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ISSN 1808-8880

teologia para vida

Volume III - Janeiro - Junho 2013


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TEOLOGIA

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VIDA – VOLUME II –

NÚMERO

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volume III – Janeiro-Junho 2013

TEOLOGIA PARA VIDA

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J2unta Portela T e oMedeiros l o g i a p(Presidente), a r a V i d a Pb. – VFrancisco o l u m e Solano III – n ú m e rNeto o 1 | de Educação Teológica: Pb. Eli dos Santos (Vice-presidente), Revs. Jaime Marcelino de Jesus, Osvaldo Henrique Hack, Wilson do Amaral Filho, Pbs. Damocles Perroni Carvalho, Eudóxio Mendes Jr. Junta Regional de Educação Teológica: Rev. Daniel Fogaça (Presidente), Pb. Ronaldo Brisola (Vicepresidente), Rev. Paulo Bonelli (Secretário), Rev. Nelson Duilio Bordini Marino e Pb. José André. Diretoria da Fundação Educacional Rev. José Manoel da Conceição: Pb. Dante Venturini de Barros (Presidente), Rev. Roberto Brasileiro Silva (Vice-presidente), Rev. Fernando de Almeida (Secretário), Pb. Valdnei Alves de Oliveira (Tesoureiro). Congregação do Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição: Rev. Ageu Cirilo de Magalhães Junior (Diretor), Rev. Onezio Figueiredo (Capelão), Rev. Leandro Antonio de Lima, Rev. George Alberto Canêlhas, Rev. Alderi Souza de Matos, Rev. Dario de Araújo Cardoso, Rev. Cláudio Antônio Batista Marra, Maestro Parcival Módolo, Rev. Gildásio Jesus Barbosa dos Reis e Rev. Marcone Bezerra Carvalho. Conselho Editorial: Rev. Ageu Cirilo de Magalhães Junior, Rev. Leandro Antonio de Lima, Rev. George Alberto Canêlhas, Rev. Alderi Souza de Matos, Rev. Dario de Araújo Cardoso, Rev. Cláudio Antônio Batista Marra, Maestro Parcival Módolo. Editor: Rev. Cláudio Antônio Batista Marra Revisão: Sebastiana Gomes de Paula Capa e Projeto Gráfico: Ideia Dois Design Gravura da capa: Entretien de Robert Olivétan avec le jeune Calvin [Robert Olivetan em conversa com o jovem Calvino] de H. Van Muyden. As outras gravuras da obra são do mesmo artista.

Teologia Para Vida / Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição. — São Paulo: Vol. 3, n. 1 (jan./fev.) — Seminário JMC, 2013 — Semestral issn 1808-8880 1. Teologia Reformada. 2. Igreja Presbiteriana do Brasil – História. 3. Interpretação bíblica. I. Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição. cdd 21 ed. – 230.0462 285.181

Endereço para correspondência Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição Rua Pascal, 1165, Campo Belo, São Paulo, SP, cep 04616-004 Telefone: 5543-3534 – Fax: 5542-5676 Site: www.seminariojmc.br E-mail: seminariojmc@seminariojmc.br Os artigos da revista são escritos pelos membros do Conselho Editorial, professores e alunos do Seminário. Exprofessores e ex-alunos poderão escrever, quando convidados pelo Conselho. A revista Teologia para Vida é uma publicação semestral do Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição. Permite-se a reprodução desde que citados fonte e autor.


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Sumário

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i t o r i a l

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r t i g o s

Salmo 130 – Um testemunho de esperança em Yahweh (Parte II) Rev. Dario de Araújo Cardoso . .......................................................................... 09 Anotações sobre a hermenêutica de Calvino (Parte II) Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa . .......................................................... 25 Rev. Boanerges Ribeiro (1919-2003) Rev. Alderi Souza de Matos ............................................................................... 55 Relatório pastoral do Rev. F. J. C. Schneider (Edição Diplomática) Rev. Wilson Santana Silva ................................................................................. 69 As fontes do saltério calvinista Maestro Parcival Módolo . .................................................................................85 Visitação nos lares Rev. Gildásio Jesus Barbosa dos Reis . ......................................................... 107 Re

s e n h a

O que você esperava? Valdeci da Silva Santos ................................................................................... 131 A

r t i g o s

e

s e r m õ e s

d o s

a l u n o s

Procurando escapar com esperança no que é falso – Amós 5.18-27 Alexandre Ribeiro Lessa .................................................................................. 141


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Editorial

Comprometida com a abordagem, discussão e defesa bíblica de uma teologia voltada para a realidade, a Revista Teologia para Vida apresenta esta edição com gratidão a Deus que até aqui nos ajudou. Com a segunda parte do tema Salmo 130 – Um testemunho de esperança em YAHWEH, O Rev. Dario de Araújo Cardoso apresenta os aspectos exegéticos e teológicos desse salmo e encerra relacionando-o com os salmos que estão à sua volta no grupo dos cânticos dos degraus. O Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa continua suas Anotações sobre a Hermenêutica de Calvino – Compreensão a serviço dapiedade e do ensino, discorrendo sobre a origem, autoridade interna e suficiência da Escritura, refutando sua alegada “insuficiência”, comparando-a à tradição e expondo sua origemhumana e divina, bem como a igreja e a vida sob ela, encerrando com o que Calvino chamou de “balbuciar de Deus” e o testemunho do Espírito. Com o propósito de oferecer uma síntese da vida e contribuições do Rev. Boanerges Ribeiro (1919-2003), o Rev. Alderi Souza de Matos aborda sua formação, seu trabalho como pastor e líder eclesiástico e suas contribuições como intelectual, educador e historiador, destacando alguns pontos salientes de sua biografia. O Rev. Wilson Santana Silva nos brinda com o Relatório de F. J. C. Schneider, abrangendo todo o tempo desde sua chegada ao Brasil até 1867. Segundo nos instrui esse trabalho, “o Rev. F. J. C. Schneider (1832-1910) chegou ao nosso país em 07.12.1861, atendendo uma solicitação dos pastores

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americanos já estabelecidos aqui desde 1859, para atuar e iniciar trabalho entre os imigrantes alemães. Participou da organização da 1ª Igreja Presbiterianano Brasil em 12.01.1862. Realizou desafiantes viagens evangelísticas pela região da Província de São Paulo, logo dando evidências de desprendimento e amor ao evangelho. Foi um trabalhador incansável na seara do mestre, estendendo seus serviços até o Nordeste, principalmente na região baiana. É possível encontrá-lo em profundas atividades em Salvador entre 1871-1877. Sua participação na fundação e solidificação do presbiterianismo brasileiro gerou uma das páginas mais belas e desafiadoras da História da Reforma Evangélica no Brasil.” As Fontes do Saltério Calvinista, trabalho do Maestro Parcival Módulo que dá continuidade à edição anterior, sustenta que “o uso de música litúrgica nas igrejas filhas da Reforma é um capítulo à parte na história da igreja”. Módulo lembra que os reformadores valorizaram a música sacra como meio de adoração a Deuse doutrinação dos fiéis e nesta edição destaca a obra de João Calvino e a introdução do cântico de salmos durante o culto, bem como as fontes de Calvino que se valeu. Com o provocador subtítulo Revitalizando uma arte esquecida, o Rev. Gildásio Jesus Barbosa dos Reis aborda o nunca envelhecido tema Visitação nos Lares. Para Reis, embora esquecida ou negligenciada, a visitação aos membros da igreja é umaprática do ministério essencial para a saúde da igreja do Senhor. O Rev. Gildásio Reis oferece então, à luz da Escritura Sagrada, orientações que poderão ajudar a resgatar esse importante aspecto do cuidado pastoral. Falsas expectativas poderão arruinar um casamento e o perito em aconselhamento, Dr. Paul Tripp discute o problema em livro (O que você esperava? Procurando escapar com esperança no que é falso) que o Rev. Valdeci da Silva Santos resenha de modo claro e estimulante. A edição encerra com um sermão preparado pelo então seminarista Alexandre Ribeiro Lessa e pregado no JMC. Boa reflexão. Rev. Cláudio Antônio Batista Marra Editor da Revista Teologia para Vida


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A rtigos


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Departamento de Teologia bíblica e exegética

Salmo 130 – Um testemunho de esperança em yahweh P a r t e II

Rev. Dario de Araújo Cardoso Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição. Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mestre em Teologia e Exegese do Antigo Testamento pelo Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper. Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Professor do Departamento de Teologia Exegética do STPJMC. Professor da Escola Superior de Teologia – UPM. Pastor da Igreja Presbiteriana da Casa Verde.

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Salmo 130 – Um testemunho de esperança em yahweh P a r t e II

Resumo Depois de reconhecer a miséria de sua condição pecaminosa, o salmista descreve sua confiança de que seu clamor está sendo ouvido e que o Senhor lhe traria o perdão que almeja. Assim registra sua esperança pela palavra do Senhor e exorta Israel a demonstrar a mesma confiança na misericórdia e na redenção do Senhor. Além de demonstrar os aspectos exegéticos e teológicos dessa mensagem, o presente artigo encerra relacionando o salmo 130 com os salmos que estão à sua volta no grupo dos cânticos dos degraus. Palavras-chave Crítica textual; teologia bíblica; confiança; esperança; redenção. Abstract After recognizing the misery of his sinful condition the psalmist describes his confidence that his outcry is being heard and that the Lord would bring him the desired forgiveness. So he records his hope for the word of the Lord e exhorts Israel to demonstrate the same confidence in the mercy and redemption from the Lord. Besides displaying the exegetical and theological aspects of the psalm message, this article ends relating psalm 130 to preceding and following songs of ascents. Keywords Textual criticism; biblical theology; confidence; hope; redemption.

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Cântico dos degraus Das profundezas clamo a ti, Yahweh Meu senhor escuta a minha voz [Sejam] Atentos os teus ouvidos às minhas súplicas Se iniquidades observares Yah[weh] Meu senhor, quem permanecerá? Pois contigo [é] o perdão a fim de que temam Aguardo Yahweh, minha alma aguarda Eu espero pela sua palavra A minha alma pelo meu senhor mais do que os guardas pela manhã, do que os guardas pela manhã Espera, Israel, por Yahweh pois com Yahweh [é] a misericórdia e com ele a muita redenção E ele redime a Israel de todas as suas iniquidades

No artigo anterior, iniciamos o estudo do salmo 130 mostrando como a exegese pode servir de importante recurso na compreensão e na aplicação da mensagem bíblica. Além de ser um dos hamma‘aloth, cânticos dos degraus, o salmo 130 deve ser classificado como um salmo de lamento pelos próprios pecados. É um salmo penitencial, uma confissão de pessoas, uma súplica pelo perdão do Senhor. Tematicamente, o salmo é dividido em quatro pares de dois versículos 1-2, 3-4, 5-6, 7-8. Os dois primeiros grupos, estudados no artigo anterior, descrevem a situação do salmista, seu clamor e seus motivos para buscar a Deus. Eles são dirigidos a Deus. Os dois grupos finais se dirigem a Israel e expressam a confiança e as razões do louvor que tomam o coração do salmista.

2.3 A declaração de confiança (vs. 5-6) Com base no que declarou nos versos 1-4, o salmista está preparado para anunciar sua esperança e confiança em Yahweh. Temos aqui, mais especificamente no verso 6, o centro do salmo. Devemos notar que há uma

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mudança na interlocução. Os versos 1-4 dirigem-se ao Senhor que é referido sempre na segunda pessoa do singular. Daqui em diante, as referências ao Senhor estão na terceira pessoa e o salmista fala a outro interlocutor, o povo de Israel, como pode se deduzir da exortação feita no verso 7. É característica dos salmos de lamento a expressão da certeza de ser ouvido e atendido por Deus, algo como um testemunho antecipado acerca da resposta ao clamor apresentado. Brueggmann descreve assim esse movimento: Quando o salmo faz seu próximo movimento, este é surpreendente. As coisas estão diferentes. Alguma coisa mudou. Nem sempre podemos saber se a circunstância mudou, ou a atitude ou algo de ambas. Mas o orador fala de modo diferente. Agora o senso de urgência e desespero é substituído por alegria, gratidão e bem-estar ... Esse movimento do pedido para o louvor é um dos mais impressionantes em toda a literatura do Antigo Testamento.1

Devemos, entretanto observar, que o salmo 130 faz esse movimento de uma forma muito particular. Em vez de anunciar a resposta de Deus, ele descreve sua atitude de ansiosamente esperar por esta resposta.2 2.3.1 O salmista declara sua esperança. O verso 5 usa a mesma forma verbal do verso 1. Isso indica que o clamor é simultâneo ao aguardo. Ao mesmo tempo em que expressa a sua angústia, o salmista mantém firme a sua esperança. Embora haja dor, não há desespero. Perowne registra o seguinte comentário de Lutero: O salmista primeiro ora para ser ouvido (v. 2), então, obtendo misericórdia, ele percebe que está sendo ouvido. Agora, portanto, ele adiciona uma exortação segundo a qual ele se movimenta constantemente a perseverar em seu conhecimento da graça. Como se ele dissesse: Eu sei que há misericórdia com o Senhor. Esse artigo principal eu, agora, em parte aprendi. Agora o que me resta fazer é esperar no Senhor, isto é, confiar no Senhor, que eu continue nesse conhecimento e sustente esta esperança de misericórdia para sempre.3 BRUEGGMANN, Walter, The Message of the Psalms – A theological Commentary (Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1984), p. 56. 2 cf. MAYS, James L., Psalms (Interpretation – A Bible Commentary for Teaching and Preaching) (Louisville: John Knox Press, 1994), p. 405. 1


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O verso 5 usa por duas vezes o verbo hwq (esperar, aguardar ansiosamente) num paralelismo que expressa o desejo íntimo do salmista por Yahweh. O Senhor é o objeto da esperança do salmista e não há outro.4 O salmista deixa claro não haver nenhum outro recurso para a sua alma e nenhum outro desejo ela tem a não ser o Senhor. E reforça essa ideia com o hiphil de lxy (aguardar) com relação à palavra de Yahweh. Bruggmann afirma que “os termos aguardar e esperar são sinônimos grosseiros”.5 É interessante perguntar a que se refere o termo rb’d. Barnes, Lockyer, Perowne e Brueggmann o traduzem por promessa.6 Mas o contexto parece dar razão a Schökel quando diz que “a ‘palavra’ que o pecador espera é a que concede o perdão”.7 A palavra esperada é aguardada juntamente com o Senhor. A promessa seria algo presente em que o salmista se apoia enquanto aguarda uma futura realização, nesse caso a preposição b. seria mais indicada. Entretanto, a preposição l. expressa o sentido de distância e direção, podendo em termos temporais significar “até”.8 Mas, assim, a tradução ficaria muito truncada. Rudolf Meyer ajuda-nos nisso quando explica que preposição l. usada em conjunção com um verbo, como é o nosso caso, pode ser usada para indicar o acusativo, o objeto direto e exemplifica: “Sem estar unida a um verbo de movimento se encontra o mesmo uso preposicional, por exemplo, em ~ySik;m. ~Y’l; ~yiM;K;‘ como as águas cobrem o mar’ (Is 11.9)”.9 Aplicando ao nosso texto podemos, então traduzir assim a expressão yTil.x’AhArb’d.liw. “e a sua palavra eu espero”. “Palavra” seria então o pronunciamento do soberano Deus acerca do pedido do suplicante orador. Seria a confirmação da renovação dos laços pactuais, rompidos pelo próprio salmista. Yahweh traria o perdão, essa era a certeza do salmista. Suas palavras não seriam de juízo, mas de redenção. apud PEROWNE, J. Stewart, Commentary on the Psalms, vol II (Grand Rapids: Kregel Publications, 1989), p. 404-405. 4 cf. BARNES, Albert, Notes on the Old Testament, Psalms (Grand Rapids: Baker Books, 1870, 1998 reimp.), vol. III, p. 259. 5 BRUEGGMANN, ibid., p. 106. vdtb. MAYS, ibid., p. 407. 6 cf. BARNES, ibid., p. 260; LOCKYER, Herbert, A Devotional Commentary Psalms (Grand Rapids: Kregel Publications, 1992) , p. 671; PEROWNE, ibid., p. 404; BRUEGGMANN, ibid., p. 106. 7 SCHÖKEL, Luís Alonso, Salmos II (Salmos 73-150) – Tradução, introdução e comentário (São Paulo: Paulus, 1998), p. 1515. 8 KIRST, Nelson, e outros, Dicionário Hebraico-Português & Aramaico Português (São Leopoldo: Editora Sinodal, 1987), p. 107. 9 MEYER, Rudolf, Gramática del Hebraico Bíblico (Terrassa, Espanha: Libros CLIE, 1989), p. 370. 3


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A “palavra” que o salmista está esperando pode ser um oráculo de salvação (Kraus, Psalmen 2.872) ou um ato de salvação em cumprimento de sua palavra de promessa (cf. 107.20). Do conceito de esperar como um vigia e da certeza conclusiva de que o Senhor redimirá o seu povo de seus pecados podemos deduzir um novo ato de salvação pelo qual o piedoso é sustentado em sua fé.10

Essa esperança do salmista é ilustrada de modo enfático no verso 6. 2.3.2 O salmista ilustra a sua esperança Tudo o que foi dito até o momento é resumido na figura que o salmista usa para descrever a expectativa de sua alma. Antes temos de observar uma questão de variantes textuais nos versos 5 e 6. O Texto Massorético traz assim:

yvip.n; ht’W.qihw’hy. ytiyWiqi

Eu espero Yahweh, a minha alma o espera

ytil.x’AhArb’d.liw.

e a sua palavra eu aguardo

yn’doal; yvip.n;

Minha alma pelo Senhor

rq,bol; ~yrim.vorq,bol~yrim.Vomi; mais do que os guardas pela manhã,

guardas pela manhã.

Temos assim, no verso 6, uma expressão não verbal que empresta seu sentido dos verbos do verso anterior que enfatizaram a ação de esperar. Fica em evidência, no centro do quiasmo formado pelos versos 3 a 8 a expressão yn’dao l; yvipn. ; afirmada no verso anterior, comparada com a figura rq,blo ; ~yrimv. . A minha alma (espera) pelo Senhor, os guardas (esperam) pela manhã. A preposição !mi estabelece a comparação devendo ser traduzida por “mais do que”.11 A Septuaginta, tendo dificuldade com essa leitura, prefere uma alteração da divisão dos versos e registra: νεκεν το νόμου σου πέμεινά σε, κύριε, Por causa da tua lei eu perseverei em ti, Senhor GAEBELEIN, Frank E., Expositor’s Commentary on the Old Testament (Grand Rapids, Zondervan Publishing House, 1992. CD-ROM), Salmo 130.5-6. 11 KIRST, ibid., p. 130; MEYER, ibid., p. 332. 10


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πέμεινεν ψυχή μου ε ς τν λόγον σου. A minha alma perseverou em tua palavra λπισεν ψυχή μου π τν κύριον π φυλακς πρωίας μέχρι νυκτός, Esperou a minha alma pelo Senhor mais do que os guardas pela manhã durante a noite, π φυλακς πρωίας λπισάτω Ισραηλ π τν κύριον. Mais do que os guardas pela manhã, espera, Israel, pelo Senhor.

Além de acrescentar a expressão durante a noite, essa leitura empresta o verbo ήλπισεν (eu espero) que melhor se adequa ao verso 5, tendo que eliminar a conjunção antes do termo τν λόγον e quebra a estrutura do verso 7 separando a primeira parte desse verso ou estabelecendo uma estrutura tetracolar que é estranha ao texto. Esse recurso foi seguido pela versão revista e atualizada de Almeida que traduz: “A minha alma anseia pelo Senhor mais do que os guardas pelo romper da manhã. Mais do que os guardas pelo romper da manhã, espere Israel no Senhor, pois ...”

Entretanto, um estudo realizado por JohnTromp defende que “a natureza de todas essas variantes leva à suspeição de que eles foram produzidas pelas dificuldades que os escribas e tradutores encontraram em sua Vorlage [tradução]: essas variações parecem ser emendas”.12 Tromp, após comparar várias versões antigas e as possibilidades sintáticas, conclui: “o salmo CXXX 5-6 pode virtualmente ser interpretado sem quaisquer alterações, dando um excelente sentido”.13 Outra tentativa de harmonizar o texto tem sido considerar a expressão rq,bol; ~yrim.v uma ditografia, ou seja, uma repetição involuntária dos termos. Embora esta seja uma possibilidade, a estrutura quiástica apresentada no artigo anterior tende a valorizar o texto como está. Além do mais, sendo uma expressão não verbal, podemos considerar que essa repetição funcione com um recurso de ênfase e intensificação,14 como acontece, por exemplo, TROMP, Joh, “The Text of Psalm CXXX 5-6” em: Vestus Testamentum 39.01, p. 101 < http://63.136.1.23/ pls/eli/pshow?lcookie=&pid=768815&lmode=&lpopts=F&lsize=95%25&lfirstp=101> acessado em 18/11/04. 13 ibid., p. 102. 14 vd. BARNES, ibid., p. 260. 12


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com os adjetivos e como fez o salmista no verso 5 repetindo enfaticamente os verbos. “A duplicação da última frase, no verso 6, adiciona mais ênfase a esse voltar-se depositado no Senhor”.15 “A dupla repetição ‘mais do que os guardas’ é altamente efetiva depois de uma quádrupla expressão de ‘esperança’ no Senhor. O inspirado salmista, assim, cria um profundo senso de esperança, dependência e segurança”.16 À parte das questões gramaticais, vemos que a figura, em si, é bastante sugestiva. Podemos imaginar como era extremamente difícil vigiar durante a noite. Nos tempos bíblicos as cidades tinham muros, onde se postavam guardas, sentinelas, que deveriam avisar se o inimigo estivesse vindo. Havia pouca iluminação e alguém poderia vir sorrateiramente na escuridão e alvejálo com uma flecha, por exemplo. Eram homens corajosos e sua vida estava em extremo perigo até que começasse a clarear. Se você fosse um desses guardas, qual seria o seu maior e mais profundo desejo? Que amanhecesse logo. Assim era o anseio do salmista. A chegada da manhã traria segurança para os guardas e a chegada do Senhor traria perdão para o salmista. Ele é como o vigia que espera ser liberado de sua tarefa ao raiar de um novo dia. O vigia, durante a noite, guardava a cidade (127.1) de ataques surpresa, enquanto a população dormia pacificamente. O Targum entende do “vigia” os guardas levíticos que esperavam pela oferta dos sacrifícios matutinos. A. A. Anderson está correto em que, no fim das contas, faz pouca diferença se os guardas são militares ou levíticos, pois “o ponto é sua espera pela manhã, e a certeza de que ela virá” (2:877).17

Temos, portanto, ilustrada a qualidade e a intensidade da esperança do salmista pela vinda do Senhor em seu socorro. A situação inicial do salmista é de profundezas e trevas, por causa do seu pecado, a vinda do Senhor significaria manhã e luz, por causa do perdão que seria concedido.

2.4 Doxologia Como mostramos acima no estudo estrutural do texto, não são poucos os que consideram os versos 7 e 8 acréscimos posteriores a fim de dar um DAVIDSON, F., O Novo Comentário da Bíblia (São Paulo: Edições Vida Nova, 1963, 1990 reimp.), p. 612. GAEBELEIN, ibid., Salmo 130. 5-6. 17 ibid. 15 16


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caráter comunitário ao lamento individual do salmista. Contudo, isso não só desfaria a estrutura quiástica apresentada pelo salmo, uma vez que o verso 7 retoma diversos elementos dos versos 4 e 5, e o verso 8, diversos elementos do verso 3; mas também retiraria do salmo a expressão de louvor tão comum na conclusão dos salmos de lamentos.18 Brueggmann escreve: “O mais importante elemento de resolução é a doxologia e louvor. O Deus que havia sido acusado é agora reconhecido como generoso, fiel e salvador”.19 2.4.1 Uma exortação à comunidade O salmista que de modo tão enfático havia expressado sua esperança em Deus, agora exorta a Israel que faça o mesmo,20 para isso usa novamente o verbo lxy (esperar, aguardar), agora no imperativo piel. hw hy.Äla, laer f.yilxey;, “espera, Israel, por Yahweh”. A preposição la, tem um sentido semelhante à preposição l., usada com lxy no verso 5, apenas que aquela tem mais forte a ideia de direção, podendo ser traduzida por “até”, “em direção a” ou “ para dentro de”21. O aspecto de exortação precisa ser ressaltado. O salmista se dirige à congregação de Israel e a chama para compartilhar de sua expectativa. “Ele não tem se desapontado com a sua esperança, e, portanto, pode convidar Israel a esperar”.22 A conjunção yki (pois) introduz a razão dessa exortação e acrescenta dois outros atributos de Deus e uma afirmação sobre o que ele faz. 2.4.2 Dois atributos de Yahweh O salmista apresenta outros dois acompanhantes do Senhor ou coisas trazidas por ele, com a mesma fórmula usada no verso quatro, a preposição ~[i: ds,x,h; hw hy.Ä~[i “com Yahweh a misericórdia” t/dp. /M[i hBer.h;w. “e com ele a grande/numerosa redenção” A misericórdia, ds,x,, é o atributo de Deus mais referido nos salmos, especialmente nos salmos de lamentos. É esse amor pactual que firma o vínculo entre Yahweh e o seu povo. Por isso, é aí que o fiel deposita sua confiançaquando em dificuldades. Comentando o salmo 13, Denise Hopkins escreve: cf. SCHÖKEL, ibid., p. 1516. BRUEGGMANN, ibid., p. 56. 20 cf. GAEBELEIN, ibid.,Salmo 130.7-8. 21 cf. MEYER, ibid., p. 301; KIRST, ibid., p. 10. 22 PEROWNE, ibid., p. 405. 18 19

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Em meio deste doloroso grupo de motivações para Deus agir, o salmista explode em confissão de confiança no verso 5: “No tocante a mim, confiei na tua hesed [misericórdia], meu coração se regozijará na tua salvação” (itálicos adicionados). Em meio ao sofrimento, o salmista sustenta o relacionamento passado de lealdade pactual com Deus e a esperança futura de exaltar a Deus novamente por aquela lealdade.23

Entretanto, é importante notar que o salmista não fala sobre a misericórdia em seu pedido ou no seu argumento. Ele se refere a ela no momento em que exalta a natureza de Yahweh, na doxologia. Isso reforça nosso entendimento do estado confiante do salmista. Ele não pede misericórdia a Deus. Sabe que a parte de Deus na aliança permanece intacta. Ele aguarda o momento em que essa misericórdia se manifestará a Israel e a ele inclusive. Sobre isso, Lutero comentou que precisamos lembrar que devemos esperar no Senhor e nunca nos apartar de sua palavra ou crer em algo contrário a ela, e ele [o autor] mostra porque. Pois com Deus está a misericórdia ... o Espírito Santo não pode mentir, o qual deseja que eu confie porque há misericórdia com o Senhor e com ele plena redenção.24

O termo t/dp. é raro. Ele é usado somente cinco vezes no AT. Em 2Samuel 7.23, seu paralelo 1Reis 17.21 e em Salmos 111.9 ele se refere ao ato de Deus em libertar para si o povo de Israel. Em Isaías 50.2, ele se refere à capacidade de Deus de novamente libertar o seu povo, agora do cativeiro babilônico que estava por vir. De toda forma, o termo nos remete ao início do relacionamento pactual de Yahweh com Israel, o momento em que eles foram distinguidos (tdup). como povo do Senhor (Êx 8.22 - 19 no TM).25 “A nação de Israel foi fundada sobre o princípio da redenção. Deus redimiu Israel da escravidão no Egito”.26 Somente no nosso texto, o termo não é usado com referência a algum cativeiro político. Isso nos remete imediatamente a considerar um cativeiro HOPKINS, Denise Dombkowski, Journey througth the Psalms (St. Louis: Chalice Press, 2002), p. 122-123. apud PEROWNE, ibid., p. 405. 25 cf. SCHÖKEL, ibid., p. 1516. 26 PHILLIPS, Exploring the Psalms (Neptune, New Jersey: Loizeaux Brothers, 1988), vol. II, p. 518. 23 24


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espiritual do qual Israel seria libertado por Deus, uma aflição a que está lançado por causa de seus pecados.27 Além disso, ele é acompanhado pelo termo hBer.h;w. (e grande/numerosa) que é um infinitivo absoluto sendo utilizado como adjetivo.28 Barnes comenta esse termo: “É ampla; é plena; abunda. Não é limitada; não é exaurida; não pode ser exaurida. Assim nós podemos sempre sentir, quando vimos diante de Deus, que sua misericórdia é ampla para todas as necessidades e sofrimentos de todos os pecadores...”29 Não podemos deixar de notar que misericórdia e redenção, por força do quiasmo e da semelhança da estrutura sintática, são colocadas em paralelo com o perdão anunciado no verso 4. Ao proclamar Yahweh como misericordioso e redentor, o redentor justifica sua confiança de que a chegada do Senhor lhe trará o perdão de que tanto necessita, embora não mereça,30 para ter plenamente restabelecida sua comunhão com Deus. 2.4.3 Uma descrição da obra de Yahweh O salmista termina a doxologia e o salmo com uma contundente afirmação acerca das obras do Senhor. wyt no/[] lKomilaer f.yiÄta, hD,p.yiaWhw. “Ele mesmo redimirá Israel de todas as suas iniquidades”. O uso do pronome pessoal é enfático. Quer novamente fixar nossos olhos em Yahweh e apontar-nos aquilo que só ele “pessoalmente” pode fazer.31 O uso do verbo hdp faz direta ligação com o verso anterior e mostra que Deus, de fato, põe em prática sua atribuição de redimir o seu povo. Essa construção era muito comum no Antigo Oriente Próximo.32 O verbo está conjugado no imperfeito e pode ser traduzido como um frequentativo ou durativo, “ele redime”, ou no futuro, “ele redimirá”, sendo o contexto o que deve determinar a opção.33 Em nosso contexto, embora o frequentativo seja perfeitamente cabível e a opção amplamente feita pelos tradutores, creio que a tradução no futuro cf. SCHÖKEL, ibid., p. 1516. cf. PEROWNE, ibid., p. 405. 29 BARNES, ibid., p. 260-261. 30 cf. GAEBELEIN, ibid., Salmo 130.7-8 31 cf. LOCKYER, ibid., p. 673; PERWONE, ibid., p. 405. 32 cf. DAHOOD, Mitchell, Psalms III – 101-150 (New York: Doubleday, 1970), p. 237. 33 cf. MEYER, ibid., p. 340. 27 28

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reflete melhor o aspecto de espera pelo Senhor no qual o salmo se apoia. Se o salmista vê sua redenção como futura, nada mais natural que ele anuncie essa futura redenção de todo o Israel.34 A isto, soma-se uma interessante sugestão de Dahood quanto à expressão wyt no/[.] Dahood escreve: “Comumente traduzido como “suas (de Israel) iniquidades”, o sufixo de ‘ªwonotayw pode também ser tomado como um sufixo objetivo, isto é, as iniquidades de Israel contra Yahweh. Dessa tradução emerge um inclusio, o verso começa com wehu’, “Ele mesmo”, e termina com––ayw, “contra ele”. Pesa aqui o fato de esta não ser a leitura mais natural do sufixo. Podemos ainda lembrar a já citada sugestão de McKeating de que t/n/[,] em alguns textos pode ser traduzido por “punições”.35 Então teríamos: “Ele mesmo redime a Israel de todas as punições dele [Yahweh]”. Afirmando que o Deus que pune pelo pecado é o mesmo que redime o seu povo dessa punição. Schökel, embora opte pela tradução comum aponta que “quando se constrói o verbo com a preposição min, o termo costuma ser pessoa ou personificação ou situação: ‘de todo perigo’ (2Sm 4.9), ‘do punho dos opressores’ (Jr 15.21), ‘do poder do xeol’ (Os 13.14; Sl 49.16), ‘da morte’ (Jó 5.20)”36. Certamente, a abrangência da redenção envolve todas essas possibilidades. Podemos concordar com Perowne quando escreve: “A redenção inclui o perdão de pecados, a quebra do poder e do domínio do pecado e o livramento de todas as suas consequências”.37 Este é um excelente contraponto à questão do verso 3.

