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N O2 MAR 2017

RESENHA P. 7

MARY WOLLSTONECRAFT

MATÉRIA P. 8

LITERATURA EM REDE

ENTREVISTA P. 37 ALINE DIAS


TRINO CRÍTICA | TEORIA | PRODUÇÃO


UMA REVISTA SOBRE LITERATURA.


ÍNDICE ENTREVISTA ALINE DIAS P. 37

Aline Dias nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, é jornalista, escritora e blogueira. Publicou os livros Vermelho (Cousa, 2012) e Além das Pernas (Pedregulho, 2015). No começo deste ano, ela foi a um bar do Centro de Vitória para batermos um papo sobre ela, sobre seus livros, sobre como ela enxerga a indústria de arte e essas coisas.

Por João Chagas

CAPA Foto: Gustavo Binda

A ilustração de capa foi elaborada pela artista Kika Carvalho sobre o tema “Mulher e Literatura”. Kika é estudante de Artes e produz trabalhos em diversas superfícies, tanto no muro, na forma do grafitti, quanto na tela e no papel.

EDIÇÃO Nº2

REVISÃO

Francis Kurkievicz

TIRAGEM

CORPO EDITORIAL

João Chagas

João da Rocha

200 exemplares

Isabella Mariano

Juliano Salustiano

João Chagas

COLABORADORES

Kika Carvalho

Vitória, ES

Lívia Corbellari

Anderson Bardot

Leandra Postay

Março, 2017

Anna Catharina Izoton

Livros por Lívia

Periodicidade anual

PROJETO GRÁFICO E

Bernadette Lyra

Lucian Rodrigues Cardoso

DIAGRAMAÇÃO

Erly Vieira Jr.

Tiago Mine

Isabella Mariano

Fabíola Mazzini

Yasmin Zandomerico

TRINO


ESPECIAL Na reportagem “Literatura em tempos de Internet”, Isabella Mariano fala um pouco sobre a produção literária online, presente em redes sociais e blogs. página 8

COLUNA

DICAS CULTURAIS

“Mulher e Literatura”, pela escritora Bernadette Lyra. página 6

Separamos quatro dicas culturais: dois livros, um disco e um filme. página 40

TEXTO ILUSTRADO

ARTIGOS

Reservamos duas páginas inteiras para ilustração e literatura. páginas 42 e 43

Teoria por Anna Catharina Izoton, Leandra Postay e Yasmin Zandomerico. páginas 44 a 55

FICÇÃO Anderson Bardot, Erly Vieira Jr., Fabíola Mazzini, Francis Kurkievicz, Isabella Mariano, João Chagas, João da Lima Rocha, Juliano Salustiano, Lívia Corbellari, Lucian Rodrigues Cardoso, Tiago Mine. páginas 11 a 36

RESENHAS

ENTREVISTA

Análises de Giselle Porto e Lívia Corbellari. páginas 7 e 39

Lívia Corbellari entrevista Karina Buhr. página 41

EDITORIAL: A MULHER E A FICÇÃO Por Isabella Mariano O que eu poderia falar sobre mulheres e ficção que Virginia Woolf não tenha falado melhor? Ou mesmo Lygia Fagundes Telles não tenha plenamente representado em seus romances? O que eu poderia dizer em tantas linhas que, com poucos minutos de conversa, Bernadette Lyra não diria ainda melhor, ainda mais firme, ainda mais certa? Não que o que eu tenha a dizer seja pouco, mas deixo aqui em papel passado meu reconhecimento e admiração às que vieram antes de mim – pois a elas devo muito para estar aqui nesta revista despejando estas palavras. Mais do que entender a relação da mulher com a ficção, queremos que a mulher simplesmente esteja, apareça, produza, protagonize, assine, edite, diagrame, ilustre. Que esteja. E, aqui, nesta segunda edição, estamos.


BERNADETTE LYRA

MULHER E LITERATURA Nunca fui a uma conferência ou li um artigo que se intitulasse “homem e literatura”. Ainda que feitos por qualquer escritor encrespado, sisudo ou barbudo. Essa tal certeza dicotômica de que mulher/homem é um bloco que une duas unidades firmemente individuais, me deixa desconfiada. Meninas para um lado; meninos para o outro. Dividir para reinar. E divisão, aqui, tem gosto de repressão. É como admitir que na tevê, futebol é coisa para senhores e novela é coisa para senhoras. Estereótipos que se realizam no melhor sentido do termo de Barthes: a colocação do discurso onde falta o corpo, onde se tem certeza de que o corpo não está. Estereótipos estão por toda a parte, admito. Porém, servem mesmo é para reprimir cada vez mais tanto homens como mulheres, reconciliando-os com seus respectivos papéis sociais. Não sem lucro para alguns aproveitadores. Interessante ver que o discurso, quando se refere às relações mulher/homem (em quaisquer circunstâncias, mesmo em literatura), não consegue dissimular a miséria sexual de cada um, tanto do sujeito quanto do objeto observado. Assim, ninguém discorre sobre esse tema sem implicar a si mesmo, desvelando a própria intimidade. Então, como considerar de maneira isenta e conceitual esta opção: mulher e literatura? Eu poderia começar com uma paranoia digna de uma feminista dos anos 60, dizendo que isolar as mulheres em contraponto com os homens frente à literatura se encaixa na ideologia dominante machista. Mas logo depois eu teria, forçosamente, de explicar o que é uma mulher. Talvez caísse em Freud, de 1912: “tanto a feminilidade pura, como a masculinidade pura, são construções teóricas e o conteúdo de tais construções coletivas é bastante incerto”. Trocando em miúdos, para Freud a mulher não existe. Não existe um sujeito sexual unitário homem/a mulher. Sendo assim, a dar crédito ao velho senhor da psicanálise, não pode existir literatura sexualmente específica. A não ser aquela fabricada pelo próprio sistema cultural, com fins inconfessados. Promessas utópicas de liberdade já estão nos anúncios de jeans, margarinas, carros e refrigerantes. Quanto à literatura, meu Deus! Até hoje ninguém conseguiu responder à perguntinha clássica: “O que é literatura?”. Para começar, é uma palavrinha que vem de letra, para designar algo que durante milhares de anos não se podia pôr em letras porque as letras não existiam. Um escândalo! Desta forma, estou diante de dois conceitos em abstrato:

mulher e literatura. Dois pedaços flutuantes de nuvens, ligados pela partícula e. Ah, a partícula! Poderia ser uma aditiva. Nesse caso, mulher e literatura formariam um bloco único em que as coisas se fundem e se confundem. Por exemplo: trabalha e confia; ordem e progresso; Esaú e Jacó (estes últimos para não ficar só no pretensioso azedume do positivismo...). Daí seria fácil resvalar para a afirmativa: mulher é literatura. E, descaradamente, tentar um silogismo: Premissa maior: Toda literatura é ficção. Premissa menor: Ora, mulher é literatura. Conclusão: Logo, mulher é ficção. Não tenho a menor dúvida de que isso deixaria feliz uma certa parte dos discípulos do mestre Lacan. Por certo que as experiências culturais giram dentro de um círculo patriarcal. Mas seria ingênuo buscar uma leitura feminina na simples inversão de uma outra leitura masculina. Não existe linguagem fora da cultura, assim como não existe literatura fora do contexto cultural inteiriço que a envolve. Nós, mulheres, sabemos que compartilhamos alguma coisa. Mas o quê? Algo não nomeado, pois, nessa linha de raciocínio, não existe linguagem capaz de nomear esse algo “fora” compartilhado pelas mulheres, seja ele espacial, temporal ou imaginário. Ainda não existe. Não sou futuróloga, não sei o que virá. É inegável que hierarquias literárias opressivas estão por aí. Não dá para recuar diante delas. No entanto, creio que a questão principal não é saber se a literatura feita pelas mulheres dá um salto para além dessas inevitáveis restrições da linguagem. O importante, diz Linda Willians, é saber como isso é feito. Mesmo porque o olhar feminino é múltiplo em sua diferença. Diante da literatura ou qualquer outro espaço, artístico ou não artístico, as mulheres são diferentes entre si. Essa diferença essencial não é para ser tolerada. É para ser cultivada e exaltada. Helene Cixous fala do potencial dos textos femininos para estourar a lei e desarticular a verdade. É o que venho tentando fazer através de meus contos, romances e crônicas, ao brincar com as palavras.

Bernadette Lyra é escritora e professora

universitária brasileira. É autora de obras como “A Capitoa” (2014) e “O Parque das Felicidades” (2009).

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RESENHA

REIVINDICAÇÃO DOS

DIREITOS DA MULHER

O direito à educação não deveria ser privilégio de alguns, mas uma bandeira que todos aqueles que defendem a liberdade, a fraternidade e, sobretudo, a igualdade precisam levantar. Esse é o argumento de Mary Wollstonecraft no livro Reivindicação dos Direitos da Mulher, em que a autora conclama: “É hora de efetuar uma revolução nos modos das mulheres - hora de devolver-lhes a dignidade perdida - e fazê-las, como parte da espécie humana, trabalhar reformando a si mesmas para reformar o mundo”. Publicado em 1792, o documento é uma resposta à Constituição Francesa de 1791, que não incluía as mulheres na categoria de cidadãs. Como falar no exercício pleno da cidadania se a mulher ainda é excluída das questões públicas e confinada à vida doméstica? Desta questão é que parte o ensaio, considerado um dos textos fundadores do feminismo e uma ousada réplica às afirmações de pensadores como Alexander Pope e Rousseau, que acreditavam que as mulheres deveriam ser educadas apenas para se tornarem boas companheiras para os homens. A reflexão continua atual. Quem leu a matéria da Veja em que a esposa de Michel Temer é chamada de “bela, recatada e do lar” sabe que o preconceito não ficou para trás: a representação da mulher ainda passa pela aparência que elas “devem” ter - uma concepção moldada por estereótipos de gênero. O “retrato da mulher bem educada segundo a opinião aceita de excelência feminina”, Mary aponta, não é só “abjeto”, mas ainda exclui do debate “em que consiste a existência das mulheres quando não há casamento”. Este livro é, portanto, mais do que um levante contra a moral sexista e conservadora de sua época, mas também uma análise sobre a hegemonia masculina 8 TRINO

e as estruturas que colocam as mulheres em situação de dependência (inclusive econômica). Como diz Maria Lygia Quartim no prefácio do livro, Mary foi “a primeira a demonstrar que ‘ninguém nasce mulher’, lançando os fundamentos ontológicos da teoria dos gêneros”. Mary, assim como Olympe de Gouges (que também lutava pela igualdade de gêneros na Europa do século XVIII), era a favor da abolição da escravatura e teve uma trajetória pessoal marcada pela tentativa de ser mais autônoma: passou a adolescência defendendo a mãe dos ataques de fúria do pai; com a ajuda da irmã, fugiu de um marido violento e viajou para o norte de Londres, onde fundou uma escola em Newington Green; foi precursora do amor livre e morreu aos 38 anos, ao dar à luz seu segundo bebê - a escritora Mary Shelley, autora de Frankenstein. “Ela trilhou um dos poucos caminhos possíveis a uma mulher de sua época para conseguir espaço como intelectual. Teve formação incipiente e, depois, educou-se de modo autodidata”, diz Ivania Motta, tradutora da obra, em entrevista a Leonardo Cazes, do jornal O Globo. “Seus textos foram escritos num período peculiar na Inglaterra em relação à produção de obras teóricas e discussões políticas. Em plena Revolução Industrial e sob o impacto tremendo da Revolução Francesa, desenvolveu-se o mais intenso e polêmico debate ideológico jamais ocorrido sobre o caráter e a natureza das instituições políticas”. O livro Reivindicação dos Direitos da Mulher é publicado pela Boitempo Editorial, tem 256 páginas e está à venda por R$ 56.

Giselle Porto tem 24 anos e é formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero.


ESPECIAL

LITERATURA EM TEMPOS DE INTERNET Por Isabella Mariano

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ESPECIAL Depois de Gutenberg, a relação do livro com a literatura se tornou ainda mais íntima, quase instantânea. A prensa móvel possibilitou a produção de livros em série e deu início à rápida popularização do livro impresso, abrindo espaço, então, para a criação de um mercado editoral como conhecemos hoje. O fato é que, com pouco mais de 30 anos de existência, a internet – em termos de World Wide Web – tem dado novas nuances à literatura contemporânea, trazendo à tona diferentes formas de acesso à literatura e causando impacto inclusive no setor editorial. O boom dos blogs nos anos 2000, por exemplo, permitiu que autores compartilhassem de forma mais direta suas produções entre si. Com bilhões de usuários em todo o planeta, o Facebook também tem sido utilizado como uma espécie de difusor da literatura. Segundo dados internos da rede social, só no Brasil mais de 90 milhões de pessoas acessam a plataforma todos os meses. O número corresponde a somente 45% da população nacional, mas pode ser significativo diante do resultado que a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, elaborada pelo Ibope em parceria com o Instituto Pró-Livro, nos trouxe em 2016: 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. A pesquisa considerou leitor quem leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos três meses.

ENTRE O IMPRESSO E O ONLINE No Facebook, fanpages como a “Pó de Lua”, de Clarice Freire, com mais de um milhão de curtidas, e “Eu me chamo Antônio”, de Pedro Gabriel, com mais de 900 mil curtidas, são exemplos da presença da literatura na internet. Os dois escritores formaram seu público leitor na grande rede, porém não abriram mão de ingressar no mercado editorial e atualmente ambos são autores publicados pela editora Intrínseca. Quem também é reflexo de todas essas interferências é a mato-grossense Ryane Leão, de 27 anos, autora do projeto Onde Jazz Meu Coração, presente tanto no Facebook, quanto no Instagram – e ainda: nas ruas. O projeto surgiu em 2013 na internet, mas logo foi ocupar as ruas em forma de lambe-lambe. “A internet é um meio barato de publicação, um meio que facilita a comunicação de quem não teria voz de outra maneira. A gente pode escolher o que lê, o que consome, encontrar pessoas com ideias em comum, conhecer novos autores, organizar saraus, eventos, saber de outros projetos por aí”, comenta Ryane. Apesar de estar cada vez mais popular na rede, a autora não dispensa a ideia de ter seus poemas publicados em um livro impresso. Em 2015, ela apostou no financiamento coletivo, por meio do site Catarse, para viabilizar a publicação do seu primeiro livro, chamado “sou coração em excesso”. Os mais de 60 mil seguidores no Instagram e as mais de 30 mil curtidas em sua fanpage no Facebook a ajudaram a alcançar seu objetivo de arrecadação. “Sempre quis um livro impresso, mas nunca tive dinheiro pra impressão e nunca mandei um original pra uma editora. Escrevo faz tempo, antes mesmo de surgir o financiamento coletivo no Brasil. O Catarse surgiu como uma esperança de fazer as coisas serem mais justas, de pedir ajuda pra quem me acompanha e me lê pra fazer isso se tornar real. O financiamento coletivo revolucionou a escrita independente”, pontua. Já o poeta capixaba Orlando Lopes, 44, percorreu um caminho diferente. Em 2007, ele publicou o livro “Occidentia”, porém não realizou nenhum lançamento oficial, visto que a tiragem de 200 exemplares apresentava muitos erros de impressão. A partir daí, o autor passou a perceber as limitações que o 10 TRINO


ESPECIAL livro impresso apresentava ao seu trabalho e se permitiu considerar outras formas de difusão. Hoje, Orlando mantém um blog e uma fanpage no Facebook, ambos intitulados “Occidentia”. “Ter o contexto histórico da Literatura me ajudou muito a considerar o que era possível ou não fazer, o que era desejável ou não fazer. Por exemplo, nós estamos acostumados com a ideia de que a obra só deve circular quando estiver ‘pronta’, ‘acabada’, mas isso sempre aconteceu, ou é decorrência de um sistema e de uma tradição editorial em particular?”, questiona. Muito mais do que uma narrativa seriada, como o folhetim e as histórias em quadrinhos já possibilitaram, a internet permite que a produção literária seja compartilhada em qualquer estágio, ainda que considerada inacabada. Tendo acesso à internet, não há custos de publicação, portanto o autor é capaz de divulgar não só o poema ou a prosa finalizada, bem como seus processos de escrita, podendo ter um retorno imediato de seu leitor. “Esse é um movimento delicado, pois o retorno dos leitores precisa ser depurado pelo autor, não pode ser simplesmente uma entrega às exigências externas, mas abre uma perspectiva de potencialização dos textos, de crítica, revisão e incorporação de elementos que reforcem a sua possibilidade de produzir sentidos. [...] Mas o inverso continua valendo: há coisas que o livro faz, há coisas que a voz e o corpo fazem, que o hipertexto e a imagem digital não podem fazer. Isso não quer dizer que uma experiência possa ser considerada mais ‘essencial’ ou definidora da Literatura que a outra”, afirma Orlando que pretende retomar a publicação de livros impressos futuramente.

