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SUBVERSA Vol. 5 | n.º 10|dezembro de 2016

ISSN 2359-5817

Ilustração HELENA BARBAGELATA

DAN PORTO | EVANILTON GONÇALVES | BRUNO FLORES RENATA FLÁVIA | LUBI PRATES | GLAUBER COSTA GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS | MARCO AURÉLIO DE SOUZA EMANOEL FERREIRA | ISABEL CARDOSO


WWW.FACEBOOK.COM/CANALSUBVERSA @CANALSUBVERSA CONTATO.SUBVERSA@GMAIL.COM

Subversa | literatura luso-brasileira | V. 5 | n.º 10

© originalmente publicado em 15 de dezembro de 2016 sob o título de Subversa ©

Edição e Revisão: Morgana Rech e Tânia Ardito

Ilustrações HELENA BARBAGELATA

Os colaboradores preservam seu direito de serem identificados e citados como autores desta obra. Esta é uma obra de criação coletiva. Os personagens e situações citados nos textos ficcionais são fruto da livre criação artística e não se comprometem com a realidade.


SUBVERSA VOLUME cinco | NÚMERO 10 BRUNO FLORES | CAFUNÉ | 05 DAN PORTO | EXECUÇÃO| 10 EMANOEL FERREIRA| SOBRE O ÓDIO | 13 EVANILTON GONÇALVES | ARRIBAÇÃO| 16 GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS | PALAVRAS COSIDAS | 19 GLAUBER COSTA | JUMENTOS EM MARCHA | 21 ISABEL CARDOSO| LISBOA| 24 LUBI PRATES | CONDIÇÃO: IMIGRANTE | 27 MARCO AURÉLIO DE SOUZA | PRELÚDIO À REDENÇÃO | 30 RENATA FLÁVIA | CHIFRE DE BOI E MADRE PÉROLA| 35

SOBRE Helena Barbagelata| 38

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EDITORIAL “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. Não poderia viajar pelo mundo inteiro”. Mario Quintana. Da preguiça como método de trabalho.

Pronto, falamos tanto desse momento e agora ele chegou. Com este número, encerramos mais um Volume da Subversa. Estamos deixando a mesa arrumada para entrar em um período de férias. Tudo bem que nós nunca ficamos totalmente de férias, até porque deixar a Subversa completamente de lado é, de certa forma, deixar a nós mesmas de lado, ainda que por um tempo curto. Mas já falamos muitas vezes disso, do nosso envolvimento com o projeto, com os autores, leitores e parceiros; do quanto nos comprometemos com a revista e do quanto acreditamos nela. Hoje queremos só lembrar que a preguiça e o descanso andam lado a lado mesmo com o mais penoso dos trabalhos. A preguiça é um olhar para dentro que depois ajuda a olhar melhor para fora. Assim como Mario Quintana, é em nome do trabalho que nós elogiamos a preguiça, porque é na hora do repouso que conseguimos ver o que estamos trazendo na bagagem, se é tudo mesmo necessário ou se algumas coisas estão indo por impulso, inércia, cegueira ou conformismo. Como de costume, manteremos as notícias e outros conteúdos da Subversa atualizados, sempre às ordens para responder alguma dúvida ou simplesmente dizer olá, desejar boas festas para os dois lados do Atântico e tudo o mais. Mal podemos esperar pelo Volume 6, que já está bem encaminhado por aqui. Boa leitura a todos e até breve. As editoras.

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CAFUNÉ BRUNO FLORES | Rio de Janeiro, RJ.

