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Ano III - Número 9 Maio de 2010

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Cardápio do Dia

Prato Principal

Barulho no Cardápio

Guarnição

Som Alto em Frente ao RU e carreatas em torno dos prédios centrais geram polêmica Sobremesas iNFRAESTRUTURA DO CAMPUS À NOITE página 12

CONSEQUÊNCIAS DO Boicote ao Enade no curso de Ciências Sociais

pÁgina 8

27 HORAS DE TEA-

TRO EM VALE DO SOL pÁgina 20

Bom Apetite!


sumário 4

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entrevista

Entrevista com o professor Janio Santurio sobre pesquisa acadêmica e Pitiose.

de fora para dentro

Saiba a origem dos alimentos servidos no RU.

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de dentro para fora

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geral

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Acadêmicos convivem com famílias de pequenos agricultores e aprendem novas formas de ver a velha teoria. O boicote do curso de Ciências Sociais ao Enade, suas motivações e consequências.

geral

Acessibilidade a passos lentos.

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geral

O “noite-a-noite” do campus da UFSM e o desenvolvimento de cursos noturnos.

capa

Som alto em frente ao RU do campus provoca discussões e controvérsias entre a comunidade acadêmica.

paralelo

Rede de telemedicina promete uma revolução no ensino e na prática médica no Brasil.

o arco da velha

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cultura

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O funcionamento da nova unidade do Restaurante Universitário (RU) era a esperança de que o serviço fosse melhorado e a espera nas longas filas fosse abreviada. No entanto, a Diretoria do RU teve que contornar outros problemas. Mesmo com a diminuição das filas, o número de almoços servidos aumentou em 1.400. Devido à grande demanda, os cozinheiros têm que trabalhar dobrado e a infraestrutura do restaurante não é a ideal para tanto serviço. A previsão de reformas na cozinha é para o mês de dezembro, época em que inicia o período de férias da Universidade. Segundo a equipe de nutrição, também faltam panelas para fazer a diversidade de pratos que os alunos estão acostumados. Nas palavras do diretor Odone Romeu Denardin “tudo é imprevisível no RU”. Para melhorar o atendimento, ele sugere que as refeições passem a ser agendadas obrigatoriamente. Assim, haveria uma previsão da quantidade de almoços, e redução do desperdício de alimentos. Um avanço no RU da UFSM neste primeiro semestre de 2010 foi a substituição dos 5.400 copos descartáveis diários por copos e cremeiras reutilizáveis.

categorias

Estrutura de assistência estudantil em Frederico Westphalen e Palmeira das Missões.

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RU: NOVIDADES E CONTRATEMPOS

Fotos históricas mostram curiosidades à respeito da UFSM.

Para mais informações sobre os copos do RU, acesse: www.coposdoru.wordpress.com

Grupos da UFSM viajam para festival de teatro em Vale do Sol.

cultura

LICA: há mais de duas décadas brincando de fazer arte.

perfil

Local em frente ao HUSM reúne diariamente histórias de vida.

expediente

Revista Laboratório do 5º semestre de Jornalismo UFSM Edição: Marília Denardin Budó Diagramação: Bibiano Girard, Guilherme Gehres, José Luiz Zasso, Luciana Minuzzi, Mariana Soares e Tiago Miotto. Revisão: Ananda Müller, Gianlluca Simi, Jaqueline Araujo, Lara Niederauer e Nathália Costa Professora Responsável: Marília Denardin Budó DRT/ RS 12238 Arte de Capa: Mariana Soares Endereço: Campus UFSM, prédio 21, sala 5234 Telefone: (55) 3220 8811 Impressão: Imprensa Universitária Data de fechamento: 13 de maio de 2010 Tiragem: 500 exemplares redacao.txt@gmail.com 2 .txt Maio de 2010

NOVO INGRESSO

No dia 12 de abril, a Comissão VES) realizou uma assembleia na C para apresentar a proposta da reito UFSM. De acordo com a proposta, comitantes de prova: seriada e únic um de redação. A longo prazo, aume provas de Artes, Educação Física e S No dia 7 de abril, entidades com (DCE), a Seção Sindical dos Docen ciação dos Servidores da UFSM ( para discutir alternativas de ingresso cida voz ativa na formulação da pro depois. Pediram por mais tempo an por maior participação da comunid segundo as entidades, concentaram momento, é a da mudança.


carta ao leitor UM PLANETÁRIO DE SONS Lucy dançou em meio a diamantes sinfônicos muito bem lapidados no céu de Santa Maria na noite do último dia 29 de abril. O Largo do Planetário, no campus da UFSM, transformou-se num grande campo de morangos, talvez não para sempre, mas pelo menos durante os aproximadamente 120 minutos nos quais a banda santa-mariense cover de Beatles Band On The Run e a Orquestra Sinfônica de Santa Maria, sob regência do maestro Ênio Guerra, subiram no palco estruturado em frente ao Planetário Amarelo da Universidade. A UFSM recebeu este presente, como o primeiro de uma série de regalos, pela comemoração de seu jubileu de ouro. O show iniciou aproximadamente às 19h e contagiou o público de quase três mil pessoas. O ápice da apresentação foi justamente o momento do bis, quando as canções “All You Need Is Love” e “Hey Jude”, dos Beatles, levaram a platéia a cantar em uníssono por vários minutos. Imaginando todo mundo apenas com o céu sobre si? Exatamente! O show foi ao ar livre, e, obviamente, num dia tão especial, não houve inferno abaixo de nós!

O, NEM TÃO NOVO

A produção de uma revista-laboratório traz aos alunos lições que ultrapassam a mera técnica: o exercício da liberdade de imprensa em uma sociedade democrática traz responsabilidades éticas e jurídicas. Ao tratar de questões polêmicas, a responsabilidade social da imprensa deve ser simultânea ao respeito às liberdades e à pluralidade de pontos de vista. Nesta edição da .txt, assuntos com essa característica são tratados: os ruídos em frente ao Restaurante Universitário e as consequências do boicote ao Enade. Na editoria Geral, constam ainda uma matéria que confronta as novas vagas noturnas e a estrutura do campus à noite, e outra sobre a contradição entre a adoção de cotas para deficientes e o insuficiente investimento em acessibilidade. A revista traz ainda variados assuntos: a pesquisa e a produção de vacina na universidade, a participação de grupos da UFSM em um festival de teatro que durou 27 horas ininterruptas, o programa de estágio de vivência, a assistência estudantil no campus de Frederico Westphalen, entre outros tantos. A novidade é a editoria O arco da velha, criada com o intuito de apresentar algumas imagens peculiares da UFSM ao longo de seus cinquenta anos de história, completados neste ano de 2010. Desejamos a todos uma ótima leitura!

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Foto: Ronei Rocha

o Permanente do Vestibular (COPERCâmara de Vereadores de Santa Maria oria para o novo sistema de ingresso à passaria a haver duas modalidades conca. Seriam, no total, três dias de prova e entaria o peso da redação e se incluiriam Sociologia. mo o Diretório Central dos Estudantes entes da UFSM (SEDUFSM) e a Asso(ASSUFSM) realizaram uma plenária o, pois, segundo elas, não lhes foi ofereoposta que seria apresentada cinco dias ntes de uma decisão definitiva e também dade acadêmica nas discussões, as quais, m-se na reitoria. A única certeza, nesse

Marília Denardin Budó

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entrevista

Quando a pesquisa dá certo

Fotos: Luciana Minuzzi

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Luciana Minuzzi

história dos animais infectados com Pitiose não tinha um final feliz. O primeiro que o professor e pesquisador Janio Santurio viu doente, morreu, deixando os donos e os filhos dos donos desolados. 101.555 é o número do primeiro fungo da Pitiose isolado por Santurio e pelos pesquisadores do laboratório em que trabalha: o Laboratório de Pesquisas Micológicas (Lapemi), no departamento de Microbiologia e Parasitologia do Centro de Ciências da Saúde (CCS), da UFSM. Esse fungo saiu de uma lesão de um cavalinho que tinha a morte como destino certo. A vacina Pitium-Vac, patenteada pelo Lapemi em parceria com a Embrapa Pantanal, ajudou o cavalinho abandonado pelo dono e hoje ele coleciona títulos de concursos por todo o Brasil. Final feliz para o cavalo. Mas ainda há muito a se fazer. A vida de pesquisador é feita de experiências com resultados positivos e negativos. Os cavalos já estão se recuperando, mas muitos humanos sofrem com a doença. Como o pesquisador fica no meio dessa história? Leia na entrevista a seguir com Santurio. Entenda a Pitiose

.txt: Algum motivo em especial para, dentre todas as doenças relacionadas a fungos, escolher a Pitiose? Professor Janio Santurio: Eu já trabalhava com Micologia há cinco anos, e aparece um desafio. Tinha um pônei doente no Hospital Veterinário, com uma lesão, um tumor muito grande na barriga e foi mandado material dele para nós, porque o clínico suspeitou que fosse Pitiose. Analisei, confirmei o diagnóstico e mandei o resultado. Dois dias depois, aparece o dono do animal e pergunta: “tenho um menino de seis e um de quatro que estão aprendendo a andar no cavalinho e esse animal é como se fosse um cãozinho pra eles, não tem um remédio pra isso?”. Não tinha tratamento. O cavalinho foi sacrificado. Isso me abalou profundamente e eu resolvi pesquisar. Cerca de 10 anos depois eu consigo montar algo que combate essa resposta errada que o animal tem diante à infecção. .txt: Como são os anos de intervalo entre o início da pesquisa e os resultados positivos mais efetivos? J.S.: Foi uma luta que exigiu persistência. Quem trabalha com pesquisa não pode desistir no primeiro revés que acontecer. Quem me ajudou muito foi a Embrapa, com a sede no Pantanal porque lá a doença é comum. Encontrei no Pantanal animais infectados para trabalhar e foi aí que tudo andou. Acabei fazendo o controle microbiológico da vacina e agora estamos numa fase mais adiantada. Estamos trabalhando intensamente para, talvez no futuro, conseguirmos uma vacina preventiva.

