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EDITORIAL Por um Território mais Multicultural A diversidade cultural está presente em nós mesmos. Nascemos em uma determinada sociedade regida por uma cultura predominante. Com o passar dos anos conhecemos pessoas, lugares e fatos diferentes que acabam por agregar conhecimento e valores ao nosso dia a dia, assim, vamos formando uma nova cultura. Pois a mesma está em infindável processo de transformação. Assim é o conceito multicultural, a presença de várias crenças, costumes e opiniões distintas de uma mesma sociedade, onde nenhuma prevalece sobre a outra e sim forma-se uma nova. A partir dessa premissa a revista Território Multicultural foi criada e aborda assuntos ligados ao multiculturalismo e a contemporaneidade do indivíduo. E para que isso fosse feito de maneira mais abrangente e plural, buscamos abordar fontes e assuntos diferenciados, por meio deuma leitura leve e descontraída, para que o leitor conheça e faça parte da multiculturalidade do outro. A revista propõe mostrar que possuímos uma cultura e que quando passamos a compartilhar e conhecer novas, nos tornamos agentes multiculturais. Nas páginas a seguir é possível que o leitor conheça um pouco mais sobre outras pessoase a sociedade em que vive. Afinal, cultura é conhecimento. Boa leitura!

Sem fio, com cipó

Rogério Lopes Franco* lucro imediato que compromete o futuro. As redes sociais complementam um pouco mais o paradoxo que marca o desenvolvimento tecnológico da humanidade. Parecem ser a tábua de salvação em um oceano de arbitrariedades, a oportunidade de dar voz aos oprimidos, a forma de se organizar e debater ideias sem que exista alternativa de controle imediato. Isto considerando apenas um de seus múltiplos aspectos. Por outro lado, é alienante, pode causar males orgânicos e viciar, constatações feitas com base em observações a médio prazo. O fenômeno é recente e ainda não se tem ideia das reais consequências do uso indiscriminado da tecnologia, fato corriqueiro em muitos países, inclusive no Brasil. Vamos nos ater ao primeiro tema. Uma observação superficial na timeline de um tuiteiro engajado em movimentos sociais e defesa de direitos humanos revela informações contundentes a respeito de uma realidade que a porção “civilizada” do país conhece superficialmente ou desconhece mesmo, completamente. Alguns assuntos são meio que tabu para a grande imprensa, apresentados sem a menor profundidade, quando o são. Nestas redes, são pauta constante. Temas cruéis que insistem em manter o Brasil no patamar de nações com índices negativos em desenvolvimento humano, apesar da pujança econômica. A incidência ainda frequente de trabalho degradante, as violações aos direitos de populações tradicionais, como índios, quilombolas e ribeirinhos, quando as localidades que ocupam há séculos se encontram no meio dos grandes empreendimentos, as grandes derrubadas que sustentam uma cultura agrícola predadora e irracional em nome de um

Estes assuntos inóspitos parecem, enfim, ter encontrado uma esfera onde podem ser abordados, debatidos e expostos: as redes sociais, às quais todos têm acesso, inclusive os que defendem as causas perdidas. Mas qual é a eficiência real destas páginas engajadas? Qual o peso que estas informações carregam? Em que podem influenciar a maneira de pensar dos grandes centros, apinhados de consumidores ávidos e interessados apenas em aumentar seu poder de compra? Não sou otimista quanto a estas respostas. Existe a visibilidade hoje, mas o receptor continua o mesmo. Ainda que seja oportunizado conhecer a agonia alheia em rincões distantes, sempre haverá a opção de, simplesmente, não olhar. Não se sensibilizar, não considerar. De outra forma, como sobreviver emocionalmente em uma grande cidade, com sua população em situação de rua crescendo a cada dia? Quem se embruteceu para olhar a criança sem oportunidade apenas como um problema, dificilmente vai se interessar pela dor do ribeirinho, que morre de banzo quando é tirado da beira do rio e “realocado” na periferia de cidades já problemáticas. É outro mundo, não o meu, é mais fácil de sentir. E, para preencher a lacuna que possa ficar, existem... as redes sociais! Nelas dá para acompanhar as celebridades, agendar as festas, exibir um perfil às vezes fantasioso. Ainda bem. Escolhendo a quem seguir e formando grupos específicos não se corre o risco de que algum repórter atrevido estrague a balada com a notícia de um peão qualquer ter sido surrado de cipó quando ia fugir da fazenda.

Sempre haverá a opção de, simplesmente, não olhar

* Jornalista formado pela Univás em 1994, é assessor de comunicação do Ministério Público Federal do Tocantins

Esse mundo é muito misturado *Célia Rennó muito misturado. A começar de nós. Somos Convidada a marcar, neste território, minhas impressões sobre multiculturalidade, peço licença para deixar a teoria e falar do cotidiano nosso. Esse dia-a-dia multi, plural, misturado, que a gente vai vivendo neste mundo de gente diversa e por isso tão fascinante. Guimarães Rosa escreveu, em Grande Sertão Veredas: Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? Este mundo é muito misturado. Ele tem razão. Este mundo é mesmo

temperados com um pouco de tudo: bondade, solidariedade, egoísmo, maldade, amor, inveja, ódio.... Uma mistureba danada que a gente vai dosando, baseada nos valores e na cultura da gente. A aceitação das diferenças nem sempre está interiorizada nas pessoas. Somos preconceituosos com o que nos é diverso. Gostamos de ‘pastos demarcados’, do convívio só com o que é parecido. E o pior, valorizando apenas o que é semelhante. No campo das manifestações artísticas, por exemplo, há tribos separadas de pessoas que gostam de música sertaneja, música popular, rock, música clássica. Quem criou esta linha imaginária que divide as pessoas em ‘assins’ e

‘assadas’. No território multicultural, não se permitem rótulos nem adjetivos. Cada um tem sua cultura, sua forma de ler e pensar o mundo, seu jeito de se expressar, suas preferências, suas opiniões. Não há certo ou errado nesta terra. Não há melhor ou pior. Há, apenas. Quando nosso ambiente real, esse que a gente vive, no verdadeiro do dia, for um território multicultural de verdade, com gentes de todas as culturas convivendo e se respeitando pacificamente, aí sim esse mundo vai ser mais que melhor. “Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.” * Jornalista formada pela UFJF em 1990, é assessora de comunicação


Território

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PERSONALIDADE

8 14 22 28 34 38

CONEXÃO VIRTUAL

ENTREVISTA

EXPRESSÃO

ENTRELINHAS

PALADARES

SOCIEDADE SEM FIO

RESPONSABILIDADE SOCIAL

RETALHOS

ADRENALINA PARALELO

PELÍCULA

OLHO DE LINCE

AGENTES MULTICULTURAIS Bruno Freitas Edgar Barbosa Renan Barbosa Renatha Pierini Projeto experimental desenvolvido como exigência final para obtenção do título de bacharel do curso de Comunicação Social – Jornalismo, sob orientação da profª. Ms. Clarissa Cruz. Planejamento gráfico: Marco Antônio

Diagramação: Renan Barbosa Finalização e capa: Rafhael Pierini Logomarca: Agência VIP Fotos Ensaio: Fabiano Cistecerco Modelos de Capa: Marcela Cardenaz e Gustavo Duarte Impressão: Gráfica Novo Mundo As opiniões aqui expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a visão da Território Multicultural.


Personalidade Voluntariado é Chance

de aprendizado

Ser sustentável é Ser

equilibrado

Expressão corporal é Desafio Voar é Chegar

longe

Conexão virtual é Poder Linguagem jornalística é Desafio Sociedade sem fio é Possibilidade

de foco

de conexão com o

outro, com o desconhecido Responsabilidade social é Positiva Paladar é Território Multicultural é Tudo!

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Sentido, Prazer, Sabor

Território Multicultural é

tudo, é prazer, é sentimento, é satisfação, é mundo sem limites


Janine Saponara

Janine Saponara é jornalista e fundadora da Lead Comunicação e Sustentabilidade, reconhecida pela atuação na comunicação de empresas e organizações sustentáveis. Foi criadora do Prêmio Ethos de Jornalismo e organizadora do livro “Comunicar é preciso: como as ONGs podem se comunicar melhor com a imprensa”


http Conexão Virtual

BOM SENSO ONLINE

Criar um perfil em um site de relacionamentos exige do usuário, assim como na vida real, o bom-senso. Especialmente, ao usar a ferramenta para contatos profissionais. Escrever palavrões, enviar constantes solicitações de jogos aos contatos e usar esses perfis como “diário pessoal” são casos abordados entre as regras apontadas no texto “Etiqueta nas redes sociais: saiba como se comportar”.

http://www.techtudo.com.br/artigos/ noticia/2011/08/etiqueta-nas-redessociais-saiba-como-se-comportar.html

GERAÇÃO DO CONSUMO

Uma Pesquisa realizada pela Quest Inteligência de Mercado aponta que 1/3 de jovens entre 12 e 19 anos já estão inseridos no mercado de trabalho e ganham em média R$ 820,00 mensais. A boa notícia, especialmente para o varejo, é que os indivíduos dessa geração são muito consumistas, e a melhor forma de atingir esse público é por meio da Internet. http://mundodomarketing.com.br/ reportagens/pesquisa/20254/pesquisamostra-a-relacao-da-geracao-z-com-ainternet.html

JORNALISTAS EM FOCO

Jornalistas usam os sites de relacionamentos para formular pautas, checar informações e manter contato com as fontes. Isso é o que afirma pesquisa realizada com 150 profissionais da área pela Revista Imprensa, em parceria com a Unesco. O intuito é descobrir o poder das redes sociais na “liberdade de expressão e na prática cotidiana do jornalismo”. http://portalimprensa.uol.com.br/noticias/ultimas_ noticias/39402/em+pesquisa+jornalistas+revelam+como +usam+as+redes+sociais/

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O PODER DO FACEBOOK

Quantas pessoas, além de você e seus contatos, estão em algum site de relacionamentos? Para se ter ideia, no topo da lista dos mais acessados em todo o planeta aparece o facebook com 310 milhões de visitantes únicos por dia e número de cadastros somando quase o dobro da população atual dos Estados Unidos, que atinge por volta de 310 milhões. http://super.abril.com.br/blogs/ tendencias/facebook-continua-a-ser-arede-social-mais-poderosa-do-mundo/


p:// SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO OBSERVADO

REDES SOCIAIS PARA MEDIR AUDIÊNCIA

Não é difícil encontrar pessoas que assistam a programas de TV e ao mesmo tempo estejam conectadas à Internet. Por isso, diversas vezes ao dia, um determinado assunto exibido por alguma emissora ganha repercussão instantânea nas redes sociais como o twitter ou o facebook. Dessa forma, pelos sites de relacionamentos, é possível ter um feedback instantâneo do telespectador e observar o que ganha repercussão positiva e o que não agrada. http://www.adnews.com.br/pt/ internet/40-das-pessoas-usam-redessociais-e-tv-ao-mesmo-tempo.html

