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TANQUE edição de lançamento

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AndrĂŠ Pavanello Caio Mistura Paulo Filho Rodrigo Pickersgill

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Editora Gonzo Rua Itararé 115 Baixo Augusta São Paulo CEP 01308-030

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não joga damas de nenhum andar, mas come e dorme solução ex e não faz nada). a para sua ca g O seu comitê peleit rcont oral inuo u func acon iona tecime ndo s es no Jardim Zoológicoide Pault cSão o, e Cacareco Cacareco se od sòmente se desnorteou quan do um e dos seus mais do Santos F élum ferrenhos oponentes dedicou todo de “já ganh editorial ic conseguiram o fôsse “exilad eleição, para O “golpe calada da noi tão calada ass enfiaram-no n êle se danou. para o regime, para quem est em prol da emancipação de Osasco. Com a “Povo” e as “C proximidade das eleições paulistas , já subiam a 300 magnificament os candidatos do famoso bairro. aproximadame Acontece que o Supremo Tribunal repudiou Cacareco. as pretensões dos cidadãos de Osas co. Daí a Êsse movim reação original: 100 mil cédulas foram impressas se sabe, num ba e tôdas com o nome do popular “Cac areco”, como de S. Paulo: Osa candidato. Afirma-se agora que o mov imento e desejava agora da gente de Osasco atingiu outras ruas 11/29/10 AM e outr os 2:22 típic o caso de gig bairros. Virou candidatura nacional .

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Di e se a a dia ms ouv ent im Está ido, um os pela míd clar dare ia o o qu jogo de mos disc e nã mei con não u a o t i a c sele ompree que sua nteressa s verdades rso da clas nde se p a s c e pa o p i s o a m o fun p l damnam dos, outorg avras sono olíticos qulavreado s lítica. Um ven e u a-lh ras e pe e der f n o e e ta rma s uma grand nsemo perficial. discurso d aa e pa Está utoima m se i a l cuid utorid oqüen s por n lavr u gem cl a pa ós m as c tes, ade a de p s dis lavr aro que d alcu e f q o a s ue n c esso mos land a “p s u a lada just a v r ão p as v . Se iolê az”, o a s ifica s s o s u alor ncia a o s p c p s o . m o fi s s a a m sup zerm osas São tam não d l o pa e a osta -na com um ente v pala q o é l u s r a , a m e v a lg nos vras r s defe de c con e s c mito. tra a nte crê ua antí a e valo o bom o para ndem s bem esc om a Os p isas qu te r em. co é ou eus o o s Eles se, dize a defen o se l h l tra p ndição q ít e idas pr r hu n der. não que alav (pol com uais icos man incípio Ass esco do que ra a mai ícia s o i o f m l c a , i h s , cár mar om ntu zem p , me em, hum i con t cere smo or isso gue por ani vicç to de s) q elar. Ai rra os p qua ão. ue d pela nda za as pe exempl o n l d í t o pr evem o, icos assi ssoa paz, ovo m esc s, qu a pala para ser v just , seu si defe cam um olhem stem e é a lib ra “rep ifica n a gu der ress erda dos a ne err o ão”, de a de; c por pois valor em a, lgum essita são i d s s e a s o que o am inst man cria mes al e rum do eira falá vai ento mo “li ; de cia c s para b s re ond erda pr ria e “Int pre es de” m n oteger oler a no urge a f ssivos ós u ânc fala a s m i l sa li a” é á mc c s e i a n berd outr onti de q t ade; nua a pa imento ue A men e es lavr arm política s a qu de inse t e e ,ad a de gura a m“ e s o tole emo nça con e de rânc a mal, . ven crac ntro por ia” cim d pap isso e “r ento ia, tem el m este es e a . s p A p p e u a et i polí it e co tica lavra co to”. rrom o impo áculo a é mo rtan l p con te. A inguage espetác vive idas. F ulo, alam ma s pa mc círc s om l ulo ning de con avras s sume u de p ã mon v u o i é v r pros m md ivi ênc tanh ia p ef a ch legiado ver orém tituídas s, vi ora de s ama o so n ven l. Fa da E rep do n eu pequ ão lam stad essi as a eno de t o qu ódiro vas l t o u ate un dizimam lerância e não no ras des rua rrorizifaormios pobre , porém su s deixa sa s. Fa m i zado s; os fi as forç gue lam mpu s a lh as rra de p nemssass os do Vale s, a ma 11/29/10 2:22 AM ior t az enqu ry c i e n o r nte am anto agéd mo con “u he p O ia p

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A sociedade hoje vive sob o regime de uma agenda midiática, os grandes veículos de mídia e seus donos decidem o que a população deve considerar importante e assim discutir em seu dia a dia. Esse processo de massificação das informações dá toda a base para a manipulação. Somos uma publicação apartidária, pluralista e democrática, que busca ocupar um espaço que não foi devidamente contemplado pelo jornalismo brasileiro, pelo menos até hoje. O projeto tem a proposta de contrapor as principais estruturas de poder que ditam as formas como a mídia deve agir e quais objetivos ela deve alcançar, é uma proposta ousada e até perigosa quando se pensa na própria subsistência de uma publicação desse tipo, e por isso escolhemos o nome Tanque, pois ele representa a maneira como iremos trabalhar para que esse projeto seja possível. O tanque é um mecanismo de combate muito eficiente que reúne seis conceitos para se sobressair em uma batalha, eles são: poder de fogo, ação de choque, proteção, mobilidade, informações e comunicações. O nosso poder de fogo é um formato de mídia impressa sem custo ao leitor. A ação de choque é a forma que iremos expor os assuntos abordados na revista, sempre com a proposta de não impor ao leitor uma opinião mastigada sobre os fatos. O underground servirá como blindagem, pois a revista não se submeterá às vontades dos grandes anunciantes que se tornam os donos da razão quando esta é o dinheiro e o lucro. A revista Tanque terá maior mobilidade para se comunicar com todos os tipos de pessoas, pois ela é uma proposta impressa que utiliza toda a liberdade que a internet propicia. A principal munição é a informação sem manipulações, sem interesse econômico, apenas com o intuito de discutir questões essenciais para a nossa geração e outras por vir, acreditamos que ações assim não serão as respostas que a sociedade precisa a curto prazo, mas é uma ideia, uma semente que no futuro dará algo maior Esse veículo está aberto para você que quer publicar suas ideias e nunca achou alguém com os colhões para fazer. Não queremos o seu dinheiro, queremos o que você tem a dizer...por mais incrível que pareça. Grandes Tubarões, aqui não é o seu lugar. A pesca será feita em grande estilo, com direito a arpões, metralhadoras e explosivos de alta periculosidade.

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Bernardo Biagioni é repórter da Revista Ragga, onde escreve roteiros de viagem, e editor do caderno Ragga Drops, do jornal Estado de Minas. temposestranhos.blogspot.com/ É nosso enviado ao Burning Man

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar. planetasustentavel.abril.com.br/blog/ pralaepraca/ Nesta edição colaborou com a matéria sobre Christiania

Hamilton Morris é um jóvem escritor, químico e moviemaker. É um maco da farmacologia, um explorador psicodélico e um maestro de tudo que altera a mente. Talvez você o conheça por sua coluna na Vice, “A Farmacologia de Hamilton” onde ele escreve sobre drogas rarar e seus efeitos. hamiltonmorris.blogspot.com/ Entrevistou para a Tanque o mago do MDMA

Bolívar Lamounier (Dores do Indaiá) é um sociólogo brasileiro que foi o primeiro diretor-presidente do IDESP (Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo), escrevendo freqüentemente para os mais importantes veículos da imprensa brasileira. No ano de 1997 foi eleito para a Academia Paulista de Letras, sendo autor de numerosos estudos de Ciência Política publicados no Brasil e no exterior. portalexame.abril.com.br/rede-de-blogs/blog-do-bolivar-lamounier/ Teve agora seu texto sobre o Cacareco publicado

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Cirilo Dias é jornalista, designer, ilustrador e webdesigner. Repórter de Mídias Eletrônicas da Revista Trip e Co-Fundador e Editor Chefe do Urbanaque.com.br cirilodias.wordpress.com/ Entrou nessa edição com uma imersão ao submundo do cinema de Horror no Brasil Crisitano Bastos, Self MadeMan. Jornalista. Co-autor do livro Gauleses Irredutíveis. Colaborava com a Bizz. Foi repórter da Bien’Art (Fundação Bienal de São Paulo). Escreve no caderno C2+Música do Estadão. Faz reportagens para a Rolling Stone. Dirige o doc Nas Paredes da Pedra Encantada, sobre o álbum Paêbirú - Caminho da Montanha do Sol (1975), de Lula Côrtes e Zé Ramalho. zuboski.blogspot.com/ Silvio Caccia Bava é sociólogo, coordenador executivo do Instituto Pólis– Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais, e membro do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA. Possui ampla experiência na área de planejamento urbano e regional e é autor de diversos artigos sobre movimento de trabalhadores, movimentos sociais, lutas sociais e poder local. criseoportunidade.wordpress.com Um dos autores da matéria: “Política do Extermínio”

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Paulistano, Ronaldo Bressane nasceu em 1970, trabalha como jornalista e é autor da trilogia de contos A outra comédia, formada por Os infernos possíveis, 10 presídios de bolso e Céu de Lúcifer. Os poemas de Impostor foram escritos entre 1988 e 2002. Poemas inéditos em papel, “Samba 747” e “Just do Bin” foram publicados no site FakerFakir [fakerfakir.hpg.com. br], de que é coeditor. Alguns de seus artigos podem ser lidos na revista eletrônica Fraude, na coluna F for Fake, no jornal Rascunho ; algumas reportagens, na revista TRIP. Além de colaborações esparsas em sites, revistas e suplementos literários, participou da revista PS:SP e da antologia Geração 90: Os transgressores. impostor.wordpress.com Grande amigo, nos presenteou com “Cildo, o ET” e “La Fiesta del Portunhol Selvagem”

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Luiz Eduardo Soares, é mestre em Antropologia, doutor em ciência política com pós-doutorado em filosofia política. Foi secretário nacional de segurança pública e coordenador de segurança, justiça e cidadania. Foi secretário de valorização da vida e prevenção da violência de Nova Iguaçu. Em 2000, foi pesquisador do Vera Institute of Justice de Nova York e da Columbia University. Tem vinte livros publicados, entre eles o romance Experimento de Avelar, premiado pela Associação de Críticos Brasileiros em 1996. Foi professor da UNICAMP e do IUPERJ, além de visiting scholar na Harvard University, Univ. of Pittsburgh e Columbia University. Atualmente, é professor da UERJ e coordenador do curso à distância de gestão e políticas em segurança pública, na Estácio de Sá. Mostra aqui o problema da “Política do Extermínio” luizeduardosoares.blogspot.com/ É o outro responsável pela “Política do Extermínio”

Nina Lemos é jornalista, piadista e candidata a mulher superior. Colaboradora da Tanque desde sempre e uma das responsáveis pelo 02 Neurônio, Nina responde pelas pérolas da seção Badulaque da Tpm. revistatrip.uol.com.br/blogs/ninalemos Teve a fácil função de entrevistas o Pereio

Brais Zas é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Atualmente está também na ESPNBrasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, desde 2000, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio.

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Por Bernardo Biagioni

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Sem fogo em São Francisco

Mas há exatos 17 anos antes da experiência de Adriano, aquelas mesmas luzes não puderam ser acesas com tanta facilidade. Era 1990 e algumas dezenas de pessoas tentavam colocar de pé uma , esculpida em madeira. Os amigos de longa data Larry Harvey e Jerry James comandavam a trupe que se movimentava pelas imediações da Baker Beach, em São Francisco, cada presente deveria emprestar sua força à corda que levantaria a imensa escultura. Imersos na paisagem urbana e transitando sobre um solo estritamente pavimentado, Larry e Jerry queriam colocar em prática, pela quarta vez, a idealização de seus sonhos. Desde 1986 eles vinham desenvolvendo suas aspirações artísticas em território californiano, aquela seria mais “uma espontânea ação de livre expressão”, segundo definição de Larry Harvey. E a livre expressão humana era apenas um dos diversos objetivos traçados pelos organizadores. O

estátua de um homem gigante

Burning Man vinha engatinhando

despretensiosamente na ambiciosa missão de conseguir desconstruir as frivolidades impostas ao homem moderno. Entre os princípios do evento, figura-se ainda a responsabilidade civil, a participação dos visitantes e o não-uso de dinheiro. (Ver Box). A estátua era levantada aos poucos em um estacionamento enquanto alguém bloqueava o tráfego de carros da rua. Os olhares curiosos corriam pelo objeto gigante que era empinado como uma pipa pelo céu claro de São Francisco. Depois de uma última força conjunta aplicada na corda, o homem gigante finalmente tomou seu lugar. Seguindo o cronograma do ritual, este seria o momento em que os organizadores ateariam fogo na estrutura. Assim tinha sido nos últimos anos, quando todos os poucos espectadores do “festival” encaravam, em silêncio,

as chamas alaranjadas do fogo engolirem os braços do sujeito inanimado. Porém, a expectativa

dos transeuntes foi logo suspensa pela cavalaria da policia que despontava na esquina. Sem o fogo, Larry declarou que a sua idealização estaria fadada a se tornar “uma mera atração de calçada”. Eles precisavam, agora, de outro lugar para deixar o fogo queimar.

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Um caminhão avança pelo deserto

Quem manteve a calma de todo mundo foi John Law e Kevin Evans, dois integrantes da Cacophony Society, uma entidade que trabalhava as mais estranhas bizarrices do universo artístico. A dupla chegou até Larry com a proposta de “pegar tudo e levar para o meio de Black Rock”, um deserto no estado de Nevada. O idealizador do Burning Man não aceitou a ideia sem antes procurar por alguma outra “locação” em toda costa da Califórnia. Sem sucesso, Larry pensou que o Dia do Trabalhador americano, em setembro de 1990, seria uma boa data para mergulhar “na natureza selvagem”. Louis M. Brill era um dos tripulantes. Segundo seu diário de bordo, no dia da partida apareceram cerca de 100 pessoas. “Todo mundo foi chegando com mochilas, gelos, barracas de camping e casacos”, conta. O espaço vazio do caminhão fora logo preenchido pelas malas que não cabiam nos carros que iriam atrás. Em algumas horas, , pisando em um solo que nunca havia visto pegadas, respirando um ar livre dos poluentes recorrentes mesmo no menor dos municípios norte-americanos. Louis escreveu: “A gente sabia o que estava fazendo? Provavelmente, não. A gente se importava? Sim.

a trupe já estava no meio do nada Sabíamos que aquilo que estávamos fazendo era algo completamente diferente de tudo.”

Batizaram o terreno onde desfaziam as malas de Black Rock City e descarregaram o caminhão. No domingo seguinte, cem pessoas viram a escultura do Homem regozijar às crepitações do fogo. Foi essa luz que Carolyn viu, quando entregou a garrafa de água para Adriano, em 2007.

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Escultura talhada em madeira (Ă  direita) que ĂŠ queimada no final do festival

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Como um virgem

Adriano é brasileiro e vive em Washington desde 2007, quando completou 30 anos. Foi convencido a cruzar os Estados Unidos por um amigo que já tinha participado do Burning Man. Iria sozinho para o evento, não fosse o voo para Reno, em que conheceu Carolyn. Não levou muito a sério quando disseram que os dias no deserto mudariam a sua vida. Seu pensamento começou a se transformar assim que reduziu a marcha do carro para entrar na área de acampamento onde ficaria hospedado. “Isso é incrível! Impressionante”, disse, baixinho, enquanto deixava seus olhos correrem pela multiplicidade de coisas que aconteciam diante de si. Adriano era , como são carinhosamente chamadas as pessoas que vão ao Burning Man pela primeira vez. Em 2008, a cidade temporária construída unicamente para o Burning Man chegou a abrigar cerca de 48 mil participantes, a décima maior população de todo o estado de Nevada. Apesar de oferecer longas noites regadas a música eletrônica, os organizadores do evento não gostam da definição “festival”. O Burning Man é uma experiência coletiva que exige a participação de todos. São os presentes que criam as diversas atrações, oficinas, atividades e apresentações artísticas. Os acampamentos são constituídos conforme as aspirações de cada grupo. Existem aqueles destinados aos viajantes de todo o mundo, como o Couch Surfing Camp, e ainda os que

só mais um “virgem”

promovem a busca pela alma gêmea de cada integrante. Todos os anos,

a organização cria um tema para orientar as produções culturais. Em 2007, o nome foi “O Homem Verde” e em 2008, “American Dream”. As poucas leis que existem foram estabelecidas para manter a civilidade entre os pagantes. Os únicos carros permitidos a transitar por são os da equipe médica ou aqueles que carregam algum valor artístico. Participação é uma palavra de ordem – ir ao Burning Man sem participar é como fazer compras no supermercado e não levar nada para casa. De resto, quase tudo é permitido.