A Pitiose (Ferida-da-Moda) é uma doença tumoral, ataca o tecido subcutâneo, podendo atingir órgãos internos. É transmissível pelo contato com a água contaminada com o fungo, o Pythium insidiosum. Equinos são os que mais sofrem com a Pitiose, mas há muitos casos em bovinos, felinos e humanos. Não existe droga antifúngica para tratar a doença, a Pitium-vac tem se mostrado como a melhor alternativa para o tratamento da Pitiose em equinos. Mais informações no livro Pitiose: uma abordagem micológica e terapêutica, escrito pelos professores Janio Santurio e Laerte Ferreiro, ou no site: www.pitiose.com.br

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.txt: Não existe maneira de prevenir a Pitiose? J.S.: Não, a não ser que, no caso dos cavalos, não deixe que o animal entre em contato com a água, o que é uma coisa complicada no Pantanal, por exemplo. Até mesmo no Nordeste, tivemos casos em que cavalos entravam em pequenos açudes e adquiriam a doença. O Pythium é um organismo que está em toda água, não há como domar a natureza nesse aspecto. Existe alguma coisa pela qual o animal ou a pessoa é mais suscetível a atrair o fungo. Ainda estamos tentando desatar esses nós, para isso temos publicado muito no exterior, para trocar informações. Posso afirmar que o Lapemi é fonte de referência a nível mundial em Pitiose. .txt: O senhor citou que o Lapemi é referência


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Há mais de 30 anos, o professor Janio Santurio trabalha com pesquisa e ensino.

internacional no campo da Pitiose. Como os outros cientistas veem o trabalho do Laboratório? J.S.: O nosso trabalho está tendo aceitação. Tanto que as revistas internacionais aceitam. Esse é o maior aval do nosso trabalho: a publicação. A aceitação de um trabalho científico realmente tem valor quando publicado em uma revista científica, com aval da comunidade científica. Agora se mandar e ninguém aceitar, algo errado há. .txt: O que o senhor sente quando vê um artigo sobre a Pitiose publicado? J.S.: A satisfação de um trabalho desenvolvido, é poder divulgar conhecimento. Essa é a nossa verdadeira função aqui na universidade, não é ficar fechado em quatro muros. Para isso as pessoas pagam impostos e nos pagam o nosso salário. Tem que dar um retorno. .txt: Quais os maiores desafios para um pesquisador da sua área? J.S.: Manter-se atualizado é um grande desafio. A avalanche de novos conhecimentos é tão grande que se o pesquisador não se mantiver atento e não souber fazer uma seleção do que foi publicado, acaba tendo uma confusão mental de tanto disponível para ler. A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) tomou uma atitude revolucionária, passou a assinar revistas científicas a nível internacional e colocou em um portal na Internet para as universidades e centros de pesquisa. Quer dizer, acesso a milhares de artigos online, na hora que quiser. Esse pra mim foi o principal motivo para elevar a qualidade da ciência no Brasil. O segundo gatilho foi a maior aplicação de recursos para pesquisa nas universidades através do Conselho Nacional de Desenvolvimento científico e Tecnológico (CNPq). Outro desafio é a deficiência de equipamentos e não só isso, mas os equipamentos se sucateiam e se tem pouco ou nenhum recurso para a manutenção deles. O outro grande fator que está limitando a pesquisa, é que hoje para você ter um estudante estagiário ou estudante com bolsa é complicado, porque tem uma série de imposições e de legislação sobre isso que faz com que fique mais caro ter um bolsista. E o outro é o pequeno número de bolsas na pós-graduação, porque muitos estudantes não têm condição de se manterem aqui. O aluno acaba tendo que trabalhar

para ter recursos, sem poder se dedicar totalmente ao doutorado. O outro problema é a importação de materiais. Há muita burocracia. Apesar de que aqui na UFSM nós temos o setor de patrimônio que é bem ágil nisso. Para fazer ciência no Brasil é muito mais caro do que no exterior. Força de vontade não falta. O brasileiro é muito capaz na área de pesquisa, desde que tenha apoio. Os recursos para pesquisa distribuídos deveriam ser mais bem fiscalizados também. Então nós temos esses vários problemas, mas não temos mais problemas de informação. Na década de 80, a biblioteca recebia revistas com seis meses de atraso. Hoje é possível ler um trabalho no dia em que foi publicado. .txt: O que o senhor diria a um pesquisador iniciante que almeja atingir um resultado positivo como no caso da Pitiose? J.S.: Se não tiver curiosidade científica, iniciativa, disponibilidade, conhecimento teórico e prático e apoio técnico, você não consegue fazer nada. Terminou, gerou dados, escreve e publica. Tem que escrever, apresentar o que faz para ajudar aos outros e ao país. O desenvolvimento da pesquisa não acontece da noite para o dia. É lutado, com paciência, se dá errado, começa de novo. Erramos muito mais do que acertamos até encontrar o certo.

“Essa é a maior recompensa que se pode ter: a certeza de que o seu trabalho ajuda os outros e esclarece alguns problemas”

.txt: Como o senhor vê o futuro da Pithium-vac? J.S.: A cada mês, o número de doses vendidas da vacina é dobrado. Nós vamos aperfeiçoá-la. Eu tenho a impressão de que em breve vamos passar as fronteiras do Brasil em termos de vendas. Estamos em negociação para firmar convênio com a Mahidol University, na Tailândia, e possivelmente, desenvolver a vacina para os humanos, mas é incipiente, ainda não sabemos o que vai acontecer. .txt: Como o senhor sente-se sabendo que sua pesquisa está dando certo? J.S.: É gratificante. Saber que a gente conseguiu recuperar um animal condenado à morte é uma recompensa enorme, porque conseguimos controlar isso de uma maneira, ainda não suficiente, mas já melhorou muito o problema que temos com Pitiose. Pesquisador, cientista, não pensa nunca em ficar milionário, é difícil isso acontecer. Essa é a maior recompensa que se pode ter: a certeza de que o seu trabalho ajuda os outros e esclarece alguns problemas. .txt .txt Maio de 2010

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de fora para dentro

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De onde vem a comida do RU? Milhares de pessoas comem todos os dias no Restaurante Universitário da UFSM. No entanto, a maioria delas não sabe de onde vêm os alimentos que consomem no RU. Guilherme Gehres e Mariana Soares

Fotos: Guilherme Moreira e Mariana Soares

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Outro motivo é que no Rio Grande do Restaurante Universitário da UFSM, o RU, serve diariamente Sul há empresas conhecidas do restaurante, cerca de 6.500 refeições entre café- as quais já fornecem produtos há bastante da-manhã, almoço e jantar. Para atender à de- tempo. Quatro delas são da região central do manda, o RU firma contratos com empresas Estado, três de Santa Maria e uma de São João de diversos setores alimentícios. As compras do Polêsine. Em Santa Maria, encontramos o são realizadas através de licitações anuais de Frigorífico Silva, o Stangherlin e o Panifício produtos cadastrados no Portal de Compras Mallet. O Frigorífico fornece os cortes de cardo Governo Federal, o COMPRASNET ne bovina, e o Stangherlin entrega os cortes de frango. Já o Panifício Mallet produz todos (www.comprasnet.gov.br). Esse portal registra a oferta de qualquer os pães fornecidos ao RU. Em São João do Polêsine, encontra-se um empresa privada apta a vender seus produtos para instituições públicas. Segundo a Chefa dos fornecedores mais antigos em contrato Administrativa do RU, Dione Siqueira, o RU com o RU, a Foletto Alimentos. Segundo recebe fornecimentos de várias regiões do Marco Antônio Foletto, dono da companhia, país: “Qualquer empresa dentro do Brasil pode nos fornecer produtos. Se ela estiver regularizada no SICAF (Sistema de Cadastramento de Fornecedores), pode entrar no pregão”. Dessa forma, o RU tem a oportunidade de receber produtos de vários estados do Brasil e não apenas do Rio Entrega de doces para o almoxarifado do RU Grande do Sul. No entanto, em relação ao setor alimen- a empresa fornece mandolates, paçocas e tício, o que acontece é realmente o contrário: torrones há oito anos para o restaurante unitodas as empresas que fornecerão alimentos versitário. Durante esse tempo, a empresa em 2010 são daqui do Estado. Segundo a equi- sofreu adaptações, como o investimento em pe do RU, o principal motivo para que isso máquinas e equipamentos para aumentar a aconteça é a proximidade geográfica dos for- produção. O RU é um de seus maiores comnecedores. A aproximação faz com que os cus- pradores, sendo de dez mil unidades a média tos com frete sejam mais acessíveis, inclusive de entrega mensal. Ainda na região central, encontram-se quando for necessário trocar algum produto mais três fornecedores: a Saborespecial e a que venha com problemas de qualidade.

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Corrieri Alimentos de Santa Maria, e a Cooperativa Agrícola Mista de Nova Palma (CAMNPAL). A Saborespecial entrega os temperos, como orégano, alecrim, sálvia e manjerona. A CAMNPAL fornece alguns dos grãos, como, por exemplo, o arroz tipo 1, o feijão preto e o feijão de cor. Já a Corrieri Alimentos fornece massas e biscoitos. Apesar de o RU ter vários tipos de fornecedores na região central, um gênero de produtos que ainda não se consegue aqui são os hortifrutigranjeiros. Eles são, geralmente, fornecidos por empresas da região metropolitana do Estado, pois não há produtores da região central que produzam a quantidade suficiente para atender às demandas diárias do restaurante. É o caso da licitação de 2010, na qual legumes, frutas e verduras são fornecidos pela Central de Abastecimento (CEASA) do Rio Grande do Sul, situada em Porto Alegre. No entanto, quem faz o intermédio dessa compra é a empresa santa-mariense Oliare Comércio de Produtos Alimentícios, que busca os produtos na capital para revender aqui no município. Há também empresas de outras regiões do estado em contrato com o RU, como, por exemplo, a Sucsul de Bento Gonçalves (fornecedora de sucos concentrados), a distribuidora Biesdorf de Rio Grande (fornecedora dos filés de peixe) e Cooperativa Piá de Nova Petrópolis (fornecedora de produtos lácteos). Apesar da preferência por produtos alimentícios regionais, o Restaurante está sempre aberto a boas ofertas que surjam nos demais locais do país. O RU da UFSM já é adepto do sistema COMPRASNET há sete anos, o qual otimizou o processo de encomenda e entrega de produtos. A partir do mês de junho já começam a ser abertas novas licitações no site, e o RU estará atento às novas ofertas do mercado. .txt


de dentro para fora

.txt Universos de vivência

Ilustração: Rafael Balbueno

Oportunidades para estudantes que desejam ver mais do que ensinam os livros

Gianlluca Simi

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m 1972, estudantes de todo o país organizaram a Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil, a FEAB. Em plena ascensão da Revolução Verde, quando a agricultura se tornou uma atividade extensiva e altamente tecnológica, começou-se a discutir que tipo de desenvolvimento se almejava com a formação voltada ao mercado que as universidades brasileiras tinham importado das estadunidenses. Num país como o Brasil, em que 1% dos proprietários detêm metade das terras, os membros da FEAB queriam se distanciar dos laboratórios, das técnicas de plantio e das grandes colheitas para se aproximar da realidade da maioria dos agricultores brasileiros. Desse contexto, em 1989, surgiram os Estágios de Vivência (EVs). A frase que os resume vem na conclusão do libreto que a FEAB fez em 2005 para explicar o projeto, pelo qual é responsável: “como tornar a universidade um instrumento de construção de conhecimento que beneficie o conjunto da sociedade?”. O mote é analisar para quê, ou melhor, para quem serve o conhecimento adquirido no decorrer de anos na universidade. Os EVs eram períodos de tempo que estudantes das ciências rurais passavam com famílias de agricultores vinculados aos