UMA OU VÁRIAS CULTURAS? Existe apenas uma única cultura da qual todos fazem parte ou vários tipos de cultura? Para chegar a uma conclusão, basta entender o conceito amplo de cultura: em um determinado espaço de terra existem diversas culturas com características distintas, onde nenhuma prevalece sobre as outras e que ao mesmo tempo, por vezes, se interligam. Afinal a cultura está presente nos atos mais simples do cotidiano, como nas refeições, ou nos mais complexos, como a reflexão sobre obras de arte. http://www.educared.org/educa/index. cfm?pg=oassuntoe.interna&id_tema=16&id_ subtema=1

Empresas que buscam profissionais para preencher o quadro de funcionários, além de realizarem entrevistas pessoais, também avaliam perfis nas páginas de sites de relacionamentos. Por isso, monitorar as postagens, comentários e fotos abertos ao público é uma dica essencial aos profissionais que estão em busca de oportunidades no mercado de trabalho.

http://olhardigital.uol.com.br/jovem/digital_news/ noticias/pesquisa_69_das_empresas_ja_rejeitaram_ candidatos_por_causa_das_redes_sociais

O TAMANHO DO CÉREBRO Pode parecer estranho, mas quanto maior o número de contatos na rede social de um determinado usuário, “maior o volume da massa cinzenta em quatro regiões do cérebro”. A afirmativa é de estudo feito pelo Instituto de Neurociências Cognitivas da Universidade de Londres, Inglaterra. A pesquisa é no mínimo curiosa. Na verdade, os pesquisadores querem descobrir se a Internet muda o cérebro humano. http://noticias.universia.com.br/destaque/ noticia/2011/10/20/880290/estudo-diz-harelaco-tamanho-do-cerebro-e-quantidadeamigos-no-facebook.html

DIVERGÊNCIAS DAS GERAÇÕES

Uma pesquisa realizada pela consultoria Mercer aponta que executivos da geração Baby Boomers ganham em média 23% a mais que os profissionais da geração Y, mostrando que os salários desses indivíduos não acompanham o crescimento rápido dos mais jovens na carreira.

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http://exame.abril.com.br/carreira/noticias/ executivos-da-geracao-y-tem-salario-23-menor


Entrevista

Novos termos, antigos conceitos Conhecimento, cultura, criatividade, internet e economia. O que estas palavras têm

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em comum? Elas estão interligadas a um recém-criado conceito: Economia Criativa. No Brasil, o trabalho cultural, artístico e intelectual tem ganhado espaço no mercado, e com esta realidade já é possível obter bons rendimentos financeiros exclusivamente por meio da arte, da imaginação e da criatividade. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas – ONU, o setor representa 10% do PIB mundial e os produtos e serviços criativos crescem anualmente a uma taxa média de 8,7%. Os levantamentos apontam o desenvolvimento da Economia Criativa nos seus quatro núcleos de atividades: Patrimônio Material e Imaterial (artesanato, festas populares, museus, livrarias, teatros e exposições); Artes Performáticas e Visuais (dança, ópera, música, pintura, escultura e fotografia); Mídia (produção de conteúdos, livros, cinema, vídeo e imprensa); e Criatividade Aplicada (design, joias, brinquedos, móveis, pesquisa e publicidade). O espaço virtual tem sido um dos mais importantes canais para a Economia Criativa. Hoje, cada cidadão pode trabalhar sem precisar se deslocar fisicamente e ainda divulgar o seu trabalho em redes sociais, blogs e sites. O conhecimento e a criatividade são taxados como produtos inesgotáveis da Economia Criativa, a qual, por outro lado, não representa transformações radicais na economia mundial, mas sim fator contribuinte para o desenvolvimento sustentável. A equipe da Território Multicultural falou com o ex-Ministro da Fazenda (1988-1989) e economista Maílson da Nóbrega em entrevista coletiva realizada em Pouso Alegre no último dia 26 de outubro, quando pode expor seu ponto de vista sobre questões relacionadas à interligação da economia com conhecimento, cultura, criatividade, classes sociais e Internet.


O futuro da economia brasileira está na adoção de medidas de reformas que aumentem a produtividade, e neste está a educação

TMC – Há cerca de um ano, as redes sociais (twitter, orkut, facebook, entre outros) eram acessadas por grande parte dos internautas na busca de entretenimento. Poucas empresas, até então, se preocupavam em manter um perfil nesses ambientes virtuais. Hoje, essa realidade já está muito transformada. Por essa reflexão, pode-se afirmar que a Internet é a esperança da economia brasileira? Maílson da Nóbrega – Não acho que a esperança da economia brasileira seja a Internet. A Internet é apenas uma ferramenta de comunicação, de transmissão de dados, de análises de relacionamento. O futuro da economia brasileira está na adoção de medidas de reformas que aumentem a produtividade, e neste está a educação. Como se sabe, o crescimento da economia depende fundamentalmente da produtividade, isto é, a capacidade que as pessoas, as empresas e o país têm de produzir mais com os mesmos recursos. Nos Estados Unidos, por exemplo, 80% do crescimento se explicam pela produtividade. A Internet ajuda a ampliar a produtividade porque ela contribui para a eficiência, mas o nosso grande desafio para os anos à frente é, em primeiro lugar, dotar o país de uma educação de qualidade e depois promover as reformas que reduzam os custos de transação, melhorem a operação da logística, deem ao país uma legislação trabalhista moderna, viabilizem a previdência social. Para ser mais ambicioso, uma reforma política que melhore a qualidade do sistema político, a capacidade decisória do Congresso. Como se vê é uma agenda gigantesca, sem cujo cumprimento o Brasil dificilmente vai galgar uma posição de maior destaque no contexto da economia mundial. Agora, o que importa é que hoje o país superou um dos seus grandes obstáculos para o crescimento sustentado, nós temos uma democracia vibrante, funcional, imprensa livre e independente, ju-

diciário independente, os mercados funcionam, a sociedade se tornou intolerante à inflação, portanto o Brasil, hoje, é um país livre do populismo característicos de épocas da América Latina, e isso é um grande avanço. O que resta agora é indagar com que velocidade vamos promover as reformas que ampliam o potencial de crescimento do país. Em outras palavras, o risco do Brasil não é mais o de cair no buraco da inflação e da instabilidade política. O risco nosso é crescer pouco, comparativamente com outros países. A própria Europa, agora, vai passar uma década, a maioria dos países, sem crescer ou crescendo muito pouco.

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TMC – A Economia Criativa é, segundo tendências mundiais, a grande promessa do desenvolvimento no século XXI. O setor é responsável por 10% do PIB mundial, segundo a ONU. A crescente importância do intangível, ou seja, cultura, criatividade e conhecimento, traz um novo desafio para as empresas. Como isso pode refletir na economia nacional? Maílson da Nóbrega - Isso é moda! Hoje, fala-se em Economia Criativa, daqui a pouco fala-se em outra coisa. Claro que tem importância tudo isso, até porque as pessoas estão mais exigentes, tem mais renda e valorizam muito mais aspectos não necessariamente materiais da vida moderna, mas aquelas que dão prazer intelectual, aquelas que dão prazer do ponto de vista da cultura. Mas eu volto ao ponto: o que impulsiona o país é a produtividade. Se a Economia Criativa contribui para isso, ótimo. Mas imaginar que ela será o motor da economia, dificilmente isso acontecerá. Se você olhar o que vem por aí, em termos de mudanças, são transformações na área tecnológica. Então, os novos produtos que vão surgir são os que melhoram a maneira como as empresas operam, melhoram como as pessoas se comunicam, melhoram o sistema de transporte, comunicação e assim por diante. E a Economia Criativa é parte disso, mas não é, nem de longe, o motor de uma grande transformação, ao meu ver. TMC - O expressivo crescimento da Classe C, considerado um fenômeno social histórico do Brasil, acaba criando um desafio para o mundo dos negócios. Por muito tempo, boa parte das empresas ignorou essa camada da população, que hoje chega com forte representatividade de consumo. Este consumidor pode interferir, não somente no desenvolvimento de produtos, mas também em toda a cadeia produtiva de abastecimento? Maílson da Nóbrega - Claro. Isso é uma nova realidade auspiciosa do Brasil, que é a emergência da classe C, que se aproxima de 100 milhões de indivíduos. Isso é o resultado do crescimento da economia, crescimento da renda, do acesso à informação, do acesso maior à educação, e, hoje, várias empresas se prepararam para atender a esse público. Esse público gostaria de ter produtos muito parecidos com os consumidos pelas classes A e B, e às vezes precisam consumir quantidades menores de produtos. E você já vê várias empresas, brasileiras e multinacionais, colocando na sua linha de produtos, no seu planejamento estratégico, a classe C. A classe C, hoje, é uma grande consumidora de transporte aéreo. Estamos vendo empresas aéreas colocando guichês em estações rodoviárias, que ainda são muito frequentadas pela classe C, por que começa a comprar passagens. A cada ano, entre 2 e 3 milhões de brasileiros, maioria de classe C, entrarão num avião pela primeira vez, e em muitos casos as passagens de avião ficaram mais baratas que as de ônibus. Se você considerar as transformações que houve nos últimos dez anos, aproximadamente 50 milhões de brasileiros ingressaram no mercado de consumo, e esse se tornou uma grande fonte de demanda das empresas. Só para raciocinar, é mais que a população da Argentina, e, portanto, é um exército considerável de consumidores, de novos produtos, e, novamente, essas pessoas estão interessadas em consumir produtos de qualidade e compatíveis com o seu nível de renda.

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Se você considerar as transformações que houve nos últimos dez anos, aproximadamente 50 milhões de brasileiros ingressaram no mercado de consumo, e esse se tornou uma grande fonte de demanda das empresas


Economista, Maílson da Nóbrega,

após longa carreira no setor público foi Ministro da Fazenda de 1988 a 1990. Como ministro, presidiu o Conselho Monetário e o Confaz e integrou os boards do FMI, do Banco Mundial e do BID. Viu de perto os primeiros anos da delicada redemocratização e seus efeitos na economia. Maílson atua como consultor desde 1990, além de participar de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Assina uma coluna na revista Veja e outra no jornal O Estado de São Paulo. Autor de diversos livros, publicou, em 2010, sua autobiografia “Além do Feijão com Arroz”.