Conclusão Como um dos hamma´aloth, cântico dos degraus, o salmo 130 está ligado ao movimento do fiel em direção ao templo.38 Podemos afirmar que uma das principais expectativas do fiel que se dirigia a Jerusalém era a de ser recebido e ouvido por Yahweh. À medida que o povo se dirigia para

cf. LOCKYER, ibid., p. 673-674; DAHOOD, ibid., p. 237. cf. MCKEATING, Henry, “Divine Forgiveness in the Psalms” em: Scottish Journal of Theology, vol. 18, n. 1 (Março 1975), p. 73-74. 36 SCHÖKEL, ibid., p. 1516. 37 PEROWNE, ibid., p. 405. 38 cf. ALLEN, Leslie C. Psalms 101 – 150 (Waco: Word Books Publishers, 1983), p. 193 34 35


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encontrar-se com o Senhor, precisava entender que mais importante ainda era que o Senhor fosse ao encontro de seu povo. Tal comunhão, em princípio não poderia existir entre um Deus santo e um povo pecador, mas o salmo vem trazer ânimo e esperança aos viajantes. Ele ensina que Yahweh ouve e atende seus servos, mesmos engolfados nas profundezas das consequências de seus pecados. Que Yahweh é um Deus perdoador, misericordioso e redentor e que todas as iniquidades de Israel seriam redimidas em sua gloriosa presença. O salmo desafia os homens a confiar e esperar em Yahweh, a ansiosamente clamar a ele e aguardar sua resposta. Esse é o temor que deveria haver em cada coração. Tal temor brota do conhecimento da natureza misericordiosa do Deus da Aliança e da experiência, ao mesmo tempo recorrente e escatológica, do perdão dos pecados. Não podemos deixar de notar que o salmo 130 é antecedido por um lamento que recorda as aflições constantes pelas quais Israel tem passado, especialmente causadas por aqueles que aborrecem a Sião. Temos, então, uma contraposição entre a força opressora dos ímpios e o poder redentor de Yahweh. Logo depois, no salmo 131, temos um cântico de confiança, em que o salmista declara sua humilde e silenciosa confiança na acolhida de Yahweh. Novamente, Israel é exortado a esperar pelo Senhor. Então, no salmo 132, é lembrada a aliança de Deus com Davi, a sua fidelidade, e as promessas de bênção e livramento para a sua posteridade. O ungido do Senhor prevaleceria pela intervenção de Yahweh e os inimigos seriam cobertos de vexame. Os versos finais desse salmo, 13-18, nos fazem lembrar a palavra esperada no salmo 130, pois são uma declaração do próprio Deus de redenção e bênção sobre o seu povo. Tais correlações intensificam ainda mais a mensagem de confiança expressa no salmo 130. Podemos clamar ao Senhor quaisquer que sejam as profundezas ou tribulações em que nos acharmos. Mesmo que nossos pecados sejam a causa delas, temos no Senhor a redenção que restaurará sobre nós a bênção e a vida para sempre (Sl 133.3).

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Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa Bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul Licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Licenciado em Pedagogia pela Universidade Mackenzie Pós-graduação: Estudo de Problemas Brasileiros pela Universidade Mackenzie Pós-graduação: Didática do Ensino Superior pela Universidade Mackenzie Mestre em Teologia e História pela Universidade Metodista de São Paulo Doutor em Teologia e História pela Universidade Metodista de São Paulo Pastor auxiliar da 1ª Igreja Presbiteriana de São Bernardo do Campo

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Resumo No segundo artigo da série, o Rev. Hermisten discorre sobre a origem, autoridade interna e suficiência da Escritura, refutando sua alegada “insuficiência”, comparando-a à tradição e ex-pondo sua origem humana e divina, bem como a igreja e a vida sob ela, encerrando com o que Calvino chamou de “balbuciar de Deus” e o testemunho do Espírito. Palavras-chave Escritura; tradição; hermenêutica; inspiração; Espírito. Abstract In this second article of the series, the Rev. da Costa considers the origin, internal authority and sufficiency of the Scripture, rejecting its alleged “inadequacy”, comparing it to tradition and presenting its human and divine origin, as well as church and life under it, closing with what Calvin called “God’s babble” and the testimony of the Spirit. Keywords Scripture; tradition; hermeneutics; inspiration; Spirit.

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1. A Origem, Autoridade interna e Suficiência das Escrituras Visto que a igreja é o reino de Cristo, e que Cristo não reina senão por sua Palavra, ainda vamos continuar duvidando de que são mentirosas as palavras daqueles que imaginam o reino de Cristo sem o seu cetro, quer dizer, sem a sua santa Palavra? – João Calvino, As Institutas (1541), IV.15.

Na introdução da edição francesa das Institutas (1541), Calvino deixa clara a sua compreensão a respeito das Escrituras Sagradas, como Palavra de Deus suficiente (“perfeita”) para nós contendo a verdadeira “filosofia cristã” e, ao mesmo tempo, evidencia a responsabilidade dos mestres: “Embora seja fato que a Escritura Sagrada contém uma doutrina perfeita, à qual nada se pode acrescentar visto que nela o nosso Senhor Jesus Cristo quis expor os tesouros infinitos da Sua sabedoria, contudo, uma pessoa que não esteja bem exercitada necessita de alguma orientação e direção para saber o que deverá buscar, para que não fique vagando aqui e ali, mas tenha uma certa visão para pôr sempre a atenção nos pontos para os quais o Espírito Santo a chame. Portanto, o ofício dos que receberam mais ampla iluminação de Deus que os outros consiste em dar aos simples o que lhes é necessário neste assunto e em saber estender-lhes a mão para os conduzir e os ajudar a encontrar a essência do que Deus nos quer ensinar em Sua Palavra. Ora, a melhor maneira de fazer isso é com as passagens que tratam dos assuntos principais e, por conseguinte, as que estão contidas na filosofia cristã”.1

1. A “insuficiência” das Escrituras? Durante toda a história a Palavra de Deus foi alvo dos mais diversos ataques: entre eles, o mais comum é a suposição de sua falibilidade. No entanto, um ataque mais sutil que também permeou boa parte da história da Igreja é a concepção, ainda que muitas vezes velada, de que as Escrituras não são suficientes para nos dirigir e orientar. Melanchton (1497-1560) e Lutero (1483-1546) depararam-se explicitamente com esse problema bem no início da Reforma Protestante. Por volta de 1520, na pequena, porém, próspera e culta cidade alemã de Zwickau, surgiu um grupo de homens “iluminados” – chamados por Lutero de “profetas de 1

João Calvino, As Institutas (1541), Introdução.

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Zwickau”2 –, que alegava ter revelações especiais vindas diretamente de Deus, entendendo ter sido chamado por Deus para “completar a Reforma”. A sua religião partia sempre de uma suposta revelação interior do Espírito. Acreditavam que o fim dos tempos estava próximo – os ímpios seriam exterminados –, e que por isso, não era necessário estudar teologia visto que o Espírito estaria inspirando os pobres e ignorantes. Combatiam também o batismo infantil. Assim pensando, esses homens diziam: De que vale aderir assim tão estritamente à Bíblia? A Bíblia! Sempre a Bíblia! Poderá a Bíblia nos fazer sermão? Será suficiente para a nossa instrução? Se Deus tivesse tencionado ensinar-nos por meio de um livro, não nos teria mandado do céu uma Bíblia? Somente pelo Espírito é que poderemos ser iluminados. O próprio Deus fala dentro de nós. Deus em pessoa nos revela aquilo que devemos fazer e aquilo que devemos pregar.3

Um certo alfaiate, Nícolas Storck, escolheu doze apóstolos e setenta e dois discípulos, declarando que finalmente tinham sido devolvidos à Igreja os pro-

Os principais líderes eram: Nícolas Storck, Marcos Tomás e Marcos Stubner. Tomás Munzer (c. 1490-1525), tornar-se-ia o mais famoso dos que foram influenciados por esse círculo, tendo mais tarde as suas ideias próprias, ainda que fiel aos mesmos princípios (Vd. George H. Williams, La Reforma Radical, México: Fondo de Cultura Económica, 1983, p. 66ss; Jean Delumeau, O Nascimento e Afirmação da Reforma, São Paulo: Pioneira, 1989, p. 101). 3 Apud J.H. Merle D’Aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, (s.d.), Vol. III, p. 64. Mais tarde, Calvino escreveria, possivelmente referindo-se aos “libertinos”, também conhecidos como “espirituais”: “Ora, surgiram, em tempos recentes, certos desvairados que, arrogando-se, com extremada presunção, o magistério do Espírito, fazem pouco caso de toda leitura da Bíblia e se riem da simplicidade daqueles que ainda seguem, como eles próprios a chamam, a letra morta e que mata. “Eu, porém, gostaria de saber deles que tal é esse Espírito de cuja inspiração se transportam a alturas tão sublimadas que ousem desprezar como pueril e rasteiro o ensino das Escrituras? Ora, se respondem que é o Espírito de Cristo, certeza dessa espécie é absurdamente ridícula, se, na realidade, concedem, segundo penso, que os Apóstolos de Cristo e os demais fiéis na Igreja Primitiva não de outro Espírito hão sido iluminados. O fato é que nenhum deles daí aprendeu o menoscabo da Palavra de Deus; ao contrário, cada um foi antes imbuído de maior reverência, como seus escritos o atestam mui luminosamente... “... Não é função do Espírito que nos foi prometido configurar novas e inauditas revelações ou forjar um novo gênero de doutrina, mediante quê sejamos distraídos do ensino do evangelho já recebido; ao contrário, sua função é selar-nos na mente aquela própria doutrina que é recomendada por meio do evangelho” (J. Calvino, As Institutas, I.9.1). Vd. também: As Institutas, I.9.2-3. McNeill explica que o termo “libertino” foi usado por Calvino para “designar uma seita religiosa que se espalhou na França e na Península Dinamarquesa, a qual, dando ênfase ao Espírito, rejeitava a Lei. Posteriormente, o termo veio a ser aplicado em Genebra àqueles que se opunham à disciplina, os quais incluíam pessoas que desconsideravam a lei moral e outros, mais motivados politicamente em resistir a Calvino” (John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, Nova York: Oxford University Press, 1954, p. 169). 2


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fetas e apóstolos.4 Acompanhado de Marcos Stubner e Marcos Tomás ele foi a Wittenberg (27.12.1521) – que já enfrentava tumultos liderados por Andreas B. von Carlstadt (c. 1477-1541) e Gabriel Zwilling (c. 1487-1558) –, pregar o que considerava ser a verdadeira religião cristã, contribuindo grandemente para a agitação daquela cidade. Stubner, antigo aluno de Wittenberg, justamente por ter melhor preparo, foi comissionado a representá-los. Melanchton que conversou com Stubner, interveio na questão, ainda que timidamente. Storck,5 mais inquieto, logo partiu de Wittenberg; Stubner, no entanto, permaneceu, realizando ali um intenso e eficaz trabalho proselitista; “era um momento crítico na história do cristianismo”.6 Comentando os problemas suscitados pelos “espiritualistas”, o historiador D’Aubigné (1794-1872) conclui: “A Reforma tinha visto surgir do seu próprio seio um inimigo mais tremendo do que papas e imperadores. Ela estava à beira do abismo”.7 Daí ouvir-se em Wittenberg o clamor pelo auxílio de Lutero que, consciente da necessidade de sua volta, abandonou a segurança de Warteburgo retornando à Wittenberg8 a fim de colocar a cidade em ordem (1522), o que fez, com firmeza e espírito pastoral.9 Mais tarde, Lutero escreveria: “Onde, porém, não se anuncia a Palavra, ali a espiritualidade será deteriorada”.10 Não nos iludamos, essa forma de misticismo ainda está presente na Igreja e, tem sido extremamente perniciosa para o povo de Deus, acarre-

Cf. J.H. Merle D’Aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, Vol. III, p. 64-65; Heinrich W. Erbkam, Munzer: In: Philip Schaff, org. Religious Encyclopaedia: Or Dictionary of Biblical, Historical, Doutrinal, and Practical Theology, Vol. II, p. 1596a. 5 Como resultado das supostas revelações diretas de Deus, Storck e seus companheiros sustentavam que “dentro de cinco a sete anos os turcos invadiriam a Alemanha e destruiriam os sacerdotes e todos os ímpios. Storck via-se como cabeça de uma nova igreja, designada por Deus para completar a Reforma que Martinho Lutero deixara inacabada” [J.D. Weaver, Profetas de Zwickau: In: Walter A. Elwell, org. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, Vol. III, p. 657]. 6 James Atkinson, Lutero y el Nacimiento del Protestantismo, 2ª ed. Madrid: Alianza Editorial, 1987, p. 254. 7 J.H. Merle D’Aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, Vol. III, p. 71. 8 Justificando-se com o príncipe o motivo da sua volta, escreveu-lhe no dia de sua chegada a Wittenberg, 7 de março de 1522: “Não são acaso os Wittemberguenses as minhas ovelhas? Não mas teria confiado Deus? E não deveria eu, se necessário, expor-me à morte por causa delas?” (Apud J.H. Merle D’Aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, Vol. III, p. 83). 9 Lutero, iniciando no dia 09.03.1522, pregou oito dias consecutivos em Wittenberg. Vd. o seu primeiro sermão In: Martinho Lutero, Pelo Evangelho de Cristo: Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma, Porto Alegre/São Leopoldo, RS.: Concórdia Editora/Editora Sinodal, 1984, p. 153-161. Quanto aos detalhes da sua volta, Vd: J.H. Merle D’Aubigné, História da Reforma do Décimo-Sexto Século, III, p. 72ss.; James Atkinson, Lutero y el Nacimiento del Protestantismo, p. 254ss. 10 Martinho Lutero, Uma Prédica para que se Mandem os Filhos à Escola (1530): In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas, São Leopoldo/Porto Alegre, RS., Sinodal/Concórdia, 1995, Vol. 5, p. 334. 4


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tando um desvio espiritual e teológico, deslocando o “eixo hermenêutico” da Palavra para a experiência mística, nos afastando assim, da Palavra e, consequentemente, do Deus da Palavra. O trágico é que justamente aqueles que supõem desfrutarem de maior “intimidade” com Deus, são os que patrocinam o distanciamento da Palavra revelada de Deus. Davi enfatiza: “A intimidade do Senhor é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança” (Sl 25.14). Portanto, a nossa intimidade com Deus revela-se em nosso apego à sua Palavra, à sua aliança. Nesse texto, Calvino faz uma aplicação bastante contextualizada: “... É uma ímpia e danosa invenção tentar privar o povo comum das Santas Escrituras, sob o pretexto de serem elas um mistério oculto, como se todos os que o temem de coração, seja qual for seu estado e condição em outros aspectos, não fossem expressamente chamados ao conhecimento da aliança de Deus”.11 Nós somos herdeiros dos princípios bíblicos da Reforma; para nós, como para os Reformadores, a Palavra de Deus é a fonte de Deus dotada de autoridade para o nosso pensar, crer, sentir e agir: A Palavra de Deus nos é suficiente. 2. Tradição & Escritura? a) Novo Eixo Hermenêutico “A Reforma Protestante foi em sua raiz um evento do domínio da hermenêutica” – Edward A. Dowey Jr., Documentos Confessionais como Hermenêutica: in: Donald K. Mckim, org. Grandes Temas da Teologia Reformada, São Paulo: Pendão Real, 1999, p. 13. “A Reforma Protestante foi, em muitos sentidos, um movimento hermenêutico” – Augustus Nicodemus Lopes, A Bíblia e seus Intérpretes, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 159. “A Reforma do século 16 foi baseada na autoridade da Bíblia e (...) colocou o mundo em chamas” – J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 83.

Na Reforma deu-se uma mudança de quadro de referência. O “eixo hermenêutico” desloca-se da tradição da igreja para a compreensão pessoal da 11

João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 25.14), p. 558.


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Palavra. Há aqui uma mudança de critério de verdade que determina toda a diferença. No entanto, conforme acentua Popkin, Lutero inicialmente confrontou a igreja dentro da perspectiva da própria tradição da igreja, somente mais tarde é que ele deu um passo crítico que foi negar a regra de fé da Igreja, apresentando um critério de conhecimento religioso totalmente diferente. Foi neste período que ele deixou de ser apenas mais um reformador atacando os abusos e a corrupção de uma burocracia decadente, para tornar-se o líder de uma revolta intelectual que viria a abalar os próprios fundamentos da civilização ocidental.12 b) “Sola Scriptura” x Tradição? O Sola Scriptura foi considerado pelos reformadores como o princípio formal que dá substância a tudo o mais. A tradição nunca foi rejeitada pelo simples fato de ser tradição. Na própria Escritura encontramos ênfase e crítica à tradição [para/dosij] (2Ts 2.15).13 A questão básica é: a que tradição estamos nos referindo? “Lutero e os reformadores não queriam dizer por Sola Scriptura que a Bíblia é a única autoridade da igreja. Pelo contrário, queriam dizer que a Bíblia é a única autoridade infalível dentro da Igreja”.14 A autoRichard H. Popkin, História do Ceticismo de Erasmo a Spinoza, Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2000, p. 26. A tradição oral (para/dosij) [“transmissão”, “entrega”, “tradição”. A palavra é formada de “Para/” (“junto a”, “ao lado de”) & “Di/dwmi” (Conforme o contexto: “dar”, “trazer”, “conceder”, “causar”, “colocar”, etc.] consistia basicamente no que Jesus Cristo, os apóstolos e outros servos de Deus ensinavam por meio de seus sermões, orientações e comportamento.(1Co 11.2, 23-25; Gl 1.14; 2Ts 2.15; 3.6/Rm 6.17; 16.17; 1Co 15.1-11; Fp 4.9; 1Ts 2.9, 13; 4.11,12). Nestes textos, evidencia-se que a “tradição” recebida e ensinada amparava-se numa certeza quanto à sua origem divina. Portanto, as “tradições” mencionadas por Paulo distinguem-se daquelas inventadas e transmitidas pelos homens, as quais são recriminadas por Cristo, visto que estes ensinamentos anulavam a Palavra de Deus (Cf. Mt 15.2,3,6; Mc 7.3,5,8,9,13). A para/dosij é rejeitada todas as vezes que entra em choque com a Palavra de Deus (Vd. H.M.F. Buchsel, Para/dosij: In: Gerhard Kittel & G. Friedrich, org. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reimpresso), Vol. II, p. 172-173; G. Hendriksen, 1 y 2 Tesalonicenses, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana de la Iglesia Cristiana Reformada, 1980, p. 217 e 230; I.H. Marshall, I e II Tessalonicenses: Introdução e Comentário, São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1984, p. 245 e 257; W. Popkes, Para/dosij: In: Horst Balz & Gerhard Schneider, org. Exegetical Dictionary of New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1978-1980, Vol. III, p. 21). Portanto, “A questão não é se temos tradições, mas se as nossas tradições estão em conflito com o único padrão absoluto nessas questões: as Escrituras Sagradas” (J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, org. Religião de Poder, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998, p. 234). Ridderbos salienta que o conceito de tradição no Novo Testamento, não está associado ao pensamento grego antes, é orientado pela concepção judaica, pela qual “o que confere autoridade à tradição não é o peso dos antepassados ou da escola senão primordialmente o caráter do material dessa tradição....”. [Herman N. Ridderbos, Historia de la Salvación y Santa Escritura, Buenos Aires: Editorial Escaton, (1973), p. 39]. 14 R. C. Sproul, Sola Scriptura: Crucial ao Evangelicalismo: In: J.M. Boice, org. O Alicerce da Autoridade Bíblica, São Paulo: Vida Nova, 1982, p. 122. Timothy George coloca a questão nestes termos: “O sola scriptura não pretendia desprezar completamente o valor da tradição da igreja, mas sim subordiná-la à primazia das Escrituras Sagradas. Enquanto a Igreja Romana recorria ao testemunho da igreja a fim de validar a autoridade 12 13


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ridade dos Credos (Apostólico, Niceia, Calcedônia) era indiscutivelmente considerada pelos reformadores – tendo inclusive Lutero [O Catecismo Maior (1529) e O Catecismo Menor (1529)]15 e Calvino [Catecismo de Genebra (1536/37 e1541/2)16 e Confissão Gaulesa (1559)]17 elaborado Catecismos para a Igreja –; contudo, somente as Escrituras são incondicionalmente autoritativas.18 Os dizeres da Confissão Gaulesa (Capítulo 5) resumem bem o espírito que orientou a aceitação dos Credos pelos Reformadores: Concluímos que nem a antiguidade, nem os costumes, nem a maioria, nem sabedoria humana, nem julgamentos, nem prisões, nem as leis, nem

das Escrituras canônicas, os reformadores protestantes insistiam em que a Bíblia era autolegitimadora, isto é, considerada fidedigna com base em sua própria perspicuidade, comprovada pelo testemunho íntimo do Espírito Santo” (Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo, Vida Nova, 1994, p. 312). A observação de Packer é pertinente como princípio que deve servir de parâmetro: “Dentro dessa abordagem, e com base na percepção comum de que tanto o Espírito de Deus como também o pecado humano estão sempre trabalhando dentro da igreja, espera-se que as tradições cristãs sejam parcialmente certas e parcialmente erradas” (J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, org. Religião de Poder, p. 234). 15 No prefácio do Catecismo Menor, Lutero declara os motivos que o levaram a redigir este Catecismo e, apresenta também sugestões de como ensiná-lo à Congregação. No decorrer dos sete capítulos, ele quase sempre inicia dizendo: “Como o chefe de família deve ensiná-lo à sua casa” ou: “Como o chefe de família deve ensiná-lo com toda a simplicidade à sua casa” e expressões similares. Transcreverei apenas o que Lutero disse a respeito das suas motivações: “A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também eu fui visitador, é que me obrigou e impulsionou a preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes para a obra do ensino. (...) Não sabem nem o Pai-Nosso, nem o Credo, nem os Dez Mandamentos” [Catecismo Menor. In: Martinho Lutero, Os Catecismos, Porto Alegre/ São Leopoldo, RS.: Concórdia/Sinodal, 1983, p. 363]. 16 Falarei mais abaixo sobre ambas as edições deste Catecismo. 17 A Confissão Gaulesa, que não é muito conhecida e difundida em nosso meio, exerceu grande influência doutrinária sobre outras Confissões Reformadas. Ela foi escrita por Calvino (1509-1564) e seu discípulo Antoine de la Roche Chandieu (De Chandieu) (1534-1591), provavelmente com a ajuda de T. Beza (1519-1605) e Pierre Viret (1511-1571). Inicialmente tinha 35 capítulos. No Sínodo Geral de Paris (26-28/05/1559), que congregou representantes de mais de 60 igrejas, das mais de 100 que existiam na França – reunido secretamente –, tendo como moderador Fraçois de Morel, esta Confissão foi revista e ampliada em mais cinco capítulos, tendo um prefácio dedicado ao rei Francisco II (1560) e posteriormente, também foi apresentada por Beza a Carlos IX (1561). Calcula-se que à época, a França já possuía 400 mil protestantes ou, um sexto da população, existindo em fins de 1561, mais de 670 igrejas calvinistas erigidas em território francês. Em 1571, tendo como moderador T. Beza (1519-1605), realizou-se o Sétimo Sínodo Nacional de La Rochelle. À ocasião, estavam presentes: a Rainha de Navarra, seu filho Henrique IV (1553-1610) e o Almirante Coligny (1519-1572). Neste Sínodo, a Confissão foi revisada, reafirmada e solenemente sancionada por Henrique IV, passando, desde então a ser também chamada de “Confissão de la Rochelle”. A Confissão Gaulesa influenciou profundamente a Confissão Belga (1561) e a Confissão dos Valdenses (1655) (Ver: Hermisten M.P. Costa, Eu Creio, São Paulo: Edições Parakletos, 2002, p. 469-470). 18 Para um estudo mais detalhado deste ponto, ver: Hermisten M.P. Costa, Os Símbolos de Fé na História: Sua Relevância e Limitações In: Fides Reformata, São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, IX/1 (2004) 51-75.


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decretos, nem os concílios, nem visões, nem milagres podem se opor a esta santa Escritura, mas ao contrário, todas as coisas devem ser examinadas, regulamentadas e reformadas por ela. Neste espírito, nós reconhecemos os três símbolos, a saber: O Credo dos Apóstolos, de Niceia, e de Atanásio, porque eles estão de acordo com a Palavra de Deus.19

Quanto a nós hoje os Credos servem, ou pelo menos deveriam servir,20 como desafio para que continuemos nossa caminhada na preservação da doutrina e na aplicação das verdades bíblicas aos novos desafios de nossa geração, integrando-nos assim, à nobre sucessão daqueles que amam a Deus e a sua Palavra e que buscam entendê-la e aplicá-la, em submissão ao Espírito, à vida da Igreja. Uma tradição saudável tem compromisso com o passado na geração do futuro.21 Só este fato deveria, por si só, nos conduzir a uma atitude mais humilde, como assinala Noll: “O estudo da história da igreja deve aumentar a nossa humildade sobre quem somos e aquilo em que cremos. Não há nada que a igreja moderna desfrute que não seja uma dádiva das gerações anteriores do povo de Deus. Na realidade, nós modificamos, adaptamos e ampliamos essas dádivas do passado, mas não as criamos”.22 Portanto, o conservadorismo criativo utiliza-se da tradição, não como autoridade final ou absoluta, mas como recurso importante colocado à nossa disposição pela providência de Deus, a fim de nos ajudar a entender o que a Escritura está nos dizendo sobre quem é Deus, quem somos nós, o que é o mundo ao nosso redor, e o que fomos chamados para fazer aqui e agora.23 Esta Confissão, também conhecida como Confissão de Fé de La Rochelle encontra-se traduzida na íntegra no site: www.monergismo.com (consulta: 28/07/06). Schaff, (COC., Vol. III, p. 356-382) traz o Documento em francês e inglês [Ver também A Tragédia da Guanabara, Cultura Cristã. N. do E.). 20 Entre o final dos anos 50 e início dos anos 60, Lloyd-Jones disse com tristeza: “No presente século há marcante aversão por credos, confissões e por definições precisas. O cristianismo tornou-se um vago e indefinido espírito de boa vontade e filantropia” (David M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 213). 21 “A tradição é o sangue da teologia. Separada da tradição a teologia é como uma flor cortada sem suas raízes e sem o solo, logo murcha na mão. Uma sã teologia nunca nasce de novo. Ao honrar a sã tradição, se assegura a continuidade teológica com o passado. Ao mesmo tempo a tradição cria a possibilidade de abrir novas portas para o futuro. Como diz o provérbio: ‘A tradição é o prólogo do futuro.’ Por isso, toda dogmática que se preze como tal, deve definir sua posição em uma ou outra tradição confessional” (Gordon J. Spykman, Teologia Reformacional: Um Nuevo Paradigma para Hacer la Dogmática, Jenison, MI.: The Evangelical Literature League, 1994, p. 5). 22 Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Cultura Cristã, 2000, p. 20. 23 J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, org. Religião de Poder, p. 241. 19


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O Credo é uma resposta do homem à Palavra de Deus, sumariando os artigos essenciais da fé cristã. Desta forma, eles pressupõem fé;24 mas não a geram; esta é obra do Espírito Santo por meio da Palavra (Rm 10.17). Os Credos baseiam-se na Palavra, porém não são a Palavra – nem jamais foi isto cogitado pelos seus formuladores; eles não podem substituir a Palavra de Deus; somente ela gera vida pelo poder de Deus (1Pe 1.23; Tg 1.18).25 Para nós Reformados, os Credos têm a sua autoridade decorrente da Palavra de Deus; em outras palavras, o seu valor não é intrínseco, mas sim, extrínseco: eles são recebidos e cridos enquanto permanecem fiéis à Escritura; assim, a sua autoridade é relativa. Os Credos são somente uma aproximação e, relativa exposição correta da verdade revelada. Desta forma, podem ser modificados pelo progressivo conhecimento da Bíblia a qual é infalível e inesgotável. Por isso, não devemos tomar os Credos como autoridade final para definir um ponto doutrinário: os limites de nossa reflexão teológica estão na Palavra, não nos Credos. Os Credos não estabelecem o limite de nossa fé, antes a norteiam. A Palavra de Deus sempre será mais rica do que qualquer pronunciamento eclesiástico por melhor que seja elaborado e por mais fiel que seja às Escrituras.26 No entanto, como ressalta Packer, “Na verdade a abordagem impiedosa seria tentar aprender de Deus como cavaleiro solitário que orgulhosamente ou impacientemente virasse as costas para a igreja e sua herança: isso seria receita certeira para esquisitices sem fim!”.27 “A instrução transmite conhecimento, mas também presume conhecimento”.28 A Confissão de Westminster, capítulo I, seção 10, estabelece o paradigma que deve nos orientar:

”Eles [os credos] não são revelação divina, mas parte da resposta da Igreja à revelação que a criou e a renovou na história, e que tem continuidade no presente” (Edward A. Dowey Jr., Documentos Confessionais como Hermenêutica: In: Donald K. Mckim, org. Grandes Temas da Teologia Reformada, São Paulo: Pendão Real, 1999, p. 12). 25 Vd. J.M. Boice, O Pregador e a Palavra de Deus: In: J.M. Boice, org. O Alicerce da Autoridade Bíblica, p. 162. 26 Ver G. C. Berkouwer. A Pessoa de Cristo, São Paulo, ASTE, 1964, p. 76. 27 J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, org. Religião de Poder, p. 236. 28 Gene Edward Veith, Jr, De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 26. No mesmo parágrafo, Veith escrevera: “O conhecimento, se for preservado e transmitido, pode ser acumulado. Muitos artistas, filósofos e teólogos modernos rejeitam o conhecimento do passado. Assim, eles têm que recomeçar de novo continuamente do zero, sendo sua visão restrita à sua própria perspectiva estreita, tornando-se artificialmente primitivos. (...) A instrução transmite conhecimento, mas também presume conhecimento”. 24


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O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura.

3. A Origem Divina e Humana das Escrituras A Bíblia não é um livro qualquer; a sua origem está em Deus que falou por meio de homens que ele mesmo separou para registrar a sua Palavra. Sabemos que a questão do caráter humano das Escrituras não é algo acidental ou periférico: os homens escolhidos por Deus para registrarem as Escrituras eram pessoas de carne e osso como nós, com personalidades diferentes, que viveram em determinado período histórico – num espaço de aproximadamente 1600 anos –, enfrentando problemas específicos, dispondo de determinados conhecimentos, etc.29 Aqui, sabemos, não há lugar para nenhum docetismo:30 os autores secundários tiveram um papel ativo e passivo.31 No entanto, devemos também acentuar, e este é o nosso ponto neste texto,32 que o Espírito chamou seus servos, revelou-se a si mesmo e a sua mensagem, dirigiu, inspirou33 e preservou os registros feitos por esses homens.

Encontramos uma abordagem útil e esclarecedora deste ponto em: Augustus Nicodemus Lopes, A Bíblia e seus Intérpretes, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 23-29. 30 Ver: Robert Laird Harris, Inspiração e Canonicidade da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 96. 31 Vejam-se: Hermisten M.P. Costa, Inspiração e Inerrância das Escrituras: Uma Perspectiva Reformada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998, p. 93ss.; Gordon R. Lewis, A Autoria Humana da Escritura Inspirada: In: Norman Geisler, org. A Inerrância Bíblica. São Paulo: Editora Vida, 2003, p. 268-312. (Especialmente, p. 287-312); J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 75-83. 32 Para uma perspectiva mais ampla, veja-se: Hermisten M.P. Costa, Inspiração e Inerrância das Escrituras: Uma Perspectiva Reformada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998. 33 Como sabemos, no Novo Testamento, a palavra “inspirada” é decorrente de uma tradução interpretativa do texto de 2Timóteo 3.16, que diz: “Toda Escritura é inspirada por Deus...”. A expressão “inspirada por Deus” provém de um único termo grego, Qeo/pneustoj, que só ocorre em 2Timóteo 3.16. (Não aparece na LXX). Todavia, a tradução que temos (Almeida, Revista e Atualizada), segue aqui a Vulgata, que traduz, “Divinitus Inspirata”. A palavra Qeo/pneustoj não significa “ins-pirado” mas, sim “ex-pirado”; ou seja, em vez de soprado para dentro, soprado para fora. Este adjetivo, comenta Colin Brown, “não significa qualquer modo específico de inspiração, tal qual alguma forma de ditado divino. Nem sequer dá a entender a suspensão das faculdades cognitivas normais dos autores humanos. Do outro lado, realmente quer dizer algo bem diferente da inspiração poética. É um erro omitir o elemento divino no termo, transmitido por theo (The New English Bible faz assim, ao traduzir a frase; ‘toda escritura inspirada’).(1) É claro que a expressão não dá a entender que algumas escrituras são inspiradas, enquanto outras não são. Todas as Sagradas Escrituras expressam a mente de Deus; fazem assim, no entanto, com o alvo da sua operação prática na vida”. (Colin Brown, Escritura: In: Colin Brown, org. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, Vol. II, p. 103-104). O que Paulo quer dizer, é que toda a Escritura Sagrada é soprada, exalada por 29


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O Espírito Santo habitou em certos homens, inspirou-os, e assim dirigiu-os que eles, em plena consciência, expressaram-se na sua singular maneira pessoal. O Espírito capacitou homens a conhecer e expressar a verdade de Deus. Ele impediu-os de incluir qualquer coisa que fosse contrária a essa verdade de Deus. Ele também impediu-os de escrever coisas que não eram necessárias. Assim, homens escreveram como homens, mas, ao mesmo tempo, comunicaram a mensagem de Deus, não a do homem.34

Esta compreensão que nos advém da própria Escritura caracteriza distintamente o Cristianismo: Os profetas não falaram aleatoriamente o que pensavam; antes, “testificaram a verdade de que era a boca do Senhor que falava por meio deles”.35 Ainda que Calvino não tenha detalhado este assunto no que se refere ao processo de inspiração, um conceito fica claro em seus escritos: os autores secundários das Escrituras não foram simplesmente autômatos; Deus se valeu livre e soberanamente de seus conhecimentos e personalidade. Porém, tudo que foi escrito o foi conforme a vontade de Deus. Os profetas e apóstolos tiveram em seus corações “gravada a firme

Deus. Ou, se tomarmos a palavra apenas no sentido passivo, diremos que “Deus em sua revelação é soprado pelas páginas das Escrituras”. Deste modo, podemos dizer que Deus é o Autor e o Conteúdo das Escrituras. Benjamin B. Warfield (1851-1921), comentando o texto de 2Timóteo 3.16, diz: “Numa palavra, o que se declara nesta passagem fundamental é, simplesmente, que as Escrituras são um produto divino, sem qualquer indicação da maneira como Deus operou para as produzir. Não se poderia escolher nenhuma outra expressão que afirmasse, com maior saliência, a produção divina das Escrituras, como esta o faz. (...) Paulo (...) afirma com toda a energia possível, que as Escrituras são o produto de uma operação especificamente divina” (B.B. Warfield, The Inspiration of the Bible, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House (The Work’s of Benjamin B. Warfield), 2000 (Reimpresso), Vol. I, p. 79. Podemos definir a Inspiração como sendo a influência sobrenatural do Espírito de Deus sobre os homens separados por ele mesmo, a fim de registrarem de forma inerrante e suficiente toda a vontade de Deus, constituindo este registro na única fonte e norma de todo o conhecimento cristão. Com isto, estamos dizendo que o Deus que se revelou, esteve “expirando” os homens que ele mesmo separou para registrarem esta revelação. A inspiração bíblica garante que seja registrado de forma veraz aquilo que a inspiração profética fazia com respeito à palavra do profeta, para que ela correspondesse literalmente à mente de Deus; em outras palavras: a Palavra escrita é tão fidedigna quanto a Palavra falada pelos profetas; ambas foram inspiradas por Deus. *** (1) De fato, assim lemos na The New English Bible: New Testament, Great Britain, Oxford University Press, 1961: “Every inspired scripture”. Mesmo equívoco comete ARC. Vd. uma boa discussão sobre este ponto In: Edwin A. Blum, The Apostles’ of Scripture: In: Norman L. Geisler, org. Inerrancy, Grand Rapids, Michigan: Zondervan Publishing House, 1980, p. 45ss. 34 Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento, Campinas, SP: Luz para o Caminho, 1995, p. 64-65. Veja-se também: J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 78-79. 35 João Calvino, As Pastorais, (2Tm 3.16), p. 262.