Black Rock City

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A nudez é comum (e encoraja da) no fest ival

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Homem queimando

Paul Addis tem uma paixão interessante por explosivos. Seu derradeiro amor pelo fogo lhe valeu o apelido de “incendiário” pelos participantes do Burning Man de 2007. Seu nome ficou famoso nos arredores de Black Rock City na tarde de terça-feira do dia 28 de agosto, a terceira etapa do evento. Aquela seria só mais uma tarde do Burning Man, não fosse por dois acontecimentos. Primeiro, porque acontecia ali, no deserto, . Segundo, porque a estrutura do Homem, o grande símbolo do evento, estava imersa em chamas. Na programação, aquelas luzes só deveriam ser acesas no sábado, o penúltimo dia da semana. Paul Addis não aguentou esperar e colocou sua tocha para interagir com a estrutura sem avisar a ninguém. Um ano depois, o mesmo sujeito seria preso por tentar entrar na Grace Cathedral de São Francisco com algumas dúzias de explosivos. Encontrado o culpado, a organização do Burning Man de 2007 teve que se desdobrar para restabelecer a estrutura condenada (o Departamento de Emergência de Black Rock City conseguiu salvar alguma coisa e anunciou que manteria a agenda do evento). Em tempo recorde, uma equipe especializada conseguiu remodelar o Homem em menos de 72 horas. Tudo iria correr conforme o planejado. Na noite de sábado, a menos de 24h para o fim do evento, não se ouvia muita coisa. Assim também havia sido Milhões de almas se misturam sobre o chão 21 anos antes, quando o primeiro desgraçado pela falta de água e se entregam Homem fora queimado em a um estado de êxtase intocável. O grande Baker Beach, na Califórnia. Aquele Homem é, então, atingido por uma onda seria o momento de consagração de de explosivos que emergem do solo, todo o ritual, o prenúncio de uma . nova fase na vida de cada presente. Em A estrutura se desfaz lentamente e, aos 1986, a estrutura não tinha mais do poucos, vão se esvaindo os membros do que dois metros e meio. Duas décadas sujeito metálico. O silêncio de antes logo se depois, o Homem crescia imponente restabelece e os únicos barulhos que cortam em 14 metros de altura, sem contar o ar são provenientes da crepitação do fogo. seu brilhante revestimento de neon. Todos os olhos do deserto estão encarando Mantinha-se, porém, o objetivo inicial: a os seus anseios se esfarelarem na imensidão desconstrução humana. da noite. A fiação que mantinha o neon Faltando pouco mais de dez minutos aceso é a primeira a se romper. Caem as para a primeira brasa atingir a base pernas, os braços e o tronco escurecido pelas que sustenta o Homem, o espetáculo cinzas. Por último vem a cabeça, também em começa. O silêncio é logo atravessado por chamas. Ela desce lá de cima e rola até os uma pés de alguém. Algum outro sujeito sorri e dá o primeiro grito. A calmaria volta .A logo a ser rompida pelos gritos escuridão do deserto é invadida por roucos que correm por Black centenas de pontos amarelos, cada Rock City. Estão todos imensamente presente levanta o seu próprio fogo em felizes e realizados. O Homem está, uma nítida expressão de consentimento. finalmente, queimado.

eclipse lunar

um raro

ea multidão vai à loucura

gritaria desenfreada que explode pelo peito de cada participante

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- É do New York Times, corazón! Acorda! - Hein? Estás loca, chica? A essa hora de la mañana só puede ser cobrança! Increíble: nosso movimiento habia chegado al Grande Hermano Yankee! O portunhol selvagem, língua freestyle inbentada nas fronteras de Brasil con Paraguay y digitalizada pelo poeta Douglas Diegues, reformatada por escritores brasileiros e latino-americanos e até por atores como o mexicano Gael García Bernal e músicos como o gaúcho Wander Wildner, caiu nas orelhas do novo correspondente do NYT no Brasil. No mesmo mês, a língua del futuro é matéria da revista Piauí, do canal Multishow, y (perdón, Cervantes) da Rádio Exterior de Espanha... Pero como começou esto? Usted, caro leitor, conocerá em primera mano o marco zero del movimiento, em la primeira reportaje escrita em portunhol nos 133 años de Estadón. Foi em dezembro. Em Asunción, por supuesto. - Sejam todos bem-vindos à Paraguaylândia! Assim nos recebe el gorduchamente simpático Douglas Diegues, secundado por um magrelo bocudo, que se apresenta como... - Eu soy o Domador de Jacarés! Tranki? Don Diegues y El Domador seriam nossos Virgílios naquela wasteland. Gentis, carregam nuestras bagages para el detonado Palio de DD, o Rocinante selbagem - y um rangido contínuo dedurava: el coche estaba con las pastilhas gastas! - Bámonos sim frenos, kapitanes! esbravejava DD por trás dos óculos de lentes embaçadas pelo calor de 40 graus, siempre pontuando de exclamações e cigarros sus frases, como se a qualquer momento fosse tener um infarto, o peor, um orgasmo! As calles cheias de carros em pandarecos recordava Capão Redondo: el mundo é lo mismo, todo lugar - mas que lugar seria Asunción? Só sabia que a pátria das muambas foi uma potenza industrial no siglo 19, destruhida por brasileros y argentinos (ali llamados de “kurepas”, gíria guarani para “porcos”). Matamos hombres, crianças y mujeres! Viva Caxias! - Mira, acá es la sede de la Federacción Sudamericana de Fútbol! - e DD apontou um prédio de catorze andares aparentemente vazios. - Bámonos a tomarlo para sede del portuñol selvaje, verdad?

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El portunhol selvagem és uma idéia de DD, carioca quarentón que vive desde os 5 anos em Ponta Porã (MS). Na fronteira, o poeta de família paraguaia sacou o mix freestyle de guarani, português e espanhol hablado chulamente por índios sacoleiros, pistoleiros trôpegos e carinhosas cortesãs - e o verteu em libros como O Astronauta Paraguayo. O encontro portunholesco faria parte do evento Asunción Kapital Mundial de la Ficción, que entre 6 e 10 de dezembro de 2007 reuniu escritores latino-americanos na embaixada brasileira - DD foi lo principal artífice da história. Seu amigo de infância, o Domador de Yakarés (nunca fala o nome real), é para DD o que foi Neal Cassady para Jack Kerouac: o muso do movimiento. Voz encarnada do portunhol selbaje, Domador teve inúmeras profissões antes de se descobrir um pintor de vanguarda rupestre, filósofo pedestre, xamã em chamas. Mas por que Domador de Yakarés? - El hombre, como el jacaré, tem três defeitos: la ignorância, la cobiça, la raiva! Yo, como domador, domestico essas fuerzas negativas em los hombres y así haço arte! Muchas exclamaciones depois, saltamos em um barrio de árboles y mansiones. Ali conocemos Carla Fabri, fadamadriña do movimento. Toda de blanco, blancos-pérola sus cabellos longos, ella nos recebe com um abrazo galáktico. Su casa é lotada de objetos de arte e pinturas modernistas; lá fora um espejo d?água é cercado por enorme gramado - “necesito espacio para que acá descendam las naves interestelares”, explica a atriz e cronista do diário ABC (Carla é a Danuza Leão de Assunção). Almorzamos com Cristino Bogado Gamarra, El Kuru, que dispara: - Las Mercenárias ainda tocan, verdad? Y Fellini? Conoces Akira S, Ira!, Patife Band? - Kuru, autor de Punk Desperezamiento, morou em São Paulo nos anos 80; daí su admiración pelas bandas alternativas da ciudad. O editor e poeta paraguayense é a terceira ponta do tridente selvaje - além de primo do Gamarra, maior zagueiro da história do Corinthians. Assim que devastamos las milanesas, Carla y Kuru nos levam ao Hotel Gran Paraguay... ex-residência de Madame Lynch, amante de Solano López! - Cuidado com el fantasma ninfómano de Madame... - Carla estala besos en mis bochechas. Y es mismo despampanante el hotel! Lo más estraño es que sólo yo y el periodista brasileño Bruno Torturra estamos hospedados lá... Nosotros y, saberemos mais tarde, 700 debutantes! Ai ai ai!

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Convidados pelo Itamaraty, representamos los brazos armados del movimiento em Sampaulândia. Encuanto el cantante Torturra aportunhola Waldick Soriano y Odair José, escribi o libro Cada Vez que Ella Dice X, lançado pela Yiyi Jambo, a editora que funciona em casa de Douglas y Domador - este é o capista dos livros de capas de papelão catado na rua, pintadas com acrílico, em estilo que lhe confere la alcuña de Pollock de los Chacos. O miolo dos livros é, por supuesto, y sin embargo, xerocado. Todo es lo xerox del xerox! Em la metrópole de la contrafacción, hasta los brinquedos chineses son falsificados! Tu caminas y caminas y só vê gente bebendo tererê (mate gelado)... Assim se entende el dito de Jorge Kanese, outro escritor que mora em uma bela casa com piscina: “Paraguay envenena!” Todos em las ruas parecem enbenenados pelo calor, ilhados por Brasil, Argentina y Bolívia, sedentos por cultura y información, ainda que cercados de água - a antiqüíssima Asunción é o umbigo do Aquífero Guarany, que começa no pantanal mato-grossense e detém 20% da água doce do planeta. Se yo fosse usted, comprava uma fazenda no Chaco para passar tranki el Apokalípsis (o mesmo devem pensar los nazistas que ali vivem desde os tempos de Elizabeth Foster, irmã do filósofo Nietzche, así como los seguidores del reverendo Moon). Em Asunción tablóides como Esto!, que enquadram cabeças decapitadas de bandidos e bundas de musas do meretrício, são escritos em portuñol selbaje - pero passou uma da tarde, não se acha jornal em lugar ningun! Natal batendo à porta, nadie parece trabajar y, palabra, la siesta dura 3 horas! Asunción ostenta uma força naval, mas não vê oceano, y, apesar de enviar macuenha ao Sudeste brasilero, no tiene uma só loja vendendo seda para confeccionar cigarros - los lokos lokales hacem sus baseados com jornal! Lá todo es ficción, verdad? À noite, encontramos na embaixada brasilera o Domador de Jakarés cercado por suas pinturas e bizarros insetos voadores que se esborrachavam nas taças de vino da vernissage portunholesca. - Son los baratones noturnos. Aparecem com el calor de la noche... y el calor de las yiyis... Yiyi (se diz “djídji”) é a gíria guarani para gatinha. As yiyis paraguayenses, ensina Domador, son generosas: descendem das yiyis remanescentes da Guerra do Paraguai, que disputavam un hombre com 20 muchachas! Atrás delas, los escribas se jogam em la noche febril de Asunción; pasamos por pubs como Saxonia, onde se vende cerveja em galones de 5 litros, y salones como María Delirio, onde a juventud dorada cai na cumbia. Pero, em cambio de mujeres, descobrimos el jugoloko! Una bebida hecha de cana destilada, vodka e goiabinhas fermentadas - “Hay mismo quien meta gasolina y cogumelitos en el coquetel!”, jura Kuru.

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Na noche seguinte, o Rocinante sem freios de DD dá carona para los escritores e críticos brasileros Xico Sá, Joca Reiners Terron, Ademir Assunção e Aurora Fornoni Bernardini. Es el gran encerramiento: el Encuentro del Portuñol Selvaje! Pero, por causa talvez do Dia Nacional da Virgen de Kaakupê, que reúne um mijón de fiéis, o enorme auditório da embaixada está casi às moskas... “Voy a hablar poemas nesta lengua inexistente pra uma platea que no existe”, solta Miguelangel Meza, o Candyman, poeta guarani que nunca sai de casa sem um saco cheio de balas. Na seqüência, dona Aurora sugere una conexión entre el portunhol y los poemas ítalo-brazukas de Juó Bananère, ídolo de Adoniran Barbosa. Después de los sonetos selbajes de DD y de la prosa punk de Kuru, Joca Terron lê um Jim Dodge tirado de seu Transportunhol Selvagem, que traz também transcriaciones de Raymond Carver e Hans Magnus Enzensberger. Ademir Asunción verte su Zona Fantasma para a bilinguagem. Guillermo Sequera, um Leonard Cohen paraguayense, entoa cânticos xamânicos guaranis acompanhado de um violão mouro. Xico Sá exibe trechos de Caballeros solitários rumo ao sol poente, “A vida é um pangaré paraguayo que nos pega na curva!” Jorge Kanese, patriarca del jugoloko, manda a epopéia de um cavalheiro batendo às portas de um bordel: “Abran, karajo!” O morrisoniano Edgar Pou entoa um manifesto erótico em portuñol encuanto sus niños gargalham na platea. Yo leio poemas feitos para una yiyi jambo que me fez comer el pan que el diablo amasó. Y Torturra, que hasta enton se preguntava que rayos fazia ali, cria na hora, em la cara de palo, su primero poema: - Yo soy el baratón de la noche... yo vuelo em busca de las yiyis... No camino para la mansión de Carla, bemos uma placa que promove um “Curso de Metafísica Prática”. Todo es possible em Asunción, verdad? Las garrafas de jugoloko son pocas para la fiesta poética. “Cocoon! Cocoon!”, brada Xico, antes de se jogar vestido em la piscina de Fabri; Domador o segue y ganhamos uma visión infernal de dois tiozinhos em busca de imortalidad. Não era nos chacos paraguayos que Ponce de León procuraba la fonte de juventud? Na falta do elixir, dále jugoloko! Y las yiyis... ficción? O estarán esperando los escritores em el baile de las 700 debutantes, no hotel? Ah, las yiyis... tranki, tranki...

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O ator gaĂşcho tira a mĂĄscara do personagem Pereio e revela sua face menos conhecida Por Nina Lemos e Marcelo Rezende

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O ator gaúcho Paulo César Pereio não guarda dinheiro, ter um relacionamento, prefiro a não tem carro, não leva bagagem quando viaja e não quer minha solidão.” Ele faz uma pausa. mais saber de relacionamentos. Mas não se considera um E depois diz: “Mas também muito homem livre, e sim um resistente. Visto como o maior cansado para a minha solidão, parece porra-louca do cinema nacional, ele tira a máscara do poesia isso, não?”. personagem Pereio e revela sua face menos conhecida na Apresentador do Sem frescura entrevista à Tanque no Canal Brasil, locutor e ator Não usa carteira. Muito menos bolsa, mala ou requisitado (está em cartaz com o filme mochila. Quando viaja para o Rio de Janeiro, onde Nossa vida não cabe num Opala, de moram três dos seus quatro filhos, leva apenas um Reinaldo Pinheiro), Pereio sabe que cartão de crédito e uma carteira de identidade. vive dentro de um personagem criado Isso, tratando-se do ator “maldito” que carrega um por ele próprio. Várias vezes durante a currículo de mais de 70 filmes em seus 68 anos de entrevista se corrige. “Não vou falar isso idade, pode até ser muito “peso”. Pereio sente saudades de novo porque sempre falo a mesma da época em que era possível viver sem documento coisa.” A imagem que ele criou é a de algum. “Hoje até para trocar um cheque você precisa um cara que fala muito palavrão (o que de identidade, porra”, diz Pereio, com a experiência é verdade) e vive alucinado em noites de de quem viveu “uns dez anos” sem RG, carteira de boemia, sexo e drogas (o que não é tão motorista ou coisa que o valha. “Mas não lembro verdade assim nos dias que correm). como era porque estava sempre drogado.” Pereio acorda cedo todos os dias e faz Pereio não tem carro. Vive bem em um quartoum suco com duas laranjas. Depois, come e-sala no centro de São Paulo, com terraço e vista algumas bananas. “Tomo remédio para para os prédios da cidade que adotou há dois anos. pressão, que é diurético, por isso preciso A chave do apartamento fica na Toca da Raposa, repor o potássio.” As frutas são compradas boteco ao lado do seu prédio que faz as vezes de por ele mesmo, em uma feira que fica perto escritório. “O pessoal do bar já sabe para quem de sua casa. Antes da entrevista, foi com o pode entregar a chave.” Entre os agraciados repórter entregar quatro cascos de cerveja no com tal liberdade, amigos de longa data, como tal bar e, na hora em que se despediu, avisou o cineasta Neville de Almeida, amigos mais que então iria preparar o almoço. jovens, seus filhos Lara, Tomás e João e, No terraço de seu apartamento, Pereio também, uma “moça da night”. brinca de carpinteiro. Constrói prateleiras e Apesar de ter conta no banco, “porque cinzeiros com tijolos antigos. “Eu ando com velho adora ir a um banco”, Pereio não guarda umas manias de velho, tem dias que acordo dinheiro. “Quando ganho uma bolada, gasto com 100 anos a mais.” O “velho” não fumou tudo, não sei guardar, quero me livrar daquilo, nenhum cigarro, não bebeu nenhum trago gasto com noite, com puta.” nem usou qualquer droga durante as quatro O galã que fez par romântico-sexual com horas em que esteve com a equipe da Tanque. Sonia Braga no clássico Eu te amo (1982), Tudo o que fez foi comer uma banana. Estava de Arnaldo Jabor, sempre seduziu muitas empolgado porque viajaria no dia seguinte para mulheres e foi casado três vezes. A mais filmar em Paulínia, no interior de São Paulo. famosa e tempestuosa união, com Cissa Mais uma vez, viajaria sem mala. Guimarães, mãe de Tomás e João, virou Aqui, Pereio tira a fantasia do personagem notícia quando Pereio foi parar atrás das e, sentado na sala de sua casa em uma manhã grades por falta de pagamento de pensão. ensolarada, fala sobre liberdade, dinheiro, Hoje, Paulo César também está livre drogas, amor e a morte da mãe, uma semana do amor. “Estou muito cansado para antes desta entrevista.