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Expressão

SEM CORTINAS

Romeu e Julieta, peça dirigida por Gabriel Villela que se tornou um marco para a história do Galpão e projetou o grupo no cenário internacional. O espetáculo revoluciona o fazer teatral no Brasil e insere um novo estilo de apresentação da obra de Shakespeare

Uma fachada pichada ao lado da porta de uma gara-

gem. Letras em azulejos formam um nome que a princípio pode passar despercebido por quem transita por ali. Lê-se Grupo Galpão. Ao entrar no espaço, não é difícil perceber o que o lugar realmente representa. Cartazes dos vários espetáculos comprovam a história de muitos anos de dedicação a uma imensidão artística que se une em um simples ato: o teatro. Ao fundo, o ambiente dos ensaios: tablado, figurinos, cortinas, baús e outros elementos que compõem os cenários das peças.


O Grupo de Teatro Galpão, originário de Belo Horizonte-MG, completa 30 anos de existência em 2012 ou, como os próprios integrantes preferem, “de encontros”. Encontros porque, apesar de o Grupo ter praticamente a mesma formação de 13 atores, como inicialmente, cada espetáculo marca o encontro com um gênero teatral diferente e um novo diretor, sob uma proposta de constante renovação em criação, linguagem, estilo, técnica etc. Para poder apresentar, em palavras escritas, como é a realidade no âmago deste Grupo a equipe da Território Multicultural foi a Belo Horizonte conversar pessoalmente com os fundadores. Descobimos, então, que definir o Grupo Galpão por meio de estilo ou gênero específico é praticamente impossível. Em sua trajetória, os espetáculos se diversificam muito. O teatro deles, na concepção dos próprios atores, é “intrinsecamente popular. De rua”. A cada espetáculo, releituras de obras clássicas misturam linguagens e autores. Um exemplo foi a inédita combinação entre a obra de Shakespeare e a linguagem de Guimarães Rosa na peça Romeu e Julieta, espetáculo que, além da conquista de projeção mundial, ainda revolucionou o fazer teatral no Brasil e inseriu uma nova visão sobre a obra de Shakespeare, tornando-a mais acessível ao público. O objetivo do Grupo é retratar o Brasil com um teatro reflexivo e apresentar grandes autores mundiais. “Por meio do nosso teatro, a gente também quer mostrar para as pessoas que o Brasil é um país que tem uma contribuição dentro da história do pensamento do mundo”, ressalta Eduardo Moreira, um dos fundadores do Galpão. Um dos principais espetáculos, entre os que retratam a cultura brasileira, chama-se A Rua da Amargura, obra sobre nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo originalmente escrita pelo dramaturgo português Eduardo Garrido e adaptada pelo Galpão com elementos de tradições populares do interior de Minas Gerais. A versão brasileira do grupo mineiro ganhou mais de 20 prêmios, foi apresentada em sete países e teve uma produção realizada pela Rede Globo, em abril de 2001. O Grupo também retrata a sociedade por meio de aspectos cômicos. Em Till, o Herói Torto, por exemplo, a Idade Média é o plano de fundo para as peripécias de um personagem que muito se parece com um outro protagonista bastante conhecido pelos amantes da literatura brasileira: o Macunaíma, de Mário de Andrade. “Fazer espetáculos em que a reação do público seja positiva”, de acordo com Arildo de Barros, também integrante do Grupo, “é um desafio e uma recompensa. Você pode entrar para fazer o espetáculo com qualquer sensação desagradável, e, quando termina, a reação do público te joga um balde d´água que limpa tudo”, acrescenta ele.

O Galpão busca retratar o Brasil com um teatro reflexivo e apresentar grandes autores mundiais


“O Grupo tem essa preocupação de manter uma relação muito fiel e íntima com o público”, afirma o ator Eduardo Moreira. Com isso, além das reações da plateia durante as apresentações, o Galpão também já promoveu experiências em que os espectadores influenciavam diretamente na peça. Neste caso, o espetáculo Pequenos Milagres foi constituído por textos enviados pelo público na campanha “Conte sua história”. A partir do material recebido, quatro textos foram escolhidos e adaptados pelo Galpão para a montagem do roteiro. O conceito de teatro de pesquisa se resume em experimentar novas referências e gêneros, de acordo com Eduardo. “Isso é necessário para haver a renovação dos conceitos artísticos. Teatro é uma coisa essencialmente prática, você experimenta mesmo, não adianta pensar numa ideia e simplesmente concebê-la. Você tem de pensar, experimentar e fatalmente refazer. É um processo de experiência mesmo”, reforça. Este mês o Grupo estreia um novo espetáculo que terá influências do cabaré. Eduardo explica que o processo de escolha de novas obras é sempre muito pensado e discutido com todo o Grupo. “Sempre que a gente busca um projeto novo, a gente pensa assim: ‘o que nós queremos dizer, para que público queremos dizer e que tipo de transformação a gente quer originar, não só no público, mas em nós mesmos?’”, explica. Tantas reinvenções realizadas em conjunto fizeram com que o Galpão se transformasse em uma família. Como consequência, em toda a história do Grupo, apenas neste ano o elenco se dividiu para encenar duas peças distintas. O espetáculo Tio Vânia, de Anton Tchékhov, composto por seis atores e uma atriz convidada, está sendo encenado em todo o Brasil desde abril, e os outros componentes do Grupo estão em fase de ensaio para uma nova peça que estreia neste dezembro.

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Ao relembrar toda a trajetória do Grupo Galpão, a sensação de que valeu a experiência é um sentimento comum a todos os atores. Mas a maior preocupação do Grupo não está no passado, e sim no futuro. “Temos que pensar para aonde a gente pode ir, que tipo de contribuição podemos dar, que tipo de reflexão é importante colocar nesse momento, qual é o lugar do teatro neste mundo. Todas essas questões pulsam muito e são importantes. Afligem-nos e ao mesmo tempo nos levam pra frente”, define Eduardo Moreira. Feliz aniversário O Grupo prepara diversas comemorações para o 30º aniversário em 2012. Uma delas é ter novamente Gabriel Vilela como diretor dos espetáculos A Rua da Amargura e Romeu e Julieta, duas peças que marcaram a história do Galpão. Além do teatro sólido e de qualidade, há outro fator permeia o galpão nesses quase 30 anos de dedicação ao teatro: o afeto entre os integrantes. E, para finalizar, uma revelação reforça e reafirma que a família chamada Grupo Galpão ainda tem muita gente para emocionar. “O Galpão para mim é uma maneira de me sentir vivo, é uma condição de vida”, emociona-se Arildo de Barros.


SE AS PAREDES

CANTASSEM

O ano era 1875, e o Brasil, ainda império monarquista e

escravocrata. Nesta época, na região sul mineira, entre muitas histórias e fatos, Pouso Alegre inaugurava o Teatro Municipal. Desde então, as manifestações culturais sempre fizeram parte da história do município. No entanto, na década de 1990, o fervor cultural diminuiu devido à falta de divulgação e planejamento. Mais de 135 anos depois, devido à idade avançada, o espaço teve que passar por reformas e recuperou seu papel de palco, para o que inicialmente fora constituído. As atuais bases que promovem a cultura têm incentivado pessoas na produção artística, e fecha a concepção de obra de arte ao atrair público. Gerenciado pela Secretaria Municipal de Cultura, o teatro Municipal de Pouso Alegre atualmente tem agenda definida e divulgada mensalmente. Dentre as atrações que já passaram por esse palco, nessa nova fase, destacam-se alguns grupos e nomes como um dos maiores pianistas do mundo, Arthur Moreira Lima, a Companhia Brasileira de Ópera, o Balé de Londrina, o guitarrista Michel Leme, o trompetista Bocato, artistas renomados que na maioria das vezes fizeram shows com entrada franca, financiados pela Lei de Incentivo à Cultura. “Atualmente três fatores se somam: a secretaria de cultura aberta para a produção cultural, a comunidade capacitada para desenvolver projetos artísticos e políticas públicas de fomento. Devido a esses atributos favoráveis, a cidade só tem a ganhar com manifestações culturais de qualidade”, relata Rafael Huhn, secretário de cultura de

Pouso Alegre. Ainda de acordo com ele, o segredo desse processo “é a união uma boa gestão com a vontade de artistas que desejam fazer a arte acontecer”. Um exemplo de sucesso é o Grupo Contraponto. Com menos de dois anos de formação, o grupo de música instrumental, planejado pelo Instituto Brasileiro de Música Contemporânea (IBMC), já conquistou um público e se apresenta sempre com a casa cheia. “Nosso objetivo é fazer arte e formar público artístico, aquele que não vai ao evento para simplesmente falar se gostou ou não, ele vai com o espírito de receptividade para que aquilo agregue conhecimento a ele”, explica Sandro Nogueira, músico do Contraponto. Para o guitarrista Michel Leme, que esteve recentemente na cidade para participar do II Festival Minas Brasil de Música Instrumental, a verdadeira arte, principalmente manifestada por meio da música, faz as pessoas acordarem para a realidade da vida. “A arte pode acordar você. É só estar disposto a isso.”

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Entrelinhas

A VIDA DESENHADA A agitada rotina da maior cidade da América do Sul pode parecer

exaustiva para algumas pessoas. Badalada para outras. Mas para Paulo Stocker, desenhista, ilustrador, caricaturista, cartunista e professor de desenho, a metrópole paulista é o cenário de vários trabalhos e a inspiração de quadros, personagens e enredos. O desenho faz parte da vida do cartunista, desde pequeno, quando ainda morava na cidade de Brusque, Santa Catarina. “Eu aprendi a desenhar primeiro do que escrever, e sempre achei que poderia viajar a qualquer lugar do mundo pelo desenho.” Os desenhos feitos pelas mãos de Stocker já ilustraram as páginas de publicações marcantes na história do jornalismo brasileiro como “Caros Amigos”, “Jornal do Brasil” e “Pasquim”, além de uma série de tiras que foram publicadas em um Guia de São Paulo editado na cidade de Nova York (EUA). Em 2006, as criações de Paulo Stocker ultrapassaram as barreiras dos jornais e revistas e foram parar no livro cômico “Stockadas”. Atualmente, os trabalhos do cartunista podem ser visto nos blogs de Stocker e, principalmente, na rede social Facebook, onde o desenhista divulga seus trabalhos. Entre tantas criações, o grande sucesso de Stocker é o desenho humorístico, em forma de cartoon, Clóvis, personagem que revela muito sobre seu criador nas entrelinhas. Uma espécie de enigma, algo que esteja escondido dentro de si. Foi para conhecer as imagens do cotidiano de Stocker e as inspirações que o movem, assim como entender como ele vê o que passa desapercebido aos olhos da maioria, os jornalistas da Território Multicultural viajaram a São Paulo, tendo como destino final a rua Augusta, e tiveram uma conversa aberta com o cartunista. Os leitores poderão descobrir nas próximas páginas o que passa na mente de um dos mais reconhecidos desenhistas do Brasil.