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certeza da doutrina, de sorte que fossem persuadidos e compreendessem que procedera de Deus o que haviam aprendido”.36 Em outro lugar: Eis aqui o princípio que distingue nossa religião de todas as demais, ou seja: sabemos que Deus nos falou e estamos plenamente convencidos de que os profetas não falaram de si próprios, mas que, como órgãos do Espírito Santo, pronunciaram somente aquilo para o qual foram do céu comissionados a declarar. Todos quantos desejam beneficiar-se das Escrituras devem antes aceitar isto como um princípio estabelecido, a saber: que a lei e os profetas não são ensinos passados adiante ao bel-prazer dos homens ou produzidos pelas mentes humanas como uma fonte, senão que foram ditados pelo Espírito Santo.37

Argumentando em prol do conceito de Calvino concernente à participação humana no registro das Escrituras, Puckett resume: “Os comentários de Calvino, sobre o estilo literário do texto bíblico, refletem sua crença que a mente dos autores humanos permaneciam ativas na produção da escritura. Ele atribui variações de estilos pelo fato de que vários escritores são responsáveis por diferentes porções da Bíblia. Ele rejeita a autoria Paulina

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João Calvino, As Institutas, I.6.2. João Calvino, As Pastorais, (2Tm 3.16), p. 262. Do mesmo modo: João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, Vol. 1, p. 29; John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reimpresso), Vol. 2 (Prefácio), p. 14; (Êx 3.1), p. 59; Vol. XVII (Jo) (Argumento), p. 22; João Calvino, As Institutas, IV.8.6). Em outro lugar Calvino diz que os Apóstolos foram “certos e autênticos amanuenses do Espírito Santo” (As Institutas, IV.8.9). No entanto, devemos entender que Calvino usa esta expressão não para sustentar o “ditado” divino, mas sim, para demonstrar que os apóstolos não criaram de sua própria imaginação a sua mensagem, antes, a receberam diretamente do Espírito. Ou seja, ele se refere ao resultado do registro, não ao processo em si. Entendia que Moisés escreveu os cinco livros da Lei “não somente sob a orientação do Espírito do Deus, mas porque Deus mesmo os tinha sugerido, falando-lhe com palavras de sua própria boca” [John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reimpresso), Vol. III, (Ex 31.18), p. 328. Vejam-se também: John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reimpresso), Vol. X (Jr 36.28), p. 352]. Veja-se uma boa exposição sobre este ponto em: B.B. Warfield, Calvin and Calvinism, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House (The Work’s of Benjamin B. Warfield), 2000 (Reimpresso), Vol. V, p. 63ss.; Edward J. Young, Thy Word Is Truth, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1957, p. 66-67; Wilson Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1985, p. 356-257; David L. Puckett, John Calvin’s Exegesis of the Old Testament, Louisville, Kentucky: Westminster John Knox Press (Columbia series Reformed Theological), 1995, p. 25ss. Curiosamente, o Concílio de Trento, na sua quarta sessão (08/04/1546), usa esta expressão para as Escrituras: “Spiritu Sancto dictante” (Ver: P. Schaff, The Creeds of Christendom, 6ª ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Revisada e ampliada), (1931), Vol. II, p. 80; Robert Laird Harris, Inspiração e Canonicidade da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 18 e 306).


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da epístola de Hebreus porque ele encontra estilos diferentes entre esta e as epístolas que ele crê serem genuinamente Paulinas”.38

Numa linha semelhante, resume Crampton: “A visão que Calvino mantinha sobre os autores da Escritura é que o Espírito Santo agiu neles em um caminho orgânico, em acordo com suas próprias personalidades, caráter, temperamentos, dons e talentos. Cada autor escreveu em seu próprio estilo, e todos eles foram movidos pelo Espírito Santo para escreverem a verdade infalível. Realmente cada estilo de autor foi nele mesmo produzido pela providência de Deus”.39

Nas Escrituras temos todos os Livros que Deus quis que fossem preservados40 para a nossa edificação: Aquelas [epístolas] que o Senhor quis que fossem indispensáveis à sua Igreja, ele as consagrou por sua providência para que fossem perenemente lembradas. Saibamos, pois, que o que foi deixado nos é suficiente, e que sua insignificância não é acidental; senão que o cânon da Escritura, o qual se encontra em nosso poder, foi mantido sob controle pelo grandioso conselho de Deus.41

4. A Igreja sob as Escrituras Calvino sempre manifestou um alto apreço pelas Escrituras; elas são “A Palavra pura de Deus”,42 a “Sagrada Palavra de Deus”,43 “Santa Palavra”,44 “Palavra da verdade”,45 “Palavra de Vida”,46 Infalível,47 que tem “segura

David L. Puckett, John Calvin’s Exegesis of the Old Testament, Louisville, Kentucky: Westminster John Knox Press (Columbia series Reformed Theological), 1995, p. 27. 39 W. Gary Crampton, What Calvin Says, Maryland: The Trinity Foundation, 1992, p. 23. 40 Ver João Calvino, As Institutas, I.8.10-12. 41 João Calvino, Efésios, (Ef 3.3), p. 86. 42 J. Calvino, As Institutas, IV.4.1; IV.8.9; IV.10.26. Fala também da “mui pura Palavra de Deus” (J. Calvino, As Institutas, II.16.8). 43 J. Calvino, As Institutas, I.18.3. 44 João Calvino, As Institutas, (1541), IV.15. 45 João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 12.7), p. 432. 46 João Calvino, As Institutas, (1541), II.7. João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 4.12), p. 110 47 João Calvino, As Pastorais, (1Tm 3.15), p. 98; As Institutas, IV.16.16; Exposição de Hebreus, Dedicatória, p. 14. 38


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credibilidade”:48 é íntegra.49 Por isso ela é a “Norma da fé”,50 “Infalível norma de Sua sacra vontade”.51 Esta Palavra, portanto, antecede a Igreja: “Se o fundamento da Igreja é a doutrina profética e apostólica, impõe-se a esta haver assistido certeza própria antes que aquela começasse a existir”.52 Portanto, como decorrência lógica, não é a Igreja que autentica a Palavra por sua interpretação,53 como a igreja romana sustentou em diversas ocasiões;54 “um testemunho humano falível (como o da igreja) não pode moldar o fundamento da divina fé”.55 É a Bíblia que se autentica a si mesma como Palavra de Deus revestida de autoridade56 e, é ele mesmo Quem nos ilumina para que possamos interpretá-la corretamente (Sl 119.18). “A carne não é capaz de tão alta sabedoria como é compreender a Deus e o que a Deus pertence, sem ser iluminada pelo Espírito Santo”.57 Por isso, o Espírito não pode ser separado da Palavra.58 Somente

João Calvino, As Institutas, I.8.1. João Calvino, As Pastorais, (1Tm 6.21), p. 187. 50 J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.14), p. 330. 51 João Calvino, Exposição de Hebreus, Dedicatória, p. 14. 52 J. Calvino, As Institutas, I.7.1. 53 Antes, é da Palavra que nasce a Igreja e é justamente pela fidelidade à Palavra que a Igreja de Cristo é reconhecida. (Vd. J. Calvino, As Institutas, I.7.1-2). 54 Como exemplo, citamos Stanilaus Hosius (1504-1579) que considerava a Bíblia como “propriedade da Igreja Católica” (Cf. Sudhoff, Hosius: In: Philip Schaff, org. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk & Wagnalls Publishers, (edição revista), 1887, Vol. II, p. 1024). Escrevendo contra Brentius [J. Brenz (1499-1570)?], Hosius disse que “As Escrituras têm tãosomente a mesma força que as fábulas do Esopo, se destituída da autoridade da igreja” (Apud Francis Turretin, Institutes of Elenctic Theology, Phillipsburg, New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1992, Vol. I, I.6.2. p. 86). Segundo citação de Turretin, Hosius “não hesitou em blasfemar ao dizer”: “Melhor seria para os interesses da igreja se jamais houvesse existido a Bíblia” (Apud Francis Turretin, Institutes of Elenctic Theology, Vol. I, p. 57). Johann Maier von Eck (1486-1543), amigo e depois severo oponente de Lutero, escreveu em 1525 que, “As Escrituras não são autênticas, exceto pela autoridade da igreja” (Enchirdion of Commonplaces, 1, Apud Turretin, Institutes of Elenctic Theology, I.6.2. p. 86). [Francis Turretin (1623-1687) cita diversos outros pronunciamentos feitos por católicos a respeito deste assunto. Vd. Institutes of Elenctic Theology, I.6.2. p. 86]. Notemos que aqui, nestas questões levantadas pelos católicos, não há uma negação da procedência das Escrituras, mas sim a afirmação da supremacia do subjetivo sobre o objetivo. Neste caso, a verdade não é o que é; ela é o que digo (no caso a Igreja Católica Romana diz) que ela seja... 55 Francis Turretin, Institutes of Elenctic Theology, 1.6.10. p. 89. 56 Ver: João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 4.12), p. 110. 57 João Calvino. As Institutas, II.2.19. 58 Zuínglio (1484-1531) dissera textualmente: “Entendo a Escritura somente na maneira em que ela interpreta a si mesma pelo Espírito Santo. Isso não requer nenhuma opinião humana” (Apud Timothy George, Teologia dos Reformadores, p. 129. Vejam-se as p. 126-130; Calvino: “A verdade de Deus não depende da verdade do homem” [João Calvino, Romanos, 2ª ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 3.4), p. 111]. Paul Tillich, História do Pensamento Cristão, São Paulo: ASTE., 1988, p. 234ss). Vd. Tomás de Aquino, Súmula contra os Gentios, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. VIII), 1973, VI, p. 69; J. Calvino, As Institutas, I.9.3; D.M. Lloyd-Jones, Vida No Espírito, São Paulo: PES., 1991., p. 126ss. 48 49


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pela operação divina poderemos reconhecer a sua origem divina bem como compreendê-la salvadoramente. “A suprema prova da Escritura se estabelece reiteradamente da pessoa de Deus nela a falar”.59 Portanto, a pretensão da igreja de subordinar a autoridade da Bíblia ao seu arbítrio consiste numa “blasfêmia”: “É chocante blasfêmia afirmar que a Palavra de Deus é falível até que obtenha da parte dos homens uma certeza emprestada”.60 Em outro lugar: “... a Palavra do Senhor é semente frutífera por sua própria natureza”.61 A Confissão Gaulesa (1559),62 redigida primariamente por Calvino (1509-1564), no Capítulo IV diz: Nós sabemos que esses livros [das Escrituras] são canônicos, e a regra segura de nossa fé (Sl 19.9; 12.7), não tanto pelo comum acordo e consentimento da Igreja quanto pelo testemunho e persuasão interior do Espírito Santo.

Na mesma linha, registra a Confissão de Westminster: ... A nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações (I.5). ... Reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das cousas reveladas na palavra... (I.6).63

Anglada resume bem este ponto, do seguinte modo: “O testemunho do Espírito não é uma nova luz no coração, mas a sua ação por meio da qual ele abre os olhos de um pecador, permitindo-lhe reconhecer a verdade que lá estava, mas não podia ser vista por causa da sua cegueira espiritual”.64 J. Calvino, As Institutas, I.7.4. Vd. também, As Institutas, I.9.3. João Calvino, As Pastorais, (1Tm 3.15), p. 98. 61 João Calvino, Exposição de 1Coríntios, (1Co 3.6), p. 103. Vejam-se dois estudos de Murray sobre a posição de Calvino a respeito das Escrituras e de sua Autoridade. John Murray, Calvin’s Doctrine of Scripture e Calvin and the Autority of Scripture: In: John Murray, Calvin as Theologian and Expositor, Carlisle, Pensilvânia: The Banner of Truth Trust, (Collected Writings of John Murray, Vol. IV), 1976, p. 158-175 e 176-190. Também: A.D.R. Polman, Calvino y la Inspiración de la Escritura: In: Jacob T. Hoogstra, compilador. Juan Calvino, Profeta Contemporáneo, Barcelona: CLIE., 1973, p. 99-114. 62 Como vimos, esta Confissão foi escrita por Calvino (1509-1564) e seu discípulo Antoine de la Roche Chandieu (De Chandieu) (1534-1591), provavelmente com a ajuda de T. Beza (1519-1605) e Pierre Viret (1511-1571). 63 Do mesmo modo diz a Confissão Belga (1561), Art 5. 64 Paulo Anglada, A Doutrina Reformada da Autoridade Suprema das Escrituras: In: Fides Reformata, São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 2/2 (1997), p. 124-125. 59 60


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Cabe a nós submeter o nosso juízo e entendimento à verdade de Deus conforme testemunhada pelo Espírito.65 A Palavra de Deus direcionada ao homem revela a seriedade com que Deus nos trata: “Sempre que o Senhor se nos acerca com sua Palavra, ele está tratando conosco da forma mais séria, com o fim de mover todos os nossos sentidos mais profundos. Portanto, não há parte de nossa alma que não receba sua influência”.66 5. Vida pela Escritura Ainda que a natureza revele o seu Criador, as Escrituras se constituem no meio eficaz estabelecido por Deus para nos comunicar o conhecimento de si mesmo iluminando os nossos olhos para enxergá-lo de modo salvador. A nossa capacidade simplesmente intelectual não conta nesta esfera: “O homem, com toda a sua astúcia, é tão estúpido para entender por si mesmo os mistérios de Deus, como um asno é incapaz de entender a harmonia musical”.67 A ação especial de Deus é que nos possibilita conhecê-lo: Visto que Deus se comunicou por sua Palavra de Vida a todos os que ele recebeu por sua graça, disso devemos inferir que os fez participantes da vida eterna. Eu digo que na Palavra de Deus há uma tal eficácia de vida que a sua comunicação é uma segura e certa vivificação da alma. Entendo por comunicação não a geral e comum, que se propaga por céus e terra e sobre todas as criaturas do mundo.68 Porque, conquanto esta vivifique todas as Ver: J. Calvino, As Institutas, I.7.5. João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 4.12), p. 108. 67 João Calvino, Exposição de 1Coríntios, (1Co 1.20), p. 60. 68 Conforme já citamos: “Nas coisas que ele criou, Deus, portanto, mantém diante de nós nítido espelho de sua esplendorosa sabedoria. Em resultado, qualquer indivíduo que desfrute de pelo menos uma minúscula fagulha de bom senso, e atenta para a terra e outras obras divinas, se vê aturdido por candente admiração por Deus. Se os homens chegassem a um genuíno conhecimento de Deus, pela observação de suas obras, certamente que viriam a conhecer a Deus de uma forma sábia, ou daquela forma de adquirir sabedoria que lhes é natural e apropriada” [João Calvino, Exposição de 1Coríntios, (1Co 1.21), p. 62]. “Em toda a arquitetura de seu universo, Deus nos imprimiu uma clara evidência de sua eterna sabedoria, munificência e poder; e embora em sua própria natureza nos seja ele invisível, em certa medida se nos faz visível em suas obras. O mundo, portanto, é com razão chamado o espelho da divindade, não porque haja nele suficiente clareza para que os homens alcancem perfeito conhecimento de Deus, só pela contemplação do mundo, mas porque ele se faz conhecer aos incrédulos de tal maneira que tira deles qualquer chance de justificarem sua ignorância. (...) O mundo foi fundado com esse propósito, a saber: para que servisse de palco à glória divina” [João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 11.3), p. 300-301]. “Existe diante de nossos olhos, em toda a ordem da natureza, os mais ricos elementos a manifestarem a glória de Deus, mas, visto que somos inquestionavelmente mais poderosamente afetados com o que nós mesmos experimentamos. Davi, neste salmo, com grande propriedade, 65 66


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coisas conforme a sua respectiva natureza diversa, todavia não livra nada nem ninguém da corrupção. Mas a comunicação a que me refiro é especial, e por esta a alma dos crentes é iluminada no conhecimento de Deus e de algum modo é ligada a ele.69

2. O “Balbuciar” de Deus e o Testemunho do Espírito “Não há nada no próprio Deus que escape ao seu Espírito” – João Calvino.70

1. A Acomodação Graciosa de Deus Para Calvino, a “Revelação é um ato de condescendência divina”.71 Ele entendia que Deus, na sua Palavra, “se acomodava à nossa capacidade”,72 balbuciando a sua Palavra a nós como as amas fazem com as crianças.73 Deus se vale de analogias, recorrendo a metáforas – comparando-se a um leão, expressamente celebra o favor especial que Deus manifesta no interesse da humanidade. Posto que este, de todos os objetos que se acham expostos à nossa contemplação, é o mais nítido espelho no qual podemos contemplar sua glória” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 8.1), p. 356]. 69 João Calvino, As Institutas, (1541), II.7. 70 João Calvino Exposição de 1Coríntios, (1Co 2.11), p. 88. 71 Alister E. McGrath, Historical Theology: An Introduction to the History of Christian Thought, Massachusetts: Blackwell Publishers, 1998, p. 210. A Confissão de Westminster fala também da “condescendência” de Deus em firmar um Pacto com o homem caído (Ver: Confissão de Westminster, VII.1). 72 J. Calvino, Exposição de 1Coríntios (1Co 2.7), p. 82. “Não podemos compreender plenamente a Deus em toda a sua grandeza, mas que há certos limites dentro dos quais os homens devem manter-se, embora Deus acomode à nossa tacanha capacidade toda declaração que faz de si mesmo. Portanto, somente os estultos é que buscam conhecer a essência de Deus” [João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Edições Paracletos, 1997 (Rm 1.19), p. 64]. “O Espírito Santo propositadamente acomoda ao nosso entendimento os modelos de oração registrados na Escritura” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 13.3), p. 265]. “Porque se viesse a nós em sua majestade estaríamos perdidos; porém quando se nos apresenta por meio de homens se acomoda a nossas debilidades para que possamos conhecer mais convenientemente sua verdade a qual ele nos propõe” [Juan Calvino, Autoridad y Reverencia que Debemos a la Palabra de Dios: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 17), p. 212]. “Este é aquele arrependimento tão amiúde referido nas Escrituras. Não que Deus seja em si mutável, mas ele usa a linguagem humana para que sejamos afetados com o mais profundo senso de sua ira” [J. Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, Vol. 3, (Sl 106.23), p. 685]. “O Espírito Santo não teve intenção de ensinar astronomia; e, com o propósito de instruir procurou ser comum às pessoas mais simples e iletradas” [John Calvin, Commentary on the Book of Psalms, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House (Calvin’s Commentaries, Vol. VI/4), 1996 (Reimpresso), (Sl 136.7), p. 184]. Veja-se: James Orr, Ciência e Fé Cristã: In: R.A. Torrey, org. Os Fundamentos (Edição atualizada por L. Feinberg). São Paulo: Hagnos Editora, 2005, p. 129-139. Ver também: Herman Bavinck, Reformed Dogmatics: Volume 1: Prolegomena, Grand Rapids, Michigan: Baker Academic, 2003, p. 214. 73 Calvino usou deste recurso hermenêutico para explicar assuntos aparentemente contraditórios na Bíblia. Falando sobre os antropomorfismos bíblicos, diz em lugares diferentes: “Pois quem, mesmo que de bem parco entendimento, não percebe que Deus assim conosco fala como que a balbuciar, como as amas costumam fazer com as crianças? Por isso, formas de expressão que tais não exprimem, de maneira clara e precisa, tanto que Deus seja, quanto lhe acomodam o conhecimento à paucidade da compreensão nossa. Para que assim se dê, necessário lhe é descer muito abaixo de sua excelsitude” (J. Calvino, As Institutas, I.13.1). “A descrição que dele se nos outorga tem de acomodar-se-nos à capacidade, para que seja de nós entendida. Esta é, na verdade,


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ao urso e ao homem –, visando ser entendido por nós. “Deus não pode se revelar a nós de nenhuma outra maneira do que não por meio de comparações com coisas que conhecemos...”.74 Por exemplo, quando Deus se compara a um homem embriagado – “excitado pelo vinho” (Sl 78.65) –, assumindo um caráter totalmente estranho ao seu, Calvino diz que ele se acomoda “à estupidez do povo”.75 Ou seja: Deus adapta-se à linguagem humana e “ao nível humano de compreensão”.76 “... Deus, acomoda-se ao nosso modo ordinário de falar por causa de nossa ignorância, às vezes também, se me é permitida a expressão, gagueja”.77 Resumindo: “Em Cristo, Deus, por assim dizer, tornou-se pequeno, para acomodar-se à nossa compreensão”.78 “O Senhor Jesus (...) acomoda de algum modo suas palavras à capacidade deles...”.79 Portanto, quando lemos as Escrituras, “somos arrebatados mais pela dignidade do conteúdo que pela graça da linguagem”.80 Calvino oba forma de acomodar-se: que tal se nos represente, não qual é em si, porém, qual é possível de ser de nós apreendido” (J. Calvino, As Institutas, I.17.13). Ver também: João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 13.3), p. 265; Vol. 2, (Sl 50.14), p. 409; Vol. 3, (Sl 78.65), p. 241; (Sl 91.4), p. 447; (Sl 93.2), p. 474; (Sl 106.23), p. 685; As Institutas, I.14.3,11; I.16.9; IV.17.11; As Institutas, (1541) III.8. Deste princípio derivado da Retórica (Cf. Alister E. McGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 154ss.) ele tirou um princípio pedagógico: “Um sábio mestre tem a responsabilidade de acomodar-se ao poder de compreensão daqueles a quem ele administra o ensino, de modo a iniciar-se com os princípios rudimentares quando instrui os débeis e ignorantes, não lhes dando algo que porventura seja mais forte do que podem suportar” [J. Calvino, Exposição de 1Coríntios (1Co 3.1), p. 98-99. Ver também: João Calvino, As Pastorais (2Tm 2.15), p. 235]. Hooykaas sustenta que a “teoria da acomodação de Calvino” exerceu poderosa influência sobre os astrônomos protestantes (Ver: R. Hooykaas, A Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna, Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1988, p. 160ss.; Alister E. McGrath, Historical Theology: An Introduction to the History of Christian Thought, Massachusetts: Blackwell Publishers, 1998, p. 210. Em que pese o marxismo do autor, veja-se a obra publicada recentemente em português de Christopher Hill, A Bíblia Inglesa e as Revoluções do Século 17, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 43ss). 74 John Calvin, “Commentary on the Book of the Prophet Isaiah,” John Calvin Collection [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), (Is 40.18), p. 64. 75 João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 3 (Sl 78.65), p. 241. 76 John H. Gerstner, A Atitude da Igreja Perante a Bíblia: Calvino e os Teólogos de Westminster: In: Norman Geisler, org. A Inerrância Bíblica. São Paulo: Editora Vida, 2003, p. 477. Veja-se também: Alister E. McGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 154ss. 77 John Calvin, Commentary on the Gospel According to John, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House (Calvin’s Commentaries, Vol. XVIII), 1996 (Reprinted), (Jo 21.25), p. 299. 78 John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reimpresso), Vol. XXII (1Pe 1.21), p. 54. Parker interpretando Calvino, diz: “... Os pensamentos e a linguagem de Deus são incompreensíveis ao homem. Mas revelação só é revelação se ela for compreensível. Portanto, os pensamentos e a linguagem de Deus devem tornar-se compreensíveis e isso acontece quando Deus, para dizer assim, os traduz em pensamentos e linguagem humanos” (T.H.L. Parker, Calvin´s New Testament Commentaries, 2ª ed. Louisville, Kentucky: Westminster/John Knox Press, 1993 p. 94). 79 João Calvino, As Institutas, (1541), II.7. 80 J. Calvino, As Institutas, I.8.1. Calvino continua: “Ora, e não sem a exímia providência de Deus isto se faz, que sublimes mistérios do reino celeste fossem, em larga medida transmitidos em termos de linguagem apoucada e sem realce, para que houvessem eles de ser adereçados em mais esplendorosa eloquência, os ímpios não alegassem cavilosamente que a só força desta aqui impera.


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serva, contudo, que sempre os homens procuram uma desculpa para a sua impiedade: “Se Deus, acomodando-se à tacanha capacidade dos homens, fala num estilo humilde e acessível, esse método de ensino é desprezado como simples demais; porém, se ele se manifesta num estilo mais elevado, com vistas a imprimir maior autoridade à sua Palavra, os homens, com o intuito de eximir-se de sua ignorância, dirão que ela é obscura demais. Como esses dois vícios são por demais prevalecentes no mundo, o Espírito Santo assim tempera seu estilo, para que a sublimidade das verdades que ele ensina não fique oculta daqueles que porventura sejam de uma capacidade mais débil, contanto que sejam de uma disposição submissa e dócil e tragam consigo um desejo solícito de ser instruídos”.81 2. O Espírito & a Palavra: inseparáveis Toda a teologia de Calvino está fundamentada numa nova epistemologia na qual a Palavra e o Espírito suprem a nossa necessidade de conhecer a Deus. A fé vem pelo ouvir da Palavra (Rm 10.17). Contudo, não há fé até que o Espírito sele em nossos corações a Palavra.82 Desta compreensão decorre toda a sua formulação teológica e pastoral. Em suma: a sua espiritualidade está solidamente alicerçada neste fundamento. “É somente sob a direção do Espírito que tomamos posse de Cristo e de todos os seus benefícios”.83 Esses pontos tornam o homem inescusável e realçam a relevância das Escrituras para a vida cristã. Ele diz: “Ora, primeiro, com sua Palavra nos ensina e instrui o Senhor; então, com os sacramentos no-la confirma; finalmente, com a luz de seu Santo Espírito a mente nos ilumina e abre acesso em nosso coração à Palavra e aos sacramentos, que, de outra sorte, apenas feririam os ouvidos e aos olhos se apresentariam, mas, longe estariam de afetar-nos o íntimo”.84 Aqui temos um paradoxo: A Palavra acomodatícia de Deus permanece, entretanto, como algo misterioso para os que não creem “Agora, quando essa não burilada e quase rústica simplicidade provoca maior reverência de si que qualquer eloquência de retóricos oradores, que é de julgar-se, senão que a pujança da verdade da Sagrada Escritura tão sobranceira se estadeia, que não necessite do artifício das palavras?” (J. Calvino, As Institutas, I.8.1). No entanto, ele também entendia que “alguns Profetas têm um modo de dizer elegante e polido, até mesmo esplendoroso, assim que a eloquência lhes não cede aos escritores profanos” (J. Calvino, As Institutas, I.8.2). 81 João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 3, (Sl 78.3), p. 198. 82 Cf. John Calvin, Commentary on the Gospel According to John, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House (Calvin’s Commentaries, Vol. XVIII), 1996 (Reprinted), (Jo 15.27), p. 131. 83 João Calvino, Exposição de 2Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 13.13), p. 271. 84 J. Calvino, As Institutas, IV.14.8. Vd. também J. Calvino, Exposição de Romanos (Rm 10.16), p. 373-374.


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ou que desejam entendê-la por sua própria sabedoria pois, os “tesouros da sabedoria celestial”, acham-se fora “do alcance da cultura humana”.85 Todos somos incapazes de entender os “mistérios de Deus” até que ele mesmo por sua graça nos ilumine.86 “A Palavra de Deus é uma espécie de sabedoria oculta, a cuja profundidade a frágil mente humana não pode alcançar. Assim, a luz brilha nas trevas, até que o Espírito abra os olhos ao cego”.87 “De nenhum efeito é a Palavra sem a iluminação do Espírito Santo”.88 O Espírito que vocaciona, revela e inspira, é o mesmo que testifica em nossos corações a respeito da autoridade bíblica e nos faz compreender a Palavra: O mesmo Espírito que deu certeza a Moisés e aos profetas de sua vocação, também agora testifica aos nossos corações de que ele tem feito uso deles como ministros por meio de quem somos instruídos. E assim não é de estranhar que muitos ponham em dúvida a autoridade da Escritura. Pois ainda que a majestade divina esteja exibida nela, somente aqueles que têm sido iluminados pelo Espírito possuem olhos para ver o que deveria ser óbvio a todos, mas que, na verdade, é visível somente aos eleitos. Eis o significado da primeira cláusula, a saber: que devemos à Escritura a mesma reverência devida a Deus, já que ela tem nele sua única fonte, e não existe nenhuma origem humana misturada nela.89

Portanto, “Se Deus nos ilumina pelo seu Espírito Santo, nós julgaremos a doutrina e discerniremos de tal maneira que não poderemos ser enganados por nenhuma de todas as tentações de Satanás.”90 “Da mesma forma, ‘a Palavra’ não pode ser separada ‘do Espírito’, como imaginam os fanáticos, que, desprezando a Palavra, ufanam-se do nome do Espírito, e incrementam coisas, como confidenciais, em suas próprias imaginações. É o espírito de Satanás que é separado da Palavra, a qual o Espírito de Deus está continuamente unido”.91 J. Calvino, Exposição de Romanos (Rm 16.21), p. 522. Cf. João Calvino, As Institutas, II.2.21. 87 João Calvino, Exposição de 1Coríntios, (1Co 2.11), p. 89. 88 João Calvino, As Institutas, III.2.33. 89 João Calvino, As Pastorais, (2Tm 3.16), p. 262-263. 90 Juan Calvino, Autoridad y Reverencia que Debemos a la Palabra de Dios: In: Sermones sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 17), p. 208. 91 John Calvin, Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, (Calvin’s Commentaries), 1996, Vol. VIII/4, (Is 59.21), p. 271. 85 86


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Portanto, quando o Espírito aplica a Palavra ao nosso coração, ele produz a sua boa obra em nós, gerando a fé salvadora que se direciona para Cristo e para os feitos de sua redenção. O Comentário de Romanos – o primeiro de sua lavra –, não foge a este princípio: o reconhecimento de que é o Espírito Quem deve nos guiar na compreensão das Escrituras. E, o conselho que o próprio Calvino emitiu no Prefácio à edição francesa das Institutas (1541), permanece para todas as suas obras também como princípio avaliador de qualquer labor humano: “Importa em tudo quanto exponho recorrer ao testemunho da Escritura, que aduzo para ajuizar da procedência e justeza do que afirmo”. Em outras palavras, a autoridade daquilo que dizia era relativa. A autoridade do teólogo é decorrente de sua seriedade para com a Palavra e interpretação fidedigna. Somente as Escrituras são absolutas. A teologia tem como propósito principal nos ajudar a compreender as Escrituras.92 O valor da teologia está na mesma proporção de seu auxílio na interpretação da Palavra de Deus. Por trás desta questão está a compreensão da teologia como sendo “éctipa”. A Teologia nunca é “arquétipa”93 mas sim “éctipa”;94 ela não é gerada pelo esforço de nossa observação de Deus, mas sim o resultado da revelação soberana e pessoal de Deus. Uma “Teologia Arquétipa” – se é que podemos falar deste modo –, pertence somente a Deus, porque somente Ele Se conhece perfeitamente tendo, inclusive, ciência completa do seu conhecimento perfeito. Por isso, a Teologia sempre será o efeito da ação reveladora, inspiradora e iluminadora de Deus por meio do Espírito; a Teologia nunca é a causa primeira; sempre é o efeito da ação primeira de Deus em revelar-se. “No princípio Deus...”, isto deve ser sempre considerado em todo e qualquer enfoque que dermos à realidade. Deus se revela e se interpreta por meio do Espírito; e é somente

Ver: Thomas F. Torrance, The Hermeneutics of John Calvin, p. 70-71. A. Kuyper, Principles of Sacred Theology, § 60, p. 257ss. Ver também: Herman Bavinck, Reformed Dogmatics: Volume 1: Prolegomena, p. 212. Esta distinção, ao que parece, originou-se com o teólogo Polanus (1561-1610) (Cf. Richard A. Muller, Post-Reformation Reformed Dogmatics, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1987, Vol. 1, p. 126-127). 94 ”Éctipo” é uma palavra de derivação grega, “e)/ktupoj” (cópia de um modelo, ou reflexo de um arquétipo), passando pelo latim “ectypus” (feito em relevo, saliente). “Éctipo” é o oposto a arquétipo (do grego, “a)rxe/tupoj”, “original”, “modelo”). Na filosofia, G. Berkeley (1685-1753) estabeleceu esta distinção no campo das ideias: “Pois acaso não admito eu um duplo estado de coisas, a saber: um etípico, ou natural, ao passo que o outro é arquetípico e eterno? Aquele primeiro foi criado no tempo; e este segundo desde todo o sempre existiu no espírito de Deus” (G. Berkeley, Três Diálogos entre Hilas e Filonous, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. XXII), 1973, 3º Diálogo, p. 119). 92 93