CONEXÃO AUTOR-LEITOR Já não se pode negar a presença da literatura na internet, muito menos de um público disposto a consumir literatura. Contudo, a questão que nos rodeia neste ponto ainda é: o que o leitor é capaz de encontrar? A internet permite que cada vez mais escritores disponibilizem seus trabalhos online, estejam eles finalizados ou não; mas definitivamente não basta que a produção esteja acessível, é preciso ainda tentar resolver a equação que envolve o conteúdo produzido e o público interessado especificamente na literatura que se produz. E isso sim, em muitos casos, envolve investimentos em publicidade e em profissionais de mídia e comunicação. “O leitor continua em algum momento tendo que ‘lutar com as palavras’ e isso segmenta muito o que se alcança. [...] Ainda caminhando pelo achismo, minha sensação é que os repertórios, os cânones, tendem a

ficar restritos a ‘nichos de redes sociais’. Se nós não tomarmos cuidado, a Literatura, a poesia, continuará isolada, privilégio de alguns e maldição de outros”, comenta Orlando Lopes.

ELAS NA REDE Alessandra Lamunier, Bruna Masculi, Michelle Borges e Tamires Arsênio têm buscado seu lugar ao Sol nessa imensidão que é a internet. Juntas, deram início, em outubro de 2015, ao blog “Elas por Elas”, a fim de aliar literatura, representatividade e empoderamento. Hoje, a fanpage do projeto no Facebook conta com mais de 4 mil curtidas. “Muita gente acaba sendo descoberta através da internet, seja em blogs ou em qualquer outra plataforma de publicação. O único cuidado que precisamos ter é o de manter a rede como um lugar democrático e, por isso, eu acredito que é tão importante a criação e manutenção de projetos com foco em representatividade”, comenta Tamires, idealizadora do “Elas por Elas”. Ainda que continue sendo necessário “ter um teto todo seu” para produzir ficção, é de se reconhecer as possibilidades que a rede oferece às mulheres escritoras – que podem não só compartilhar sua escrita, como também desenvolvê-la, exercitá-la de alguma forma com menos dificuldades. “Ter cada vez mais mulheres que se dediquem à literatura, de certo modo, é um ato de resistência. Parece coisa de 200 anos atrás se esconder atrás de um pseudônimo masculino, mas muitas vezes a gente ainda vê isso acontecendo na literatura”, afirma Tamires. Mesmo que, em alguns casos, com escritas e estilos considerados distantes dos cânones literários pelos mais acadêmicos, a produção literária na internet é real e contínua e tem, inclusive, surtido efeitos no mercado editorial, que busca na rede sucessos garantidos de vendas. Para tentar começar a entender melhor esse universo, é preciso que as pesquisas sobre o leitor brasileiro se dediquem também a esse leitor que está online, nem sempre com livros impressos em mãos, mas volta e meia com um poema na tela do celular. E, mais, é necessário observar esses autores que estão online, só na rede, sem registros de publicações que os classifiquem, ou metas de vendas que os limitem.

Isabella Mariano é jornalista e escritora

brasileira. É autora dos livros “gotas” (2013) e “Cortes Lentos” (2015) - este publicado pela editora Pedregulho.

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FICÇÃO

ANA CRISTINA CÉSAR

se chamei a enfermeira foi sem querer vício de alarme a vida é arremedo (É preciso não cuspir É preciso não inflar É preciso não fumar) se quero viver não pode ter carimbo amém, sorriso de mãe: eu, lírico, não lavo roupa arrombo a palavra na hora exata da chama

Fabíola Mazzini é servidora pública e tem

poemas publicados na antologia “Palavras da cidade” e em “Mallarmargens”, “Pausa” e “O emplasto”, revistas na internet.

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FICÇÃO

CALAR-SE Há momentos, perdoe, em que o poeta quer calar-se. Fingir escutar; viajar ao longe; deixar o bar; recolher-se ao quarto. Mas calar-se, advirto-vos, não como um nada a dizer: silenciar-se. Calar-se como um parir-se à dentro. Calar-se como um gestar-se à fora. Calar-se como um grito no parto. Porque o poeta, quando cala, escuta o apelo, pari o grito contido silenciado da alma.

Lucian Rodrigues Cardoso é capixaba,

professor de História e escritor. Atualmente, realiza mestrado em História Social das Relações Políticas, na Ufes.

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FICÇÃO

INQUÉRITO

Mas, como é que eu vou saber, se eu não sou como ele alguma coisa na altura dos olhos incomodava bastante, e por não ser mariposa, nem mosquito, nem areia, era algo que só incomodava a ele (é claro que perturbava) mas podia ser mesmo coisa da imaginação, ainda assim, coçando os olhos de dentro pra fora, incomodava a vista de quem o via mexer assim, esfregando a retina e todo o globo ocular como se não os tivesse, apertando a pálpebra como se realmente não tivesse olho (só podia ser isso, alguém que andava farto da vida, ou pelo menos do que achava que era a vida) intragável, ou como dizia a servente da manhã que fazia vista grossa ao menino, e como de costume ia às quintas feiras comprar víveres na quitanda da esquina, um tipo que dá uma certa náusea olhar, sempre desviando os olhos, mas ainda assim, magnético, como dizia a servente com certa gratuidade enquanto trocava as moedas para facilitar o troco ( - parecia que tinha matado o outro, ou que tivesse se matado no lugar do outro) e os olhos muito vermelhos de tanto esfregar que já eram seis horas da tarde e já havia passado muitos minutos desde o começo da conversa, ainda informal, mas o delito havia sido categoricamente informado, formalmente registrado, e estava sendo impecavelmente investigado a sirene berrava dentro dos muros, e os outros meninos esticavam os chutes, e as gritarias, antes da intervenção do servente, são surdos? filhos de uma puta, vão se lavar, que já era hora do jantar, como sempre a última bolada quicava sem um contrachute (mas hoje estava chovendo forte, e não havia nem bola, nem a voz do servente são surdos? filhos de uma puta, vão se lavar, que já era hora do jantar, e a gritaria dos meninos não era pela bola na trave, era mesmo a chuva, e o vendaval, e também era o filme que ficaria pra depois, já que a eletricidade tinha sido cortada) finalmente uma vela, e responde, menino!, só que aqui ninguém tem um nome, nem a minha tia Dalva que só vinha de três em três meses porque mora no interior, e também porque prefere assim, de qualquer modo hoje estou sozinho (era mais fácil dizer qualquer coisa, simplesmente, e deixar estar), mas, se existe uma palavra que queira dizer mais que sozinho, ou então, menos que sozinho, pois é essa a palavra que existe aqui, mesmo que a gente não saiba o

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FICÇÃO nome dela, porque estar sozinho é simplesmente estar sozinho (mas não), eram três, um grande e dois médios, os dedos eram grossos, até mesmo o da mulher que era a terceira e era média, mas o grande não falava nada, só olhava pra mim (e era só responder, de novo, do mesmo modo, a mesma pergunta, Como posso saber, se não sou ele?) estamos todos cansados, mas... e sempre havia um mas, e depois a conversa continuava, interminavelmente e prosseguida com mais outros mas, e isso já era um tipo de ameaça – Mas se não sou ele...) os olhos estão desbotando de tanto esfregar neles, e já não era a primeira vez, o segundo, nem o terceiro, o inquérito era feito sempre dessa mesma forma demorada, calma, uma violência silenciosa, faltava fazerem carinhos, tudo pra uma resposta, tudo pra resposta que de alguma forma era esperada Fale sobre ele (tudo o que já sabiam) que era alegre, mas que ficava triste de vez em quando, e que quando ficava triste batia nos outros, e tinha as bolas e o queixo bem mais desenvolvidos do que os do resto, e ainda assim era generoso de vez em quando, só não era quando estava triste, e tristeza não era bem a palavra, era mais que isso, na verdade, era menos que tristeza, era uma palavra que significa mais e menos que isso, e é essa a palavra praquilo que ele sentia, só que não tinha outro jeito de falar, tudo ali era ou uma coisa ou outra, ou tudo estava bem, ou não estava a psicóloga entrou na sala coçando o olho, eram quatro agora, e quanto mais gente tinha lá, maior era o silêncio e a espera (todos esperavam que dissesse o que queriam que dissesse) O que você estava fazendo ali (todos esperavam que o menino dissesse algo que eles já sabiam) nada diferente do que tinha sido dito, tinha ido lá pra olhar pra ele, tinha ido lá porque sabia que ia chover, que não ia ter jogo naquele dia, e que os meninos, os outros meninos, ficavam eufóricos demais sem jogo, filme era chato, não tinha filme bom passando na televisão, a televisão era chata, preferia os calções de futebol, as pernas por dentro dos calções eram mais interessantes que o jogo de futebol, o futebol a gente via pela tevê e acabava esquecendo das pernas dentro dos calções, mas ali não, ali ao vivo era diferente, e quando chovia o jogo perdia a graça, então tinha ido ali pra vê-lo (o olho estava vermelho, assado de tanto coçar, mas ainda coçava), porque ele gostava de ver os meninos jogando, mas como não tinha jogo, era melhor ficar olhando pra ele

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FICÇÃO

(a hora do banho era boa também, e a hora da janta melhor ainda) Mas o que ele estava fazendo sozinho (ele não estava sozinho) algumas coisas são tão óbvias que é difícil falar sobre elas, quando alguém sobe numa escada, é a escada que é escalada, ou é a pessoa que sobe nela, ou então quando olhamos para alguma coisa, é a coisa que nos é revelada ou somos nós que a desvelamos (ele não estava sozinho) mas e se o médico tivesse tido a brilhante ideia de enviar o menino para a psicóloga antes que ele tivesse se arremessado da janela (ele não estaria sozinho) e se a psicóloga tivesse trazido aqueles papéis desenhados com formas de tinta, como as borboletas das aulas de arte, que quando dobradas ao meio significam coisas diferentes para as pessoas, como nos filmes que eles assistiam nos dias de chuva, ao invés do futebol, então, cada papel borrado seria uma coisa estranha, seriam coisas tão estranhas que talvez ficasse distraído daquela situação toda, o ar talvez mais leve, o ambiente seria engraçado e todos teriam motivos para rir, e talvez até o cara grande que fica em silêncio também achasse graça e risse, então todos dariam risadas das ideias malucas sobre as formas engraçadas que ganham esses papéis borrados com tinta preta (e ele não estaria sozinho) tinha plena certeza agora, iria perder a hora do jantar, e por que ninguém perguntou se estava com fome, se poderiam conversar depois do jantar, apesar de tudo sentia fome, e depois que serviam o jantar tinha a gelatina, e depois disso a cozinha ficava fechada até a manhã seguinte ( - Onde está a manhã seguinte, muito antes do dia em que eu vim parar aqui, o dia seguinte que era como uma festa em que se comemora ontem simplesmente, e espera de maneira saudável um amanhã bem diferente de hoje, onde está aquele fim de semana das pipas e das chineladas, e dos fins da noite com cheiro de gente que eu sei quem é, e que está no quarto ao lado, e respira mais fundo que o ronco do motor de um ônibus) Onde você estava exatamente (eu não estava sozinho) era pra responder que bem longe, perto da porta, ou então fazendo alguma coisa de útil, tarefas, como são chamadas aqui dentro, mas eu não estava fazendo nada disso, mas devia ter dito que estava atarefado, olhando para a parede e para

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FICÇÃO o chão, compenetrado, feliz na realização dessa tarefa, responsável como um cérebrodieta ( - as nuvens faziam um desenho engraçado e se moviam muito rápidas, rápidas demais, a janela deixava o cotovelo da gente marcado com a marca da esteira de correr, e sujo de poeira também, mas tudo ficava distraído, porque as nuvens se mexiam rápido e era diferente ficar olhando para elas assim, livres) o telefone tocou, mas dentre as três mãos que se atiraram em direção ao gancho, apenas uma conseguiu, e mais três pessoas iam se juntar a nós, mas só duas chegaram juntas ( - era engaçado falar giroflex, lembrava coisa de circo, porque o som dessa palavra me fazia pensar em pirulito, algodão doce, montanha-russa, e essas coisas que agente assistia na TV quando não tinha o futebol) E essas tatuagens (era uma faca, fincada em nada, na pele mesmo, na coxa, e tinha também um coração que tinham me tatuado no braço, perto do ombro, porque as vezes eu era como uma mãe aqui dentro) era assim antes, de sábado uma correria nas casas, um pouco de nuvem, bem branca e rala, o dia ensolarado com vento refrescante, nem tinha nuvem de chuva e nem se pensava nela, era churrasco, era música alta na vizinhança, e era também assim que o domingo abrigava preguiçoso o silencio do bairro e só uns to-to-tó das motos quebrando o tédio do dia, mas no canto da sala a psicóloga tirava uns papéis desenhados de uma pasta, e pela primeira vez eles olhavam uns para os outros, não mais pro menino, incisivos, nem pra parede, esperando a vez de perguntar ( - Como posso saber, se não sou como ele) Não senhora, sim senhora, não senhor, sim senhora, sim senhor, não, não vi senhor, sim senhora, sim, não, eu não vi senhor, sim senhora, eu não, sim, é engraçado do jeito que diz, vi sim, sim, estava sim senhora, não senhor, sim senhora... ( - Como posso saber) o segundo sinal quer dizer que acabou a hora do jantar, e os meninos que vão lavar a louça do jantar de hoje passam xingando e falando coisas engraçadas, um dos homens altos abre a porta e faz xiu!, o outro encontra um papel no bolso e fica lendo enquanto a psicóloga guarda os papéis, o olho começa a lacrimejar

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FICÇÃO

porque está ardendo de tanto esfregar nele O que você viu exatamente ( - É que tinha uma coisa que eu queria dizer) faltaria dizer que imaginava a vida deles muita chata, a vida deles como se quase não fosse vida, que eles não tinham as pernas por dento do calção para olhar e também não tinham a hora do banho, e em dia de chuva, como hoje, não tinham olhado pro céu, vendo assim as nuvens e todo aquele balé de cores e formas, e o elefante esticando a perna igualzinho ele fazia antes de pular, quando estava feliz e jogava bola normalmente, como os outros meninos, com os outros meninos, e que de vez em quando é que ficava triste, e hoje devia estar muito triste, ou aquela palavra que quer dizer exatamente, ou deveria, o que ele estava sentindo, porque tinha pulado de uma altura muito larga, e tinha até dado um sorriso antes de pular, porque tinha um sorriso gostoso de olhar, e tinha pulado sorrindo, como um segredo travesso, e tinha olhado pra cima enquanto caía, e caiu muito rápido, fez até barulho no vento, e foi tão rápido que nem barulho fez, e foi assim de repente, pulou, e fez um tremendo barulho no chão ( - É que devia ter alguma coisa que ele queria dizer, acho) a porta fica aberta um tempão, e todos olhando prum ponto fixo e alguma coisa é esperada, ali todos estão esperando alguma coisa, um deles pega uma chave e me olha que nem pai Quer dizer alguma coisa, é melhor dizer agora no fim do corredor há uma sala onde os funcionários fazem festa de vez em quando, e algumas vezes é onde os meninos apanham, ou recebem amor, ou então onde os meninos maiores fazem festa com os funcionários, sei de quem já foi lá que não é bom, e ele tinha ido lá uma vez, e eu fui uma vez também, e não é bom, e mesmo que hoje não tivesse chuva, que o céu fosse bom pra ver as pernas dentro dos calções, ainda assim, eu acho que não vejo mais graça no futebol (porque todos queriam uma resposta) Mas como é que eu vou saber se realmente não sou como ele

Tiago Mine é formado em Artes Cênicas e integra o coletivo Dolores Boca Aberta. Atualmente, estuda Letras e desenvolve projetos de arte e literatura.

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FICÇÃO

CAVIDADES

Dei a mão para o meu inimigo na inocência, em direção ao caminho para o futuro. Bati nas duas faces de um amigo que só me queria o bem. Abdiquei-me da dor e na alegria não me encontrava. Precisei de coragem quando era a minha vez de retribuir. Ao não dormir entendi a madrugada, é ela a fragilidade do mundo. Andei por árvores que alimentaram meus avós e ainda não sei se devo cortá-las. Revirei as cinzas do futuro achando que tudo estava inerte. Posei para uma foto 3x4 para uma identidade que em mim não havia. Penso na vida que me remete a quadros e nos quadros noto que toda vida nasce e morre incompleta. Adormeço pensando em minha morte e sem sentir morro mais um dia. Meu corpo cai sobre uma multidão de desconhecidos enquanto o meu sexo anseia incessantemente por um pouco mais de cavidade.

Anderson Bardot é cineasta, escritor, músico

e produtor cultural. Lançou seu primeiro livro de poesias, intitulado “Cavidades”, em 2016 no Palácio Anchieta, Vitória.

