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SUBVERSA Vol. 3 | n.º 10 | Dezembro de 2015

ISSN 2359-5817

HERBERT DO NASCIMENTO GLAUBER COSTA ANA LUIZA FIGUEIREDO FABIO NAVARRO JORDANO SOUZA LUIZ HENRIQUE M. SOARES PEDRO IVO EBER CHAVES LUCIA L. GONÇALVES JOÃO CERQUEIRA

Ilustração RAISA CHRISTINA


WWW.FACEBOOK.COM/CANALSUBVERSA @CANALSUBVERSA CONTATO.SUBVERSA@GMAIL.COM

Subversa | literatura luso-brasileira | V. 3 | n.º 10

© originalmente publicado em 15 de dezembro de 2015 sob o título de Subversa ©

Edição e Revisão: Morgana Rech e Tânia Ardito

Ilustrações RAISA CHRISTINA | RAISA.CHRISTINA@GMAIL.COM

Os colaboradores preservam seu direito de serem identificados e citados como autores desta obra. Esta é uma obra de criação coletiva. Os personagens e situações citados nos textos ficcionais são fruto da livre criação artística e não se comprometem com a realida

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SUBVERSA HERBERT DO NASCIMENTO | COMO NÃO SE TORNAR UM ESCRITOR DE SUCESSO| 7 GLAUBER COSTA | O CORPO | 14 JOÃO CERQUEIRA | O BARBEIRO ESPIRITUAL | 17 PEDRO IVO | JÁ REPAROU? | 25 EBER S. CHAVES | NOITE E LOUCURA | 27 FABIO NAVARRO | TECHNOLOGY | 34 ANA LUIZA FIGUEIREDO | POR QUE TÃO DUROS COM A BRANCA DE NEVE? | 36 JORDANO SOUZA | TRABALHO PALAVRAR | 43 LUCIA L. GONÇALVES | E SE... | 45 LUIZ HENRIQUE M. SOARES | UM TOM MAIS BRANCO DE PALIDEZ | 49

SOBRE RAISA CHRISTINA |58

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EDITORIAL Estamos fechando hoje o Volume 3, o último número que será publicado em 2015. Todo final de ciclo é momento para refletir e traçar os próximos rumos do caminho. Para a Subversa, o saldo do ano que está prestes a encerrar é mais do que positivo. Em pequenos passos, inauguramos o novo site, firmamos parcerias importantíssimas, publicamos o primeiro volume impresso, fizemos quatro eventos de lançamentos e tivemos o privilégio de receber textos, mensagens e incentivo das mais variadas regiões do Brasil e de Portugal. Ficamos contentes, sobretudo, por poder observar mais de perto o movimento que circula a literatura, que fala não só do mercado editorial, mas da própria relação que estabelecemos com o livro na sociedade e dentro de nossas casas. Está cada vez mais claro que existe uma relação interessante entre editor, autor e leitor, que deve ser levada em consideração, se quisermos trabalhar todos juntos e apostar numa forma mais humana de produção editorial. Qual o papel do autor, enquanto leitor? O livro, afinal, é um objeto que pertence a todos, até aos que não leem, mesmo que isso possa parecer absurdo. Não temos a mínima intenção de finalizar os trabalhos na Subversa, muito pelo contrário. Permanecemos trabalhando diariamente para que o espaço da revista seja cada vez mais especial e que consiga a força que merece. Por ora, fica o nosso sincero agradecimento a todos os autores que enviaram seus textos para análise, a todos os ilustradores que possibilitaram as 24 capas que foram produzidas, ao nosso editor e amigo Eduardo Lacerda, que é parte integrante do crescimento da revista, aos colunistas do Ornitorrinco, pelos desafios lançados a nós, à professora Celina Silva, pela belíssima apresentação que fez em Portugal, aos parceiros dos espaços culturais que nos receberam, entre outros. É com essa substância que vemos a Subversa se tornar possível, assim como a literatura é possível quando todos se unem num mesmo movimento, cíclico, porque sempre se renova e retorna eternamente. Desejamos uma excelente passagem de ano a todos e deixamos, mais uma vez, o nosso muito obrigada.

Até breve! As editoras.

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SUBVERSA # 1 – Versão Impressa | Volume 1 (2014) Adquira e apoie o crescimento da revista.