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por intermédio dele que poderemos ter um genuíno conhecimento de Deus. A teologia sempre é relativa: “relativa à revelação de Deus. Deus precede e o homem acompanha. Este ato seguinte, este serviço, são pensamentos humanos concernentes ao conhecimento de Deus”.95 A Teologia não termina em conhecimento teórico e abstrato, antes se plenifica no conhecimento prático e existencial de Deus por meio da sua Revelação nas Escrituras Sagradas, mediante a iluminação do Espírito. Conhecer a Deus é obedecer a seus mandamentos. “A boa teologia desloca-se da cabeça até o coração e, finalmente, até a mão”.96 A Teologia não pode ser um estudo descompromissado feito por um transeunte acadêmico; ela é função da Igreja Cristã, dentro da qual estamos inseridos. “Estudamos dogmática como membros da Igreja, com a consciência que temos uma incumbência dada por ela um serviço a lhe prestar, devido a uma compulsão que pode originar-se somente no seu interior”.97 “Pensamento dogmático não é somente pensar sobre a fé, é um pensar crendo”, conclui Brunner (1889-1966).98 O valor da teologia está na mesma proporção de seu auxílio na interpretação da Palavra de Deus. Ainda que Calvino recorresse às interpretações dadas aos textos no decorrer da história da igreja, o foco da autoridade estava nas Escrituras. Calvino sustentava que o mesmo Espírito que inspirou o registro das Escrituras, nos convence da autoridade de sua Palavra, concedendo-nos discernimento espiritual. O testemunho do Espírito é mais relevante e eficaz do que qualquer argumento ou arrazoado humano. Comentando 1Coríntios 2.11, interpreta: Paulo, aqui, pretende ensinar duas coisas: 1) que o ensino do evangelho só pode ser entendido pelo testemunho do Espírito Santo; e 2) que a segurança daqueles que possuem tal testemunho do Espírito Santo é tão forte e firme, como se o que creem pudesse realmente ser tocado com suas mãos e isto em razão do fato de que o Espírito é uma testemunha fiel e confiável.99 Karl Barth, The Faith of the Church: A Commentary on Apostle’s Creed According to Calvin’s Catechism, Great Britain: Fontana Books, 1960, p. 27. 96 Stanley J. Grenz & Roger E. Olson, Quem Precisa de Teologia? Um convite ao estudo sobre Deus e sua relação com o ser humano, p. 51. 97 Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, Vol. 1, p. 15. 98 Emil Brunner, Dogmática, Vol. 1, p. 18. 99 João Calvino, Exposição de 1Coríntios (1Co 2.11), p. 88. 95


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Em outro lugar: “A genuína convicção que os crentes têm da Palavra de Deus, acerca de sua própria salvação e de toda a religião, não emana das percepções da carne, ou de argumentos humanos e filosóficos, e, sim da selagem do Espírito, o que faz suas consciências mais seguras e todas as dúvidas resolvidas”.100 A Palavra de Deus jamais poderá ser recebida salvadoramente sem o ensino do Espírito; é ele Quem de fato abre as Escrituras diante dos nossos olhos, nos capacitando a enxergar o evangelho da glória de Deus. Comentando o texto de 2Pedro 1.3, diz: A causa eficaz de fé não é a perspicácia de nossa mente, mas a vocação de Deus. E ele [Pedro] não se refere somente à vocação externa, que é em si mesma ineficaz; mas à vocação interna, realizada pelo poder secreto do Espírito, quando Deus não somente emite sons em nossas orelhas pela voz do homem, mas, pelo seu próprio Espírito atrai intimamente nossos corações para ele mesmo.101

Conforme vimos, a autoridade da Palavra não depende do testemunho de nenhum homem ou instituição, antes, baseia-se na autoridade divina do seu autor que nos fala por meio da Escritura: “a credibilidade da doutrina se não firma antes que se nos persuada além de toda dúvida de que seu autor é Deus. Destarte, a suprema prova da Escritura se estabelece reiteradamente da pessoa de Deus nela falar”.102 Portanto, não é o testemunho interno do Espírito, sem dúvida fundamental para a compreensão das Escrituras, que a tornam revestida de autoridade; antes a sua autoridade é proveniente da inspiração divina que a produziu e a preservou pelo Espírito. Portanto, o Espírito e a Palavra são inseparáveis.103 Sem a inspiração do Espírito não haveria o registro da Palavra; sem a iluminação do Espírito jamais seríamos persuadidos de sua autenticidade e nunca poderíamos compreender salvadoramente a revelação de Deus. Na Palavra temos uma ação retroalimentadora: O Espírito nos conduz à Palavra; a Palavra nos instrui sobre o Espírito. João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998 (Ef 1.13), p. 36. John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1996 (reimpressão), Vol. 22, (2Pe 1.3), p. 369. 102 João Calvino, As Institutas, I.7.4. 103 Cf. João Calvino, As Institutas, I.9.3. Veja-se B.B. Warfield, Calvin and Augustine, Michigan: Baker Book House (The Work’s of Benjamin B. Warfield), 2000 (Reimpressão), Vol. V, p. 79ss. 100 101


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No entanto, não nos enganemos. Calvino não ignorava os argumentos em prol da autoridade bíblica; ele simplesmente entendia que sem a iluminação do Espírito estes argumentos, por mais razoáveis que fossem (e ele os considerava convincentes), não produziria um conhecimento salvador. Em síntese: sem o Espírito, não haveria evidência objetiva que se tornasse persuasiva ao homem. Gerstner interpreta: “O papel do Espírito Santo não é alterar a evidência (de insatisfatória para satisfatória) mas, sim, mudar as atitudes dos homens, da resistência à verdade para a submissão a ela. (...) Calvino não ensina que o Espírito é a evidência em prol da inspiração da Bíblia. Tudo quanto faz é levar as pessoas a crerem na evidência”.104 Do mesmo modo Sproul interpretando Calvino: Para Calvino, o testemunho do Espírito Santo não é um sussurro interior trazendo uma nova informação ou um truque interno que transforme um argumento fraco em um bom argumento. O testemunho interno não nos leva a crer em oposição a uma evidência; ele trabalha em nossos corações para levar-nos à rendição diante de uma evidência objetiva. (...) O Espírito leva-nos a sermos persuadidos pela prova.105

Calvino, o teólogo da Palavra e do Espírito, escreveu magistralmente sobre este ponto: O testemunho do Espírito é superior a todos os argumentos. Deus na sua Palavra é a única testemunha adequada a respeito de si mesmo e, de maneira semelhante, sua Palavra não será verdadeiramente crida nos corações dos homens até que tenha sido selada pelo testemunho do seu Espírito. O mesmo Espírito que falou por meio dos profetas deve entrar em nosso coração para convencer-nos que eles entregaram fielmente a mensagem que Deus lhes deu. (...) Sendo iluminados pelo seu poder, já não devemos ao nosso próprio juízo, nem ao de outros, o fato de crermos que as Escrituras vêm da parte de Deus; mas, por razões além do julgamento humano temos perfeita certeza, como se nelas contemplássemos a glória do próprio Deus, que elas foram transmitidas a nós da própria boca de Deus, pela instrumentalidade John H. Gerstner, A Doutrina da Igreja sobre a Inspiração Bíblica: In: James M. Boice, org. O Alicerce da Autoridade Bíblica, São Paulo: Vida Nova, 1982, p. 41. 105 R.C. Sproul, A Alma em Busca de Deus, São Paulo: Eclésia, 1998, p. 62. 104


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dos homens. Não procuramos argumentos ou probabilidades sobre os quais fundamentar nosso julgamento, mas sim sujeitamos nosso julgamento e nosso intelecto a elas como sendo algo acima e além de toda disputa. Nossa convicção, portanto, é tal que não requer argumentos; nosso conhecimento é tal que é consistente com o melhor dos argumentos; porque nelas a mente descansa com mais segurança e firmeza do que em quaisquer argumentos.106

Comentando o salmo 62: “Toda palavra que foi pronunciada por Deus deve ser recebida com autoridade implícita, e não a aprovação dada à abominável prática da recusa de receber uma doutrina, a menos que seja apoiada por dois ou três textos da Escritura”.107

Em outro lugar, Calvino disse: Deus não deu a conhecer a Palavra aos homens com vistas a momentânea apresentação, assim que de pronto a abolisse com a vinda de seu Espírito; pelo contrário, enviou o mesmo Espírito, pelo poder de Quem havia dispensado a Palavra, para que realizasse sua obra mediante a eficaz confirmação dessa mesma Palavra. Desta forma, Cristo abriu o entendimento aos dois discípulos de Emaús (Lc 24.27,45), não para que, postas de parte as Escrituras, se fizessem sábios de si mesmos, mas para que entendessem essas Escrituras.108 De modo semelhante, Paulo, enquanto exorta aos tessalonicenses a que não extingam o Espírito, não os arrebata às alturas, a vãs especulações à parte da Palavra, mas imediatamente acrescenta que as profecias não deveriam ser desprezadas (1Ts 5.19,20).109 Com o que

J. Calvino, As Institutas da Religião Cristã, São Paulo: PES, 1984 (Resumo feito por J.P. Wiles), I.7. p. 40. (Vejam-se, J. Calvino, As Institutas, I.7.4-5). Hesselink diz que “a contribuição mais original e duradoura de Calvino para uma compreensão evangélica da natureza e da autoridade da Escritura foi sua doutrina do testemunho interno do Espírito Santo” (I. John Hesselink, O Movimento Carismático e a Tradição Reformada. In: Donald K. McKim, org. Grandes Temas da Tradição Reformada, p. 339). 107 João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2 (Sl 62.11), p. 582. 108 Sproul comenta: “Aqui a Palavra de Deus encarnada explica a Palavra de Deus escrita” (R.C. Sproul, A Alma em Busca de Deus, p. 71). 109 Comentando 1Coríntios 11.4, Calvino explica o que entende por profecia: “Explicar os mistérios de Deus visando à instrução daqueles que ouvem” [João Calvino, Exposição de 1Coríntios, (1Co 11.4), p. 331-332]. Em outro lugar: “Profecia é simplesmente o correto entendimento da Escritura e o dom particular de explicá-la, 106


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acena, longe de dubiamente, que a luz do Espírito é sufocada assim que em desprezo vêm as profecias.110

Em resposta ao Cardeal Sadoleto, Calvino diz: “... Hás sido castigado pela injúria que fizeste ao Espírito Santo, separando-o e dividindo-o da Palavra. (...) Aprende, pois, por tua própria falta, que é tão insuportável vangloriar-se do Espírito sem a Palavra, como desagradável o preferir a Palavra sem o Espírito”.111 Comentando 1Coríntios 2.11, arremata: “Não há nada no próprio Deus que escape ao seu Espírito”.112

visto que todas antigas profecias e todos os oráculos divinos já foram concluídos em Cristo e seu evangelho” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 12.6), p. 431]. Portanto, o profeta é “o mensageiro de Deus aos homens”. [João Calvino, Exposição de 1Coríntios (1Co 12.10), p. 378]. Desse modo, “a profecia não é o dom da predição” [João Calvino, Exposição de 1Coríntios, (1Co 14.3), p. 410. Do mesmo modo, ver: João Calvino, Exposição de 1Coríntios (1Co 12.28), p. 390]. Podemos perceber então que a profecia tem uma ligação dupla e indissolúvel. A sua fonte é a Palavra de Deus; na outra ponta, temos o seu objetivo especial: a edificação da Igreja [João Calvino, Exposição de 1Coríntios (1Co 14.22), p. 425] e, de modo geral, o bem de todos [João Calvino, Exposição de 1Coríntios (1Co 14.24), p. 426-427]. “Um profeta será o intérprete e ministro da revelação. (...) [A] profecia não consiste na simples interpretação da Escritura, mas também inclui o conhecimento para fazer aplicação às necessidades do momento, e isto só pode ser obtido por meio da revelação e da influência especial de Deus” [João Calvino, Exposição de 1Coríntios (1Co 14.6), p. 413]. 110 J. Calvino, As Institutas, I.9.3. 111 Juan Calvino, Respuesta al Cardeal Sadoleto, p. 30 (Vd. também, a p. 29). 112 João Calvino Exposição de 1Coríntios (1Co 2.11), p. 88.


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Rev. Boanerges Ribeiro (1919-2003): Uma Vida a Serviço da Igreja Presbiteriana do Brasil

Rev. Alderi Souza de Matos O autor obteve o grau de Mestre em Teologia Sagrada (STM) na Escola de Teologia Andover Newton Doutor em Teologia (ThD) na Escola de Teologia da Universidade de Boston Professor de teologia histórica no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper Historiador da Igreja Presbiteriana do Brasil Autor de diversos livros. Integra a equipe pastoral da Igreja Presbiteriana Paulistana.

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Rev. Boanerges Ribeiro (1919-2003): Uma Vida a Serviço da Igreja Presbiteriana do Brasil

Resumo O propósito deste artigo é oferecer uma síntese da vida e contribuições do Rev. Boanerges Ribeiro (1919-2003), um dos mais importantes personagens da Igreja Presbiteriana do Brasil na segunda metade do século 20. Depois de descrever o ingresso dos antepassados do personagem na igreja presbiteriana, o autor aborda sucessivamente sua formação religiosa e intelectual, seu trabalho como pastor e líder eclesiástico, e suas contribuições como intelectual, educador e historiador. O texto não se propõe a analisar a atuação do Rev. Boanerges num dos períodos mais conturbados da história do Brasil e da igreja presbiteriana, e sim destacar alguns pontos salientes de sua biografia. Palavras-chave Boanerges Ribeiro; Igreja Presbiteriana do Brasil; Supremo Concílio; protestantismo brasileiro; história da igreja; José Manoel da Conceição. Abstract The aim of this article is to offer a synthesis of the life and contributions of Rev. Boanerges Ribeiro (1919-2003), one of the most prominent characters in the Presbyterian Church of Brazil during the second half of the twentieth century. After describing how Ribeiro’s forebears became Presbyterians, the author deals successively with his religious and intellectual training, his work as a pastor and church leader, and his contributions as an intellectual, educator, and historian.

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The purpose of the article is not to analyze Ribeiro’s actions during one of the most controversial periods in the history of Brazil and the Presbyterian church, but to highlight some meaningful aspects of his biography. KEYWORDS Boanerges Ribeiro; Presbyterian Church of Brazil; General Assembly; Brazilian Protestantism; Church History; José Manoel da Conceição.


Re v. Boanerges Ribeiro (1919-2003)

No dia 19 de fevereiro de 2003, às 17h45, com a presença de familiares e alguns amigos, o corpo do Rev. Boanerges Ribeiro foi sepultado no histórico Cemitério dos Protestantes, em São Paulo, o mesmo em que se encontram os restos mortais dos Revs. Simonton, Conceição e tantos outros personagens que o falecido admirava e sobre os quais escreveu muitas vezes. Na mesma tarde, às 15h00, foi realizado um culto de ação de graças pela vida do Rev. Boanerges na Igreja Presbiteriana do Calvário, no Campo Belo, culto esse que contou com a presença de mais de quinhentas pessoas, entre as quais o presidente e o secretário executivo do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil. Foi dirigido pelo pastor da igreja e genro do homenageado, Rev. Paulo Viana de Moura.

Antecedentes Boanerges pertenceu à quarta geração de uma família presbiteriana do oeste de Minas. Tanto o seu bisavô paterno quanto o materno foram evangelizados pelo jovem missionário Rev. George Wood Thompson (1863-1889), falecido prematuramente, companheiro de viagens do pioneiro John Boyle. Um dos locais visitados por Thompson no leste do Triângulo Mineiro foi Lagoa Formosa de Patos, onde foi hospedado por Saint-Clair Justiniano Ribeiro, bisavô paterno do Rev. Boanerges. Toda a família veio a converter-se, dando início a uma igreja presbiteriana. O mesmo ocorreu em São Francisco das Chagas do Campo Grande, hoje Rio Paranaíba, perto da nascente desse importante rio, onde Thompson pregou na fazenda de Cristiano da Rocha, um dos patriarcas locais, bisavô materno do Rev. Boanerges. Thompson informou que foi precedido nessa região pela Bíblia e por exemplares do jornal O Evangelista, recebidos por membros dessa família e por eles lidos e aceitos. Saint-Clair (1844-1920) e sua esposa Francisca Beatriz tiveram nove filhos, dos quais o primogênito foi Alípio (1870-1960). Este se casou com Ana Januária dos Santos e teve treze filhos, o segundo dos quais foi Adiron Justiniano Ribeiro Sobrinho. Adiron nasceu em 23 de maio de 1895 e teve uma vida agitada. Na mocidade dedicou-se por algum tempo ao garimpo de diamantes, embrenhando-se pelo sertão. Não ganhou dinheiro com isso, mas prejudicou permanentemente a saúde. Pelo resto da vida cultivou o sonho dos diamantes: quando via um riacho pedregoso,

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fosse onde fosse, sentia vontade de pegar uma bateia e tentar a sorte. Por volta de 1918, casou-se em Rio Paranaíba com Inácia Alves Rocha, filha de Joaquim Daniel da Rocha e neta de Cristiano da Rocha. Dedicou-se então a sucessivas atividades, de pequeno comerciante a sapateiro. Tinha na época apenas instrução primária. Em janeiro de 1927, já com três filhos, decidiu completar sua educação. Mudou-se com a família para Lavras, no sul de Minas, onde se matriculou no Instituto Gammon. Ali estudou com dificuldade por cinco anos, terminando o curso ginasial. Estudava durante o dia e trabalhava à noite até altas horas em sua oficina de sapateiro. A esposa, Inácia, trabalhava ainda mais do que ele, cuidando da casa e das crianças, e costurando para fora, pois outros filhos iam nascendo. Concluído o ginásio, Adiron mudou-se para Campinas, onde ingressou no Seminário Presbiteriano. Prosseguiu a luta do casal por mais quatro anos. Em 1935, enfim, aos quarenta anos de idade, Adiron recebeu o seu diploma de bacharel em teologia. Todavia, não conseguiu logo um campo pastoral onde pudesse exercer sua vocação. Teve que ganhar a vida trabalhando como gerente do Hotel Umuarama, em Campos do Jordão, e depois como revisor do jornal O Estado de São Paulo, na capital paulista. Em 1940 a família seguiu para Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, onde Adiron foi pastor da igreja presbiteriana local e de outras espalhadas pelo estado. Depois, foi co-pastor da Igreja Presbiteriana de Alto Jequitibá, no leste de Minas, e professor do colégio evangélico ali existente. Em seguida, transferindo-se para a cidade do Rio de Janeiro, foi pastor de várias igrejas e professor de 1º e 2º graus em diversas escolas, notadamente no Colégio Souza Marques. Faleceu no Rio de Janeiro a 7 de março de 1973, com quase 78 anos de idade. Dona Inácia ainda viveu por muito tempo, falecendo com mais de 90 anos. Tiveram sete filhos: Boanerges, Guaracy Adiron, Acyr, Paulo Adiron, Nannie Ignacia, Benjamin Adiron e Daniel Adiron, nascidos entre 1919 e 1937. Ao longo de sua carreira, Adiron não só educou todos os filhos, como levou para Lavras irmãos, primos e primas, para se educarem. Outro membro da família que atingiu o ministério foi o Rev. Américo Justiniano Ribeiro (1911-1998), irmão mais moço de Adiron, que foi por muitos anos pastor da Igreja de Campinas, bem como professor e deão do Seminário Presbiteriano do Sul.


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Anos formativos Boanerges, o primogênito de Adiron, nasceu em Rio Paranaíba no dia 8 de agosto de 1919. Foi batizado pelo Rev. Alberto Zanon, então no primeiro ano do seu ministério (Boanerges só o conheceu já aposentado em Limeira, de onde um dia o velho pastor foi a Santos para batizar seu filho Marcos). O menino recebeu intensa instrução evangélica no lar. Sua mãe ensinou-lhe hinos do velho Salmos e Hinos e as orações da época: Pai Nosso e Agora me Deito (“Agora me deito para dormir; se eu morrer sem acordar, guarda minh’alma, ó Senhor. Amém.”). Havia também o corinho “Jesus escuta a voz terninha da criancinha em oração”. Memorizou os Dez Mandamentos e o Credo. Aos seis anos, já alfabetizado, decorou o Catecismo para Crianças, sempre em casa, com o pai atento à recitação. Diz ele: “Debruçado na cama, deliciava-me com as correrias de Davi na tradução do padre Figueiredo e seu vernáculo de sabor um tanto rural”. Sem saber como, aos sete anos já havia decidido – ia ser pastor quando crescesse. Naquela época, a família mudou-se para Lavras, onde o pai ia começar a preparação para o ministério. Boanerges cursou as quatro séries do primário no Grupo Escolar Firmino Costa. Ele e uma colega eram os únicos protestantes numa classe com cerca de 40 alunos. A única vez na vida em que sofreu castigo foi ali, por negar-se a rezar a Ave Maria com a classe. A Igreja de Lavras dava grande atenção às crianças e o menino gostou da Escola Dominical desde o primeiro domingo. Participou como “lobinho” da Patrulha de Escoteiros, a única da cidade. Não faltava à Escola Bíblica de Férias e devorou os livros da biblioteca da Escola Dominical, inclusive o Tesouro da Juventude. Costumava dormir, sentado entre os pais, durante as pregações do Rev. Jorge Thompson Goulart, o pastor da igreja, e as conferências de homens ilustres como Erasmo Braga, Álvaro Reis e Hipólito de Campos. Lembra de ter visto uma vez o Dr. Samuel Gammon, cultivando o jardim de sua casa, pouco antes da sua morte, em 1928. Do grupo escolar, Boanerges passou à 5ª e 6ª séries do Instituto Gammon e depois ao Ginásio. Integrou-se nessa grande instituição, onde foi aluno externo três anos e interno um ano. Não havia aulas de religião em classe, e sim História do Antigo Testamento e do Novo Testamento, em lições preparadas pelo Dr. Gammon. Havia cultos obrigatórios no salão nobre, onde todos, protestantes ou não, cantavam com entusiasmo hinos ativistas do Salmos e Hinos (“Avante, avante, ó crentes!”, “Vamos nós trabalhar”, “Um pendão

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real”). Um dos seus colegas nessa época foi Augusto Gotardelo, o futuro pastor e mestre da língua portuguesa. O Gammon, diz Boanerges, havia formado uma subcultura protestante autossuficiente que vivia e prosperava no seio da sociedade lavrense. Ali os protestantes eram a minoria dominante. A igreja majoritária não era discriminada nem combatida – era irrelevante, não se percebia sua presença. O adolescente fez as três últimas séries do curso secundário (o ginasial), em Campinas, no excelente Colégio Estadual Culto à Ciência. A igreja presbiteriana da cidade era dinâmica e ele facilmente se integrou no Departamento Intermediário. O pastor, Rev. José Borges dos Santos Júnior, apaixonado e trabalhador, de brilhante inteligência e grande energia verbal, ávido ledor e intelectualmente inquieto, fascinava a todos nas pregações, nas palestras, no convívio fraterno das excursões e piqueniques. Preparava excelentes estudos bíblicos e suas palestras apologéticas quase semanais eram interessantes e substanciosas. As atividades sociais, esportivas e recreativas eram sempre atraentes. Outro ponto de destaque era o coro da igreja, do qual Boanerges ouviu muitas vezes (e nunca mais fora dali) a majestosa composição do Rev. Constâncio Homero Omegna para a poesia “Salmo 19” do padre Souza Caldas (“Um Deus imenso os céus ressoam; a glória entoam do Criador. Do Tejo ao Ganges jaz descoberto esse concerto que Deus compôs.”). Em 1937, aos 17 anos, Boanerges ingressou no Seminário Presbiteriano de Campinas. Um ano antes, fizera profissão de fé com o Rev. Borges. Foi aluno da segunda geração de formadores de pastores da Igreja Presbiteriana do Brasil. A primeira geração foi a de John Rockwell Smith, Erasmo Braga, Thomas Porter, Constâncio Omegna, os quais formaram os mestres de Boanerges: Guilherme Kerr, Jorge Goulart, Herculano de Gouvêa Jr., José Borges dos Santos Jr. e Roberto Frederico Lenington (este formado nos Estados Unidos). Diz Boanerges: “Meus mestres do Seminário aprenderam com Erasmo, e eu aprendi com eles: há que construir, e não destruir. Construir sobre os bons alicerces já colocados; mesmo que encontremos paredes em escombros, construir sempre o edifício já desenhado. Não é sábio que cada geração pretensiosamente trate de destruir o passado para depois tentar recomeçar”. A formatura ocorreu em 1941, após cinco anos de estudos, sendo paraninfo o Rev. Cícero Siqueira. Entre os colegas formandos estavam outros nomes que se tornariam conhecidos, como Domício Pereira


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de Matos, Levi Alt, Oscar Chaves, Paulo Villon, Rubens Cintra Damião e Uriel de Almeida Leitão.

O pastor Após cumprir o período de licenciatura em Iacanga, Boanerges foi ordenado ao ministério presbiteriano no início de 1943, em Marília. Pouco depois, casou-se com Haydée Serra, irmã do futuro Rev. Osmar Teixeira Serra, que foi secretário geral da mocidade. Pastoreou inicialmente as Igrejas de Pederneiras e Iacanga, ambas na margem esquerda do rio Tietê, com um vasto campo rural. Depois veio a Igreja de Marília, cujo campo ia de Garça até Tupã. Transferiu-se então para Santos, pastoreando a Baixada Santista até Itanhaém. Finalmente fixou-se na capital paulista, ficando à frente da Igreja do Brás, com seu campo que se estendia pela zona leste até Ferraz de Vasconcelos. Ao longo do seu ministério, organizou 17 igrejas. Em 1953, organizou a Igreja Presbiteriana do Calvário, no bairro do Brooklin Paulista, que pastoreou até 1987, quando recebeu o título de pastor emérito. Continuou, todavia, a exercer o ministério nessa igreja do seu coração. Organizou para uso da igreja o hinário Louvar-te-ei, Senhor. No final de 1999, falando aos formandos do Seminário Rev. José Manoel da Conceição, concluiu suas palavras dando três conselhos a cada um: case-se bem; tenha bons filhos; seja pastor na Igreja do Calvário. E acrescentou: “Se não puder ser pastor da Igreja do Calvário, seja pastor de igreja o mais parecida possível com ela. Você trabalhará certo de que tem protegidos os flancos e a retaguarda, e terá companheiros para caminhar em frente”.

O líder eclesiástico O Rev. Boanerges iniciou suas atividades junto à administração da Igreja Presbiteriana do Brasil em 1946, quando deu os primeiros passos para a fundação da Casa Editora Presbiteriana. Em junho daquele ano, ele compareceu a sua primeira reunião do Supremo Concílio, realizada no templo da Igreja de Copacabana, como representante do Presbitério de Bauru. Apresentou uma proposta do seu concílio no sentido de se organizar uma “Casa Publicadora Presbiteriana”. Aprovada a proposta, foi nomeada uma comissão para efetivar o plano, tendo como presidente o próprio Boanerges. Os outros membros da comissão eram os presbíteros Armando Azevedo (de

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Bauru) e João Lupion Filho, e os Revs. Gutemberg de Campos, José Borges dos Santos Jr. e Galdino Moreira. As primeiras obras publicadas foram o livreto O Sistema Presbiteriano (1947) e três folhetos do Rev. Borges. A criação oficial ocorreu em 1948, quando foi adotado o nome Casa Editora Presbiteriana. No dia 4 de abril, tomou posse no templo da Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo a primeira diretoria, tendo o Rev. Boanerges como diretor-presidente, cargo que exerceu durante 14 anos (1947-1961), consolidando essa importante instituição da igreja. Em agosto de 1961, seguiu para os Estados Unidos com a família, residindo em Kansas City, Missouri, a fim de tratar de interesses do Supremo Concílio. Por cerca de um ano, foi pastor assistente da Igreja Presbiteriana de Westport, naquela cidade do meio-oeste americano. Fez palestras em diversas igrejas presbiterianas do Estado de Missouri, a serviço da Comissão de Missões e Relações Ecumênicas (Coemar), da Igreja Presbiteriana Unida dos EUA. Em seguida, transferindo-se para a costa leste, exerceu a função de secretário-assistente do Presbitério de Nova York (1963-1964). Em 1963, revelando um interesse que se tornaria preponderante no futuro, ministrou um curso de sociologia da religião, “A Igreja Brasileira e a Industrialização do País”, no Instituto de Relações Internacionais do Seminário Presbiteriano McCormick, em Chicago. Foi preletor em um ciclo de conferências sobre “A Situação Social e Religiosa da América Latina”, promovido pela Igreja Presbiteriana Unida. Retornando ao Brasil em 1964, foi convidado para assumir a direção do jornal Brasil Presbiteriano. Dois anos depois, aceitou um convite para lecionar filosofia e história da igreja no Seminário de Campinas. O Rev. Boanerges Ribeiro presidiu todos os concílios da Igreja Presbiteriana do Brasil que integrou e foi por doze anos presidente do Supremo Concílio (1966-1978), o primeiro a fazê-lo. Foi eleito sucessivamente nas reuniões realizadas em Fortaleza, Garanhuns e Belo Horizonte. Exerceu essa importante função em um dos períodos mais conturbados da história recente do Brasil, em que a forte polarização ideológica surgida na sociedade refletiu-se intensamente na vida da igreja, causando grandes e dolorosos conflitos. A situação poderia ser descrita com as palavras que Boanerges certa vez escreveu em relação às lutas em torno da Casa Editora: foi uma época de “choques febris, de interesses que deviam convergir em Cristo, mas sofriam difração violenta na personalidade dos cristãos”. Depois, foi vice-presidente do Supremo Concílio na gestão do presbítero Paulo Breda Filho (1978-1982).


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Nesses anos, Boanerges participou como delegado de alguns congressos evangélicos: Aliança das Igrejas Presbiterianas na América Latina (Cidade do México), Aliança Mundial das Igrejas Presbiterianas e Reformadas (São Paulo) e I Congresso Mundial de Evangelização (Berlim). Foi preletor em encontros de diversas organizações eclesiásticas, como a citada Aliança das Igrejas Presbiterianas na América Latina, o Sínodo Reformado Ecumênico (Sydney, Austrália) e a Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana da América (Jackson, Mississipi). Na área educacional da IPB, o Rev. Boanerges foi membro do Conselho Deliberativo do Instituto Mackenzie, do Conselho Superior da Universidade Mackenzie, do Conselho Deliberativo do Instituto Nacional Presbiteriano de Educação (Brasília) e diretor da Fundação Educacional Presbiteriana. Foi presidente do Instituto Mackenzie por doze anos (1975-1987) e chanceler da Universidade Mackenzie. Fundou o Instituto Educacional Mackenzie do Tamboré, um subúrbio de São Paulo, onde adquiriu uma área de 750 mil metros quadrados e construiu o campus. Criou o Instituto Tecnológico Mackenzie e o Centro de Processamento de Dados. Em sua administração, construiu-se o novo edifício da Escola Americana e o campus central do Higienópolis recebeu muitos melhoramentos. Empreendeu grande luta pela preservação desse patrimônio histórico da IPB quando o mesmo se viu ameaçado de desapropriação. Foi ainda fundador do Seminário Rev. José Manoel da Conceição (e membro do seu Conselho Deliberativo), da Fundação Educacional Rev. José Manoel da Conceição e de outras entidades da igreja. Em fevereiro de 1987, comunicou à Comissão Executiva do Supremo Concílio, reunida em Belo Horizonte, que não mais compareceria às reuniões desses órgãos, pois considerava suficientes “40 anos ininterruptos de participação ativa e apaixonada”. Nos dois anos seguintes, desligou-se da presidência do Mackenzie, da chancelaria da Universidade e do Conselho Deliberativo do Seminário Rev. José Manoel da Conceição. Pretendia dedicar-se a uma nova e empolgante atividade: continuar a pesquisar e a escrever sobre a história social do protestantismo e do presbiterianismo brasileiros, mostrando as condições peculiares da sociedade brasileira que facilitaram a aceitação da fé evangélica. Em setembro de 1988, escreveu no prefácio de uma de suas obras: “Se o Senhor me conservar vida, alguma lucidez e muita pertinácia, outros [livros] vêm vindo”.