TRINO 19


FICÇÃO

FALSO LÚCIO CARDOSO

Tata (giba) andava insone naqueles fins de março. Abatido pela vesícula pesada, buscava nas conversas que ululavam no Bar Santos alguns sinais redentores da insólita, demasiado insólita existência humana. Nos fins dos 80 a vida mudara muito, tanto que não nos reconhecíamos como gente, apesar da euforia da abertura política, das questões de identidade, das novas perspectivas urbanas. Eu, sonolento que estava com a labuta insana que o grande Leviatã moderno impunha-me, fuime encontrar com Tata no fim da noite para renovar meu ânimo de moribundo trabalhador da educação. Atualizar as desditas do povo. Especular os destinos da nação. Queixar-me, apenas, queixar-se. Tata já se adiantara nas xícaras de café e no cigarro quando cheguei, dianteira que jamais poderia alcançar, não fossem as admoestações penitentes do Dr. Otaviano, um amigo leal, mas um médico leviano, que me proibira os mortais prazeres humanos. “Para sua longevidade saudável”, me dizia em tom de sarcasmo diplomático. Mas eu adivinhava em seu sorriso sinuoso e brilhante, o prazer cruel em nos impor restrições ao gozo da vida. Tata se ria dos meus apontamentos e desapontamentos médicos e de outras idiossincrasias idiotas que me afetavam o ânimo e o tônus. Depois de muita conversa jogada fora e outras recicladas, um homem de gris abundante, pele curtida como as dos indianos do sul, surgido do esfumato de algum cigarro próximo, pediu permissão para se sentar à nossa “civilizada mesa”, em suas próprias palavras. Pediu ao garçom uma cerveja e uns petiscos. Enquanto comia se apresentou como Lúcio Cardoso, mineiro que veio buscar em Vitória o que faltava em sua terra, Patos de Minas. Contou-nos sua itinerância errante desde a infância até aquele momento, com uma riqueza de detalhes que soava a leitura de algum romance esquecido e inédito do outro Lúcio Cardoso, o Joaquim, com suas mazelas marcadas a ferro em brasa, com seus conflitos lubrificados

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a sangue e suor, com sua dieta rica em carboidratos e maledicências, com seus pesares, pensares, penares e toda volúpia de uma subjetividade ambígua. Mas que, apesar de tudo e de todos, das sinas e dos vícios, ainda lhe restava uma esperança que ele mesmo identificava misteriosamente com a reabertura política do Brasil, com a reintegração de posse da própria identidade. Uma esperança com tons de profecia auto-realizadora. Com matizes expressionistas. Com a luz do delírio dos enfermos. Mostrou-nos fotos, documentos, cicatrizes, datas e nomes para corroborar a veracidade de suas palavras tão enfaticamente exageradas, tão enfaixadas de melodrama, tão mais que qualquer outra coisa. Tata ouvia seu discurso com olhos estalados, como que vidrados numa pitonisa de barba por fazer, bafejando etílicos enigmas. Eu, angustiava-me, pois o sono me jogava sua arreia nos olhos e punha em meus ombros uma trave de concreto. Já não sabia se sonhava ou era sonhado. E entre atos, comes e bebes, o falso Lúcio Cardoso repetia sua ladainha mântrica que aquela noite seria sua noite de sorte, a noite que a esperança nutriria sua miséria. Pois se sentia com coragem para determinar o próprio destino. Particularmente, eu não entendia o que ele queria dizer com sua “noite de sorte”. Tão pouco conseguia aventar o que se passava pela mente de Tata. Só sabia que seu coração rejubilava-se com aquela história bizarra de humana perdição. Já passavam das duas da manhã quando bocejei minha despedida, mas o tal do Lúcio interpelou-me com a sua dicção entrecortada: “Cal maí ami go mi

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nha histó riainda não ter minô”. E antes que eu pudesse dar-me sentido ao seu discurso, o tal do Lúcio puxou um 38 enferrujado e deu voz de assalto para os poucos clientes que resistiam ao implacável morfeu embriagado. Acho que só naquele momento que a ficha caiu e a ligação foi completada em minha sonolenta cabeça. Estávamos ali para distrair o assaltante em sua labuta noturna, para ouvirlhe os diacronismos pegajosos, a esperança disfarçada em espólio. Em meu terror sonolento vi Tata espargir um sorriso irônico junto com a fumaça do cigarro. Com a calma e paciência de quem escreve refletidamente um artigo jornalístico ou um conto, tomou um gole de seu café frio e observou o desenrolar cinematográfico da cena. Todos fizemos nossa voluntária e generosa contribuição ao tal Lúcio Cardoso e sua esperança profética auto-realizadora. Menos Tata que em seu silêncio literário parecia comandar a situação, atuando através de misteriosos fios invisíveis, injetando ação e verbo ao falso Lúcio Cardoso. Seria o tal Lúcio apenas um personagem imaginado por Tata? Não sei dizer, mas naquela noite voltei alguns cruzados mais pobre para casa. Esta foi a última vez que vi Tata e seu sorriso de Monalisa escrutinadora. Este foi o último instante insólito que experimentamos na expiação noturna de Vitória. FIM.

Francis Kurkievicz é poeta, escritor e

roteirista, natural de Paranaguá/PR. É autor do livro infanto-juvenil “Meninices”, lançado em 2016 pela Secult/ES.

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O MOINHO

Desde cedo, sem que soubessem, já punha medo na vizinhança. Os animaizinhos, gato, cão ou passarinho eram os prediletos alvos daqueles entranhos olhos azuis. Caças complexos, feitos de papel, jogava pra animar o saguão principal do edifício, e nisso fazia ; sobrancelhas albinas e grossas, caretas finas, um produto de nariz sempre escorrendo na roupa da escola, respiração bufante na vigília e no sono. Um ser típico daqueles pequenos que viviam na Rua Célia, no antigo Conjunto Moinho, no centro velho de São Paulo. Porque moravam no primeiro, a família da coisinha subia toda sempre de escadas; pai, mãe e a aquela graça, todos os três, sem nome, em assunção ao mais simples. Eu Estacionava no Góngora, e no Gigante do Camões tinha que dar-me um tempo; enfiava um marca páginas da revista Cláudia entre o Vasco e a esquadra para ver. Via-o de costas, sentado, e encoberto pelos vidros mais ou menos escuros que me davam para ver, ora a rua, ora o dentro, e garantir que o de fora não passasse a Íris da guarita do prédio e lhe penetrasse a alma… Poesia de mais para contar o que era todo dia um chato medo disso e daquilo, de tumulto e de arrastão, mas era um sentimento de invasão criado em mim quando daquele menino entrava. Sim, falo de uma criança, cria desse prédio desde dois mil e um, que é quando eu calculo que tenha subido a primeira vez aquele andar, de elevador, evidentemente, de olhos da cor que não se podia ver ainda, aproveitando o sono extenso de recémnascido. Ficou xodó em pouco tempo. De fato, xodó de poucos, por sermos, forçadamente paulistanos e nos conhecermos bem só pelos vidros. Nunca confiei naqueles olhos azuis de niño, pescoço adornado com medalhinha de alguma reza. Nunca soube eu exatamente o seu nome, mas me vinha sempre que tinha cara de Pedro, porque tinha uma travessura escondida na simplicidade, uma especulação oscilante, que só um despotismo pleno dá direito. Cara de Pedro, atos de Pedro, que até me perdia nas páginas. Mudar de ideia eu nunca quis, principalmente porque existiram durante uns dias do mês de Agosto, quase uma temporada, aves fluorescentes amarradas, descabeladas, sem pena e sem as asas penduradas como se fossem frangos.

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Dona Altina, a síndica menos ativa que o Moinho já tinha visto, mais por falta de diplomacia que por força, desconfiou de macumba, arte mística magia, demagógica, ou até de frieza, uma politicagem nua pra derrubá-la do comando... Mas quem e em que circunstância? Começou a ficar alerta de noite e notar barulhos, pombos sem sorte sacrificados, tanto que a chapa dela não descansava mais no copo de Gim; mascava ela pra fazer passar à força a modorra, e depois mais, sacando-a no ar para ganhar atenção quando vinha o frio e, finalmente, mastigando por mastigar, sem perceber pela noite. Ficava com pena de comer coisa e sujar ela, e ter que lavar, ou fingir que não estaria suja, e poluir o Gim de mais de trinta anos. Seguiam as desordens travessas que regulam todos os condomínios. Por mais que se fechassem as escadas de serviço, persistiam em aparecer restos vermelhos no seu chão, sempre de dia e antes das sete, formando um caminho cujo rastro ia ficando ralo, até sumir no hall... E pouco tinha o que fazer se o mês era seco, mas era fim do inverno, e tudo se limpava com a água infiltrada de origem também desconhecia, vinda de baixo pra cima, deixando úmido aquele pedaço perto do extintor. De jamais úmidos, olhos entranhos seguiam brincando de maldade e brilho, único suspeito para mim e mais um brincalhão para o resto daquele mundo, tal criança urbana durante o dia, repousava como um felino de porte grande; não tinha mulher ainda por ser pequeno, mais uns sete anos o separassem disso; talvez não viesse de verdade a ter uma, mas muitas, ou mesmo nenhuma, já que é bem esse o caso que acontece quando se tem de tudo nas mãos. Agora, enquanto a mãe falava no interfone, contorcia uma Libélula no piso do cento e dois, machucada, parecia palito chupado, cansada de debater a única asa; daria o céu para nunca ter revoado para o centro, iria lutar contra a rajada de vento, e de derrota se caísse desejaria morrer sem olhos tantos, de mil ângulos, de ver seu próprio corpo dissolver em catucar de unhas tão sujas; tenha pensado, talvez, “Por que não sou venenosa?” ficava o vulto prosa, com mamãe enrolando, distraída, o fio do fone e vendo a pilha de contas, do colar e do papel. Essas execuções continuavam sem tamanho. Joaninha, abelhão, caramujo, tatu-bola, borboleta, mariposa... Nesse jogo não se entrava mosca, e nem mortes com vassoura. Essas entram como

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legítima defesa em todo tribunal... Isso balança muito a mata quase plana que os olhos precisam pra serem tão discretos. E assim eram – em toda vizinhança não havia queixa deles – naquele canto onde se esperneia de qualquer barulho, o nascer de dois círculos de gude incríveis, de brio longo; uma das poucas coisas toleradas para além do playground. E Altina insistia com a suspeita absurda de magia, acusou o terreiro da quadra de baixo pelos maus passos no moinho, por ali ter sido já casa de algum escravo castigado. Observava como uma estepe o conjunto de dois prédios lilases absurdos que viviam no limite de um cinza também um pouco feroz, que por não se conhecer tão bem se abusava em modismo, uma cidade paródica de oito milhões de habitantes Era tão hesitante que se deixava esquecer dessas intrigas todas para assistir ao desfile de mascotes do Moinho: Fred, vira-latas briguento com seu dono, um poodle toy espremido pelos genes carreado por uma babá, feito para apartamento; casais de gatos de mulheres solteiras, bem cuidados... De supetão ignorava a prosa sobre a conspiração infernal e se detinha nas feras. Deixava o homem do gás falando e logo se esquecia de magia. Se lembrava de que não tinha vocação para a coisa de mudar a natureza dos bichos. Só de ver se criar... E no dia que apareceu o Lico, morto nas escadas de acesso ao elevador, ele não pensou que tão cedo seu rabo cabeludo iria se acabar de roer assim. Ele já conhecia a figura, via os desmandos, tentava ser pra ele agradável, escorava o rosto, sacudia bem o pelo ruivo, e até escorava nele as patas quando chegava com os pais tomando sorvete. Nem fazia questão de lamber o de baunilha, só de marcar terreno com ele; poderia caçar sapos juntos, um ou dois gatos no prédio ao lado e só. Era cachorro grande, do tipo que os condôminos demoraram a aceitar. Era dos que perfilava junto com os demais, naquele mundo de calma da síndica. Lico deixava de pensar que pudesse estar na lista; que seu pescoço, talhado todo com

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arame era agora nenhum, quase desleixando a cabeça em relação ao resto, que se abanavam tanto quando Maria da Glória o via. Menina de uns treze anos, meio sarnenta e com rábica por causa da idade e distante dele, mas que virava molho de chaves balangando com Licão do lado, tanto que, se tivesse um, abanava o rabo, e agora era choro. O olho torto do perito, deslocado contra a vontade para o local palco do ato, não fez perguntas. Deu uma risadinha controlada e mandou que se fosse à delegacia especial. Haviam dito que era gente, morta e cheirosa. O enganaram. Saiu xingando Dona Altina já se sabe bem de quê com vontade de mandar indiciar a todo mundo. Lico foi sepultado com aplausos por todas as almas presentes naquela manhã: Maria da Gloria, Altiva e um Advogado mal-empregado, que se arrependeu em ter descido para o funeral por estar sem peruca e de condomínio atrasado. Ele não percebeu a falta o seu artefato. Modismos, Licão foi-se bem, e a dor que ficava agora era a de parar com os incidentes. Maria da Glória já sabia de quem era a culpa, mas decidiu ficar quieta por um tempo planejando vingar o cachorro esfriar o túmulo, subir um pouco outros estímulos que viriam dali uns dias, com o refazer do tempo de chuvas de vinte horas, mais escuras, como seus olhos e o cabelão sabido que tinha. Tingiu o cabelo de lilás, da cor do moinho, passou uma palma de mão rápida por uma faca, longe da vista da empregada e do circuito das câmeras imaginárias que a circulavam. Pensava em cortar o assassino com muita calma; fazendo primeiro o rio vermelho correr do alto até encontrar o amarelo visceral da aldeia... queria Maria amar menos a vontade de ir com ela na mochila, pensou em soltá-la, mas levou-a para punir quem a feriu, ela e seu cachorro talhado. Tinha treze anos, e a isso também não se deu alarde. Coisas de Marias da Glória de qualquer prédio. O encanador, ou bombeiro, que faz bico às vezes como “qualquer-coisa” encontrou, nos botões soltos do elevador que ele tentava arrumar, fios loiros de cabelo novo e comunicou Altina, que desceu ao “menos-um”, nome que se dava para o andar da garagem, para ver. – Obra de quê, o senhor acha? Mas é obra de quê!?

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– Arte de moleque, Dona – continuou, pensando em como tirar tudo aquilo, enquanto não ouvia mais o som de cada nota da reclamação geral, que intercalados com alguns pigarros e tiques de quem quer paz, já recriara para si a ideia de um culpado provável: mandou por o estrago todo na conta do advogado; e assim ia feita a resolução do caso. Os crimes mesmo diminuíram depois que Celina Travesso, professora lúcida do Colégio do Glicério, cinquenta e dois anos, teve dois dedos da mão direita parcialmente perdidos pelos golpes de Maria na tarde que seguiu o desencarno de Licão. A culpada estava punida, e mais bichinho nenhum do mundo seria privado do seu sossego no lar. Maria da Glória Vilela seria, ainda, por algumas semanas de detenção, depois por um tempo fora da escola, e mais depois um tempo para que pai e mãe a levassem embora do Moinho, pois tinha pego a mania de falar nos corredores com uma lata de leite servindo o cachorrão de pelos ruivos, como se alimentasse uma visagem medonha do seu canil-amor. Foi viver em Santa Catarina, com tios exilados por traumas citadinos. Terminava o mês, e o calçadão do Moinho - que já virara calçadinha – ficava com flores pequenas no seu redor. Largava pés rumo à calçada outra vez aquela família e senti de novo a nuca serpentear um vento mais fino que aquele cabo contornado e contorcido pelo seu Vasco da Gama. Como um grupo de emas ou outra coisa, vinham pai, mãe e o menino. Ele, de uniforme lilás, gel no cabelinho loiro e uma coroa de papel cartão dourado. Desabrochou em mim meu prumo a nau finada do prédio delicado, e sua sequência pequena de cruezas, crueldades compactas. Um pouco de sol entrava na cabine. Deu as costas e olhou rápido cá para dentro, como se quisesse matar mais algum animal. Só acenou, com inocência concedida, ao narrador; reabri Góngora e fingi ler alguma coisa na “Soledad”. Ainda bem que não gosta de porteiro!

Juliano Salustiano nasceu em São Paulo,

morador desde pequeno de Embu das Artes. É formado em Linguística e escreve desde sempre no blog supperegg.blogspot.com.