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existencialismo, tem até uma marcha de carnaval que fala assim “chiquita bacana lá da martinica, é existencialista com toda razão, só faz o que manda o seu coração”. Tem outra coisa que te prende: você não consegue escapar do próprio personagem. Você tem noção de ter Vamos começar não pelo que liberta, criado o personagem Pereio? mas pelo que pode aprisionar. Salário Eles me chamam de lenda viva. Eu já comecei é uma prisão? Esta edição da Tanque a implicar. trata da liberdade. Lenda viva? Liberdade? Tenho que falar sobre drogas, sempre tenho Sim, liberdade. que falar sobre drogas. Liberdade… e eu com isso? E sexo. Você tem essa imagem de um cara E falar sobre sexo. Eu descobri vários eus livre, que faz o que dá na cabeça. diferentes. Você tem uns amigos que bebem e Eu, não [rindo]. mudam completamente. Tem gente que parece Você não é uma pessoa livre? que é um amor de pessoa e quando bebe fica Não, é muito mais pela resistência do que um horror. É verdade que as drogas não têm pela idéia de liberdade mesmo. Porque tenho nenhuma concorrência de personalidade. A a impressão de que, se um dia propuserem pra droga não é uma personalidade. Você cheira qualquer pessoa a liberdade absoluta, ela não cocaína, você muda para outro tipo de pessoa, saberá o que fazer. de uma pessoa tímida fica cheia de vida, Resistindo a quê? certas mulheres que são recatadas perdem o É a idéia de não chegar na hora. Você sabe recato com álcool. Acho que o álcool é mais que se diz que a pontualidade é cortesia dos do que cocaine. Já que ninguém pergunta reis. O rei não podia chegar atrasado, a única nada sobre drogas, eu vou falar então cortesia que ele se permite é chegar na hora. espontaneamente. Ninguém vai chegar com o rei dormindo. Parece que você está sempre Não, que história é essa? Vai encontrar o rei controlando o personagem, não? com coroa e tudo. Quer dizer, essa é a idéia de Claro. Eu tento, tanto que isso é uma pontualidade, a idéia de rebeldia é outra. É o revelação, quer dizer, eu tô dando bandeira cara deixar o rei esperando e não ir. de certa maneira... Tem um hábito de muitos Você chega na hora ou deixa o rei atores de falar assim: “ele”, se referindo ao esperando? personagem. Eu tento falar “eu”. Porque é Mas não é que seja uma liberdade, afinal de uma boa maneira de começar a fazer bem contas tem a responsabilidade também. Sartre um personagem. defendeu muito essas idéias, né? O tal do

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Em algum momento ele fugiu do controle, o personagem Pereio? Eu queria que ele fugisse do controle. Porque fica mais fácil. Porque controlar dá trabalho, a idéia de controle é a seguinte: se eu me controlar, eu controlo a situação. É um pensamento mágico, não é que funcione necessariamente, entende? Eu posso me controlar e não estar controlando a situação, mas a idéia é essa, o pensamento mágico, se eu me controlo, controlo tudo. Sua casa é aberta? É. Tem muita gente que tem a chave daqui. Eu deixo uma chave inclusive na Toca da Raposa [o bar e restaurante ao lado do prédio onde mora]. O Neville de Almeida, ele tem a chave. Mas aí quando vai embora pra casa dele me devolve a chave. Mas os meus filhos não devolvem. Eles levam e depois perdem lá no Rio. Meu irmão também, ele também não devolve. Quer dizer, não tem esse hábito. Você leva muita coisa quando viaja? Não, eu vou pro Rio sem nada. Eu já tenho cartão, cartão de crédito, já não é tão livre porque tenho cartão de crédito. O lance também que te limita um pouco é o orçamento; você pagou os juros, mas se livra do

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orçamento. Eu não tenho dinheiro no banco, mas assim mesmo eu compro. Você dirige? Automóvel? Dirijo, mas não possuo, não uso. O carro também prende você? Mulheres têm muito carro. Todas têm carro. Você anda com algum documento? Eu ando. Olha, passei 12 anos dirigindo, mas sem carteira de motorista, sem documento, sem porra nenhuma. Era uma época que podia, entende? Isso no Rio? No Rio, em Porto Alegre, aqui. Mas você tinha outros documentos? Não, não, eu fiquei um tempão sem documento nenhum. Quanto tempo? Não sei, uns dez anos, sei lá, eu digo dez anos, mas eu nem me lembro mais como é que foi, eu estava sempre meio drogado. Tudo bem, quer dizer… estamos aí! Agora estou careta. Essa pessoa careta está mais organizada hoje? Não, não. Nesse sentido de banco, documento? Não. Sou uma desordem. Eu fico pensando nisso porque tem dia que me dá muito trabalho, porque tem o lance ecológico e econômico. Eu comecei agora a não querer mais saco de lixo e, pronto, vou ter que resolver isso. Mas você teve uma crise, ficar se dizendo que “está tudo indo para o buraco, preciso fazer a minha parte”, essas coisas? Não, eu penso assim. É como o negócio da liberação da maconha, o que adianta liberar num país e não no outro? Até quando, meu Deus do céu, a gente vai ter que botar maconha no mocó pra viajar, chega disso! Você teve problemas do coração há pouco tempo? Não, não é problema. Há muito tempo que uso marcapasso. Era para durar sete anos, na verdade fazia nove, eu já tava com ele vencido. Foi isso que te fez ficar careta? Não. Você não está nem bebendo? Não. Nada? Nem fumando cigarro. Nem um baseado? De vez em quando num baseadinho eu dou um tapinha, mas não compro, não vou atrás.

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Você acorda muito cedo? até não deveria, mas me permito tudo, qualquer Sete, oito da manhã. coisa, tudo significa qualquer coisa. Tem algo que você faz todo dia, Você foi do partido comunista? rigorosamente a mesma coisa? Sim. Eu tenho que comer duas bananas por dia Com carteirinha? porque o remédio que tomo pra pressão é Sim. diurético, então ele tira o potássio. A banana Por quanto tempo? é uma fruta com fonte de potássio, então Não sei, não sei, naquela época era como tem esta rotina: duas, três bananas por dia, respirar, como ir ao cinema, tinha que ter duas, três limas por dia, uma pêra, e aí nem uma participação política, a gente viveu por almoço. Vou levando pra frente, mas faço uma muito tempo uma ditadura militar, quer boa refeição diariamente, me permito tudo, dizer, não chiar era uma coisa esquisita.

Pereio e sua filha Lara em 1981

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Cena do filme “O Retorno do Paidasputa” de 1974

como artista, todo mundo de certa maneira, dava uma resposta para isso ou concordando ou descordando. Chegou a ser preso nessa época? Fui, fui preso quando aquele embaixador americano, Mas você freqüentava? Charles Elbrick, foi seqüestrado [1969]. É, tinha reuniões, tinha esquema Por que você foi preso? de célula de base, e eu não tenho Não sei, eles me perguntavam isso. Eu dizia: “Não condições de te explicar como era o sei, eu não sei, eu estava no Gigetto [restaurante Partido Comunista, eu não fui um tradicional de São Paulo] e fui preso”. comunista... Por quanto tempo? Quando você pensa hoje nessa Fiquei oito dias, Operação Bandeirantes [centro história do partido comunista, de informações, investigações e torturas montado você acha que era tudo um tédio? pelo exército]. Não, era interessante porque eu achava Você ainda tem algum envolvimento político que a gente estava participando de uma hoje? utopia, tinha um regime no Brasil muito Não, eu sou bem espectador. inóspito, muito desumano. E a gente

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. io e m 19 78 Pere

O que você acha dessa euforia agora, mais uma vez o “Brasil Potência”? O Brasil tem mais importância fora do Brasil do que dentro do Brasil. A coisa aqui é muito injusta, a coisa se revela muito injusta e muito pouco técnica. Por exemplo, excessivamente politizada a administração pública, né? Ser um ator em sua família foi algo tranqüilo? Meu pai não foi muito palatável, mas aí que se foda. Eu queria, meu pai não queria, então “até logo, papai”. Eu saí de casa rapidinho, porque não dava para conviver com uma pessoa que pensa que teatro é coisa de mulherzinha. Você gosta de filmar sempre? Gosto, gosto. Eu estou lançando um filme e estou fazendo outro, porque as pessoas, é engraçado, o público

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brasileiro vê os filmes na televisão: Canal Brasil ou Globo, ou antes na Manchete. As pessoas me vêem e lembram do tempo que elas iam ao cinema, mas elas não vão mais. Cinema caiu muito. Você nunca fez muita novela, não é? Não. Não fiz novela, não. Eu tentei fazer novela na minha vida e nunca passei de três ou quatro capítulos. A televisão tem uma organização à qual eu não me adapto. O que fazia você não se adaptar? A questão da liberdade. Eu tenho que ter a liberdade de não estar preso. Quando você faz novela, durante um período da sua vida você pertence àquilo. E aquilo não tem um nível que se compare ao nível estético e intelectual das coisas que você ama, certo? E você saía das novelas causando confusão? Sei lá, nem lembro, eu desaparecia. Quando me ligavam, não atendia, essas coisas. E com o cinema? O cinema é um casinho. Você se apaixona por uma pessoa, aquilo dura o tempo que você consegue agüentar. Depois aquela pessoa te conhece melhor e se ela quiser você fica com ela. Mas é o período da paixão, é curto. Você gosta do atrito? Eu não sei, eu estou supondo isso, entende? Que eu tenha uma atração pelo atrito. Mas você vive do quê? Do cinema, da publicidade? Aqui em São Paulo eu preciso trabalhar muito menos, porque eu trabalho em publicidade.

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Principalmente com a voz? prisão é que eu não estava pagando a pensão para Sim, sim, principalmente com a voz. as crianças. Na ocasião eu tive um acidente e perdi Quando te ligam, o que te falam? quase todos os meus dentes. Naquela época eu Quanto é que você cobra? Porque estava cuidando de mim. E também a moça que gostam de trabalhar também com dois eu estava namorando ficou grávida. Foi mais números. Quanto é que você quer e quanto um filho que eu tive, eu reconheci e tudo, mas eles querem te dar. Quanto eles querem te ela foi embora com o menino. Mais tarde eu dar eles sabem, mas eles não dizem. voltei a me relacionar com essa moça, com meu filho, quando ele tinha 6 anos, mas estava muito melado já, ela agora está ficando na Bahia. Eu não o vejo. Você é muito próximo dos outros três filhos, não é? Sim, somos muito amigos. Eu tive

Você já deve ter ganho o bastante. Sou ruim com dinheiro, parece que eu não quero lidar com o dinheiro, então me livro dele, eu estou sempre sem dinheiro. Como você se livra dele? a sorte de ter esses filhos que não Gastando, torrando. são pessoas com quem eu devo me Torrando na noite com amigos? preocupar. Não, em geral com os amigos eu tenho uma Com quem você se preocupa? relação mais equilibrada. Comigo mesmo. Quando você pega um dinheiro, você vai lá e E eles, se preocupam com você? gasta tudo? Eu acho que sim. Às vezes eu vejo Torro. Eu torro com puta. um olhar de preocupação. Vislumbro Com boemia? mais isso no João. Ele é um pouco Com boemia. paternalista. Mais que eu. Mas eu Falando da grana, tem o episódio de sempre tive muito prazer e muito você ter ido para a cadeia a pedido de orgulho de ter filhos, eu procuro uma de suas ex-mulheres (a atriz Cissa educá-los. O orgulho maior é ter filhos Guimarães). Você se dá bem com todas bem-educados. Filhos bonitos, foda-se. elas hoje? Mas bem-educados, que coisa boa, né? Não tem por que eu não me dar bem. Eu acho E é difícil porque ninguém sabe direito o que ela [Cissa] tinha toda razão. O motivo da que é educar.

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Sua filha, Lara, dirige o seu programa. Como é trabalhar com ela? Eu diria que a minha filha é o meu patrão. Se bem que eu repeti muito isso, entende? Então já está na hora de eu dizer outra coisa, sei lá, que ela é como uma mãe. A Lara foi para Nova York há dez dias e eu quero saber dela. Ela só dá notícias quando quer, mas aí eu ligo para a casa dela e pergunto onde ela está para a empregada. Vou fazer isso agora [Pereio pega o telefone, liga para a filha e dá a notícia de que a avó, a mãe dele, morreu]. Você tem oficialmente três ex-mulheres, é isso? São três porque são pessoas com quem eu tive filhos, mas passou muita mulher por aí. Cansou de casar? Eu prezo muito minha condição de homem solteiro. Eu estou muito cansado para suportar companhia. Eu estou procurando uma espécie de solidão porque estou muito cansado pra sentir também, isso seria quase um poema. Mas é isso mesmo, eu estou muito cansado para ter companhia, eu não tolero. Você gosta de ser mais velho e ela mais nova? Não, não, para mim foi sempre a mesma idade, entre os 30 e 40 anos. Quando eu era jovem já gostava, e eu sou mais velho e

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continuo gostando das mulheres de 30 e 40 anos, quer dizer, é como se fosse uma espécie de abstração. E o que tem a mulher entre 30 e 40 anos? Não sei, eu estou procurando isso dentro de mim. Seja lá quem for, se tiver dentro desses padrões tudo bem [risos]. Você já teve um grande amor? Acho que não, acho que não amei, são vultos que vão passando. Eu tenho uma série, um montão de amigas, eu me relaciono com o feminino assim, eu tenho um montão de amigas que eu abraço, choro, que elas choram e são bonitinhas, são queridas. Eu tenho mais amiga mulher do que amigos homens. Já foi fiel alguma vez? Eu acho que sim. Quando estava num casamento? Eu acho que existe fidelidade à paixão, mas a uma pessoa… agora neste momento da minha vida eu poderia ser fiel, mas agora eu não estou interessado em mais ninguém. Quer dizer, esse tipo de trato eu não quero mais fazer, porque eu acho que não é pra mim.

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Tem a cobrança de ligar, saber se alguém te ligou. Está bem, eu não sou livre, não tenho sido até agora, mas vou caprichar para ver se eu consigo pelo menos um simulacro do que seja liberdade. Por exemplo, cumprir os horários, mas cumprir na maior, sem estar contrariado por causa disso. Você gosta de trabalhar? Eu gosto de filmar, de todo o ritual. Eu gosto de combinar o cara que vem me pegar em casa numa van, vai me levar até Paulínia e aí lá eu vou pra maquiagem, tudo isso com prazer. Estar com os colegas no set? Eu fico vendo esses filmes que o GNT veicula, a história de Judy Garland, a história de não sei quem, sabe aquelas angústias, aquelas histórias de procurar comprimido e bolinhas e álcool não sei o quê, você diz assim: “Meu Deus do céu, eu vivenciei um pouco essa história e está me fazendo mal assistir a esse troço. Por que eu não era feliz?”. Outro dia eu tava sofrendo por causa de finanças, aí fiz um cálculo e está tudo pago. Paranóia? Ah, algo como “esse dinheiro vai acabar e eu vou ficar sem dinheiro”. Porra, maluquice.

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Perei

o em 2005.

Quer dizer, eu peguei emprestado essa loucura dos outros, a piração também contamina. Participei de uma luta que acabou no ano passado, antimanicomial, eu cheguei a fazer filmes em brasília com uma turma de psiquiatras jovens, ainda tem por aí uns manicômios, mas é o que sobrou porque ainda tem um monte de gente que não tem aonde ir. Você falou desses momentos de muita angústia, entre outras coisas. Agora você está menos angustiado? Sabe por que é engraçado? Eu achava que eu estava vacinado... Mas eu ando angustiado por causa da morte da minha mãe [começa a chorar], morreu com 90 anos e não se reconhecia mais no espelho. Na minha cabeça ela só tinha se deslocado, entende? Só tinha desocupado um espaço. Você se achava vacinado do tipo “já sofri tudo, agora não sofro mais”? Eu pensava: estou vacinado contra a morte da minha mãe. Minha mãe morreu e eu fiquei mal. Tinha ido a Brasília pra ver a febre que ela tinha tido lá, uma semana antes. Ela estava em Brasília? Eu fui lá e não fui vê-la porque ela estava no

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hospital e era complicado. E eu enchi a cara, enchi a cara, enchi a cara. Já achei que eu estava vacinado, mas não tava não. E nunca vou estar, a gente angustia. Você acha que as pessoas têm medo de Tinha muito assédio, as você, você percebe isso? mulheres ficavam em cima, Eu percebo. Mas eu também criei um pouco como era? isso. Claro, porque, imagina, uma das Eu sempre fui um cara que, nesse condições do que acontece com os atores tocante aí, sempre me desdobrei quando começam a ficar conhecidos é que direito. Mas o cinema, celebridade, tudo todo mundo fica íntimo. isso, fama, sempre foi uma interferência, Aconteceu com você? na verdade, nunca foi uma coisa na qual É, eles vêm falar. Eu estou tentando me eu me calçasse pra me dar bem. Nunca conhecer há mais de meio século e nem aconteceu. comecei a levantar a ponta desse negro É até um efeito meio ruim? véu. Mas de repente as pessoas me tratam Na época eu reagia a isso brutalmente e eu com uma intimidade que não têm, então não me achava bonito, quer dizer, ninguém eu estabeleço uma carranca meio que pra se acha né, a gente nunca sabe direito como mantê-las afastadas. é que é, parece que tem até uma síndrome E isso funciona? dessas mulheres belíssimas que acham que Não. têm a bunda grande demais, a bunda pequena Elas chegam mesmo assim? demais, vivem fazendo plástica. Mas eu tenho que elaborar isso, né? Eu Você nunca se viu como um galã? não posso deixar também de ter minha Não, eu sempre desconfiava muito dessa vida cotidiana normal, ou minha noite história. Até hoje eu tenho assédio, mas tem que também cotidiana, sair por aí, andar conviver com isso, a gente tem que ter a vida na rua – inclusive as pessoas dizem: pessoal, sair na rua, andar a pé. “Cuidado, você anda na baixa Augusta, Mas tem isso de uma mulher querer ficar na Liberdade. Aquilo lá é tudo muito com você porque você é o Paulo César perigoso”. Mas eu não tenho medo de Pereio? nada, eu tenho é covardia. Geralmente Claro, isso aí é desfavorável. Mas a gente com o acontece alguma coisa que me tempo aprende a se livrar dessas coisas. acovarda e, quando dou por mim, já E percebe logo? estou longe. Claro. Eu não sei exatamente o que é essa entidade Na época do filme eu te amo Paulo César Pereio. Eu sei que eu sou cúmplice (1982) você foi um galã. nessa construção, mas não é nítida essa mitologia. Como é isso? É embaçado. Não sei [risos].

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É que demora um tempo, jovem tem essa Você é vaidoso, não é? arrogância. Sou, eu gosto de andar bem arrumadinho. Tinha até aquela do Martin Fierro: “o diabo E vaidade física de envelhecimento, de sabe por diabo, mas sabe mais por velho”. entrar em crise com isso? E esporte, já tentou fazer algum? Não, não, isso aí não. Eu nunca cheguei ao Natação e salto ornamental. ponto de não me aceitar. A gente tá sempre Salto ornamental? mudando. A cara que eu tinha quando Eu tenho até medalha. adolescente eu não tinha mais quando homem Então você era bom? maduro, hoje eu tenho saudade quando eu era Eu nunca fui bom em nada de esporte, mas maduro. Eu estou na terceira idade. Tô com sempre passeei por todos. 68 anos, quase 70, e recomendo essa idade pra E hoje em dia? todo mundo. Tem uma certa arrogância da parte Hoje eu não faço mais nada, eu caminho. das pessoas mais novas. Eu achava quando era Você joga sinuca toda segunda? menino que velho era uma espécie de desaforo, e Não, jogo mais, eu jogava. Tem o meu nome é velho, o meu nome é Paulo César períodos que eu jogo todos os dias, e Velho. Meus filhos, João Velho, Tomás Velho, tem períodos que não. gostam muito e usam. É um nome legal, Velho eu Aqui não vai piorar? acho um nome legal, mas eu nunca usei esse nome, Vai melhorar inclusive. Aqueles eu achava estranho o meu pai encontrar com um prédios enormes, como têm aquele ali cara e ouvir: “Oi, seu Velho, como é que vai, seu [apontando], agora não podem fazer Velho?”. Eu achava aquilo estranho, era como se fosse mais. Essa vista que eu tenho para a um esculacho. Não é. Paulista, assim, não vai piorar.