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O intelectual Ao longo dos anos, Boanerges fez cursos que lhe deram grande bagagem intelectual e o prepararam para muitas atividades nas áreas docente e literária. Em 1950-1951, cursou dois semestres na Escola de Jornalismo da Universidade de Syracuse, no Estado de Nova York. Mais tarde, obteve os graus de mestre e doutor na Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Por vinte anos, lecionou sobre Introdução ao Pensamento Filosófico e Científico, Fundamentos das Ciências Sociais, História das Doutrinas Morais, Fundamentos Filosóficos da Educação Moral, Filosofia da Educação e Filosofia Social em diversas escolas superiores de São Paulo. Durante cinco anos, ensinou em nível de mestrado e doutorado, até licenciar-se para trabalhar no Mackenzie. Foi membro do VIII Congresso Americano de Filosofia (Brasília, 1972) e da III Conferência Mundial de Presidentes de Faculdades e Universidades, em Boston. Ainda na área acadêmica, foi preletor no 1º Seminário Internacional de Literatura para Adultos Recém-Alfabetizados, em Jerusalém, integrou a Comissão Municipal do Mobral de São Paulo e traduziu várias obras para a Companhia Editora Nacional. No âmbito da literatura, colaborou com o Rev. Miguel Rizzo no Instituto de Cultura Religiosa, na revista Fé e Vida/Unitas e na União Cultural Editora. Estreou como escritor aos 24 anos, publicando o livro O Apóstolo dos Pés Sangrentos (1943), sobre o místico cristão indiano Sadu Sundar Singh. A seguir, vieram a lume O Padre Protestante (biografia do Rev. José Manoel da Conceição, concluída em Santos no Natal de 1948) e Seara em Fogo, sobre o evangelista norte-americano Dwight L. Moody. A partir de 1973, produziu uma série de obras valiosíssimas sobre o protestantismo e o presbiterianismo brasileiros: Protestantismo no Brasil Monárquico (18221888): Aspectos Culturais da Aceitação do Protestantismo no Brasil (1973); Protestantismo e Cultura Brasileira: Aspectos Culturais da Implantação do Protestantismo no Brasil (1981); A Igreja Presbiteriana no Brasil, da Autonomia ao Cisma (1987) e Igreja Evangélica e República Brasileira: 1889-1930 (1991). Para esses livros, serviu-se de levantamentos minuciosos em inúmeros arquivos do Brasil e dos Estados Unidos. Por exemplo, em 1951 usou as férias de Natal em Nova York para selecionar e copiar documentos de 1859-1888 na Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana. Fazia


Re v. Boanerges Ribeiro (1919-2003)

questão de documentar cuidadosamente suas afirmações. Em 1995, à luz de novas pesquisas, voltou a publicar um livro sobre o personagem que sempre o fascinou: José Manoel da Conceição e a Reforma Evangélica. Também publicou obras sobre outros temas, tais como Terra da Promessa, com artigos e crônicas escritos para vários periódicos (1988); O Senhor que se fez Servo, uma série de estudos bíblicos (1989), e o opúsculo O Culto em Corinto e o Nosso Culto (1992). Nos últimos anos, vinha fazendo um estudo aprofundado sobre o catolicismo e a cultura de Portugal como matrizes da religiosidade brasileira, mas infelizmente não chegou a concluir o valioso projeto. Ao longo de sua carreira, o Rev. Boanerges recebeu diversas homenagens pelos serviços prestados à comunidade: Medalha Tiradentes da Polícia Militar de São Paulo (a cujos oficiais fez preleções); Medalha Santos Dumont de Mérito, da Força Aérea Brasileira, com a qual colaborou na consolidação e expansão de seu programa de astrofísica, rádio-astronomia e rastreamento de satélites; Diploma de Educador do Ano, do Rotary Clube de Higienópolis, e Título de Cidadão Paulistano. Seu nome consta do Dicionário Bio-Bibliográfico Brasileiro para as áreas de filosofia, política, sociologia e antropologia. Os estudantes do Seminário JMC deram o seu nome ao seu Grêmio Estudantil. Mencionando essas homenagens, o Rev. Boanerges declarou que as haviam recebido “com o natural ressabiamento do matuto mineiro”. E acrescentou no seu estilo peculiar: “Mesmo agora não posso esquivar-me ao mencioná-las de olhar disfarçado para trás a fim de ver se é comigo mesmo que falam, ou se é com alguém à retaguarda”.

Os anos finais Além da esposa e companheira de vida, Haydée, o Rev. Boanerges deixou quatro filhos, nascidos entre 1945 e 1951: Dayse Serra Ribeiro, tradutora do Diário de Simonton, publicado em 1982; Márcia Ribeiro Viana, casada com o Rev. Paulo Viana de Moura; Marcos Serra Ribeiro e Rubem Serra Ribeiro. São pais, respectivamente, de Renata e Fernando; Rebeca Verônica e Sarah Elisa; Flávia, André e Gustavo; Virgínia, Adriana e Filipe. Nos dias de militância à frente da igreja e mesmo posteriormente, o Rev. Boanerges teve alguns amigos leais e constantes como os Revs. Atael Fernando Costa, Ludgero Machado Morais e Marcelino Pires Carvalho. Na velhice, usufruiu do companheirismo de diversos pastores mais jovens que conviviam com

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ele quase que diariamente, acompanhando-o em pequenas caminhadas desde sua residência, na rua Barão de Jaceguai, até a rua Vieira de Morais, para o cafezinho obrigatório no Frans Café. Os principais deles eram os Revs. Hermisten Maia Pereira da Costa, Eliezer Bernardes da Silva, Alceu Davi Cunha, Vagner Barbosa, Wilson Santana, Arival Dias Casimiro e o presbítero Samuel Alves Fernandes. Os dois primeiros também o ajudavam em visitas ao banco, correio, mercado e farmácia. As últimas funções exercidas pelo Rev. Boanerges foram as de diretorpresidente da Fundação Educacional Rev. José Manoel da Conceição, do qual afastou-se em maio de 1997, por razões de saúde. Foi eleito curador da fundação em março de 1998 e afastou-se definitivamente em dezembro de 2001. Por volta do ano 2000, a saúde do Rev. Boanerges começou a sofrer um acentuado declínio. Depois de sofrer uma queda na rua, recebeu um marca-passo que lhe deu algum alívio. No dia 12 de janeiro de 2003, a Igreja Presbiteriana do Brasil prestou-lhe justa homenagem por ocasião do transcurso do 60° aniversário de sua ordenação ao ministério. Em um culto muito concorrido realizado às 15h00 na Igreja Presbiteriana do Calvário, dirigiu a liturgia o Rev. Ludgero Bonilha Morais, secretário-executivo do Supremo Concílio, e apresentou a mensagem o Rev. Roberto Brasileiro Silva, presidente do Supremo Concílio. Cerca de uma semana depois, o estado de saúde do Rev. Boanerges agravou-se e ele passou boa parte do mês seguinte no Hospital Evaldo Foz e depois no Santa Marcelina, onde veio a falecer no dia 17 de fevereiro, às 20h30.

Fontes: • Benjamin Adiron Ribeiro, Saint-Clair e seus descendentes: Recenseamento da descendência de Saint-Clair Justianiano Ribeiro, em seis gerações (São Paulo: 1994), p. 19, 21, 25, 55. • Boanerges Ribeiro, Ser Pastor no Brasil (São Paulo, 1999). Palestra proferida aos bacharelandos em teologia do Seminário Rev. José Manoel da Conceição no dia 4 de dezembro de 1999. • Revista da Universidade Mackenzie (1981), p. 10-11. Dados biográficos. • Terra da Promessa. Prefácio e Capítulo VII (“Dirigir o Brasil Presbiteriano”). • O Senhor que se fez Servo. “Sobre o Autor”. • Depoimentos pessoais (Rev. Eliezer Bernardes da Silva e outros).


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Relatório de f. j. c. schneider, abrangendo todo o tempo desde sua chegada ao brasil até

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Edição Diplomática

Rev. Wilson Santana Silva Pastor da Igreja Presbiteriana do Jardim Marilene, em Diadema – SP, desde 1991. Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição. Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie – SP. Pós-Graduação em Problemas Brasileiros Universidade Presbiteriana Mackenzie – SP. Pós-Graduação em História do Brasil Século 20 Faculdades Associadas Ipiranga – SP. Mestre em Ciências da Religião – Umesp Universidade Metodista de São Bernardo do Campo. Doutor em Ciências da Religião Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC – SP. Professor de História da Igreja, Protestantismo e Cultura Brasileira, Educação Cristã, História da IPB no Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição. Professor pesquisador da Escola Superior de Teologia, em tempo integral, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Professor Visitante do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper – SP.

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Edição Diplomática

Resumo O Reverendo F. J. C. Schneider (1832-1910) chegou ao nosso país em 07.12.1861, atendendo uma solicitação dos pastores americanos já estabelecidos aqui desde 1859, para atuar e iniciar trabalho entre os imigrantes alemães. Participou da organização da 1ª Igreja Presbiteriana no Brasil em 12.01.1862. Realizou desafiantes viagens evangelísticas pela região da Província de São Paulo, logo dando evidências de desprendimento e amor ao evangelho. Foi um trabalhador incansável na seara do mestre, estendendo seus serviços até o Nordeste, principalmente na região baiana. É possível encontrá-lo em profundas atividades em Salvador entre 1871 e 1877. Sua participação na fundação e solidificação do presbiterianismo brasileiro gerou uma das páginas mais belas e desafiadoras da História da Reforma Evangélica no Brasil. Palavras-chave Presbiterianismo; viagens missionárias; São Paulo; Rio Claro; alemães; Simonton; Blackford. Abstract The Reverend F. J. C. Schneider (1832-1910) arrived in our country on December 07, 1861, answering the call from the American missionaries already settled here since 1859 to initiate the work amongst German immigrants. He took part in the organization of the First Pres-

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byterian Church in Brazil on the first of January, 1862. He ventured in challenging evangelistic trips through the Province of São Paulo, displaying unselfish love to the Gospel. He was a tireless laborer in the harvest of the Lord, expanding his services up to the Northeast, in the area of Bahia, mainly. It is possibly to find him in profound activities in Salvador, between 1871 and 1877. His participation in the foundation and strengthening of Brazilian Presbyterianism wrote one of the more beautiful pages of the history of the evangelical Reformation in Brazil. Keywords Presbyterianism; missionary trips; São Paulo; Rio Claro; germans; Simonton; Blackford.


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1867. Relatório de F. J. C. Schneider, abrangendo todo o tempo desde sua chegada ao Brasil até o tempo presente. Depois de uma viagem de 37 dias de New-York, desembarquei no porto do Rio de Janeiro no dia 7 de Dezembro de 1861. Nos fins do mesmo anno recebi um convite do Diretor da Colonia D. Pedro 2º, para ir pregar aos colonos allemães que ahi se achão. Esta, companhia, digo colonia foi fundada pela Companhia União e Industria na Provincia de Minas, uma legua além da cidade de Juiz de Fora. La fui pregar varias vezes aos Allemães que se reuniram em grande número e volto a esta Côrte para assistir a


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Fundação desta Igreja, e a primeira celebração da Santa Ceia do Senhor no dia 12 de janeiro de 1862. No dia 28 do mesmo mês parti para a Provincia de São Paulo, sendo o meu destino as colonias dos Allemães e Suissos que se achão a distancia de 2.1/2 para 7 leguas da cidade de São João do Rio Claro. Demorei-me alguns dias na cidade de São Paulo, onde preguei uma vez em Allemão a cerca de 30 pessoas. Depois de pregar e visitar nas colonias de São Jeronymo, Ibicaba, Angelica, Beri, Cubatingo, São Lourenço e Paraiso, como tambem nas cidades de Campinas, Limeira e São João do Rio Claro, aluguei uma casa nesta ultima cidade e ahi fiquei até o mez de Março de 1863. Durante esse tempo pregava todos


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Os Domingos em uma outra das colonias São Jeronymo, Ibicaba, Angelica, São Lourenço e Paraizo; sendo a distancia entre as duas ultimas mui curtas; sempre preguei em ambas no mesmo dia. O número de pessoas que se reunião nas ocasiões da pregação da Palavra de Deus nessas colonias variava muito. As vezes reunião-se 70 para 80 pessoas em uma colonia; outras vezes apparecião bem poucos. O acolhimento que o Evangelho recebeu deixava muito para desejar. Tão aferrada é a maior parte dos Allemães e Suissos aos seus antigos costumes, e tão ignorantes são elles quanto a verdadeira religião do Evangelho, que todos os meios por mim empregados para fazel-os conhecer os seus erros e convencel-os dos


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Seus pecados e immoralidades erão debalde. Tendo sempre ouvido dizer que o baptismo purifique de peccados e torne o baptizado de pagão em christão, e tendo-se-lhes ensinado desde crianças que um dos melhores modos de alcançar o perdão dos pecados é participar com frequencia da Ceia do Senhor, quase todos erão muito mais anciosos por baptizar-lhes eu as crianças e por celebrar-se entre elles a Ceia do Senhor do que o erão para arrepender-se do seus pecados e crer em Jesus Christo. A consequencia deste estado das cousas foi que, não obstante haver entre esses colonos centenares que se dizem, chamados protestantes, muitos dos quais instaram comigo para que organizasse Igreja entre elles, eu por


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não poder achar verdadeiros crentes, nunca cumpri com seus pedidos. Por isso encontrei muita opposição da parte delles, e não consegui bom resultado de meu trabalho. Nos fins de março de 1863 sahi de São João do Rio Claro, e cheguei a Côrte no dia 6 d’abril. Tendo sempre fallado em Allemão, ou inglêz durante a minha morada na Provincia de São Paulo não tinha aprendido muito Portuguez: por isso mui pouco foi o serviço que eu era capaz de prestar aos meus colegas em seus trabalhos entre os brazilheiros e portuguezes. Dedicou-me pois ao estudo da lingua portugueza, e no entretanto pregava juncto com meus collegas os Reverendos Simonton e Blackford, aos inglezes


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e americanos que se reunião nos Domingos pela manhã na sala no segundo andar da casa nº 31 à rua Nova do Ouvidor, e depois na sala da casa nº 72, Rua Septe de Septembro. Fiquei na Côrte até o dia 6 de Janeiro de 1864, tendo o senhor Blackford feito uma viagem pelas colonias onde eu antes tinha pregado o Evangelho, e tendo muito lhe dicto quanto sentião minha retirada d’alli, e quanto desejavão que eu voltasse, sahi outra vez da Côrte, e voltei para São do RioClaro. Fui bem aceito em toda parte na minha viagem pelas colonias. Prometti pois ir morar lá outra vez; e depois de voltar para a cidade de São Paulo, e feitas algumas visitas as povoações d’allemães a 6 para 8 leguas dessa cidade, onde também preguei, voltei para São João do Rio


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Claro com minha senhora, com a qual me casei no dia 22 de Março de 1864. Cheguei a Rio Claro no dia 28 d’Abril. Logo depois de minha chegada principiei de novo a trabalhar entre os colonos. Conversava, pregava, espalhava Bíblias e outros bons livros, comecei escolas de domingo onde procurava ensinar aos meninos a história da Bíblia e o Cathecismo. Porém depois de trabalhar assim por mais de dois anos, não me foi permittido colher fructo algum. Bem poucos se importavão com a sua salvação. Chamavão-me de Presbyteriano sem saberem o que a palavra importa, e pensavão que a minha missão era o introduzir entre elles uma nova religião. A porta estreita onde é preciso entrarmos, e o caminho apertado no qual é preciso an-


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andarmos para alcançar a vida eterna que parecião estreita e apertada demais, gostavam antes seguir seu proprio caminho, e desprezavão o Evangelho de Jesus. Nas escholas de domingo os meninos deixavão de assistir, e com mui pouco excepções, a indiferença se apoderava de todos. Por ultimo também ficaram espalhados por diversos e longinquas partes muitos dos colonos que ainda mostravão algum interesse pelo Evangelho, de sorte que o número dos que se reunião para o culto Divino se tornava cada vez mais diminuto. Nestas circunstâncias, e a vista da nescessidade de ter o pastor da igreja na Côrte um coadjuctor que lhe ajude em seus trabalhos e na instrução dos moços que tinhão exprimido o desejo de entrar em curso de estudos, foi


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resolvido que os trabalhos Evangelicos entre os colonos allemães de São Paulo fossem descontinuados, e que eu viesse para a Côrte. Parti pois de Rio Claro em 10 de Septembro do anno passado, e no dia 21 do mesmo mez desembarquei neste porto. Nos ultimos mezes de minha morada em São João do Rio Claro fui de vez em quando para Brotas, ficando esta villa dessa cidade a distancia de 2 leguas. Ahi a pregação do Evangelho foi obra mais grata. A primeira vez que lá fui, foi no dia 2 de Março do anno proximo passado. No seguinte mez fui outra vez, e também no mez de Maio. No dia 7 deste foi meu privilegio, junto com meus collegas, os senhores Conceição e Chamberlain baptizar e receber 7 pessoas para a


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comunhão da Igreja Evangélica que 8 mezes antes ahi tinha sido organizada pelo Snr Blackford. A Profissão Pública de 9 outros que querião professar-se foi addiada para outra occasião. Depois disto visitei Brotas mais duas vezes, primeiro em 14 de junho, e outra em 13 de julho do mesmo anno. O desejo desse povo para ouvir e aprehender o evangelho faz gosto ver. Poucos delles sabem ler, e com tudo muitos fazem progresso, mui rapido na vida espiritual e com muito zelo propagão quanto lhes é possível o conhecimento do evangelho entre seus parentes e conhecidos. As vezes ficava de todo admirado de ver gente que sem nenhuma lettra sabião ler, falarem com tanto acerto e animação sobre a graça de Deos, e a salvação que Jesus


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nos adquirio. Foi para mim uma prova evidente de ser o Evangelho de Jesus Christo uma virtude de Deos para tornar os sabios os simples, capaz de encher de uma sabedoria divina aos mais ignorantes que recebem em seu coração. Em julho do anno proximo passado fiz também uma viagem de Rio Claro para a cidade de São Paulo, e ahi preguei em quanto o senhor Blackford estava ausente em Sorocaba. Desde minha chegada ao Brasil fiz 61 casamentos, tendo sido todos os que se receberam, ou allemães ou Suissos. Tendo eu trabalhado desde a minha chegada ultima a esta Côrte somente em conjucção com o Snr Simonton, pouco posso dizer que me diz respeito a mim em particular. Com muito


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gosto tenho aqui pregado o Evangelho e sempre folguei quando vi que Deus abençoou a sua palavra para a salvação das almas, e igualmente senti quando foi preciso proceder a disciplina de qualquer membro da Igreja para seu próprio bem e do corpo inteiro. Peçamos a Deus constantemente que continue a abençoar os trabalhos dos seus servos em sua vinha e que nosso zelo, sabedoria, amor e força para fazermos o mais possível para a sua gloria e a salvação do mundo. Rio de Janeiro aos 12 de julho de 1867. Assignado: F. J. C. Schneider


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As fontes do saltério calvinista

Maestro Parcival Módolo Regência na Westfälische Landeskirchenmusikschule, em Herford, Alemanha Mestrado com especialização em música dos séculos 17 e 18 também na Westfälische Landeskirchenmusikschule Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia do Instituto Presbiteriano Mackenzie Mestrando em Ciências da Religião pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie Titular da Orquestra de Sunden, Westfalia Direção da Orquestra Sinfônica Municipal de Americana por 14 anos Regente regular da Orquestra Filarmônica de Rio Claro, SP, e da Orquestra Sinfônica da UNICAMP Maestro convidado da Orquestra Sinfônica e da Orquestra de Câmara de Goiânia, GO, bem como da Sinfônica de Belém, PA Maestro visitante da Orquestra Sinfônica de San Diego, USA “Gastdirektor” da Orquestra do Teatro da Ópera de Bielefeld, Alemanha

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Resumo O uso de música litúrgica nas igrejas filhas da Reforma é um capítulo à parte na história da igreja. Os reformadores, especialmente Lutero, deram grande atenção à música sacra como meio de adoração a Deus e doutrinação dos fiéis, o que vimos no artigo da edição anterior. Neste artigo, a obra de João Calvino é destacada, sua jornada rumo a uma posição ativa quanto à introdução do cântico de salmos durante o culto, bem como as fontes de que se valeu. Palavras-chave Música sacra; salmos; liturgia; teologia reformada; João Calvino. Abstract The use of liturgical music in the churches which are daughters of the 16th century Reformation is a separated chapter in the History of the Church. Reformers, especially Luther, paid much attention to music as a resource to worship God and to indoctrinate believers, as seen in the previous issue article. In this article, John Calvin’s work is highlighted, his journey toward an active position with regard to the introduction of Psalms in the Services, as well as the sources he made use of. Keywords Sacred music; psalms; liturgy, reformed theology; John Calvin.

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É fato indiscutível que, dentre os grandes reformadores, Calvino era o menos habilitado em música, o que não significa que ele a desconhecesse, que ignorasse os princípios teóricos que regem a composição musical, ou que não soubesse valorizar essa forma de arte. É certo que seu longo período de formação acadêmica lhe conferira algum lustro em teoria musical e na elaboração de textos poéticos. Mas Calvino soube deixar para os especialistas a composição das músicas dos salmos que desejou utilizar nos cultos. Afinal, cria que Deus deu a pessoas diferentes, dons diferentes, que precisam ser bem utilizados, colocados ao seu serviço: “O primeiro princípio a considerar é que, se os dons de Deus são dirigidos ao mesmo propósito para o qual foram criados e destinados, não podem ser usados equivocadamente” (CALVINO, João. A verdadeira vida cristã. São Paulo: Novo Século, 2000, p. 71). Como discutido anteriormente (Teologia para Vida – Vol. II – nº 2), eram grandes as divergências em relação à música litúrgica entre os primeiros reformadores do século 16, e alguns deles adotaram posturas extremas. Em Zurique, na Suíça, por exemplo, Ulrico Zuínglio1 defendia posição radical. Em sua igreja as canções corais latinas já haviam sido banidas em 1526 e, no ano seguinte, o cântico de salmos germânicos e outros hinos também o foram. Considerando tais decisões, deve ser evidente que não havia som de órgãos nas igrejas zuinglianas, nem de qualquer outro instrumento musical. Embora admitisse, como Lutero, que a música era um presente de Deus aos homens, Zuínglio estava convencido de que era um presente “secular”, uma Arte, útil para a vida diária, mas não para o culto.2 Ele acreditava que a música era fenômeno do mundo material, portanto, e que ela podia e devia ser usada pelos homens na sua vida diária. Além disso, Zuínglio reconhecia que ela tinha um efeito poderoso e profundo, “acima de todas as artes”, sobre o corpo físico e sobre as emoções, já que a capacidade de reagir à música estava profunda e universalmente arraigada na natureza humana. Assim, a principal função da música neste mundo era moderar as paixões humanas e, por isso mesmo, era um abuso quando alguém a utilizava para estimular essas mesmas paixões. Segundo Zuínglio, pois, que era excelente músico, Ulrico Zuínglio foi líder da reforma na Suíça. Nasceu em 1484 na Suíça e foi educado em Viena e Basileia, onde também ensinou. Conhecia os clássicos e chegou a ser mestre em Artes. Aprendeu música e a tocar alguns instrumentos musicais. Diferente de Lutero, não obteve doutorado em Teologia. Foi extremamente influenciado pelo humanismo de Erasmo de Rotterdam, com quem manteve correspondência. 2 Sobre as ideias de Zuínglio sobre a música como arte, cf. Wallace, Ronald S. Calvino, Genebra e a Reforma . São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 96 1


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a música tinha uma nobre função, porém secular, não litúrgica. Ele se orgulhava de tocar bastante bem seis instrumentos musicais – e várias vezes referiu-se ao fato – mas insistia que, durante o culto, nada devia distrair a congregação de sua total atenção à Palavra, de sua concentração na oração e na contemplação. A música, fosse ela vocal ou instrumental, “... devia ser limitada ao uso e ao prazer do homem como um dom puramente secular de Deus. Dentro da igreja sua decisão foi a seguinte: ‘Não perturbo ninguém com a minha música’” (WALLACE, Ronald S. Calvino, Genebra e a Reforma. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 96). É curioso que, embora Zuínglio no início de seu trabalho em Zurique defendesse um culto mais conservador, ao ser pressionado pelos anabatistas, radicalizou ainda mais seu discurso contra a música e passou a levar seus seguidores aos templos da cidade e lá os exortava (Zuínglio, apud THOMPSON, Bard. Liturgies of the western church. Cleveland: World, 1961, p. 142): Lavem e branqueiem as pinturas e decorações, levem embora as estátuas, vestimentas caras, livros litúrgicos esplendidamente encadernados e fechem os órgãos como sinal de que nenhuma música soará nas igrejas novamente; o povo deverá dar ouvidos à Palavra de Deus somente.

Schwiebert (SCHWIEBERT, E. G. Luther and his times. St. Louis: CPH, 1950, p. 536) lembra que também Andreas Karlstadt,3 em Wittenberg, como Zuínglio, aguçava a disputa entre os líderes e suas comunidades com declarações como: “Órgãos só tem lugar nos teatros e nos palácios dos príncipes”; “Ídolos pintados nos altares são perigosos e diabólicos”. Calvino, nesse caso, parece ter ocupado uma posição intermediária entre os extremos, de um lado da máxima liberalidade quanto à música e, de outro, da proibição de qualquer som musical durante os cultos. Embora acreditasse, como Zuínglio, que a música, embora presente de Deus aos homens, pertencia ao mundo secular, alinhava-se com Lutero quanto à liturgia, já que sempre defendeu que a música devia tomar parte nos cultos. O uso da música apropriada, segundo Calvino, enriquece o culto e é um importante veículo 3

Karlstadt, que se chamava Andreas Bodenstein e nascera em Karlstadt – daí o apelido – ex-aluno de Lutero, assumiu a direção do movimento reformatório em Wittenberg enquanto Lutero se encontrava no castelo Wartburg. No inverno de 1521/22, Karlstadt escreveu e publicou livreto com o título “Da Eliminação das Imagens”. Tomou posição não somente contra esculturas, mas contra pinturas, a nova tendência na arte do Renascimento e da Reforma. Há autores que consideram Karlstadt o primeiro puritano.


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para o homem adorar a Deus. Calvino cria, porém, que após o advento de Cristo, sob a Nova Aliança, as elaboradas cerimônias litúrgicas, comuns no tempo do Antigo Testamento, foram abolidas ou simplificadas. Sob a nova dispensação, o uso de música instrumental pura no culto, seria um exagero, devendo ser totalmente evitado. Em sua opinião “a voz humana é superior a qualquer instrumento musical inanimado” (WALLACE, Ronald S. Calvino, Genebra e a Reforma. São Paulo: Cultura Cristã 2003, p. 96). Sugeria que a música puramente instrumental devia reservar-se à vida secular, utilizada para o prazer das pessoas. Mas isso não quer dizer que devesse ser “contada entre as coisas supérfluas” (WALLACE, op. cit., p. 96), e de forma nenhuma devia ser condenada, já que “...entre outras coisas próprias para recrear o homem e proporcionar-lhe prazer, a música é, ou a primeira, ou uma das principais, e a nós se nos impõe estimar que ela é dom de Deus delegado a este uso” (Calvino. In: COSTA, Hermisten. Pensadores cristãos: Calvino de A a Z. São Paulo: Vida, 2006, p. 193). Está claro, assim, que música é dom de Deus para o prazer saudável dos homens. Divergências entre os reformadores à parte, a Reforma produziu um novo tipo de cântico litúrgico. Era música para o povo cantar – popular, portanto4 – e não mais para o clero, somente; música “laica”, agora, e não mais reservada aos sacerdotes. Na Alemanha esse novo tipo de cântico será chamado “Coral Alemão”,5 em contraposição ao “Coral Gregoriano”, da igreja romana, cantado por dez séculos.6 Os textos, na língua local, deveriam servir de ensino religioso. Na Suíça, Calvino decide que os textos serão sempre das Sagradas Escrituras. Lá esse novo gênero musical será chamado “Salmo Calvinista”. Talvez seja oportuno lembrar que esse é o sentido de “popularizar o cântico” no que se refere à música da Reforma. Lutero fez com que o povo cantasse, não apenas o clero. “Popularizar a música litúrgica” quer dizer “torná-la cantada pelo povo”, retirá-la do domínio absoluto do clero e fazer os leigos cantarem. 5 O “Coral Reformado”, “Coral Luterano”, “Coral Alemão” ou ainda “Coral Protestante”, foi o gênero nascido com a Reforma Luterana. É muito diferente do canto gregoriano em todos os sentidos, tanto quanto a estrutura musical, o texto, a execução e a finalidade. Deixemos a professora Henriqueta descrevê-lo: “língua vulgar ao invés do latim usado no canto gregoriano. Melodia no soprano e desenvolvendo-se em valores longos, lentamente escandidos; harmonização a quatro vozes na tonalidade moderna, nota contra nota; seccionamento fraseológico, verso por verso, formando cadência; execução silábica; articulação simultânea de todas as vozes; acompanhamento ao órgão” (BRAGA, Henriqueta Rosa Fernandes. Contribuição da Reforma ao desenvolvimento musical. In: Revista Teológica, Rio de Janeiro, v. 11, n. 21, p. 31-43, jan. 1960, p. 34). 6 O canto gregoriano se origina nas práticas musicais das sinagogas judaicas e na música dos antigos núcleos cristãos da Igreja (Jerusalém, Antioquia, Roma e Constantinopla). Com Gregório Magno, bispo de Roma entre os séculos 6° e 7°, começou a espalhar-se, tornando-se, ali pelos anos 800, a música por excelência da liturgia católica romana até a Reforma no século 16 (MICHELS, Ulrich. Atlas zur Musik. Von den Anfängen bis zur Renaissance. Munchen: DTV/ Bärenreiter, 1981). 4


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Calvino e o cântico congregacional Consciente da importância da música, Calvino preocupou-se, logo no início de sua atividade pastoral, em providenciar um livro de cânticos para sua igreja. Uma interessante descrição do culto reformado em Estrasburgo é feita por um estudante francês, em 1545, e citada por Doumergue, (DOUMERGUE, Emile. Jean Calvin: les hommes et les choses de son temps. Genebra: Slatkine Reprints, 1969, p. 15). Ele conta do culto diário daquela comunidade e do cântico de salmos por toda a congregação, tanto homens quanto mulheres, harmoniosamente (tant homine que femme avec un bel accord), que traziam em suas mãos um livro com as músicas (un livre de musique). Fato conhecidíssimo, e acima já mencionado, Calvino fizera clara opção pelo cântico de salmos – e de mais alguns textos bíblicos – no culto. É claro que outros antes e depois dele também o fizeram. Os salmos bíblicos foram inspiração para gerações e mais gerações de cristãos. “Foi no repertório escriturístico e litúrgico de Israel”, escreveu Humberto Porto, “que a Igreja colheu os textos que traduzem o verdadeiro sentido de Deus, a sua transcendência, a sua santidade, o seu poder e a sua glória. Daí o lugar privilegiado que ocupa na liturgia da Igreja a prece de louvor com os salmos [...]” (PORTO, Humberto. Liturgia judaica e liturgia cristã. São Paulo: Paulinas, 1977, p. 205). Gérard Roussel, que foi um dos primeiros refugiados em Estrasburgo, escreveu a Briçonnet, bispo de Meaux, que o cântico de Salmos, traduzidos do hebraico, era, ali, muito antes de Calvino, uma importante parte do culto, e que “le chant des femmes, se mêlant àcelui des hommes, produit un effet ravissant.” (DOUMERGUE, op. cit., p. 8). Mas para Calvino havia uma razão ainda mais profunda para essa “preferência” pelos textos bíblicos: sua convicção de que durante a liturgia apenas e tão somente a verdadeira Palavra de Deus devia ser cantada, o que nos revela um Calvino zeloso do texto das canções litúrgicas. Embora a edição definitiva do Saltério Genebrino seja do ano 1562, foi fruto de um longo processo, de muitos anos – já que a primeira edição é de 1542 – e absorveu muito esforço de João Calvino.

Desenvolvimento do pensamento musical de calvino A primeira informação que temos do pensamento de Calvino com respeito à música vem das Institutas, em 1536. Porém, como escreveu Garside


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(GARSIDE, Charles Jr. The origins of Calvin’s theology of music: 1536-1543. Filadélfia: The American Philosophical Society, 1979, p.32), parece que nesse ponto suas ideias sobre a música no culto ainda não estavam totalmente desenvolvidas. Há referência à música e ao canto logo no capitulo três, onde falou sobre Oração. Assim escreveu Calvino (CALVIN, John. Institutes of the Christian Religion. BATTLES, Ford Lewis (Trad. e anot.). Atlanta: John Knox Press, 1975, p.100, tradução e grifo nossos): ... daí é evidente que, a menos que voz e canção, interpostas como oração, venham como o mais profundo sentimento do coração, nada têm de valor ou qualquer proveito para com Deus.

Esse “daí” de Calvino relaciona-se com sua afirmação anterior, de que a oração é “uma emoção do profundo do coração”. Portanto, música só tem valor como coisa espiritual se o coração estiver engajado. Mas para a glória de Deus é mister cantar, já que esta é a função para qual a língua foi destinada e expressamente criada (CALVIN, op. cit., p. 99-100, tradução nossa): Contudo, nós não condenamos palavras e canções quando estão associadas aos afetos do coração e o servem... e desde que sejam para a glória de Deus somente, na medida que faça resplandecer as diferentes partes do nosso corpo, já que a função específica da língua, e para a qual foi destinada, é a de cantar, assim como a de falar. Para isso ela foi expressamente criada, para contar e proclamar a glória de Deus.

Com respeito ao cântico público congregacional, Calvino fez menção quando se referiu à Santa Ceia. Em preparação para ela Calvino (CALVIN, op. cit., p. 153, tradução nossa) escreveu: “...alguns salmos devem ser cantados ou algo lido”; e para o final da ceia orienta: “No final, graças devem ser dadas e louvores cantados a Deus”. Assim, se é verdade que Calvino já exorta ao uso de salmos cantados, ele o faz de forma não muito enfática: o oficiante decidiria se preferia cantar alguns salmos (quaisquer salmos), ou ler algum texto bíblico. O que ainda não vemos aqui é uma teologia bem desenvolvida do uso de música no culto, ou uma consciência da necessidade de que os salmos cantados sejam parte da vida do povo de Deus.