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tem uma coisa sobre a minha cabeça perto do pescoço e da nuca que me transfere o peso de 200 mil anos todas as guerras estão sobre mim todas as mortes estão sobre mim todos os medos estão sobre mim tem uma coisa sobre a minha cabeça caminham os ladrões, os coléricos os reis, os bispos os padres, os maridos a foice e o martelo o dinheiro, a indústria andam todos sobre os meus ombros todos nascidos do meu próprio ventre de um lado a outro, andam gritando seus desejos insanos matando-me pouco a pouco tem uma coisa sobre a minha cabeça que tem o tempo da humanidade que me cala quando quero dizer e me açoita quando penso em tentar e me rouba quando penso em querer e me mata quando quero gritar tem uma coisa sobre a minha cabeça e dói sempre que penso, tento, grito e quero por quanto tempo mais - pergunto-me há seculos - ela ficará lá?

Isabella Mariano é jornalista e escritora

brasileira. É autora dos livros “gotas” (2013) e “Cortes Lentos” (2015) - este publicado pela editora Pedregulho.

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INFERNO Parte 2 de 3

Tinha uma pílula de analgésico no seu bolso. Você tomou assim que olhou em volta e percebeu que além de tudo destruído, seus olhos estavam abertos enfim. E a cabeça doía feito o diabo. Suas roupas estavam meio arrastadas, puídas e um pouco queimadas. O corpo estava escoriado, mas nada demais. A propósito, o pôr-do-sol sumiu. Deve ter ficado fora de si por muito tempo, já parecia meiodia de novo. Foi olhando até ver sua mala chamuscada, ao abrir, queimou um pouco os dedos, mas nada grave, algumas roupas ainda estavam em condições, então pegou a mala pela alça, e foi levando. Suas cartas, queimaram-se todas. Sua carteira também. O celular no bolso estava bastante queimado. Você perdeu sua identidade. Foi andando pela trilha que saía da clareira improvisada pelo ônibus quando foi parar lá. Quis olhar se encontrava alguém morto, você nunca tinha visto ninguém morto. Mas reparou que não havia ninguém mais no ônibus. Por que ninguém veio te acordar quando foram embora? Havia umas malas e roupas no chão ainda, pegou algum dinheiro que não estava queimado, era pouco. Ao contrário do que esperava, não sentiu falta da ética nisso, alguém decerto os saquearia de qualquer forma, e foram trinta e seis reais, quantos anos de cadeia isso compra? No final da trilha, você encontrou outra estrada, provavelmente seu ônibus passaria por ali naturalmente. Você imagina. Era incrível não aparecer ninguém para negar carona. E assim que esse pensamento entrou, passou e saiu de sua cabeça, houve espaço para o som de sua respiração respingar algo de medo no momento. Estrada parada ali. Ele disse que seu nome era Carlos Gardel – e que só era coincidência. Você nem queria acreditar, mas havia agora um homem estranho falando com você. Na verdade, o susto foi pela abordagem pouco sutil do cara com um casaco de lã que literalmente brotara do canto da estrada. Depois do susto, acalmouse e andaram juntos, até que o casaco-de-lã disse-lhe tudo sobre sua vida. Para não haver confusões de pronomes aqui, repito, o cara-do-casaco-de-lã sabia tudo sobre a sua vida, a sua, não a dele. Bem, imagino que soubesse da vida dele também, mas estamos falando da sua agora. Nome, idade, porquê e quando, tudo. Então ficou naturalmente com medo de novo. Você parece ser do tipo que sempre imaginava coisas de filme acontecendo consigo, mas então percebe que era muito melhor só imaginar. Foi quando o cara-do-casaco-de-lã – Carlos Gardel, mesmo? – deu-lhe a notícia que queria ouvir. “Você morreu nesse acidente.” Era esquisito porque, apesar de tudo, lera bastante coisa e agora cai a surpresa por não sentir diferença nenhuma. A cabeça doía e os arranhões também. Nesse momento você pergunta se ainda está consciente por ter deixado assuntos pendentes e o Gardel disse todo assunto é pendente. Mas que só se sentiria assim no começo, faltava você se acostumar,

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mas que é tudo parte da cabeça, inconsciente e essas coisas fodas de entender. Então ele pegou a sua mala e disse para segui-lo, estava te levando para um lugar para descansar. Explicou que a ideia das pessoas de que a morte acaba com as preocupações é errada. Gardel então te aconselha a fazer trabalhos manuais, era o que melhor ajudava a libertar a mente das preocupações. “Vou te levar para uma colônia, lá você descansa e te arrumo algumas coisinhas pra fazer, se você qui ser”. A redenção pela despreocupação, pelo trabalho mecânico. Pensar é algo meio difícil de lidar eternamente. “Espero que tenha pensado bastante enquanto vivia, pois aqui a tormenta é maior que o esclarecimento. Ouve o que eu digo e trata de ocupar sua cabeça com coisas leves. Vou te apresentar a umas pessoas que podem te ajudar com isso também. E temos grupos de apoio para conversar, para você se adaptar a essa nova condição”. Carlos Gardel sorria tranquilo. Andaram um pouco e chegaram a um lugar maravilhoso. Era uma casa na árvore, era lindo, do lado de dentro, a luz refletida nas folhas deixava tudo verde-brilhante. Será que paz interior era isso mesmo? Quando abriu os olhos, no que parecia ser o dia seguinte, as coisas estavam diferentes. A paz interior fora trocada por uma coceira matinal atrás da nuca, um outro foco de coceira no alto da coxa esquerda e uma levíssima dor lombar. A cabana brilhante e verde era agora um quarto com uma lâmpada verde que te incomodava bastante. Levantou-se e vestiu a mesma roupa que antes, mas agora estava limpa e nunca pareceu ter se rasgado no acidente. Estava em um quarto mesmo, com três portas. Atrás da porta número um, havia um armário com suas roupas chamuscadas bem dobradas; suas, presume. Atrás da porta número dois, um banheiro. E na outra, a rua. Olhando em volta, via mais de 40 portas como aquela número três. Várias cores e tudo mais. Parecia um lugar calmo, de fato. Logo viu o Gardel chegando cantarolando por Arrabal e rindo da própria piada que gostou de fazer, dizendo que era uma pessoa muito preguiçosa, mesmo depois de morrer. “Venha, vou te levar para tomar café-da-manhã.” Você chega em um tipo de armazém depois de duas esquinas de chalés. Havia muito mais de quarenta. Ele te diz que não precisa comer se não quiser, mas comer sempre foi bom, não precisava deixar de ser agora, certo? No refeitório havia uma parede com a inscrição: “Voou, leu, sentiu e virou água, aqui está o café feito com espírito de garoto”. A frase te cai como um tapa nas têmporas. Você tinha escrito isso em vida, ou algo assim, mas não sabia lembrar quando. Principalmente agora repara em como a frase é feia. Gardel repara no seu rosto e te lembra que todas as construções são do seu inconsciente, era mais do que natural ver algo seu aqui. Não era exatamente essa a frase, você se confunde. Deixou de lado e foi tomar o melhor café da manhã de sua vida. Intervalo de conversas sobre o pós-vida com o Gardel, seu casaco de lã irremovível e outras pessoas do lugar.

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Na hora do almoço, notou que a frase inscrita já mudara, agora era algo sobre a frase do Tolstoi sobre as famílias. Na parte da tarde, te apresentam o resto dos lugares. Áreas de recreação e meditação, mas mais importante a área de trabalho. Eles montaram uma espécie de fábrica com linha de montagem e tudo. Se preferir, você pode frequentar as aulas de meditação ou qualquer outra atividade, mas que no final das contas, todos chegam à conclusão de que trabalhar é o melhor remédio para fazer pararem as perguntas e a dor da perda que chegará quando perceber que saudade é um sentimento muito forte em português. Te disseram isso mecanicamente, mas bem sinceros mesmo assim. Nesse momento, então, foi que percebeu que não voltaria mais a ver sua família, seus amigos, ou sequer sua cidade. Pelo olhar que deve ter estampado seu rosto, o Gardel sugere a você que tente trabalhar um pouco, ou meditar. Você decidiu trabalhar. Eram, na verdade, diversas linhas de montagens de bicicletas bonitas. Era bastante organizado. E as pessoas eram diversas. Havia uma grande quantidade de sorrisos tranquilos, alguns bocados de conversa e algumas pessoas caladas em quem se era bem possível ver a dor ao trabalhar. As idades eram várias também. Havia mulheres, havia homens; havia cores de pele que você só tinha ouvido falar. A única coisa que você não conseguiu ver foi uma maioria. Mas imaginou, por costume. Todos os produtos eram levados de caminhão para serem desmontados em um outro campo como aquele, disse Gardel. Depois trazem o material para vocês repetirem o trabalho. As coisas são meio vagas e você até pensa no sentido disso tudo, ao que Gardel te responde que não há algum. Algumas pessoas já foram para fora, andando meio sem destino, procurando outras respostas, mas acabavam voltando umas semanas depois. Ou não voltam, acontece também, sabe? Eles parecem mais satisfeitos em estar ali, no final, e aquela visão de mundo parecia boa o suficiente para você. Ainda que vã. Você decide ver o que a rotina faria. “Mas espera, quem são essas pessoas se tudo é meu inconsciente?” E o rosto do Gardel abriu um espanto meio calado, meio decepcionado. “Você não é a única pessoa que morreu no mundo.” As pessoas daqui estão adaptadas à sua percepção e você à delas. Vai levar um tempo, calma. E nesse momento tocou seu ombro com mãos de professor, olha, você pode me perguntar o que quiser quando precisar. Não sei dizer quanto tempo você passou trabalhando, pode ter sido mais de ano, talvez até uns três anos. A rotina era boa. As perguntas vinham e paravam eventualmente. Todos que trabalhavam realmente faziam progresso. Aos poucos, tornavam-se mais calmos. De vez em quando algumas pessoas apareciam e gritavam, não queriam aceitar, diziam que não era possível terem morrido. Uns iam embora. Saiam com a mala e não voltavam. As pessoas mais velhas eram sempre as primeiras a arrumar as coisas e irem para não voltar. Você ainda pensa

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na sua cidade, ainda sente saudade, mas já se acostumou com esse lugar. Com o cheio desse mato em volta. Você sente falta de ver as luzes amarelas nas ruas e ver as ruas nas luzes amareladas. Você já trabalhou fazendo várias coisas diferentes. O Gardel disse uma vez que há planos de evolução espiritual, algumas pessoas, por exemplo: os suicidas, trabalhavam com coisas mais pesadas, tipo na extração e no refinamento dos materiais que eram repassados para eles. Outras tinham funções menos pesadas, e assim sucessivamente, mas sempre com o cunho mecânico, físico. Por um mês, uma vez, você construiu uma bicicleta inteira do nada, cada peça foi feita por você, pintou de verde, depois pegou-a para si e ficava rodando alguns caminhos por ali perto, de noite. Você já trabalhou na cozinha, uma semana, preparando as refeições. Você até começou a mediar um grupo de meditação guiada. Você sentia que precisava mesmo passar o tempo, que era tudo o que tinha naquele lugar. Aquele era o paraíso do seu inconsciente, fazer o que quisesse e todo o tempo do mundo. Você deu uma volta na sua bicicleta, você só não precisava chamar de sua. Algumas pessoas transavam ali. As reações eram sempre engraçadas. Primeiro, vinha o desconforto comum, depois percebiam a situação, como se esquecessem de que estavam mortos. Então, alguns riam, alguns riam e tinham inveja, alguns riam e apoiavam, alguns faziam sinal de cruzes e olhavam para outro lado. Alguns faziam em público. Então percebiam que isso poderia ser pecado, não? Daí alguns iam meditar, alguns iam discutir o pecado, alguns avisavam os participantes de que poderiam ser expulsos daquele lugar por fazer isso, mesmo sem saber. Mas o resultado era sempre a rotina ser restaurada, tipo uma série de televisão, talvez num paradigma levemente diferente. Ou até coisas menores, como algumas pessoas que gostavam de ir trabalhar sem roupas. Diziam que o dinheiro e a imagem destruíram a sua felicidade enquanto vivos, então gostavam de se desculpar com o espírito, libertando o corpo. De novo, no final, todos voltavam ao trabalho. Pudor era irrisório e os acidentes quase não aconteciam. Toda rotina conforta. Toda rotina aperta. Continua.

João Chagas é formado em Letras Inglês e

é autor dos livros “A Paz dos Vagabundos” (2013) e “Tem Sol na Ponta do Deque” (2016), publicado pela editora Cousa.

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ROJA ela amaria meus olhos marejados meu batom manchado do batom dela numa cor só vermelho-loucura

DILÚVIO os olhos nem se tocavam as palavras iam se acumulando na retina e se precipitavam em gotas grossas que batiam pesadamente na mesa e respingavam nos livros nos quadros preenchendo a sala e manchando o silêncio

MANHÃ romper com a manhã corpo corrompido sem lugar sem jeito vestir-se de cinismo e perceber que o corpo ao lado não tem rosto

Lívia Corbellari é jornalista cultural e também

se dedica à literatura e ao projeto Livros por Lívia, um blog de resenhas focado na produção literária capixaba.

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508 VIA CAMBURI Apressadamente. Com algum sono. Transcol lotado. No meu colo, a sacola da mulher em pé à minha frente. Bateria do iPod descarregada, infelizmente. Pior pra mim. – ... porque meu Jesus querido não vai vir desse jeito, não! Tá escrito na Bíblia. Você já leu a Bíblia, dona? A velhinha, daquelas que nessa vida já deve ter vendido muito cuscuz de tapioca com leite condensado numa barraquinha improvisada no centro, rodou a roleta e danou a falar. Com doçura. Na mão, um recorte de jornal barato. A manchete: “Russo diz ser o filho de Deus”. No banco à frente dela, mãe com criança pequena, soprando bolhinhas de sabão. – Então... Ele não vai chegar desse jeito, não. Quer saber como Ele virá? Quer saber? (...) – Alguém na fila sabe? O senhor, sabe? E você, rapazinho? (...) (...) – Como é que Ele vai vir? Como? Como? (...) Um segundo de suspense. Dois. Olhar repleto de seriedade. Um sorriso açucarado, quem nem o trepidar do ônibus na avenida toda esburacada consegue desfazer. Uma ou duas bolhas de sabão sobem diante de seu rosto. A luz das oito da manhã as dota de um brilho peculiar. – Nas nuuuuuuuuuuvens, gente! Ele vai vir em cima de uma nuvem bem branquinha, quase de algodão! (...) – Quem leu a Bíblia, que nem eu que li três vezes, sabe disso... Porque eu li a Bíblia não foi uma nem duas, mas três vezes, de uma ponta a outra. E não foi a Bíblia católica, não! Foi a evangélica, que tem sessenta e seis livros: Sabedoria, Macabeus, Judite, Eclesiástico... Tá tudinho lá. Começo a ter medo de seu olhar sereno. Ainda mais emoldurado por tantas bolhas de sabão. Multiplicadas. Incontáveis. Haja fôlego pra criança, hein? – E foi porque a Eva comeu a maçã que a mulher passou a ter dor de parto. Não era pra mulher ter dor de parto, sabia? E sabe com quem que Caim se casou, depois que matou Abel? Porque naquele tempo Deus permitia que o homem deitasse com outras mulheres, e quando Caim se casou, talvez teje sido até com uma parente dele... Mais e mais bolhas. Ou sou eu que quero que sejam tantas, e na verdade são duas ou três? Decerto, me interessam mais que o papo dela. Passamos o shopping, estamos descendo a Norte-sul. Maldito iPod descarr... ops, acho que ligou. Um

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FICÇÃO traço de bateria já tá bom! Play. Adoro essa aqui: Tum-tum-tumtum-tum-tumtumtum-tumtumtum... Tum-tum-tumtum-tum-tumtum-tum-tumtumtum... Espero que dure até eu descer dessa joça. Onde essa guria arranja fôlego pra soprar tanto sabão? Friday night you and your boys went out to eeeeeeeeeeeeeeeeat... Me segurando pra gargalhar, parece que aquela senhora tá falando no ritmo da Whitney. If six of y’all went out.../ Then four of you were really cheap... Putaqueopariu, nem Jéssica Telles dubla bem assim quando dá show lá no Bar da Chica! Mais e mais bolhas... E a bíblia aberta, ela tá lendo algo. No compasso da Whitney. Foda! E essa olhadinha de canto, bem no “Close the door behind you...”, hein? De qual mulher do Caim ela deve está falando agora, hein? Da segunda, da quinta ou da décima-primeira? Outra curva e ela apoiada na roleta. Nem perde o equilíbrio, aleluia!, nem desfaz o sorriso. E esse ventinho bom quando chega na Dante Michelini, hein? Peraí, me belisca! Ela vai erguer os braços exatamente no “there’s no more fears and tears for you t...” – Tereis como impura a lebre porque, embora sendo ruminante, não tem o casco fendido. Tereis como impuro o porco... Cabô justo agora? Meeeeeeeeeeeeeeeerda de bateria. Tento me concentrar noutros papos. Toca um celular. Na-na-na-na-na come on, aquela da Rihanna. No banco de trás, atende uma voz fanha, quase pato Donald. Travesti, com certeza. E de cabelão. Dá pra ver maisoumenos, refletida na janela. – Fala, bi. (pausa) Não, é que o ônibus atrasou. Uma fila enorme, bi. Mas tô chegando. Sinal fecha. Ônibus para numa sombra. Reflexo da janela mais nítido. Pausa. Ela aproveita para jogar o cabelão prum lado. Rabo de cavalo. Gata-garota. – Longe? Eu? Quem mora longe é a senhôura, que se esconde aí em Porto Canoa... (pausa) Então... Não esqueci teu aqué, viu? Mas quero meus Renew hoje. E meu creme de pentear (pausa). Como assim, não veio? (pausa) Kolene, bicha, cê tá louca? (tom de voz alterado) Travestiiiii, eu gasto quatrocentos contos no salão todo mês! Você acha que entra Kolene num muco desses? (gritando, mais fanha ainda) Que que há, hein? Até a velha da roleta para de falar nessa hora. Anasalada, gata gargalha, porém menos rouca. Menos Pato Donald, mais perigretchen. A mulher à minha frente me cutuca. Pede a sacola de volta. Vou descer no mesmo ponto que ela, aliás. O próximo.

