonta ao ano de 1976, quando coletou a primeira peça da coleção. O interesse de Soto é pra lá de precoce: aos cinco anos começou a catar animais e guardá-los em casa. Aos 12, a casa entulhada forçou o menino a se desfazer de parte da coleção. Só de insetos, uns três mil em alfinetes, devidamente catalogados e doados ao museu da PUC. Aos 16 anos, a paixão por coleções o levou até a África, num navio estrangeiro, sem documentos nem dinheiro. O prêmio dessa aventura foi uma mandíbula de tubarão hoje exposta no museu. Tanto entusiasmo explica porque, em pouco mais de 20 anos, o curador juntou algumas das maiores coleções do mundo, apoiado, nos últimos anos, por instituições como a Universidade do Vale do Itajaí, mantenedora do MOVI. A maior joia do acervo, porém, ainda não está em exposição. É um exemplar, o único no mundo, de um tubarão baleia inteiramente conservado, após ser encontrado morto na praia de Perequê, em Portobelo, em junho de 2013. O espécime tem 9 metros, pesa cerca de seis toneladas e será a grande estrela de uma nova estrutura do museu, no lado externo, um espaço a ser construído em breve e que abordará a formação dos mares.

Embora haja aquários com pequenos espécimes vivos, a maior parte da coleção é composta por indivíduos taxidermizados. Para dar vida à coleção, a curadoria preocupou-se em recriar pequenos habitats, onde o visitante pode, por exemplo, contemplar a difícil jornada das pequenas tartarugas para chegar à superfície das praias depois da eclosão dos ovos

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Até lá, o visitante pode terminar o passeio pelo museu contemplando outros gigantes dos oceanos. Um amplo salão abriga esqueletos completos de baleias, golfinhos e outros mamíferos, uma impressionante visão da arquitetura corporal de seres marinhos que, ameaçados pela irresponsabilidade de alguns humanos, encantam aqueles que visitam o museu – essa a maior conquista do empreendimento, ou seja, mostrar a biodiversidade sob risco da ação humana e sensibilizar todas as gerações para a ocupação, até aqui desastrosa, do mamífero supostamente mais inteligente da terra. Quando responde à pergunta sobre a ideia original do museu oceanográfico, o geógrafo começa a puxar o fio lá na própria infância, aos cinco anos de idade, quando começou a catar animais e a guardá-los em casa. Assim que aprendeu a ler e escrever, passou a catalogá-los também. Em tempos pré-internet, adquirir esse tipo de conhecimento exigia visitas a bibliotecas e museus, com incômodos pedinchos de orientação aos especialistas, conta Jules. Aos 12 anos, havia tanta tranqueira em casa e com parentes e amigos, que a mãe decretou um basta. Lá se foi o guri do bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, até o museu da PUC negociar a doação de metade do material. Ficou “apenas” com o que se relacionava com a parte oceanográfica. “Eu lembro bem quando cheguei na PUC e falei que queria falar com o curador e doar meu acervo. Ele concordou. Disse ‘tá, então tu trazes’. Pedi um transporte, e eles disponibilizaram uma Kombi. Foram várias viagens. Quando o material começou a chegar, o curador não acreditava. Só de insetos em alfinetes, tinha três mil”, lembra, bem-humorado.

O ACERVO DO MOVI a maior coleção privada de tubarões e raias do mundo (9.900 espécimes); a maior coleção de tartarugas marinhas da América do Sul (400 espécimes); a maior coleção de mamíferos marinhos do Brasil (600 espécimes); a segunda maior coleção de aves marinhas do Brasil (650 espécimes) a maior coleção de peixes marinhos do sul do Brasil (7.300 espécimes); a maior coleção de invertebrados marinhos do sul do Brasil (8.000 espécimes); a maior coleção de conchas do Brasil e segunda da América Latina (90.000 espécimes); um amplo laboratório de análise e processamento todo em inox e equipado para as necessidades do museu, incluindo balcões frigoríficos; um auditório perfeitamente equipado para 200 pessoas; escritórios administrativos e de curadoria;

Aos 16 anos, embarcou numa viagem de mais de um mês num navio estrangeiro. Acabou na África sem documentos, sem dinheiro, mas com uma mandíbula de tubarão que estará no museu de Piçarras. Mergulhou muito, dos 14 aos 21 anos: mais de 1500 horas de mergulho e muitas novas peças coletadas. Depois, criou uma ONG para dar continuidade ao trabalho de cientista amador. Com dificuldades para manter o centro, negociou com algumas universidades a criação de um museu.

sala de reserva técnica;

O Museu Oceanográfico Univali (MOVI), foi criado em 1987 e está entre os quatro principais acervos de história natural do Brasil, sendo que na temática oceanográfica é o maior da América Latina.