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Entretanto há uma mudança em 1537. Calvino não mais estava na França, mas em Genebra. Não mais na academia, mas agora em contato direto com pessoas: era agora pastor de uma igreja genebrina. Ele tinha o compromisso de trabalhar para que os corações e as mentes das pessoas fossem mudados, pessoas essas que não queriam necessariamente mudanças. Pensando nessa sua nova função Calvino escreveu os “Artigos para a Organização da Igreja e do seu Culto em Genebra”, a 16 de janeiro de 1537. Nesses artigos, instituiu vários passos para as pessoas “viverem de acordo com o evangelho e a Palavra de Deus” (In: GARSIDE, op. cit., p. 7, tradução nossa). Os essenciais incluem: primeiro, o cântico de salmos no culto público; segundo, catequizar crianças na doutrina bíblica para a manutenção do pacto; e terceiro, o esboço das ordenanças para o casamento. Agora Calvino deixou muito claro que a questão do canto congregacional era fundamental para a reforma da igreja. Ele escreveu o seguinte (apud GARSIDE, op.cit., p. 7-8, tradução nossa): É de suma importância para a edificação da igreja, o cântico de alguns salmos na forma de orações públicas nos quais se pode orar a Deus ou cantar orações a ele, de forma que todos os corações sejam despertados e estimulados para fazerem orações similares e render louvores a Deus em comunhão de amor.

Aqui algo começa a mudar. O que Calvino agora diz é que o cântico de salmos “é de suma importância para a edificação da Igreja”! É o verdadeiro início do seu desejo de ver o cântico de salmos como parte da vida dos fiéis. Ao insistir na sua importância, acrescenta (apud GARSIDE, op.cit., p. 10, tradução nossa): Os salmos podem nos estimular para elevarmos nossos corações a Deus e despertar nosso ardor ao invocarmos ou exaltarmos com orações a glória do seu nome. Além disso, dessa forma poderá se perceber de quantas vantagens e consolo o papa e suas criaturas privaram a igreja, pois ele distorceu os salmos, que deveriam ser verdadeiras canções espirituais, em um murmúrio entre eles mesmos, sem que ninguém os entendesse.

Sua crítica à liturgia romana, bem como a maneira com que utilizava o cântico congregacional no culto, o põe em total sintonia com Lutero – ao menos nesse aspecto: os salmos deveriam ser cantados por toda a congregação,


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não pelos sacerdotes somente; deveriam ser cantados de forma que pudessem ser entendidos, servindo como canções espirituais e não como “...um murmúrio entre eles mesmos”. Calvino (apud GARSIDE, op.cit., p.10, tradução nossa) também sugeria que os salmos fossem ensinados para as crianças, para que elas pudessem tomar parte ou até liderar o cântico congregacional: Para começar [...] seria bom [...] se algumas crianças, que anteriormente tiverem praticado uma modesta canção de igreja, a cantassem, com forte e clara voz, e que o povo ouvisse com completa atenção, seguindo com seus corações o que se canta com a boca, até que, pouco a pouco, cada um se acostume a cantar comunitariamente.

Calvino foi forçado a deixar Genebra a 23 de abril de 1538. O concílio da cidade resolveu adotar uma prática litúrgica específica, fixa, formulada para alguns dos Cantões suíços. Por se recusarem a aceitá-la, Calvino e Farel foram exilados. Dirigiram-se primeiro para Berna e de lá para o sínodo de Zurique, onde queriam explicar as razões de não aceitarem a prática. Durante o sínodo, porém, Calvino aceitou algumas imposições litúrgicas e ao mesmo tempo propôs 14 artigos para uma reforma eclesiástica em Genebra. O artigo 13 trata do cântico de salmos no culto. Embora os artigos fossem aprovados pelo sínodo, Genebra ainda recusou a aceitar Calvino de volta. Ele só voltaria à cidade em 1541.

Calvino em estrasburgo e o saltério francês Assim, após cinco meses, em 1538, Calvino chegou a Estrasburgo, onde assumiu o pastorado da Ecclesiola Gallicana, a pequena congregação de exilados franceses que se reunia na igreja de S. Nicolau. Durante sua estada em Estrasburgo (1538-1541) Calvino, como já foi dito, foi influenciado pelo culto dirigido por Martin Bucer,7 especialmente quanto ao uso de Salmos 7

Martin Bucer nasceu em Selestat, na Alsácia, em 1491. Foi monge dominicano. Encontrou-se com Lutero em 1518, quando fazia os seus estudos em Heidelberg. Aceitando os pontos de vista do Reformador, deixou a ordem dos dominicanos em 1521, casou-se com uma antiga freira e foi excomungado. Obrigado a sair da cidade, começou a pregar a reforma luterana e refugiou-se em Estrasburgo em 1523. Aí foi reconhecido como o grande dirigente da Reforma, missão que desempenhou até 1549. Em 1529, e sob a sua ação, Estrasburgo aderiu oficialmente à Reforma. Bucer manifestou sempre a sua preocupação em manter a unidade da Igreja entre protestantes e católicos e tentou reconciliar Lutero e Zuínglio sobre a questão do sacramento da Ceia, não obtendo sucesso. Em 1549, Martin Bucer foi obrigado a deixar Estrasburgo, por ordem de Carlos V e do bispo da cidade, e refugiou-se em Cambridge onde se dedicou ao ensino até à sua morte, em 1551.


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para o canto congregacional. Calvino (O Livro dos Salmos, Vol. 1. São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, p. 31) dizia que Bucer era “o mais fiel doutor da igreja de Deus” e o respeitava tanto que pediu que o corrigisse “como um pai a um filho” (HALSEMA, Thea B. Van. João Calvino era assim. São Paulo: Editora Vida Evangélica, 1968, p. 130). Chamava sua atenção o entusiasmo com que a comunidade de Bucer cantava salmos no culto (HALSEMA, op.cit., p. 100). De sua parte, Calvino, ao assumir o pastorado da Ecclesiola Gallicana, passou a refletir seriamente sobre o papel da música no culto e fazia sua igreja cantar. E ela cantava animadamente! Acima fizemos referencia à descrição do culto em Estrasburgo pelo estudante francês refugiado, em 1545. Vejamos como Timothy se refere ao fato (TIMOTHY, George. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 181): Todos cantam, homens e mulheres, e é um belo espetáculo. Cada um tem um livro de cânticos nas mãos. [...] Olhando para esse pequeno grupo de exilados, chorei, não de tristeza, mas de alegria, por ouvi-los cantando tão sinceramente, enquanto estavam agradecendo a Deus por tê-los levado a um lugar onde seu nome é glorificado.

Em carta a Farel, de outubro de 1538, Calvino (In. BEVERIDGE, Henry e BONNET, Jules. Selected works of John Calvin: tracts and letters, v. 4, Letters, Part 1: 1528-1545. Grand Rapids: Baker Book House, 1983, p. 92) informou que ele também decidira usar a liturgia de Estrasburgo para celebrar a Ceia do Senhor: “Pela primeira vez nós administramos o sacramento da Ceia em nossa pequena igreja de acordo com o costume do lugar”. O costume do lugar incluía o cântico de salmos no vernáculo. Em dezembro de 1538, menos de quatro meses após sua chegada em Estrasburgo, Calvino anunciou a Farel que estava preparando um saltério francês para sua congregação. O volume foi publicado em 1539 sob o título Aulcuns pseaulmes et cantique mys en chant. (ANEXO A) Como já se disse, para ele as palavras dos cânticos eram tão importantes que admitia apenas a Palavra de Deus como fonte para os textos das músicas litúrgicas. A música para esse cancioneiro de Estrasburgo foi composta por Clément Marot (c.1497-1544), importante figura na história do Saltério, com a colaboração do próprio Calvino, que metrificou o salmo 36.


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Clémente marot, poeta A importância de Marot na história da poesia e da música é anterior ao seu trabalho no Saltério calvinista, já que seu nome está associado ao próprio início da imprensa na França. Durante as primeiras décadas do século 16, a imprensa francesa tornou-se um agente poderoso no esforço do rei de restaurar as “boas letras”. O compromisso real com a difusão de conhecimento e cultura conduziu à criação dos ofícios de Imprimeur et Libraire du Roy, que incluíam música. Pierre Attaingnant8 foi o primeiro impressor real escolhido.9 (HEARTZ, D. Pierre Attaingnant Royal Printer of Music: A Historical Study and Bibliographical Catalogue. Berkeley: University of California Press, 1969, p. 136). Antes disso, em 1533, Attaingnant preparou duas coleções de canções, que são consideradas hoje as referências impressas mais antigas de música especificamente destinada à flauta transversal. Nessas importantes coleções uma parte dos textos das canções veio da pena de Clément Marot. Os poetas Clément Marot e Mellin de Saint-Gelais mantinham cargos em instâncias próximas ao rei e acredita-se que eles tenham fornecido a maior parte dos textos usados. São canções seculares, românticas quase todas. As mais conhecidas de Marot, por exemplo, chamam-se: Amours, amours vous me e Amour me voyant (HEARTZ, op.cit., p. 288). Marot era o poeta favorito de Francisco I, de Paris, e de sua irmã, Marguèrite d’Angoulême. Foi detido em 1526 por tornar-se luterano, mas conseguiu livrar-se. Em 1527 foi preso novamente até que o próprio rei intercedeu por ele, tornando-o seu valet de chambre. Privadamente, Marot pôs-se a metrificar os salmos em versos regulares e poéticos na língua francesa (1532-33). Era tão cuidadoso no seu ofício que até começou a estudar hebraico para ajudá-lo na tarefa auto-imposta. Esses salmos ficaram conhecidos na corte e também fora dela. Em 1536, Marot encontrou-se com Calvino em Ferrara, quando esteve na corte de Renée de França, refugiando-se por temer a prisão após ter participado de uma campanha contra a Missa Romana. Embora tivessem comprovadamente se encontrado e travado conhecimento, Attaingnant inventara um novo método de imprimir música: um processo em que segmentos do pentagrama e notas eram combinados de maneira que ambos podiam ser impressos de uma única vez. Essa novidade rapidamente substituiu as técnicas de impressão dupla ou tripla necessárias à produção das publicações de Petrucci, daí por diante sendo imitada em toda a Europa, tornando-se o primeiro método internacional de impressão. 9 A distinção do apontamento real chegou não antes de 1537, ano do aparecimento da frase Attaingnant Imprimeur et Libraire du Roy en Musique no frontispício de uma coleção. 8


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não se sabe se Calvino obteve os salmos de Marot diretamente dele ou se os foi juntando de outros protestantes que os tinham para seu próprio uso nos cultos. A última hipótese é a mais provável, já que os protestantes, que apreciavam os salmos em seus cultos, costumavam ir colecionando os que lhes caíam em mãos. Calvino mesmo costumava fazê-lo e juntou vários dos salmos de Marot ao seu Aulcuns pseaulmes et cantique mys en chant, como os de número 1, 2, 3, 15, 19, 32, 51, 103, 114, 115, 130, 137. Dentre os mais conhecidos está o Salmo 19 (ANEXO B). O próprio Calvino fez algumas tentativas de metrificar salmos, revelando-nos seu lado artístico. Os outros seis salmos e os cânticos bíblicos (cantique) do saltério são provavelmente dele: salmos 25, 36, 46, 91, 113 e 137, bem como o Cântico de Simeão,10 o Decálogo e o Credo (WELLS, Amos R. A treasury of hymn stories. Grand Rapids: Baker Book, 1995, pg. 89). Não há dúvida quanto a sua autoria do Salmo 113, Vous serviteurs du Dieu dês cieux (ANEXO C).

Matthäus Greiter e Wolfgang Dachstein, compositores A música para esses salmos cantados ainda pela congregação de Estrasburgo foi composta por dois excelentes músicos da igreja de Bucer, Matthäus Greiter11 (c. 1494-1550) e Wolfgang Dachstein12 (c. 1487-1553). Ambos eram monges que chegaram em Estrasburgo no ano 1520 para servirem a igreja, Greiter como diretor de música (Kantor) e Dachstein como organista. Dachstein converteu-se ao protestantismo em 1523 e influenciou Greiter, que também se converteu em 1524. Ambos foram fundamentais para a publicação de um volume de música sacra para a igreja de Estrasburgo, o Strassburger Kirchenampt, de 1525. Greiter contribuiu com sete hinos e quatro peças litúrgicas, incluindo sua mais famosa melodia, Es sind doch alle selig (Salmo 119, ANEXO D), melodia esta que Calvino conservou no Saltério Genebrino (desde a edição de 1542 e até a definitiva, de 1562) após Não eram, assim, apenas os salmos que compunham a coletânea de cânticos reformada, embora fossem sempre textos bíblicos. Este cântico especialmente, o Cântico de Simeão, merece nossa atenção, pois, além de ter sido muito provavelmente metrificado pelo próprio Calvino, foi a última canção que ele cantou com sua congregação antes de sua morte. (Cf. p. 15). 11 Matthäus Greiter nasceu em Aichach, próximo a Augsburgo, em 1490. Dominicano, foi Kantor (Mestre de Música) da Catedral de Estrasburgo. Foi grande colaborador musical dos reformadores de Estrasburgo e professor de música do Gymnasium. Morreu vítima da peste em Estrasburgo em 1550. 12 Wolfgang Dachstein nasceu em Offenburg (1487) e em 1503 foi estudante contemporâneo de Lutero em Erfurt. Era monge dominicano. Em 1520 tornou-se organista na Catedral de Estrasburgo e em 1524 na Igreja S. Thomas. Trabalhou na “Ordem de Culto” de Estrasburgo de 1524 e morreu naquela cidade em 1553. 10


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já utilizá-la no Aulcuns pseaulmes et cantique mys en chant (1539), para os salmos 36 e 68. Dachstein contribuiu com três melodias. Sua mais famosa é a do texto An Wasserflussen Babylon (ANEXO E). O trabalho desses dois excelentes músicos no Aulcuns pseaulmes et cantique mys en chant é tão orgânico que dificilmente se distingue o estilo de um ou de outro compositor. A qualidade é tão boa, que foram na maioria utilizadas no Saltério Genebrino e, além disso, tornaram-se modelo e padrão para o restante dos salmos do volume.

Retorno a genebra e as quatro versões do “saltério genebrino”: 1542, 1543, 1551 E 1562 Em 1541 Calvino finalmente retornou a Genebra. Ali, assim que chegou, editou a primeira versão do “Saltério Genebrino” (La forme des prières et chants ecclésiastiques). Este volume irá sendo ampliado nas edições de 1543 e 1551, até a edição completa e definitiva de 1562, que continha 125 melodias para todos os 150 salmos (obviamente algumas melodias foram repetidas). Isso significa que Calvino esteve às voltas com o saltério – preocupandose, portanto, com a música congregacional litúrgica – durante toda sua vida ativa, já que faleceu em 1564, apenas dois anos após concluir o Saltério: foram vinte anos de dedicação a esse trabalho!

Marot e Bèze, poetas; Bourgeois, Franc, Davantés e Goudimel, compositores

Preocupado com a qualidade da metrificação dos salmos, Calvino recrutou formalmente Clément Marot, já nosso conhecido, e Theodore de Bèze (1519-1605), poeta e teólogo fugido da França para Genebra em 1548. Eles deviam traduzir os Salmos para o francês e metrificá-los, o que tornaria os textos mais facilmente compreendidos, cantados e memorizados pelos fiéis. Para as melodias, uma parte veio do cancioneiro de Estrasburgo, de 1539, o Aulcuns pseaulmes, e outra boa parte, foi composta por Loys Bourgeois.13 13

Loys Bourgeois (Paris, c. 1510 – c. 1560) compositor e teórico, foi músico nas igrejas de St. Pierre e St. Gervais em Genebra. Para o saltério calvinista, supervisionou a adaptação de melodias existentes e compôs novas melodias para as traduções métricas de Marot e Bèze (1551, 1554). Duas coletâneas de salmos, a quatro vozes, de sua autoria, uma contendo simples partituras homofônicas, a outra com versões mais elaboradas para vozes ou instrumentos, foram publicadas em 1547. Seu Le droict chemin (1550) foi o primeiro manual didático em francês sobre canto e leitura à primeira vista.


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Na edição de 1551 já foram publicados 83 salmos. As melodias restantes foram compostas por Guillaume Franc14 e, como já informei, Greiter e Dachstein. A edição completa, de 1562, contou ainda com a colaboração musical de Pierre Davantés15 e de Claude Goudimel,16 que editou para quatro vozes os salmos que originalmente foram compostos para apenas uma voz. Eram melodias lineares e fluentes, limitando-se em sua rítmica ao uso de “semibreves” (notas de valores mais longos) e “mínimas” (notas de valores mais curtos). O resultado era que o texto cantado tornava-se de declamação silábica, sem melismas, bastante semelhante à música do Cancioneiro de Wittenberg, o hinário de Lutero. Em resumo, Calvino parece ter conhecido o gênero salmódico em Estrasburgo e ainda ali, em 1539, editou um pequeno volume de cânticos, com salmos em francês, da autoria de Clément Marot e de sua própria produção. Já em Genebra, Calvino acrescentou à liturgia outros salmos musicados por Marot. Em 1542 editou a primeira versão do saltério genebrino e logo em 1543 a segunda, com 50 salmos, agora com o auxilio do Kantor genebrino, Guillaume Franc. Desde 1548 Théodore de Bèze trabalhava para completar uma edição com todos os salmos. Foi Bourgeois quem produziu a música dos que faltavam para a edição de 1551, agora com 83 salmos. Finalmente, para a edição definitiva, de 1562, Pierre Davantès e Claude Goudimel colaboraram com edição e harmonias. Em 1565, apenas um ano depois da morte de Calvino, foi publicado um saltério totalmente harmonizado, obra definitiva dos seus colaboradores – Marot, Bèze e Goudimel – o Les Psaumes mis en rime française par Clément Marot et Theodore de Bèze. Mis en musique à quatre parties par Claude Goudimel. Genève, 1565. Ele contém os 150 salmos bíblicos, o Cântico de Simeão, um poema sobre o Decálogo e 150 melodias – muitas delas bem acessíveis ao povo e cantadas também nas igrejas luteranas – tudo harmonizado a quatro vozes. Guillaume Franc (1515 – 1570) músico primeiro em Paris e mais tarde mestre de música e Kantor reformado em St. Pierre, Genebra. Trabalhou nas duas primeiras edições do Saltério de Genebra, 1542 e 1543. Em 1545 tornou-se Kantor em Lausanne, onde morreu. 15 Pierre Davantés nasceu em 1525 em Rabastens, próximo a Tarbes, e em 1559 foi para Genebra. Foi quem desenvolveu um sistema de letras e notas musicais para a impressão do Saltério de Genebra e foi, ao que tudo indica, o editor das novas melodias da edição definitiva do Saltério de Genebra, que apenas sairia em 1562, após sua morte. Morreu em Genebra, em 1561. 16 Claude Goudimel nasceu em 1514 em Besançon, França e em 1550 tornou-se impressor de partituras musicais, passando algum tempo em Metz. Desde 1551 editou canções trabalhadas em forma de Motetos e, em 1562, editou em harmonias a quatro vozes, a versão definitiva do Saltério de Genebra. Morreu em 1572, em Lyon, durante a perseguição dos Huguenotes. 14


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Cerca de setenta dos salmos oriundos do Saltério Genebrino, ainda na versão original a quatro vozes de Goudimel, além de vários cânticos litúrgicos do próprio Calvino, estão conservados no moderno volume Psaumes et Cantiques, o atual hinário das igrejas reformadas suíças de língua francesa, bem como no Kirchen Gesangbuch, o hinário das igrejas reformadas suíças de fala germânica.

Considerações finais - a música nas institutas de 1536 e na revisão de 1539 Portanto, foi em Estrasburgo, como já se mencionado acima, que Calvino conhecera a liturgia reformada na prática cotidiana, especialmente o cântico de salmos durante os cultos. Ele observou o efeito que a música tinha sobre a vida das pessoas e tudo indica que ficou satisfeito com o que viu, já que logo se preocupou em preparar uma coletânea de salmos musicados para sua congregação de fala francesa. Isso nos revela sua preocupação com a música no culto e, talvez, uma mudança de atitude, evidenciada em sua revisão das Institutas de 1539. É claro que o pensamento de Calvino foi se desenvolvendo em todas as áreas. “Houve constante desenvolvimento no pensamento do Reformador”, escreve Sherron K. George sobre Calvino, “mudanças de ênfases e estrutura nesse processo de revisões, marca de um bom educador, e o desenvolvimento de uma teologia verdadeiramente reformada e reformando-se” (GEORGE, Sherron K. Igreja ensinadora. Campinas: LPC, 1993, p. 78-79). Quanto à música, em suas Institutas do ano 1536, Calvino ainda escrevera: “Contudo, nós não condenamos palavras e canções quando estão associados aos afetos do coração e o servem...” (CALVIN, op.cit., p. 100). Mas na revisão de 1539 algo mudara nas concepções de Calvino e o texto foi rescrito: “Contudo, nós não condenamos palavras e canções, antes as recomendamos energicamente, desde que estejam associadas aos afetos do coração e o sirvam” (CALVIN, John. Institutes of the Christian Religion. McNeill, John T. (Ed.). Filadélfia: The Westminster Press, 1960, p. 894, grifo nosso). Calvino mudou: de uma passiva aceitação dos salmos na liturgia para uma ativa recomendação do seu uso no culto verdadeiramente bíblico.17 17

A recente edição brasileira das Institutas (CALVINO, 2006, III.9.27) traz o texto de 1536, na tradução de Odayr Olivetti: “Todavia, não dizemos que a palavra e o canto não são bons; antes, os prezamos muito” (III, p. 113). Mas no rodapé n° 7 da mesma página, traz também o texto de 1539: “Nem, contudo, aqui condenamos a voz ou o canto, senão que antes, muito os recomendamos” (grifo nosso).


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Assim a igreja reformada se pôs a cantar. E com ela o próprio reformador: veremos Calvino cantando com sua igreja no fim de suas forças, nas suas últimas semanas de vida. Costa (COSTA, Hermisten. Pensadores cristãos: Calvino de A a Z. São Paulo: Vida, 2006, p. 44s) assim se refere ao fato: Em 6 de fevereiro de 1564, Calvino, já muito enfermo, foi transportado para a igreja numa cadeira, pregando então com dificuldade seu último sermão; [...]. A tosse e o sangue que subia pela boca o impediram de concluir a mensagem. No dia da Páscoa, 2 de abril, foi levado pela última vez de sua casa, na Rua do Canhão, à igreja; participou da ceia, recebendo o sacramento das mãos de Beza, pregador e celebrante. Mesmo com a voz trêmula, cantou com a congregação o cântico de Simeão.18

Essa forma de pensar de Calvino logo faria do cântico de salmos, ao lado da pregação da Palavra, a marca característica do culto reformado em todo o mundo. Por tudo o que aqui se disse, pode-se concluir que a música a partir da Reforma protestante ganhou nova função no culto. Na missa romana, celebrada ao som do canto gregoriano, sua função preponderante era a de “impressão”, isto é, a de criar uma atmosfera cúltica, majestosa, mística. Por isso não importava que os textos fossem sempre cantados em latim. Mais do que “não importar”, “...uma tradução completa da liturgia teria sido ato sacrílego”, escreve Hahn (HAHN, Carl Joseph. História do culto protestante no Brasil. São Paulo: ASTE, 1989, p. 77), e justifica em seguida: “Acreditava-se que a liturgia era uma espécie de mágica que não deixava de beneficiar os ouvintes ou espectadores, quer entendessem quer não.” Não importava, portanto, que os cânticos repetissem, a cada celebração, as mesmas palavras do Ordinarium da “Missa Romana” (o Kyrie, o Gloria, o Credo, o Sanctus, e o Agnus Dei). Não importava, ainda, que só os membros do clero cantassem e que os fiéis apenas ouvissem, sem compreenderem o sentido das palavras: como se disse, era música essencialmente “de impressão”, com virtudes e poderes meio mágicos “em si”. A música da Reforma protestante, porém, revela essencial e funcional18

Sobre o Cântico de Simeão Cf. nota 9.


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mente outro papel. Fossem os corais luteranos ou os salmos calvinistas,19 era música primordialmente “de expressão”. Por isso importava que os textos litúrgicos fossem cuidadosamente selecionados e, quando transformados em hinos, fossem cantados por todos, homens, mulheres e crianças, na língua local. Os fiéis aprendiam a cantá-los, compreendiam-nos e guardavam-nos nas suas mentes e nos seus corações. Cantavam, como se viu, doutrina reformada, espalhando e interiorizando seus ensinos. ANEXO A – Capa do volume original

19

Se “Coral Luterano” é o nome que se dá ao gênero musical nascido com a Reforma luterana (Cf. nota 2), “Salmo Calvinista” é a música da Reforma calvinista, fruto do ideal de cantar no culto apenas palavras da Escritura, de forma simples e modesta, sem harmonias complexas e sem acompanhamento instrumental. O “Saltério de Genebra”, com todos os 150 salmos bíblicos, que exigiu intenso trabalho de Calvino, de músicos profissionais e poetas, em sucessivas edições, foi o primeiro a publicá-los.


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ANEXO B – Salmo XIX como publicado no Saltério

ANEXO C - Texto metrificado por João Calvino Vous, serviteurs du Dieu des cieux

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ANEXO D O Mensch bewein (Es sind doch alle selig)

ANEXO E An Wasserflussen

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Rev. Gildásio Jesus Barbosa dos Reis Ministro presbiteriano, pastor da Igreja Presbiteriana Metropolitana de Guarulhos Formado em psicanálise clínica Licenciado em Filosofia Plena pela FAI (Faculdades Associadas Ipiranga) Mestre em Teologia pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (Educação Cristã) Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Mackenzie Professor de Teologia Pastoral no Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição

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Resumo Não resta dúvida de que a visitação aos membros da igreja é uma prática do ministério considerada essencial para a saúde da igreja do Senhor. Não obstante, e por diferentes razões, tal prática tem sido esquecida ou negligenciada por boa parte dos nossos líderes. Neste ensaio, o Rev. Gildásio Reis, com sua longa experiência no trabalho pastoral, oferece, à luz da Escritura Sagrada, algumas orientações bíblico-teológicas e práticas quanto à visitação, as quais poderão ajudar a resgatar este importante aspecto do cuidado pastoral na vida das nossas igrejas. Palavras-chave Visitação; aconselhamento; pastorear; ensinar; igreja; revitalização. Abstract There is no doubt that visiting church members is a ministerial activity considered essential for the health of the church of our Lord. Nevertheless, for several reasons, such a practice has been neglected or forgotten by a number of our leaders. In this essay the Reverend Gildásio Reis, with o long experience in the pastoral ministry, offers, after the Holy Scripture, biblical and theological orientation and suggests practices for visiting, which will help to rescue this important aspect of pastoral care in our churches. Keywords Visiting; counseling; shepherding; teaching; church; revitalization.

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Não é suficiente que, do púlpito, um pastor ensine todas as pessoas conjuntamente, pois ele não acrescenta instrução particular de acordo com a necessidade e com as circunstâncias específicas de cada caso.1

Conteúdo 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9.

A base bíblica da visitação Razões da visitação O antes da visitação O durante a visitação O após a visitação Premissas da visitação Cuidados especiais da visitação Qualidades do visitador Dicas gerais da visitação

A prática de fazer visitas aos membros da igreja em seus lares está caindo em desuso. Há várias razões para isso. Dentre elas, podemos mencionar pelo menos três: 1ª.) em razão da vida extremamente dinâmica e agitada da cidade, as pessoas estão sempre no “corre-corre”, sem tempo para receber pessoas em suas casas; 2ª.) a falta de interesse dos próprios membros por preferirem viver a vida cristã na clandestinidade, não permitindo assim, a “intromissão” pastoral; e 3º.) penso que devemos concordar com Jim Elliff o qual afirmou que “o cuidado com as almas nas igrejas ortodoxas está em um estado deplorável (e geralmente aumentando) porque os pastores estão falhando em amar”.2 Além destas razões, outro problema que constatamos é que, mesmo aquelas igrejas que ainda valorizam a visitação, nem sempre a fazem de maneira eficaz e com o propósito bíblico. Para muitos, a visita limita-se a uma conversa informal sobre muitos assuntos, na maioria das vezes, sem um propósito claro ou objetivo bíblico definido.3 Calvin, John. Calvin´s Commentaries – The Epistles of Paul – The Apostle to The Romans and to The Thessalonians. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishing Company. p.345 (Ao comentar 1Tessalonissenses 2:11, Calvino insiste em que o pastor precisa ser um “pai” para cada pessoa). 2 ELLIFF, Jim, “O Cura de Almas”, in: Armstrong, John. O Ministério Pastoral segundo a Bíblia. SP: Editora Cultura Cristã. 2007, p.152. 3 SITTEMA, John. Coração de Pastor – Resgatando a Responsabilidade Pastoral do Presbítero. São Paulo, SP: Ed. Cultura Cristã. 2004 p. 198 1


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É preciso resgatar a prática da visitação nos lares, bem como corrigir estas distorções. A visitação é essencial à saúde da igreja. Por isso é importante resgatar esta compreensão, e todos nós, principalmente, os que estão em posição de liderança na igreja, devemos assumir que a visitação aos membros da igreja é indispensável, caso queiramos sua saúde e crescimento.