Erly Vieira Jr. é professor universitário,

cineasta e escritor. É autor de diversos livros como “Rodapés” (2009), “-sse” (2008) e “Quase Dezembro” (2005).

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FICÇÃO

A AUSÊNCIA DIMENSIONAL

Um redemoinho de razões ameaça as pequenas casas de areia da poesia. Um vendaval de sensações abraça a razão pela cintura e geme de confortos múltiplos. Na releitura do tempo, descampados e pântanos parecem ser as avenidas principais. Solares edifícios e gélidos tratores restauram o caminho lúcido. Na volta para a casa, um colo espontâneo reescreve a eternidade todos os dias. Quem na insana montagem das horas esqueceu a si mesmo como peça principal? Lulutan estava ensopada de tanto calor no centro da capital. Turvas palavras saltavam dos aparelhos que guiavam os transeuntes e suas impávidas discussões com o tempo. Estava ansiosa para arrumar as malas e seguir viagem com a família para o grande interior verdejante. Sempre tentava nos convencer que a cidade era uma terra sem lei - e nós sorridentes - fingíamos acreditar que não era verdade. As lembranças da mãe ainda permaneciam em seu colo como uma criança indefesa adormecida. Ela apenas permanecia nestes dias… Permanecia naquele trabalho aglomerante, cheio de olhares febris, derretendo as percepções do seu próprio sentido, desvendando ali, na copa ou na porta do chefe, os punhais sobrecarregados. Permanecia forte, como aquela que suporta as perdas mais bigorniantes da vida. Finalmente permanecia impenetrável - como uma luz apagada – que, entretanto, para nossa sorte, jamais se apaga totalmente. Naquele sufoco agonizante - e a vontade múltipla de retornar ao lar de outrora - lhe subia como um vulcão rouco crepuscular. Dona Lulutan há tempos almejava um momento onde pudesse refletir sobre as perdas. Sim, sua mãe, uma alma irreparavelmente doce num mundo tremulamente dessaborido. As conversas – longas conversas – debaixo das árvores à beira da calçada-cratera. Confissões subcontadas e medos vagarosos pelos flancos no excesso de cuidado maternal. Lu era apenas uma das filhas. Talvez a mais independente da mãe e a mais dependente de seu olhar. Este, um canto colorido parado no meio do caminho de um cansado viajante a fim de afaga-lo. Na intermitente espera do ônibus desgovernado. No vagaroso ponteiro irretornável. Naquele rosto que não poderá ser mais tocado fisicamente. As datas que batem à porta como estranhos peregrinos com sede. Lulutan finalmente subiria em sua locomotiva espectral e poria o rosto nos vidros afagantes… Quantas liberdades indomáveis retratariam a certeza que corta as verdades mais intrépidas? O vendaval de líquidos obscuros - misto de lágrima e suor - perfura o chão da casa, há tempos, um templo das mais perfeitas realizações humanas. O homem parece trabalhar como um escultor que ao terminar sua obra, 36 TRINO


FICÇÃO

sente um vazio impenetrável, percebe então que não se pode mais refazer o caminho. E dentro o labirinto do que foi e assim será, perde-se. Ela mesma observa-se, ao longe, gemendo de medo e cansaço linear, um silêncio isolado depois das intemporais brincadeiras no quintal mágico. Atravessa os fios de alta tensão e adormece sobre eles. Depois, às mãos-algodões da mãe em banhos estrelares. No centro de tudo, ela, um colapso prestes a romper-se, como uma árvore desabando entre os nós do vento diante da realização translucida. – Mãe? – Sim, Lu… – Como? – como o que? Já tomou banho? Vamos passear na praça daqui a pouco, vai logo… – Mas, eu voltei a ser criança? A menina espantada em sua própria condição olha-se num espelho revelador e causa risos desdenhadores. – Voltei? Já se sentia adulta menina? Está cedo. – Mãe… Eu te amo! – Também, agora, vai logo tomar banho… - Mãe, não queria te perder? – Já que me matar? (risos) estou nova ainda. – E o papai? – Teu pai? Deve estar andando por aí… – Mãe! – Ah, deixa de coisa. – Não acredito! Sou criança… – Vou mandar te benzer. Disse a mãe rumo à cozinha... – E minhas filhas?... Diz Lu falando baixinho para si mesma. Terá sido um grande milagre crepuscular? Será uma fenda entre as brechas das portas das horas. Uma ponte invisível por debaixo dos pés dos transeuntes. A realização indescritível de um sonho agonizante? Naquela noite, Lulutan adormeceu entre irmãos, a mãe intransponível e o tempo retornável apenas para ela. Agarrou-se à mãe onde soltar não era uma opção desejada e adormeceu indestrutível... Jamais acordou novamente naquela realidade colorida. Ela abraçou as filhas, o filho, aqueles de que ama - como se um retorno fosse para o presente. Entretanto, não o mesmo presente. O presente em si. Desembrulhando a manhã e guardando os laços como se guarda às memórias. Como uma criança que percorreu - em sua minúscula bicicleta - um caminho seguro de ida e volta aos arredores da casa, dissolvendo-se… Tudo não passou de um conto - escrito pelas mãos flutuantes - de mães, avós, pais e irmãos, uma reunião de fabulosas armadilhas apaixonantes que roçam a pele com um carinho visceral. O desconforto do barrento esquecimento agora, um afago. Se havia dúvidas, nós em algum momento a abandonamos pelos trilhos de areia. Aceitamos que tudo não passou de um longo texto, onde letras e palavras eram apenas parte de uma minúscula razão. Esta, um cubo abstrato que remodelamos como luzeiros.

João da Rocha é natural de Belém do

Pará e tem publicações nas revistas digitais “Subversa”, “Avessa” e “Revista Real”, bem como em sites literários.

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Foto: Gustavo Binda

ENTREVISTA

ALINE DIAS Por João Chagas Aline Dias nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, é jornalista, escritora e blogueira. Publicou os livros Vermelho (Cousa, 2012) e Além das Pernas (Pedregulho, 2015). No começo deste ano, ela foi a um bar do Centro de Vitória para batermos um papo sobre ela, sobre seus livros, sobre como ela enxerga a indústria de arte e essas coisas. Sentamos com cervejas e pedimos batata. Resolvi começar com uma pergunta intensa e, com um pigarreio da originalidade que só os amadores têm, eu engato na pergunta a resposta adiantada que eu achava ela daria: COMO É O SEU PROCESSO DE CRIAÇÃO? AS HISTÓRIAS NO ALÉM DAS PERNAS, POR EXEMPLO, ELAS FALAM DA SUA VIDA, DAS SUAS EXPERIÊNCIAS, DA SUA IDENTIDADE COMO MULHER E COMO ESCRITORA? Não exatamente, não é uma questão só de escrever autobiográfico, isso eu acho chato. Eu vejo duas vertentes: tanto ouço histórias e as conto, quanto conto algumas das minhas próprias histórias, sim. Ou

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talvez eu só invento alguma coisa que acho que seria interessante de explorar e até sonho eu uso. Tipo “Torresmo”, aquilo lá é mesmo uma enxurrada, um desabafo, é fluxo de pensamento. Então, eu peço que me dê uma frase para eu destacar na entrevista, num quadrinho isolado no meio do texto, e sem nem pestanejar ela disse “Eu sou da geração do entre e não bate, só eu que bato”, mas uns dias depois ela postou isso no Facebook e eu fiquei com receio de usar na entrevista. A resposta tão resoluta dela me intimida, mas estávamos só começando e decidi tentar manter o nível de intensidade. ALINE, O QUE VOCÊ COSTUMA PEDIR PRA COMER EM BOTECO? Batata frita, por consenso. Mas se vou no Cochicho, peço coxinha, ou kiéber no Abertura, no Gegê, o bolinho de carne. O que for bom, qualquer coisa, mas se for ruim, não como. A entrevista está indo muito bem, posso sentir.


ENTREVISTA COM OUTRA CERVEJA, LEVANTO O ALÉM DAS PERNAS, E PEÇO PARA ME CONTAR O QUE ACHA DA RECEPÇÃO DO LIVRO NOVO, QUE AGORA TEMQ. Nem transcrevendo a entrevista, a propósito, eu conseguiria interromper o que acontece daqui pra frente. Ela respira, toma um gole longo e me responde, sem rir do próprio trocadilho, que o livro tem pernas; esse livro está seguindo o seu caminho, é bonito de ver. Tem vezes que recebo comentários bem diferentes sobre ele. Por exemplo, algumas mulheres viram pra mim e “Aquele conto, Aline, eu juro que você escreveu pra mim!”, e não ouço isso só sobre um conto, não. Acabou que as pessoas vão se identificando bem pessoalmente com cada um, e acho que isso é fácil de ver, no formato do livro. Aí isso muda com o comentário de vários caras que não entenderam a ideia do livro, eles vêm com um tratamento diferente, falam que o livro é esquisito, que “é misterioso esse livro, né?”, juro! E eu vejo isso como um produto do mercado que a gente faz parte, desde há muito tempo que a voz feminina é feita pra parecer menos ativa no mundo, por isso que quando aparece uma narrativa onde isso não acontece, causa esse “estranhamento” nos caras. Isso é uma sina mesmo, é encrustado na criação de personagens para o mercado de literatura. A JK Rowling mesmo, em Harry Potter, prefere usar protagonistas homens para mostrar situações de aventura, com as mulheres em papéis de assistentes pra eles. E no outro livro dela, o Morte Súbita, ela tem personagens mulheres que são muito melhor descritas. Essas personagens existem, mas é mais fácil simpatizar com o fato da Katniss gostar de cuidar de casa; com a mulher no A Mão e a Luva, do Machado, preferir o homem que é mais ambicioso, não o que é mais rico; mas quando na narrativa a mulher quer botar brasa no olho e não precisar de mais nada, daí é mais difícil de entender a personagem, aí a história fica misteriosa, fica estranha. Fica sendo uma questão de representação. As personagens dos homens costumam ter mais espaço para se explorar, para se desenvolver. Os homens são mais complexos na literatura. Há quanto tempo que pra mulher sobra as personagens-objeto? As personagens que se encaixam em algumas categorias bidimensionais, ela é o troféu, ela é a mãe, ela é a virgem, ela é a megera, ela é a porra da Eva cagando o Paraíso pra todo mundo! Principalmente, as mulheres escritas por homens, tipo a puta virginal do José de Alencar, onde ela ainda está a serviço do homem da história, sempre. O que é diferente de histórias com mulheres falando sobre mulheres, e sobre as questões delas, é a empatia, é o entender que no final das contas são só questões, é isso.

É o buscar repertório de mulheres, não apenas literatura. Respirou. PASSO O OLHO NA EQUIPE DO LIVRO E, INGÊNUO, PERGUNTO SE FOI UMA DECISÃO POLÍTICA. ELA FRANZE A TESTA LIGEIRAMENTE E COM GRAÇA DIZ QUE sobre a produção do livro, eu escolhi as mulheres da equipe porque elas são competentes, ponto. Fora elas, o diagramador é o Gustavo Binda, porque é o Binda, né? É o meu companheiro. Ele trabalhou comigo no Vermelho também. ACHANDO UMA BRECHA PELA ESQUERDA, PERGUNTO SOBRE O VERMELHO, COMO É A RECEPÇÃO DESSE LIVRO PRA VOCÊ? Ah, o Vermelho é uma coisa diferente, né? Primeiro, porque tem a reação sobre a personagem do Giordano. Ele é um protagonista que é contra a sociedade. Em momento nenhum - e ela enfatizou o nenhum algumas vezes - do livro ele toma nenhuma decisão. A epígrafe é o que realiza o livro. Em si, Vermelho é a história de um homem frustrado; um homem que se realiza sexualmente porque elas o escolhem, mas ele nem vê as mulheres como seres humanos. Não foi uma coisa que eu pensei ativamente enquanto escrevia. Aquilo era uma história que eu tinha que contar; rolou. Na terceira página do livro eu já sabia que ele era um babaca. Ele aparece como esse cara medíocre que se acha brilhante demais pra conseguir fazer qualquer coisa, um cara que não tem ação nenhuma. Mas tinha gente que se identificava e eu achava assustador. As mulheres no livro, nenhuma era babaca. Todas elas sabiam o que estavam fazendo e sabiam o que queriam, nem tanto só por serem mulheres, mas por serem pessoas que decidem as coisas sobre a própria vida e então as coisas aconteceram. E ele não, ele não executa. Ele procura uma mãe nas mulheres perto dele, que ele nunca vai achar, e então grita auto-sabotagem, se sente vítima do sistema, e passa o livro todo esperando as coisas virem perfeitas para ele. Já me perguntaram se teria uma continuação para o Vermelho, mas não consigo ver essa personagem de nenhum outro jeito; uma continuação seria mais dele fazendo as mesmas coisas até morrer. Depois disso continuamos no bar, fechamos os cadernos, conversamos sobre outros livros, sobre os planos efetivos de instaurar a ditadura gayzista em Vitória e como seria um jeito bacana de terminar a entrevista de modo que garantisse que as pessoas fossem procurar os livros dela pelos sites das editoras.

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RESENHA

RESENHA: ALÉM DAS PERNAS, Por Lívia Corbellari

Toda a vez que Aline recita “Torresmo” em um sarau ela vende um ou mais livros. “Torresmo” é um dos contos do seu segundo livro, “Além das pernas,”, e talvez seu pé na bunda mais lucrativo, como ela mesma diz.

Hoje descobri que não sou de ferro, que sinto. Hoje sofri como quem morre, e quis te enfiar a faca pra arrancar a pele e só depois matar. Assim ia doer mais, pensei. Hoje quis que você morresse dentro de mim de vingança, e torcer o seu pescoço. Depois de pele inteira arrancada, eu ia enfiar onze tiros e fritar você igual torresmo. (Trecho Torresmo) Não se assustem com a violência do trecho, o livro tem mesmo vários socos no estomago, mas também tem cafuné, beijos e mordidas. “Além das penas,” é um livro sobre mulheres e por isso carrega diversas nuances, muito diferente da dicotomia entre mulheres boas e más tantas vezes retratadas por escritores homens.

Quando Irene acordou com um par de asas de cera nas costas, Jonas Siqueira estava do lado, por acaso, e resolveu ficar. Cuidar de Irene para ver se ela voava. Sabia que não poderia botá-la no sol para não derretê-la. (...) Ocorre que o destino é engraçado, e com cera nas costas Irene conseguia olhar direto para o sol e apaixonou-se por ele. (Trecho Moça de asas de cera e moço de medo de morte) Um livro manifesto sobre a vida de mulheres, sobre ilusões, medos, amor, tristeza e alegrias. Os contos de Além das pernas, dão voz a mulheres fortes em situações do cotidiano e que decidem por si só os caminhos que devem seguir para continuar sobrevivendo. E por mais que soe político ou feminista escrever só sobre mulheres os contos são mais poéticos do que parecem e a vírgula depois do título já denuncia que há muito mais além das pernas.

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DICAS CULTURAIS DISCO: LETUCE – ESTILHAÇA (2015) Terceiro disco do projeto de Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos, Estilhaça é mais visceral e continua abordando temas como amor, raiva, angústia e medo. A guitarra está mais presente e caótica, assim como os vocais de Letícia que transferem todo o sentimento que as canções exigem. Letícia finalmente se consolida com uma cantora sem medo de ousar.

LIVRO: O MUNDO DE CÁ - JUANE VAILLANT (2015) Com referências fantásticas, o livro de estréia de Juane é um passeio em um mundo de aventura onde tudo é possível. Flertando com a literatura infanto juvenil, O mundo de cá traz 15 contos escritos de forma criativa e irônica, vale ressaltar também, que nem sempre as histórias têm o final feliz esperado pelo gênero.