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“ Eu vejo desenho em tudo, eu vejo a realidade como desenho


O desenhista Paulo Stocker aprendeu a desenhar primeiro do que escrever e conta que nĂŁo consegue descrever em palavras o que pretende passar com o seu trabalho, porque Ă s vezes nem ele mesmo sabe o que quer transmitir


Território Multicultural: Como surgiu o gosto pelo desenho? Paulo Stocker: Meu irmão, o Chico Stocker, que é fotografo, era apaixonado pelo Super-homem, Homem Aranha e pela revista Mad. Nós tínhamos uma coleção da Revista Mad em casa. Inteira. Se faltava, faltava um número para completar. Ou estava completa. Não me lembro. Então. Tem toda uma história em cima da coleção do meu irmão, que foi perdida em uma enchente de 1983, eu acho. Eu lembro que a água arrastou tudo. Mas era uma época boa, e, assim, materialmente tudo se recuperou, mas essas coisas de valores, como a coleção da Revista Mad, foi meio que um trauma, assim, de nós dois como irmãos. E ali, eu descobri que o quadrinho poderia ser uma coisa mais interessante. TMC: E de onde vem a inspiração? PS: Eu acho que meus melhores trabalhos foram a partir de 2006, quando eu publiquei meu primeiro livro. O ‘Stockadas’ era um lado muito forte em mim, de toda a minha geração, que era o sexo. Porque, a geração anterior, eles tinham uma tara pelo sexo. A minha geração veio com uma liberdade sexual muito grande.

Eu não gosto de ser tendencioso em nada, a minha charge é a maneira de mostrar que a charge pode ser apartidária.

TMC: Qual a mensagem você quer passar por meio do seu trabalho? PS: Não daria para descrever em palavras o que eu quero passar com o meu trabalho, porque às vezes eu mesmo não sei. E isso que é gostoso, é ser surpreendido pelo trabalho. TMC: É impossível falar de Paulo Stocker e não falar do Clóvis. Como surgiu esse personagem? PS: Eu fiz uma oficina de clow, e acabei me apaixonando. O que eu descobri com o clow foi que as coisas que você mais esconde em você, são as mais engraçadas. Então, eu me pergunto o que eu escondo? O que eu tento esconder? Essas coisas são engraçadas. E o que é engraçado no Clóvis, são essas poesias. Clóvis é o meu primeiro nome que eu sempre escondi. Uma vez, quando eu trabalhava na Revista Imprensa, pegaram meu documento e viram que eu me chamava Clóvis e falaram na redação: “porra, eu não sabia que você se chamava Clóvis”. Todo mundo riu. TMC: Como você descreve a personalidade do Clóvis? PS: É diferente da minha, porque no Clóvis eu me permito a muitas coisas que a minha não me permitiria. Ele é um cara ingênuo, romântico. De alguma maneira frágil. Ele é um cara que se apaixona mesmo! Por exemplo, como homem, ele pode até fazer certo charme. O Clóvis é isso! Eu posso

fazer ele ter essa sensação de flutuar. E o meu público feminino é muito forte. As mulheres gostam quando os homens se entregam, mesmo que seja por um dia. TMC: Qual a sua opinião sobre caricaturas? PS: Eu acho que a caricatura clássica é para sacanear os políticos, então, aí é legal exagerar. Mas eu tenho como característica pegar leve. Eu gosto de pegar leve, eu gosto que a pessoa emoldure a caricatura, então ela fica entre o retrato e a caricatura. Eu posso exagerar se eu quiser, mas eu exagero muito leve porque a mulher sai bonita e o cara sai meio galã. TMC: Você já afirmou que gosta de desenhar pessoas sem que elas percebam que estão sendo desenhadas. Por quê? PS: Se as pessoas percebem que estou as desenhando, muda totalmente. Perde a graça, muda os movimentos e as pessoas ficam mais duras. Eu fiz um evento no Centro Cultural Britânico Brasileiro, aí eu desenhei o evento, tanto o pessoal declamando poesia, quanto o público. Depois no final do evento aquilo é exposto, e as pessoas vão folheando e se descobrindo, fica muito agradável. E hoje eu fiz disso uma forma de ganhar dinheiro. Para as pessoas não me perceberam, eu evito chamar a atenção, fico de canto, onde ninguém me observa.

As obras dos dirigíveis e das maquinarias de Stocker

apresentam ao observador movimentos impossíveis, que revelam a própria ordem do mundo do autor e são um convite para ver o mundo de forma diferente. Esta é a mensagem da obra: comunica que as pessoas podem mudar a própria condição de estar no mundo, reverter processos negativos e viverem como crianças


TMC: Paulo, você tem uma série denominada “Stockadas”. É um trabalho que você faz algumas críticas a determinadas situações, principalmente as que estão envolvidas com a política. Essa é uma maneira de cutucar e expor seu lado cidadão brasileiro? PS: O Stockadas é a minha parte de charges que é uma crítica além da mídia. É uma crítica à autoridade, ao governo, porém não é uma crítica direcionada. Tanto que o Josias de Souza começou a republicar as minhas tiras no blog dele, e eu disse a ele que ou ele deixasse apenas a minha charge ou ele parasse de tentar explicar os meus trabalhos. Eu não gosto de ser tendencioso em nada, a minha charge é a maneira de mostrar que a charge pode ser apartidária. Política, mas apartidária. TMC: As suas criações já ilustraram publicações relevantes como a revista Caros Amigos, Pasquim e o Jornal do Brasil. São publicações de cunho intelectual e questionadoras da política social e econômica brasileira. Você acredita que o espaço editorial seja limitado? PS: Primeiro de tudo, há uma falta de profissionalismo. Por exemplo, na Caros Amigos você até tem bons textos, mas na parte de arte deixa a desejar. O Pasquim morreu por falta de visão de longo prazo. A maioria dos cartunistas foi absorvida pela grande mídia. E depois de digerida, foi desprezada. Caso o Pasquim continuasse, seria um dos mais influentes jornais em atividade. Mas a editoria teria que continuar na mão do Jaguar. O Jornal do Brasil morreu, como irão morrer outros jornais, por falta de profissionalismo.

TMC: Em outras criações suas, você retrata as ruas de São Paulo. A Rua Augusta é conhecida por ser um ponto da cultura underground. Porque essa atenção com a Augusta? PS: Porque parte da frase de Léon Tolstoi: “se quer ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Então, eu desenho minha rua. TMC: No ano passado você fez uma intervenção urbana na Rua Augusta colando seus trabalhos em diversos pontos. PS: Eu faço isso há muito tempo, mas nunca fiz um trabalho de grafite. Eu descobri no “lambe-lambe” que eu posso pegar papel e colocar na parede, ao invés de desenhar. É um trabalho mais refinado, mais pensado, com calma, não às escondidas, às escuras. E é pegar esse trabalho, imprimir e colocar na parede como poesia. A minha ideia é que isso fique no inconsciente das pessoas e que elas passem, olhem e digam “que legal isso aqui”. Eu quero que as pessoas conheçam o meu trabalho, que se emocionem, porque, quando você está vendendo alguma coisa, você corta um pouco dessa emoção. É a minha arte jogando poesia nas ruas.


Paladares

O sabor das

flores “Há flores por todos os lados, há flores em tudo que eu vejo”. O verso da música que ficou famosa pelo grupo Titãs traduz o ambiente de um restaurante localizado na pequena cidade de Gonçalves, no Sul de Minas Gerais. No local é possível encontrar pratos acompanhados com um toque colorido, saboroso e inusitado das flores que são usadas como especiarias. Tanea Romão, cozinheira que estuda a culinária brasileira há dez anos, montou o restaurante na bucólica cidade mineira, onde, entre as opções para saborear, estão os pratos com flores. De acordo com ela, essas plantas fazem parte do “menu” da casa, pois estão no quintal do restaurante, obedecendo à tradição de terreiro mineiro, ou terroa, que é tudo o que nasce em um determinado espaço de terra. A capuchinha, a alfazema, a rosa e o hibisco são algumas das plantas que dão um colorido e sabor diferente às iguarias que são servidas. As flores são usadas nas saladas, nos pratos principais e até mesmo nas sobremesas. O costume de comer tais plantas, no en-

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tanto, não é recente. A população da Idade Média já tinha o hábito de se alimentar com flores, pois essas plantas eram usadas “para dar mais brilho aos pratos”, como afirma Gil Felippe no seu livro Entre o Jardim e a Horta, as Flores que Vão para a Mesa. Atualmente, essa culinária é mais popular em países europeus, como França e Suíça. Já no Brasil, esse tipo de costume é mais recente e restrito a poucos restaurantes. No caso de Tanea, tudo começou pelas geleias, que ganharam um toque especial nas mãos da cozinheira. “Um cliente me consultou, pois ele queria uma linha de geleias, ai eu criei uma linha com flores, por exemplo, de rosa, jasmim e alfazema. Na Europa, faz-se bolo de alfazema, e aqui no Brasil elas são usadas apenas nos cosméticos.” O sabor dessas iguarias nos pratos não passa despercebido ao paladar de quem as come. A capuchinha, por exemplo, tem um gosto semelhante ao do agrião, porém um pouco mais picante. A lavanda tem um toque mais picante e é excelente aromatizante, podendo ser usada em pães recheados, tortas doces e bolos. Já as pétalas de rosa caem muito bem nos pratos de sobremesas, como em doces de caldas e geleias, pois têm um sabor leve. Outro fator para levar em consideração, em conjunto com a beleza das flores e o gosto delas, é que essas plantas são ricas em vitaminas A e C e minerais, como o ferro e o potássio. As pétalas das flores comestíveis apresentam geralmente em torno de 80% de água e contém cerca de 40 calorias. Para a proprietária do restaurante, as pessoas podem conhecer outras culturas por meio da gastronomia, e o que é válido “é cozinhar com amor”. O fato é que as horas das refeições são um marco importante durante o dia, dividindo-o em períodos menores e mais práticos, quebrando a rotina e nos oferecendo descontração.


