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RODAS por Danilo Freire

mas notem que isso não a transforma em ativista – ao dobrar esquina tudo volta a ser como antes e, ao chegar no prédio em que mora no 5º andar, sem elevador, já terá esquecido. Acessibilidade é um conceito que só nos últimos anos tem ganhado notoriedade, embora as pessoas com deficiência e mobilidade reduzida tenham existido desde sempre e a sua defesa esteja contida na Constituição democrática de 1988. Ocorre que acessibilidade não se trata apenas de uma questão de arquitetura. Enquanto possibilidade de recepção dessas pessoas é, claro, condição necessária; contudo, não suficiente. Trata-se também, senão sobretudo e até em primeiro lugar, de uma questão ética, postural – tem uma faceta subjetiva e outra objetiva. Parto da ideia de que existe algo em comum entre todo ser humano, que nos permite justamente chamar cada pessoa, em si distinta, pelo mesmo nome (ser humano), que nos coloca sob o mesmo princípio e, enfim, de algum modo nos faz iguais. E se somos de algum modo iguais, isso é indício de que deve haver alguns aspectos da vida em comum válidos para todos. Assim parece ser, por exemplo, uma das liberdades mais básicas e fundamentais: a de andar por aí, de ir e vir, de se locomover. Estima-se que existam atualmente cerca de 25 milhões de pessoas com deficiência no Brasil - não é pouca coisa. É claro que aí se incluem todos os tipos de deficiên-

cia, mas isso é detalhe. O que importa é que essas pessoas participam concretamente deste corpo ao qual chamamos humanidade e, diretamente ou por intermédio daqueles que com elas convivem, pagam impostos e movimentam a economia. Vê-se assim que a consideração da pessoa com deficiência é primeiro de natureza ética e só depois de natureza jurídica. Daí o dever de oferecer a elas a possibilidade de uso e fruição da liberdade (e direito) de ir e vir e de interagir com o mundo. Falando mais claramente: espaços e instrumentos públicos ou de uso coletivo devem estar aptos a receber as pessoas com deficiência, do contrário o administrador está sendo antiético e infringindo a lei. Não é só a repartição pública, o banco ou a prefeitura, é também o (seu) bar, o (seu) restaurante, a (sua) loja, o shopping e até mesmo os apartamentos de prédios novos ainda em planejamento ou construção. Um exercício interessante de se fazer é o seguinte: imagine que o mundo seja dominado, comandado por pessoas com deficiência, já pensou que mordomia seria para vocês que não têm deficiência alguma? Rampas, esteiras, elevadores, espaços amplos e confortáveis, tecnologia facilitadora etc. Talvez o dia em que as pessoas se derem conta de que um mundo adaptado é um mundo melhor para elas mesmas, talvez haja uma revolução, até lá elas continuarão pagando fortunas em apartamentos de 50 m² e um dormitório felizes da vida com a casa própria. São muito espertos esses normais!

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Revista Tag #5  

Edição 5 da Revista Tag

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