Movimentos Sociais Populares a apreender dessa convivência a realidade social, econômica e cultural de produtores que, em grande parte, trabalhavam para sobreviver, contrapondo-se aos grandes latifúndios que ainda dominam o Brasil. O primeiro EV oficial aconteceu em 1989, em Dourados, no Mato Grosso do Sul. Antes desse, várias experiências aleatórias já tinham sido feitas, mas sem alinhamento nacional, como passou a existir no final da década de oitenta. Logo nos próximos anos, estudantes de outras áreas começaram a se interessar pelos EVs, que passaram a, então, chamar-se Estágios Interdisciplinares de Vivência, os EIVs. Até hoje, estudantes de todas as ciências podem participar. “Sempre há algo a aprender”, conta Diego Pitirini, estudante de Agronomia, ligado à coordenação dos EIVs na UFSM. Diego participou do projeto em 2008, quando passou dez dias com uma família de fumicultores em Santa Catarina. O primeiro EIV da UFSM se deu oficialmente em 1998, mas já nos anos oitenta havia atividades que se assemelhavam à “filosofia eiviana” de hoje. Pedro Neumann, professor do Centro de Ciências Rurais, participou de um deles em 1985, um ano antes de se formar em Agronomia. Quan-

do perguntado sobre como um estágio de vivência muda a visão sobre a área, ele responde que “muda a abordagem da formação profissional”. Esse é justamente o objetivo, confirma Diego. “Tu não interferes nas atividades, como nos estágios profissionais. Tu estás lá para ver como aquela família faz. E isso serve para se refletir sobre a formação que temos na universidade”. Grandes fazendas, organismos geneticamente modificados, colheita exportada. A globalização não é o único caminho para quem participa dos EIVs. Como o que se aprende na universidade pode ser aplicado num contexto real e holístico? Como não ser formado para trabalhar exclusivamente em multinacionais e grandes fazendas? Como usar o conhecimento para trabalhar pela sociedade e não só tirar dela o sucesso [sic], medido pelo salário, pelo cargo e pelas aparições nas colunas sociais? Os EIVs são o complemento à formação tecnicista da universidade atual. Através deles, os estudantes têm as chances de se aproximar de outras realidades e de re-arranjar o que aprendem para servir a toda a população e não somente a quem paga melhor. No fim, de complemento, os EIVs se tornam um canal com o propósito original das universidades: ser, enfim, universal. .txt

Para participar Quem pode? Estudantes de qualquer área. Quando? As edições dos EIVs não tem peridiocidade definida. Fique atento à divulgação pelos centros. Como se inscrever? Os interessados passam por uma série de seminários sobre agricultura, realidade sócio-ecônomica do Brasil e temas afins. Contato: membros do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e Departamento de Extensão Rural .txt Maio de 2010

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geral

Boicote ao ENADE

Ainda há, no meio acadêmico, dúvidas sobre qual é o destino que o governo federal confere às notas do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes, o ENADE. Em 2010, surgiram boatos sobre a possível suspensão de novas matrículas no curso de Ciências Sociais da UFSM. O motivo seria o péssimo desempenho na prova decorrente do boicote realizado pelos alunos ao exame, dois anos atrás. Para verificar a procedência desses rumores, a equipe da revista .txt procurou esclarecer as motivações e consequências do boicote do curso de Ciências Sociais ao ENADE. Bibiano Girard e Tiago Miotto

Foto: Carina Venzo Cavalheiro

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boicote quase unânime causou uma inversão no conceito do curso, que na avaliação anterior, em 2005, havia obtido nota máxima na avaliação. As duas razões alegadas pelos alunos são: uma crítica à situação do curso na época, e ao sistema de avaliação das instituições de ensino superior. Em entrevista a .txt, Ciro Oliveira, membro do Diretório Acadêmico das Ciências Sociais (DACS), explicou que durante os anos anteriores o curso passava por alguns problemas, condição agravada pela inexistência de diálogo com a coordenação. Entre as dificuldades deflagradas, Ciro destaca a falta de docentes efetivos, de modo que os poucos professores em atividade – boa parte, substitutos – tinham carga horária excessiva, chegando ao extremo de um professor ser responsável por dez disciplinas simultaneamente. Além disso, em 2008 foi criado o Mestrado em Ciências Sociais, o qual polarizou a pesquisa docente. Outro fato relevante foi a falta de apoio, por parte da coordenação, à realização de uma Semana Acadêmica, que pôde ser concretizada somente por conta do financiamento concedido pelo Centro de Educação (CE). “A coordenação do curso

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não estava habituada com estudante reivindicando, com a presença do aluno em reunião do colegiado”, salienta Ciro. Ele expõe também que, na época, os alunos não tinham voz nas reuniões do colegiado. O ENADE Embora o ENADE seja comumente tratado como uma avaliação isolada, ele surgiu como parte do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES), instituído pela Lei 10861, de 14 de abril de 2004, e cuja finalidade, conforme o Artigo 1º, é “assegurar [o] processo nacional de avaliação das instituições de educação superior, dos cursos de graduação e do desempenho acadêmico de seus estudantes”. A partir de 2008, o ENADE passou a servir também como um dos três critérios utilizados como base para o cálculo do Conceito Preliminar de Curso (CPC). O CPC é um indicador prévio da situação dos cursos de graduação no país, criado “para agregar ao processo de avaliação da educação superior critérios objetivos de qualidade e excelência dos cursos”, segundo explicação no site do Ministério da

Educação (MEC). Além da pontuação final do ENADE, o CPC leva em consideração duas outras compilações de dados: o Indicador de Diferença entre o Desempenho Esperado e Observado (IDD) – estimativa que busca verificar quanto o curso de graduação contribuiu aos alunos para o desenvolvimento das habilidades acadêmicas – e os insumos, que ponderam a respeito da infra-estrutura e instalações físicas, dos recursos didáticopedagógicos, do percentual de professores no mínimo doutores e do percentual de professores que cumprem regime parcial ou integral no curso. À exceção dos dados acerca do corpo docente, todos os indicadores do Conceito Preliminar de Curso levam em consideração basicamente o resultado da prova e o questionário respondido pelos alunos. Na visita do MEC, em caso de resultado insatisfatório, é firmado um protocolo de compromisso com encaminhamentos e prazos para a solução dos problemas detectados, assim como punições previstas. Em virtude disso, os alunos criticam que a “avaliação prioriza a regulação e o controle do ensino superior, e não o seu financiamento (no caso da universidade pública) e, assim, não garante a


melhoria das condições do ensino“. As críticas A avaliação do ENADE, instituída pela portaria 2.051, de 9 de julho de 2004, classifica o curso em categorias cuja pontuação varia entre a máxima de 5 e a mínima de 1, sendo que os cursos com conceito 1 e 2 recebem uma visita extraordinária de uma equipe aprovada pelo MEC, para avaliar a situação real e os problemas encontrados. Deste modo, um dos objetivos do boicote foi atrair a atenção do Ministério para as dificuldades diárias alegadas pelo corpo discente. Nessa oportunidade, os alunos pretendem entregar um documento intitulado Nota Zero para o Enade, salientando os motivos do descontentamento. O documento destaca pontos considerados negativos acerca da metodologia do ENADE. O Exame é baseado na Lei de Diretrizes e Bases, que orienta os cursos de graduação. No entanto, os alunos consideram que o fato de a prova ser única acaba desconsiderando as particularidades regionais do país e a “complexidade do sistema de ensino superior do Brasil”, devido à não-diferenciação da prova entre os diversos tipos de instituições. É considerada problemática também a falta de participação da sociedade civil na construção do sistema de avaliação. O texto ainda critica a disseminação de boatos acerca do boicote, ponto reforçado por Ciro Oliveira: “havia uma certa política de boatos, como o de que a nota seria divulgada, sendo que é garantido por lei que a apresentação da nota é individual. [Diziase também] que o pessoal não ia conseguir entrar no mestrado por causa da nota baixa. Foram boatos que se espalharam pelos corredores e que a gente foi procurar no

estatuto, no projeto de lei e comprovamos que isso não era verdade.” Além disso, os alunos consideram incoerente o fato de a avaliação não diferenciar instituições públicas e privadas. A razão disso é a utilização do ranqueamento por instituições particulares como uma forma de publicidade. Em virtude disso, há denúncias de universidades que oferecem cursos de preparação aos alunos selecionados para a prova, premiações aos melhores colocados e até contratam professores pósdoutores durante o período em que a visita in loco do MEC pode se realizar. O ENADE e o repasse de verbas Uma das principais dúvidas acerca do ENADE é a relação de seus resultados com o repasse de verbas, maior ou menor, às instituições públicas de ensino superior e aos cursos de graduação. No documento Nota zero para o ENADE, os alunos afirmam entender que “o SINAES não é, de forma alguma, um avanço rumo a uma avaliação realmente comprometida com a qualidade do ensino, e que esse processo estrangula o ensino público por meio de corte de verbas, exonerando o Governo de seu papel de promotor de políticas públicas para a educação.” Quando perguntado acerca da relevância legal que o resultado da avaliação dos cursos tem no cálculo do repasse das verbas, o economista da Pró-Reitoria de Planejamento (PROPLAN) da UFSM, Frank Leonardo Casado, afirma: “o Ministério da Educação atua de forma legislatória para aplicar a prova, e o estudante que não fizer não ganha diploma. Essa é a única legislação do MEC sobre o ENADE. O ENADE e o SINAES não têm nenhum peso na distribuição de recursos do MEC. Para qualifica-

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Foto: Tiago Miotto

Guilherme e Ciro, estudantes de Ciências Sociais, no Diretório Acadêmico

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ção, ranking nacional, sim”. No Governo Federal, o que norteia a distribuição de recursos entre os ministérios é a base de planejamento e execução orçamentária, votada no final de cada ano, tendo em vista o ano seguinte. Por lei, 75% das verbas encaminhadas ao Ministério da Educação são destinadas ao ensino superior. Os recursos, então, são distribuídos para cada instituição federal considerando o número de diplomados, vagas oferecidas e número de ingressantes. Por meio deste cálculo, o MEC pode visualizar o tamanho relativo das instituições e enviar as verbas de forma proporcional. Cada instituição estabelece seus próprios parâmetros para a utilização de recursos. Dentro da UFSM, acontece a distribuição direta aos Centros Administrativos com base no Índice de Distribuição de Recursos. Deste modo, o cálculo que determina o montante das verbas destinadas à UFSM pelo MEC é diferente daquele que distribui as verbas dentro da Universidade. “Deveria ser o mesmo critério para distribuição de verbas. A nossa distribuição tem critérios diferentes do Ministério. É um acordo feito entre os diretores de centro, não é uma determinação da Reitoria. O MEC não analisa pesquisa. O critério deles é quantitativo, o nosso é qualitativo. Não há solicitação por demanda, por algo novo. Para o MEC, é pelo tamanho do curso, e para a UFSM, pela produção. Não é por necessidade”, diz Frank Casado. Desse modo, os resultados do ENADE, propriamente ditos, não interferem diretamente no repasse de verbas destinadas aos cursos. No entanto, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 7200/2006, referente à implantação efetiva da Reforma Universitária. O artigo 44 do Projeto trata da distribuição de recursos entre as instituições de ensino superior federais. No seu segundo parágrafo, fica estabelecido que o repasse dos recursos deverá observar, no mínimo, certos indicadores de desempenho e qualidade, entre eles, os resultados da avaliação pelo SINAES. A situação no curso de Ciências Sociais melhorou expressivamente depois do boicote. A resolução perceptível dos problemas não foi uma consequência exclusiva da ação, mas esta última foi significativa para as mudanças. Foi estabelecido o diálogo entre coordenação e alunos, e professores foram contratados para cobrir as disciplinas desfalcadas. Tão importante quanto resolver os problemas do curso, contudo, é o interesse em suscitar uma discussão social ampla sobre a constituição, a implementação e a finalidade de um sistema de avaliação do ensino superior. .txt

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geral

O longo caminho em direção à acessibilidade Reformas e adaptações a passos lentos devido à falta de recursos

Janayna Barros

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esde o vestibular de 2008, a UFSM aderiu ao sistema de cotas e nelas se incluem as pessoas com algum tipo de deficiência, seja ela visual, auditiva, física, motora ou mental. A inclusão é prevista em lei e foi sancionada pelos decretos 5.296 de 2 de dezembro de 2004 e 5.626 de 22 de dezembro de 2005. No entanto, a adaptação de uma instituição esbarra na burocracia e, em alguns casos, na falta de boa vontade de alguns.