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Um gás escalou as entranhas de Josué e foi expelido na forma de um arroto “tiranossaurico”. Não precisava se preocupar em acordar Odete. Aliás, nunca precisara. A esposa sempre tivera esse sono de múmia, imune a estrondos e solavancos. - Graças a Deus acabou – pensou Josué, antes de um riso debochado – Deus é o caralho! Graças a mim! Sentado na cama, acendeu um cigarro e tentou não pensar no inevitável. A qualquer momento, o mundo iria desabar sobre sua cabeça como um terremoto de escala sete. Como havia chegado ali? Em que ponto exato de seus quarenta anos este fim que se anunciava começara a se configurar? Num esforço nauseante de memória, Josué tentava encaixar as peças para compor o quebra-cabeça. Queria entender, antes que fosse tarde, como os eventos de seu passado o tinham levado até ali, prestes a ter sua casa invadida por policiais e ser levado embora num camburão, para espanto dos vizinhos. Ou talvez ele tivesse visto filmes americanos demais e, na verdade, tudo aconteceria de forma diferente. Não importa. Fato é que logo embarcaria numa jornada solitária e sem volta. Tudo o remetia a uma manhã de 1975 em que a noviça Gertrudes encontrou, na porta do orfanato, um neném mulato a quem batizou de Josué. O maldito dia do seu nascimento. Durante a infância, perguntava a Deus porque seu pai e sua mãe, tão invisíveis quanto a própria entidade à qual se dirigia, o haviam condenado a viver entre freiras que o açoitavam quando fazia xixi na cama ou cometia um erro no piano, e padres que o bolinavam, sempre começando com um cafuné. Mas Deus nunca se pronunciou. Numa noite em que o Padre Eusébio fez sua habitual visita, Josué tentou cortar a garganta do sacerdote com uma faca que surrupiara da cozinha. Foi mais uma curva sinuosa de sua vida.

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Seguiram-se os anos no reformatório, onde aprendeu a ser homem. Logo no primeiro mês, arrancou com os dentes a orelha de um moleque que gostava de surrar os menores. Teve seis meses acrescentados à sua reclusão, mas garantiu algum contentamento. Na biblioteca, descobriu um prazer inesperado nos livros de carpintaria. Como uma pilha de madeira maciça podia converter-se em venezianas, assoalhos e móveis bem acabados? O carpinteiro era o fazer e o criar numa só pessoa. Parecia-lhe mágico. Logo que saiu do reformatório, comprou uma penca de livros sobre carpintaria, um macacão e um kit de ferramentas. Passou a praticar o ofício por conta própria, consertando mesas, cadeiras e portas, até tentar um emprego. Buscou em firmas reconhecidas, até apelar

para

empregadores

que

superfaturavam

orçamentos

e

pagavam uma mixaria. Mas seu passado de menor infrator inviabilizava qualquer conquista. - Era só o que faltava na minha equipe... Um ex-pivete, graduado na escola do crime – disse-lhe certa vez um mestre de obras. Josué quis pegar o estilete na mesa e rasgar a garganta do infeliz. Terminar o que começara com o Padre Eusébio. Que prazer aquilo lhe daria! Sua sorte só começou a mudar, ou pelo menos foi o que pareceu no momento, quando conheceu o doutor Bernardes, um empreiteiro que lhe ofereceu trabalho, carteira assinada e ascensão salarial. Conseguiu

comprar

uma

casinha,

ter

uma

vida

digna.

Foi

genuinamente feliz por alguns anos, até o dia em que foi apresentado à primogênita do doutor Bernardes, a meiga, porém retardada, Odete. Era uma jovem autista de 22 anos, dominada pela apatia. O motivo de seu apadrinhamento pelo doutor Bernardes se revelou num estalar de dedos. O patrão queria um marido para a filha, alguém que pudesse finalmente assumir seus cuidados. Josué, sabendose o infeliz escolhido e sem poder de barganha, começou a frequentar