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Pereio e Ana Pornoc M hancha oser no fil me da de 1976

Morte é um pânico pra você? Não, eu tenho que conviver com isso, né? Para quem não acredita O que você acha quando todo mundo te em Deus, como você, olha, ou olha teu personagem, como a gente já começa a ficar mais estava falando, e diz “Pereio é o cara livre. complicado? Pereio é o cara que faz aquilo que quer”? Pior é que às vezes a gente O que tem de real nisso? espera a morte e, por via das Tem uma coisa aí que você volta pro início dúvidas, usa a roupa de morrer. desta entrevista, que foi a idéia de liberdade, O melhor sapato, o melhor terno, não é? E eu pipoquei aí pelo existencialismo. por via das dúvidas faz a barba e A idéia de liberdade absoluta, quando a gente tal, capricha na figura porque pode fala de liberdade o vocábulo absoluto tá por não ser convidado pra essa festa aí, então a gente reflete anos a respeito do depois da morte. assunto sonhando com a liberdade absoluta, Você não acredita que vai ter essa que não existe. Você está preso a horários, festa depois da morte? você está preso a suas manias, você está Eu acho que não. Não sei mais. preso a relacionamentos em que você Vai que tem. combinou alguma coisa. Você já percebeu Por via das dúvidas bota a roupa de o texto do casamento? Até que a morte morrer, faz a barba, dá uma caprichada, se os separe, vai segurar esse encrenca, achar que tá longe do centro leva uma grana meu filho? Hã, até o túmulo e ainda para o táxi. vai chorar no enterro?

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P u: o L Paebir ro a c s i ma sil do Bra Agreste2.indd 2

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1598, os soldados

de dezembro de

No dia 29

do Brasil

hoje o vinil mais caro

história do álbum, longe da amálgama

(para quem Feliciano Coelho confiou seu relato), interpretou os símbolos como “figurativos de coisas vindouras”. Não se enganara. O padre francês Teodoro de Lucé descobriu, em 1678, no território paraibano, um segundo monólito, ao se dirigir em missão jesuítica para o arraial de Carnoió. Seus relatos foram registrados em Relação de uma Missão do rio São Francisco, escrito pelo frei Martinho de Nantes, em 1706. Em 1974, quase 400 anos depois da descoberta do capitão-mor monólitorevelava, aos estupefatos recrutas, estranhos deseda Paraíba, os tais “símbolos de nhos esculpidos na rocha cristalina. coisas vindouras” regressariam. O painel rupestre se encontrava nas paredes interDessa vez, no formato e silhueta nas de uma furna (formada pela sobreposição de arredondada de um disco de vinil. A três rochas), e exibia, em baixo-relevo, caracteres mais ambiciosa e fantástica incursão deixados por uma cultura há muito extinta. Os psicodélica da música brasileira liderados pelo capitão-mor sinais agrupavam-se às representações de esda Paraíba, Feliciano Coelho pirais, cruzes e círculos talhados, também, - o LP Paêbirú: Caminho da de Carvalho, encalçavam na plataforma inferior do abrigo rochoso. Montanha do Sol, gravado de outubro a dezembro índios potiguares quando, em Inquietado com a descoberta, Feliciameio à caatinga, nas fraldas da no ordenou minuciosa medição, mandaquele ano por Lula Côrtes Serra da Copaoba (Planalto de dando copiar todos os caracteres. A e Zé Ramalho, nos estúdios da Borborema), um imponente registro ocorrência está descrita em Diálogravadora recifense Rozemblit. de ancestralidade pré-histórica se gos das Grandezas do Brasil, obra Contar a impôs à tropa. Às margens do leito seco editada em 1618. O autor, Amdo rio Araçoajipe, um enorme brósio Fernandes Brandão

A trilha em busca das origens de Paêbirú, o disco maldito de Lula Côrtes e Zé Ramalho,

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dependências de um

“sede” do selo ficava nas

pioneiro na produção de música independente no Brasil. A

Ingá, Ramalho e Côrtes se decidiram pela produção de um “álbum conceitual”. O único jeito de conhecer lula Côrtes é ir visitá-lo no seu habitat: o ateliêr em Jaboatão ceram no bar Asa Branca, que Córdula dos Guararapes. “A Pátria Nasceu Aqui”, tinha na capital, João Pessoa: “O único divulga a enorme placa na divisa com a capital, boteco que ficava aberto na Paraíba inRecife. O apartamento onde mora, pinta e teira depois das oito horas da noite, à base de ‘mensalão’ pago à polícia”. O Zé compõe com a atual banda, Má Companhia, tem Ramalho compositor, atesta, nascera no vista frontal para o Oceano Atlântico. É esse homem que segue narrando a mais Asa Branca. homérica jornada de sua vida, até agora: a Córdula quis mostrar a Ramalho concepção do álbum Paêbirú. Guiados pelo “algo que conhecera”, e organizou uma ida ao município de Ingá do Bacamar- parceiro mais velho, Raul Córdula, Zé Ramalho te, localidade conhecida antigamente e Lula Côrtes, recém-amigos, logo de cara como Vila do Imperador, por causa da perceberam a fantástica mística que as inscrições passagem de Dom Pedro II por lá. A lo- da Pedra do Ingá exerciam sobre a população às calização de Ingá do Bacamarte é a 85 cercanias do sítio arqueológico. Foi por intermédio da arquiteta, hoje km de João Pessoa, caatinga litorânea, cineasta, Kátia Mesel, sua companheira na na zona de transição do Agreste para o Sertão. Para “fazer a viagem”, Córdu- época, que Lula Côrtes veio a conhecer la também convidou o artista recifen- Zé Ramalho. Junto, o casal abriu se Lula Côrtes - jovem homem que já vivera muitas aventuras. Mas aquela, o selo Abrakadabra, proposta por Raul, ainda não. Nenhuma surpresa foi para o guia o fato de Côrtes e Ramalho ficarem tão maravilhados com a rocha lavrada quanto os expedicionários do

Córdula se tornou amigo de José Ramalho Neto, o jovem Zé Ramalho da Paraíba. Os conterrâneos se conhe-

A calamidade levou junto a fita

delas, literalmente, foram por água abaixo.

única: 1.300 cópias. Mil

que submergiu Recife, em 1975 e, por fim, se salvara, são fascinantes. A prensagem de Paêbirú foi

arqueológico”, assim como a pedra, 33 anos depois de seu lançamento. As histórias sobre a produção do disco, como naufragou na enchente

Paêbirú também tenha se convertido em “achado

é impossível. Irônico é que o LP original de

chamada Pedra do Ingá que o inspirou,

sonoras e, especialmente, da

das pessoas, vertentes


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“Me acompanhe, e verás algo que jamais se esquecerá”. Uma década depois, 1972, Raul

que a tragédia ficasse quase completa. Milagrosamente a salvos

capitão-mor da Paraíba. A charada talhada na parede de pedra lançava-lhes o provocante desafio: como decifrariam tais arcanos - nunca comficaram somente 300 preendidos e tão majestosos - numa exemplares. Bem conservado, música que, se não codificasse, ao devesse tributar à remota o vinil original de Paêbirú (o selo menos ancestralidade brasileira? Fora essa inglês Mr Bongo o relançou em vinil a centelha que incendiara as idéias. este ano) está atualmente avaliado em mais Acampados na caatinga sertaneja, de R$ 4 mil. É o álbum mais caro da música frente a frente com a Pedra do brasileira. Desbanca, em parâmetros monetários (e sonoros: é discutível), o “inatingível” Roberto Carlos. O Rei amarga segundo lugar com Louco por Você, primeiro de sua carreira, avaliado na metade do preço do “excêntrico” Paêbirú. A expedição no rastro dos mistérios e fábulas de Paêbirú se inicia em Olinda (Pernambuco). O artista plástico paraibano Raul Córdula me recebe em seu ateliêr. Na parede do sobrado histórico, uma cobra pictográfica serpenteia no quadro pintado por ele. A insígnia foi decalcada da mesma inscrição que, há milênios, permanece entalhada na Pedra do Ingá. No mesmo ano de Louco por Você, 1961, o professor de geografia Leon Clerot apresentou o monumento a Córdula. O professor fizera o convite:

master do disco para

Após o disco Satwa, Lula tinha aprimorado suas concepções musicais. Achava-se apto para o grande projeto que andara

escravatura, fora uma senzala de escravos.

nos tempos da

ao pai de Kátia, que,

prédio pertencente

Lula Cortes em seu ateliê

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A água é morna. A sensação, arrepiante. “Animais de

Seguindo pela BR 101, grande porte, como a pre-

hoje em dia, é fácil.

lunar que desceu num raio laser e, com a barba

tramando com o parceiro Zé sociedades pré-históricas, nativos Ramalho desde a visita à “pedra anteriores aos encontrados no Bravermelha, encantada”. Não perderam sil pelos europeus. “Certamente, tempo e investiram em sérias essas gravuras” , diz, apontando o desenhou no peito a Pedra do Ingá”. pesquisas nas imediações. Eles imenso painel de rocha, “são obra A cada descoberta que faziam com caçavam a interpretação local, de sacerdotes ou pajés. Visavam ritos suas explorações, Côrtes e Ramalho notavam, folclórica, mitológica sobre o mágico-religiosos que visavam sortina variedade de lendas, que todas eram sobre admirável monólito escrito. légios para tribo”, Brito explica, com Sumé - entidade mitológica que teria transmitido Nas adjacências vivia um sua proficiência. conhecimentos aos índios antes da chegada dos grupo de índios cariris. Os Próximo à pedra, sem ter de tocá-la, colonizadores. “Todos os indícios levavam a músicos foram até eles, atrás da o arqueólogo continua sua explanação: Sumé. Até as palmeiras da região, por lá, são peculiaridade do seu tipo de música. “As representações registram o canto máchamadas de ‘sumalenses’”, observa Lula. Ouvindo, descobriram que os traços gico solfejado pelos sacerdotes nas ceriPara “libertar” os indígenas da crença de uma cultura africana tinham se mônias”, prega. A pedra, na opinião do arpagã, os jesuítas pontificaram Sumé fundido à sonoridade dos indígenas. queólogo, seria, para os nativos, um “meio como “santidade”: virou São Tomé. Se fundamentado em registros de comunicação” com os deuses (ou deuO que explica, no Nordeste, o fato arqueológicos, Zé Ramalho e Lula Côrtes sas) da natureza. A estimativa da ciência é de muitos lugarejos terem sido concordaram que, a partir daquele ponto, a de que as gravações já estejam ali por volta batizados de São Tomé. “Aqui haveria um caminho, que partia de São de três a seis mil anos. “Datação exata não é é o lugar de São Tomé!”, Tomé das Letras (onde existem registros da possível, porque o monólito está em meio ao os padres costumavam mesma escrita rupestre traçada na Pedra riacho”, esclarece o professor. Vestígios, por anunciar, ao chegar numa do Ingá) e conduzia até Machu Picchu, ventura, deixados pelos gravadores, ao região nova. no Peru. A trilha que os Cariris cinzelar a pedra, foram arrastados no A crença indígena diz chamavam de “Peabirú”. trespassar das águas do ancião que, quando o pacifista Sumé se foi embora, Chegar à mística Pedra do Araçoajipe. expulso pelos guerreiros Ingá, tupinambás daquelas terras, deixou uma série de rastros


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no período mezosóico,

talhados em pedras no meio do caminho. Os índios acreditam que Sumé teria ido de norte a sul, mata adentro, descerrando a milenar trilha “Peabirú” - em tupi-guarani, “O Caminho da Montanha do Sol”. O historiador Eduardo Bueno, que passou anos de sua vida “veraneando” na praia de

guiça e o tatu-gigante,

“viajante

Em “Terra”, o resultado “telúrico” foi conseguido com tambores, flautas em sol e dó,

Fogo e Água.

lados, de acordo com os elementos Terra, Ar,

(e viável) a engenhosa gravação do disco. O álbum - duplo - é dividido em quatro

explicando como tornaram possível

pinta o quadro de um farol, vai me

Enquanto, pacientemente,

Agendo uma “audição comentada” de Paêbirú no ateliêr de Lula Côrtes.

seguintes cantam a saga de Sumé,

no/Urano/Netuno e Plutão”. Os versos

da Sociedade Paraibana de Arqueologia, já aguarda, no local, minha chegada. Segundo ele, as inscrições são originárias de

arqueológicos mais soberbos do mundo. O arqueólogo Vanderley de Britto,

De frente para o mar, lula Côrtes gosta de acreditar na epopéia interplanetária narrada em “Trilha de Sumé”, a abertura de Paêbirú. “As gravações na Pedra do Ingá foram feitas Itabaiana, Mojeiro. com raio laser mesmo”, afiança Tombada pelo Instituto o artista, que cantarola a introdo Patrimônio Histórico e dução da música, o alinhaArtístico Nacional (Iphan), a mento dos planetas: “MerPedra do Ingá (Pedra Lavrada, c ú r i o / Vê n u s / Te r r a / ou Itaticoara) é um dos sítios Marte/Júpiter/Satur-

indígena” que conduzia até o Peru.

de minha cabeça fazia a imaginação va- a aventura de Aleixo Garcia, o qual, após um gar por mundos arcaicos desapareci- tempo vivendo naquela praia, fora informado da existência de uma “estrada dos na vastidão temporal.

pequenas localidades vão se cruzando: Abreu e Lima, Goiana, Itambé, Jupiranga,

Pela estrada federal, as

condições de habitaram a região: mastráfego são todontes, cavalos nativos e outros mega-animais também admissíveis, circulavam por aqui”, ele lembra. Naufragados, no sul da ilha de Santa Catarina, mesmo sem Submerso na tepidez do plácido regato via duplicada. pré-histórico, um túnel do tempo dentro conta que tomou conhecimento da trilha lendo

- Paraíba, as

no trecho Recife


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o wha-wha distorcido do tricórdio e a psicopatia do órgão Farfisa em “Nas Paredes da Pedra Encantada”. “Raga dos Raios” conserva-se, mais de 30 anos depois, como a melhor peça de guitarra fuzz gravada no rock nacional: “Guitarreira elétrica & nervosa de Dom Tronxo”, diz a ficha técnica. Onde andará Dom Tronxo?

“Fogo”, como adverte o nome, é a faceta incendiária de Paêbirú. A mais roqueira também. Entram sons trovejantes:

representativas do elemento. Na mais dançante, o baião lisérgico “Pedra Templo Animal”, Lula Côrtes toca “trompas marinhas”. Zé Ramalho pilota o okulelê.

africanos, louvações à Iemanjá e a outras entidades

de água corrente. No mesmo lado, cantos

Existe Molhado Igual ao Pranto” e “Omm”. Em “Água”, as músicas têm fundo sonoro

para músicas como “Harpa dos Hares”, “Não

No lado “Ar”, além de “conversas”, “risadas” e “suspiros”, selecionaram-se harpas e violas sopros

pensaram serem eletrônicos.

como o rasgar da folha de um coqueiro, por exemplo, muitos

Efeitos de estúdio, nem pensar: “Só havia as pessoas, vozes e instrumentos”, comenta o artista. Certos efeitos,

congas e sax alto. “Simulamos, com onomatopéias, ‘aves do céu’, ‘pássaros em vôo’ e adicionamos o berimbau, além do tricórdio”, ele conta. Contrariando a prática dos “encartes vazios”, a gama de instrumentos utilizados está descrita na ficha técnica de Paêbirú.

Zé Ramalho em ensaio durante a década de 1970

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forma. “A sorte é que eu

procurava na sua vida. Apesar “o que não queria”.

tinha deixado os discos no andar de cima. São esses que,

O encarte sofisticado de Em minha jornada, sigo Paêbirú é obra de Kátia Mesel. para a capital paraibana. Em atual- João Além de designer, ela fez a Pessoa, Telma Ramalho, a mente, valem uma fortuna mundo prima mais jovem produção executiva do álbum. afora”, pontua Kátia. “São mais de 20 pessoas tocando de Zé Ramalho, diz não esquecer uma As substâncias psicodélicas, obviano disco - basicamente, toda a passagem da pré-adolescência: a mãe, mente, foram muito importantes durante o cena pernambucana e boa parte da Teresinha de Jesus Ramalho Pordeus, processo de composição. Para Lula Côrtes, paraibana”, a cineasta enumera. professora de História, conversava com o no entanto, só de estar perto da Pedra O disco só deu certo, na opinião sobrinho em seu escritório: “Zé contava a ela do Ingá, é possível sentir o xamanismo de Kátia, porque foi feito com a alma como se desenrolavam as gravações de Paêbirú”. emanando do monumento rochoso: e a criatividade soltas. “Num estúdio Uma lembrança viva é ter ouvido o disco aos 12 “Comíamos cogumelos mais como de dois canais, baby? Era o playback anos: “Não entendi nada. Só lembro de ‘Pedra Templo ‘licença poé-tica mental’”, justifica do playback do playback! A gente Animal’ e ‘Trilha de Sumé’, as mais pop”, diverte-se. o artista. se consolava: ‘Se os Stones gravaram Uma das pessoas que, na época do Zé da Flauta tinha 18 anos lançamento, compraram o álbum foi a na Jamaica em dois canais, por que a quando conheceu Lula e Kátia. arquiteta Terêsa Pimentel. Aos 14 anos, gente não?’ Em ‘Trilha de Sumé’, Alceu No auge da repressão, a Casa de Valença toca pente com papel celofane. em 1974, ela não sabia ao certo o que Beberibe era o templo da liberda[O disco] tem desses requintes”, graceja. de e da contracultura. “Aprendi Foi o zelo de Kátia, na realidade, disso, sabia muito sobre arte. Lá se converque garantiu o salvamento de 300 sava sobre tudo, inclusive se fu“Ouvíamos os locais: Ave Sangria, cópias de Paêbirú da enchente de 1975. Ela guardara parte da mava muita maconha”, confirma Marconi Notaro, Flaviola & O Zé. Ele tocou sax na vigorosa tiragem na Casa de Beberibe, onde Bando do Sol, Aristides Guimarães, o casal morava - o ambiente em “Nas Paredes da Pedra Encantao ‘udigrudi’ nordestino. Vendi minha que muitas canções foram, da”. “Jamais me esquecerei, aliás: bicicleta Caloi verde-água para comprar a primeira vez que entrei num gradualmente, tomando foi Paêbirú. Hoje, sou feliz por ter vendido a estúdio e gravei profissionalmente bicicleta e ter adolescido naquela como músico.”