FILME: CALIFÓRNIA - MARINA PERSON (2015) O primeiro longa de Marina Person, Califórnia é ambientando nos anos 80 e traz toda a nostalgia e encantamento desse tempo. O filme acompanha a adolescente Estela, que vive os conflitos típicos da idade, mas em meio a fitas k7, flertes, aulas e festinhas, ela precisa lidar com a perda do tio e com o fantasma da AIDS, que ainda era pouco discutida na época.

LIVRO: DESPERDIÇANDO RIMA – KARINA BURH (2015) Livro de estréia da cantora Karina Buhr. Conhecida pela sua militância, Karina aborda os mais diversos assuntos em Desperdiçando Rima, que mistura poemas, prosa e desenhos. O livro é um retrato da artista multifacetada, uma espécie de quebra-cabeças que será montado de maneiras diferentes por cada leitor.

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ENTREVISTA

KARINA BUHR Por Lívia Corbellari Nordestina, intensa e de pé no chão, mas com salto alto, meia arrastão e maquiagem, a arte de Karina Buhr transborda os gêneros: cantora, atriz, compositora, percussionista e escritora. Seu primeiro livro, Desperdiçando Rima (2015), é difícil de definir, a princípio é um livro de poemas, já que não falta poesia em tudo que a artista produz. Na entrevista, Karina fala sobre seu processo criativo, participação na Flip e, claro, feminismo. COMO É SEU PROCESSO DE ESCRITA, HÁ UMA DIFERENÇA ENTRE O QUE VIRA MÚSICA E O QUE VOCÊ GUARDOU PARA O LIVRO? Não tenho um modo fixo de fazer. Às vezes faço letra e melodia ao mesmo tempo, às vezes fico com uma melodia um tempo e depois faço uma letra e às vezes escrevo algo e musico depois. COMO SURGIU A IDEIA PARA O LIVRO DESPERDIÇANDO RIMA? Foi um convite da editora Rocco. Sempre pensei em um dia escrever um livro, ou mais... Mas não teria sido agora se não tivesse acontecido o convite. Por conta dele adiei um pouco o terceiro disco. O SEU LIVRO MISTURA VÁRIOS GÊNEROS, ALÉM DE TER ILUSTRAÇÕES TAMBÉM, COMO FOI O PROCESSO DE MONTÁ-LO, ESCOLHER ESSE CONJUNTO DE TEXTOS E IMAGENS? Comecei a partir de uns textos que escrevi pra Revista da Cultura, onde tenho uma coluna (com texto e ilustração) há três anos. Fui modificando um pouco eles, peguei algumas coisas que tinha guardadas e daí fui criando coisas novas de texto e ilustrações. Isso de ter poesias, crônicas e desenhos foi uma liberdade que a editora deu e fui aproveitando ela ao máximo durante a criação do livro. APESAR DESSA MISTURA, OS POEMAS SÃO MAIORIA, QUAL A SUA RELAÇÃO COM A POESIA? VOCÊ LÊ MUITO? QUAIS AS SUAS REFERÊNCIAS? Gostaria de ler mais do que leio. Independentemente disso não tenho algum autor ou autora que eu possa citar como referência pro meu trabalho. Tanto na música

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como na escrita ou nos desenhos faço tudo de um jeito intuitivo, buscando minha linguagem, sem pensar em alguma referência. Claro que tudo o que a gente ouve e lê de alguma forma nos influencia, mas deixo isso acontecer naturalmente. COMO FOI A SUA PARTICIPAÇÃO NA FLIP? COMO FOI ESTAR AO LADO DE ARNALDO ANTUNES? Foi uma surpresa maravilhosa o convite pra Flip. Foi o meu primeiro livro e recém lançado. Tinha muita vontade de ir como público, mas ainda não tinha acontecido, então minha primeira vez lá foi como autora convidada. Foi muito importante estar na Flip numa mesa com Arnaldo, um artista que admiro tanto, em tantas frentes diferentes e com Noemi Jaffe, essa escritora incrível, como moderadora. E ainda aconteceu uma segunda surpresa, o Desperdiçando Rima ter ficado entre os três mais vendidos da Flip. A GENTE SENTE QUE ALGUNS DOS SEUS TEXTOS PARECEM MAIS CONFESSIONAIS, MAS VOCÊ TAMBÉM SE COLOCA MUITO NO LUGAR DO OUTRO PARA ESCREVER. COMO É ISSO? Sempre penso em personagens e roteiros, então mesmo quando possa parecer confessional é uma personagem ali e uso isso com total liberdade, mudando muitas vezes histórias que possam ter sido minhas. E um dos grandes mistérios de criar personagens é se colocar dentro delas, tentar ver pelos seus olhos, mesmo sendo ainda você ali, tem muita poesia dentro disso, também gosto desse lugar. ULTIMAMENTE COMEÇARAM A DESCONSTRUIR A “LITERATURA FEMININA” COMO UM GÊNERO. O QUE VOCÊ ACHA DISSO? Não existe literatura feminina, inclusive porque isso presume que A Literatura, com L maiúsculo, seja coisa de homem. Existe literatura ponto. Homens e mulheres fazem literatura, não se separa por gênero nem isso nem tantas outras coisas que nos acostumamos a separar, por vício cultural e social. Sobre isso de “ultimamente começaram a desconstruir a literatura feminina”, é na verdade a desconstrução de uma coisa construída pelo machismo.


ARTIGO

ATAR E DESATAR - OS NÓS DE DOIS NÓS NA NOITE Anna Catharina Izoton¹

Tá certo: sou acadêmica. Devo ser, já que resolvi fazer mestrado, consequentemente escrever artigo, estudar, escrever dissertação. Mas sou aquariana também e acredito que isso reflita na minha vida acadêmica. Sempre quis estudar teatro a fundo, mas as circunstâncias da vida geralmente me impedem. Geralmente. No semestre passado, uma professora me indicou um tal Dois Nós na Noite, de um tal Cuti. O livro publicado em 1991 pela Eboh, editora criada para publicar escritores negros. Esse livro contém três monólogos e duas peças. Minha primeira ideia foi escrever sobre as 5 obras dramáticas. Aí vi que deveria me focar nos monólogos. Mas agora temos que te falar da Judith e do que ela reivindica. Não dava pra não escrever um texto só sobre ela. Essa personagem me fisgou. Ela foi peça chave na minha admiração por esse livro. De acordo com as indicações iniciais para a peça, Judith é uma mulher negra que tem entre 30 e 40 anos. Ela tem cabelos crespos e está em sua casa, na sala de um apartamento de classe média. Não há outros personagens, trata-se de um monólogo. Quem quer que o leia ou que o assista vai ver somente a ela, vai ouvir somente a ela. Todo o foco narrativo e cênico em Judith. Para Rosi Ana Grégis (2006), a grande relevância do monólogo reside no fato de que ele cria uma alteridade. Sendo assim, o interlocutor não fala para o nada, mas para um ouvinte. Essa relação criada entre personagem e público certamente tem a ver com a ideia de Augusto Boal (1991) de que o teatro é ou pode ser uma “arma poderosa”. É na cumplicidade que há troca, que ideias são criadas e fortalecidas. De início Judith fala retoricamente, direcionando para o marido. As rubricas indicam que há o corpo de um homem negro deitado no sofá (mas que não fala nem se movimenta durante a peça, somente desaparece). A personagem está frustrada, começa perguntando ao marido por que ela causa nele revolta e se ela é a razão de tudo que o magoa. Ela menciona com tristeza que o marido guarda fotos de ex-namoradas e ela não entende por que ele faz isso. Ela engaja em uma linguagem figurada sobre a relação entre os dois, até que diz: “(Orgulhosa) Viu como eu sou poeta? Viu como sei pintar minhas emoções,

com liberdade entre os lábios, com este vento interior que tem a capacidade de falar, de refletir, de analisar, de ver o mundo? Eu posso me expressar livremente. (...) Eu posso. Sim, eu posso! (...)(Profunda decepção) Sim, eu posso... (Soletra) Des-de-que-vo-cê-es-te-ja-dor-min-do... (Vai pintando os lábios com um batom vermelho e brilhante)” (Cuti, 1991, 15-16) O discurso de Judith nos faz pensar que, depois de passar por frustrações, ela percebe seu valor e se empodera. Mas, da mesma forma repentina que isso acontece, ela retrocede. Essa variação tem eco em diversas questões atuais. Um relatório da ONU Mulheres do final de 2015 aponta que, em 10 anos, houve um crescimento de espantáveis 54% na mortalidade de mulheres negras no Brasil. Feminicídio, de fato, existe. E o feminicídio de negras é simplesmente chocante. Sendo assim, imporse tem uma carga histórica de impedimentos. Mas a encenação não acaba aí. É curioso Judith dar destaque à própria capacidade lírica, além de ser a única que fala. Ela faz contraste com um passado de sofrimento de mulheres negras por não terem direito a falar o que pensavam e também com um presente de aumento de mortes de negras e de falta de representação política, social e cultural. Preconceito, discriminação, dentre outros tipos de violência fazem com que o indivíduo que sofre não possa se manifestar para reclamar ou para se impor. Sendo assim, Judith demonstra habilidade lírica logo de princípio, na peça, e se surpreende por isso. No segundo ato da peça, a personagem fala com manequins que certamente representam as ex-namoradas do marido, que estão nas fotos que ele guarda. Sugere-se que esses manequins sejam brancos por outros trechos do monólogo. Isso parece afetar a personagem mais do que se as mulheres fossem negras, pois Judith destaca isso. Quanto a isso vale lembrar que Leda Maria Martins (1995, p. 144) diz que o sujeito que sofreu preconceito acaba por interiorizá-lo, tornando-se autodestruidor. Além disso, essa imagem inferiorizada faz a imagem que a própria pessoa tem de si e do seu corpo. Eis um exemplo do quão pernicioso o preconceito é. Judith sente-se inferior

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ARTIGO às ex-namoradas do marido, mesmo sendo uma mulher informada (faz parte do Movimento Negro) e de posses (vive num lugar de classe média). Com certeza as políticas inclusivas agora em prática, como as cotas raciais, representam um papel importante para reverter essa inferiorização de séculos. Dados do IBGE divulgados pela Istoé (2013) apresentam que as cotas têm realmente mudado o perfil de alunos das faculdades públicas e privadas. Partindo para o terceiro ato, nele está em foco uma televisão, cujo som acontece em off. Quatro comerciais passam. Os quatro muito semelhantes. Eis um deles: “COMERCIAL 2 (voz agressiva): Não deixe seu cabelo assim!: duro, quebradiço, sem cor e sem brilho! Use o alisante perfeito para todo tipo de cabelo. Alisabosa, o único feito com babosa selecionada. Vá correndo à primeira farmácia e... (Aliciante) Deixa o cabelo ventar...” (Cuti, 1991, p. 20). Esses comerciais criticam a falta de representatividade negra na mídia, que dita padrões de beleza predominantemente brancos. Sobre isso vale a leitura do texto “o negro na TV brasileira: onde está?”, disponível no blog Blogueiras Negras. A autora Rosário Medeiros denuncia a presença ínfima da figura negra, que, quando representada, carrega preconceito e estereótipos. Essa denúncia foi feita também por Regina Delcastagnè, no conhecido estudo “Literatura Contemporânea - Um Território Contestado” (2012) (Geledes, 2015). Esse estudo mostra que, historicamente, a representação do negro na literatura brasileira baseouse em preconceitos. Além disso, nas pesquisas críticoliterários, existe bem menos material sobre literatura que enfoca o negro. Há duas historiografias sobre teatro negro que aparentemente são as mais tradicionais, ambas de Miriam Martins Mendes. Além disso, a maioria dos artigos que encontrei em pesquisas sobre teatro negro somente mencionam o Teatro Experimental do Negro (TEN) e encontramos só um artigo analisando uma peça de Cuti, escrito por Emerson de Paula Silva. Ele trata de “Transegun”, peça publicada em Dois Nós na Noite. A razão para essa discrepância pode ter a ver com o que Cuti diz na Literatura, que existe um projeto de “embranquecimento” das instâncias de poder, sendo assim, renegam conquistas negras (Cuti, 2010, p. 12). Na verdade, é no quarto quadro que as suspeitas se concretizam: Judith conversa com um manequim que representa Marina, uma ex-namorada do marido de Judith. Judith diz a ela: “Ele, assim mesmo, vinha fundear a vida entre seus loiros pelos, esse “trigal macio”, como dizia um poeta” (Cuti, 1991, p. 21). Outro exemplo pode ser citado aqui. Me lembro de uma notícia divulgada pelo

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Pragmatismo Político, contando sobre uma modelo negra que estava em um elevador e foi empurrada para dentro por um homem branco, que queria espaço. De bônus ainda foi xingada de “negra filha da puta”. Ainda existe racismo de brancos em relação a negros e as consequências disso vemos na mídia e na fala de amigos. Ou pior: não vemos. Mas acontece. Essas discussões têm tudo a ver com reivindicação dos direitos humanos. Para olhar para isso com mais atenção, o documento chave é a Declaração universal dos direitos humanos, um marco na história dos direitos humanos que foi criado pela Organização das Nações Unidas em 1948. Nela, no artigo 27, lê-se que todo ser humano tem direito às artes, e esse direito é tanto de aproveitá-las quanto de fazê-las. O segundo documento é a Convenção sobre a proteção e a promoção da diversidade das expressões culturais, também da UNESCO. Esse texto é guia para instâncias de poder que queiram promover a diversidade. O documento afirma que a diversidade das manifestações culturais é uma característica intrínseca da humanidade e entende que só pode haver direitos humanos se houver diversidade cultural. Esse documento por inteiro apresenta a importância da diversidade para que os direitos humanos sejam cumpridos e para que a paz e o respeito sejam estabelecidos. O terceiro é a Constituição Federal Brasileira. Segundo ela, no artigo 215, o Estado vai assegurar a todos os cidadãos o direito de exercer cultura de todo tipo (e nomeia a “afro-brasileira” como um dos exemplos), valorizando essas manifestações artísticas. A presença desse tópico na Constituição é importante para confirmar que a proteção da diversidade cultural é oficial e prevista por lei. Mesmo com a existência de documentos oficiais que pretendem defender e proteger a diversidade artística e humana, no âmbito das políticas públicas no Brasil e das manifestações artísticas, sabemos que a representatividade do negro ainda está muito aquém do desejado, do esperado e do humano. De todo modo, é válido que você, eu e quem mais se interessar por representatividade, estejamos a par dos direitos fundamentais para que eles sejam reivindicados. Por fim, todas essas reflexões instigaram minha curiosidade sobre o título do monólogo, que é o mesmo do livro. É um título melódico com a aliteração das letras “s” e “n”. A dupla possibilidade de “dois nós” é bela. Os nós podem ser o plural de “nó”, que pode significar questão difícil, impedimento. Pode também ser o pronome pessoal da primeira pessoa do plural. Um plural que pode estar


ARTIGO vindo de Judith, a grande orquestradora na encenação. Um título tão fascinante e não óbvio quando a personagem. Recomendo a leitura de monólogo e das outras peças do livro de Cuti. Você provavelmente não será x mesmx depois de lê-las. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. Brugger, Mariana; Cardoso, Rodrigo; Segalla, Amauri. Por que as cotas raciais deram certo no Brasil. Istoé. 5 Abr. 2013. < http://www.istoe.com.br/reportagens/288556_PO R+QUE+AS+COTAS+RACIAIS+DERAM+CERTO+N O+BRASIL> Boal, Augusto. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. CAESARIAN, Rodrigo. Aparição distorcida do negro na literatura reforça preconceito. Geledes. 20 Nov. 2015. Disponível em: http://www.geledes.org.br/ aparicao-distorcida-do-negro-na-literatura-reforcapreconceito/#ixzz3scpA7L6m CUTI. Dois nós na noite. São Paulo: Eboh, 1991. CUTI. Literatura negro-brasileira. São Paulo: Selo negro, 2010. GRÉGIS, Rosi Ana. A alteridade no monólogo. Revista