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a casa da família. Feijoadas, churrascos, pagodes e sambas. Odete, alienada num canto, era sempre empurrada ao seu encontro para meia hora de silêncios constrangedores e olhares inibidos. - Odete, converse um pouco com o Josué! Ele trabalha com seu pai. Veja que moço bonito... Educado também! A trama urdida pela família enfim surtiu efeito e ele a pediu em casamento, aceitando resignadamente seu destino de marionete dos Bernardes. Nunca imaginou o quanto seria penoso. A jornada de trabalho se encerrava com doses de pinga a caminho de casa. Odete jogada no sofá, cercada de bagunça, e uma geladeira vazia era o cenário que o esperava. A esposa só saía do marasmo em surtos ocasionais de pânico, quando literalmente arrancava os cabelos ou quebrava, uma a uma, a louça da cozinha. Recentemente, surgira o assunto de um filho. Doutor Bernardes e sua esposa queriam um netinho. Ignoravam a possibilidade de a criança nascer com a mesma enfermidade da mãe. - Tenha fé, Josué, que Deus faz o resto. A recomendação foi a gota d´água. Novamente Deus, aquele tirano, que nunca olhara por ele. Viera ao mundo com seu destino traçado por esta mesma entidade invisível em nome da qual atuavam padres pedófilos e freiras sádicas. Havia sido privado de qualquer liberdade desde o nascimento, como crianças da África são privadas de água e pão. Orfanato, reformatório, casamento. Só conhecera a liberdade através de erupções de violência que lhe garantiram algum livre arbítrio. Deus o oprimia, mas ele olhava por si. Confirmando a expectativa inicial de Josué, policiais arrombaram a porta da casa com pistolas em punho. Um deles vomitou ao olhar para o chão da sala: um corpo gordo, de mulher, jazia sem a cabeça, filetes de sangue escapulindo do pescoço, como corredores de formigas. Aterrorizados, abriram a porta do quarto. A cabeça decepada de Odete repousava sobre o colo de Josué, que lhe fazia o

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mesmo cafuné recebido na infância. Um olhar manso aos homens fardados deu boas vindas à bala que lhe invadiu o crânio e, enfim, garantiu sua liberdade.

BRUNO FLORES é jornalista, escritor e viajante. É autor do romance de aventura RUMAH (Multifoco, 2015), de duas resenhas críticas publicadas em livro de homenagem ao centenário de Jorge Amado, e de contos, crônicas, e críticas de cinema e literatura.| BRUNOFLORES85@GMAIL.COM

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EXECUÇÃO

DAN PORTO | Santa Cruz do Sul, RS.

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Materializou-se a luz da Lua em caminho para João passar. Sempre dissera a professora do primário: o mundo de dentro é mais colorido e interessante do que o de fora. Agora fazia sentido. Não chegavam o pó e o vento desértico ou o barulho da horda de homens, nada penetrava o mundo de dentro por nenhuma brecha, a cor não sumia da mente. Nós podíamos ver as rochas, a poeira e os homens, sentíamos o vento e não fugíamos da voz que ele soprava em nossas orelhas e penetrava os ouvidos e marcava nossa razão. O vento fragilizava nossas certezas e escurecia nosso interior de um modo amedrontador. Sobrava a luz do Sol do lado de fora, embora trocaríamos de bom grado a presença do Sol pela de alguém que pudesse intervir, um poder, mesmo que suave, ainda se impõe acima daquilo que se executa na ignorância. As asas poderiam levá-lo por qualquer lugar, mas preferia guiar-se pelo

caminho

iluminado.

Havia

ouvido

em

casa

que

a

luz,

independente de qualquer coisa, conduzia à elevação, a escuridão ao rebaixamento. E jamais iluminou esse pensamento. A Lua resplandecia no céu e apontava o dedo luminoso e reticente para João, enquanto este voava lentamente na direção de uma rocha. João deteve-se diante do símbolo que lhe era incomum, duas ripas de madeira cruzadas a formar o que se conhece por uma cruz, era baixa e frágil e havia uma inscrição em tinta branca cujo idioma não o permitia ler. Sentou-se, então, e fez desaparecer tudo em volta, ficou aberto o campo, a grama verde e o céu azul, no fundo, bem ao fundo, a linha onde devia acabar o mundo. João deitou-se e esperou que da Lua escapassem duas agulhas metálicas e lhe penetrassem os olhos. O sangue verteu junto com a urina enquanto a mão esquerda firmava-se à cruz. Embora o tempo não fizesse sentido, nós sabíamos que já transcorrera muito naquele lugar. À estrada vimos cruzar um automóvel,