I. A base bíblica da visitação Dirigindo-se aos irmãos da igreja em Éfeso, Paulo diz: “Vocês sabem que não deixei de pregar-lhes nada que fosse proveitoso, mas ensinei-lhes tudo publicamente e de casa em casa” (At 20.20). Vemos aqui que a preocupação de Paulo era que o evangelho fosse ensinado, não apenas publicamente no templo, mas também, de maneira reservada, de casa em casa. Ao comentar esta passagem, Calvino diz que Paulo estabeleceu um modelo para o ministério da Palavra ao ensinar que o ministro não deveria deixar de admoestar tanto “publicamente” quanto de “casa em casa”: O que quer que os outros pensem, não consideramos nosso cargo como algo dentro de limites tão estreitos como se, quando o sermão estiver terminado, pudéssemos descansar como se nossa tarefa tivesse terminada. Aqueles cujo sangue será requerido de nós se os perdermos por causa de nossa preguiça, devem ser cuidados muito mais de perto e de modo mais vigilante.4

Como fica claro nas palavras de Calvino, a visitação por parte da liderança da igreja era um meio de suplementar a pregação pública. Tinha como objetivo o “cuidado do rebanho muito mais de perto”. Novamente, diz ele: “Não é suficiente que, do púlpito, um pastor ensine todas as pessoas conjuntamente, pois ele não acrescenta instrução particular de acordo com a necessidade e com as circunstâncias específicas de cada caso”.5 Calvino desenvolveu seu pastorado dispensando grande cuidado à visitação dos enfermos6, e Ronald Wallace nos lembra que Calvino prescreveu em Wallace, Ronald. Calvino, Genebra e a Reforma. Editora Cultura Cristã. São Paulo, SP: 2004. p. 147 Calvin, John. Calvin´s Commentaries – The Epistles of Paul – The Apostle to The Romans and to The Thessalonians. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishins Company. p. 345 (Ao comentar 1Tessalonissenses 2:11, Calvino insiste em que o pastor precisa ser um “pai” para cada pessoa. 6 LESSA, Vicente Temudo. Calvino –1509-1564 – Sua Vida e a sua Obra. São Paulo, SP: Casa Editora Presbiteriana. P. 119 4 5


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suas Ordenanças Eclesiásticas, que “ninguém deveria permanecer três dias inteiros confinado à sua cama sem cuidar para que o ministro seja notificado e quando qualquer pessoa desejar que o ministro vá à sua casa, deve cuidar de chamá-lo numa hora conveniente para a visita”.7 Esta visão do reformador estava amparada por sua compreensão do ensino da Escritura sobre este assunto. Vários termos na Bíblia mostram que o ministério de visitação é para encorajar os desanimados (1Ts 5:11,14), fortalecer os fracos (Gl 6:1), repreender os desatentos (2Tm 3:16,17), instruir na sã doutrina (2Tm 4.2), etc. Ao escrever sobre a importância dos lares no ministério de evangelização feito pela igreja primitiva, Michael Green nos informa que as casas dos cristãos eram úteis em muitos sentidos. Diz ele: Atos dos Apóstolos nos mostra como as casas eram usadas para reuniões de oração (At 12.12) para ocasiões de comunhão (At 21.7), para celebrações da Santa Ceia (At 2.46) para vigílias de oração, culto e ensino (At 20.7), para reuniões evangelísticas improvisadas (At 16.32), para reuniões programadas com o fim de se ouvir o evangelho cristão (At 10.22), para responder perguntas (At 18.26), para o ensino organizado (At 5.42).8

II. Razões da visitação Além da orientação bíblica, quais seriam as razões práticas que justificam a realização da visitação aos lares, ainda em nossos dias? Ao meu ver são muitas. Vejamos apenas algumas: 1) Ensinar: Pela visitação, podemos ensinar a Palavra de Deus aos membros da igreja. As Escrituras contêm orientações fartas sobre a função da liderança em ensinar a Palavra de maneira individual e privada (At 2.46; At 20.20; 2Tm 2.2; Mt 13.10,11). Ao se referir ao trabalho do pastor puritano Richard Baxter (1615-1691),9 Cláudio Marra diz que, “é muito Wallace. Op Cit., p. 148 GREEN, Michael. Evangelização na Igreja Primitiva. SP: Edições Vida Nova. 1989. p. 262 9 O Rev. Richard Baxter foi um conhecido pastor reformado, o qual viveu na Inglaterra durante o século 17 (1615-1691). Era um não-conformista, que tentou reformar a Igreja da Inglaterra, sendo muitas vezes preso por isso. Dentre os seus livros mais importantes estão: Manual Pastoral de Discipulado – o clássico The Reformed Pastor (Editora Cultura Cristã), O Descanso Eterno dos Santos, A Vida Divina, Um Tratado sobre a Conversão, Um Apelo ao não Convertido, Agora ou Nunca, e muitos outros clássicos evangélicos. 7 8


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instrutivo observar que, para ele, a instrução dos crentes em particular não era apenas uma alternativa, um método entre tantos, que poderia ser adotado ou descartado.10 De fato, em seu livro The Reformed Pastor, Baxter faz um alerta aos pastores, onde ele revela a sua preocupação com o ensino das famílias: Seu objetivo é ser eficiente no ministério com as famílias. Portanto, procurem informar-se sobre como cada família está organizada, e como Deus é adorado ali. Visitem as famílias quando elas estão desfrutando lazer e procurem ver se o chefe da família ora em seu lar, lê as Escrituras, presta culto doutras maneiras.11

2) Conhecer: Uma segunda razão que mostra a importância da visitação nos lares é que ela nos ajuda a conhecer melhor os membros da igreja. A visitação traz este grande benefício ao pastorado. Conforme lemos em João 10.11-15, diferente do mercenário, Jesus disse conhecer as suas ovelhas e que era conhecido por elas. Escrevendo sobre o papel do pastor em trabalhar para curar almas, Jim Elliff analisa este texto de João 10 e mostra a importância da intimidade que deve existir entre pastor e rebanho. Diz ele: Jesus, o Bom Pastor, o pastor-modelo, “conhece” suas ovelhas e as ovelhas o “conhecem”. Se um pastor quiser ser semelhante a Cristo em seu pastorado, ele deve fazer esforços para conhecer as ovelhas e permitir que as ovelhas o conheçam. Em outras palavras, o pastorado não é somente a boa administração das ovelhas ou o aumento do número de ovelhas ou simplesmente o ensino das ovelhas. Ele está intrinsecamente ligado ao conhecimento íntimo das ovelhas. Um homem não consegue – não pode – pastorear ovelhas sem conhecê-las.12

Se levarmos à sério esta orientação, seremos convencidos de que pela visitação, podemos conhecer melhor os membros da igreja. E é exatamente MARRA, Cláudio. A Igreja Discipuladora. SP: Cultura Cristã. 2007. p. 89 BAXTER, Richard. O Pastor Aprovado, SP: PES. 1989. p. 109 12 ELLIFF, Jim, O Cura de Almas, in: Armstrong, John. O Ministério Pastoral segundo a Bíblia. SP: Editora Cultura Cristã. 2007. p.158 10 11


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este caminho, ou seja, a intimidade, que Jim Elliff nos aponta como um valioso instrumento para viabilizarmos este conhecimento entre pastor e ovelhas. Segundo ele, Deve haver algum planejamento, na maioria das situações, para garantir que cada uma das ovelhas conheça e seja conhecida pelo pastor. Esse planejamento pode incluir vários aspectos, mas deve, pelo menos, incluir uma das mais notáveis características dos pastores – a hospitalidade (1Tm 3.2). É um curso de ação razoável que os pastores tenham membros em sua casa com frequência. Se é impossível um mostrar hospitalidade àqueles que estão sob seus cuidados por certo tempo, então não há pastores suficientes para as ovelhas ou há amor insuficiente no coração do pastor.13

Richard Baxter desenvolveu um forte e importante trabalho no campo da visitação nos lares. Ele via a importância da pregação pública, mas também defendia a instrução particular como um meio eficaz e excelente para o fortalecimento das famílias. Ao escrever sobre este aspecto na vida deste notável pregador, Cláudio Marra disse: Segundo Baxter, “Você se tornará familiar com todo o seu povo uma vez que tenha tido oportunidade de conversar com ele em particular e individualmente... a própria familiaridade tende a suscitar a afeição que abre os ouvidos das pessoas para mais ensino”. Melhor conhecimento do rebanho promoverá melhor relacionamento e compreensão, banindo o preconceito. “Quando os conhecemos melhor, eles se sentem mais encorajados a nos revelar as suas dúvidas, a buscar soluções para elas e a sentir-se à vontade conosco de todos os modos.”14

3) Consolar: Uma terceira razão para realizarmos o ministério de visitação é que, através deste ministério, podemos consolar os membros da igreja. Muitas pessoas da comunidade enfrentam sérios problemas. Dificuldades financeiras, enfermidades, problemas no casamento, etc. Os pastores, presbíteros e diáconos são instrumentos de Deus para levarem conforto, alívio espiritual e esperança aos crentes (cf. 2Co 1.3-7). 13 14

ELLIFF, Jim, O Cura de Alma. p. 159 MARRA, Cláudio. A Igreja Discipuladora. p. 96


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4) Aconselhar: Uma quarta razão para visitarmos nossos crentes é que, pela visitação, podemos aconselhá-los (Cl 1.28; 3.16; Rm 15.14; 1Ts 5.12). O termo “admoestar”, que aparece nestas passagens, refere-se à atividade de “aconselhar”; “curar almas”; “orientar espiritualmente”. No exercício de seu pastorado, Calvino sempre procurou encorajar pessoas sobrecarregadas, que não conseguiam encontrar consolo mediante sua própria aproximação de Deus, a procurarem seu pastor para aconselhamento particular e pessoal. Nas palavras de Ferreira, “Calvino é pastor zeloso e incansável no seu esforço em favor de suas muitas ovelhas, sofridas e angustiadas por males de toda sorte”.15 5) corrigir: Através da visitação conseguimos manter um contato mais pessoal com os membros da igreja. E contato pessoal encoraja as pessoas a se abrirem e revelarem fraquezas ou pecados secretos. Desta forma, pela visitação, podemos corrigir as ovelhas (Pv 3.11; 9.8; Tt 2.15; 2Tm 4.2; Gl 6.1). Infelizmente, há muitos irmãos fracos e vivendo em desobediência a Deus. Alguns são orgulhosos, outros guardam ressentimentos, outros estão envolvidos em práticas sexuais pecaminosas, e outros em diversas paixões mundanas. Nosso dever, como líderes espirituais é visitá-los e procurar, através do ensino da Palavra, ajudá-los a se corrigirem (2Tm 2.25,26). Em casos assim, em que precisamos fazer uma visita como repreender o irmão por causa de algum pecado ou dar uma orientação sobre determinado comportamento, John Sittema oferece algumas dicas muito úteis:16 a) Seja direto: Seja agradável, demonstre bondade, mas não faça rodeios. Depois de chegar à casa, não deixe passar muito tempo, e vá direto ao assunto.17

CF. FERREIRA, Wilson Castro. Calvino: Vida, Influência e Teologia. Campinas, SP: LPC. 1985. p. 153. SITTEMA, John. Coração de Pastor. São Paulo, SP: Ed Cultura Crista. 2004. 17 Eu acrescento a esta observação de Sittema que o pastor precisa demonstrar amor e compaixão para com a pessoa visitada. Embora os pecados precisem ser confrontados e resolvidos, só haverá um resultado positivo, eficaz, caso a pessoa visitada perceba que o pastor realmente está preocupado com sua vida cristã (Lc 7.13) (cf. MACK, Wayne. Introdução ao Aconselhamento Bíblico. Hagnos. 2004. p. 208). 15 16


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b) Seja positivo: Lembre-se sempre de que o propósito da sua visita não é condenar, mas trazer restauração, graça e ajuda divina. Mesmo que esteja apontando pecados, mostre o caminho da graça e dê esperança de restauração no caso de haver arrependimento. c) Lembre-se de quem você é: Cuidado para não parecer convencido ou arrogante. Você está visitando para levar a Palavra de Deus àquela família, por isso, você deve ser também um discípulo de Jesus. “Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia” (1Co.10.12) d) Ore no início e ao final da visita: Sua oração humilde demonstra sua dependência daquele que lhe enviou ali. Além disso, transmite a ideia de que você não tem todas as respostas e que está dependendo do Espírito Santo. e) Ao final, faça um breve resumo da sua visita: Não deixe nada pendente. Ao final, certifique-se de que saibam o que você entendeu. Isso evita problemas futuros, e ajuda em muito na solução daqueles que existem. 6) Proteger: Finalmente, é preciso dizer que o rebanho, não pode ser deixado ao acaso. Pela visitação, podemos proteger as ovelhas (At 20:20). No contexto desta passagem de Atos 20, escrita para os líderes da igreja de Éfeso, o apóstolo discorre sobre a tarefa pastoral. Paulo diz que um pastor amoroso e cuidadoso com seu rebanho, toma medidas para protegê-lo dos “lobos”, dos predadores espirituais.18 A intenção dos “lobos vorazes” (At 20.28-31) era a de “arrastar os discípulos atrás deles” (v.30). Não apenas em Éfeso, mas ainda hoje, quem vive numa grande cidade enfrenta diversos “lobos vorazes”, tais como misticismo, sincretismo, secularismo, pragmatismo, relativismo, etc.19 E como disse Pedro, “Satanás anda ao derredor... procurando alguém para devorar” (1.5.8). Como líderes da igreja, não podemos descuidar-nos e permitir que nossas ovelhas, mais desatentas, venham a se tornar alvos destes inimigos modernos. SITTEMA, John.Coração de Pastor. Resgatando a Responsabilidade Pastoral do Presbítero. São Paulo, SP: Ed. Cultura Cristã. 2004. pp. 61-92. 19 Na parte Dois, seção Um do seu livro Coração de Pastor, John Sittema desenvolve cinco perigos que rondam a vida do rebanho. Ele chama a estes cinco perigos de “Os Dentes do Lobo” (confira: SITTEMA, John.Coração de Pastor. Resgatando a Responsabilidade Pastoral do Presbítero. São Paulo, SP: Ed. Cultura Cristã. 2004. pp. 61-92) 18


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Novamente, faço uso da influência de Richard Baxter em visitar as famílias de sua igreja. Ele escreve: Passamos as segundas-feiras, desde cedo de manhã até quase o cair da noite, envolvendo 15 ou 16 famílias, toda semana, nesta obra de catequese. Com dois assistentes percorremos completamente a congregação, que tem cerca de 800 famílias, e ensinamos cada família durante o ano20

Calvino, à semelhança de Baxter, adverte: “não consideramos nosso cargo como algo dentro de limites tão estreitos como se, quando o sermão estiver terminado, pudéssemos descansar como se nossa tarefa tivesse terminada”.21 Citando Eugene Peterson, Ricardo Agreste deixa muito clara a ideia de que o pastor não deve limitar seu pastorado apenas aos domingos: Assim, como muitos outros pastores, deparo-me com a realidade de que, apesar do domingo ser um dia essencial no serviço pastoral, muito deste ministério precisa ser feito em meio ao caos de segunda a sábado.... Nossas igrejas estão necessitando de pastores que conduzam suas ovelhas através de suas limitações e crises, com amor e paciência na direção da maturidade em Cristo Jesus. Nossas comunidades precisam de guias que, por meio da oração e da Palavra, ajudem as pessoas a caminharem por suas crises e a viverem em meio ao caos.22

III. cuidados que devemos ter antes da visita 1) Certifique-se de que você sabe o nome de todos os membros da família. A questão aqui é que, o esforço de aprender os nomes já é um sinal de que você se preocupa com eles.23 2) Faça a visita de maneira objetiva e planejada. Por isso, tenha em mente ou anotado em algum lugar, as razões ou motivos que o levaram a visitar aquela pessoa ou família.

BAXTER, Richard. O Pastor Aprovado. São Paulo, SP: Ed PES. 1989 p.18. Wallace, Op Cit., p 147 22 http://www.editorasepal.com.br/sepal/jornal/out_dez2001/pastorear.htm ( capturado em 22/03/04 ) 23 SITTEMA, John. Coração de Pastor. São Paulo, SP: Ed Cultura Crista. 2004. p. 222 20 21

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3) Dedique um tempo em oração, pedindo sabedoria a Deus para esta visita (Cl 4.12,13). 4) Esteja preparado para a possibilidade de sua orientação não ser bem aceita (Mc 10.21). Se estiver preparado para isso, você continuará a amar a pessoa, mesmo que seu conselho ou sua visita não tenham atingido o objetivo proposto.

IV. O que fazer Durante a Visita: Para uma boa visita, o pastor ou líder deve adotar a seguinte postura: 1. Transparente: Procure ser uma pessoa acessível. Aproveite para falar de você, de sua família e do seu testemunho pessoal de fé. Mas cuidado para não ser o centro da conversa, esquecendo-se assim das razões que o levaram a visitar aquela família.24 2. Bom ouvinte: Ouça com atenção a pessoa visitada. Em Provérbios 18.15 lemos: “o coração do sábio adquire o conhecimento, e o ouvido dos sábios procura o saber”. Procure ouvir compreendendo o que a outra pessoa deseja transmitir, valorizando a sua fala, seus sentimentos, sua experiência de vida. É importante que o visitador esteja pronto para ouvir. Assim, ficará mais fácil entender as necessidades e as carências manifestadas. 3. Empático: Nem sempre as pessoas visitadas conseguem se abrir. Há mecanismos de defesa que são ativados e muito do que é preciso perceber, não está na linguagem verbal, mas nos gestos, nas feições, nos temores, na hesitação, etc. O pastor ou líder que estiver realizando a visita deve ter sensibilidade para observar e analisar a presença destes elementos durante a visita e assim poder, de maneira mais efetiva, intervir para ajudar a pessoa visitada. 4. Informalidade: John Sittema faz a seguinte sugestão: “converse com a família sentados à mesa da cozinha ou na sala íntima – um lugar onde o diálogo é mais natural”.25

24 25

Idem, p. 223 Idem, p. 225


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V. O que fazer depois da visita Após a visita, faz-se necessário oferecer um acompanhamento. Não basta apenas fazer a visita e limitar a dar alguns conselhos. É preciso acompanhar a família ou pessoa visitada durante algum tempo, até que se consiga vê-la superando sua dificuldade. Para ajudá-lo neste acompanhamento, podemos dar duas pequenas dicas: 1ª.) Sugerimos que se façam anotações da visita realizada. Anote o que foi conversado (se não for possível fazer estas anotações no momento da visita, faça-as imediatamente depois para não cair no esquecimento). Anote principalmente aquilo que você precisará dar mais atenção e uma possível avaliação posterior.26 2ª.) Sugerimos que retorne a visita: Após alguns dias, você deve conferir as anotações feitas e voltar a visitar aquela família. Ou na impossibilidade de visitá-la, fazer um contato telefônico. Esta medida revela que você se importa com ela (Fl 1.8). Este retorno é muito importante, pois nos dará a oportunidade de rever os pontos anteriores, dúvidas, os passos que foram dados e o progresso feito por parte da pessoa visitada (lembre-se de Efésios 4.11,12).27

VI. Premissas da visitação 1. O pastor ou quem visita é um instrumento nas mãos de Deus, e como tal deve estar pronto para o serviço que glorifique ao Senhor. 2. A principal pessoa no trabalho de visitação não é o visitador, mas a família visitada. Portanto, devemos tomar cuidado para não monopolizar as conversas. 3. A pessoa visitada pode mudar, pode ser transformada. Como pressuposto básico, precisamos aceitar o fato ou a possibilidade de mudanças na vida da pessoa visitada. 4. A Bíblia possui as respostas para as indagações espirituais e materiais. Jay Adams afirma este pensamento da seguinte maneira: Ao visitar as famílias da sua igreja, Baxter fazia anotações com a finalidade de continuar a instrução de maneira sistemática (Cf. O Pastor aprovado, p. 18,28). 27 SITTEMA, John. Coração de Pastor. pp. 223, 224 26


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Da mesma maneira que o conselheiro cristão sabe que não existe problema sem par que não tenha sido claramente aludido nas Escrituras, assim também sabe que há uma solução bíblica para cada problema.28

Fazendo uso de 1Coríntios 10.13b, Adams entende que o conselheiro pode dar esperanças ao aconselhado (no caso, a pessoa visitada) com base na promessa divina. E que o papel do conselheiro é entender o problema do aconselhado e buscar respostas na Escritura para ajudá-lo.29 Nosso compromisso é com a verdade que está contida na Escritura Sagrada. O Rev. George A. Canêlhas, que acumula uma larga experiência pastoral, inclusive neste ministério de visitação, nos dá um conselho valioso: Seja sábio e coerente quando os problemas exigem um estudo mais profundo e um tempo maior para se chegar a uma conclusão. Não tente resolver tudo na primeira visita e, também, não tenha vergonha de dizer que não sabe responder.30

5. Existem problemas cujas causas são espirituais, psíquicas ou até orgânicas. É preciso saber identificar bem esses aspectos para realizar um bom trabalho de acompanhamento. É imprescindível reconhecer nossas próprias limitações e saber quando se deve encaminhar uma pessoa para alguém mais capacitado em ajudá-la. 6. O pastor precisa tomar cuidado para não ditar o que a pessoa precisa fazer, mas deve ajudá-la a conduzir sua própria avaliação e decisão.

VII. Casos específicos de visitação 1. Oportunidade para evangelizar: É muito comum, em algumas famílias da igreja haver entre seus membros pessoas que ainda não são convertidas. Às vezes, um cônjuge, um filho, um pai ou mãe, enfim. Neste caso, a visita do pastor ou de qualquer outro líder da igreja, torna-se uma excelente oportunidade de compartilhar o evangelho com estas pessoas.

28 29

ADAMS, Jay. O Manual do Conselheiro Cristão, Editora Fiel. 2000. p. 35 ADMS. Op Cit., p. 35 (veja a nota 6)


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2. Discipular famílias: “Há muitas pessoas no rebanho que, a despeito do tempo decorrido de participação da igreja, ainda são jovens e fracas, com pouca proficiência ou força na fé”.31 Baxter é de opinião que na visitação temos a oportunidade de fortalecer os crentes fracos. Na intimidade do lar, podemos tirar dúvidas, esclarecer passagens bíblicas, exortá-los ao arrependimento, etc. 3. Momentos de crise: São muitas as situações de crise que alguém possa estar enfrentando – crise financeira, crise no casamento, crise existencial, crise no relacionamento com filhos, crise de solidão, crise sentimental, crise de fé, etc. Em momentos assim, a presença do pastor, presbítero ou líder espiritual se reveste de grande significado e importância. Precisamos estar preparados para ouvir atentamente, sensíveis para aconselhar, orientar e consolar. 4. Família enlutada: Ao longo da vida experimentamos dores. Por vezes, são dores bem definidas, dores físicas, que se intensificam ou se abrandam, dores que falam, ou gritam, e logo corremos a atendê-las e, comumente, encontramos um paliativo ou uma solução para elas. Mas, existe aquela dor para a qual não há remédio para o alívio imediato. Dentre elas, temos a dor de quem está vivendo a perda de alguém querido. É uma dor movida por sentimentos de tristeza, de medo, de abandono, de fragilidade e insegurança. Ao visitar uma pessoa ou família enlutada, precisamos agir com carinho, compreensão e compaixão (Mc 3.1-5; Jo 11.33-35; At 20.31; 2Co 2.4). É o momento em que junto com a dor também está o sentimento de culpa pela perda. Não é momento de críticas ou censura, mas de palavras de consolo e paz. A Palavra de Deus traz conforto na lembrança de que o Senhor está no controle de todas as coisas e de que nossa vida está em suas mãos. Escrevendo sobre nosso relacionamento de ajuda ao aconselhado,32 Wayne A. Mack nos dá quatro sugestões de como podemos desenvolver uma compaixão genuína para com as pessoas: CANÊLHAS, George Alberto. Apostila de poimênica utilizada no curso do JMC. p. 20 BAXTER, Richard. Manual Pastoral de Discipulado. SP: Cultura Cristã. 2008. p.77 32 MACK, Wayne. Introdução ao Aconselhamento Bíblico. SP: Editora Hagnos. 2004. p.208-209 30 31

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1ª.) Pense como você se sentiria se estivesse na posição da pessoa (Mt 9.36; Hb 4.15). 2ª.) Imagine a pessoa visitada como alguém de sua família (1Tm 5.1,2). 3ª.) Considere sua própria pecaminosidade (Gl 6.1). 4ª.) Pense nas formas práticas de demonstrar compaixão (Lc 6.27,28). 5. Pessoas enfermas: As situações de enfermidade exigem uma atenção maior. Precisamos ser diligentes. Devemos nos preparar para levar conforto e palavras de encorajamento para o enfermo e familiares. Através da leitura da Palavra podemos despertar a fé do enfermo, alimentando as suas esperanças e levando-o a reconhecer que as possibilidades de Deus são infinitas. Devemos tomar muito cuidado para não cobrar fé. Encorajar não é a mesma coisa que constranger. Devemos levar a pessoa a uma disposição espiritual para descansar e confiar em Deus.33 6. Pessoas afastadas da igreja: Tem sido muito comum algumas pessoas, por razões diversas,34 afastarem-se da igreja. Todos nós conhecemos pelo menos uma que, no passado, chegou a participar por um tempo da vida da igreja, mas acabou se afastando. Um novo fenômeno já pode ser visto nas igrejas evangélicas – os “desigrejados”. Se tomarmos como exemplo uma igreja com uns 10 anos de existência, podemos arriscar um palpite, que aproximadamente 100 pessoas já passaram por ela e agora estão afastadas.35 É bem verdade que há pessoas que se afastam da igreja porque nunca chegaram a se converter. Aceitaram a religião e não a pessoa do Redentor (1Jo 2.19). Mas há aqueles que receberam a Cristo pela fé, são de fato convertidos, mas por “causa das tentações de Satanás e do mundo, pelo BAXTER, Richard. O Pastor Aprovado. p.110 Segundo uma pesquisa registrada na Revista Enfoque, estima-se que “59% das pessoas decidiram abandonar a casa de Deus por causa da mudança de situação de vida (transferência de cidade, divórcio, nascimento de filhos, morte na família etc.). O desencantamento com os membros e pastores foi apontado por 37% dos entrevistados. A pesquisa também revelou que 19% estavam ocupados demais para participar das atividades da igreja; já 17% disseram que as responsabilidades da casa e família contribuíram para o afastamento. O comportamento dos próprios membros representou 17% dos ouvidos. E outros 12% revelaram dificuldades de envolvimento como maior empecilho.” (extraído: http://www.fmgospel.com.br/noticia.php?id=1765&situacao=1765, capturado em 21.06.2010) 35 NETO, Sinfrônio J.; Jardim, Daria Tiyoko. A Reconquista. SP: Editora Vida. 2001. p.21 33 34


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predomínio da corrupção restante neles e pela negligência dos meios de sua preservação”,36 acabaram caindo e se afastando da igreja (Mt 26.70-74; 2Sm 12.9,13; Sl 51. 8-12; Ap 2.4). O profeta Ezequiel escreveu sobre o cuidado que Deus tem com seu rebanho: “Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas e as farei repousar, diz o Senhor Deus. A perdida buscarei, a desgarrada tornarei a trazer, a quebrada ligarei e a enferma fortalecerei...” (Ez 34.15,16). Através da prática da visitação, podemos imitar o exemplo do Senhor. Podemos “buscar a perdida” (evangelizar), mas também, “trazer a desgarrada”. O pastor e presbíteros precisam “sair da sala do conselho” e, a exemplo de Jesus, ir atrás das ovelhas desviadas. “Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?” (Lc 15.4) 7. Pessoas idosas: Em geral, o idoso a partir da terceira idade começa a apresentar diversos problemas: tais como problemas sociais, econômicos, psicológicos, físicos e biológicos. Não é fácil envelhecer. Como pastores e líderes não devemos ignorar as inquietações da idade avançada. Precisamos visitar estes irmãos e levar-lhes uma palavra de consolo, uma palavra amiga, uma orientação, etc. 8. Sociabilidade: Este tipo de visita objetiva estreitar vínculos de amizade, procurar conhecer melhor a pessoa e sua família, etc... Com relação a este caso para se visitar alguém, vale a pena ressaltar a observação feita pelo Rev. George Canêlhas: Tome cuidado com as pessoas que querem fazê-lo de “babá”. Geralmente essas pessoas são carentes e acham que você está à disposição delas. As pessoas têm que se adaptar aos seus horários de visitação e a sua forma de visitar. Não deixe de mandar as pessoas fazerem “tarefas” – os interessados no aconselhamento seguirão as regras e responderão positivamente.37

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Confissão de Fé de Westminster. Cap. XVII, 3 – Sobre a Perseverança dos Santos. CANÊLHAS, apostila de poimênica. P. 20

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VIII. qualidades do visitador 1. Ter conhecimento da Escritura Sagrada (1Tm 3.16). 2. Ser amável e simpático (Cl 4.6; Pv 15.23). Ser capaz de pensar como se estivesse no lugar da pessoa visitada. 3. Ter vida de oração e depender sempre de Deus (Cl 4.12,13). É preciso que seja um líder consagrado a Deus. Se tiver alguma área da sua vida cristã com problemas, como algum pecado costumeiro que o está derrotando, é preciso buscar ajuda para si mesmo, antes de tentar ajudar alguém. 4. Cuidado pessoal e bom gosto com a aparência, usando a roupa adequada. 5. Ser alguém de confiança. Quem visita acaba ouvindo e conhecendo alguns “segredos” da família. Portanto, se o visitador for alguém que não sabe guardar confidências, está automaticamente desqualificado para este trabalho.

IX. Dicas gerais da visitação 1. Chegada à residência a ser visitada 1. Chegue com atitude agradável e crendo que Deus pode agir graciosamente na vida da pessoa ou família a ser visitada. 2. Preste atenção no contexto do local e da família para conhecer as circunstâncias que envolvem as pessoas a serem visitadas. 3. Faça uma apresentação sua e das pessoas que o acompanham e seja claro quanto ao verdadeiro propósito de sua visita. Evite ir sozinho, especialmente quando for visitar uma pessoa do sexo oposto. O conselho do Rev. George quanto a esta questão é o seguinte: Tome cuidado! O homem não visita mulher sozinho! Leve uma senhora, um presbítero, um diácono – o melhor é que a visitação seja feita constando de três pessoas: dois homens e uma mulher, ou vice–versa.38

4. Chame as pessoas pelo nome. Tente gravar os nomes de todos e repeti-los sempre que for se referir a alguém. 38

CANÊLHAS, George Alberto. Apostila de Poimênica utilizada no curso de poimênica no JMC. p.20


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2. Na residência 1. Lembre-se de que você é convidado na casa de outra pessoa. Mostrese de maneira amiga e agradável (Cl 4.6). 2. Seja paciente para ouvir a todos, em especial as pessoas enfermas e seus familiares. 3. Focalize-se na pessoa para quem a visita foi dirigida, mas sempre demonstrando interesse para com todos os presentes (Tg 1.19). 4. Mantenha a preocupação em conduzir a conversa visando atingir o propósito de sua visita. 3. No hospital 1. Procure estar informado: É muito importante que você tenha informações da situação do paciente. Se ele operou do estômago, não leve alimentos. Se ele operou da vista, não leve uma palavra-cruzada. Se ele está com dores de cabeça, fale pouco e fale baixo. 2. Procure ser breve: Evite tornar a sua visita cansativa para o paciente. Lembre-se de que você está visitando um doente e não fazendo uma festa. Visitas que demorem mais de 30 minutos são desaconselhadas. Lembre-se de que o paciente está hospitalizado e precisa descansar. Alguns pacientes no pós-cirúrgico dormem muito, várias vezes por dia. Isso pode acontecer em razão da medicação ou porque o corpo ainda está se recuperando. 3. Cuidado com as histórias: Não fale sobre suas próprias doenças do passado e não fique contando histórias de quando seu tio fez uma cirurgia e morreu, ou da vizinha de um conhecido seu que, após uma cirurgia na garganta, nunca mais voltou a falar. Com certeza a pessoa visitada não está interessada em ouvir estas histórias de tragédias. Ao contrário, fale ao enfermo sobre a segurança do amor e cuidado divinos. 4. Não faça diagnósticos médicos: Lembre-se de que você não é o médico: não tente dizer o que o paciente deveria ou não deveria fazer ou tomar. Não interessa se você teve experiência semelhante ou não, pois cada caso é um caso, e só o médico pode saber o que fazer.

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5. Cuidado com suas emoções: Procure desenvolver autocontrole de suas emoções e sentimentos. Evite chorar durante a visita. Isso pode assustar o paciente ou deixá-lo ansioso quanto ao seu quadro clínico. 6. Centralize sua visita no doente, e não na doença ou qualquer outro assunto inoportuno. Deixe o paciente falar livremente e seja gentil ouvindo-o com bastante atenção. 7. Não prometa que Deus irá curá-lo. Em sua sabedoria, Deus algumas vezes permite que a doença continue.39 Conclusão e aplicação: O que foi dito até aqui teve como objetivo dar alguma orientação sobre este aspecto tão importante da vida eclesiástica, mas esquecido e negligenciado por boa parte da nossa liderança. A título de aplicação, quero fazer cinco sugestões para ajudar a implementar ou resgatar na igreja um ministério de visitação nos lares: 1º) Comece a ensinar este assunto em sua igreja. Mostre a base bíblica e as razões para a visitação nos lares. Todos os membros precisam ter conhecimento dos benefícios da visitação para a vida da igreja. 2º.) Forme um grupo de visitação. Além dos pastores, presbíteros, diáconos e líderes, deve haver outros irmãos interessados em fazer parte de um ministério de visitação. Distribua entre os membros da igreja um questionário, o qual deve ser preenchido pelos interessados. 3º) Ofereça um curso de visitação aos interessados. Existem pessoas que querem se envolver, mas por timidez ou falta de preparo, não se dispõem. 4º) Deixe em algum lugar de fácil acesso e visualização, uma caixinha onde os membros da igreja poderão depositar seus pedidos, sugestões e indicações de pessoas a serem visitadas.

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COLLINS, Gary R. Aconselhamento Cristão. SP: Vida Nova. 1984. p.336


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5º.) Publique no boletim da igreja os nomes das famílias ou pessoas que estão sendo visitadas, bem como os nomes das equipes que estão fazendo as visitas. Isto encoraja outros a se envolverem. Esperamos que estas orientações e sugestões sirvam para despertar pessoas e líderes para dar início ou retomar aquilo que estava sendo esquecido. Tenha sempre em mente e no coração, que visitar as pessoas trará um enorme benefício para nossas igrejas.

Bibliografia consultada Adams Jay E., A Theology of Christian Conseling – More than redemption. Grand Rapids: Zondervan Publishing Co., 1995. _________________. O Manual do Conselheiro Cristão, Editora Fiel. 2000. BAXTER, Richard. Manual Pastoral de Discipulado, SP: Cultura Cristã. 2008. Calvin, John. Calvin´s Commentaries – The Epistles of Paul – The Apostle to The Romans and to The Thessalonians. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishing Company. CANÊLHAS, George Alberto. Apostila de poimênica utilizada no curso do JMC. COLLINS, Gary R. Aconselhamento Cristão. SP: Vida Nova. 1984. Confissão de Fé de Westminster e o Catecismo Maior. SP: Casa Editora Presbiteriana. 1991. ELLIFF, Jim, O Cura de Almas, in: Armstrong, John. O Ministério Pastoral segundo a Bíblia. SP: Editora Cultura Cristã. 2007. Ferreira, Wilson Castro. Calvino: Vida, Influência e Teologia. Campinas, SP: LPC. 1985. GREEN, Michael. Evangelização na Igreja Primitiva. SP: Edições Vida Nova. 1989. LESSA, Vicente Temudo. Calvino -1509-1564 – Sua Vida e a sua Obra. São Paulo, SP: Casa Editora Presbiteriana. MARRA, Cláudio. A Igreja Discipuladora. SP: Cultura Cristã. 2007. MACK, Wayne. Introdução ao Aconselhamento Bíblico. Hagnos. 2004. NETO, Sinfrônio J.; Jardim, Daria Tiyoko. A Reconquista. SP: Editora Vida. 2001. p.21

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SITTEMA, John. Coração de Pastor – Resgatando a Responsabilidade Pastoral do Presbítero. São Paulo, SP: Ed. Cultura Cristã. 2004 Wallace, Ronald. Calvino, Genebra e a Reforma. Editora Cultura Cristã. São Paulo, SP: 2004. Sites: http://www.fmgospel.com.br/noticia.php?id=1765&situacao=1765 http://www.editorasepal.com.br/sepal/jornal/out_dez2001/pastorear.htm


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Valdeci da Silva Santos Professor de Missões e Aconselhamento Bíblico Formado em Missões Urbanas pelo Reformed Theological Seminary (RTS), Jackson, MS Formado em Aconselhamento Bíblico pela Christian Counseling Educational Foundation (CCEF), Filadélfia, PA Professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ) e no Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição Pastor titular da Igreja Cristã Reformada de Campo Belo, São Paulo

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TRIPP, Paul D. O que você esperava? Expectativas fictícias e a realidade do casamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.

