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SOBRE Quanto mais íntimas as pessoas ficam, mais vontade e desinibição elas têm de perguntar as coisas, sobre os mais variados aspectos da deficiência, sejam objetivos ou subjetivos. É claro que sempre respondo tranquilamente, ao menos sempre que possível. No entanto, embora eu entenda as perguntas e até consiga respondê-las satisfatoriamente, a verdade é que eu não sei ao certo o que é “ser deficiente”, o que eu sei, e muito bem, é sobre “[eu] ser deficiente”. Veja bem, não é que eu esteja querendo enfeitar ou falar difícil, é realmente como sinto. Agora, é preciso explicar melhor o que eu quero dizer – é evidente que eu conheço as misérias pelas quais passam as pessoas com deficiência, em especial os cadeirantes. E isso é atualizado, jogado na minha cara sem a menor cerimônia ou compaixão a cada mínimo buraco ou degrau, a cada porta estreita, a cada minúsculo banheiro. O meu problema é o problema de todos os outros, fácil. Difícil é dizer como eu me sinto sendo deficiente e desbravando o mundo, isto só eu sei e não sei para mais ninguém. É um aspecto importante, pois influi diretamente no modo como a pessoa vê a vida e lida com o mundo e, gostemos ou não, não pode ser generalizado. Em termos práticos: para a maioria das pessoas “normais” e também para uma parte considerável dos cadeirantes, essa é a pior condição que se pode imaginar, impossível de conviver. Aliás, reparem, sempre que se colocam discussões sobre eutanásia e suicí-

dio assistido, os exemplos incluem algumas deficiências; neste contexto, principalmente a tetraplegia – isso é revelador de certa visão de mundo compartilhada pela comunidade. Não penso assim e há algum tempo adquiri a convicção de que o primeiro passo para conseguirmos um apoio real da sociedade é justamente desfazendo essa aura negativa que envolve a deficiência. É claro que não é gostoso, é claro que ninguém deseja ter uma, mas é também verdade que é possível ter uma vida com qualidade e feliz. Sem mencionar o afastamento do que eu chamo de “bem-estar pela pior condição”, que é aquele raciocínio do tipo “nossa, existe gente pior.” Fico imaginando que tipo de mecanismo doentio existe na nossa mente que nos faz sentir melhores porque alguém está pior do que nós... Eu me acidentei aos 16 anos, às vésperas do réveillon e demorei algum tempo até cair na real. Levou outro tempo razoável até que eu conseguisse realizar um julgamento “definitivo” sobre a nova situação; depois a existência fica mais leve. Hoje, com 25, vejo muito claramente que esta é a primeira e fundamental etapa – também a mais difícil e dolorosa – para considerarmos outros avanços. O problema é que, vencida essa etapa, o mundo não está pronto para a recepção. Nem as pessoas e nem as coisas. Se uma pessoa qualquer vê um cadeirante em dificuldade ou sendo agredido, ela intervém,

Revista Tag #5  

Edição 5 da Revista Tag

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