Ao contrário do que se pode supor, o fato de a UFSM ter aderido ao sistema de ingresso por cotas não garante um aumento na verba repassada pelo governo federal. De acordo com a Pró-Reitoria de Infraestrutura, a própria universidade deve remanejar recursos para as reformas necessárias. Segundo a chefa do Setor de Planejamento Urbano Maria de Lourdes Afonso dos Santos, foi feito um levantamento das modificações necessárias nos prédios e o valor estimado para realizar essas adaptações - que incluem construção de rampas e colocação de elevadores - deve ser de dois milhões de reais. Vale ressaltar que nesse valor não estão incluídos gastos para melhoria de calçamento e asfaltamento das ruas internas da UFSM. A instalação de rampas de concreto em substituição às de madeira e a colocação de lajotas tácteis (as quais indicam as direções através do tato dos pés) são algumas das muitas mudanças que são almejadas. Mas

Maria de Lourdes afirma que as reformas são feitas de acordo com a demanda: “a gente não pode começar a reforma de um prédio onde não há um aluno com deficiência e, logo em seguida, surgir um aluno com deficiência em outro, pois o recurso é escasso e faltaria para a reforma do outro. Infelizmente, é preciso trabalhar sob demanda. Nós estamos reformando primeiro os prédios onde há necessidade imediata. Se houvesse recurso só para a adaptação, a história seria muito mais fácil”. Outro fato interessante é que qualquer novo prédio construído é feito dentro das normas de acessibilidade (banheiros adaptados e elevador). Porém, a estrutura externa (calçadas com rampas de acesso ou lajotas tácteis) não se inclui na verba de construção. Os recursos dessas e outras necessidades saem do orçamento da UFSM. Enquanto as reformas vão a passos lentos, outras ações ajudam na melhor adaptação daqueles com deficiência. O Centro

Fotos: Janayna Barros

Reformas em andamento

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A Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) se adiantou e reformou banheiros no térreo da Casa do Estudante Universitário II (CEU II) para que fossem de fácil acesso a pessoas em cadeiras de roda. O prédio 26 do CCS, que já contava com elevador, passa por reformas: rampas de acesso, vagas de estacionamento exclusivas para deficientes e banheiros adaptados em todos os andares. Da mesma forma, ações foram realizadas no prédio anexo do Centro de Tecnologia (CT), no Centro de Educação (CE), no prédio 74 do CCSH: todos foram equipados com elevador durante a sua construção. Ainda pode-se mencionar a reforma na entrada do prédio da Reitoria, onde foram instaladas lajotas tácteis e foram implantadas duas vagas de estacionamento para deficientes, uma delas é no vão de entrada (para tanto foi instalado piso antiderrapante e foi realizado o nivelamento do local). Atualmente, outro local que passa por reformas é a piscina do CEFD, toda a estrutura dos banheiros está sendo modificada: nivelamento, colocação de piso anti-derrapante e de barras.


.txt Como é para quem vive com uma deficiência? O acadêmico do Jornalismo Guilherme Silveira é surdo e conta a sua experiência dentro da UFSM: “fui bem recebido pelos colegas e professores, mas o início foi complicado; os professores se viram preocupados em como dar aula e demoraram 22 dias para conseguir intérpretes de libras. Era difícil fazer leitura labial, pois os professores falavam muito rápido. A única alternativa que me restava era ir às aulas e depois pegar as anotações dos meus colegas. A UFSM ainda está se adaptando, acho que para quem está numa cadeira de rodas a situação é pior, pois muitos prédios sequer têm rampas”.

de Educação Física e Desportos (CEFD), o Centro de Ciências Sociais e Humanas (CCSH) e o Centro de Ciências da Saúde (CCS) mantêm projetos que auxiliam não só alunos e funcionários com deficiências, mas pessoas da comunidade em geral. Natação, handebol e mesmo sessões com fonoaudiólogos, psicólogos e fisioterapeutas melhoram o desempenho e a adaptação dos deficientes. Uma ação importante foi a adesão ao Projeto Incluir do governo federal, o qual destina verbas para projetos que visem à acessibilidade na educação superior. Do Projeto Incluir nasceu o UFSM Sem Barreiras – Incluir com qualidade, um dos 36 projetos cadastrados até o ano de 2009. Desse nasceu o Núcleo de Acessibilidade da UFSM. O Núcleo tem por principal objetivo promover ações para a garantia do acesso aos alunos e aos funcionários, bem como para a eliminação de barreiras pedagógicas, arquitetônicas, comportamentais e comunicativas. A disponibilização de intérpretes de libras, material didático com fonte ampliada ou mesmo em braile,

computador com programas adaptados e confecção de materiais específicos a serem utilizados em aula são algumas das muitas ações desenvolvidas. Segundo dados do Núcleo, há atualmente cerca de 73 alunos e 30 funcionários (entre docentes e técnicos administrativos) com algum tipo de deficiência dentro da instituição e que estão cadastrados no Núcleo. Esses dados não são precisos, uma vez que muitos dos alunos entram pelo sistema de cotas para deficientes e não fazem o cadastro pedido pelo Núcleo ou mesmo não entram pelo sistema de cotas e ficam fora das estatísticas. O fato de existirem diversas incapacidades torna o cadastro essencial não só para o banco de dados da universidade, mas para o caso de o aluno ou o funcionário necessitar de algum tipo de auxílio, o Núcleo estar preparado para atender as necessidades específicas dessa pessoa. A coordenadora do Núcleo de Acessibilidade, Professora Soraia Napoleão Freitas diz que, sem o conhecimento das dificuldades dos alunos e funcionários, é muito difí-

cil oferecer o atendimento que elas necessitam. Outro fator que também prejudica o trabalho do Núcleo é a falta de interesse por parte de alguns professores em se preparar para a chegada de possíveis alunos, principalmente, aqueles com deficiência auditiva e/ou visual. “São necessárias novas formas de se passar o conhecimento, diferentes das convencionais. O Núcleo pode auxiliar até mesmo na confecção de materiais para estes alunos, mas os professores precisam nos ajudar e é neste momento que encontramos dificuldades.” ressalta a Professora Soraia. O pró-reitor de Graduação Prof. Orlando Fonseca frisa a importância do cadastro do aluno e do trabalho sob demanda: “neste último vestibular, seis alunos com deficiência auditiva entraram na universidade, somente três deles requisitaram intérpretes de libras. Imagine se nós tivéssemos contratado intérpretes para todos? Nesse momento teríamos profissionais ociosos e um dinheiro mal investido”. Embora muitas ações já tenham sido realizadas, sobretudo nos últimos dois anos, a UFSM ainda está longe de oferecer a estrutura necessária para a total inclusão de pessoas com deficiência. A comunidade universitária (alunos, técnicos e professores) deve se engajar nessa causa e não ficar esperando apenas pela ação das instâncias superiores. A médio e a longo prazo, obras estão sendo realizadas, mas a curto prazo é possível para os professores buscar treinamento para lidar com pessoas deficientes e para os alunos, alternativas para envolver esses colegas na vida acadêmica, tratandoos como iguais. .txt

Ruas do campus impossibilitam a acessibilidade. .txt Maio de 2010 11


geral

A noite no campus A vida noturna da Universidade é cada vez mais intensa. Com a quantidade de alunos e cursos à noite, a UFSM se prepara para atender às demandas específicas do turno. Bianca Villanova e Michelle Falcão

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Foto: Cristiano Magrini

as sete às dezenove horas o campus é incessantemente percorrido por pessoas com as mais diversas funções. Conforme a noite chega à cidade universitária, nota-se a diminuição desse fluxo. Boa parte da UFSM fecha suas portas, esperando o amanhecer do próximo dia para retomar o trabalho. No entanto, a Universidade não encerra totalmente suas atividades quando o sol se põe. Há nove cursos noturnos no Campus, sem contar o Colégio Politécnico e o Colégio Industrial. Segundo dados do Departamento de Registro e Controle Acadêmico (DERCA), são cerca de mil alunos que frequentam as aulas entre sete e dez e meia da noite. Para o próreitor de Infraestrutura, Valmir Brondani, o ensino noturno deveria ser ampliado. “É uma bruta estrutura que fica aqui à noite e tem pouco uso.” Porém, o caminho para o aumento das vagas noturnas é lento. O investimento em setores básicos como segurança, iluminação e transporte tem de ser pensado com cuidado. A boa notícia é que a UFSM vem recebendo, desde 2008, recursos para o aumento do número de vagas noturnas.

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Novas vagas, mesmos problemas O principal objetivo do Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), projeto apresentado pelo Governo Federal, é o aumento das vagas de ingresso, especialmente no período noturno, como mostra a proposta aprovada pelo Conselho Universitário da UFSM (Consun). A meta é chegar a 1.365 vagas, ultrapassando as escassas 380 existentes em 2007. O vice-reitor Dalvan José Reinert afirma que essa era uma exigência da comunidade. Muitos dos alunos ingressam em um curso noturno por trabalharem durante o dia. “A tendência é que as pessoas que fazem curso noturno tenham jornada dupla”, diz o professor do Curso de Ciências Sociais, Francis Moraes de Almeida. Quanto à solidificação do ensino noturno na UFSM, Reinert fala que “foi estimulado, mas a Universidade não tem como impor que 100% da estrutura do campus seja ocupada à noite, pois isso demanda contratação de funcionários, professores e melhorias na estrutura”. Apesar do avanço em alguns setores, as condições

que se encontram ainda não são totalmente satisfatórias. Além dos horários restritos de bares, bibliotecas, serviços de xérox e Secretarias, os problemas com o transporte público são o principal motivo de reclamações dos acadêmicos. À noite, a frequência dos ônibus cai drasticamente. A linha Bombeiros, por exemplo, tem um ônibus às 19 horas e 37 minutos, e o próximo com destino ao centro sai somente às 22 horas e 20 minutos, sempre lotado. Segundo o pró-reitor de Infraestrutura, cabe à UFSM apenas repassar à Associação dos Transportadores Urbanos de Passageiros de Santa Maria (ATU) quais os horários de maior movimento. O vice-presidente da ATU, Élcio Maffini, quando indagado sobre alguma reivindicação quanto ao ônibus das 22 horas e 20 minutos, falou que nunca foi informado da necessidade de aumentar os carros nesse período. Com os horários de 2010 ainda em fase de reestruturação, Maffini informa que irá propor a adoção de um ônibus extra no horário mencionado. O problema com horários estende-se mais ainda, indo dos ônibus ao estômago. O horário de atendimento do Restauran-