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COMO NÃO SE TORNAR UM ESCRITOR DE SUCESSO HERBERT DO NASCIMENTO | São Paulo, SP [Dublin, Irlanda]. Está decidido a escrever uma crônica. Pensa, em primeiro lugar, que seu personagem não terá nome. Já leu diversas crônicas de autores medíocres nas quais a tentativa de colocar um nome no personagem soou forçado e, pior ainda, a inserção de um apelido para buscar a naturalidade foi o ápice da artificialidade. Por isso seu personagem não terá nome. Está decidido também a não escrever em primeira pessoa, pois tem a impressão de que em todas as tentativas anteriores de escrever uma crônica acabou falando somente de si mesmo, e apenas da sua perspectiva, e isso é outro sintoma de autor ruim. Será, portanto, em terceira pessoa. Para não se confundir com o personagem. Um atestado de mediocridade falar somente de si. Falta de

imaginação

tremenda

isso

de

não

conseguir

imaginar

os

pensamentos de outra pessoa, o ponto de vista alheio. Um atentado contra a arte. Quer mostrar que pode ser um escritor, que desistiu de sua carreira, casa, carro, cachorro e casamento para seguir uma certa voz estranha que lhe dizia que poderia ser, de alguma forma, um tipo de artista. Quer dar um passo rumo à profissionalização e, para isso, precisa não cometer os erros estilísticos dos autores menores que lera ao longo de sua vida. Neste momento, pensa principalmente em não cometer o erro de misturar os tempos verbais na narrativa, pois ficaria estranho. Anotado, esse erro não será cometido. Ele sabe escrever. Não explicar tudo demais, não ser didático. Ser fluido como um fluss alemão. O bar está enchendo e quase todas as mulheres estão acompanhadas. Está sentado sozinho numa mesa privilegiada, em

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frente ao palco, no meio do salão. Vê duas garotas sozinhas no mezanino, perto do banheiro. Bonitas demais para ele, e se quisessem alguma coisa com alguém estariam sentadas exatamente na área em que ele está. Tem mais uma no cantinho, de frente para ele, ao lado do palco, nem muito bonita nem muito feia (como eu, pensa – será que pensa?). O bar tem a pretensão de ser um pub, e é um subterrâneo num bairro nobre. Os preços o fazem se sentir na própria Irlanda, mas a esperança de que a banda seja boa e valha a noite o faz ficar plantado ali. Se for até a garota e receber um fora terá que voltar para o seu lugar e ficar constrangedoramente de frente para ela novamente, naquele impasse entre ir embora na mesma hora se sentindo um perdedor ou segurar a dignidade por mais um tempo e ir embora mais tarde se sentindo igualmente um perdedor. Espera, toma uns goles de cerveja e um pouco de coragem. Vai se levantar quando chegam algumas pessoas e se sentam com a menina. Sorte. Olha atrás de si e vê duas loiras muito bonitas numa mesa próxima. Talvez mais uma cerveja e ele poderá puxar conversa dali mesmo, sem precisar se levantar e voltar de mãos abanando. Uma garçonete passa, evitando o contato visual. Levanta o dedo. Moça, me desce aquela pretinha bem gostosa que eu já acabei com essa ruivinha aqui. A da Fullers por favor. Sorri, para amenizar a piada extremamente racista que acabou de fazer. A garçonete não esboça nem mesmo a sombra de um sorriso para deixa-lo menos desconfortável. O que a banda vai tocar? – Não sei, um rock. – Obrigado. Claro que é um rock, pensa, isso é um pub, enquanto a garçonete anota na sua comanda. Por um átimo pondera se um pedido de desculpas o fará se sentir melhor. Não diz nada e a moça vai embora, balançando um lenço vermelho amarrado no rabo de cavalo. Ela leva embora naquele lenço qualquer sinal de autoestima que ainda existia. Sente-se um idiota. O pedido de desculpas teria caído bem. Foda-se, daqui a pouco vou embora e nunca mais preciso ver essa