O casamento é uma instituição divina e de grande valor aos olhos do Senhor. A Bíblia ensina que Deus estabeleceu o casamento como uma solução para a solidão humana, para a propagação da raça humana e para que o lar operasse como o primeiro centro de adoração e serviço a Deus. Todavia, muitas vezes o casamento se torna uma fonte de tensões e estresse para os casais. Sempre que isso ocorre, o resultado é angustiante, pois nada nos afeta mais do que o fato de um dos nossos relacionamentos centrais se tornar uma fonte de sofrimento em nossa vida. Conhecedor desta realidade o conselheiro bíblico Paul D. Tripp escreveu o livro O que você esperava? com o propósito de oferecer a cônjuges desanimados e decepcionados com sua realidade matrimonial, mais uma razão para perseverarem casados . Paul D. Tripp é um autor conhecido do público brasileiro, pois suas obras Instrumentos nas mãos do Redentor e Adolescência: Idade de oportunidades, têm ajudado a muitos. O primeiro se tornou livro-texto em vários cursos de aconselhamento bíblico no Brasil. Também, Tripp tem feito várias visitas ao Brasil, atuando como preletor em diversas conferências de aconselhamento bíblico. Mais recentemente, a Editora Cultura Cristã tem publicado outras obras de Paul D. Tripp escritas em parceria com Tim Lane, o atual diretor da Christian Counseling Educational Foundation (CCEF), na Filadélfia, EUA. Dentre essas obras temos Relacionamentos, uma confusão que vale e pena e Como as pessoas mudam. Em cada um desses livros o leitor encontra o estilo claro, bíblico e pastoral que caracteriza o trabalho desse autor. Quanto ao livro O que você esperava?, é inquestionável que a experiência de Tripp como pastor e conselheiro bíblico lhe outorga a habilidade necessária para discorrer adequadamente sobre as dificuldades relacionadas ao matrimônio. Porém, a autoridade de sua abordagem procede de seu zelo e compromisso com as Escrituras Sagradas. Aliás, esse parece ser o fator determinante para que seu livro difira de uma mera integração entre aconselhamento cristão e psicologia secular. Como um bom observador e alguém preocupado em ajudar o próximo, Tripp aborda questões sobre o relacionamento conjugal com grande perspicácia. Seu diagnóstico dos problemas conjugais comuns parece preciso, assim como qualquer bom psicólogo seria

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capaz de fazer. No entanto, a proposta apresentada por Tripp é essencialmente bíblica e fundamentada na perspectiva divina sobre o relacionamento conjugal, e isso nenhum psicólogo secular poderia realizar. Dessa forma, se Tripp compartilha com os psicólogos do cuidado no diagnóstico em relação aos problemas conjugais, o mesmo não acontece na apresentação da prescrição para a solução deles, pois suas respostas encontram-se fundamentadas nas Escrituras. Uma abordagem cuidadosa do livro O que você esperava? irá dividi-lo em duas partes. Na primeira, o autor faz uma análise das principais razões dos conflitos e crises conjugais. Segundo ele, as expectativas irreais são grandes responsáveis pela frustração, decepção e desistências nos casamentos atuais. O problema é que essas expectativas são implantadas e cultivadas nas pessoas pelo meio em que elas vivem, tanto a sociedade secular como a própria igreja. Quando um casal está namorando ou se preparando para casar é comum que ambos, e a própria sociedade ao redor, espere que o relacionamento se reduza a um “delírio romântico”. Além dessa expectativa não corresponder à realidade diária da vida conjugal ela nem é bíblica e isso pode ser frustrante. Como o autor insiste, “expectativas irreais sempre conduzem ao desapontamento” (p. 16). O fato é que o relacionamento conjugal ocorre no contexto de um mundo marcado pelo pecado e que não opera de acordo com o plano original estabelecido pelo próprio Deus. Além do mais, os cônjuges não são apenas expectadores nesse contexto, mas participantes ativos. Ou seja, o casal não é apenas afetado pelo pecado ao redor, mas tanto marido como esposa são pecadores e geralmente rebelados contra a vontade santa de Deus. Por essa razão, as propostas de soluções superficiais não são duradouras. A grande bênção a ser lembrada é que o Deus gracioso e fiel atende ao clamor de pecadores e lhes restaura a alma! (cf. Capítulo 1). A fim de ilustrar o seu argumento inicial, Tripp dá no capítulo 3 o exemplo de um casal em conflito. Segundo ele, os comentários agressivos, murmurações e ataques verbais geralmente têm o propósito de infligir culpa ou registra alguma insatisfação. Nessas ocasiões ambos os cônjuges têm muito a ser dito, mas ninguém parece realmente interessado em dizer ou resolver os seus problemas relacionais. O que poucos percebem, segundo Tripp, é que esta “batalha conjugal” encontra-se enraizada em uma batalha mais profunda, ou seja, uma batalha interior. Tripp observa que “é muito difícil consertar alguma coisa que você não compreende, e é mais difícil


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ainda consertar um relacionamento com alguém quando se pensa que o problema realmente é a outra pessoa” (p. 45). Nesse ponto o autor passa a descrever algumas características bíblicas do pecado que habita em nós a fim de ajudar seus leitores a compreenderem melhor suas atitudes e reações no contexto do relacionamento conjugal. Um dos problemas com o pecado é que ele é essencialmente antissocial (2Co 5.14,15) e egocêntrico. Assim, nosso pecado nos leva a um distanciamento das pessoas e, ao mesmo tempo, a desejar que somente nossa vontade seja feita. Consequentemente, as pessoas ao nosso redor acabam sendo desumanizadas e passam a ser vistas apenas como objetos ou obstáculos, ou seja: elas são objeto da nossa alegria e satisfação ou obstáculo à nossa felicidade. De qualquer forma, essa é uma perspectiva pecaminosa, pois usar ou abusar de alguém não foi o propósito de Deus ter nos colocado em união conjugal. O resultado nesses casos sempre será um conflito com o plano de Deus, pois no mais íntimo do nosso ser não desejamos o que Deus deseja para nós (cf. capítulo 3). Em resumo, na primeira parte do livro, o autor conclama cônjuges a olharem para si mesmos sob a ótica divina revelada nas Escrituras. Essa proposta é completamente antagônica àquelas que motivam as pessoas a olhar para os seus cônjuges como se o problema começasse com eles. Somente quando essa exigência é cumprida o casal pode eliminar o processo de culpa e acusações mútuas a fim de se observarem como participantes e corresponsáveis pelas crises conjugais. Após estabelecer o diagnóstico quanto às verdadeiras origens de conflitos conjugais, Paul D. Tripp passa a discorrer sobre o processo de restauração dos casamentos marcados por frustração e desânimo. A palavra “processo” nesse sentido corresponde à perspectiva do autor de que o caminho da restauração não ocorre “em um passo de mágica”, mas mediante o comprometimento diário dos interessados. Nesse sentido, Tripp argumenta que a coisa principal a fazer é desenvolver um relacionamento pessoal e íntimo com Deus. O que mais precisa uma pessoa que não crê que conseguirá continuar amando o seu cônjuge é do próprio Deus em sua vida, pois a Bíblia ensina que “Deus é amor” (1Jo 4.8). O relacionamento com Deus sempre é o alicerce do relacionamento com o próximo. Somente quando estiver amando e servindo a Deus de forma correta alguém será capaz de expressar o amor de Deus de maneira apropriada ao seu cônjuge. Somente aquele que está seriamente comprometido com Deus poderá comprometer-se com um processo diário

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de reconciliação com o seu cônjuge. Em suma, essa é a proposta da segunda parte desse livro. A tese de Tripp desenvolvida na segunda parte do seu livro é que um bom casamento é possível. No entanto, “deve ser entendido que um bom casamento não é um dom misterioso. Ao contrário, um bom casamento é um conjunto de comprometimentos que, de momento a momento, se torna um estilo de vida” (p. 60). À luz da aplicação de 2Coríntios 5.14-21 ao contexto do casamento o autor defende: “Você não estaciona esperando, de alguma forma, conseguir evitar as coisas ruins. Não! Você deve viver com uma intencionalidade de reconciliação” (p. 61). Essa “intencionalidade de reconciliação” é desenvolvida por Tripp a partir do compromisso com seis práticas essenciais para um bom casamento. O primeiro desses seis compromissos é o estilo de vida de confissão e perdão. De acordo com o autor essa atitude é essencial para que haja purificação e o cancelamento de débitos entre os cônjuges. O resultado não é o esquecimento mútuo e nem mesmo a ignorância das falhas mútuas, mas a incapacidade de uma vida de contínuas acusações e ataques verbais. O cancelamento de débito implica no fato do credor abrir mão do seu direito de submeter diariamente o devedor a um tribunal relacional. O segundo compromisso básico para um bom casamento é a determinação em buscar crescimento e mudança na agenda diária. Utilizando a metáfora do trabalho no jardim o autor defende que o casal deve se comprometer em identificar e extirpar as “ervas daninhas” que minam o relacionamento e plantar “novas sementes” a fim de colherem o fruto do trabalho árduo. A perspectiva desse princípio é que o casal deve viver sempre com uma mentalidade da colheita, pois a Escritura afirma que colheremos o que foi semeado. O terceiro compromisso a ser assumido pelo casal diz respeito à edificação de um forte elo de confiança. A fim de que isso seja possível, cada cônjuge deve sair da posição de “defensiva” ou de sua “zona de conforto” e se arriscar em determinadas ocasiões. Por exemplo, é necessário que os cônjuges se arrisquem ao admitir o erro, ao pedir perdão pelas falhas e se apresentarem como responsáveis pelo erro. Somente assim os cônjuges poderão olhar um para o outro como pessoas confiáveis. O quarto compromisso a ser estabelecido pelo casal diz respeito a se esforçarem em prol de um relacionamento de amor. No entanto, o autor já havia rejeitado o conceito secular de amor como um “delírio romântico”. Sua ênfase consiste na determinação bíblica


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para praticar aquele amor que é paciente, voluntário e benigno (1Co 13.4). A natureza desse amor resulta em edificação mútua em vez da decepção e frustração individual. Os últimos compromissos a serem assumidos por um casal que deseja experimentar um bom casamento são a atitude de lidar com as diferenças com graça e apreciação e, em último lugar, a determinação de conjuntamente proteger o seu matrimônio. Enquanto alguns casais preferem discutir as diferenças pessoais como “certas ou erradas”, Tripp recomenda que elas sejam celebradas com graça, pois as Escrituras afirmam que os seres humanos são feitura do Supremo Artista que na criação conferiu as individualidades como expressão da sua multiforme sabedoria. Assim, cada cônjuge pode se envolver em uma empolgante aventura de conhecer um ao outro de forma mais cuidadosa. Com respeito à defesa do casamento, o autor reconhece que há vários inimigos de um casamento sadio e harmonioso. O surpreendente, porém, é a insistência do autor em que o meio mais eficiente de defender a harmonia conjugal é a intimidade com o Senhor Deus. Somente quando o casal aprende a adorar a Deus em sua vida diária e no seu relacionamento interpessoal ele será equipado para lutar eficientemente em prol da proteção do casamento. Finalmente, esse livro é útil não apenas aos casais que enfrentam crises ou dificuldades na área do relacionamento. Ele também pode ser usado como uma ferramenta crucial no ministério daqueles que procuram ajudar casais a desenvolverem harmonia em seus relacionamentos. Dessa forma, conselheiros bíblicos, pastores, presbíteros e outros líderes na igreja podem ser grandemente beneficiados com o estudo dessa obra. Além do mais, o estilo didático de Tripp contribui para que esse livro seja estudado em classes de Escola Dominical ou pequenos grupos existentes na igreja local. A publicação dessa obra foi mais uma atitude acertada da Editora Cultura Cristã.

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Procurando escapar com esperança no que é falso Amós 5.18-27

Alexandre Ribeiro Lessa Bacharel em Administração de Empresas com Habilitação em Comércio Exterior pelas Faculdades Integradas Olga Mettig– BA Pós-graduado em Educação: Formação de Docente para o Ensino Superior pela Universidade Nove de Julho – SP Mestrando em Teologia Sistemática pelo Centro de Pós-graduação Andrew Jumper do Instituto Presbiteriano Mackenzie – SP Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição – SP

Sermão pregado ainda no Seminário JMC. O Rev. Lessa agora pastoreia a Igreja Presbiteriana de Vitória da Conquista juntamente com o Rev. João Marcos Rocha.

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P rocurando

escapar com esperança no que é falso

– A mós 5.18-27

Ideia Homilética Depositar as esperanças em teologia inadequada e religiosidade morta conduz à ruína.

Introdução No ano de 1844, Karl Marx editou uma obra chamada Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, onde encontramos a famosa tese, dita marxista: “a religião é o ópio do povo”. Na verdade, a ideia de classificar a religião de tal forma era algo que já havia sido mencionado em algumas obras, escritas por grandes intelectuais anteriores a Marx, como por exemplo, Immanuel Kant, Ludwig Feuerbach e Bruno Bauer. Contudo, é certo sim, afirmar que a expressão “a religião é ópio do povo” ganhou grande notoriedade através da divulgação do pensamento marxista. A maior parte dos teólogos reformados atuais é unânime em declarar a incompatibilidade da fé cristã reformada com a maioria dos conceitos do marxismo. Entretanto, será que a tese “a religião é o ópio do povo” é de todo errada? Será que em algum contexto ela pode ser aplicada? Hoje nós veremos que sim. Um dos exemplos de sua aplicabilidade é à nação de Israel no período do profeta Amós. O período histórico de Amós é concomitante com o reinado de Jeroboão II em Israel. Uzias era o rei de Judá (1.1), e ambos, Israel e Judá, viviam momentos muito prósperos. No início do livro do profeta Amós, um simples colhedor de sicômoros, mas chamado por Deus para profetizar, encontramos na frase “logo depois do terremoto” um importante elemento para situar o contexto histórico com boa margem de acerto. A prosperidade de Israel, sua sensação de segurança (6.1-6) e suas vitórias militares também apontam para o período de Jeroboão II, que foi de 775 a 750 a.C. Nos tempos de Amós a situação política do Antigo Oriente Próximo era bastante favorável a Israel. O Egito estava fragmentado internamente e já não representava mais uma ameaça militar. Síria e Assíria envolveram-se em uma guerra e a Assíria foi vencedora. Tendo em vista que o rei assírio tinha pouco interesse pela Palestina, e a Síria estava se recuperando da derrota militar, tanto Jeroboão como Uzias, tornaram-se grandes monarcas devido à ausência de ameaças externas.

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Em meio a este contexto, o livro de Amós narra que o povo estava orgulhoso e tranquilo (6.1). O controle das rotas comerciais e das estradas trazia riqueza e luxo (3.15 e 6.14) para a nação. Contudo, mesmo sendo ricamente abençoados por Deus nas questões materiais, os israelitas desviaram-se da aliança divina na prática das relações comerciais e na adoração. Opressão, violência e mentira caracterizavam a vida de Israel. A aristocracia sentia-se segura, orgulhosa e despreocupada com a miséria legada ao restante da população (6.1,6,8). Os ricos esmagavam os necessitados (4.11); os comerciantes enganavam os pobres (8.4-6); os latifundiários exigiam tributos injustos (5.1). As condições sociais eram precárias devido à ganância e ao pecado. Amós opôs-se a estes males, deu grande ênfase à questão social em sua pregação e predisse a humilhação e o cativeiro daqueles que ignoravam os padrões divinos de justiça e santidade. A adoração nos sábados não era coerente com as práticas diárias (5.21-24; 8.5,6) ou com uma busca real por Deus (5.4-6). Os templos em Betel, Gilgal e Berseba estavam cheios de atividades, mas os adoradores não abandonavam sua vida de pecado e não retornavam para Deus (4.6-13). Amós, então, foi enviado por Deus para anunciar os seus desígnios, o rugir do leão (3.8). Deus estava ciente da hipocrisia da nação, que além de viver uma religiosidade morta, ainda tinha esperança de mais vitórias militares e econômicas baseadas em má compreensão teológica. Na verdade, a religião havia se tornado o ópio do povo em Israel. Estavam cegos! Amós procurou tratar dessas falsas esperanças em dois oráculos de ai (5.18-27 e 6.1-14). Esses oráculos lamentavam as falsas esperanças de Israel e cada um deles termina com uma previsão de exílio. Com habilidade retórica magnífica, o profeta ataca os sonhos sagrados de um povo que permitiu que teologia inadequada e religiosidade morta destruíssem sua percepção da realidade. Por isso discorreremos sobre a seguinte tese: depositar as esperanças em teologia inadequada e religiosidade morta conduz as pessoas à ruína.

Desenvolvimento O primeiro aspecto desta ideia que queremos destacar é justamente o fato de que...


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I. NÃO PODEMOS DEPOSITAR NOSSAS ESPERANÇAS EM TEOLOGIA INADEQUADA Esta primeira divisão do nosso texto vai do versículo 18 a 20. Na língua original observamos que é uma construção em terceira pessoa em estilo de prosa, e apresenta as falsas expectativas e esperanças sobre um conceito teológico, a questão do “Dia do Senhor”. A. O equívoco teológico dos israelitas Os israelitas tinham uma compreensão teológica inadequada sobre o Dia do Senhor. Vejamos o que diz a primeira parte do versículo 18: “Ai de vós que desejais o Dia do SENHOR! Para que desejais vós o Dia do SENHOR?”. Como já dissemos, nosso texto pode ser classificado como um oráculo, e mais especificamente falando, um oráculo de ai. Em termos bastante básicos, este tipo de oráculo apresenta um anúncio do julgamento divino sobre Israel, em que as violações da aliança de YWHW com seu povo são postas em evidência, e por fim uma sentença da parte de Deus é pronunciada. A perícope anterior ao texto em que ora meditamos já nos remete ao tom fúnebre da mensagem do profeta, um verdadeiro lamento funeral, que demonstrava que a nação de Israel estava passando por sérios problemas. B. A verdadeira natureza sobre o Dia do Senhor O escritor sacro, então, vem nos falar sobre qual seria a verdadeira natureza deste “Dia do Senhor”. O que realmente ele seria e o que aconteceria nesse dia. É importante frisar que no momento histórico do profeta Amós, a concepção teológica sobre o Dia do Senhor estava sendo construída. O Dia do Senhor era considerado, não em uma perspectiva escatológica como que a temos hoje, baseados em nosso estudo de toda a revelação progressiva; mas como um dia em que Deus viria, passaria pelo meio da nação de Israel, do seu povo, traria bênçãos e vitórias militares para a nação e traria também desalento e derrota para as nações vizinhas inimigas da casa de José. Contudo, o profeta, de forma completamente diferente as expectações do povo de Israel, traz a lume a verdadeira natureza do “Dia do Senhor”. Ele diz, na continuação do versículo 18 “É dia de trevas e não de luz”. Fico a imaginar a reação de incredulidade e espanto por parte dos israelitas com este anúncio tão duro e forte, e completamente reverso a suas expectativas e esperanças.

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Para demonstrar como seria esse “dia de trevas” o profeta utiliza duas figuras, dois exemplos que nos são dados. Estes exemplos quando unidos ganham ainda força, contudo, por hora nós os veremos separadamente. a) Figura 1: Encontro de um homem com leão e urso A primeira figura é a de um homem que se encontra com o leão e depois com o urso, conforme a primeira parte do versículo 19: “Como se um homem fugisse de diante do leão, e se encontrasse com ele o urso”. Há aqui um elemento tragicômico por parte do autor sacro. Ele diz que o “Dia do Senhor” será como se um dia certo homem encontrasse com o leão e conseguindo escapar deste, deparasse com um urso. Uma questão interessante aqui é que a questão de usar os males da natureza como castigo divino é algo que é claramente descrito no livro de Deuteronômio no capítulo referente às maldições da desobediência da nação de Israel, ou seja,os castigos previstos pela quebra da aliança firmada com YWHW. b) Figura 2: Encontro com uma cobra em casa Não satisfeito o profeta ainda utiliza uma segunda figura, que é a figura de um homem que encontra com uma cobra em casa, conforme restante do versículo 19: “ou como se, entrando em casa, encostando a mão à parede, fosse mordido de uma cobra”. Não bastava aquele homem ser perseguido por um leão e ao fazê-lo, deparar-se com um urso. Agora, estando ele em sua própria casa, ao encostar a mão à parede, seria mordido por uma cobra. Quando unimos estas duas figuras nós temos a clara mensagem de que não haverá refúgio nem defesa naquele dia! Será um dia terrível! Este era um sério aviso dado à nação de Israel. Certamente estas figuras foram ilustrações fortíssimas que falaram poderosamente aos ouvintes do profeta Amós. É muito difícil ouvirmos da parte de qualquer pessoa uma mensagem que seja completamente diferente daquilo que esperamos. Uma mensagem que seja completamente oposta a nossas expectativas. Por isso mesmo, a mensagem do profeta Amós não foi aceita e até mesmo rechaçada pelas autoridades de seu tempo. Guardando as imensas proporções, Israel receber esta mensagem tão diferente daquilo que esperavam, foi como aquele estudante que acredita que fez uma excelente prova; que cumpriu e atendeu todos os requisitos estabelecidos pelo professor; contudo, na hora de receber a nota, esperando um dez, tira um dois. É algo complicado de aceitar e acreditar! Por


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isso mesmo, no versículo 20 o profeta enfatiza qual é realmente a verdadeira natureza do dia do Senhor: “Não será, pois, o Dia do SENHOR trevas e não luz? Não será completa escuridão, sem nenhuma claridade?”. Temos aqui uma estrutura de paralelismo nas expressões “trevas – completa escuridão”, “não luz – sem nenhuma claridade”, esta será a verdadeira realidade do “Dia do Senhor”, um conceito teológico completamente diferente daquilo que os Israelitas no tempo de Amós esperavam. Nós vimos até aqui que não podemos depositar as nossas esperanças em uma teologia inadequada. O segundo aspecto que gostaria de compartilhar com os irmãos está noite é que... II. NÃO PODEMOS DEPOSITAR AS NOSSAS ESPERANÇAS EM RELIGIOSIDADE MORTA Esta segunda parte do nosso texto vai do versículo 21 ao 24, e ao contrário da primeira divisão que é escrita em terceira pessoa e estilo de prosa, esta é uma construção em estilo poético. Devido às referências aos festivais e à adoração este discurso de Amós é normalmente ligado à cidade de Betel. O primeiro aspecto deste segundo ponto é que Deus rejeitou as festas dos Israelitas. A. Deus rejeita as festas No versículo de número 21 encontramos: “Aborreço, desprezo as vossas festas e com as vossas assembleias solenes não tenho nenhum prazer”. Notem a linguagem dura usada pelo profeta ao descrever os sentimentos que Deus nutria pelas festividades de Israel. As palavras “Aborreço” e “Desprezo” são carregadas de verdadeiro sentimento de repulsa total da parte de Deus. O sentimento divino expresso pelo profeta não é apenas relativo a Deus estar ignorando o seu povo. É algo mais sério. Deus estava nutrindo um sentimento contrário ao povo de Israel. Mas quais seriam as razões disto? A ênfase da pregação do profeta Amós se encontra na crítica à injustiça social. No início de nossa prédica mencionamos a situação de Israel que, mesmo recebendo prosperidade e bênçãos da parte de Deus, desviou-se da ética divina e dos preceitos da aliança. Os ricos esmagavam os pobres, os comerciantes extorquiam os menos favorecidos e os latifundiários cobravam altos impostos aos trabalhadores. Eles praticavam a injustiça e continuavam a se apresentar nas festividades religiosas como se nada estivesse acontecendo.

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Os festivais e assembleias são termos usados em paralelo para denotar as três celebrações anuais: Páscoa, Colheita e Tabernáculos, acrescidas de todas as outras reuniões de adoração. Desta forma, a suma é: Deus abomina todo conjunto das festividades de Israel. Tanto as grandes festividades quando as celebrações menores e até mesmo os cultos nos lares. Deus não rejeita apenas as festas dos israelitas, ele também rejeita os seus sacrifícios. B. Deus rejeita os sacrifícios Diz-nos o versículo 22: “... ainda que me ofereçais holocaustos e vossas ofertas de manjares, não me agradarei deles, nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais cevados”. Uma grande crítica levantada pelo profeta Amós ao povo de Israel era ele não viver de acordo com a religião que professava. Sua prática era totalmente diferente do que expressava ser sua fé. Pensava que poderia continuar com suas práticas pecaminosas desde que continuasse a oferecer sacrifícios a Deus, já que por meio destes julgava ter suas ofensas perdoadas, quando na verdade, o que Deus requeria dele era a regular e constante manutenção da aliança. O povo de Israel seria rejeitado por Deus porque sua religiosidade era morta, seus ritos eram vazios de significado, pois não refletiam uma vida digna diante do Senhor. Deus não apenas rejeita as ofertas e os sacrifícios de Israel, mas também rejeita o louvor. C. Deus rejeita o louvor Leiamos o versículo 23: “Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras”.Alguns estudiosos afirmam que Israel tinha incorporado aspectos culturais dos povos vizinhos em sua adoração, como em particular, a noção da religião canaanita que preconizava que, para estar bem com a divindade adorada, bastava que os adoradores realizassem a adoração de forma entusiasmada. Estes conceitos são claramente combatidos pelas Sagradas Escrituras, onde vida e adoração jamais podem ser dissociadas. O que Deus requer é adoração sincera. Depois de afirmar que Deus rejeita as festas, os sacrifícios e o louvor daqueles que vivem uma religiosidade exterior e morta, o escritor sacro cria de forma magnífica um contraste apresentando aquilo que Deus esperava de seus adoradores.


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D. Deus requer justiça Para ilustrar a prática da justiça que Deus esperava da nação de Israel, o profeta Amós utiliza uma figura belíssima, que é a figura de um wadi, um ribeiro de águas. a) Figura 1: Ribeiro (Wadi) O versículo 24 nos diz: “Antes, corra o juízo como as águas; e a justiça, como ribeiro perene”. Temos aqui outra ilustração bastante profunda e elucidativa por parte do profeta. Para entendê-la, somos remetidos a um elemento histórico de Israel. Na Palestina, mais especificamente na temporada chuvosa, as águas da chuva criam nos sopés dos montes pequenos córregos que alimentam os ribeiros. Estes córregos, entretanto, passando a estação chuvosa ou o período de chuva, rapidamente secam. O ensinamento divino contido nesta magnífica figura é que a nossa justiça não deve ser semelhante a este córrego, algo passageiro e momentâneo; antes, deve ser como um ribeiro caudaloso e perene. A ideia da constante e regular manutenção da aliança divina é mais uma vez expressa pelo profeta, apontando para necessidade de Israel manter-se firme na prática da justiça e da equidade. Desta sorte, vimos até aqui primeiramente que não podemos depositar nossas esperanças em teologia inadequada; vimos também que não podemos depositar nossas esperanças em religiosidade morta. O último aspecto que vamos compartilhar com os irmãos é justamente... III. O RESULTADO DE DEPOSITARMOS NOSSAS ESPERANÇAS EM TEOLOGIA INADEQUADA E RELIGIOSIDADE MORTA Está última porção do nosso texto vai do versículo 25 ao 27, e tem gerado muito debate entre os estudiosos. O primeiro aspecto deste ponto que gostaríamos de compartilhar com os irmãos é a questão da verdadeira adoração outrora praticada pela nação de Israel. A. A verdadeira adoração outrora praticada por Israel Assim diz o versículo 25: “Apresentastes-me, vós, sacrifícios e ofertas de manjares no deserto por quarenta anos, ó casa de Israel?”. Aqui já encontramos algumas divergências interpretativas por parte dos estudiosos. Alguns acreditam que a resposta a ser dada à pergunta retórica feita pelo profeta é “sim”. Estes argumentam que no período do deserto ao povo era idólatra e

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não andou em retidão diante de Deus assim como o povo no tempo de Amós. A outra posição, a qual abraço, assevera que a resposta retórica esperada pelo profeta é “não”, pois o povo no deserto andou em retidão e dedicou a Deus sua obediência e fé. Outro aspecto que deve ser mencionado é que o povo não teria como oferecer ofertas e sacrifícios, pois eram nômades e não tinham como plantar (Jr 7.22). A ideia do profeta, portanto, é fazer um contraste entre a adoração fiel outrora praticada em Israel e a falsa adoração nos tempos de Amós. B. A falsa adoração nos tempos de Amós Encontramos no versículo 26 a declaração da falsa adoração nos tempos de Amós, onde Israel era idólatra: “Sim, levastes Sicute, vosso rei, Quium, vossa imagem, e o vosso deus-estrela, que fizestes para vós mesmos”. Israel, além de não adorar a Deus, o que já constituía um sério erro, estava adorando a Quiun, uma divindade acádia que corresponde a Saturno, bem como a Sicute, que também é uma referência a Saturno. Encontramos aqui Amós combatendo a idolatria, mesmo não sendo essa uma das ênfases em seu discurso profético, que como dissemos, enfatiza a justiça social. Profetas contemporâneos a Amós, como Oseias, deram forte ênfase à questão da idolatria em sua palavra profética. Continuando o texto, Amós revela a sentença divina a Israel. C. O resultado será o exílio Vejamos o que diz o versículo 27: “Por isso, vos desterrarei para além de Damasco, diz o SENHOR, cujo nome é Deus dos Exércitos”. Encontramos aqui o anúncio do castigo de Israel por parte Deus. O povo seria levado para além de Damasco. Esta seria uma realidade irrevogável para Israel, uma espécie de juramento divino, demonstrado por meio da expressão “diz o SENHOR, cujo nome é Deus dos Exércitos”.

Conclusão Sob o reinado de Tiglate-Pilesser III a Assíria ganhou força e expandiuse. Judá logo se tornou vassalo da Assíria. O estado de Damasco, que ficava entre Israel e Assíria, passou a fazer parte do território assírio (2Rs 17.7-9). Tiglate-Pilesser foi sucedido por seu filho, Salmaneser V, que continuou a


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política expansionista de seu pai. Em 722 a.C. ele sitiou Samaria e o reino do Norte teve seu fim. A ruína foi a paga daqueles que depositaram suas esperanças em teologia inadequada e em religiosidade morta. No “Dia do Senhor” eles foram acometidos por todos os males preditos por Deus pela boca do profeta Amós. Nós, hoje, também esperamos pelo “Dia do Senhor”. Será que temos depositado nossas esperanças em Cristo, baseados em sua Palavra, fruto de uma teologia que é verdadeira? Será que as nossas expectações quanto a este importante conceito teológico, o “Dia do Senhor”, que agora tem um caráter cósmico e escatológico, está de acordo com o ensino das Sagradas Escrituras? Será que demonstramos em nossa vida a teologia que professamos, ou apenas, vestimos máscaras nos domingos quando adentramos as nossas igrejas? A nossa prática durante a semana nega tudo aquilo que nossa fé postula? Tem sido a nossa religiosidade morta e vazia como a de Israel no tempo e Amós? Irmãos, mesmos salvos em Cristo, Deus continua requerendo de nós a prática da justiça e da equidade, e nos fornece todos os meios de graça necessários para atingirmos tais fins. Fornece-nos acesso a ele por meio de nossas orações, e ainda que não saibamos orar como convém nos auxilia por meio do Espirito Santo. Nos dá a Palavra e os Sacramentos para nos alimentar espiritualmente, para desenvolvermos a nossa santificação; Deus habita em nós, na pessoa do Espírito Santo, e nos habilita a lutar contra o pecado, que deve ser apenas um acidente em nossa vida. Eis que o Dia do Senhor se aproxima, será ele um dia de trevas ou de luz para você?

Aplicações A mensagem da tradição religiosa pode ser enganadora e conduzir as pessoas a um final terrível. As esperanças da igreja devem ser balizadas por teologia sólida e lastradas pela fé prática. Rito sem vida não tem validade alguma diante de Deus. Esse é o ensino do nosso Senhor Jesus Cristo em Mateus 7.21-23: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele

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dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade”.

Outro ensino a destacar é que muitas vezes os planos divinos podem correr em sentido contrário ao das nossas expectativas, mas eles são bons, pois a vontade soberana de Deus é realizada (Ec 3.9-14). Os acontecimentos ruins que nos acometem devem ser observados sempre pelos olhos da fé voltando-nos para expectativas muito maiores e absolutas. A teologia, mesmo sendo baseada em promessas divinas, pode ser distorcida. Quando a promessa de Deus ganha em nosso coração maior importância do que o Deus da promessa nasce uma esperança enganadora. Precisamos combater com toda nossa força a religiosidade desprovida de vida prática diante do Senhor. Deus abomina a hipocrisia! Nesse sentido, temos a importante missão de mostrar a grande fraude apresentada pela Teologia da Prosperidade, que prega vitórias temporais e bênçãos divinas, baseada em uma compreensão teológica completamente inadequada e em uma religiosidade completamente morta, cheia de heresias, misticismos e até mesmo idolatria. Nosso texto mencionou que a nossa justiça deve ser como um ribeiro perene, ou seja, deve ser constante e regular. Entretanto, sabemos ser impossível que a nossa justiça seja de tal forma por nós mesmos. Fomos salvos pela justiça de Cristo, que é o Justo e o nosso Justificador. Uma vez salvos nele, deixemos a sua justiça fluir em nós. Comuniquemos essa poderosa mensagem a todos aqueles que não conhecem a Deus, clamando sempre que o Senhor nos vivifique e fortaleça, e que não nos deixe enredar pelas veredas da falsa teologia e da religiosidade morta.


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Revista Teologia Para Vida Projeto Gráfico e Capa – Ideia Dois Design Formato – 16 x 23 cm Tipologia – Times New Roman Papel – Off-set 90g e Couchê 90g Tiragem – 1.000 exemplares Impressão – Imprensa da Fé Impresso no Brasil / Printed in Brazil

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“Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência.” (Jr 3.15)

Teologia para vida - v. III, nº 1  

Revista teológica do Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição.

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