Virtual de Estudos da Linguagem, v.4, n.6. 6 Fev. 2016. Disponível em: <http://www.revel.inf.br/files/artigos/ revel_6_a_alteridade_no_monologo.pdf> SITE ONU MULHERES. Homicídio contra negras aumenta 54% em 10 anos, aponta mapa da violência. Site ONU Mulheres. 26 Nov. 2015. Disponível em: <http://www.onumulheres.org.br/noticias/homicidiocontra-negras-aumenta-54-em-10-anos-aponta-mapa-daviolencia-2015/> UNESCO. Declaração universal dos direitos humanos. 1998. n.p. Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org/ images/0013/001394/139423por.pdf> ---. Convenção sobre a proteção e a promoção da diversidade das expressões culturais. 2007. Disponível em: <unesdoc. unesco.org/images/0015/001502/150224por.pdf> MEDEIROS, Rosário. O negro na TV brasileira. Onde está? Blog Blogueiras Negras. 2013. Disponível em: <http://blogueirasnegras.org/2013/07/11/negro-na-tv/> MARTINS, Leda Maria. A cena em sombras. São Paulo: Editora Perspectiva, 1995. PRAGMATISMO POLítico. Modelo negra sofre racismo e é chutada por homem branco em metrô. Site Pragmatismo Político. 2014. Disponível em: <http://www. pragmatismopolitico.com.br/2014/09/modelo-negrasofre-racismo-e-e-chutada-por-homem-branco-em-metro. html>

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ARTIGO

A CASA TRISTE, AS PESSOAS TRISTES: VIOLÊNCIA CONSTITUTIVA EM INFÂNCIA, DE GRACILIANO RAMOS Leandra Postay¹ Infância, de Graciliano Ramos, se configura como registro das memórias do autor relativas à sua vida quando criança. A obra é divida em diversos capítulos, com cada um contendo um tema central, normalmente indicado pelo título. Tais capítulos, dentre os quais muitos podem ser lidos separadamente, como breves contos, de forma geral criam o cenário de uma infância difícil, marcada pela violência – física e simbólica – e pela ausência de segurança, pela impaciência dos mais velhos para com os mais novos, pelo papel dúbio desempenhado pela escola e pelos professores como representantes da educação. Apesar do caráter autobiográfico do livro, este muito se aproxima da criação literária. Antônio Candido afirma em Ficção e confissão que talvez seja errado dizer que Vidas secas é o último livro literário de Graciliano Ramos, já que Infância pode ser lido como tal. Candido diz que tal narrativa convém tanto à exposição da verdade quanto da vida imaginária. Nela, as pessoas mencionadas parecem personagens e podem ser encaradas como criações (CANDIDO, 1992, p. 50). A partir de tal compreensão, a análise que se segue não deixará de considerar a realidade empírica a que a obra se refere, mas fará uma leitura do texto a partir do ponto de vista literário. De fato, essa perspectiva do texto autobiográfico-literário apenas enriquece a proposta de análise, afinal, se a literatura pode ser considerada território privilegiado para discussão de questões relativas à sociedade, como é o caso da violência, isso se projeta de forma ainda mais expansiva quando lidamos com a obra surgida a partir de memórias reais. O título do primeiro capítulo de Infância, “Nuvens”, é conveniente à natureza de um livro de memórias e serve para alertar um possível leitor ingênuo: quando um adulto produz um texto a partir de experiências vividas anos antes, não se pode esperar que o registro feito seja fidedigno aos fatos vividos. As lembranças de tempos remotos aparecem aos seres humanos de forma embaçada, nublada. Em “A imagem de Proust”, Walter Benjamin fala sobre Proust o que pode se aplicar também à obra autobiográfica de Graciliano Ramos: um escritor não descreve em sua obra a vida como esta se deu de fato, e sim uma vida lembrada por quem a viveu. Continua

dizendo que o importante para o autor que rememora não é o que ele viveu, mas “o tecido de sua rememoração, o trabalho de Penélope da reminiscência” (BENJAMIN, 1985, p. 37). Essa afirmação aponta para a importância das memórias que aparecem em meios às nuvens: o que está fixo na mente do sujeito é reminiscência de seu passado, é aquilo que, na verdade, como se depreende a partir de “O narrador”, permanece. Isso pode ser desenvolvido por meio das reflexões de Benjamin no conhecido ensaio “Sobre o conceito da história”, quando menciona o anjo da história, que fixa seus olhos no passado e vê ruína se acumulando sobre ruína1. Mesmo sendo impelido ao futuro, ele não é capaz de ignorar o que se passou anteriormente. Esse material da memória, portanto, conta uma história que diz algo também sobre o presente. Ainda no primeiro capítulo de Infância, o narrador conta que foi o medo que o orientou nos primeiros anos e isso terá desdobramentos ao longo de todo o restante do livro. Esse medo era oriundo do já descrito ambiente de hostilidade, onde proliferavam violências. Durante a narrativa, são diversos os exemplos: os muitos maus tratos sofridos pelo narrador e empreendidos por seus pais, como chicotadas e puxões de orelha, os castigos físicos na escola, os assassinatos de homens em cidades das redondezas, os meninos sem família e sem posses, vistos como criados, que eram espancados por homens com algum poder. Jaime Ginzburg, em “Graciliano Ramos: Infância e violência”, fala que o narrador é incitado a participar do mundo, mas devido às experiências porque passou desde muito cedo, acredita que está sujeito a ser agredido e a sofrer, o que de fato acontece. Desse modo, para ele, a violência passa a ser encarada como parte da ordem dos acontecimentos, como algo frequente e inevitável na convivência social (GINZBURG, 2012, p. 359). Essa experiência aparentemente pessoal no livro de Graciliano Ramos não é particular e se identifica à realidade da formação da sociedade brasileira. Como na trajetória do menino em Infância, a violência no Brasil aparece como elemento constitutivo. Para desenvolvermos melhor tal questão, nos dediquemos ao capítulo “Um cinturão”, integralmente reproduzido a seguir:

1. Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

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ARTIGO As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural. Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água e sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio um pouco depois, avivou-a. Meu pai dormia na rede armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rêde infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo dirigir-se à minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras. Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não me segurasse, tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao açude, pela do corredor acharia o pé-de-turco. Devo ter pensado nisso, imóvel, atrás dos caixões. Só queria que minha mãe, Sinha Leopoldina, Amaro e José Baía surgissem de repente, me livrassem daquele perigo. Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancoume dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil, explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação. Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranças dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrível, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido; O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos. Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. Situações dêste gênero constituíram as maiores torturas da minha infância, e as consequências delas me acompanharam. O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira. Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro. Onde está o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo. A fúria louca ia aumentar, causar-e sério desgosto. Conservar-me-ia ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beiços trêmulos e silenciosos. Se o moleque José ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram inocentes, mas não se tratava disto. Responsabilizando qualquer deles, meu pai me esqueceria, deixarme-ia fugir, esconder-me na beira do açude ou no quintal. Minha mãe, José Baía, Amaro, Sinha Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos – e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Náusea, sono. Onde estava o cinturão? Dormi muito, atrás dos caixões, livre do martírio. Havia uma neblina, e não percebi direito os movimentos de meu pai. Não o vi aproximar-se

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ARTIGO do torno e pegar o chicote. A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que rogos e adulações exasperavam o algoz. Nenhum socorro. José Baía, meu amigo, era um pobre-diabo. Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse ermo, recordo-me de cemitérios e de ruínas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres minha irmãzinha engatinhava, começava a aprendizagem dolorosa. Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta, eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero. O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a magnetizar-me os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível. Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando um tira de sola, o maldito cinturão, a que se desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refugio onde me abatia, aniquilado. Pareceu-me que a figura imponente minguava – e a minha desgraça diminuiu. Se meu ai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou. Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra. Foi esse o primeiro contacto que tive com a justiça (RAMOS, 1986, p. 31-35). Nesse capítulo, somos apresentados ao que o narrador denomina suas “primeiras relações com a justiça”. O menino, na época do acontecimento, tinha quatro ou cinco anos e viu o pai acordar e levantar da rede, nervoso, procurando por um cinturão. Aproximouse do filho exigindo que lhe devolvesse o objeto perdido. O narrador nos conta que o pai sequer perguntava se o cinturão estava com ele, apenas demandava que fosse devolvido. Na sequência, o pai dá no filho uma surra e este se encolhe no canto. Dali, vê o pai voltar para a rede, onde encontra o cinturão, que havia desafivelado enquanto o sujeito dormia. Diante da descoberta do erro, o pai não se desculpa, não diz nada. A afirmação que encerra o episódio (“Foi esse o primeiro contacto que tive com a justiça”) lembra o que Giorgio Agamben diz sobre o âmbito do direito em O que resta de Auschwitz. O autor afirma que a confusão entre categorias éticas e categorias jurídicas é um equívoco comum e que, em última análise, o direito não tende ao estabelecimento da justiça, mas tem o julgamento em si como seu fim (AGAMBEN, 2008, p. 28). Em “Um cinturão” vemos o menino ser julgado e punido pelo pai, ainda que nada tivesse feito. Na obra Infância, este é apenas um dos episódios a confirmar o que o narrador diz no mesmo capítulo: “Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural”. Tanto a

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situação apresentada pelo capítulo quanto essa afirmação recobram a discussão relativa à violência constitutiva brasileira. De forma geral, as instâncias jurídicas têm servido ao longo dos anos para satisfazer os interesses de uma minoria que detém o poder e que preconiza diversas violências, ilustradas por meio de situações frequentes no livro aqui analisado e na história: o forte batendo no fraco, o rico oprimindo o pobre, o que sabe punindo o que não sabe. O Brasil possui uma origem histórica marcada pela matança (principalmente indígena) e pela escravidão, pela intolerância religiosa, pela política voltada para o interesse econômico de elites. Essa situação gerou inúmeras violências ao longo dos séculos e suas consequências se estenderam até o presente. Essa violência tem seus reflexos em nossa produção literária, não sendo Infância um caso único. A situação de opressão é tema frequente nas obras de Graciliano Ramos, como vemos, por exemplo, com São Bernardo e Vidas secas. Outros importantes nomes da produção literária nacional também abordam diretamente questões relacionadas à violência, como Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa e Rubem Fonseca. Outro episódio que chama a atenção em Infância é o capítulo em que o menino perde a visão, o que a princípio não se relacionaria de forma direta à realidade


ARTIGO violenta, mas o episódio serviu para revelar a ele sua “condição na família”, como relata no capítulo “A cegueira”. É a condição de excluído inscrita no corpo da criança, assim como a violência histórica se inscreve em nossa literatura. Jaime Ginzburg, em Literatura, violência e melancolia, diz que a compreensão da violência como inerente à humanidade é resultado de um processo histórico e que por isso o interesse pelo campo literário é importante: a literatura é capaz de romper com percepções automatizadas do mundo. Estamos habituados a ver as coisas de modo pautado por parâmetros opressores e a leitura pode deslocar as formas de percepção (GINZBURG, 2012, p. 24). A narrativa de Graciliano Ramos em Infância, que se efetua por meio das suas memórias de menino, conta a história de alguém que desde cedo percebeu a presença da opressão por toda parte. Por meio do registro das experiências desse menino, é possível visualizar também a ordinária violência de nossa sociedade, afinal, como diz Thiago Tavares Reis, em “Graciliano Ramos e Walter Benjamin: memória e esquecimento”, Graciliano Ramos nos oferece em sua obra “um rico testemunho acerca da condição humana” (TAVARES, p. 8).

REFERÊNCIAS AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz:o arquivo e a testemunha. Tradução de Selvino J. Assmann. São Paulo: Boitempo, 2008. BENJAMIN, Walter. A imagem de Proust. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Tradução de Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985. p. 36-49. ______. O narrador. Sobre o conceito da História. In: ______. Magia e técnica, arte e política. Tradução de Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 197-221. p. 222-234. CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão. São Paulo: Ed. 34, 1992. GINZBURG, Jaime. Graciliano Ramos: Infância e Violência. In: ______. Crítica em tempos de violência. São Paulo: Edusp, 2012. p. 359-366. ______. Literatura, violência e melancolia. Campinas, SP: Autores associados, 2012. RAMOS, Graciliano. Infância. Rio de Janeiro: Editora Record, 1986. REIS, Thiago Tavares. Graciliano Ramos e Walter Benjamin: memória e esquecimento. Disponível em: <http://www.seer.ufu.br/index.php/horizontecientifico/ article/view/4258/3175>. Acesso em: 26 fev. 2015.

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ARTIGO

NO “CU DO MUNDO”: O BRASIL CONTEMPORÂNEO NOS VERSOS DA CANÇÃO DE CAETANO VELOSO Yasmin Zandomenico RESUMO: Seguindo a virada de sua carreira a partir dos anos 1980 em direção a uma nítida consciência social, histórica e política nas composições, Caetano Veloso lança, em Circuladô (1991), a canção “O cu do mundo”. A partir da análise dela, este artigo intenta colocar em evidência e problematizar as múltiplas faces com que a violência se apresenta e se naturaliza no inconsciente e nas práticas coletivas brasileiras – tendo em vista uma possível herança de violência da ditadura militar. Para isso, a instrumentalização teórica se dá via, além de textos de Theodor Adorno e Jaime Ginzburg, o livro Velô, de Caetano Veloso, de Santuza Cambraia Naves, e o artigo “Caetano Veloso, pensador do Brasil”, de Stélio Marras. PALAVRAS CHAVE: História do Brasil; Caetano Veloso; Testemunho. Data de 1989 a primeira eleição presidencial direta no Brasil após o longo e violento governo ditatorial instaurado em 1964, com o golpe militar – e findo em 1985, início da transição democrática. No livro Em busca do Brasil contemporâneo, Carlos Alberto Messeder Pereira relata: “[...] o que se consolidou durante os anos 1980, do ponto de vista do debate político/intelectual, foi uma estratégia de afirmação de um espaço democrático calcado sobre formas mais sólidas de organização do conjunto da sociedade civil. Enfim, a luta pela afirmação de uma ‘cidadania’ e de um espaço sócio/político para seu exercício”1. A dissolução – lenta, gradual e segura – de todo o aparato autoritário do Estado evidenciava a necessidade de revisão das pautas necessárias a um novo projeto de intervenção política e reordenamento sociocultural, por parte de intelectuais e militantes. No conteúdo programático dessa mudança constam a promulgação de uma nova Constituição (1988) – das mais completas no que se trata de direitos civis e sociais – e o acesso de diferentes partidos à disputa eleitoral – PT de Lula, PRN de Collor, PDT de Brizola e PSDB de Covas, à época –, além de um tácito esquecimento do recente trauma passado. Na contramão das intenções da Anistia promulgada em 1979, cuja prescrição é o anulamento da memória coletiva, as torturas e violências praticadas por militares e sofridas por militantes estão inscritas no presente, de modo irrefutável. Para Jeanne Marie Gagnebin, “impor um esquecimento significa, paradoxalmente, impor uma única maneira de lembrar – portanto um não lembrar, uma ‘memória impedida’ [une mémoire empêchée], diz Ricoeur”2. O 1. PEREIRA, 1993, p. 108. 2. GAGNEBIN, 2010, p. 179. 3. SELIGMANN-SILVA, 2005, p. 63.

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período articula, então, anseios distintos: o da reconstrução dos direitos humanos sob a égide da democracia e o amputamento histórico de um passado autoritário. A passagem institucionalizada de um governo a outro não é capaz de reconfigurar por si só as incongruências de toda a formação brasileira; ou, ao menos, aquelas marcadas em muitas instâncias da vida no Brasil pelo regime autoritário – o tempo que sucede a ditadura ainda é o mesmo. Por isso, Márcio Seligmann-Silva nos alerta:

[...] esse prefixo ‘pós’ não deve levar a crer, de jeito nenhum, em algo próximo do conceito de ‘superação’, ou de ‘passado, que passou’. Estar no tempo ‘pós-catástrofe’ significa habitar essas catástrofes. E é claro para qualquer um de nós que a continuidade das mesmas não permite que sequer ‘tomemos pé’ após cada evento novo e aventemos uma mudança de curso. A catástrofe chocase sempre novamente contra nós: vamos de encontro às catástrofes. E agora, ainda uma vez, e globalmente (e essa palavra pode neste momento reassumir seu teor de realidade, e não ideológico) – e agora globalmente mergulhados em plena era do ‘Terror’, em meio à onda irresistível de um phobos para o qual não existe kátharsis em vista, estamos e somos revelados como parte de uma encenação da catástrofe3.