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mulher. Coça a barba, olha para a página semirrabiscada à sua frente, mais desenhos que palavras, seu novo alfabeto, seu rosto ainda vermelho, mas nessa meia-luz ninguém perceberia a menos que estivesse muito perto dele. Ninguém está próximo o suficiente. Ninguém nunca está. Ênclise, próclise, use-as. A mesóclise é sua amiga se você souber tratá-la bem. Pegue as palavras nas gavetas e encaixe umas nas outras como quem faz um instrumento musical. As mãos dedilhando o carderninho e a caneta entre os dentes. Crase, verbos, lembrar tudo aquilo que estudou há tanto tempo não é fácil. Decide deixar a caneta correr e depois pagar um revisor. Um bom revisor, um que receberá um bom dinheiro para não rir da sua cara, para deixar isso aqui correto, para deixar isso aqui irreconhecível. Ri. Não quer deixar o texto obscuro que pareça uma indireta mas também não quer que seja fácil demais, quer criar umas lacunas que façam seu leitor imaginar o real significado de cada parágrafo. Quer criar uma expectativa e, num momento de grandiloquência, pensa que isso fará parte de seu culto no futuro. A dúvida sobre algum trecho entrará no subconsciente do leitor e, afinal, pensa, é disso que os contos eternos são feitos. Metade, ou mais, da mensagem está em quem a recebe. Estimular o receptor a preencher as lacunas é deixar a obra maior e internalizá-la no leitor. Como um soneto que em poucos versos quer dizer tanta coisa. Pensa em metáforas que nunca foram usadas, mas não as encontra. As luzes ficam mais fracas e a banda entra. Impossível escrever ali. A garçonete finalmente traz sua cerveja e uns bolinhos que ele nem se lembrava de ter pedido. Uma outra garçonete, graças a Deus. Seu saldo de mulheres essa noite está em menos uma. Uma passada de som e, pela cara dos músicos ele já sabe que não gostará do que está por vir. Nem toca nos bolinhos e deixa metade da cerveja para o Orixá. Levanta-se, mete o caderninho no bolso, pega a jaqueta, põe os óculos e vai para o caixa. O caderno faz um volume engraçado no seu bolso,

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mas não se importa. Vai para a porta e agradece aos deuses pela lufada de ar frio do lado de fora. Acende um cigarro, o último do maço. Um volume engraçado a menos nos bolsos. O vallet olhando o incomoda um pouco. Sai andando. Vai procurar outro lugar e, no caminho, deixar a imaginação correr solta. É disso que precisa. E de uma mulher, e dinheiro, e uma casa, e amigos, e foco, e objetivo. Mas deixar a imaginação correr solta já é um bom começo. Há um pouco de vento e nada de garoa essa noite. Mesmo assim a jaqueta de couro cai bem. O crescente está lá, no céu limpo, como o sorriso do Gato de Cheschire. Anda devagar para não suar, saboreando cada tragada do cigarro. Como sempre, sua garganta pede outra cerveja. As ruas se sucedem mas ele não está ali, não de verdade. Cada casarão abandonado é um hospício e cada cachorro é um lobo moribundo. As histórias vêm e vão e não permanecem. Precisa escrever. Quando chegar em casa não irá procrastinar e colocará no papel cada palavra que sempre quis. Irá? Na verdade, ele sabe que não. Então que se dane, ir para casa não irá adiantar. Muda o caminho. Sobe uma ladeira, uma escada, passa pelo túnel e desce outra rua. Lá estão os bares e o movimento e as pessoas novamente. Inspiração e histórias. Tudo aquilo que ele precisa está ali. Leva uma cantada de um cara e, incomodado, muda de rua, procura um lugar. Jamais ser preconceituoso. Preconceituoso, machista, racista, homofóbico... Qualquer um desses deslizes, nessa geração de hoje, já era, seu texto estará fadado ao fracasso. O samba que queria está fechado essa noite. Ou não existe mais. Entra num bar aleatório e pede uma cerveja barata e outro cigarro. Bebe, paga e vai fumar mais um. A cabeça está leve. Senta-se numa mesa grudenta e saca o caderno. Não tentar frases de efeito, fugir dos clichês, surpreender, fazer-se entender. Concisão, coesão. Não dar uma de Saramago, não tentar subverter a gramática sem ao menos dominar a gramática. Fugir do