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os gritos eram ensurdecedores a ponto de esconder o som do motor caso tenha nos alcançado, a terra já bebia sangue e saliva, quão ignorante é fugir da animalidade que nos é inerente! João agarrado à cruz, a cruz imóvel, sangue e urina correndo como um rio sob o dedo luminoso da Lua. Vai, Lua, vai embora que eu já não te vejo. Meu mundo abriu-se e eu vou morrer. Vou morrer, Lua. Vai embora. Só podemos esperar. E esperamos. O vento faria música com o corpo se pudéssemos ouvi-lo sobre os urros dos homens à beira do precipício. Um deles levantou a túnica e urinou sobre o cânion. Outro repetiu o gesto e masturbou-se. Um terceiro, em silêncio, se agachou para defecar na própria mão e logo arremessar o produto na direção do vazio. Nossos ouvidos se fecharam. João, João! Lá de baixo olhamos para o alto e nos surpreendeu a visão, os homens nos olhavam como se nos vissem e estavam em silêncio. Silêncio absoluto. Até o vento silenciou. João, João! Por que te entregastes?

DAN PORTO é escritor. Publicou Raridades (2011), Viver e ajudar a viver (2014), Série Poética - Just it, Carménère, Xilema (2015). Dedica-se atualmente à série Transtexto, que pode ser acompanhado pelo blog www.danporto.com

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SOBRE O ÓDIO

EMANOEL FERREIRA | Belo Horizonte, MG.

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Luiza agarrou ódio de Ana Paula. Deu briga, plateia e boletim de ocorrência numa delegacia de polícia da Pampulha. Agarrar ódio é o modo mineiro de dizer que a outra pessoa ganhou um lugar especial no coração de quem odeia. Claro que a Luiza não admitiu. Abriu a latinha de Coca zero com força, num estalo só, como se quisesse castigar o refrigerante por

ser

tão

horrivelmente

choco,

deu

aquela

risada

contrafeita e olhou ao redor, fingindo procurar outro conhecido na Praça da Savassi. "Coração? Não viaja, Mano". Mas é verdade: odiar é levar no coração. Você não esquece e não quer esquecer. Ódio não é o contrário do amor, mas é quase-amor. Se a Luiza perguntasse, eu teria aconselhado que agarrasse indiferença, que é o verdadeiro oposto do amor; ninguém leva um indiferente no coração. Mas essa coisa de agarrar indiferença não existe, existe? Existe não. Do contrário, esta história começaria com “Luiza agarrou indiferença de Ana Paula” sem que soasse estranho demais. E você já ouviu alguém dizer que agarrou indiferença? O ódio é a única coisa que as pessoas agarram. Amor ninguém agarra porque ele é que agarra as pessoas. Um papo estranho desse fez a Luiza gargalhar. "Para de poesia, Mano, eu tô falando sério aqui". Como se poesia não fosse sério (ela é do tipo que fala “Vou comprar seu livro só pra ajudar”). Eu digo que paro com o papo de ódio e coração, mas antes ela precisa concordar que está gostando de odiar

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Ana Paula. Que Ana Paula está bem ali, ocupando espaço em seu peito. Que Ana Paula é quase-amor. Ela assente, com aquela displicência de quem diz “tanto faz”. Eu pego o celular e escrevo rápido no bloco de notas, antes que a frase escape: "O ódio é um boi de Barretos e aquele que odeia é um peão que luta bravamente para permanecer no jogo de odiar".

EMANOEL FERREIRA (Belo Horizonte, 1991) é autor de “Já tomei uns tragos de poesia e prosa pra amaciar a tristeza” (Multifoco Editora, 2016). Costuma publicar textos como este em seu perfil no Facebook: \EmanoelFerreira. Escreve também no tumblr: emanoelferreira.tumblr.com | AUTOR.EMANOELFERREIRA@GMAIL.COM

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ARRIBAÇÃO

EVANILTON GONÇALVES | Salvador, BA.