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da ingestão de cogumelos colhidos

Os nativos tinham mapas nos rostos, o sol lhes rachou os lábios como racha a terra, as pedras duras e afiadas que cantava. Fiz a cabeça do no meio do caminho -, dificultavam a caminhada lhes endupessoal da Ariola: ‘O cara é receu o riso. A informação parecia Lula Côrtes nos dá uma última idéia estar correta. Achamos o regato e o máximo!’ Na gravadora, ninguém tinha a menor idéia de da grande aventura que foi Paêbirú: acompanhamos o sentido. A água era quem era o cara, muito menos que “Nós caçávamos o passado, e os corações se clara e bastante salgada. A irrealidade encheram de esperança com aquela visão. se apossava cada vez mais dos nossos fizera algo como Paêbirú.” O caminho que havíamos abandonado corpos e mentes, e toda a lenda que nos Ambos riem. Lula acende um cigarro. mais atrás era o das Pedra de Fogo, ouhavia enchido os ouvidos, até aquele dia, “Participei de Paêbirú. Dei uns gritos tro pequeno aglomerado quase sem parecia florar de tudo.” lá”, resume Alceu.

conta. “Até então Lula só encontrada no interior dos LPs sosó compunha, mas não breviventes da cheia e escrito depois

virou ‘Trem de Catende’”, Alceu

em ‘Danado para Catende’, que depois

“Foi na reza de ‘Não Existe Molhado Igual ao nenhuma chance de vida. A água é muito Pranto’”, Lula emenda. escassa. Conversávamos sobre as pedras. É nessa tradição do “livre espíriE ao longo, no horizonte, o lombo prateto” que Paêbirú foi realizado. No texto ado da Borborema desenha curvas leves, homônimo - uma raridade datilografada demonstrativas de sua imensa idade.

seus primeiros discos. “A gente tocou

parceiro em Molhado de Suor, um dos

cruza o amplo saguão para saudar Lula, velho

casa de Alceu Valença, no centro histórico de Olinda. Lula bate à porta do casarão. Festa quando Valença

atmosfera”, conta. Terêsa é irmã do músico Lenine, ao qual Lula Côrtes presenteou com sua última cópia de Paêbirú, há alguns anos. “Para tirar uns samplers”, diz Lula. De Jaboatão dos Guararapes, eu e Lula seguimos para a

Detalhe das inscrições da Pedra do Ingá

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próxima edição. a ra pa o nd ma ar s no s mo ta Es ustrações, Mande seus textos, fotos, il ideias e participe.

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BRASILEIRA ás

por Brais Z

Dia a dia ouvimos pela mídia o discurso da classe política. Um discurso de palavras calculadas e sem sentido, um jogo de meias verdades e palavreado superficial. Está claro que não interessa aos políticos que pensemos por nós mesmos. Se o fizermos, nos daremos conta que suas palavras sonoras e grandiloqüentes, falando supostamente de coisas que não compreendemos, outorga-lhes uma autoridade que não passa de um mito.

Os políticos selecionam de forma cuidadosa as palavras com as quais fundamentam seus discursos. São palavras bem escolhidas com o intuito de

vender a autoimagem de pessoas valorosas que defendem seus princípios com convicção. Está claro que a violência não é algo bom para o ser humano, por isso os políticos escolhem a palavra “paz”, como palavra e valor a defender. Assim, mesmo quando provocam uma guerra, justificam-na com sua antítese, dizendo que fazem guerra pela paz, para defender o valor em que supostamente crêem. Eles não escolhem, por exemplo, a palavra “repressão”, pois soa mal e vai contra a condição que mais humaniza as pessoas, que é a liberdade; por isso mesmo “liberdade” é outra palavra a martelar. Ainda assim, seu sistema necessita de instrumentos repressivos (polícia, cárceres) que devem ser justificados de alguma maneira; de onde surge a falácia de que são criados para proteger a nossa liberdade; e essa falácia cria em nós um sentimento de insegurança. “Intolerância” é outra palavra que soa mal, por isso falam continuamente em “tolerância” e ainda mais “respeito”. A política, a democracia, tem a palavra como arma de convencimento. A política é espetáculo, e dentro deste espetáculo a linguagem assume um papel muito importante. As palavras são prostituídas e corrompidas. Falam de convivência porém não convivem com ninguém de fora de seu pequeno círculo de privilegiados, vivendo nas alturas dessa montanha chamada Estado que não nos deixa ver o sol. Falam de tolerância, porém suas

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forças repressivas dizimam os pobres; os

filhos do ódio uniformizados assassinam e aterrorizam impunemente pelas ruas. Falam de paz

c ra cia

enquanto põe em marcha as guerras, a maior tragédia humana que bem definiu Paul Valery como “um massacre entre pessoas que não se conhecem para proveito de outras que se conhecem porém não se massacram entre si”. Os políticos em uníssono dizem ser ferozmente contra a violência. Todos se põe de acordo, através de muito espetáculo e enganação mostrados na representação teatral parlamentar, combatendo qualquer um que cometa um ato violento. Assim, aproveitam para incutir-nos sutilmente outros conceitos, como o estado democrático de direito, em que não se admite a violência. Escondem que o seu estado democrático de direito está fundamentado precisamente sobre a violência. Condenam a violência de forma parcial, ocultando fatores que possam explicar a sua origem e procurando que ninguém se aprofunde na questão, repetindo o mesmo discurso impregnado de “paz social” para que aceitemos a superficialidade de suas palavras. Seu jogo vebal é o jogo de não dizer nada, de falar grandiloqüências que impressionem a quem escute. A palavra guerra tem um significado bem diferente da palavra terrorismo. A guerra é patrimônio exclusivo do Estado; os estados não cometem terrorismo. O terrorismo tem uma conotação muito mais negativa que a guerra. A palavra

terrorismo é muito mais sanguinária, dando-nos a impressão de que guerras são realizadas por pessoas de bem, enquanto o terrorismo é praticado por sociopatas bárbaros que se reconfortam na dor alheia. Diante dessas diferentes conotações com as quais nos precondicionam mentalmente, os governantes decidem quem faz guerra e quem comete terrorismo. Na linguagem da cínica democracia, o soldado que dispara contra um garoto indefeso está realizando a nobre arte da guerra, porém quem contemplou atônito o assassinato e se defende com uma pedra será catalogado como terrorista.Esta é a enganosa linguagem da democracia. O povo não deve se deixar enganar por estas palavras eloqüentes, porém não deve também rejeitá-las, e sim amá-las ainda mais. Todos devemos amar a tolerância, o respeito, a liberdade… e por isso não devemos deixar que elas sejam utilizadas por qualquer imbecil de qualquer maneira. Devemos pensar se realmente os que enchem a boca diariamente com tais palavras são dignos de fazeremno, questionando-nos se, de fato, não estão fazendo o contrário do que proclamam em seus discursos. E devemos, sobretudo, pensar o que podemos fazer para que a linguagem não continue sendo mercadoria barata na boca de marionetes do capital que sustentam um sistema que comete as maiores violações imagináveis ao que essas palavras representam.

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por Cirilo

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l. cordia as estre r ci r n e ê t r a apa extr s a m n u o d sé tas. os fian soas sensa ura eirelle n M s o o s d lt Cil ecem a pe ais. A m . Com seguro par e a d r s a p Re rto omun areca, tem ico po uns. C – o ún oupas com ncipiente. C s, os ar lado ha i Ele us riguin ensas pros r a pousa . b , na op vezes s gos à , media s um pouc s lâmpa nele e ; a r s h e l e t d e s r tri hos ito as o tanto os mu ntos estran m m e u r a s l olho ovime go. Fa lâmpa os fazem m idéias. E ta. s um re plane nas gros o a r t s t l o u o i o v b Os lá revira o são de súbita uas idéias os é batizad adão a d a c s h a id e l t fi C n s e e dam de seu o diretor d o m u decidi c a a i o s n t o ô Não à é men dor radiof feito a , ibuto r r r t l a e o n : W ls e ade Orson e ao célebr os, de HG realid d u e n q r u t e n m n e o s Ka a dos nico a nteira guerr as fro trou em pâ u de A o o d s s en ltrapa ta gente en smo s que u va me ui a t m s – e o ra e ficçã que a Ter r a t i d e acr

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Cildo servar bb o o su s. A ente, ciano r mar ogo suavem de leve o p a f id a invad r Bota to entabul ou do po n l n a a u u e t q i s en ce a pas ente, te con is jogados r m a a i e c r i rept sa sob par de tên o em uma d onver uma c lhar em um vez pensan ra já é r l o a t o T , e –a e tes perd os pos ão duvida d s o nos fi es você n restres. obra, ocasiõ er a s t r a a u r u t t d u x f re Em ou em da po rma. r brilh 70, o habita prio confi d a o 9 v O pró disco- a vez, em 1 do e um r a i d d e o n i m a i e r r o pass nas. “Na p ânico, a va ia t Um d eti im Bo ro Cristo. to d suas r r e j a b J mo a no u ava p v i d a v r o , t o m arde ei men – ach o da t parta meu a aindo, cinc Corcovado í a A as do fogo. eu tav o ali perto este gando s e a o p r n b g i lum Boein i isso”, lem m u ra eu v que e iu. Só . m u s undo a m anos cois o 1 6 d o e t ad carioc o unda,

nd eg “Na s os eu. Qua eresa, en aT viu, m a em Sant v mora

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um gava erói, e p , e d it de bonarar em N hando a i c s l de s e ia p café o rtão u m b i u n a ô que ca omav onde t paisagem sume. No erto e a aquel nenhum r idéias… P a postal so, anotav rgas, todo o r d percu esidente Va a apontan m da Pr o desce e fic toquei. Já e ista mundu. Nem me i pro motoralou pro cé i, pergunte quilo, ele f a Niterótinha sido i um disco o o que ole: ‘ah, f ta, para quemaaico os tis ri o ar algo tão pr iga – meio m ” ’ í a e c te e r n r voado e OVNIs pa pão com ma

ão d com apariç ma média u o t l quan o qua e sem gue acepip conse o ã n Cildo dia, e ar um ra ç e m o c eitu cuja f sobre e nsegu ongos ele co rl rer po discor os. minut om papo Um b sua o faz furad s s nde eirele o hora ara a. Gra alegri dor, Cildo M r por quatr is c sto rsa sa ma conve om o Impo ogo, “a coi Zero taf uc obras s a j papeo teliê, em Bo u m ele – c de ne ua em se mprei”, diz le não ven tão de co ar e ues o que já e Zero doll mundo. Q relaçã o o r d i om a e c o r i m e a h , cruz a nc in os bri à vend do o d por to : os trabalh , se postos ocorre cia s, e mo s coerên ores e coisa ico. O mes s frase l n a ô com a og?”, v c s i e a r r t d o n a l e va erz imb riam o s notas car m Matou H lítica perde e e r u p b ção o e “Q s céle ome” cuja conota artista com a H o 70, ees G este ntos “Yank dos anos 19 a a obra d d ovime o t m m , é o s b d o tam brean so a partid u som s acabo mente ave a t e l p , com ções. sticas e á omera l p s ou agl t e t

. Por s e t n e er as difringi meu . c i t á gram unca rest a política isso n ho à leiturprocurei l traba tivamente, a norma. Ail Instin har sob est al no Bras i l traba a tradicion ca me filie n polític ntável, nu tendi a e e é lam a. E sempr víduo em l i a nad giar o ind em futebo o e privil s obras. Sóa o convívi a minh u suportav e, torcedor dou a e u o é que o”, conta ele, qolescente cheogm o d c a o uando do jog otafog ,q e no B nense Flumi o Flamengo a. rn ca direit treina “Nun meia-

de ir gostei em a “Em artes plásticas, a fest , não cada relâmpago novo te grupo esas permite usar materiais, curto ms, e procedimentos, grand erações conteúdos e gramáticas agloemnte… de g sempre diferentes. a polític de o ã ç i s a cois ia, a po Minh arte dessa de confrar e foi à pto de corpo, ha, se serv o a l espírivimento. O gentil, apontanoidns e de mo í…”, oferecaecote de amenaids para p a mais de uísque, um, aperitivos fruangeiro. E

r vo “Em aâmpago no iais, ter rel cada te usar ma nteúdos e o permi imentos, c proced

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a a garraf o de banan no Rio de J longo h c do a a e ao c r um sola o onz n ã e r em e o s d – ba né? T aí , um sá utro cigarro r e c n , eo á câ eis meses acend ta. “D s i v e r t aro s ifícil, né?” da en e eu p d

é qu vezes Disciplina volto. isse S/A ZARm que Cildo fug A E E co a bela SORT tina fez a-se n

ro di – um sa per rsão à relles i e M A ave ade. Em ca o r os ancisc uld uncia da fac a do pai, Fr ogos a den rcante pol tec to ma a f , e t biblio eiros antró r no No im dos pr s indígenas cre massa

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01 l 20

Babe

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o Pará nos n a 0 1 da ou idente ca e mor s u e r q p , a ist , ex nun do art o, Apoena rime, c a r o b ; o 4 na Cild 200 s que ão, de gaçõe do em (o irm i assassina a as investi idas por , fo mov a par , Funai apont hacinas pro m Brasília , o d i c e c e r o e a d r escl a sob viven élix a fazi tarde, ano F u r e p Apoen ros). Mais a artista . os fez pei garim udou com o ente 19 an AM baiano t m s M o e s o n Cildo em um dual, a. Com neche ição indivi rte no Rio, Barre s ea po ira ex olas d prime or duas esc . o d estu up i es de Passo s e m pre fo e ensino e5 m d e l s a t o d t

isa mim “Pra da essa co ssoas pe ica ta, compl e. O que ascomo artis E t da ar m de você, não existe. e a esper a ser o que ocê não pod deveri ão existe v. ‘Artista n o que mentalizarnal’ é uma a. instruco profissio ermos”, afirtym, e, em plásti dição em tateliê em Paraora até controadesliza em uvma York, onde mdiano”, n i a No Um a mbapuintura em i ldo va r i C o , d 1 197 perío rabalha com o locos e seu “

uch os que t 1973, nos m do os troc , – em a c z i i a d m n s o i a j n m r s u o c n re ale ia com u o de bike, us e g , e o s d u u l r ve arte tar m agei es de mens eqüen como ios para fr boxe e film de sár as e neces mentários biótic te como o r c a u c m de gen ver do inhas mpad tas ao lado e r e fes ane. com to ar de Júlio Bress p i c impac i t par e um ca e v i e c t i t a i O a você n rasíli i B g Hélio e a t cen . “Im A nas a obra pneu u s m m e u l a i r c m ve essen bola e ino e

r en o ser m etros. Jogaou um lag e o r de 4 mgar que vi m um can ta ele um luo. Entrar e depois”, cvoon Rosa imensuilômetroCsildo, de Gustcaonflito sair oqdocumentáriuoma cidade etmais e céu

l no be a. Viver em monumen ur o édios M de tre pr n e a l a de esc

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o nsaçã nte se alas e n a a perm anhos e esc de e deu h l ubo tam e t (um c da), entre esen r l o p u g i S o n j o na do O tiana. m Cruzeiro r 200 m de de u p i l i l e po to arecer forma rcado vai ap de 9mm ce e ouro em nsparente, ira nel d s ra tra made (um a m safi as dos ano e o t , r o e p s r e o b t D o o , j u o ia) veis e cu de are ide, d dmirá pirâm único grão trotter – A s, de um love bola se vê ente G 91 (várias uma c e r a 9 r n , de 1 70, e tas po novos envol netas que s , o s d o n h mu m o pla aman ntes t semelhand or). Isso se de difere d , a ita de aço e pesc rre fe malha uma rede d e Babel, to diferente n ant ma caíram mpression nizado nu passeando i o t a n n i e t s o ve m falar o Cild dos em ada u ã c ç – a r s i usa nsp rádio nicos cuja i ô – r t o e l ã e estaç cas de ndres. ca que barra o s L a l , e d os físi a ver com p a n o e R m ito são, bello Porto utra dimen ldo tem mu a sorte. i o C com de Em a arte sua ligação trabalho , a c i s í te, de metaf – e es mesa ollar, trário lamourosa i ero D b Z r l a e o v g gios á a nad s reló estim i a n o i u d s o l e Em a pe ndo hora – agabu ldurad é emo alendário v do em uma 8 c ais 99 rra por um cada um e ados por m ses, anh chine acomp m a r se ambo

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r Dola Zero

-84

1978

relóg io refle s na ins t te se r im alação F coisa onte poss ív s“ s esqu , diz. “Umel não acre–d, este cario c De rina da V tempo itar em sorta pouco afe a e sua epente euoluntár trás eu , né. “Me aitco a religios mul i onte fale ios co tava cem dade h c

ome ma par er, p i pa ônib r um do esquisa ra a Ca Real G ado na r bem us, avan ce’. Dois dora de herine [Bandeza . a é o r onde a gça um si passos d rte], ‘va ompuis itua n e mom l da nte esta al e afuepois ch mos ali , e de a entos, q folha ca va!… O nda int ga um u l e que go, deix ando p ída. Em utro lan iramen ela c o cai recis d eterm ce cur te sei q ai as o r ios d u e in m u até e e é rarí sim de p a folha uma con ados o nem m lugarssimo, p é. Acont oficio. T firmaçã el e e o pens o ando nde ven a proba ceu vári m vezes PEL nisso ta… à bilida as vez O e aco s vez de. Já es, F Obse rvar IM D ntec es nã A BI o reco e.” o est rolou rren mundo E N ou te na de o AL na L utr v u a. Co

id o ntud a de que ponto d e vis m ti ooâ nh ta ngul o fav a 21 an também os ao orito é im p de C a ildo resencia gem não r é o d o hom em p os as is tron auta ar s u Mato Quem

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og

Herz

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Des v mel io pa r ho 196 a o 7-8 4

Ver

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...ele retira a arte conceitual de seu cabecismo atravĂŠs do humor...