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rebuscado e da tentativa de parecer culto, pedante, infantil, artificial, forçado, nerd, idiota, amador, chato. Fugir das tentativas toscas de usar o coloquial para parecer descolado, cool, modernoso. Não ser um Paulo Coelho. Não coloque seus pensamentos na cabeça do personagem porque ele não é você. O narrador não é um personagem, ele não sabe o que se passa na cabeça do personagem, ele irá inferir e só. É o que talvez se passe na cabeça dele enquanto tenta rabiscar algumas linhas no moleskini surrado. Comprou uma caneta de nanquim feita no Vietnã só para isso, a crème de la crème do um e noventa e nove. Certifique-se de não usar os ditados da sua avó – dizer que a avó do personagem dizia assim não é desculpa para isso, afinal, o seguro morreu de velho. Levanta-se de novo e sai imaginando mais uma história, seu personagem vai ser como ele mas não será ele. Jamais. Passa por umas putas e pensa numa rapidinha. Pensa na vida de merda que elas vivem, pensa no nojo que sente toda vez que vai com elas e desiste da ideia. Aperta o passo ao passar por baixo do viaduto. Vê os grafites e os pixos e imagina quem os fez, toma o cuidado de não perder o farol. Um pouco bêbado e não muito cansado, é como se os sentidos se aguçassem. Se dá conta de que está com fome. Ele queria escrever frases espirituosas, marcantes e sarcásticas, daquelas que as pessoas leem e se perguntam de onde é que esse cara tirou um negócio desse? Mas o fato é que ele se impressiona fácil com qualquer coisa. As pessoas, não. Para em uma lanchonete, uma das últimas abertas, e pede uma fogazza. O sorriso largo de dentes tortos da garçonete e o aperto de mão sincero do senhorzinho no balcão o confortam um pouco, sua solidão amenizada por essas pessoas constantes, o velhinho que está ali desde que o bairro nasceu. Empurra a comida gordurosa com mais uma cerveja ruim. Uma porção já basta, mas ele pede outra para ficar satisfeito até à imobilidade.

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Obrigado, Seu Gianotti. – Por nada, filho, fica com Deus. – Amém, boa noite. – Boa noite. Escrever rápido. Frases curtas. Imprimir um ritmo de videoclipe. Prender o leitor. Geração facebook. Cento e quarenta caracteres. É isso. Vá diminuindo os parágrafos e as frases até o final, para emular um clímax. Se pergunta se os leitores pensarão que realmente não está falando de si, quando na verdade está. Se pergunta se eles acharão realmente que ele é tão estúpido a esse ponto. Sorri. Ele não é.

HERBERT DO NASCIMENTO era um operário. Agora é escritor e tradutor. Já participou de diversos concursos literários. Nunca venceu nenhum. Pudera... Fanático por todo tipo de literatura e por prosear com quem cruza seu caminho, é dessa experiência que toma inspiração para escrever. Fugiu do calor do Brasil há um tempo para a Irlanda, de onde escreve. Atualmente pensa em fugir do frio da Irlanda. Talvez para o Brasil. | HERBERT_HN@HOTMAIL.COM|

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O CORPO GLAUBER COSTA | Ubatã, BA. Perdeu toda a concentração e foi cambaleando para qualquer lado. Perdeu o raciocínio e atravessou a rua. Chegou do outro lado e a parede era macia. Encostou-se para dormir. Tão macia! Duas freiras passando pela calçada pegaram-no, uma pela cabeça e a outra pelos pés, como se carregando um defunto. Mas que sorriso! Balançaram-no em um ensaio para o lançamento. Foi jogado no precipício. A vertigem e o vento tornaram o corpo inteiro outra vez num instante mágico. Mas caiu dentro do lixo. Levantou-se quase reativo. Como era bom o cheiro artificial de flores! Inspirou forte e foi tragado para o alto. Várias pessoas voavam com suas asas enormes. Teve medo. Parou, a olhar. Que voos constantes e certeiros! Olhou ao redor e não havia nada perto de si. Quantas direções não existem em três dimensões! Girou no ar, com todos os sentidos. Tudo voltou a funcionar por um momento. Mas foi só no momento do giro. As cores sumiram. Uma ave cinza passou devagar. Que sono! O céu refletiu o seu rosto. Desviou os olhos e mergulhou para o outro lado. No mar. Banhouse de mar. Mergulhou o corpo todo no mar, porque o corpo precisava. Com fúria, fez a sua pele sentir o sal, a água e o peso da profundidade. Imergiu como quem afoga um objeto dentro da pia, com raiva. Escapuliu das próprias mãos e saiu pelo esgoto da avenida, pequeno, diante de uma imensa amplidão. Para quê uma cidade tão grande? Tirou o coração do peito e arremessou pelo chão, feito bola de boliche. Mas para acertar o nada. O coração rolou até parar em qualquer ponto. O dono ficou para trás. Não adiantou. Precisaria arrancar também o cérebro. Procurou dentro

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da cabeça, em vão. O cérebro estava flutuando no ar. Pulou feito cachorro a tentar pegar um osso que o dono oferece e afasta, oferece e afasta. Talvez tenha latido. Os sons são incomunicáveis. Pensou em arrancar a língua. Parou, quando, retardatário, notou que se mutilava. O que de si sobrava? Não era a vida que arrancava, era o corpo. De quem é o corpo da gente? Pisou os pés descalços no chão. Sentiu uma longa fome, de milênios. Caminhou com a barriga para dentro. Estendeu a mão e recebeu um beijo. Um beijo frio e úmido. Um arrepio. Deitou-se no chão, lacrimoso, sem solução, sem saída. Por onde anda a alma da gente?