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Pássaros dançam no ar. O céu resplandece no azul das quatro da tarde de um outono que chega ao fim. Nem todos podem contemplar aquele fulgurante quadro. O trem está parado na metade sul do mundo. O dia passou rápido. A pequena tela azulada suspensa na cabine informa que às 16h30 do dia 22 de setembro será primavera. Atenção senhores passageiros, chegamos a nossa parada final, Estação da Calçada. Beatriz ainda está com os olhos na janela, todos os passageiros já desembarcaram, mas ela continua ali, com um sorriso que voa até os pássaros. Seu estágio no escritório de advocacia, encerrado sempre às 15h00, era marcado pelo aviso do seu chefe: “Bia, tome um táxi ou um ônibus para ir pra casa, nem pense em pegar aquele trem sujo e perigoso, viu?” Embora recebesse dinheiro e também fortes recomendações de seus pais para pegar um táxi do Rio Vermelho, onde morava, até o seu estágio, no subúrbio da cidade, Beatriz preferia usar a recomendação até o bairro da Calçada, quando descia do táxi em frente à Estação de trem urbano. Ali, sentia o ar pesado e multifacetado das imediações de uma Salvador que pouco conhecia. Vendedores ambulantes, camelôs e outros transeuntes ocupavam as ruas como formigas operárias. Alguns homens tinham corpos visivelmente estropiados pela carga da vida. Junto aos homens, alguns jovens auxiliavam o trabalho vendendo caixotes de frutas e produtos Made in China. Se recebesse um olhar atento daquela profusão de gente, Beatriz, pensava ela, seria julgada como alguém da justiça - pelos seus trajes que estava ali, sem dúvidas, para promover injustiças. Não era o caso. O trajeto de aproximadamente treze quilômetros e meio, entre o bairro da Calçada e o seu destino semanal, às sete da manhã, no escritório de advocacia em Paripe onde estagiava, servia como um portal de transição de suas ideias.

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Beatriz entra na estação e compra seu bilhete. Assim que ocupa o seu assento, uma senhora religiosa lhe oferece um panfleto bíblico, cordial mas desatenta, Beatriz recebe o panfleto, o dobra e guarda no bolso de sua camisa três por quatro listrada. Encostada junto à janela, Beatriz espera as matizes que se desenvolverão ao longo do percurso. Seu entusiasmo e excitação parecem inéditos, embora já esteja há mais de seis meses indo e voltando naquela única linha férrea, atravessando as dez estações. Como parece mágico estar em tantos lugares diferentes sem sair do lugar. Trinta minutos pontuais. O barulho dos trilhos e da buzina dão um tom de interior. Sente-se abençoada. Abraça a sua maleta. Beatriz espera se indignar com as palafitas, mas também contemplar as belas paisagens: praias. ah! aquela ponte, suspira! Beatriz suspende o braço e verifica seu relógio analógico: seis e dez. Como são boas as convenções. É primavera: céu azul, sol radiante, temperaturas amenas e ambiente florido. Por um momento, retira a mão esquerda de sua maleta e pega o panfleto que recebera: “Até a cegonha do céu conhece os seus tempos determinados; e a rola, a andorinha, e o grou observam o tempo de sua arribação.” – Jeremias 8:7'

EVANILTON GONÇALVES nasceu e reside em Salvador, Bahia. É graduado em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia - UFBA. Atualmente, é aluno do Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Língua e Cultura na mesma instituição. Teve seu conto “Um milagre” publicado na Revista Desenredos. Dedica-se ao exercício da prosa curta. | EVANILTONGONÇALVES@GMAIL.COM

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PALAVRAS COSIDAS GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS | Oliveira, MG.

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É tênue a metalinguística linha que une estas palavras em um dizer que às vezes cose-as de silêncio, comunicando ex-canção sem escanção. Outrora cozi (com zê) as palavras. A mesa era cheia, mas eu nem tinha fome. Depressa as portas saem, mas não veem que o verso está aqui. Dentro. Cru, descosturado.

GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, Oliveira-MG. Aluno de graduação em Direito na Universidade Federal de Lavras- UFLA. Em 2014, por escrever o poema "Saudade sem métrica", foi premiado no Concurso Literário promovido pela Academia Madureirense de Letras. Desde criança Giovane demonstrou gosto pela leitura e escrita.0| GIOVANESANTOS@GMAIL.COM

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JUMENTOS EM MARCHA GLAUBER COSTA | Ubatã, BA.