9 salas de aula climatizadas, com cadeiras estofadas e equipamento de mídia para cursos, minicursos e eventos;

O MOVI faz parte do Conselho Internacional de Museus (ICOM) junto aos museus de história natural (NATHIST), desde 1994, e seu sistema de curadoria adota os critérios éticos e técnicos estipulados por este conselho, como o Código de Deontologia do ICOM (2002). É cadastrado junto ao Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) órgão federal que regula e orienta as ações museais no país e considerado

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“Coleção de Excelência” pelo CNPq e “Instituição de Referência” pela CAPES, indicado para trabalhos de pós graduação em nível de pós doutorado.

biblioteca especializada com valioso acervo de livros, periódicos e separatas de praticamente todas as áreas de estudo do museu que embasam a pesquisa e os textos da exposição; acessos e banheiros totalmente adaptados para portadores de necessidades especiais;

amplo estacionamento, inclusive para ônibus; acessos asfaltados desde a BR 101; 950 m2 de área de coleções com estantes e móveis metálicos em salas divididas por temas, incluindo coleções secas (climatizadas) e úmidas.


Especializada na área marinha mais de 1200 livros técnicos, 6200 artigos científicos na área marinha mais de 550 títulos de periódicos nacionais e estrangeiros), fototeca (com aproximadamente 13 mil fotos que abrangem a história do museu, espécimes da coleção do museu e de outras instituições, ilhas oceânicas brasileiras, Antártida, entre outros ambientes estudados) videoteca (contendo programas, reportagens e documentários sobre expedições científicas e a vida marinha) Desde 1994 o MOVI vinha desenvolvendo técnicas para a conservação fixada em meio úmido de grandes animais marinhos. Neste período conseguiu conservar de forma inédita golfinhos, pequenas baleias e tubarões com sucesso, sendo alguns únicos no mundo. Em 2013, numa ação ousada, considerada inviável por diversos especialistas de grandes museus estrangeiros, a equipe do MOVI trabalhou na conservação de um tubarão-baleia (Rhincodon typus) com 9 metros, no que obteve total sucesso, sendo este o maior animal conservado inteiro em todo o mundo! Um prédio especial para este espécime está sendo projetado e possibilitará a total contemplação pelo público até

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Veleiro de Apoio Oceanográfico O VApOc “Ammuce” é um veleiro modelo Trismus 37’ Austral, produzido em alumínio naval adaptado para realizar expedições oceânicas nas mais diversas latitudes e nos três oceanos. Propõe-se que torne a principal ferramenta de pesquisa embarcada do MOVI, partindo para uma viagem de volta ao mundo já no dia seguinte da inauguração do MOVI. 15 mil pessoas já visitaram o Museu Oceanográfico Relatório da curadoria do Museu aponta que até o dia 26 de janeiro 14.948 pessoas já se encantaram com a formação dos oceanos, a evolução dos seres vivos, a história da oceanografia apresentados no Museu. Inaugurado no dia 14 de dezembro, o Museu Oceanográfico Univali (Movi), em Balneário Piçarras, recebeu quase 15 mil visitantes. Para ser mais exato, um relatório da curadoria do Museu aponta que até o dia 26 de janeiro 14.948 pessoas já se encantaram com a formação dos oceanos, a evolução dos seres vivos, a história da oceanografia, os recursos vivos e minerais dos oceanos e a preservação do meio-ambiente marinho. “Sem dúvidas é uma visita que eu recomendo. Minha família, principalmente meus filhos (João e Dante) ficaram alucinados com a riqueza do Museu”, define David Romani, que visitaram o local no dia 3 de janeiro. O local é o maior do gênero na América Latina recebeu 4.192 visitantes em dezembro e 10.756 até o último dia 26. Só há elogios. “Impressionante a variedade e qualidade da exposição permanente. Modestamente recomendo”, indica o professor, Wagner Luiz de Menezes. “Fui conhecer o Museu na primeira semana de abertura, sem subestimá-los, mas fiquei surpreso com o que presenciei. Como biólogo e professor, parabenizo a todos pelo grandioso empreendimento. Ótimas instalações, acessível, bem localizado, super organizado, bem didático (apesar de estar ainda sendo preparado), um acervo impressionante, ótimo atendimento. Estou realmente satisfeito e orgulhoso por ganharmos algo tão importante e de tamanha qualidade para o nosso Estado, tão carente de locais com esse propósito. Recomendo a todos”, pontuou Silvio Sato, em análise ao Museu via facebook. Os elogios se estendem à exposição oceanográfica que tem mil metros quadrados, uma das maiores do Brasil, o que somado a todas as demais áreas do museu atinge aproximadamente quatro mil metros quadrados de área construída, classificando-o como um dos maiores museus de história natural da América Latina e o segundo maior museu oceanográfico do mundo. “Épico, é o mínimo que poderíamos dizer para descrever a grandiosidade da obra”, definiu Cássio Tambara, também em rede social.