Doce aguardente

de

Minas

O olhar se perde pela quantidade de árvores

que vão dar origem a uma das frutas mais tradicionais do Brasil.

Com o sabor e aroma inconfundíveis, a banana é a matéria prima para a produção da primeira aguardente feita a partir da fermentação da fruta no Brasil, registrada, inclusive, no Ministério da Cultura. Apreciada em todo o país e também no exterior, a bebida é produzida no Sul de Minas Gerais, na cidade de Itajubá, em um sítio com clima agradável e adequado para a fabricação da especiaria mineira. Agora, começa a ganhar o mundo. Antônio Carlos Ferreira foi quem teve a idéia de produzir a aguardente de banana por aqui. Ele explica que após ter morado em países europeus, onde há muito já existem bebidas feitas

a partir de fermentação diretamente de frutas, teve a ideia de iniciar a sua própria produção no Brasil. “Comecei quando achei que já tinha trabalhado o suficiente. Encerrei minha carreira de engenheiro e queria ter uma atividade. Optei por trabalhar com bebida.” Apesar da grande variedade de bananas, a utilizada para a fabricação da aguardente é a banana prata, por ser a que melhor se adapta ao clima da região e também por oferecer um sabor mais apurado ao produto. O empresário conta que as bananas são colhidas ainda verdes e permanecem por três semanas em uma câmara para amadurecer de forma natural. Em água abundante, elas são lavadas e descascadas. Depois, é preparada uma pasta da fruta e, em seguida, acidulantes são adicionados para ajudar a fermentação, uma das etapas mais rigorosas do processo. O teor alcoólico da bebida deve atingir 40%, equivalente ao da vodka ou do uísque. Quem acha que somente o vinho é mais saboroso quando é mais velho, está enganado. Depois de toda sua fabricação, a aguardente ainda fica reservada na destilaria por seis meses, para apurar o sabor antes de ser comercializada. Os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais são, nesta ordem, os maiores consumidores da bebida. Muitos moradores locais, ironicamente, somente passam a conhecer o produto por intermédio de turistas que visitam Itajubá. “No primeiro instante as pessoas acharam estranho uma aguardente feita de banana, então achei por bem não difundir o produto aqui, comercializei primeiro nas capitais. Foi um processo de fora para dentro”, explica. O gosto da bebida mineira já atravessa oceanos. Ela é exportada para França, Itália e Alemanha. “Um amigo veio aqui em casa e disse que no aeroporto de Munique, na Alemanha, a garrafa está sendo vendida a € 250. Estou esperando a foto. Para quem falar que a aguardente está cara, vou mostrar onde está realmente cara”, diverte-se Antônio Carlos. Na culinária, a aguardente de banana dá um toque especial a risotos e suflês, além de servir de acompanhamento a diversos outros pratos e também a drinks de frutas tropicais. A dica é de Derivan Ferreira de Souza, estudioso da coquetelaria e premiado por importantes publicações de gastronomia. “Descobri um produto nacional com a mesma qualidade dos equivalentes importados”, elogia.

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Sociedade sem Fio

CONTATOS

INTERMEDIADOS O contato pessoal na vida contemporânea está cada

vez mais raro. O autor Zygmunt Bauman - “Vida para Consumo” e

“Sociedade Individualizada” - aborda que estamos em uma sociedade conectada e, como consequência, há falta de consciência dos problemas políticos e principalmente sociais. Outro pensador, Paul Virilio, apontou preocupação sobre o assunto em áudio enviado para a Eco 92, onde comentou sobre a “ecologia cinza”, que trata da poluição da relação com o mundo e com os indivíduos. Parte desse afastamento de contatos “reais” na sociedade deve-se ao surgimento e aprimoramento das tecnologias digitais, que se renovam diariamente. As redes sociais deixaram de ser uma opção para se tornarem o endereço de um número crescente de pessoas, como relata Bauman em seus estudos. Uma pesquisa realizada pela Quest Inteligência de Mercado reforça os estudos de Bauman, apontando que quase 100% dos jovens da geração Z (12 a 19 anos) fazem parte de alguma rede social. Hebert Marshall McLuhan, o primeiro estudioso do tema, retrata um mundo interligado por uma grande rede. Ele aponta em “O meio é a mensagem” que os seres humanos seriam dependentes da rede mundial de computadores quando exemplifica sobre as extensões do ser, como “a roda é uma extensão do pé”, “o livro é uma extensão do olho”, “a roupa é uma extensão da pele” e “o circuito elétrico é uma extensão do sistema nervoso central”. Estamos inseridos em uma sociedade de consumidores, e na qual as pessoas são produtores de mercadorias, assim como são as próprias mercadorias, num espaço denominado como mercado. Os indivíduos tornam-se escravos de uma colonização ditada pela sociedade multimídia e da imediatez generalizada. Paradoxalmente, as mídias sociais dão voz ao cidadão, diferentemente de outros veículos, burlando a censura do padrão editorial exigido por outros meios, como a televisão.

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O futuro dos relacionamentos pessoais é discutido com frequência em debates, palestras, livros e notícias com base em diversos estudos sobre o assunto. O contato entre as pessoas tem sido avaliado e observa-se que passar um final de semana rodeado de amigos e ter conversas pessoais com os familiares ou contatos para um possível emprego são realidades que estão mais presentes no mundo virtual do que no mundo real. Zigmunt Bauman, autor do livro “Vida para consumo”, aponta que estamos cada vez mais em uma sociedade conectada, deixando de lado os laços que ligam os seres humanos entre si. O peso maior está entre os jovens pertencentes à geração Z, além das pessoas que compõem os grupos geração Y (20 a 31 anos) e X (32 a 51 anos), que passam inúmeras horas conectados à Internet promovendo e compartilhando conteúdo com seus amigos virtuais.


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Em outro sentido, um levantamento realizado pela Universidade de Toronto constatou que a Internet possibilita que as pessoas mantenham mais contatos: dentro e fora da rede. Na avaliação, os heavy users -pessoas que passam mais tempo conectados- conquistaram 38% a mais de amigos no mundo real, se comparado àquelas que não utilizam a rede, os quais obtiveram um crescimento de 4,6% no número de amigos. Grande parte dos especialistas em relacionamentos ressalta que o contato real entre os indivíduos é essencial para a concretização de um laço de amizade. O psicólogo paulistano e especialista em comportamento humano, Marcelo Novaes, autor do livro Cidade de Atys, concorda com essa afirmativa. “Há pessoas cada vez mais isoladas, mas o ser humano tem a necessidade do contato com o outro, e assim, ele vai buscar o contato em redes sociais”, afirma Novaes.

Uma boa amizade Um estudo com milhares de voluntários de todas as idades e perfis sobre a saúde humana, realizado desde o ano de 1937 pela Universidade de Harvard, aponta que ter amigos é o fator que mais contribui para um bom estado de saúde, desbancando a boa alimentação, genética, rotina e bens materiais. Para o médico psiquiatra e autor do livro Lendas no Cotidiano Humano do Bicho de Sete Cabeças, Aidecivaldo Fernandes de Jesus, , residente em Itajubá-MG, o vínculo é necessário, pois “nada vai estimular mais seu cérebro bioquimicamente do que estar em contato com outra pessoa, no sentido de estimular reações químicas, com 150 mil substâncias”. Revendo Bauman, atualmente as redes sociais deixaram de ser uma opção para se tornarem o endereço de um número crescente de pessoas. Se por um lado a Internet causa o afastamento do ser, por outro, a pessoa que não faz parte do meio online, principalmente das redes sociais, também pode ser considerada, de certa forma, excluída. Como afirma Novaes “é possível considerar solidão quando uma pessoa está diante da tela de um computador, mesmo estando conectada”. De acordo com relatório divulgado pela comScore no último mês de junho, as redes sociais estão presentes no dia a dia de 90% dos internautas brasileiros. Nesse mesmo mês, 43,9 milhões de pessoas acessaram pelo menos uma rede social, gastando um tempo total de 12,5 bilhões de minutos no período, o equivalente, em média, a 4,7 horas por mês por usuário.

Os novos relacionamentos A Internet tem sido vista como instrumento para otimizar o número de contatos. É possível estabelecer que, além dos pessoais e profissionais, o mundo online recria novas redes, do qual um relacionamento gera um novo relacionamento e assim por diante. Nem sempre esta relação é transformada em um vínculo mais próximo. A amizade, por exemplo, é raramente estabelecida a partir do zero, e a Internet potencializa as relações, classificando-as em dois tipos: simétrica e assimétrica. A primeira é recíproca, pois se o indivíduo quer ter um amigo, é necessário que o outro autorize o seu pedido, e assim é possível decidir quem terá acesso às informações do perfil, como ocorre no facebook. Neste caso, há uma redução na probabilidade de conhecer novas pessoas. Já a segunda, a assimétrica, sem

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a mesma reciprocidade devido à opção de “seguir” o outro, a exemplo do twitter, não necessita solicitações ou autorizações. Assim, é menos provável estabelecer uma relação íntima. Em ambos os casos, há um contato, porém, um distanciamento que não permite laços mais próximos. Desta forma, as pessoas têm encontrado um meio de se relacionar e ao mesmo tempo evitar o olho no olho. Novaes acredita que “a distância facilita muita coisa, como segredar questões delicadas tão quanto convencionais”, e ainda afirma que “este cara que vai olhar para mim não vai me olhar nos olhos e nem gerar embaraço com o que ele tem para mostrar do que eu disse”. Empresas, redes sociais e comunicação Necessidade de comunicação com o cliente e divulgação dos produtos. Essas são as principais preocupações das empresas. Atualmente as organizações encontram ferramentas na Internet que auxiliam neste processo, e aí entram as redes sociais. Esta nova mídia passou a ter papel bastante importante na estratégia de muitas empresas, em todo o mundo, considerando o grande número de usuários. De acordo com a pesquisa TG.net -um produto do instituto Ibope Media-, 79% dos usuários ativos no Brasil fazem parte de redes sociais. Ainda de acordo com o instituto de pesquisa, em 2010, o faturamento em vendas online foi de R$14,8 bilhões, representando um terço de todas as transações realizadas entre varejo e consumidores feitas no Brasil. Observa-se assim que as empresas estão cada vez mais inseridas no mundo virtual para ampliar a visibilidade da marca.