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Pela ponte, iam os jumentos apertados, aos montes, na confusão da tempestade. Os relâmpagos iluminavam seus couros duros. Suas orelhas estavam em pé. Pelos arrepiados. O escuro, a luz azul, o rompantes, o concreto, o rio em movimento. As gotas no couro seco faziam a vez do suor vivo. Mas estava um ar frio. Eles sentiam frio. Na grande noite, o vazio. Os homens, talvez, atrás. Diziam alguns. Acreditavam. Homens de laço nas mãos. Mãos persistentes. Verdade ou não, os passos dos bichos eram firmes, sempre para frente. Sem vacilar. A ponte balançava. E parecia que era sempre a mesma ponte, desde a outra ponta do caminho, de onde vieram, por onde cruzavam. Seguiam mudos, calados, acompanhados pelos próprios barulhos de suas pisadas secas, de suas patas no chão. Seguiam. E os homens atrás, talvez. A tempestade açoitava o tempo, nos corações animais e alertas, dentro do couro duro-calmo. A natureza. A força. Continuavam. Seguiam burros. Cegos pelos caminhos. O rumo era a ponte. A mesma ponte de todo o caminho. A ponte em si mesma, balançando pelo vento. O vento no pelo. Eles em cima da ponte, reais. O relincho isolado. A verdade relinchada. Ignorada. A noite está dentro da tempestade. E os jumentos dentro da noite. Mais dentro do que se fosse dentro de uma caixa. Seguiam. Os homens atrás. Sempre. Outra vez o relincho. A cabeça erguida. Desperta ódio, o descompasso. O cansaço. O destino dos jumentos. O grito de uma ave do céu. O jumento cômico. A ave séria. O jumento doendo feio. E duro e firme. Nem parece. No couro. Olhos firmes. Olhos que não vacilam. Por dentro, chora, o jumento. A tempestade pisca, insistente. A vida árida sem barro. Árida e fria. O jumento treme. E relincha. Treme. Cruzando a ponte, vão chegar ao outro lado. Precisam. Os homens atrás. Os desejos dos homens e os desejos dos jumentos. Os jumentos marchando. A terra absorvendo, molhada. Os dentes grandes

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dos animais. Não sabem rosnar. A pedra que cai do céu não precisa ter raiva para o estrago. O predador mata pela nuca, pela fome. Os homens atrás. A ponte tem que acabar, para a terra os enterrar. Jumento só sabe sorrir. Em marcha. Os jumentos não querem parar. Entregues. Mas firmes. Trêmulos. E nem parecem. Trovão. E o medo. Tudo se esconde por dentro. E por fora, não se nota, não se enxerga. Mas chove. A chuva fina. Apesar do couro, a pele do jumento é a sua morte sensível.

GLAUBER COSTA publicou as crônicas “No longe, no dentro” e “Gênese”, ambas pela Coletânea Eldorado, da Celeiro de Escritores. Publicou o conto “Meu velho” na Revista Subversa, texto que faz parte do primeiro volume impresso. Escreve no blog glauber-manuscritos.blogspot.com.br e na Fanpage do Facebook chamada Manuscritos. | GLAUBER.COSTA@HOTMAIL.COM

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LISBOA ISABEL CARDOSO| Lisboa, Portugal.

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Na ventura Portuguesa Mora a alma brilhante De quem crê, De vem vive intensamente. De quem mora sobre o Tejo, O ama, o adora, o contempla. Rolando na calçada, Saudando as colinas Vive a brisa alfacinha, Vive a alegre romaria. Canta o fado a som tremido, Canta a voz segura pla guitarra. Seguem-se os cafés plantados, Naquelas esplanadas quentes e brilhantes. Onde existe a multiplicidade. Tantas cores, tantos afetos. Tantas histórias conta esta velha cidade. Velha e não gasta, sábia... Trepando o Castelo, a Sé. Preparando a vista para o mais belo... O Tejo poisa debaixo da ponte, Brilhante, distante e melancólico. Contanto na sua corrente os barcos perdidos. As fés ganhas, e mundos achados. Foi aqui que nasci. Aqui me plantaram e germinei. Nesta Lisboa quero-me perder.