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te Universitário (RU) sempre foi tema de protesto dos alunos. Para jantar no restaurante, é preciso chegar antes do começo das aulas, pois a refeição é oferecida das 18 às 19 horas e 45 minutos. O pró-reitor de Assuntos Estudantis, José Francisco Silva Dias, o Juca, ressalta que, para aumentar o horário de funcionamento do RU à noite, é necessário repensar todo o efetivo de funcionários. Faltam também alternativas ao RU. Os bares privados da UFSM ficam abertos até cerca de 21 horas, mas os alunos ainda se sentem prejudicados. “À noite não tem nada aberto, se quiser comer tem uma banquinha de cachorro-quente que aparece de vez em quando”, conta uma moradora da Casa do Estudante Universitário II (CEU II). Intensificação da segurança Dos cursos noturnos ainda em atividade, o de Matemática foi o pioneiro no campus, em 1996. Daquela época, o vigilante Haroldo Dala Costa lembra bem. Funcionário da UFSM há 31 anos, há 17 é vigilante na Biblioteca Central (BC), sendo que 50% de seu expediente é noturno. Segundo ele, o movimento no campus aumentou de três anos para cá. Com a demanda crescente de pessoas, os serviços de segurança e iluminação, considerados ineficientes há 10 anos, tiveram melhorias consideráveis: “já vi aluno tendo que

comprar lâmpada para colocar na frente dos prédios aqui no campus”. Mesmo assim, alguns pontos ainda são considerados problemáticos, tanto pelo vigilante da BC quanto pelo pró-reitor de Infraestrutura: “esse trecho entre a CEU e o CEFD [Centro de Educação Física e Desporto] ainda é muito escuro e perigoso”. Quanto à segurança, o campus tem a grande maioria dos vigilantes terceirizados. Há cerca de 48 seguranças, sendo apenas oito deles funcionários públicos, número ainda considerado insatisfatório: “se eu disser que é suficiente não é verdade. Claro, não estamos com carência agora, mas ainda não é o ideal”, diz o Chefe do Setor de Vigilância, Romeu Osório. Apesar desses contratempos, Osório considera que “já se pode andar tranquilo dentro do campus”, situação diferente da encontrada por ele há três anos, quando assumiu o atual cargo. Com treinamento para atuarem como defensores patrimoniais, ele ressalta que os guardas “não podem se eximir da responsabilidade de proteger a comunidade acadêmica”. Apesar da falta de iluminação em alguns trechos, o campus é visto como um local seguro pelos alunos entrevistados. “Acredito que não tenha lugar mais seguro”, diz Antonio Belamar Oliveira, que estuda à noite e mora há três anos na CEU II. Mesmo assim, crimes recentes alertam que alunos e funcionários devem tomar certos cuidados. No ano passado, um aluno sofreu um assalto à mão armada entre

o prédio da Biblioteca Central e o prédio da União Universitária. Desde então, a Segurança aumentou a fiscalização de carros e pedestres que entram no campus a partir das 20 horas. Conforme Osório, a Diretoria da CEU II pediu que a segurança fosse intensificada. Porém, a rigidez das regras tem incomodado os moradores da casa. Uma moradora relata que alunos são repreendidos pelo simples fato de estarem jogando truco em frente à União Universitária. Outra diz que, desde o ano passado, os estudantes sofrem restrições por parte dos vigilantes, que os abordam de forma “truculenta”. “É a política nova da Reitoria”, diz ela, “agora não se pode fazer nada, e já vão perguntar o que estamos fazendo”. Já Romeu diz que a vigilância em frente à CEU II foi intensificada “não como repressão a estudantes, mas como proteção”. Juca, da PRAE, diz que os vigilantes devem aprender a lidar com os alunos sem usar de violência. Apesar das carências, a UFSM melhora visivelmente as condições para o ensino noturno. Se antes os alunos sequer podiam andar livremente pelas ruas da Universidade, hoje a segurança já não é o ponto central das queixas. Com o devido planejamento, a UFSM tem capacidade de estender seus horários e ampliar o ensino superior para uma camada da sociedade que só dispõe do período noturno para o aprendizado. Como o pró-reitor Juca diz, “a Universidade vai ser viva das 8 da manhã às 10 da noite”. .txt

Matriculados em cursos noturnos (campus Santa Maria) 2007

2º Semestre

694

2008

1º Semestre

696

2008

2º Semestre

772

2009

1º Semestre

730

2009

2º Semestre

729

2010

1º Semestre

915 Fonte: DERCA

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RUídos

Som alto em frente ao RU e carreatas pelo campus causam controvérsias dentro da UFSM João Victor Moura e Nathália Costa

Foto: Mathias Rodrgieus

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meio-dia, horário de pico em frente ao Restaurante Universitário (RU), ao lado da Casa do Estudante II, no campus da UFSM. Alunos, professores e servidores dos Centros espalhados por todo o campus saem de aulas, estágios e outras atividades e se misturam em frente ao prédio 31. O restaurante oferece almoço entre onze da manhã e uma e meia da tarde, mas é ao meio-dia que a maior concentração de pessoas faz fila em frente ao local para almoçar e comprar créditos. É durante essa movimentação que diversos grupos de universitários aproveitam o espaço para promover eventos, como festas, assembleias e shows de música. Do outro lado da rua, próximo ao viaduto que corta o campus, são recorrentes as promoções de festas e eventos de diversos cursos. As divulgações já são conhecidas pelos frequentadores do Restaurante Universitário central. Os banners, os cartazes, os folhetos, as camisetas, o churrasco e os carros com som alto já fazem parte do cotidiano daqueles que almoçam no RU. Visto o número de estudantes que passa por ali, pode-se dizer que essa é uma das formas de promoção de maior visibilidade para os alunos. Além da promoção de festas, o espaço na frente do RU também é usado para outras atividades. Em algumas ocasiões, é o Diretório Central dos Estudantes (DCE) que utiliza o local para divulgar suas assembleias ou promover agendas culturais, com shows de música e apresentações. O DCE também sabe que uma das melhores formas de chegar aos estudantes é aproveitando o tempo do almoço. Essas atividades provocam controvérsias por serem quase sempre em alto som. O barulho pode incomodar estudantes e

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servidores da Universidade, deixando de ser um momento apenas de interação, para se tornar também de desgaste. A partir de reclamações que chegaram à redação, a equipe da .txt foi averiguar as posições da Universidade, dos alunos e dos funcionários sobre essa situação.

Debate das chapas do DCE em frente ao RU, 2009. Atualmente, o Diretório não realiza mais suas assembleias em frente ao Restaurante.

O Barulho A responsabilidade sobre as áreas externas do campus da UFSM é da Pró-Reitoria de Infraestrutura (PROINFRA). Para o pró-reitor Valmir Brondani, a situação

dessas promoções é ilegal, mas difícil de controlar. “Não é permitido [som alto em frente ao RU], só que eles me escapam, eu não consigo acabar [com a prática]. O cara vai lá com o carrinho dele ali, abre o capô e levanta o volume. Quando chega a Vigilância, ele baixa tudo”. Não existe uma regulamentação específica da Universidade, segundo o pró-reitor. O que vigora é a legislação federal, já que se trata de casos dentro do campus. Essa prática pode ser enquadrada como contravenção penal de perturbação ao sossego público, prevista no artigo 42, inciso III do decreto-lei 3.688 de 1941, e pune com prisão simples ou multa aquele que “perturbar alguém, o trabalho ou o sossego alheios abusando de instrumentos sonoros ou sinais acústicos”. No entanto, a norma não identifica a intensidade do barulho que é necessária para caracterizar a “contravenção penal”. Regulamentações municipais, estaduais e da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), no entanto, já incluem a emissão de ruídos, em decibéis, considerada prejudicial. Tal emissão é de no máximo 50 decibéis em restaurantes, e de 55 decibéis em áreas residenciais e de circulação escolar.

O que os alunos pensam sobre os ruídos no campus? 50% Carreatas

36%

Som em frente ao RU

16%

13%

Totalmente favoráveis

17%

19% 12%

Parcialmente favoráveis

12%

16%

9%

Indiferentes

Parcialmente desfavoráveis

Totalmente desfavoráveis


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Do outro lado da rua, próximo ao viaduto, a atividade é intensa. Diversas festas são promovidas simultaneamente.

Para averiguar a intensidade dos ruídos em frente ao RU, a equipe da .txt realizou, no dia 13 de abril, uma medição de nível de pressão sonora. Foi constatado que o nível de ruídos sonoros em frente ao Restaurante Universitário chegava à quase o dobro do recomendado, superior a 85 decibéis. Para o professor do curso de Engenharia Acústica Felipe Vergara, que auxiliou na coleta de dados, tal nível de emissão sonora não chega a ser prejudicial para a audição, mas pode causar estresse, principalmente se considerarmos que ali se fazem refeições, momento que deve ser mais tranquilo para ser saudável ao organismo. As Carreatas

Agrada ou Desagrada? Além de ferir a legislação federal e ser proibido pela PROINFRA, o som alto em

frente ao RU desagrada outros setores da Universidade. A estudante de Geografia Renata Weber Bortolotto defende a posição dos moradores da Casa do Estudante do campus. De acordo com ela, as reclamações são constantes por parte do pessoal da Casa, que necessita de um pouco mais de sossego durante o meio-dia. Como os apartamentos estão situados ao lado do RU e na frente das atividades que acontecem por lá, ficam expostos ao barulho. Os alunos se sentem incomodados, sem tempo para descansarem após o almoço, estudarem ou se prepararem para as aulas da tarde. Renata diz que o Conselho de Moradores já entrou em contato diversas vezes com a vigilância, mas vista a falta de ação por parte do órgão, será encaminhado, em breve, um ofício à PROINFRA, pedindo a proibição de foguetes, de carros com som muito alto ou de carreatas. Os moradores propõem que o lugar para a promoção de eventos seja trocado, de preferência para a região localizada atrás do Restaurante. Os moradores da CEU pedem que a propaganda seja mais silenciosa, com mais faixas ou banners e menos mistura de músicas. A vigilância se defende. Romeu Osório, chefe do setor, pede que os estudantes colaborem, tanto na moderação do som em seus carros, quanto nas ligações de alerta: “Não tem como a vigilância estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Por isso, pedimos ajuda para os estudantes. Quando se sentirem incomodados, pedimos que liguem e nos avisem, que daí podemos tomar alguma providência”. Para o pessoal que convive com o barulho durante todo o período do almoço, o som também não agrada. Na Secretaria do Restaurante Universitário há muito descontentamento. Diversos funcionários são

Foto: João Victor Moura

Após o almoço são comuns carreatas promovidas por estudantes que realizam as festas e os churrascos em frente ao RU. Os carros seguem o percurso dos prédios centrais, agora acompanhados de cornetas, de buzinas e, às vezes, de foguetes. É um desfile já tradicional, que convida os alunos da Universidade para as festas. Realizado entre uma e meia e duas da tarde, a carreata chama atenção de todos que passam e pode ser ouvida de longe. No Centro de Artes e Letras, prédio 40, o barulho chega a atrapalhar recitais e apresentações artísticas, como afirma Darwin Pillar Correa, aluno do 5º semestre de Música. “As carreatas interferem em toda uma performance de teatro ou de um recital, pois tais atividades exigem silêncio. E como é um som com uma audibilidade bastante considerável, não tem como evitar”. Darwin pondera sobre o barulho feito pelos próprios recitais de música: “Aí eu não vou ser injusto. É a mesma coisa. A diferença é que não é com alto falante, que não coloca-

mos uma fanfarra de instrumentos, nem saímos de carro fazendo isso. Já aconteceu de organizarem recitais de música no hall da União, mas é algo articulado. Geralmente tem uma entidade que organiza. Em todo o caso, tem que ter cuidado”. Para o pró-reitor Valmir Brondani, as carreatas também são consideradas ilegais, já que são feitas sem a autorização da PROINFRA. Porém, o controle não é efetivo. O barulho é coibido apenas quando há reclamações no Setor de Vigilância, vinculado à PROINFRA. Por ser vigilância patrimonial, e não ter poder policial, o órgão apenas pode solicitar que o volume do som dos carros seja baixado. A Pró-Reitoria considera válida apenas a utilização de carros de som para atividades relacionadas ao DCE, à Seção Sindical dos Docentes da UFSM (SEDUFSM) e à Associação dos Servidores da UFSM (ASSUFSM), como, por exemplo, para convocar servidores para eleições internas ou convidar para uma assembleia estudantil. E mesmo assim, em qualquer desses casos, é necessário o envio de um ofício que será avaliado pela Pró-Reitoria de Infraestrutura. Há alguns anos, como lembra o pró-reitor, foi proibida a entrada de carros de som externos, que faziam propagandas de festas durante todo o dia pelo campus. Atualmente, a propaganda, exceto para os casos já citados, tem que ser silenciosa dentro da Universidade, com panfletos e abordagem pessoal. Ainda assim, a empresa interessada tem que enviar um ofício e ser autorizada.