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chael de Mi to os o m i s n rin, e enqua vistos e Ald nave, g m a n a n o r r e u t e co Arms que fi elo satélite o – s t seéo E “ Collin asseavam p . e d a sp manid colega a a hu d o t , e as a” dizi.ldo é um ETt.e t s i t por qu r C do a da ar pares lugasrmo entre seuse acompanhaatmo de bulas u t Me ório q ecessi as ou palavr bras que n e enciad l r e e u p o x á Aq e h , s . Ao ndida itual – diana u conce m compree na arte cil e se ere vez itual d omo e c n para s – não tem o c obra c as a arte sentid , ele retira umor. Uma rcular ci rio oh contrá o através d : uma torre s tipos, a m v d i s t i a i c a ar o lic cabe toexp mais v iversa. u s a o é d l d os Babe r rádi ma estação migo o da po u a a m m m r e u o f obras mo ado g o i c l a criava t m , n u a o i a c e d d e a l c a ca ?E lo me i es, né ntar que, n u l q p m A i S co foro. “ eu ao arte a de fós s e a comov x u i q a c o de mocrática , e com de art e mpag

m 09 e e is. de 20 a t Par s e e g n sbur eza ( e n n e al, n V a acion is de , Joh Biena ês), Sidney esso intern o do ã tr suc xposiç outras om todo o teve e s raras o c ã o n Mesm saber que ma da do, ao il. Nu s eia t a r a raria h B c o e no a cont (em 2008, t r r t o s p o o m Vazio mesm em que se dar nal do s e e i õ B i um an s o a t u n o oc x u i s e o s ar o a enal d cabar com abord ação da Bi a e r e g z su ni a orga esabitado), d o r . i o an inte u umativa. o aulist p m i o l t e i mod istra io leg

l z in “O vatência adm do a Biena pe ixa incom elhor ter de . Numa Era m nco mesmo ilhões de ão em bra como 20 m ão Paulo, n l e cidad ntes como Suma Biena habitantido fazer durante tem se40 artistas ito mais com 2 s. Seria mus mesmos e 2 mes tivo pegar o osições produ azer 10 exp anos. Isso , f 240 e ês durante 2 a artística o n por m izaria a ce rodutiva pr . dinamia a coisa p workshops a tornarnte, haveri aria o a estud e transform a, usando t A gen em program nal, e o e i B a is d relâ éia!” evento o espaço d , integrand deu o tual é a mater uma idildo l o mesma da Biena m, mas i eC e a d c t s s n o g o a a c rio mentá até forunidade. Boéia a gente rtes. B s relâmp das abem-humoradtoa. Após o docãuo de gala com m essa id veria a a Os ess ane l s p a , o o h n o ng vez co ente dissol anto fecha o l anhad ura, que ga ximo domi ita” a t têm g o r c ró le M sm nqu este p voz es sa de imple ”, ri Cildo, çeão de chaves.eEvagar s de Ro al do Rio n rgem em “ as por d su la l… ad stiv idéias tas organiz e, na no Fe Biena uma conste ai andando ro as

tub evis ugu em ou vro de entr ditora Azo ildo i e l a 9 m ra 00 C em u ino pa início de 2 anhar v o c S Felipe ontros. No rasileiro a g ndres. nc ab em Lo série E eiro artist dern, o m M i r e obras s foi o p tiva na Tat es de suas el, na c t r e p e Kass sapo d s a a retros t p n s e bou o ocum Carim ntais na D e m monu

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s do com táxi e spian ateliê ter no atherine, e surge r ó p e r s lher C põe o que re s. da mu brilhante o ste d o a p l ao céu s de o o … fi e t e n s e e tutino vagam vens, árvor ue ma ar a q s í u u h o n camin feito d entre osse e ece mesmo f z e v Tal par artista chão. mas o tímetro do cen meio

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Estamos nos armando para a próxima edição. Mande seus textos, fotos, ilustrações, ideias e participe.

revistatanque@peefe.com.br Editora Gonzo – Rua Itararé 115. Baixo Augusta. São Paulo / CEP 01308-030

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foto de Caio Vidas Boas, vencedor do PrĂŞmio Gonzo de 2010

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por Silvio Caccia Bava e Luiz Eduardo Soares

A POLÍTICA DO

EXTERMÍNIO

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>> >> Os “Coronéis Barbonos” estão > à frente de um movimento de >>>> renovação da polícia. Eles são >> coronéis da Polícia Militar do >> RJ e estão indignados com o que >> se passa na Corporação. Eles >>> denunciam que a PM “(...) leva às > comunidades carentes o terror de >>>> uma política de segurança sem os >> requisitos mínimos de inteligência, > alicerçada unicamente no belicismo >> descabido, (...) impondo às demais >>> camadas da sociedade o medo, a > desconfiança e o luto pelos muitos >>>> filhos sacrificados em razão do >> despreparo e da pressão funcional >> e emocional a que são submetidos >> os profissionais de segurança”. >>> > >>> 11/29/10 3:04 PM


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Impor o medo, impor a desconfiança

>>> na sociedade, impor o terror aos >

mais pobres. Esse tem sido o papel

>>

Militar. Uma corporação desse

mal remunerada, sem equipamento,

vertical, não mata 1.330 pessoas em

confronto, induzida à corrupção. A

>>>> da polícia, especialmente da Polícia tipo, com estrutura hierárquica e

>>> 2007 no Rio de Janeiro, de 3 a 4 >

pessoas por dia, sem a concordância

>>>> de seu comando. >> >>

Talvez seja mais preciso dizer

que essas mortes ocorrem por ordem

de seu comando. O Governo do Estado

Uma polícia desprestigiada,

sem preparo, orientada para o

responsabilidade por este estado de

coisas não é da polícia. E é preciso reconhecer e valorizar os policiais que protegem e respeitam a vida e a dignidade humana.

A responsabilidade é dos governos

e o Comando da Polícia Militar

dos estados que, quando não apoiam,

>>>> guerra urbana. Trata-se de uma

de confronto. É do governo federal,

>> >

>> >> >>

>>> >

estão lançando os militares numa política de extermínio. A política

>

>>

que aceita e faz vistas grossas para

de extermínio traz uma concepção de uma realidade absurda: em 2006 foram assassinadas 35 mil pessoas no Brasil. limpeza social. Eliminando-se os “bandidos”

Ainda não superamos todas as

promove-se o bem para a comunidade. heranças da ditadura. A falta de controle republicano e democrático

>>>> Ela é a expressão de um projeto >>

nada fazem para inibir essa política

político de grupos que se

sobre a Polícia Militar, sua

selecionar camadas da sociedade

de seus integrantes poderem ser

arrogam o direito e o poder de

>>> a ser eliminadas, expulsas ou

impunidade, é uma delas. O fato julgados apenas por seus pares, pela Justiça Militar, tem lhes

>

circunscritas. A política de

>>

sumárias por parte da polícia, está Hannah Arendt fala que as forças policiais totalitárias nunca tiveram presente, em maior ou menor grau,

>>>> confronto, que promove execuções >> >>

em todos os estados da Federação.

por tarefa descobrir crimes, mas

se concentram as camadas pobres

categorias indesejáveis.

>>> Mas só em certos territórios onde >

>>> da população. >> >> >>

assegurado licença para matar.

Há momentos em que essa política

assume todos os seus contornos com

extrema nitidez. E São Paulo ilustra

>>> essa política de extermínio. Foi

estar à disposição para eliminar as É este pensamento totalitário,

compartilhado por segmentos da

sociedade, que legitima um a política de extermínio. Faz parte do processo de democratização em curso a disputa

>>

assim em 2006, quando o PCC desafiou a por uma nova concepção de cidadania e de segurança pública. polícia paulista. Em uma semana, de

>>

de Medicina identificou 493 corpos de

>

>> >> >>

12 a 20 de maio, o Conselho Regional pessoas assassinadas à bala.

É preciso formular uma nova

política de segurança pública e darlhe novo arcabouço institucional,

>

>>>>

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desse o ã ç a r o p cor ura o, com esatreutve pa im tU rtical, hierárquic não mata 1.330 pessoas por ano, sem ua comando. concordância de se foto d Vandr e Gerald o é, de 2002

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>>

>>> >

>>>> >>

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>>>> >> >> >> >

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>>> >

>>>> >> >

>>

Eles não ace itam perder e o dadeo qu grau de autori s com a ssuem, beminerentes povantagens às suas patentes

>>>

on, Hest 3 ton 0 s 0 l 2 o de T o de foto êmio Ess r do P

>

>>>> >> >> >>

>>> >

>>> >> >> >>

>>> >

>> >> >> >> >> >

uma nova forma de organização que

patentes militares.

permita uma ação integrada e cidadã

Congresso, pelo senador Tasso

facilite superar resistências e

das forças de segurança pública.

A tentativa de unificação começou

ainda no regime militar, nos anos 1970, quando Petrônio Portela

ocupava o Ministério da Justiça. Mas todas as vezes que se pensou

em unificação das polícias civil e militar, se esbarrou na pressão

de representantes de classes, de oficiais militares e delegados,

no interesse corporativista dos

oficiais. Eles não aceitam perder o >>>> grau de autoridade que possuem, bem >> como as vantagens inerentes às suas >>

edor

venc

Em 2005 foi apresentada ao

Jereissati, uma proposta de emenda constitucional – a PEC 21/05 –

que prevê a transferência, para o

governo dos estados, da decisão de criar ou reformular suas polícias. Uma de suas propostas é fundir os efetivos das duas polícias,

a civil e a militar, criando uma única nova corporação. E dotá-la

constitucionalmente de recursos para a implementação de suas políticas. Em março de 2007, quando da

discussão da PEC 21/05 na Comissão

de Constituição e Justiça do Senado,

>>> >>> >>>

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>>

oficiais ligados à Associação dos

>

Brasil (AmeBrasil), à Federação

<<<

Oficiais Militares Estaduais do

>>>> Nacional de Entidades de Oficiais >>

Militares Estaduais (Feneme) e ao

>>>

Gerais das Polícias Militares e

>> >>

>>> > >

>>> >> >

>>> >

Conselho Nacional dos Comandantes Corpos de Bombeiros Militares (CNCG) manifestaram-se contra a desconstitucionalização das

polícias e a favor da posição do relator da matéria, Romeu Tuma. A pressão dos oficiais militares surtiu efeito e, em 28/03/2007,

em reunião ordinária da Comissão de Constituição e Justiça, a

matéria foi retirada de pauta. Mas, se os oficiais se

>>>> manifestam contra, existe grande

r

cedo

>>

simpatia pela proposta no “baixo

>>

De acordo com o presidente

>> >

clero” da Polícia Militar.

da Associação dos Militares Auxiliares e Especialistas

>>>> (Amae), tenente Melquisedec >>

Nascimento, mais de 90% dos

>>

subtenentes, tenentes e capitães

>> >>> >

soldados, cabos, sargentos, PM do país são favoráveis a

mudanças profundas na estrutura e

foto de Jack Deputie, vencedor do Prêmio Gonzo de 1998

>>>> concepção do papel da polícia. >>

O confronto recente, em frente ao Palácio

>

do Governo do Estado de São Paulo, entre

>>>

uma vez a necessidade de uma nova organização

>> >

policiais civis e militares, evidenciou mais das forças de segurança pública e trouxe de

>>>> volta a proposta de junção da Polícia Civil e >>

Polícia Militar.

>>

controle democrático e na desmilitarização

>

capacitadas, as forças de segurança

>> >>> >>> >> >>

A PEC 21/05, se aprovada, traz avanços no

da polícia. Melhor aparelhadas, mais

pública estarão em melhores condições para implementar uma política.

>>

>>>

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>>

>>>

≠≠≠EXECUÇÕES SUMÁRIAS≠

>>

teria sido morta por haver colocado em

>>

em estrito cumprimento de suas obrigações

<<

que morreram em situações descritas como

>

Quase todas essas mortes foram registradas >>>> como “autos de resistência”, ou seja, como >> situações em que a vítima da ação policial >>> risco a vida dos policiais ou de terceiros. << Por isso, “autos de resistência” referem>> se a casos em que policiais teriam agido >>> constitucionais – em legítima defesa ou para >>< proteger a vida de terceiros. Mas pesquisas >> apontam que, apenas em 2003, das 1.195 pessoas >> >

“autos de resistência”, 65% apresentavam

sinais insofismáveis de execução. A Justiça >>>> acata, acriticamente, a postura resignada – e, >> nesse sentido, lamentavelmente, cúmplice – do >> >>

Ministério Público, das autoridades policiais,

da segurança pública e do poder executivo. A >>> cadeia de omissões estende-se, indiretamente, > à sociedade civil, que aceita, apática, essa >>>> realidade inominável. >> A orientação equivocada de uma política > do “confronto” aumenta o risco a que são >>

submetidos os próprios policiais. No

>>> mesmo período, morreram no Rio de Janeiro > 194 policiais em serviço, 27 civis e 167

>>>> militares. Na maioria dos estados, a >> despeito de uma escala menor, a natureza do >> problema é a mesma. >>

A Polícia Militar e a Polícia Civil não >>> cooperam entre si, não têm bases de dados > comuns, não são geridas de forma integrada. >>> Os cursos de formação são distintos e têm >>

valores divergentes. A autoimagem de cada

>>

da rivalidade, e suas respectivas identidades

>>

corporação se forma na experiência cotidiana

>>> são, intrinsecamente, antagônicas. > A PM é uma instituição organizada com fins >> bélicos. Por isso, seu objetivo é tornar>>

se apta ao pronto emprego dessa força,

>>

execução do comando. Daí a hierarquia vertical

>> >>

baseada na cega obediência e na velocidade na

foto de Digo Menezes, vencedor do Prêmio Gonzo de 2008

>

>>>>

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tuição i t s n i a m u A PM é organizada com fins bélicos. Por isso, seuobjetivo é tornar-se apta ao pronto emprego dessa força, baseada na cega obediência e na velocidade na execuçãocomando. do Daí a hierarquia vertical

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>><<<<<>>>>>>>>>>>>>>>>><<<<<<<<<>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> e a ausência de autonomia na ponta

operacional. Com exceção das situações em que são necessários grupos de combate, a PM não foi desenhada, enquanto estrutura

organizacional, para a segurança pública, cujos desafios complexos exigem exatamente o contrário: flexibilidade decisória

e descentralização, com supervisão e

integração modular, ágil e adaptativa,

além de uma gestão por processo. Só assim seria possível a aplicação de métodos

modernos, como o policiamento orientado para a resolução de problemas ou o

polissêmico policiamento comunitário. A Polícia Civil, por sua vez, é

um arquipélago de baronatos feudais (distritais). Segundo dados oficiais

de dezembro de 2006, apenas 1,5% dos

homicídios dolosos no estado do Rio de Janeiro foi investigado com êxito pela instituição. No restante do Brasil,

a taxa varia, mas em geral não atinge níveis aceitáveis.

A perícia e todo seu universo técnico,

que deveria ser o futuro da polícia investigativa, hiberna esquecida e

abandonada, salvo raras exceções. No

Rio, há mais de 114 mil solicitações de laudos periciais não atendidas.

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foto de Mister Mistura ,vencedor do Prêmio Gonzo de 2008

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≠≠EM DEFESA DA VIDA≠≠≠ As polícias brasileiras são

reativas, inerciais, avessas à

avaliação e ao controle externo,

além de não disporem de mecanismos institucionais que tornem

possível sua gestão racional. Some-se a tudo isso a cultura das corporações, tantas vezes

desfavorável aos direitos humanos. O que pode ser mudado pelos

governadores, pelos secretários de segurança pública e pelos

chefes de polícia? Pouco. Eles conseguem, no máximo, reduzir os danos provocados pelo

formato institucional desenhado na Constituição, por meio de mecanismos que compensem a

tendência fragmentária, investindo na qualificação profissional e no

controle externo e intervindo nas culturas corporativas para tentar neutralizar os valores contrários aos que seriam compatíveis

com o ambiente de legalidade e racionalidade administrativa.

A afirmação de uma política que

foto de Paulo Pai, 2010

fotos de Tolston Heston, vencedor do Prêmio Esso de 1994

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anto Mesmo enqude ,ra al gu permanecer brsi i e l i s a e a sociedad poderá ser menos cruel e violenta – o que facilitará a mobilização para o aprofundamento da democracia. foto de Willie Newson,vencedor do Prêmio Gonzo de 2015

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>>

>>> >

para mantê-la. Mas aqueles que

>>>>

quisessem modificá-la poderiam

fazê-lo, respeitando, sempre, os

direitos trabalhistas dos policiais e as normas infraconstitucionais1.

>>>

maior importância para a vigência

>>>>

As polícias são instituições da

priorize a defesa da vida é

absolutamente fundamental, ainda que insuficiente. Se o esforço dos gestores surtir algum

efeito, isso ocorrerá apesar das estruturas organizacionais que

herdamos da ditadura, e não por causa delas ou com sua ajuda. Dessa forma, postulo a

alteração da Constituição

Federal para que os estados

sejam autorizados a promover

mudanças profundas na estrutura organizacional das polícias (a “desconstitucionalização das

polícias”), credenciando-se para

manter o status quo institucional delas ou para unificá-las.”). Ou,

ainda, para criar novas polícias, que poderiam ser, por exemplo,

municipais em cidades acima de 1 milhão de habitantes. No quadro

dessa mudança seria necessária uma legislação infraconstitucional, com as exigências mínimas que

todas as novas polícias deveriam atender nas áreas de formação, informação, gestão, controle

externo, articulação intersetorial e perícia – chamo esse conjunto normativo de Sistema Único de Segurança Pública.

Em síntese, o estado que

estivesse satisfeito com a

situação atual teria liberdade

>>

do Estado democrático de direito. Em benefício dos bons policiais e da população – sobretudo dos mais pobres, vítimas predominantes da violência institucionalizada –,

seria necessário que as lideranças políticas celebrassem um pacto suprapartidário pela mudança

>

>> >> >> >

>>>> >> >>

profunda na segurança pública3,

>>

começando pelas polícias. Só assim

>>>

acesso à Justiça e se completaria

>>>>

se reduziria a desigualdade no

o ciclo da transição democrática, processo no qual a questão

policial foi esquecida. A mudança da estrutura organizacional,

acompanhada da instauração do

SUSP, não será suficiente – nem por isso deixa de ser indispensável. Transformações nas políticas de

segurança e na cultura profissional

>

>> >

>>

>>> >

>>>> >> >> >>

serão decisivas, assim como a

>>>

controle externo. Alterações na

>>>

e políticas preventivas também

>>

participação da sociedade e o

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Justiça e no sistema penitenciário, serão fundamentais. Assim como

>> >>

a redução das desigualdades.