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Quero ouvir os contos que fazem sonhar. Aqui nasci, aqui viverei. Tomarei o azul pintado na alma. Lisboa minha, Lisboa de sempre. Eterna Lisboa nascente. És bela como nenhuma outra. És minha, és nossa. És de toda a gente.

ISABEL CARDOSO (Lisboa, 1985) descobriu e apaixonou-se pela poesia aos oito anos, com Sophia de Mello Breyner Andresen, quando a escritora foi à sua escola primária e leu alguns dos seus poemas e contos. Começou a escrever poesia e contos aos dez anos mas só em 2015 se aventurou a arriscar a publicação, participando na colectânea “Poema-me” da Editora Lua de Marfim Editora.

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CONDIÇÃO: IMIGRANTE LUBI PRATES

| Curitiba, PR.

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1. desde que cheguei um cão me segue & mesmo que haja quilômetros mesmo que haja obstáculos entre nós sinto seu hálito quente no meu pescoço.

desde que cheguei um cão me segue & não me deixa frequentar os lugares badalados não me deixa usar um dialeto diferente do que há aqui guardei minhas gírias no fundo da mala ele rosna. desde que cheguei um cão me segue & esse cão, eu apelidei de imigração.

2. um país que te rosna

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uma cidade que te rosna ruas que te rosnam: como um cão selvagem esqueça aquela ideia infantil aquela lembrança infantil de sua mão afagando um cão de sua mão afagando seu próprio cão ficou em outro país ironicamente, porque a raiva lá não é controlada aqui, tampouco: um país que te rosna uma cidade que te rosna ruas que te rosnam: como um cão : selvagem.

LUBI PRATES é poeta e tem publicados os livros coração na boca e triz (Editora Patuá, 2016) e alguns poemas em antologias nacionais e internacionais, além de jornais e revistas literárias. Edita a revista Parênteses e dedica-se a ações que combatem a invisibilidade das mulheres no meio literário. | LUBIPRATES@GMAIL.COM

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PRELÚDIO À REDENÇÃO MARCO AURÉLIO DE SOUZA | Ponta Grossa, PR.

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Senhor eu sinto a tua bênção sobre mim E, todavia, nem sou digno de ti Pois quantas vezes tua graça eu pedi E quantas vezes nesta vida Fui babaca? Eu que não sou nada E que fui tudo O que é motivo de vergonha E de repulsa E que fui frouxo E que fui manso E que fui fino Com quem detinha algum poder Eu fui babaca. Eu que fiz piadas abjetas E fiz pior E o mais baixo O mais nefasto eu permiti E fui cruel e fui covarde E me excedi Pelo avesso a me entender Como o melhor. Sendo canalha Eu fiz piada com o pai Sentado à mesa Eu fui o Judas, traidor E depois disso, no entanto Mãe amada,

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O quanto eu fiz Me repeti O mais babaca? Eu com a minha ambição afetada Eu com o meu egoísmo megera Eu com o meu desejo mesquinho Eu com o meu prazer hedonista E o valor absoluto Irrefreável Arrastando a inocência resiliente Na maré do meu esgoto De miséria e vingança Tão babaca... Minha ironia, Deus do céu, foi sempre a mais cruel Inconsequente, atirei-a ao bel prazer Em toda gente E por mim mesmo E somente assim Foi sempre superestimada – Patética... babaca? Fui cretino, Senhor, fui conivente Com o verme que matava o doente, E fui ingrato com premissas Ordinárias Ao distinguir-me do humilde e inocente. Eu desbastava a cabeleira dos anjos, senhor. Eu era assim, ser deprimente.