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capa

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Fotos: Nathália Costa

Carreatas para promoção de festas realizadas por estudantes.

taxativos quanto à insatisfação com os eventos promovidos em frente ao prédio. Já para a caixa do Restaurante, Geane Barreto de Lima, o som, em termos gerais, não lhe desagrada tanto, mas a comunicação com os alunos, na compra dos créditos, fica mais complicada. E para o público-alvo de tais eventos e promoções? Os estudantes, servidores e professores realmente se agradam com o som que está ali para convidá-los? No dia 15 de abril, a equipe da .txt realizou uma enquete com 100 pessoas em frente ao RU. A enquete era composta por duas questões: “Qual a sua opinião em relação à promoção com som na frente do RU?” e “Qual a sua opinião com relação as carreatas promovidas dentro do campus da UFSM?”. Os conceitos de classificação usados foram: totalmente favorável, parcialmente favorável, indiferente, parcialmente desfavorável ou totalmente desfavorável. A enquete abria espaço também para sugestões dos entrevistados. Foi analisado (como pode ser visto no gráfico, p.14) que as carreatas promovidas pelos estudantes, logo após o horário do almoço, é o tópico mais rejeitado pelos estudantes e profissionais abordados no dia: 50% deles são totalmente desfavoráveis às carreatas. Já com relação às atividades realizadas em frente ao RU, as opiniões são mais divergentes: 36% são totalmente desfavoráveis ao barulho e o restante se divide em parcialmente desfavorável, indiferente ou favorável ao movimento. Nas duas questões o número de entrevistados desfavoráveis, parcial ou totalmente, foi bem superior aos favoráveis. Na primeira pergunta, referente ao som na frente do RU, a diferença foi de

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22%; já na questão das carreatas a diferença chegou a 41%. Diversos entrevistados apresentaram sugestões para o impasse. Entre as ideias mais mencionadas, estiveram: diminuir o som em frente ao RU e maior cuidado com o barulho em frente a locais como a Biblioteca Central, o Hospital Universitário e o Hospital Veterinário. Outras sugestões incluíram diferentes formas de divulgação, mudança no horário dos eventos (principalmente quanto às carreatas ocorridas durante o horário de aula), a mudança do local das carreatas, restringindo-as aos Centros das turmas promotoras e a diminuição de divulgações para apenas uma por vez. Como os próprios estudantes apontaram, tanto para os que se posicionaram à favor quanto contra, existem alternativas

para os conflitos. O som dos carros é alto, mas a mensagem não atinge a todos da mesma forma. A comunicação está atrapalhada, não existe uma relação bem resolvida entre a comunidade acadêmica, o lazer e a promoção de festas, a vigilância e a PROINFRA. O primeiro passo seria o diálogo e, principalmente, o respeito. Muitos falam e poucos se entendem. O pró-reitor, Valmir Brondani, sugere que o barulho em excesso seja substituído por faixas, banners, folhetos e churrascos com música baixa. A PROINFRA autoriza que se façam propagandas, desde que elas não atrapalhem o descanso da maioria. Público para esses eventos existe, eles não são simplesmente dispensáveis. Entre estes dois pontos está o sossego, merecido para tantos, e a festa, importante para tantos outros. A moderação parece ser a melhor medida em situações como estas. .txt

Causa e Efeito Dias antes do fechamento desta edição, em reunião realizada entre os pró-reitores de Infraestrutura e Assuntos Estudantis, Valmir Brondani e José Francisco Silva Dias, em conjunto com o chefe da Vigilância Romeu Osório, foi decidido que o trânsito de automóveis na área em frente ao Restaurante Universitário seria fechado provisoriamente. A medida foi efetivada no dia 22 de abril e valeu por pouco mais de uma semana, como apurou a equipe da .txt.

Na área foram dispostos cavaletes para impedir a passagem.


paralelo

Consultas médicas por videoconferência começam a virar realidade no Brasil

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Um sistema de análise de imagens médicas com diagnósticos à distância que ameniza a carência de especialistas nos hospitais universitários e proporciona treinamento e capacitação para profissionais da área. Assim funciona a Rede Universitária de Telemedicina (RUTE). Cristiano Magrini

A

quena sala de 25 lugares, que fica no térreo do HUSM, é possível acompanhar as teleconferências a partir de Grupos de Interesse Especiais (SIG, do inglês Special Interest Group) e, inclusive, já são realizadas conferências nas áreas de cardiologia e radiologia daqui para todo o país. O Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA), na Universidade Federal de Alagoas, penou mais de três anos até conseguir pôr a RUTE em funcionamento. Conforme a médica integrante do Núcleo de Telemedicina e Telessaúde do HUPAA, Márcia Rebelo de Lima, as atividades ainda estão restritas à participação em 11 SIGs e em ações ligadas às campanhas institucionais, como as contra a dengue e a gripe H1N1. Todo esse processo burocrático e de adaptação é fundamental para que a segunda parte da iniciativa funcione. A enfermeira do Núcleo de Educação Permanente em Enfermagem (NEPE) e coordenadora da RUTE no HUSM, Cláudia Rosane Lavich, explica que a integração dos principais hospitais da 4ª Coordenadoria Regional de Saúde com o Universitário é uma das próximas ações locais de expansão da Rede em Santa Maria. Está em estudo uma parceria com o Centro de Processamento de Dados (CPD) da UFSM para viabilizar tecnicamente a ação e colocar em prática a segunda fase do projeto. Em Maceió, a difusão do Núcleo de Telemedicina e Telessaúde do HUPAA participa da elaboração do projeto de Telessaúde do estado de Alagoas e também busca soluções para o problema da falta de infra-estrutura.

Alto investimento e pouco reconhecimento Já são 31 SIGs em nível nacional, dos quais qualquer profissional ligado à áreada saúde pode acompanhar as atividades. Apesar da diversidade de áreas abrangidas e das facilidades proporcionadas por este tipo de tecnologia, os dois hospitais compartilham o mesmo problema: a falta de sensibilização para o uso dessa ferramenta. “Infelizmente ainda não é como a gente quer”, lamenta Cláudia Lavich. “Não há a mentalidade da importância do Projeto. É uma tecnologia que facilita muito porque não há gastos com viagens e palestrantes. Está tudo online”. Os recursos para a aquisição da aparelhagem necessária para as teleconferências provêm da própria Rede, que recebe apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Associação Brasileira de Hospitais Universitários (Abrahue). No entanto, as adequações de salas e ambientes são por conta da instituição conveniada. Posteriormente à homologação, cada instituição passa a receber uma verba do projeto para manter as atividades. No recém homologado HUSM, o NEPE pretende utilizar essa verba para ampliar o seu quadro de colaboradores que trabalharão exclusivamente no projeto. Somente então poderá se pensar na ampliação da estrutura, junto ao CPD, para além do campus. .txt

Foto: Cristiano Magrini

carência de especialistas é um problema histórico nos hospitais universitários em todo o Brasil, fato que provoca uma série de dificuldades na realização de diagnósticos e tratamentos. Na tentativa de amenizar esse problema, foi criada a Rede Universitária de Telemedicina (RUTE), uma iniciativa do Ministério da Ciência e Tecnologia. O projeto coordenado pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa prevê, em um primeiro momento, o incentivo à expansão e à consolidação das redes brasileiras de Telemedicina, promovendo conectividade entre grupos de pesquisa nacionais e internacionais nos hospitais universitários e de ensino. Posteriormente, em uma segunda fase, a intenção é levar o trabalho desenvolvido nos hospitais universitários para as comunidades distantes, por meio de compartilhamento de arquivos de prontuários, consultas, exames e, até mesmo, de uma segunda opinião médica. Consolidadas essas redes regionais, torna-se possível uma revolução em termos de atendimento médico e análise de exames. Com as análises via Rede, será poupada boa parte das viagens de pacientes entre suas cidades até hospitais de referência. A ideia futurista de consultas médicas por vídeo está cada vez mais próxima da nossa realidade, mas ainda é coisa recente por aqui. Passou-se pouco mais de um ano desde a iniciativa da doutora Lissandra Dal Lago até a conclusão das ações sistemáticas de implantação e homologação da RUTE no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), no último mês de abril. Da pe-

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categorias

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O sonho da Casa e do RU próprios Alunos do CESNORS esperam para 2010 um programa de Assistência Estudantil igual ao de Santa Maria

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José Luís Zasso

assistência estudantil da UFSM é tida como uma das melhores do país. Porém, a realidade vivenciada pelos alunos que estudam no Centro de Educação Superior Norte (CESNORS) não é a mesma que a dos de Santa Maria. Apenas agora, três anos após a implantação do CESNORS em Palmeira das Missões, é que o Restaurante Universitário (RU) deve ser inaugurado. Em Frederico Westphalen, os alunos podem almoçar no RU do Colégio Agrícola, mantido pela UFSM desde 1964. Para minimizar as diferenças, a UFSM está também construindo Casas do Estudante em Frederico Westphalen e em Palmeira das Missões. A equiparação às condições oferecidas pela UFSM aos alunos de Santa Maria é uma reivindicação antiga dos estudantes do CESNORS. Para Andressa Flores, acadêmica de Enfermagem da UFSM em Palmeira das Missões e coordenadora-geral do DCE, o importante é que o RU e a Casa estejam logo em funcionamento, pois muitos acadêmicos não conseguem ter condições financeiras de estudar, não sendo suficiente apenas o auxílio-transporte, único dos benefícios socioeconômicos disponível para os alunos de Palmeira das Missões. Estruturas

Estudantis (PRAE), ficou pronto no dia 12 de maio. O RU deverá servir em média 253 refeições diárias, sendo que o contrato com a Blanco Restaurantes LTDA, empresa terceirizada que irá operar o restaurante, prevê 58 mil refeições até o final do ano, permitindo uma variação de 25%. O custo de cada refeição é de R$ 4,46, com os alunos pagando R$ 2,50 e o restante sendo subsidiado. A diferença é que, em Palmeira das Missões, os estudantes terão que agendar, pelo Portal do Aluno, as suas refeições até as 17h do dia útil anterior. A UFSM também está construindo Casas do Estudante nas cidades do CESNORS. Os primeiros dois blocos, com previsão para o segundo semestre de 2010, terão 18 apartamentos cada, com capacidade para dois moradores em quarto único com banheiro, atendendo a 72 alunos. Na

Fotos: José Luís Zasso

O RU de Palmeira das Missões começou a ser construído no começo de 2009 e, segundo a Pró-Reitoria de Assuntos

Obras de construção da Casa do Estudante em Frederico Westphalen.