Embora algumas empresas ainda tratem as mídias sociais como simples veículos de comunicação, os empresários que usaram as redes para divulgar seus produtos e serviços tiveram um crescimento de 18% nas vendas em um ano, segundo dados de uma pesquisa realizada pelo Altimer Group e Wetpaint. Existem diversos benefícios para as empresas que estão constantemente divulgando na rede. Dentre eles, destaca-se que, diferentemente das ferramentas unidirecionais de comunicação, como TV ou jornal, as redes sociais permitem crescimento, popularização, fortalecimento de marca e estabelecimento no mercado com maior velocidade. Além disso, é possível obter um feedback imediato e espontâneo. A partir disso, é possível obter um relacionamento proativo com o consumidor, ou seja, a comunicação entre empresa e cliente não se fixa unilateralmente. Os consumidores querem adquirir conteúdo, conversar com a marca e acima de tudo se relacionar. Cabe, sobretudo, às empresas utilizarem essas ferramentas de modo profissional para obter resultados positivos, ampliando sua visibilidade e seus lucros.

Nome: Geração X Nascimento: entre 1965 e 1983 Denominação: Esta geração é composta dos filhos dos Baby Boom – crianças nascidas durante uma explosão populacional na Segunda Guerra Mundial. Características: Buscam equilíbrio entre a vida pessoal e profissional; são auto-centradas, empreendedoras e extremamente independentes; altamente pragmáticas e orientadas às ações; possuem liderança por competência e meta de carreira dirigida a novos desafios; grupo mais conservador da força de trabalho; gostam de trabalhar num ambiente de equipe; é a primeira geração que verdadeiramente domina os computadores - Era da Informação.

Nome: Geração Y Nascimento: entre os anos de 1984 a 1990 Denominação: Também conhecida como geração do milênio Características: São tecnologicamente superiores; tendem a ter entendimento global; necessitam de reconhecimento positivo periódico; desejam crescimento rápido na carreira e são imediatistas; tecnicamente muito sofisticado; multitarefeiros; fiéis aos seus projetos; informais, autônomos e individualistas; não abrem mão de gerenciar simultaneamente a vida pessoal e profissional; precisam se sentir “fazendo parte” do time; liderança por coletividade e inclusão.

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Nome: Geração Z Nascimento: entre 1991 e 2009 Denominação: o nome vem da palavra Zapear Características: Formada por indivíduos constantemente conectados por meio de dispositivos portáteis e preocupados com o meio ambiente; são pessoas dinâmicas, inovadoras e intimamente ligadas às novas tecnologias


O ser humano tem a necessidade do contato com o outro, assim, ele vai buscar o contato em redes sociais.

Território Multicultural: Pode-se perceber uma preocupação eminente de muitos autores sobre o tema ‘identidade’, a crise diante do mundo globalizado e a geração da instabilidade no convívio social. Como podemos definir o sujeito pós-moderno? Marcelo Novaes: O sujeito pós-moderno é o que aprendeu a desconstruir narrativas da sociedade tradicional construída anteriormente, seja ela religiosa da família patriarcal. Ele desconstrói e tenta cobrir aquilo que foi feito a partir das sucessivas desconstruções. TMC: Eugênio Bucci afirma que a TV é um sistema onipresente que rege nosso dia a dia. Atualmente, as redes sociais e a Internet também são onipresentes e interferem em nossos gostos, atitudes e preferências, mesmo quando não estamos online? MN: A televisão e a Internet têm pesos enormes. A TV, dependendo do programa, não piora a pessoa, porém o mecanismo da Internet, a velocidade, com certeza vai piorar. Existe um fator acelerador na relação virtual que é diferente de um telespectador. Então, se você estiver hiperansioso, a rede social não vai desacelerar você. O mecanismo é hiperacelerador. TMC: Podemos perceber pelas postagens nas redes sociais que as pessoas mudam de humor constantemente. Estão felizes e, logo em seguida, tristes. O ser humano é bipolar? MN: O ser humano é volúvel, propenso a caprichos. O que é diferente do bipolar. O capricho é uma coisa que a distância lapida. Quando você manda uma carta para alguém e sabe que vai demorar 25 dias para chegar, você mede as palavras, vai tentar ser o mais preciso naquele momento, não vai escrever frivolidades, balelas, que possa se arrepender logo em seguida. O tempo faz você perder a reflexão que a distância estimula.

TMC: Por que fazer confidências pelas redes sociais é mais fácil do que com os pais ou um amigo mais próximo? MN: Na Internet não existe a sujeira do mundo real. Posso fazer a mesma pergunta para muitos ao mesmo tempo, e se eu não gostei, eu excluo. A pessoa que está em frente do computador escolhe a resposta que lhe convém. É como um livro de auto-ajuda. Eu escolho o que mais agrada. Se um livro diz do início ao fim que eu estou fazendo a coisa errada, eu simplesmente paro de ler. Você escolhe o interlocutor que mais te agrada. Uma preguiça de pensar. TMC: O mundo virtual permite aos usuários ser o que desejarem ser e na hora que quiserem ser. Podemos concluir que eles estão preocupados com a autopromoção. As pessoas passam a acreditar naquilo que criam, numa imagem ilusória. Esta realidade afeta a personalidade? MN: Na Internet, é comum pessoas fazerem perguntas que já sabem a resposta, mas precisam reforçar algo que deseja, isso é uma pseudo-pergunta, um blefe. Quem faz uma pergunta é dono da pergunta e não da resposta. Identificar-se com um grupo também facilita. Uma anoréxica, um pedófilo, um gótico, por exemplo, vão achar várias pessoas que pensam como eles. Assim, vai ser mais difícil de identificá-las no mundo real.

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Responsabilidade Social

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O tempo n達o para


Simplicidade e harmonia, rodeada por algumas

árvores grandiosas que fazem sombra. Uma chuva fina de uma tarde

ensolarada de verão cai lentamente e faz amenizar o calor da casa. Crianças começam a dar os primeiros passos ali, no mesmo local onde brincam e convivem como irmãos. Uma verdadeira família. A Sociedade Viva Cazuza, com 21 anos de existência completados no último dia 17 de outubro,abriga hoje, em regime de internato, 25 crianças e adolescentes portadoras do vírus HIV e oferece assistência e orientação a 150 adultos soropositivos. “Se a criança está aqui, é porque a família não pode estar com ela no momento em que mais necessita. Conforme elas vão crescendo, deve-se fazer uma avaliação de reintegração familiar. Adoção também é uma importante realidade na instituição. Trabalhamos essa questão de acordo com a necessidade de cada uma”, enfatizou Pedro Chicri, pedagogo há 15 anos na Sociedade Viva Cazuza. Existem pessoas que fazem toda a diferença quando se fala em saúde infantil, são como anjos que aparecem quando mais se necessita. Os voluntários da instituição não ficam o tempo todo na casa, mas sempre que preciso estão dispostos a ajudar. Eles são, em grande parte, profissionais da área da saúde, como médicos e psicólogos. Uma voluntária em especial chama a atenção por sua simpatia e elegância. Clara Fernandes, tia do cantor Cazuza, é quem se dedica a mais tempo na fundação, desde sua abertura em 1990. Apesar de não gostar do rótulo de voluntária, a senhora de ar sereno e voz suave fala com carinho da Sociedade Viva Cazuza. “Eu faço isso por amor ao meu sobrinho e à minha irmã. Sou uma voluntária diferente”, enfatiza Clara, entre um sorriso e outro. A Instituição também conta com 30 funcionários, que não são somente trabalhadores que se dedicam todo o mês em busca de um salário. Eles estão ali porque gostam, e ainda afirmam que superam

Eu faço isso por amor ao meu sobrinho e à minha irmã Clara Fernandes

preconceitos de parentes e vizinhos, entre outras pessoas. Eles poderiam ser considerados como pais e mães que as crianças não convivem nesse momento. São voluntários no sentido de se doarem, e observam que “na instituição é impossível trabalhar somente em troca de um salário, e a pessoa que vem com esse objetivo não permanece aqui”. São os funcionários os responsáveis por colocarem lençóis limpos nas camas, com zelo e carinho, “sem deixar uma dobra se quer”, como garantem, além de almofadas em formatos de bichos e ursos de pelúcia para deixar os quartos dos abrigados ainda mais agradáveis e aconchegantes. Os dormitórios são divididos para meninos, meninas e bebês. Mas em todos existe uma coisa em comum: um pôster do ídolo e da referência da vontade de viver, Cazuza. “Ele está em todo o espaço, a gente tenta jogar a esperança de todos aqui para cima, olhar sempre o que é positivo e nunca desanimar”, ressalta Chicri.

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O LEGADO DE

CAZUZA Em um espaço especial da casa é possível sentir

o cantor, compositor e artista com bastante intensidade. Bandanas usadas em shows, tênis, diversos discos e livros que contam sua história de vida e musicalidade permanecem expostos. Esse lugar é chamado Projeto Cazuza. Os visitantes olham os objetos inúmeras vezes, nem se importam com o calor excessivo do local, pois é como se fosse possível chegar mais próximo do ídolo por meio de seus pertences. A mãe do cantor, Lucinha Araújo, ou tia Lucinha, como é conhecida pelas crianças, está presente todos os dias na Instituição. Ela respira Sociedade Viva Cazuza, que é como um combustível responsável por mantê-la com o foco em sua proposição, que lhe dá energia para sempre continuar em frente e nunca desistir. Ela fica ausente somente quando participa de algum evento em nome da ONG. “A Sociedade Viva Cazuza representa 50% da minha vida. Sabe aquela pessoa que diariamente se alimenta? É mais ou menos assim, só que é um alimento diferente, sentimental”, responde Lucinha, quando questionada sobre como define a instituição. Mesmo distante do cotidiano terreno, Cazuza contribui sempre com a instituição, pois ela depende dos direitos autorais do cantor, das doações de alimentos e produtos higiênicos, de eventos beneficentes e projetos de captação de recursos. Essas doações sempre vêm acompanhadas de pessoas que enxergam a importância da ajuda ao próximo. “Onde Cazuza estiver, estou certa de que ele está aplaudindo nosso trabalho”, enfatiza a mãe do cantor. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), embora a incidência do HIV tenha diminuído globalmente em cerca de 12% entre os jovens na última década, estima-se que 2.500 são infectados a cada dia. “Confiamos que em um futuro próximo a cura estará aí. Enquanto isso é fundamental a prevenção e o tratamento”, finaliza Dona Lucinha.