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E padecia pelo medo de sofrer. E tendo medo, no entanto, Eu padecia, E tanto mais eu me jogava A perder. E quantas vezes fui então Esse babaca? E quantas vezes vi nos outros O que era meu: Certa ausência de moral Vasto vazio Que camuflei fingindo estar No colo teu? Eu que simulava epifanias Procurando a semelhança dos sensíveis E algum consolo No artifício engenhoso Dos poetas. Quanta bobagem, Senhor, quanto engodo! Se a transcendência, para mim, foi tão chapada Quanto o acadêmico chavão que decorei... Eu que tinha sempre algum dinheiro pelos bolsos Eu que compreendia ou fingia compreender A vertigem dos livros Eu que me julgava o gênio Sendo apenas genioso – Eufemismo besta para o intransigente

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Diminuto – quem era eu? Eu que ignorei os pretos Eu que maltratei as putas Eu que desprezei os presos Eu que acusei mendigos Eu que dominei os fracos Eu que enfrentei os mancos Eu que enlouqueci os puros Eu que gargalhei das bichas e Na suprema ignorância dos mais moços Desdenhei dos velhos Flertando demoníaco Com os largos sorrisos do inimigo – Quantas vezes neste mundo fui tremendo E completo O mais babaca? Eu que fui uma, cem e mil Milhões de vezes o babaca Ter fé não posso, mas me agarro na esperança De que a lembrança me transporte do que sou. Que eu tenha sido e, por milagre, ao relembrar Possa encontrar à sua mesa um lugar: Que sendo outro aquele mesmo Eu já não seja.

MARCO AURÉLIO DE SOUZA é natural de Rio Negro/PR. É autor dos romances O Intruso (2013) e Conexões Perigosas (2014). Participa das antologias poéticas 29 de abril (2015) e Patuscada (2016). Travessia, seu primeiro livro de poemas, tem lançamento previsto para 2016, pela editora Kotter. Vive em Ponta Grossa/PR. | AURELIO.AS25@YAHOO.COM.BR

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CHIFRE DE BOI E MADRE PÉROLA RENATA FLÁVIA | Teresina, PI.

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carrego entre os dedos os campo secos que atravessaste eu teria me arranhado em você facilmente poderia ter corrido mas fui caindo e do fundo coletei do mar o brilho mais difuso para ornar minhas mãos frias que deslizaram no vento até te tocar é teu pedaço aqui? esse aro que me cerca a pele lembrando seu nariz a sugar todo ar do meu pescoço é teu o que não queres mais? se esse não querer te pertence ainda é teu tudo que você se desfaz? um róseo doce cravejado no duro deserto de mim não tem você aqui é ilusão pensar que tem sou eu o boi e a pérola a que se desfaz e a desfeita o mar inteiro e o arranhado dolorido as mãos no vento buscando os limites de mim preciso atravessar minha vastidão para chegar até você dores madres pedaços campos inteiros devastados

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para achar essa que sou uma vívida luz deitada num escuro buraco

RENATA FLÁVIA (Teresina, 1989). tem poemas publicados em zines, jornais, revistas, blogs e sites. Formada em história que trabalha em uma biblioteca. Fez a muitos anos o http://lustredecarne.zip.net que anda devagar pra virar papel. | RENATA.FLAVIA07@HOTMAIL.COM

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sobre HELENA BARBAGELATA

Helena Barbagelata, de Lisboa, é uma artista interdisciplinar que trabalha com diversos registros visuais, entre eles a fotografia, a aquarela e outras técnicas mistas. A artista se interessa por projetos colaborativos, pois acredita no potencial de troca da arte e de harmonia da atividade artística. Utiliza recursos variados, desde a tinta a óleo até o carvão e a tinta-da-china, apresentando um trabalho multifacetado de experimentação constante. Aprecia tendências vanguardistas, principalmente as que surgiram na primeira metade do século XX. Além das participações como ilustradora, Helena publicou o poema “As naus insonhadas”, no número 9 do volume 4 da Subversa. PORTFÓLIO | FACEBOOK HELENA.ANTUNESBARBAGELATA@GMAIL.COM

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Edição e Revisão Morgana Rech e Tânia Ardito MORGANA RECH & TÂNIA ARDITO Recepção de originais: CONTATO.SUBVERSA@GMAIL.COM

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Revista subversa vol 5 n10 dez 2016  

Subversa n.º 10, encerrando o Volume 5 e se despedindo de 2016. Beijos :*

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