Restaurante Universitário em Palmeira das Missões 18 .txt Maio de 2010

avaliação do acadêmico Mairo Trentin Piovesan, aluno de Agronomia em Frederico Westphalen e membro do DCE, a obra ainda não atenderá a toda a necessidade dos alunos. Critérios Socioeconômicos e Secretaria de Assuntos Estudantis Segundo o pró-reitor de Assuntos Estudantis, José Francisco Silva Dias, o Juca, os critérios para a assistência socioeconômico dos alunos do CESNORS serão os mesmos de Santa Maria. Na cidade sede da UFSM, para se ter o benefício, os alunos devem comprovar renda per capita familiar inferior a R$ 500. No cálculo, a PRAE leva em conta também a vulnerabilidade familiar. Para o pró-reitor, é também intenção da PRAE discutir neste semestre o teto da carência em toda a UFSM. Sobre a necessidade de uma Secretaria ligada à PRAE, Mairo considera ser um ponto crucial para a efetivação das políticas de assistência e de permanência dos estudantes. No mesmo sentido, Juca acredita ser necessária a criação de uma Secretaria no CESNORS, para facilitar e qualificar o atendimento aos alunos e não sobrecarregar o serviço em Santa Maria, mas pondera que isso dependerá também da Reitoria e do CESNORS. Independente de questões políticas ou burocráticas, a UFSM, a PRAE e o CESNORS devem se preocupar em oferecer as melhores condições para a permanência dos alunos de Frederico Westphalen e de Palmeira das Missões. .txt


o arco da velha

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Inauguramos uma nova seção: O arco da velha. Nela trataremos dos 50 anos da Universidade Federal de Santa Maria, dando às fotografias da época de sua construção um tom histórico e não apenas ilustrativo. Felipe Severo Caren Rhoden

Outubro de 1967 Devido ao alto preço do transporte de material de construção, existiu dentro da Universidade uma olaria (na parte inferior da foto), situada onde hoje encontra-se o Centro de Vivência da Turma do Ique. Assim que se reduziu a demanda, os lagos foram aterrados e a estrutura foi demolida e reconstruída próxima ao Parque de Exposições.

Fotos: Arquivo da UFSM Maio de 1970 Junho de 1966 A insignificante casinha da Vigilância (destacada na primeira foto), que fica em diagonal ao HUSM, já serviu também de correio. O que é estranho é compará-la à Reitoria, mas foi mais ou menos esse o primeiro papel dela. Ali, Mariano da Rocha reunia-se com políticos e arquitetos para acompanhar e discutir o andamento das obras na Universidade.

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cultura

27 horas ininterruptas de teatro Caren Rhoden e Felipe Severo - e o abajur? - tá lá em cima, acharam melhor levar lá. - ah, tá. E a cadeira, foi pega? - sim. Ela e a maquiag... ah, a maquiagem. - eu pego. As janelas abertas e o interior do ônibus refrescando, aquecendo os ânimos para algumas vinte e poucas horas de olhos sob a luz. A chegada em Vale do Sol, cidade à duas horas de Santa Maria, para o festival das “27 horas ininterruptas de teatro” acontece em torno das seis horas da tarde de 26 de março, com a cidade escondendose no anoitecer. DEPOIS DAS DOZE BADALADAS [meia-noite do dia 26 para 27]

pela movimentação dos personagens, uma delas tão incisiva que fez a atriz principal, Isis Peres distender-se logo no início, embora ela não tenha deixado transparecer ao público. Contrastando com “D-KréptA”, a peça “B612”, do grupo GANJU, de Blumenau, foi apresentada em uma sala de aula. Para que todos entrassem no espaço bastante pequeno e quente, foram necessários alguns contorcionismos, já que o cenário incluía telão com projetor e espaço em quase todo o centro do ambiente para a movimentação dos personagens. A contemporaneidade e os aspectos sinestésicos regiam a peça. Um homem com viseiras e terno calculava em

uma mesa com uma lâmpada, no telão uma menina dava piruetas e de repente a menina saltava dando piruetas em nossa frente. A menina é alegre, delicada com trejeitos de Amélie Poulain. Quando se torna uma moça, uma rosa se desfolha no telão e ela vive um pequeno e estranho romance com aquele homem. Mas, como o mundo está mais para a frieza, ela acaba triste e sozinha e nós, espectadores, cobertos de pétalas vermelhas. Eram aproximadamente 4 horas da madrugada e só de evento umas

Fotos: Caren Rhoden e Felipe Severo

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ob a luz vermelha do vinho tinto, um tributo a Baco na virada de 26 para 27 de março, dia internacional do teatro. Cada um lentamente se aproxime do centro do círculo, passos lentos, não evitem o choque. Ao tocarem-se sintam o corpo do outro, a respiração, o cheiro. Não evitem, sintam. Sintam. Peguem um copo e degustem o vinho e as uvas. As sensações individuais em coletivo seguiram com duas danças medievais em um e dois círculos fechados por mãos dadas projetando a sombra do movimento e ecoando o ritmo da música e pés batendo. A peça “D-kréptA”, recém havia sido encenada em trajes rotos, olheiras profundas e vozes distorcidas em um cenário criado

Na Antiguidade, o Teatro Grego surgiu no culto ao deus Dionísio, equivalente ao romano Baco. Os atores Rafaela Costa e Felipe Martinez na peça “Fim de partida”

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doze horas. Um dos atores iria para a sua quer encontrar quem rouba a calcinha da terceira apresentação, outra se desenrola- Srta. Velda, uma femme fatale que canta em va de seu cobertor gripado para viver uma um bar, e chega a dois suspeitos: um siciprostituta desequilibrada e outra ainda liano (que assiste à cantora) e um latino procurava a sua voz. Com o cená(que trabalha no local). Willian rio montado e os personagens Sieverdt, o mesmo da peça prontos iniciava-se o aqueinfantil da manhã, miniscimento em um palco tra todos esses perso“O Abajur Lilás” é uma nivelado às cadeiras nagens e a admiração peça do dramaturgo brasidos espectadores, se torna obrigatória. leiro Plínio Marcos e foi uma que dali acompanhaAs vozes mudando, das montagens do grupo “Teatro, ram todo o pular e se a sonoplastia, os Por que não?”, da UFSM, formado soltar e incorporar cenários incrivelpor Aline Ribeiro, André Galarça, dos atores da última mente adaptados e Cauã Kubaski, Deivid Machado peça da madrugada: variados. Gomes, Felipe Martinez, Juliet “O Abajur Lilás”. As Um fim de espeCastaldello, Luiza de Rossi e prostitutas, o cafetão, o táculos genial. Rafaela Costa. carrasco transitavam e reAh, e para colocar a almente cansados faziam seus cereja no bolo, uma esquete personagens exaustos da vida medo mesmo moço que protagonidíocre e suja que levavam. zou a “B612”, fazendo um missionário de Enquanto alguns roncavam esticados sotaque que passa dos limites religiosos em colchonetes na pista de boliche, os com uma freira. Graças a Deus! clowns faziam a recepção de aproximadamente dez ônibus de crianças. O clima [fim do dia 27] do amanhecer era de algodão doce e carrinho de pipoca. Duas peças infantis foram O NATAL, O FIM DA PARTIDA E AS apresentadas, entre elas uma de bonecos, LACUNAS “O Velho Lobo do Mar”, apresentado por Willian Sieverdt, do grupo Trip Teatro de [anoitecer do dia 26] Animação, de Rio do Sul (SC). O riso, os gritos e as canções animadas davam espaço Se bem que lá o Natal veio primeiro, para a libertação das crianças e os montes bem antes do aspecto religioso da esquede pipoca arremessados nos simpáticos te final. Depois de aproximadamente duas clowns. horas em Vale do Sol, a primeira peça de Durante a tarde aconteciam as oficinas. Santa Maria foi apresentada: “Então é NaOs interessados em “clownices” seguiram tal”. Sendo uma comédia de curta duração, para tal oficina (de clowns) e através de a família matriarcal sustentou bons risos. sons e movimentos gelatinosos do corpo O palco trêmulo era estruturado por e da face mergulharam em música francesa mesas e coberto com lona preta dentro para encontrar o seu “eu” esquisito que o de um ginásio; com a arquibancada clown põe a mostra. No campo, com equi- em forma de meia-lua, quase se líbrio e concentração acontecia a oficina de tinha a impressão de estar artes circenses, então bolinhas saltitavam e no circo, ainda mais corpos tentavam se manter na corda bam- quando a diretora ba. Lá naquela escola onde aconteceu a de “D-KréptA”, peça “B612”, outra oficina ministrada pelo Sara Abrahão, elenco dessa apresentação trabalhou com optou em sinestesia e tecnologia, deixando-se levar apresentá-la no pela música e mordidas em cebola. meio da quadra, Mais tarde, com o palco na mesma si- dispensando o tuação que na peça “O Abajur Lilás”, ou palco, tal como seja, nivelado aos espectadores, assistia-se a posterior “O ao monólogo “Os Malefícios do Tabaco”, Abajur Lilás”. onde um velhinho muito simpático e conFora do traditório (Gustavo Scherer) falava de toda ginásio estava um a sua vida particular e de tudo que o levava campo verde cera estar ali, só não falava do malefício do ta- cado e cheio de baco. Vinte minutos de comicidade passa- quero-quedos, fomos levados a outros risos. ros, alA peça com bonecos “O Incrível Ladrão g u m a s de Calcinhas” traz o clima de um filme noir. árvoUm detetive, junto com sua doce e simpática secretária e dois policiais atrapalhados,

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res e bancos, o local das refeições, os ônibus estacionados e mais longe a escola da peça “B612”. Por esse ambiente as pessoas transitavam, conversavam. O morro surgiu de verdade ao amanhecer, com a neblina se desfazendo e mostrando que a geografia se assemelhava à de Santa Maria. Um grupo de Candelária não apresentou sua peça por incompatibilidade de horário, já que no momento alguns critérios do cronograma eram modificados, fato lamentado. Porém, esse mesmo grupo de Candelária foi o que apresentara uma das peças infantis na manhã de sábado. O festival foi acompanhado por alguns dos moradores da cidade que o sediava, no entanto, os alunos de escola foram o maior público. Logo depois de “Então é Natal”, assistiram à “Fim de Partida”, uma peça densa e séria, recebida com estranheza e às pressas. Minutos antes do encerramento, o som das cadeiras esvaziando deixou os artistas e os outros espectadores tensos. Por mais que “Fim de Partida” fosse puro niilismo e desgostos em seus personagens deprimidos e aleijados, ela não era propriamente o fim de partida, era justamente o contrário daquilo que ela lamentava. Era o fim de partida e o início das jogadas cênicas. [meia-noite do dia 26 para 27] A escuridão do retorno foi esmorecendo os corpos, um por um e uma por uma as vozes da cantoria promovida pelas comemorações a la Baco silenciaram. E o bojo do abajur? Estava na cabeça de algum ébrio... de sono. [madrugada do dia 28] .txt

Personagem da peça de bonecos “o incrível ladrão de calcinhas”

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cultura

Brincando de fazer arte

Presente na vida dos santa-marienses desde o ano de 1965, a Escolinha de Artes do Centro de Artes e Letras (CAL) da UFSM vem trazendo às crianças oportunidades singulares de conhecer e fazer arte.