GLAUBER COSTA publicou as crônicas “No longe, no dentro” e “Gênese”, ambas pela Coletânea Eldorado, da Celeiro de Escritores. Publicou o conto “Meu velho” na Revista Subversa, texto que faz parte do primeiro volume impresso. Escreve no blog glauber-manuscritos.blogspot.com.br e na Fanpage do Facebook chamada Manuscritos. | GLAUBER.COSTA@HOTMAIL.COM

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O BARBEIRO ESPIRITUAL JOÃO CERQUEIRA | Viana do Castelo, Portugal.

O Barbeiro Espiritual abrira o seu salão há um ano e o sucesso fora imediato. De segunda a sábado atendia uma clientela crescente que não se importava de esperar algumas horas para receber os seus serviços. Homens de diversas idades e estratos sociais pagavam mais de cinquenta euros para que ele os ajudasse a resolver os seus problemas, enquanto lhes cortava o cabelo e fazia a barba. Cada sessão demorava o tempo necessário para que o cliente saísse de lá em paz consigo próprio e agradado da sua nova aparência. No final, aqueles olhavam-se ao espelho e a imagem que viam era a de outro homem. Espalhados pelo chão, ficavam os cabelos e os problemas; dentro do copo onde limpava a navalha, misturados com o creme de barbear, jaziam as angústias. E apenas um ou outro raro cliente se ia embora com a sensação de o seu tormento não ter sido bem escanhoado. No entanto, ninguém sabia ao certo de onde viera o Barbeiro Espiritual. Uns diziam que era licenciado em psicologia, outros que tinha um mestrado em filosofia e outros ainda afirmavam quem em tempos fora padre, expulso devido às suas ideias heréticas. Detractores afirmavam que ele apenas repetia as receitas dos livros de auto-ajuda e as mensagens dos livros de Paulo Coelho. E correu ainda um rumor de que ele era louco e já havia degolado um homem. Na parede havia um único diploma: o curso de Coiffeur et Barbier de Paris. Alguns amadores tentaram imitá-lo, mas depressa ser viram forçados a fechar as portas. Outros barbeiros não conseguiram animar clientes deprimidos, psicólogos atrapalharam-se com as tesouras.

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O Barbeiro Espiritual não tinha concorrência. Um inspector das actividades económicas veio investigar o seu salão mas, após uma vistoria minuciosa ao espaço e algumas perguntas sobre o seu método de trabalho, acabou a aceitar o convite para lhe ser cortado o cabelo. E não tardou também ele a desabafar os seus infortúnios pessoais, tornando-se um cliente regular. O

salão

estava

decorado

com

quadros

de

pintores

contemporâneos, havia uma biblioteca que continha obras da literatura universal, um aquário com peixes tropicais, vasos com flores, e ouvia-se música clássica. A única cadeira existente era revestida a pele natural, as tesouras eram de prata e as navalhas de aço inox importadas do Japão. Entra então um homem de meia-idade no salão que pede para lhe ser feita a barba. O Barbeiro Espiritual convida-o a sentar-se na cadeira, coloca-lhe um pano em volta do pescoço, e começa a ensaboar-lhe a face com um creme de aloé. - Então caro senhor, o que traz cá? O homem revolve-se na cadeira e pigarreia, sem todavia responder. Habituado a casos difíceis, o Barbeiro Espiritual prossegue o seu trabalho esperando que o cliente se descontraia. A navalha japonesa começa a deslizar lentamente da orelha para o queixo, a lâmina perdendo o brilho à medida que o creme a submerge. E o primeiro corte dos pelos grisalhos traz alguma confiança ao homem. - Tenho sessenta anos. Sinto-me velho e fraco. Não falo com ninguém e nada me dá prazer. A minha vida não faz qualquer sentido. Ante o principal lamento dos seus clientes, o Barbeiro Espiritual começa a tentar desbastar-lhe a perturbação manejando com perícia a navalha. - Todos os seres humanos que não morrerem cedo vão ficar velhos e fracos. E no entanto os jovens nem sempre são as pessoas mais felizes. Há homens com noventa anos que desejam intensamente viver e há