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Sob teto de bambu O sonho de estudar e a vontade de aprender

independem do local em que se estuda. A escola pode até mesmo ser feita de bambu. E é lá na Escola de Bambu que a vontade de aprender e mudar realidades vai além de qualquer dificuldade. O ponto de partida dessa história foi um documentário do jornalista Vinícius Zanotti, que retrata uma escola em Monróvia, capital da Libéria, construída apenas com bambu e a proposta de um futuro melhor para crianças locais. Em 2010, Vinícius viajou para a Libéria com o objetivo de ministrar um curso de videodocumentário para jovens com deficiência física. Ao final, quando estava prestes a voltar para o Brasil, descobriu que estava com Malária. e isso fez com que o jornalista ficasse por mais algum tempo no país. Foi por isso que ele conheceu Sabato Neufville. Liberiano, solteiro, 34 anos, trabalha para a ONU em projetos sociais no seu país e ganha cerca de 800 dólares por mês para realizar a sua missão e viver. Além de cuidar de nove filhos adotivos, Sabato construiu uma humilde escola de bambu na comunidade de Fendell, onde estudam 250 crianças. Comovido com a trajetória do educador, Vinícius Zanotti decidiu gravar um documentário que serviria de base para um projeto de construção de uma escola de alvenaria, no entanto, manteve a estrutura de bambu, e, desta vez, com desenhos feitos por engenheiros e arquitetos mobilizados pelo jornalista. Orçada em 330 mil reais, a obra obtem dinheiro a partir da venda de materiais como canetas, camisetas e DVDs referentes ao projeto Escola de Bambu. A principal contribuição, no entatanto, chega por meio de empresas e doações voluntárias. “A expectativa é conseguir o apoio de pessoas que chamamos de ‘bambuzeiros’. Pretendemos ter gente por todo o Brasil para divulgar o trabalho.” Na Região Sul de Minas Pouso Alegre sediou a primeira exibição do documentário em toda Minas Gerais, ocorrida em outubro deste ano no Teatro Municipal. Além de exibições pelo país, Vinícius conta que “a Internet e as redes sociais,

A foto ao alto é de Vinícius Zanotti, e na série ao lado, Sabato Neufville; no meio, a imagem retirada do documentário mostra a situação da escola durante a produção do vídeo; abaixo, o projeto arquitetônico da Escola de Bambu

principalmente o facebook, são fundamentais para a divulgação, e até mesmo para a captação de dinheiro, porque a gente vende muito pela Internet”. A proposta de realizar o documentário e ainda ampliar a produção à uma efetiva ação social ocorreu a partir de dois documentários anteriores, “O Vendedor de Balas” e “Eles não Vão à Daslu”. O jornalista explica que ao voltar ao local das gravações, encontrou a mesma realidade. Ninguém, por exemplo, havia ajudado o protagonista que vendia balas no sinal, e tampouco os catadores de lixo que não frequentam butiques de luxo. “Acho que quando eu apontei a câmera para os personagens, eles tinham nela a esperança de alguma mudança, o que não aconteceu, portanto, quando eu fiz esse documentário [Escola de Bambu], eu pensei: tem que ser muito mais que um documentário.” Essa intensão pode ser observada como bem sucedida ao verificar que página Escola de Bambu no facebook tem atualmente por volta de 3.500 amigos. Pode-se dizer que, talvez, sejam pessoas que entendam a importância de se levar conhecimento a crianças que vivem abaixo da linha de pobreza. Conhecimento, aliás, segundo Vinícius, é o principal motor das escolas. “Todas essas crianças querem ter profissões, um quer ser professor, o outro, médico, um pastor e um presidente. Se analisarmos, são todas profissões que você lida para cuidar do outro. Podemos perceber a necessidade que eles têm de aprender para ajudar uns aos outros a crescerem”, analisa o documentarista.

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Retalhos

Linhas

Meu Pé de Laranja Lima - Cida Moreira Técnicas: aplicação rústica à máquina, aplicação dimensionada

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da

Arte

O Cortiço - Jane Bertolaccini Técnica: aplicação rústica à máquina


“Chegam aqui cansadas dos compromissos do dia a dia.”

É assim que a professora de Patchwork Jane Bertolacini explica como recebe suas 34 alunas. Elas possuem uma agitada rotina de vida, mas disponibilizam três horas a cada semana para aprenderem as técnicas do trabalho com retalhos. A arte consiste no corte de tecidos em formas geométricas harmonizadas em cores e tons. É um trabalho minucioso, que demanda tempo e tipicamente feminino, proveniente da época da colonização norte-americana, quando as mulheres, que já eram costureiras na Inglaterra, passaram a utilizar retalhos de roupas velhas para costurar colchas ou remendar outras peças de roupa. Mesmo após sua inserção no universo corporativo, com jornadas duplas e até triplas de trabalho, muitas mulheres continuam produzindo Patchwork. E no caso do Sul de Minas, com o intuito de gerar interação, conhecimento e preservação da tradição desta arte, Jane criou o Clube de Retalho em Pouso Alegre. O principal desafio da professora é dar um toque especial ao trabalho ao agregar temáticas da cultura brasileira na criação das peças. O trabalho tem ainda, entre os focos, a sustentabilidade e inovação. Em 2011, sob as orientações de Jane, as alunas trabalharam o tema Literatura Brasileira, produziram peças únicas que retrataram livros de diversos autores, como Meu Pé de Laranja Lima (José Mauro de Vasconcelos), Canção do Exílio (Gonçalves Dias), Vidas Secas (Graciliano Ramos) e O Guarani (José de Alencar). Ao todo foram feitas 16 releituras em Patchwork. Inocência: Jane Bertolaccini “A ideia de trazer Técnicas: aplicação rústica à máquina, temas brasileiros aplicação dimensionada, aquarela é fazer com que as alunas saiam um pouquinho do livro americano, utilizem as técnicas, mas retratem a nossa cultura”, enfatiza. Por utilizar cada retalho do tecido sem desperdícios, o Patchwork se fixa como uma atividade sustentável. A sustentabilidade, aliás, tem sido um dos grandes desafios das indústrias têxteis e dos estilistas, e técnicas como o trabalho com retalhos tornam-se importantes fontes de reaproveitamento. O estilista, Geová Rodrigues, é considerado o precursor da moda sustentável. Iniciou suas produções com retalhos que recolhia de grifes famosas em Nova York. Em entrevista para um site de notícias explicou porque começou o trabalho. “Pura necessidade econômica, e não acredito em juntar ou ganhar dinheiro para fazer uma coleção, viagem, festa ou até mesmo um jantar. Economizei e economizo muito com os garimpos e na reciclagem. E com isso, ainda faço um trabalho politicamente correto.” A “moda verde”, também conhecida como Eco Fashion, tem o objetivo de respeitar a natureza e diminuir os impactos ambientais. Tem sido bastante valorizada e está presente tanto em roupas como em artigos de decoração e sapatos. O processo de fabricação é diferente do convencional devido às etapas que os materiais devem passar antes de se tornarem peças de consumo. Assim, os preços dos produtos se diferenciaram dos demais, no entanto, a “moda verde” está cada vez mais acessível, permitindo o acesso a um número maior de consumidores, que ao adquirir uma peça levam também o valor agregado da sustentabilidade. Diversas técnicas, além do Patchwork, são trabalhadas com Vidas Secas - Lissandra Brito reutilização de materiais, e além de contribuírem com o meio ambiente, Técnicas: foundation, chenile, proporcionam, assim como o Clube de Retalhos, momentos de interação aplicação rústica à máquina e conhecimento, mas, acima de tudo, torna-se uma terapia em meio à agitada rotina dos tempos atuais.

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Adrenalina

O céu não é o limite

“Essa mochila deve ser pesada”, observei. “Pesa uns

20 quilos, mas você carrega uma aeronave dentro dela, né brother?”, respondeu um dos pilotos. A reportagem da Território Multicultural foi atrás das manifestações dos voos livres de parapente na região. Acompanhamos nas cidades de Santa Rita do Sapucaí e Córrego do Bom Jesus o dia-a-dia e os relatos de quem prova diariamente que para o ser humano nem o céu é o limite. O dia começou cedo, às 8h da manhã desembarcamos na rodoviária de Santa Rita do Sapucaí, conhecida como o Vale da Eletrônica, e usamos o transporte público local para chegar à sede do Clube Sul Mineiro de Voo Livre, localizada em um pesqueiro que mistura a tranquilidade da natureza com a adrenalina dos pousos de paraglider. Chegamos, esperamos, e por volta das 10h os pilotos começaram a chegar. Logo um senhor se destacou pela personalidade despojada, visivelmente juvenil. Atualmente, com 62 anos, o microempresário

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Paulo Sales começou a voar com 50. Depois de mais de uma década se dedicando ao esporte, recentemente decidiu parar de voar. Coincidência ou não, identificamos que exatamente no dia em que preparávamos as entrevistas para esta reportagem, Paulão, como é conhecido entre os pilotos, levou seus equipamentos para vender. Ele relata sua experiência e seu afeto ao esporte. “O voo parece um vírus, penetra e espalha pelo corpo, você só quer saber de voo, todo dia só pensa em voar. Faz um mês que estou sem voar, mas ainda sonho com o voo.” Voar de parapente é possível graças a um fenômeno chamado térmica. As térmicas são vapores de ar quente que sobem do chão devido ao aquecimento solar da superfície. Este ar é puxado para cima pelas massas frias, e geram um ciclo. O piloto, assim como os urubus, sobem a partir das forças das térmicas, que podem levantar o parapente com velocidade de até 10 metros por segundo.