>>>

a insuficiência de cada passo

>>

enquanto permanecer desigual, a

>>

Contudo, não permitamos que

continue nos paralisando. Mesmo sociedade brasileira poderá ser menos cruel e violenta – o que

facilitará a mobilização para o aprofundamento da democracia.

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>> >> >> >

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Por Bolívar Lamounier Sobre o Tiririca propriamente dito eu vou escrever alguma coisa noutra oportunidade. Este post é sobre o Cacareco. Acredito que muitos eleitores não sabem ou não se lembram a quê essa expressão se refere, e por isso lerão com interesse a matéria abaixo , assinada pelo jornalista Neil Ferreira. Saiu na revista O Cruzeiro de 24 de outubro de 1959 , com o título “Cacareco agora é excelência”. Cacareco, um pacato rinoceronte, virou candidato de um bairro paulista que cresceu demais: Osasco. A história de uma autonomia (negada) e as 100.000 células para vereador. Dos 540 candidatos que “ofereceram suas vidas em holocausto ao bem-estar público” concorrendo às 45 cadeiras da Câmara Munipal de São Paulo, sòmente um – Cacareco – conseguiu empolgar, de maneira espetacularmente inédita o eleitorado paulistano. Sem prometer nada (êle não pode prometer: não sabe nem falar), sem partido politíco definido – sua legenda poderia ser objeto de confusões: PC (Partido Cacareco) e alguém ainda acabaria sem visto de saída para países da banda de cá do mundo – enfim, com sua candidatura lançada sòmente alguns dias antes do pleito, sua eleição está garantida. A soma de seus votos é um recorde nas eleições municipais de São Paulo, pois Cacareco, sozinho, totaliza muito mais do que a legenda mais poderosa. A média do seu eleitorado mantém-se firme, com 20 a 30 votos por urna, em todos os bairros, do mais pobre ao mais rico. Aliás, o fenômeno político encarnado por Cacareco é algo que somente poderia ser explicado por algum sujeito muito entendido em dialética: sua candidatura ganhou corpo no seio da massa, de maneira espontânea,

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conquistou o restinho da classe média que ainda não morreu de fome e atingiu as mais altas camadas da burguesia. Ainda assim, tudo foi tentado contra êle: as “forças ocultas que tentam combater as correntes populares” investiram, pelos jornais, rádios e TV, numa campanha ruidosa, com o objetivo precípuo de evitar o ingresso do “elemento perigoso ao regime” na versão paulista da Gaiola de Ouro. à sua candidatura, no jornal mais Tal campanha ficou sem resposta. Cacareco conservador da capital paulista. não tinha acesso às fontes de divulgação. Em Depois Cacareco se zangou quando compensação, êle também não se aborreceu: continuou sua vidinha de “playboy” pobre (o tal que foi intentada (e conseguida) uma não joga damas de nenhum andar, mas come e dorme solução extralegal e antidemocrática para sua candidatura: a altura dos e não faz nada). acontecimentos em que eleitor do O seu comitê eleitoral continuou funcionando Cacareco se portava como torcedor no Jardim Zoológico de São Paulo, e Cacareco do Santos F. C. – peito estufado e ar sòmente se desnorteou quando um dos seus mais de “já ganhou” – as “forças ocultas” ferrenhos oponentes dedicou todo um editorial conseguiram que o candidato popular fôsse “exilado”, dois dias antes da eleição, para o Rio de Janeiro. O “golpe” consumou-se na calada da noite, mas a coisa não foi tão calada assim: sem mais aquela, enfiaramno num caminhão. Aí, sim, êle se danou. Ficou perigoso. Não só para o regime, mas (e principalmente) para quem estava por perto. Mas o “Povo” e as “Classes Oprimidas” foram em prol da emancipação de Osasco. Com a proximidade das eleições paulistas, já subiam a 300 magnificamente à forra e concederam, aproximadamente, cem mil votos a os candidatos do famoso bairro. favor de Cacareco. Acontece que o Supremo Tribunal repudiou Êsse movimento orginal surgiu, agora as pretensões dos cidadãos de Osasco. Daí a reação original: 100 mil cédulas foram impressas se sabe, num bairro dos mais populosos e tôdas com o nome do popular “Cacareco”, como de S. Paulo: Osasco. Êsse bairro crescera e desejava agora a sua autonomia. Um candidato. Afirma-se agora que o movimento típico caso de gigantismo. da gente de Osasco atingiu outras ruas e outros Houve um legítimo movimento bairros. Virou candidatura nacional. Com isso, Cacareco virou “excelência”. Pode ser que êle não chegue a tomar posse, mas se transformou no vereador que mais come (sem aspas) no mundo. E quando Cacareco voltar do “exílio”, o PC (Partico do Cacareco, repetimos) “terá reservada para êle não uma simples vereança, mas uma cadeira de deputado”.

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O MAGO QUÍMICO E O MDMA

PorHamilton Morris

por Hamilton Morris

Apesar do nome de Alexander Shulgin não ser exatamente familiar, ele é sem dúvida o químico psicodélico mais importante que já existiu. Aqueles que o conhecem costumam saber apenas sobre o seu papel na redescoberta e popularização do MDMA. Mas o MDMA é apenas um dos mais de cem compostos químicos que compõem

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a farmacopeia de Shulgin que se entende tão profundamente no desconhecido que ele precisa constantemente inventar novas expressões para descrever os seus efeitos (“ruptura ocular” é uma de minhas preferidas). As drogas são auditivos seletivos e alucinógenos táteis, psicodélicos que dilatam o tempo ou colocam o usuário

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em um estado de confusão amnésica, são não tinha sido identificada, e o New York antidepressivos, afrodisíacos, estimulantes, Times alternava as informações ora dizendo empatógenos, entactógenos, neurotoxinas que se tratava de um gás tóxico militar e pelo menos um inseticida bem lucrativo secreto, ora que se tratava do “caviar de bem lucrativo. Também são alguns dos drogas psicodélicas”. Acabaram descobrindo remédios mais valiosos que o homem conhece que o DOM era resultado das pesquisas e, apesar de apenas uma pequena parte farmacêuticas conduzidas por um então deles ter sido formalmente estudado, são as desconhecido químico da Dow. Como era de melhores ferramentas de que dispomos para se esperar, a Dow não ficou contente com isso. compreender a composição química humana. Assim que a fonte foi identificada, as relações A carreira e Shulgin começou na empresa entre Shulgin e a Dow foram cortadas. Dow Chemical, onde ele fez nome ao sintetizar o Zectran, o primeiro inseticida biodegradável. Livre da Dow, Shulgin montou seu Depois desse sucesso, ele recebeu carta branca próprio laboratório no quintal de casa l para trabalhar com os químicos que quisesse. e passou a pesquisar drogas com tota que de ncia Ele escolheu os psicodélicos e se dedicou à independência e com a consciê am tinh va cria criação de uma anfetamina chamada DOM, as substâncias químicas que pelo de te que na época só ficava atrás do LSD em termos o potencial de ir parar na men testava de potência. Uma única dose generosa chega menos um milhão de pessoas. Ele e, quando o post a durar 48 horas. Em 1967, um químico do pessoalmente cada novo com esposa sua em Brooklyn, Nick Sand, percebeu o potencial achava válido, também testava cial espe se comercial da droga. Ele construiu um e amigos, sempre dando ênfa licos laboratório industrial em São Francisco onde às propriedades sexuais dos psicodé ). Ao ico” erót cozinhava DOM em um panelão de sopa de (ou, como diz o próprio, “o mais o u clui 150 litros, e vendia por quilo para os Hells longo de 50 anos, Shulgin con licas odé psic ras Angels, que cruzavam os EUA despejavam exaustivo exame de estrutu as drog de e lequ dezenas de milhares de tabletes de 20 mg de jamais feito e produziu um tas mui de o DOM extremamente potentes sobre o público. que rivalizava com a produçã todo Esse influxo despirocou hordas de hippies no gigantes farmacêuticas. O tempo rismo, lhei Golden Gate Park. preservou sua sanidade e cava ersidade univ na Enquanto isso, a menos de uma quadra tocando viola, dando aulas no elite Tompkins Square Park, a polícia de Nova e comparecendo a saraus de York derrubou a porta de uma igreja Bohemian Grove. psicodélica chamada Igreja da Exaltação Mística em uma batida Alexander “Sasha” Shulgin é um farmacologista, matutina. A polícia aprendeu cerca químico e pesquisador de drogas russo-estadunidense. de oito milhões de dólares em drogas Shulgin popularizou o MDMA no final dos anos psicodélicas, incluindo 1.500 doses 70 e início dos anos 80, especialmente pelos de DOM, dois pés de maconha e seus usos psicofarmacêuticos e tratamento de “inúmeros colchões”. Notícias de depressão e desordem depressiva pós-traumática. uma epidemia de surtos induzidos Shulgin descobriu e sintetizou também mais de 230 pelo DOM enchiam os jornais, um componentes psicoativos. Em 1991 e 1997, ele e sua usuário em Mahnhattan ingeriu esposa Ann Shulgin escreveram os livros PiHKAL uma dose e realizou um ritual de (Phenethylamines I Have Known and Loved) e TiHKAL haraquiri, estripando a si mesmo com (Tryptamines I Have Known and Loved), ambos sobre uma espada de samurai no Dia das substâncias psicoativas. Atualmente continua seu Mães. A essa altura, a droga ainda trabalho em sua casa em Lafayette, Califórnia.

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A NI IA ST CHRI O PARAÍSO PERDIDO Por Pablo Miyazawa e Thiago Guimarães

NO CENTRO DE COPENHAGUE, CHRISTIANIA É A COMUNIDADE ALTERNATIVA MAIS CONHECIDA DO MUNDO - E CORRE RISCO DE SER ENGOLIDA

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Bicicletas são o meio de transporte principal para moradores e turistas, como Edgardo MartolioCaminhar do centro de Copenhague, na Dinamarca, na direção de Christiania, é ter a sensação de estar seguindo para o lugar errado. A incerteza vem na forma de um vento gélido que agride impiedosamente quem percorre a longa ponte Knippelsbro sobre as águas do mar Báltico, e na escassez de pedestres e estabelecimentos comerciais, que desaparecem a olhos vistos. A imagem da torre dourada em espiral da igreja Vor Frelsers Kirke sinaliza a aproximação de um mundo à parte. Diferente da Berlim até 1989, a Rua Prinsessegade - fronteira entre a capital da Dinamarca e a mais célebre comunidade hippie do mundo - não traz nenhuma placa advertindo sobre a chegada de um território hostil. Os limites de Christiania deveriam começar onde Copenhague termina, mas hoje já é quase impossível distinguir o início de seu fim. Christiania - ou “Freetown” (cidade livre), como é chamada por seus moradores - comemorou 35 anos de sua existência em setembro de 2006. Fundada no auge do movimento flower power em uma antiga área militar abandonada no bairro de Christianshavn, tinha como objetivo ser “uma sociedade alternativa livre, baseada na convivência com o próximo e com a natureza”. Grupos de dezenas de dinamarqueses invadiram o terreno de 340 mil m2 pela primeira vez em 1969. O derradeiro movimento ocorreu em setembro de 1971, após o jornal alternativo Hovedbladet publicar

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em sua primeira página um artigo conclamando leitores a “ocupar em definitivo a área proibida” e a “construir uma nova sociedade do zero”. O espaço extenso demais e a enorme quantidade de invasores impediram que polícia e governo conseguissem intervir em tempo. Nascia o mais famoso caso de “experimento social” de que se tem notícia. Autodenominada “o pulmão verde de Copenhague”, graças à vasta área de vegetação virgem que abraça seus domínios, Christiania é o lar de aproximadamente 900 pessoas que vivem sob um grupo de leis distintas do restante da Dinamarca. O modelo de autogestão praticado por seus moradores é a “democracia do consenso”, no qual as decisões essenciais surgem da concordância de todos os participantes de uma assembléia. Não há hierarquias: os christianistas participam ativamente da implantação do que é decidido coletivamente e resolvem em comunhão o

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destino do orçamento anual de quase 18 milhões de coroas dinamarquesas (aproximadamente R$ 6,7 milhões), obtido com a contribuição mensal dos moradores e os rendimentos dos negócios locais. Esta “caixinha” comunitária dá conta das despesas com eletricidade, água, esgoto, taxas municipais e ainda um conjunto de serviços que serve somente aos moradores de Christiania, como correio, creches, oficinas, asilos e um moderno sistema de coleta e reciclagem de lixo. Na prática, um terço dos moradores adultos tem emprego e ganha seu próprio dinheiro, enquanto

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um terço é sustentado pelo poder público e o restante, aqui incluindo os traficantes, não possui nenhum rendimento oficial. Ninguém é dono da habitação em que vive. Carros são proibidos de circular, apesar de muitos moradores possuírem automóveis (ironicamente, o índice de carros a cada mil habitantes é mais alto em Christiania - 190 por grupo de mil habitantes - do que na própria Copenhague - 182 por mil). Em 1997, a cidade criou sua moeda própria, o Løn, usada somente em transações locais. Entre os atuais moradores, há artistas, músicos, escritores, cientistas, filósofos, jornalistas

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e comerciantes. “Devido ao modo como a imprensa diária nos trata, há muita gente que não entende o que Christiania significa”, reclama o alemão Karsten Schubmann, morador do local desde 1978 e um dos poucos a ter seu próprio site, www.karsten-s.dk. “Infelizmente, muitos moradores atuais não têm a ver com os ideiais e as perspectivas de quando a comunidade foi criada. Pessoas são estranhas: com o tempo, só querem saber de seu próprio

CULTURALMENTE,

A CIDADE É UM

ORGANISMO PULSANTE.

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conforto. Se puséssemos mais ênfase nas condições para se viver aqui, teríamos mais gente se identicando com nossos princípios socialistas”. O tempo em christiania parece não andar, apesar da quase inexistência dos tradicionais estereótipos hippies. A “cidade livre” é uma desequilibrada mistura de vida campestre e metropolitana. Localizada em meio a prédios de apartamentos e uma área comercial silenciosa e escassa, ela poderia ser facilmente ignorada por quem não a procura. A entrada principal mantém um portal onde se lê o nome do lugar esculpido em letras de forma douradas entre dois totens trabalhados em madeira. Nos demais acessos, nem uma indicação sequer. Asfalto e calçadas deixam a desejar. O chão de terra, entremeado de poças de água, dependendo da época do ano, praticamente demarca o território livre. Indica até onde vão os cidadãos dinamarqueses e a partir de onde se sentem em casa os cidadãos do mundo. O que parece descaso não pode ser consertado, porque faz parte da paisagem toda particular de um verdadeiro parque temático que recebe mais de um milhão de visitantes por ano. As opções para o turista têm se diversificado e Christiania tem sido mais do que simplesmente um cenário bucólico de uma “Hippielândia” ou mesmo uma “Hemplândia”. Barracas e improviso são coisas do passado.

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Pequenas casas de argamassa e cimento espalham-se em meio à área verde, divididas por muros coloridos dispostos de maneira pouco lógica. A inexistência de placas indicativas torna o ato de se perder simples, mesmo com um mapa em mãos. Sem circulação de carros nem iluminação pública, as ruas permanecem na mais completa escuridão durante a noite, tendo apenas as luzes dos estabelecimentos comerciais como referências. Da rua principal, sugestivamente denominada Pusher Street - ou Rua dos Traficantes -, enxerga-se a estátua do Cristo Redentor, o mar e, se bobear, a Garota de Ipanema, tudo pintado em um mural. É próximo a esse Rio de Janeiro escandinavo que fica o ponto de venda de maconha e haxixe, as drogas “oficiais” de Christiania. De lá também se avistam bares e barracas de artesanato. As camisetas têm dizeres libertários - Che Guevara, óbvio, marca presença. Acessórios para o consumo de maconha são vendidos com discrição. O comércio de drogas é ainda mais recatado, longe da vista alheia. Um galpão além oferece itens para quem quiser levar um pedaço de Christiania para casa: livretos que explicam a comunidade desde os primórdios, camisetas com a inscrição “Save Christiania” e adesivos com a bandeira nãooficial - três círculos amarelos sobre fundo vermelho. As mercadorias também são vendidas no portal online christiania.org, atualizado pelos próprios christianistas.