COLEÇÃO DE CONCHAS No local os visitantes têm acesso a um acervo que reúne coleções em diversos grupos de grande importância científica, destacando a maior coleção de conchas da América Latina, que incluem as duas conchas mais procuradas por colecionadores no mundo; a maior coleção de mamíferos marinhos do Brasil, com baleias, golfinhos, focas, lobos e leões marinhos de diversas espécies; a maior coleção da América Latina de tartarugas marinhas; a segunda maior coleção de elasmobrânquios (tubarões e raias) do mundo, com exemplares raríssimos e únicos em nosso continente. Além disso, o museu desenvolve coleções de referência que representam o maior número possível de táxons e que possibilitam pesquisas taxonômicas modernas sobre a fauna marinha. A maior parte do acervo é composta por animais marinhos da fauna Brasileira, especialmente do sul do Brasil. “O acervo do Museu Oceanográfico possui itens da história do mergulho, datadas da década de 40 e utilizados pelos primeiros mergulhadores autônomos da história”, frisou o curador do Museu, Jules Soto. A visitação pode ser feita de terça-feira a sexta-feira das 14h às 20h e sábado e domingo das 10h às 18h. O ingresso inteiro custa R$ 20. Colaboradores da Univali, assim como estudantes, crianças entre seis e 12 anos e pessoas acima de 60 anos, pagam meia-entrada. Crianças até cinco anos não pagam. por Luiz Garcia

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VAI DAR TUDO CERTO Nem tudo está perdido. Fica tranqüilo, vai dar tudo certo. Pode até ser uma frase clichê, ouvida e sentida quase que diariamente. Mas, temos que confessar que ela faz toda diferença em qualquer monotonia do nosso dia. Dá aquela sensação de posso e consigo tudo. Traz uma esperança danada, te alegra e te faz vivo. Simples, fácil de dizer. Com toda sua complexidade por trás. Complexa na sua potência. Bonita na sua fraqueza, mesmo que por hora desacreditada. Reveladora quando confiante. E é ali que o pensamento mostra toda sua bravura. Estufa o peito e vai. Vai, que vai dar tudo certo. Por pior que a situação seja um ‘vai dar tudo certo’ ilumina, engrandece, desentristece. Um ônibus perdido, uma chuva avassaladora, um pneu furado, uma doença, um coração partido, uma busca por emprego, uma decepção, um contratempo, uma casa nova, uma vida nova. Vai dar tudo certo. Essa ‘fezinha’ de cada dia vem arraigada de sinais que algo maior manda. Uma força maior que se mostra presente numa simples folha que cai no outono, no olhar profundo e carinhoso de um cachorro, nas risadas nutridas de lágrimas de felicidade, no vento que acalanta as copas das árvores, nos raios de sol que penetram por entre as folhas, nas nuvens que revelam-se em formatos conhecidos e antes vistos, nos sabores e cores da comida, nos cheiros que a mata emana sem cansar. Abençoados os que acreditam na potência desse tipo de pensamento dessas palavras ditas. Que espalham infinitos ‘vai dar tudo certo’ por aí. E isso pode mudar uma vida. Se encarado como um incentivo, um apoio. O ‘vai dar tudo certo’, muitas vezes, não precisa ser dito, precisa ser acreditado. Visto, observado com sensibilidade. Pode ser encontrado e ‘dito’ de maneiras não ditas, como um abraço, um olhar, um gesto simples de ternura e carinho. Aqueles momentos em que ser é crer, em que pensar é sonhar, é materializar. É preciso cuidado também para não cair nos atropelos da vida e deixar de acreditar que no fim tudo dá certo. Independentemente se deu certo agora, depois, amanhã, ano que vem. A paciência e a fé são amigas dessa positividade. Liberte-se das amarras do negativismo, do pessimismo. Creia sempre. Por fim, vai dar tudo certo. E a vida é isso, um ‘vai dar tudo certo’ incansável, uma luta sem fim. E então, pergunte-se: que sentido teria a vida sem esse lema? por Thyara Antonielle Demarchi

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