ARTIGO Essa encenação da catástrofe pode ser lida a um tempo como performance cotidiana de violências arbitrárias e representação das opressões sociais num sistema próprio de significação, a arte. Com isso, suporíamos com facilidade que a apreensão da experiência coletiva na obra de arte é dada através do oferecimento de uma comunicação direta, sem conflitos, ou no desempenho de uma função atribuída; quando, na verdade, ao recusar a lógica de funcionalidade que estrutura o pensamento moderno, a arte guarda em si, no silêncio de sua suposta irracionalidade4, a expressão mimética de um mundo reificado e controladamente caótico. A mediação entre sujeito e objeto acontece na transcendência dos condicionamentos a que somos direcionados – inclusive no momento de contato com a obra, em que a racionalização, a procura de conceitos e a aplicação de teorias apenas provocam distancionamento. É na renúncia aos conceitos instituídos socialmente que a linguagem artística dá “aos homens uma experiência que eles não podem ter nem do mundo, nem de si mesmos, mas somente através do processo de contato com um objeto cuja estrutura formal coloca-lhe um enigma insuperável, que o convida a uma reflexão sobre seu próprio sentido, que inicialmente parece não existir”5. Assim, “a arte moderna constitui-se naquele veículo privilegiado de expressão do sofrimento que cada um de nós experimenta, de modo velado e reprimido, na vida cotidiana”6, e pode carregar em sua estrutura particular a intuição de um contexto universal. Nesse sentido, referências sociais podem ser detectadas na dimensão de algumas obras – literárias, por exemplo –, já que “a configuração lírica é sempre, também, a expressão subjetiva de um antagonismo social”7, como quer Adorno. Aqui evoco a recorrente discussão sobre letras de canções serem consideradas poemas, provocada a partir da pergunta inconscientemente mal formulada – e comentada devidamente por Francisco Bosco em seu livro Banalogias ­–: “letra de música é poesia?”. A despeito das pertinentes reflexões presentes nas cinco páginas do ensaio de Bosco, convém esclarecer que não há sentido na comparação entre dois suportes que se querem e são distintos: as arestas do papel, para o poema, e a estrutura musical, para a canção. A comparação algo inadequado amputa, com sua negligência, a totalidade estética que cada um guarda em seus respectivos sistemas. No entanto, há, sim, um ponto

de atrito – logo, encontro – entre ambos: o momento em que a letra, pensada para e pela música, excede os limites da canção e conquista a existência autônoma. Retomo o desfecho do ensaio, “poema e letra de música são portanto coisas fundamentalmente diferentes: o poema está só, a letra está acompanhada – e eventualmente pode ter a solidão8, por paradoxal que pareça, como suplemento”9. Entre os compositores-poetas, o lugar de Caetano Veloso é evidente. Também inegável é sua referência como pensador do Brasil – que o projeta tanto em âmbito nacional quanto internacional –, por conta de sua adesão sempre latente ao tempo e ao espaço que o envolve, e que alimenta muitas letras sobre a condição brasileira. Com essa abordagem recorrente a temas que tocam a conjuntura política e social do país – não só em suas canções, mas em instâncias várias de manifestação, como entrevistas e ensaios –, o poeta-cantor atende aos requisitos de representante: o artista, portador da obra de arte, não é apenas aquele indivíduo que a produz, mas assim torna-se o representante, por meio de seu trabalho e de sua passiva atividade, do sujeito social coletivo10. Suas composições – às vezes mapeamentos, às vezes problematizações – exploram a formação brasileira em muitas de suas insuspeitadas arestas e carregam, em seus versos, teor testemunhal. Sobre isso, Stélio Marras comenta que

Caetano pensa, tematiza questões sensíveis ao ser brasileiro; ele as expõe na ordem do dia, atinge, interpreta e serve-se de uma estrutura mítica legada pela tradição do pensamento que talvez tenha em Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda seus mais importantes e influentes autores, de quem Caetano é leitor confesso. E tudo coloca à prova do tempo histórico, o tempo presente, as perguntas e aflições urgentes do hoje11. Com a abertura política depois de 20 anos de ditadura militar, em meados dos anos 1980, dá-se uma importante guinada na obra de Caetano em direção a uma nova focalização temática do Brasil – tanto como afirmação de um potencial singular-construtivo contido na sua riqueza cultural quanto como acusação da miséria de

4. “É preciso mais razão, e não menos, para curar as feridas que a ferramenta razão, em um todo irracional, inflingiu à humanidade” (ADORNO, 2003, p. 159). 5. FREITAS, 2008, p. 45. 6. FREITAS, 2008, p. 28. 7. ADORNO, 2003, p. 76. 8. Em oportuno trecho, Adorno destaca, em sua palestra sobre lírica e sociedade, que “só entende aquilo que o poema diz quem escuta, em sua solidão, a voz da humanidade” (p. 67). 9. BOSCO, 2007, p. 189. 10. ADORNO, 2003, 164. 11. MARRAS, 1997, p. 01.

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ARTIGO sua realidade social urbana12. Os álbuns que sucedem Velô, de 1984 – ano em que o processo de transição do regime militar para a democracia inicia –, apresentam canções contundentes nesse sentido. Além de “O cu do mundo”, localizada em Circuladô de 1991 e cuja análise segue adiante, outras somam ao coro de composições de teor testemunhal, a saber: “Fora da Ordem”, do mesmo álbum; “Podres Poderes” em Velô; “Vamo Comer” em Caetano de 1987; e “Haiti” em Tropicália 2 de 199313. Sobre a primeira, Caetano confessa: “é uma amostra do asco que certos aspectos da vida brasileira provocam em mim. Uma notícia sobre linchamento me trouxe a exasperação que aparece nessa letra. Muitas vezes um olhar realista sobre o Brasil pode nos levar ao pessimismo mais fundo. A canção é boa”14. Segue a letra na íntegra:

O furto, o estupro, o rapto pútrido O fétido sequestro O adjetivo esdrúxulo em U Onde o cujo faz a curva (o cu do mundo, esse nosso sítio) O crime estúpido, o criminoso só Substantivo, comum O fruto espúrio reluz À subsombra desumana dos linchadores A mais triste nação Na época mais podre Compõe-se de possíveis Grupos de linchadores Furto, estupro, rapto e sequestro ilustram o 1º e 2º versos e são algumas agressões corriqueiras nos noticiários e no cotidiano – já automatizadas no inconsciente coletivo dos centros urbanos, não provocam reação. A expressão que dá nome à música e ocupa o 5º verso é comumente usada para denotar lugar distante. Evoca, também, o refrão da canção Marginália II, composta por Torquato e musicada por Gil, para o álbum Gilberto Gil de 1968: “aqui é o fim do mundo”. Ambas são metáforas para o Brasil. Na mesma linha, a referência a “sítio” toca duas possíveis e simultâneas interpretações: imediatamente sítio ressoa como lugar, para, depois, remeter à segunda opção, que aponta para

“Estado de sítio”, instrumento de suspensão dos direitos civis e submissão dos poderes legislativo e judiciário pelo executivo usado pelo chefe de Estado como medida de segurança da ordem pública. A saber, exemplo-mor da amputação de direitos, a “figura jurídica anômala da constitucionalidade do Estado autoritário, seu produto mais discricionário no Brasil foi o Ato Constitucional nº 5 (AI-5), assinado em 13 de dezembro de 1968. Esse decreto ampliou os poderes de exceção do cargo de presidente ao estender-lhe o direito de decretar Estado de sítio e fechar o Congresso Nacional (artigos 1º, 2º e 7º), concedendo o domínio absoluto sobre os estados da Federação (artigos 3º e 6º) e extinguindo vários direitos civis e políticos (artigos 4º, 5º e 8º), especialmente o habeas corpus (artigo 10º)”15. No 6º verso, o crime estúpido, grosseiro, para além daqueles elencados na canção – produto da profunda desigualdade social e agravado pela negligência do Estado para com a educação e demais setores –, também é traduzido nas violências naturalizadas no dia-a-dia, “essas ‘trevas’ seguidamente perpetradas pela sociedade brasileira na forma de ‘gestos naturais’ (‘morrer e matar de fome’, avançar ‘sinais vermelhos’, recorrer a ‘ridículos tiranos’ etc.)”16. Violências que convivem com a cordialidade tida como traço característico do ser brasileiro. Por isso, no 7º verso, o artigo que precede o substantivo “criminoso” é “o” – definido – e não “um” – indefinido –, e o adjetivo que o define, “só”, de uno: o criminoso é o indivíduo a um tempo vítima e agressora em uma sociedade (in)civilizada e desumana – sou eu, é você. Para confirmação do comentário anterior é pertinente atentar para a separação da vírgula entre “substantivo” e “comum”: no verso, “substantivo” é a representação de um ser específico pertencente a uma comunidade, “esse enorme lugar-nenhum cujo nome arde”17. O “fruto espúrio” da violência, isto é, o resultado ilegítimo das violações ditatoriais, sobrevive (“reluz”) em práticas arbitrárias e retrógradas (“subsombra desumana”) dos linchadores-cidadãos. Sobre isso, Edson Teles comenta que “a impunidade em relação aos crimes do passado implica em incentivo a uma cultura de violência nos dias atuais”18. Dado o testemunho pessimista – consequência de um olhar realista de Caetano – a perspectiva de Brasil delineada na canção é triste,

12. WISNIK, 2005, p. 111. 13. Em Sobre as letras, comentário sobre “Haiti”: “Aqui, como em ‘O cu do mundo’, aparece a visão da sociedade brasileira como mera degradação da condição humana. Claro que essas cenas de pesadelo surgem em mim num contexto de permanente preocupação com a ideia de Brasil. Tenho repetido que gostaria que compositores e cineastas brasileiros precisassem cada vez menos tomar o Brasil como tema principal. Sempre que penso isso, as canções de letras mais pessimistas me parecem mais desculpáveis do que as outras” (FERRAZ, 2003, p. 42). 14. FERRAZ, 2003, p. 54. 15. TELES, 2010, p. 304. 16. WISNIK, 2005, p. 112. 17. VELOSO, 1997, p. 15. 18. TELES, 2010, p. 315.

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ARTIGO lamentável, como se mostra no 10º verso: “a mais triste nação”. As expressões relacionadas à decomposição (“rapto pútrido”, “fétido sequestro”, “época mais podre”) denotam um estado de apodrecimento em um ciclo que não fecha: as violações ditatoriais de outrora são matériaprima da perpetuação dos tais “gestos naturais” até hoje, a caracterizando como a “mais podre” pela não-superação. Em Contemporaneidades, Olgária Matos diz:

Se acontecimentos históricos importantes são aqueles que significam uma mutação nas maneiras de convívio social e político, de consciência, valores e comportamentos – como a Revolução Francesa o foi para o Ocidente Moderno –, nossa tradição é a da não-ruptura ou de uma memória evanescente. Do Brasil colônia à Independência, do Império à República, da escravatura à abolição, das ditaduras à democracia não houve interrupção temporal, mas uma continuidade pela ‘interdição do passado’ – o que aparece de forma exemplar na ‘transição’ ou no processo de ‘abertura’ para o término do período de autoritarismo declarado, na história mais recente, de 1964 a 1989.19 Na canção, o ritmo bem forte e marcado deve à sequência inicial das proparoxítonas e às vogais tônicas i e u o tom firme da insatisfação. Antonio Candido, em seu Estudo analítico do poema, diz, baseado na teoria de Grammont, que as agudas em i e u podem transmitir ‘dor, desespero, alegria, cólera, ironia e desprezo ácido, troça’20. A segunda estrofe, com seus 4 versos hexassílabos, alinha possíveis linchadores, os cidadãos, à triste nação na sua obsoleta temporalidade violenta, a democracia. A canção “é a imagem de um real congelado pela atmosfera fantasmática da violência, da injustiça, de tudo o que pode ser causado pela ação perversa à sombra do sistema”21 de outrora, que, apesar de ser tratado com indiferença – talvez pelo esquecimento –, diz respeito ao presente, à tortura e à morte de tantos cidadãos, pobres, negros, pardos, sem cor nem nome; e nos ajuda a compreender melhor nosso medo, o nosso medo de cidadão, de qualquer classe social e econômica,

porque a violência cotidiana, se atinge primeiramente os pobres da periferia, também nos ameaça a todos, e dela tentam as pessoas se protegerem pelo enclausuramento em condomínios cercados de muros com arame farpado e guardas, cópia obscena de outros campos22. Caetano executa importante papel ao trazer à tona as agruras entranhadas na realidade brasileira, em seu lúcido exercício de representatividade.

As minhas canções ainda são predominantemente longos e enfadonhos inventários de imagens jornalísticas intoleráveis do nosso cotidiano usadas como autoflagelação e como que olhadas de fora: até essa coisa desagradável de pronunciar o nome de outro país como emblemático repositório de mazelas sociais. Eu odeio esse negócio de dizer o nome do Haiti naquela canção 23. Essas “imagens jornalísticas intoleráveis do nosso cotidiano” são tomadas por uma perspectiva distante de observação, “olhadas de fora”, para a total apreensão. Para Jaime Ginzburg, em Crítica em tempos de violência, as camadas de memória coletiva dos traumas históricos brasileiros são marcadas pelo impacto de séculos de violência e desumanização. É preciso ter um ponto de vista efetivamente exilado, para percebê-las para além da superfície24. É essa posição de análise que vincula Caetano ao seu tempo e ao do Brasil, e que lhe permite projetar experiências pessoais em reflexões coletivas e ressaltar o risco que todos nós corremos – todos nós que falamos em nome de países perdedores da História – de tomar como naturais e incontornáveis as mazelas decorrentes do subdesenvolvimento25 e não fazer nada a respeito. Nesse sentido, tanto o poeta-cantor quanto a canção em destaque são contemporâneos porque, segundo Agamben, pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo26. O olhar voltado ao passado para apreender o presente é um

19. MATOS, 2009, p. 15. 20. CANDIDO, 1999, p. 34. 21. LUCCHESI e DIEGUEZ, 1993, p. 216. 22. GAGNEBIN, 2012, p. 177. 23. VELOSO, 2005, p. 61. 24. GINZBURG, 2012, p. 446. 25. VELOSO, 2005, p. 43. 26. AGAMBEN, 2009, p. 58.

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ARTIGO exercício de atualização para a construção de um futuro que pode ser otimista, dadas as nossas especificidades. Mas eu, eu mesmo, não o mero escravo das canções, penso os aspectos entrópicos como problemas a superar – deveres severos: temos de começar a ler com singeleza os sinais de trânsito nas cidades. Por outro lado, amo o caos; não apenas como caldo de onde se destilará a nova ordem bonita, mas como desordem atual. O adjetivo “bonita” escolhido para qualificar a futura ordem desejada me parece revelar que o colorido do caos – o desequilíbrio onde viceja a violência e a perversão e também o talento excepcional e a inventividade, os caprichos e relaxos, as vanguardas estéticas e os exotismos sexuais –, o colorido desse caos, dizia, é absolutamente indispensável à composição da nação sonhada, da estamparia das vestes do povo desse país futuro27. Assim, também o Brasil é contemporâneo: inatual e anacrônico em suas práticas políticas e ordenamento social, mas algo vanguardista com toda a nossa cor do carnaval, nossos mil tons, bens e tais. A força poética e crítica da canção de Caetano contagia quem a ouve – e que faz dela um recado para que o pensamento se exerça. Não se pense, porém, que toda construção é já ruína, que tudo esboroa, que tudo é triste, tão triste, que tudo vai para as cucuias, como “O cu do mundo” pode parecer insinuar. Após essa canção, em Circuladô, a faixa seguinte (a última do álbum) muda o rumo da prosa, e o compositor lembra que há uma “Promessa de felicidade / Festa da vontade, nítido farol / Sinal novo sob o sol / Vida mais real”. A “subsombra” dá lugar ao “farol”, ao “sol”. Isso é o Brasil e todo o seu “colorido do caos”. REFERÊNCIAS ADORNO, Theodor. Notas de literatura I. Tradução: Jorge de Almeida. São Paulo: Editora 34, 2003. AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros

27. VELOSO, 2005, p. 62.

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ensaios. Tradução: Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009. BOSCO, Francisco. Banalogias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. FREITAS, Verlaine. Adorno & a arte contemporânea. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. GAGNEBIN, Jeanne Marie. O preço de uma reconciliação extorquida. In: TELES, Edson; SAFATLE, Vladimir (orgs.). O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 177-186. GINZBURG, Jaime. Crítica em tempos de violência. São Paulo: Edusp, 2012. LUCCHESI, Ivo e DIEGUEZ, Gilda Korff. Caetano. Por que não?: uma viagem entre a aurora e a sombra. Rio de Janeiro: Leviatã, 1993. MARRAS, Stélio. Caetano Veloso, pensador do Brasil, 1997. Disponível em: http://www.antropologia.com.br/ tribo/sextafeira/pdf/num2/caetano.pdf. Acesso em 15 maio 2013. MATOS, Olgária. Contemporaneidades. São Paulo: Lazuli Editora / Companhia Editora, 2009. PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Em busca do Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Notrya, 1993. SELIGMANN-SILVA, Márcio. O local da diferença: ensaios sobre a memória, arte, literatura e tradução. São Paulo: Editora 34, 2005. TELES, Edson. Entre justiça e violência: estado de exceção nas democracias do Brasil e da África do Sul. In: TELES, Edson; SAFATLE, Vladimir (orgs.). O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 299-318. VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. VELOSO, Caetano. O mundo não é chato. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. VELOSO, Caetano. O cu do mundo. Circuladô. Disponível em http://www.caetanoveloso.com.br/discografia.php. Acesso em 01 set. 2012. WISNIK, Guilherme. Caetano Veloso. São Paulo: Publifolha, 2005.


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