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A melhor opção de comida barata para o viajante sem dinheiro são as pizzas vendidas em um trailer estacionado ao fundo do camelódromo. O italiano de gestos abruptos e voz alta vende pedaços quadrados de pizzas bem recheadas a 20 coroas dinamarquesas (R$ 7,50), regados a muitos gestos e pouco azeite. Ele vende a iguaria com perguntas, um pouco de desconfiança e indica à reportagem um brasileiro que também mora por ali. Aparentando 45 anos, boné escondendo a calvície, o gaúcho Abel trabalha como uma espécie de zelador de Christiania. É o responsável por montar e desmontar as barracas, além de ajudar os ambulantes a tomar conta das mercadorias e quebrar galhos em geral. Enquanto isso, junta dinheiro suficiente para viver melhor em Copenhague do que no interior do Rio Grande do Sul, onde mora a família. Passa o dia na praça, assim como tantos outros imigrantes que fazem do camelódromo de Christiania uma verdadeira festa das nações. Cada dono de tenda tem uma origem diferente. A banca do africano fica a poucos metros da pizzaria do italiano. O argentino fica em um lugar privilegiado bem na entrada da feira, vendendo bijuterias. Havia

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um uruguaio, que se foi: voltou ao país depois que sua mulher dinamarquesa resolveu trocá-lo por outra. De vergonha, largou a vida simples em Christiania para nunca mais pisar lá. No mosaico das culturas, atritos também afloram. Histórias de estranhamentos entre vendedores existem aos montes. Há aqueles que mal falam com os demais, os de temperamento imprevisível e até mesmo os com comportamento anti-social. Abel, brasileiro que é, transita bem por quase todos os círculos. Ele abre o cadeado da velha porta de madeira de um galpão e mostra os bens que acumulou em sua permanência na comunidade: computadores, eletrodomésticos e utensílios diversos. “Os dinamarqueses jogam muita coisa nova fora, é só andar por aí e achar”, conta. “Já tentei até doar uma parte para o Brasil, mas é complicado. Vai ficando tudo por aqui mesmo.” Culturalmente, a cidade é um organismo pulsante. Atuações nas áreas teatral, musical e nas artes plásticas são freqüentes, assim como atividades políticas de guerrilha, nas quais o christianista dá vazão ao seu engajamento. Meditação e ioga são unanimidades locais, mas não impedem um gosto pela vida boêmia. O local mais movimentado da noite de Christiania não poderia ter outro nome que não Woodstock, um arremesso violento 40 anos para trás no tempo. Sobre o palco logo na entrada, um elo perdido do Grateful Dead despeja um repertório carregado de reverberação e lisergia. Bancos de madeira para quatro ou cinco clientes dispõem-se em frente a mesas sobre as quais já se derramou muita cerveja. Nesses bancos se faz como o público daquele bar: apóia-se à frente de alguma garrafa, deita-se sobre o banco para dormir, ou simplesmente senta-

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se lado a lado com um estranho. Beber sozinho é um convite à companhia de alguém disposto a discorrer sobre aquecimento global, economia mundial ou a resistência dos países de Terceiro Mundo. Quase 70% dos habitantes têm entre 30 e 59 anos. São mulheres sozinhas, velhos roqueiros de rosto desfigurado pelas drogas, turistas extasiados pela suposta liberdade não vigiada. A placa na parede não nos permite esquecer das quatro regras definitivas de Christiania: “No to Hard Drugs, Rocker Badges, Weapons and Violence” (não às drogas pesadas, distintivos, armas e violência). Apesar de não ser bem-vinda, a polícia circula livre. Em uma noite de domingo no fim do outono, meia dúzia deles marchavam em fila próximos a um prédio residencial. A movimentação apática dos homens de azul resultou na detenção de um homem, provavelmente um traficante de haxixe. Na Dinamarca, a “Politi” também não consegue (ou não quer) pescar os peixes grandes. “A polícia revista quem entra na cidade. Ficam na ponte na tentativa de conter o tráfico, mas é como se não houvesse o que fazer. É um lugar em que as liberdades

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individuais parecem existir, mas há uma estranha sensação de vigilância no ar”, diz o jornalista argentino Edgardo Martolio, que esteve na cidade em 1978, 79 e em 2005. “Nos anos 70, era uma cidade antihigiênica, feia e bagunçada, nem parecia a Europa. Hoje, a organização é maior, a limpeza também. De um certo modo, os moradores se civilizaram, o que dá mais força à experiência”, conta. A alcunha “freetown” (território livre) soa como ironia: a construção de novas casas é proibida dentro dos limites de Christiania, e há muito tempo não há espaço para novos moradores. Interessados em aderir precisam esperar por um espaço vago em uma habitação já existente. A burocracia é maior do que se poderia esperar - um demorado processo de inscrição, seguido de entrevistas com inquilinos. A espera por uma vaga costuma demorar.

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É difícil afirmar hoje se o local algum dia chegou a representar uma alternativa de vida oposta ao Estado dinamarquês. Seja como for, mochileiros, hippies, andarilhos e imigrantes ainda enxergam na cidade um abrigo. Substâncias pesadas como heroína, cocaína e anfetaminas foram expurgadas da região em 1979, em um movimento coletivo que baniu viciados e traficantes. Determinouse que a maconha e o haxixe seriam os únicos entorpecentes ali tolerados, em uma decisão que fez de Christiania o mercado número 1 de haxixe da Dinamarca, alcançando mais de US$ 300 milhões por ano em rendimentos. Para inibir a negociação da droga, um esforço conjunto do governo e da polícia se deu na forma de batidas, ações coibitivas e ordens de prisão. A perseguição persistiu até 2004, quando os moradores optaram por impedir a venda das substâncias dentro de seus domínios. O comércio ilegal prossegue em nível menor. O que não diminuiu foi a repressão na região, em atitudes condenadas pela opinião pública pela dureza com que são executadas. O tenso conflito com o governo dinamarquês perdura desde 1971. Apesar de ter aceito a existência de Christiania como um “experimento social”, planos são elaborados constantemente visando a legalização e a normalização da área, em um infindável litígio que tem favorecido os resistentes christianistas. A sociedade dinamarquesa abraça o tema e se divide entre tolerar Christiania, protegê-la ou rejeitá-la. Os opositores, em menor número, alegam que os moradores da cidade livre não pagam impostos pela área supervalorizada que ocuparam, e que o local abriga e facilita o tráfico de drogas. Em sua defesa, os christianistas alardeiam que pagam impostos mais altos do que o cidadão normal dinamarquês

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No parlamento dinamarquês, o apoio a Christiania é tradicionalmente maior entre os partidos de centro e esquerda. Desde 2002, a Dinamarca é governada pelo Partido do Povo Dinamarquês, composto por conservadores e liberais, inimigos históricos da cidade livre. Apresentado pelo governo no final de 2006, o novo projeto de regulamentação de Christiania teve aprovação da maioria do parlamento, inclusive de partidos historicamente contrários a tais proposições. O projeto condiciona a manutenção de Christiania a certas medidas, como a liberação para construção de novas casas, o pagamento de aluguel por todos os moradores de Christiania, a abertura das fronteiras para as pessoas que lá quiserem viver, além daquela tida como a mais controversa de todas: se o projeto vingar, todas as leis da Dinamarca passariam a servir também aos cidadãos da comunidade. É razoável afirmar que Christiania passa pelo momento político mais delicado de sua história. Acusada por seus opositores de ser uma sociedade cada vez mais fechada e intransigente, que não permite nem a permanência de novos residentes e não aceita se submeter a novas regras, a cidade livre também não conta mais com o suporte irrestrito de quem sempre a apoiou. A magia começa a se perder até mesmo para quem largou tudo em nome da causa. “Christiania é um pedaço indissociável da Dinamarca, mas nem é mais tão especial assim”, lamenta o morador Karsten Schubmann. O prazo para os christianistas se declararem contra ou a favor das propostas do governo dinamarquês se esgota ainda este mês. Seja o resultado qual for, o futuro de Christiania promete passar distante dos utópicos mandamentos propostos por seus idealizadores. Se muitas de suas características se perderam no tempo, pelo menos permanece intacto seu status de santuário contemporâneo da paz, do amor e da liberdade. O sonho, por enquanto, ainda não acabou.

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POR QUE VOTAREI EM JOSÉ SERRA

Por Daniel Bushatsky*

Poderia dizer por que não vou votar na suas políticas econômicas — adotadas ainda Dilma com um argumento singelo e sem antes das eleições de 2002, com a “Carta ao defesa para uma candidata a presidente: Povo Brasileiro”. sou contra quem assina documento sem ler; Mas não é só o gosto pela alternância de poderia argumentar pelo voto contrário a ela poder que me fará votar em Serra. É também pautado em um argumento geopolítico: sou sua coerência. Quase engenheiro pela USP, se contra todos que Chávez apóia; ou mesmo não fosse o golpe militar e o exílio. Ou seja, poderia afirmar e o Lula desmentir: sou lutou contra a ditadura. Mestre em economia contra eleger para a presidência quem pela Universidade do Chile e doutor na mesma não possui experiência matéria pela Cornell University, nos EUA. alguma em cargos eletivos. Primeira coerência: sempre estudou Uma das razões por que (muito)! Serra começou na militância não vou votar em Dilma é estudantil, chegando a ser presidente a mesma pela qual não vou da União Nacional dos Estudantes, em votar em Marina: gosto de 1963. Elegeu-se duas vezes deputado alternância de poder. Acho federal, foi prefeito da cidade de São saudável diferentes pontos de vista governarem. Paulo (tentou 3 vezes), governador do Para mim, este é ponto estado e ministro da saúde. fundamental da democracia. Segunda coerência: persistência política; Marina nunca terá poder. não desiste fácil do que quer e sempre quer o Quem tem poder é quem tem na mão a topo. Mas ainda não acabaram as coerências. câmara dos vereadores e deputados. Ela não Falta uma que poucos políticos podem afirmar tem. É só ver a quantidade de minutos que que sabem o que é ou se realmente existe. ela terá no horário eleitoral da TV. Míseros A fidelidade partidária. Serra está no PSDB 2 minutos e 21 segundos. Ela seria um desde 1988. São 22 anos no mesmo partido! fantoche no governo e somente conseguiria Agora questiono: como posso não votar algum resultado abrindo enormes concessões. nele? Sei o que me espera. Pode ter suas falhas, Serra não! Ele tem partido e se quiser mas jogue a primeira pedra quem não tiver. governar não adianta só ser Serra é o único candidato com chance turrão. Terá que se submeter de ganhar as eleições que tem sua ao PSDB e seus caciques história avalizada pela credibilidade. e índios, que, por sua vez, parecem ter limites mais éticos A credibilidade, por sua vez, é avalizada do que os do PT. Nada de pela coerência. pautar a mídia, por exemplo. Eu, então, posso avalizar este voto. Fora isso, o PSDB está fora do primeiro cargo da hierarquia executiva brasileira há 8 * Daniel Bushatsky, São Paulo-SP, anos, e se tivesse sido tão ruim o governo do é advogado e colunista do FHC, imagino que o Lula não teria seguido Digestivo Cultural.

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POR QUE VOTAREI EM MARINA SILVA Por Ricardo Guimarães*

Tenho três motivos para votar na Marina Silva. Um deles é que, para mim, Marina é um ser humano superior que eleva o nível de qualquer ambiente em que está presente. Como essa percepção é muito subjetiva, sugiro que quem ainda não interagiu com ela ou não a ouviu, se tiver a oportunidade, não desperdice. Preste atenção no respeito que os seus adversários e os jornalistas em geral têm por ela. O segundo motivo ainda é bem subjetivo.

competentes, inspiradas e corajosas para evitar o pior. O pior pode ficar por conta de cada um. Pode ser fome, desemprego, violência urbana, poluição, colapso do sistema financeiro internacional, guerra por recursos naturais, pragas e epidemias, enchentes e secas, conflitos étnicos e religiosos, em síntese, desequilíbrios críticos de toda natureza que já estão fazendo a vida neste planeta ser um horror cotidiano. Na iniciativa privada tenho procurado dar algum Nos meus 62 anos de vida não conheci pessoa com suporte a líderes, gestores tamanha integridade intelectual, moral e e empreendedores que têm espiritual. Mesmo não concordando com o projeto de tornar suas algumas de suas opiniões, Marina me empresas líderes, elevando emociona com a beleza de sua integridade. o nível da competição em Sim, beleza que emociona. Falo como seus mercados. Quando profissional: a estética de Marina é de uma me perguntam quem eu indicaria para eloquência extraordinariamente bela - sua ministros da Marina, eu sempre falo dos linguagem corporal, sua voz, seu modo de CEOs dos nossos clientes. Um deles já vestir, suas palavras, seu olhar, seus gestos, está lá como vice. seus sentimentos, suas ideias, os exemplos Na vida pública, as experiências que que usa, as referências acadêmicas e da eu tive com políticos foram péssimas e cultura popular, sua praticidade, sua firmeza suficientes para eu me manter afastado na divergência, sua tranquilidade no não desse ambiente, apesar dos inúmeros e saber, sua amorosidade com tudo e com todos, ricos convites que recebi para trabalhar inclusive adversários, ela tem a consistência, para governos e candidatos. Depois que a harmonia e a autoridade de quem não conheci Marina, mudei meus planos. pensa para falar. Tudo flui, como a arte Temos alguém para assumir quando ela acontece. Eu acredito que quando o o Planalto e fazer o que ser humano se livra de tudo o que o distrai tem que ser feito. Ela tem a de seu propósito o que sobra deve ser algo competência, a inspiração e a coragem. E, graças a parecido com a Marina. Até Deus, não tem o rabo preso com partidos seus acessórios são essenciais. Enfim, eu me e interesses que fragilizam a execução de sentiria um brasileiro mais seguro, íntegro e qualquer proposta de governo. bonito com Marina no Planalto. *Ricardo Guimarães, 62, é presidente O terceiro motivo é muito pragmático: da Thymus Branding. Seu e-mail é precisamos dominar as mais altas instâncias rguimaraes@trip.com.br e seu Twitter é de decisão na sociedade com pessoas lúcidas, twitter.com/ricardo_thymus

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POR QUE VOTAREI EM DILMA ROUSSEFF

Por Luiz Alberto Mendes*

Por coerência, votarei em Dilma. Não tenho E o bolsa-família ajuda a alimentar aquele dúvidas. Não a conheço bem e posso me povo, ninguém mais passa fome. As crianças decepcionar, mas é muito mais interessante crescem fortes e sadias, e a mortalidade alguma esperança que nenhuma. O outro infantil caiu. Poços artesianos foram vazados lado conheço bem. Dominam nosso Estado e cisternas foram construídas. Agora não falta há muitos anos. Depois da morte de Franco água nem na época de seca. Chegou energia Montoro e Mario Covas, pilastras do partido elétrica, o povo agora tem geladeira e está até que fundaram, seus aliados se colocaram cada assistindo TV. Banheiros foram construídos e vez mais à direita. normas mínimas de higiene foram ensinadas. O PSDB realizou muito em São Paulo O sertão é outro. As pessoas têm muito mais e até no Brasil. Mas, no essencial, muito qualidade de vida e chances de se realizar. pouco fizeram. Tiveram todas as chances e Claro, há muito o que fazer ainda. Mas já se deixaram tudo como estava. deram grandes passos. A distribuição de renda Se Dilma é continuação do que vem do país, por exemplo, se fazendo Lula, para mim é mais que verticalizou cada vez mais, coerente votar nela. Na época dos aumentou a quantidade dos que empobrecem. E é aí que militares, essa mulher foi pegar em armas para combatê-los. Foi presa e está o divisor de águas que torturada pelo ideal que acreditava, para mim pega. A família quase toda de num tempo em que as mulheres nem Íris, minha ex-mulher, vive falar muito podiam. O preconceito era no sertão do Nordeste. Antes estupidificante. É uma mulher de coragem do governo Lula, a miséria era geral. A seca e ousadia, isso é inegável. acabava com os recursos naturais e a ajuda Sei que mudanças significativas só com do governo nunca chegava. Íris relatava dias o tempo se consolidarão. Todos os esforços em que acordava e não havia nem uma raiz deveriam ser centrados em acabar com a para comer. Em contrapartida, os políticos da miséria, a fome e dar qualidade de vida ao região ficavam todos ricos. Não havia água, nosso povo. Mas, devagar e aos poucos, o luz ou banheiro. As pessoas faziam suas país está acolhendo sua população mais necessidades no mato, igual bicho. A escola carente e desfavorecida. Que não falte o e o hospital eram distantes, e as crianças necessário para que todos possam viver cresciam doentes e analfabetas. O índice de com dignidade é o ideal mais importante de mortalidade infantil era um absurdo. E o povo nossa pátria. nem sequer reclamava, achava que estava pagando pecados, que era obra de Deus. *Luiz Alberto Mendes, 56, é autor Com o governo Lula mudaram as de Memórias de um sobrevivente, perspectivas. Tudo mudou. Fizeram escola e sobre os 31 anos e 10 meses que posto de saúde mais perto. Chegou também passou na prisão. Seu e-mail é merenda, bolsa-escola, médico e remédio. lmendesjunior@gmail.com

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AGENDA SHOW KRAUT

Uma atração da Mostra Sesc de Artes merece atenção redobrada. Primeiro porque o Hallogallo 2010 é a encaranação atual do Neu!, um dos papas do kraut rock - o rock psicodélico alemão. O guitarrista Michael Rother fazia dupla com o baterista Klaus Dinger, que morreu em 2008, e em vez de forçar a barra com o mesmo nome, chamou os amigos para celebrá-lo. Eis o segundo motivo para assistir ao show do dia 23/11(terça): seu baterista é Steve Shellley, o ritmista tribal do Sonic Youth. mais informações no site www.sescsp. org.br

EXPOSIÇÃO QUADROS DE CINEMA Se Akira Kurosawa tivesse seguido carreira nas artes plásticas, teria sido relevante, como é para o cinema - arte em que foi gênio. Os storyboards de preciosidades de sua obra, como “Sonhos” e “Kagemusha”, causam uma emoção nova. Os desenhos foram criados minuciosamente pelo cienasta a partir de giz de cera, lápis e ponta esferográfica. Até 9 de janeiro no Instituto Tomie Othake. Mais informações no site: www.institutotomieohtake.org.br/

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ESPORTE VIRADA ESPORTIVA Com 36 horas de esportes, lazer, cultura e entretenimento, a Virada Esportiva 2010 terá a sua 4ª edição, nos dias 20 e 21 de novembro de 2010, nos quatro cantos da cidade de São Paulo, onde o maior objetivo é incentivar a pratica de esportes no município. Mais informacões no site: http://www. viradaesportiva2010.com.br/

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VAGA VIVA A Vaga Viva é uma intervenção simbólica que transforma vagas de estacionamento de carros em áreas de convivência para pessoas. Com bancos, tapetes, plantas e latas de lixo, pequenas praças temporárias surgem na cidade, proporcionando encontros e troca de informação sobre cidadania e meio ambiente. Dias 14 e 15 de dezembro, mais informações no link: blogciclourbano.blogspot. com/2008/07/o-que-vaga-viva.html

BATE-PAPO

MILO MANARA CINEMA O ROCK NA TELA Festival de filmes inéditos, unindo cinema e música, com sessões gratuitas e horários acessíveis. É essa a 4ª Mostra de Cinema Rock & Totem, organizada pelo quarto ano seguido por Fred d’Orey, dono da Totem e um apaixonado por música. No total, serão 16 títulos, distribuídos em sessões de 19 a 25 de novembro, no Estação Ipanema. Todos garimpados mundo afora pelo próprio organizador. mais informações no site: http://www. totemnet.com.br/mostra2010/

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A vinda ao Brasil do mestre italiano do quadrinho erótico será bem aproveitada. A exposição, que se chama Uma Vida Chamada Desejo, acontecerá na Oficina Cultural Oswald de Andrade (rua Três Rios, 363, Bom Retiro), e traz gravuras como “Tuti facin”, que ilustra esta página, A abertura será às 20h do dia 18 de novembro, com presença de Manara – que, uma hora antes, fará um bate-papo com os fãs no mesmo local. A exposição inclui originais de seus quadrinhos, esculturas e desenhos de produção que fez para o filme Barbarella (a nova versão hollywoodiana). A entrada para o bate-papo com Manara é franca, mas é preciso tirar uma senha no local com, no mínimo, uma hora de antecedência (às 18h, portanto). Mais informações no site www. oficinasculturais.org.br/

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revista TANQUE