Explicações técnicas à parte, vários praticantes do parapente relatam que o prazer de voar é semelhante ao do sexo. No entanto, alguns encaram o esporte como uma maneira de superação pessoal. Esse é o caso de Cassiomar de Barros, piloto e instrutor de parapente. Ele avalia que o voo é um esporte que permite conciliar a teoria e a prática, pois cada voo é diferente do outro e por isso o esporte é “o melhor meio de conseguir provar para mim mesmo que o que eu estou pensando está certo”. Além do esporte no Vale da Eletrônica, outro lugar na região frequentado pelos esportistas e praticantes de voo livre é Córrego do Bom Jesus. Localizada a 45 km de Pouso Alegre, a cidade já recebeu a visita dos irmãos Raul e Félix Rodrigues, pilotos conhecidos mundialmente como os grandes nomes da acrobacia no esporte. “Tivemos a oportunidade de hospedar na época uma equipe que estava no Brasil Acro [competição brasileira de acrobacia de paraglider]. Os irmãos Rodrigues ficaram uma semana voando de parapente aqui na cidade. Eles vieram para voar em Santa Rita, a van quebrou, daí decidiram conhecer a região e acabaram ficando lá em casa.” Quem conta a história é o instrutor de parapente, Anderson de Almeida. Em 2001, Almeida aprendeu a voar em Santa Rita do Sapucaí e, juntamente com seu instrutor, Mauro Laraia, decidiu realizar voos e incentivar o crescimento do esporte em Córrego do Bom Jesus. Atualmente, a cidade possui o Clube Asas de Minas e Anderson comemora: “aqui é a soma de muita gente interessada em fazer o esporte acontecer”.

O município é conhecido no circuito nacional e mundial de parapente, pois além da visita dos irmãos Rodrigues, o piloto Samuel Nascimento, campeão brasileiro de parapente 2010, é natural da cidade e aprendeu a voar nas serras de Córrego. O piloto explica que a região tem condições de voo que são difíceis para quem está começando, no entanto, o Preá – como é conhecido o piloto iniciante – já se forma com uma boa experiência. “A região é boa pra treinar, pois é turbulenta, tem muita montanha e os ventos canalizados pelos vales te atingem por todos os lados. Por isso, nossa região exige muito do piloto, quem aprende a voar aqui, acaba voando legal”, conta. Córrego do Bom Jesus realiza anualmente a etapa sul mineira do campeonato mineiro de paraglider, chamado de Fest Fly. Samuel Nascimento, explica que as competições de parapente se parecem com corridas. Chamadas de Cross Country, nelas o piloto precisa completar um circuito e pousar corretamente no alvo. Quem conseguir realizar a tarefa mais rápido e com mais precisão, ganha mais pontos e se consagra vencedor. Além da competição Cross Country, existe também a modalidade Acro, voltada apenas para a competição a partir de acrobacias de parapente.

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Paralelo

Sons da infância Ela quer ser modelo, ele quer ser piloto de avião. Os

irmãos Nathalie Mira Bragança e Nathan Bragança são crianças de sete e quatro anos, respectivamente, e já sonham com o futuro. Embora sejam ainda muito jovens, possuem uma rotina equilibrada entre a infância e os compromissos com a música. Inspirados nos pais, Camila Mira Bragança e Milton Morais Bragança, donos e professores de uma escola de música em Pouso Alegre, os irmãos se interessaram desde cedo pelos instrumentos musicais. Nathan, aos dois anos, demonstrou atenção pela bateria e surpreendeu a todos. Em pouco tempo, tocava músicas inteiras acompanhado pelo pai na guitarra. “Ele ficava olhando e de repente quis tocar. Tudo que ele pega ele imagina ser uma baqueta”, revela Camila. Hoje, aos quatro anos, de acordo com mãe, cada dia mais, aprende a essência do instrumento. “Ele nasceu com um dom e já não quer a mesma cobrança, do tipo, vai lá e toca pra gente ver. Ele quer ter horários para brincar e horários para tocar”, conta.

“Fico nervosa” Nathalie possui uma personalidade que já indica semelhança com a de músicos consagrados que exigem perfeição. Há um ano e meio, ela toca teclado e há pouco mais de seis meses começou a se interessar pelo violino. “Fico nervosa porque não pode errar, não gosto de errar”, confessa Nathalie. A atração pela música, hoje mais concreta, trouxe benefícios em outros sentidos: “as notas da escola melhoraram muito”, orgulha-se Camila. A vida dela, aliás, é dividida entre duas escolas, a do ensino fundamental e a de música. “Ficamos aqui 12 horas por dia. Então, é natural que a brincadeira deles sempre tenha sido com os instrumentos”, explica a mãe. Quanto ao futuro, enquanto eles não possuem idade para definir, a mãe vislumbra um caminho para os dois filhos: “Como mãe, fico maravilhada e orgulhosa deles, e torço para que eles continuem na música”.

Queijo com Goiabada Quatro jovens sul mineiros e uma paixão: o chorinho. Queijo com Goiabada é um grupo que surgiu da afinidade e vivência de Bruno Vinci somado aos talentos de André de Louis, Ângelo Camargo e, posteriormente, da vocalista Fernanda Brito. A ideia foi resgatar a tradição do choro e divulgar o estilo com execuções de músicas próprias e de compositores consagrados, como Pixinguinha e Jacob do Bandolim, buscando inovações ao estilo e permitindo maior contemporaneidade. As apresentações geralmente são realizadas em eventos culturais, restaurantes, cafeterias e festivais, sendo uma das preocupações a busca por lugares populares para ampliar o acesso da população ao gênero musical. O grupo observa que, atualmente, o chorinho não é mais muito popular. “Não é qualquer pessoa que tem o hábito de escutar o choro”, comenta Fernanda. O principal desafio do grupo é unir experiência, criatividade e paixão ao chorinho, além de apresentar uma nova roupagem ao som que ficou marcado por décadas no passado. Os músicos notam, em suas apresentações por diversas cidades, que o público se identifica com o som e respondem de maneira positiva. “Tocamos em um festival de inverno em Três Corações e antes de entrarmos no palco um grupo de sertanejo universitário se apresentou e comentei: estamos com um Grupo de Choro, instrumental, vamos entrar depois? E obtivemos uma repercussão positiva”, exclama Ângelo. Focados na capital paulista pela diversidade de oportunidades e pela busca do crescimento profissional, o grupo procura por novos horizontes, sonham com o dia em que o esquecido chorinho voltará a ser tocado nas rádios das cidades.

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Tradições argentinas Cantor e professor de Espanhol. Lucas Cozzani [foto

direita] possui duas carreiras que se encontram em um ponto em comum: o tango. Aos 10 anos descobriu a paixão pela música, em uma tarde de domingo que o jovem pegou alguns discos e teve acesso, pela primeira, vez ao tango. Cozzani se refere ao estilo musical como se este fizesse parte de sua alma. “Quando ouvi o primeiro tango, “Por Una Cabeza”, alguma coisa mágica aconteceu, pois desde esse dia nunca mais passei um dia na vida sem ouvir tango. Foi assim, instantaneamente.” O músico costuma se apresentar no teatro da Urca em Poços de Caldas, cidade em que reside. Em São Paulo, já subiu ao palco de quase todas as casas de Tango, com o grupo Che Bandoneon Tango Show. “Na Argentina já me apresentei em Mar del Plata com a Orquestra Municipal de Tango, dirigida pelo maestro Júlio Dávila.” Atualmente, se apresenta com o renomado maestro João Carlos Martins [foto esquerda] e a Orquestra Bachiana Filarmônica, já tendo atuado no Teatro Bradesco Bourbon SP, Fasano, HSBC Hall e, no último dia 4 de dezembro, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Enquanto cantor, o maior sonho de Cozzani é ter a oportunidade de estruturar uma carreira que mostre à geração de hoje a importância de cultivar a música latina e suas tradições como um bem cultural, respeitando as origens e as formas, sem descaracterizá-la. “O tango tem que se reencontrar olhando para sua história, recolhendo seus principais elementos, para assim construir o seu futuro.”

Volantes e teclados, e vice-versa A deficiência em um dos ouvidos de José Antônio do Prado não

afeta sua paixão pela música. Aos 60 anos, motorista e operador de máquinas pesadas, conhecido pelos colegas como “Bispo”, ele dedica duas horas semanalmente ao teclado, instrumento que conheceu após anos de experiência com a sanfona. José Antônio afirma possuir uma ligação muito forte com a música. Sobre uma apresentação no teatro Municipal de Pouso Alegre, por exemplo, ele conta que “estava explodindo de tanta emoção. Achava que não ia conseguir terminar a apresentação”. Hoje, ele encontra motivação na igreja em que frequenta e toca em uma banda religiosa, onde pode propagar o que aprende. “Música já é bom e tocar como oração é melhor ainda.” Suas ferramentas de trabalho são máquinas e caminhões, que conseguiu comprar após anos de muita dedicação, mesmo que usados. Paradoxalmente, de um lado ele lida com equipamentos ruidosos, brutos, pesados, cuja operação exige força muscular, e de outro, com a suavidade e leveza dos instrumentos musicais. “Pode ser o pior problema, mas quando você pega na música você desliga de tudo.” O jeito humilde e o sonho de aprimorar-se a cada dia permitem a José Antônio novas descobertas, novos aprendizados e um motivo a mais para seguir feliz a vida. “A música representa para mim uma atividade muito emocionante e ela toca no coração da gente. A pessoa que toca música tem o coração bom.”

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Película


Olho de Lince

Os músicos da praça Evandro Carvalho

Os músicos tocavam na praça. Eram uns vinte músicos agrupados num semi-círculo e um maestro. Algumas pessoas acompanhavam aquela apresentação naquela manhã de domingo. Havia um homem com uma criança no colo. Quatro moças estavam num banco da praça e olharam curiosas e sorridentes para um homem que tirou uma foto. Do lado deste havia um louco que dançava uma dança que só ele conhecia; ele estava feliz. Não houve surpresas, não houve improvações e tudo seguiu o roteiro de todos os domingos. As mesmas músicas, os mesmos aplausos. A não ser pelo homem que tirou a foto dos músicos e depois resolveu escrever sobre os músicos e registrar aquele momento único. Não se sabe depois o que aconteceu com aqueles músicos, eram muitos músicos, com aquelas pessoas que acompanhavam a apresentação. No silêncio do cotidiano e anonimato seguiram seus caminhos para o resto daquele domingo, cada um com sua singularidade ornamentada com a memória daquela manhã de domingo. E o fotógrafo se sentiu intruso, invasivo. Tirou foto, depois escreveu. Revelou sem pedir licença o espetáculo indescritível que passa despercebido, o espetáculo da manhã de domingo. Não mais sabendo o que fazer, o louco foi embora; não mais sabendo o que fazer, o invasor decidiu na história botar um fim.

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Jornalista graduado pela Universidade do Vale do Sapucaí (Univás), é colaborador do Observatório da Imprensa e editor dos blogs Olho de Lince e Veracidade.


Revista Território Multicultural  

Edição digital da revista Território Multicultural, lançada em dezembro de 2011 com matérias produzidas sobre os mais diversos temas, a part...