Ananda Müller e Jaqueline Araujo

Fotos: Jaqueline Araujo e Arquivo Escolinha de Artes do CAL

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arte instiga as complexidades que constroem a alma dos homens e, não raro esses homens e essas almas são pequeninos na contagem cronológica do tempo. E é em meio à explosão energética desses artistas em miniatura que a Escolinha de Artes do Centro de Artes e Letras (CAL) da UFSM colore uma história que já pincelou a vida de centenas de santa-marienses, de nascimento ou de coração. A Escolinha de Artes que tem como objetivo principal estimular a criatividade das crianças, proporciona aos pequenos artistas um espaço de atividades dentro das áreas de plástica e do teatro. No seu modelo inicial, havia também um espaço destinado à música, todavia esta atividade não mais é desenvolvida (vale ressaltar, no entanto, que outros projetos do mesmo Centro atendem a essa vertente artístico-cultural). Além das atividades desenvolvidas dentro da sala 1123, no andar térreo do CAL, onde se encontra o espaço físico da Escolinha, também são proporcionadas atividades de

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exploração de materiais e visitas aos mais diversos órgãos e setores da UFSM. Desde sua criação, a nomenclatura da Escolinha, bem como as atividades por ela desenvolvidas sofreram constantes mudanças. O que nunca mudou, no entanto, é a determinação de quem busca o êxito desta. No ano de 1978, a Escolinha de Artes foi reconhecida como órgão suplementar do CAL e em 1998, passou a Órgão de Apoio do Departamento de Artes Visuais da Universidade. Há mais de 30 anos é conhecida formalmente como LICA, Laboratório de Iniciação e Criatividade em Artes. A Escolinha de Santa Maria é embasada nos princípios filosóficos do Movimento Escolinhas de Arte (MEA), no qual cada entidade se desenvolveu sobre uma identidade própria, com autonomia em sua estruturação e administração. Ainda que essa autonomia sempre tenha sido prezada, paralelamente desenvolveu-se também uma forte ligação com a UFSM, que vem desde a criação do LICA, no ano de 1965. O vínculo entre a Escoli-

nha e a Universidade proporcionou a estreita aliança com as tendências vanguardistas da arte e da educação, além de oportunizar estágios aos acadêmicos dos cursos de licenciatura do CAL (posteriormente essas oportunidades de estágio se estenderam a outros cursos, de áreas outras que não só as ligadas ao CAL). O apoio dado pela instituição também é um dos fortes pilares que mantiveram a Escolinha em pé quando tantas outras criadas com o mesmo propósito feneceram. Segundo Reinilda Minuzzi, coordenadora do LICA, a Escolinha também está preocupada em dinamizar o conceito de arte: “A localização da Escolinha, aqui no CAL, é estratégica. Ela permite uma ampliação do conceito do que é arte, que especialmente nas escolas é apenas o desenho prontinho, pegar um pincel e pintar o papel - e pronto: aquilo ali é arte.” Além da crítica aos modos pouco complexos pelos quais a arte é tratada em grande parte das escolas primárias, Minuzzi complementa sua fala: “ Aqui nós temos o compromisso e a responsabilidade de ampliar essa visão,


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no sentido de mostrar várias possibilidades do que a arte, sobre tudo a contemporânea, oferece em termos de expressão.” A forma delicada com a qual a Escolinha trabalha as diferentes conceituações de arte é um dos aspectos que diferenciam as atividades do LICA de outras que seguem linhas semelhantes. Ainda nas palavras da professora Minuzzi, “as crianças têm que realizar trabalhos conjuntos com todo o grupo, um trabalho sério, que não é levado como uma brincadeira, não é como a aula de educação artística da escola regular.” Com isso, a escolinha quer combater a imagem de que a arte é apenas expressão livre. “A arte não é só isso, não é apenas a exteriorização irrefletida. A escolinha serve como um lugar no qual se adquire o conhecimento, a arte é mais uma linguagem pela qual a gente aprende a se expressar”, diz Reinilda. Os responsáveis pelas crianças que frequentam a escolinha endossam os resultados buscados e obtidos pelas ações desenvolvidas no LICA. São recorrentes os pedidos pela permanência das atividades durante o período de férias. Rreflexos da inserção da arte na infância permeiam

não apenas o universo particular dos pequenos, mas também irradiam para o convívio familiar e dentro da sociedade como um todo. Vale ressaltar, ainda, que são recebidas em pé de igualdade crianças portadoras de necessidades especiais, dentro de um processo de integração que estimula tanto a percepção social quanto as noções de cidadania do grupo. O número médio é de 20 integrantes em cada uma das três turmas atendidas. Os pequenos que participam do grupo têm idade entre seis e 12 anos, podendo variar para mais ou para menos, dependendo do interesse e das possibilidades particulares de cada uma. A premissa básica é que elas já estejam aptas a assimilar a ideia de construção de conhecimento, a fim de compreender os processos da linguagem da arte. Ao final de cada ano, salvando-se algumas exceções, é realizada uma exposição com os trabalhos produzidos pelas turmas. Reinilda Minuzzi retrata a gratificação alcançada através da escolinha: “Apesar do pouco tempo a gente vê no rosto de cada um as expressões, as descobertas e a beleza dos resultados dos trabalhos, a espontanei-

dade de cada atividade.” Mariana, cinco ou seis anos duvidosamente contados nos dedos das mãos, talvez não saiba das atividades coordenadas pela Professora Reinilda, todavia sabe muito bem o que dizer quando questionada sobre a escolinha: “É bem legal, eu adoro!” .txt

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perfil

Fragmentos de histórias, lições não acadêmicas

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Lara Niederauer e Liana Coll

Foto: Liana Coll

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erça-feira, 30 de março, início da tarde. Logo na entrada do campus da UFSM, o Hospital Universitário, HUSM. Na frente dele, bancos devidamente dispostos. Ora concorridos, ora vagos; em um lado da Avenida Roraima e do outro. São algumas dezenas deles e outras dezenas diárias de pessoas repousando histórias, doenças, necessidades e carências. Mochila nas costas, estudantes saem apressados do almoço no Restaurante Universitário, correm para o ponto de ônibus ou para suas aulas. Alheios à vida acadêmica, mas também com bagagem - de vida, a principal - Elaine e Sérgio esperam para um exame. Vindos da cidade de Cacequi, filha e pai saboreiam o elogiado pastel da Jandira. Cena comum em frente ao hospital, afinal Jandira está neste local há dez anos e conhece bem a freguesia. É a mais antiga vendedora ali. “Eles preferem comprar aqui. Encomendam e para muitos eu até anoto na caderneta”. Por um acidente é que essa senhora de 61 anos chegou aos bancos da calçada em frente ao HUSM. Cicatrizes lembram o dia. “Eu tava saindo e veio aquilo tudo pra cima de mim”. Desde então, por ter quebrado a bacia, não pôde mais subir escadas repetidamente. Foi quando começou com o negócio de lanches. Outra senhora que nutre uma relação de anos com a UFSM é a Dona Iracema. Natural de Quaraí, frequenta o campus há 13 anos - sete deles como acompanhante particular de pacientes e seis como vendedora de lanches ali na frente. Para chegar ao local, toma carona com uma companheira de vendas. “Aqui não tem problema de concorrência, todo mundo se ajuda. Se falta alguma coisa em uma banca, na outra tem”. Viúva há dez meses, comenta com orgulho que “foi meu marido quem fez toda a parte elétrica ali da Casa do Estudante, do RU e de outros prédios”. Quando o esposo faleceu deu-se conta de que precisaria ‘se virar’ mais. Às 3 horas já está preparando as comidas. Por volta das cinco horas e quarenta minutos sai para o trabalho. Olhando para os bancos mais próximos

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da porta do hospital, nota-se um homem um pouco encolhido. Sob a aba de um boné, José Eni espia para os lados e para a entrada do HUSM. Mãos bem agarradas em uma mala, espera a hora da visita. Ele, como acompanhante, veio com o irmão de Caçapava do Sul. O irmão foi internado e espera o dia da cirurgia. José não sabe se poderá dormir com ele no quarto. Se puder, ficará acompanhando-o até a hora da operação. Elaine e Sérgio, depois do lanche, acendem seus cigarros e ficam à espera de que as horas passem. Assim como todos que vêm de outras cidades, anseiam o fim da tarde. Neste momento, o micro-ônibus da Prefeitura dos municípios estaciona e recolhe os viajantes devidamente consultados, medicados ou operados. Em frente ao HUSM, é raro não reparar na quantidade de fumantes. Ansiedade pela espera Lires também tem. Porém, encontra-se no outro lado da avenida, fora da nuvem de fumaça. Ali, sombra e vento um pouco mais, digamos, inodoro. Com 55 anos, sofre de falta de ar. Encontrou no HUSM um melhor tratamento do que em Jaguari, cidade onde mora. “Lá as pessoa são muito reparadeiras, sabe?! E aqui... aqui os médicos olham pra gente e conversam”. Lires, que antes se perdia no interior do hospital, hoje poderia ser guia dentro dele. Em meio a sacolas enormes, divide o banco com os conterrâneos Joceli, Maurício, de um mês e 15 dias, e Marisa, de seis anos. Joceli traz Marisa, que tem problemas de convulsões, para consultas. Deixa os outros dois filhos em Jaguari, e só não poupa Maurício da viagem porque não tem alguém para cuidar dele. A menina não gosta muito de viajar, mas ela e a mãe bem sabem que só aqui acertaram a medicação correta. Essa família não é cliente fixa dos lanches daqueles seis vendedores dos bancos ali da frente. “Só tinha dez reais pra passar essa semana. Trouxe comida de casa mesmo...”.

Vindo de Santiago, no banco ao lado, um casal também aguardava a chegada de um micro-ônibus. O Hospital Universitário de Santa Maria é o centro de referência em saúde da região. Dezenas de cidades buscam nele serviços dos quais não dispõem. Darcila e Paulino, há meses, viajam para o HUSM. Ela, depois de sentir dores no pulso, passou por cirurgia e agora retorna para consultas. Naquele dia, havia sido liberada dos anti-inflamatórios, ou seja, “agora não preciso vir mais tão seguidamente”. O marido sempre a acompanha no ciclo trajeto-espera. Bem humorados, os senhores sorriem elogiando o atendimento. No céu, o sol começa a descer. Os bancos esvaziam. O local em frente ao HUSM muda de aparência. O tempo em que fica vazio, no entanto, é um momento de latência. Na manhã seguinte, mais micro-ônibus no estacionamento. Vendedores nos seus bancos, pacientes em consultas. Cada um por um fim, todos contribuem para o mosaico de histórias desse local. .txt


Revista .txt - Edição 9