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rapazes com dezoito deprimidos. A idade não determina a felicidade de cada um… O cliente interrompe-o. - Ainda que o que disse seja verdade, como posso aceitar viver neste mundo absurdo? Estamos no século vinte e um, fomos à Lua, mandamos robots para Marte, clonamos seres vivos, mas os seres humanos continuam a matar-se, a deixar morrer o seu semelhante à fome e a escravizá-lo… - O senhor e eu não somos responsáveis por isso. - Somos cúmplices. Assistimos à desgraça do mundo e nada fazemos. - E o que acha que deveríamos fazer? - Não sei, qualquer coisa … - Pode fazer protestos, participar em manifestações, escrever cartas aos responsáveis. - E acha que isso adianta alguma coisa? Acha que isso vai mudar o mundo? - Algumas conquistas da humanidade começaram assim. O protesto e a resistência pacífica têm imenso poder. - Acha que a fome em África, o terrorismo ou a guerra entre Israel e a Palestina vão acabar se eu for para a rua gritar ou enviar um email para algum governante? Supõe que os senhores da guerra ou os traficantes de droga se vão comover com os meus pedidos? O Papa, o Dalai Lama e a ONU passam o tempo todo a apelar à paz e ao respeito pelos direitos humanos e ninguém lhes dá ouvidos. - Pelo menos cumpriu a sua obrigação como cidadão. - E depois posso dormir descansado enquanto a matança continua, não é? - E por que motivo há-de carregar nas suas costas os problemas da humanidade?

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- Já lhe disse que somos todos moralmente responsáveis, você também. Aliás, diga-me qual foi até agora o seu contributo para ajudar os desgraçados deste mundo. O Barbeiro Espiritual interrompe por instantes o corte da barba, levanta a lâmina e olha para a carótida do cliente. - Converso com as pessoas que necessitam de ajuda. - E ganha dinheiro com isso. - É a minha profissão. - Uma profissão que existe à custa do sofrimento alheio. O Barbeiro Espiritual coloca mais creme de aloé no rosto do cliente. Nas colunas ouve-se Maria Callas a interpretar Ave Maria de Schubert. Um dos peixes tropicais solta bolhas de ar pela boca. - Suponho que ninguém é obrigado a vir ter comigo, pois não? - E onde queria que eu fosse? Acha que ia permitir que um psiquiatra me fizesse a barba? - Provavelmente não ficaria satisfeito com o resultado. - Claro, já viu o aspecto desleixado daqueles tipos? - Na verdade, alguns são meus clientes. - Não me admiro. - Bom, voltemos aos problemas que o atormentam… - Já lhos contei. E parece-me que afinal o senhor não tem nenhuma solução especial, pois não? - Toma-me por Deus? - Deixe-se de ironias e assuma que não me pode ajudar. - Permita-me então fazer-lhe uma pergunta. - Está bem, mas não se distraia quando estiver a acertar as patilhas. - Se o senhor fosse Deus, o que faria para melhorar o mundo? - Essa pergunta é absurda e confirma a sua incapacidade para me ajudar. - Tem receio de responder?

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- O que pretende com isto? Está a tentar baralhar-me? - Responda primeiro, se faz favor. - Sabe muito bem que os crentes justificam o mal devido ao mau uso do livre arbítrio concedido por Deus, logo desresponsabilizam-no. E quanto aos ateus, nem sequer perdem tempo com esses devaneios. - Mas o senhor é capaz de ir mais longe do que os crentes e reflectir sem os preconceitos dos ateus, não é verdade? O homem queda-se de novo em silêncio, uma gota de suor escorre-lhe pela testa. O Barbeiro Espiritual limpa a lâmina num copo com água deixando-a de novo a brilhar. - Talvez agora se dê conta que quiçá nem mesmo Deus, seja lá qual for a ideia que dele fizer, poderia mudar a natureza humana. Já tentou renová-la com o dilúvio e com chuvas de fogo, mas passado algum tempo ficou tudo na mesma. - Está a tentar divertir-se à minha custa? O sofrimento é para si uma comédia? - Estou apenas a mostrar-lhe que há certas coisas que ninguém pode mudar e que apenas nos resta aceitar o mundo tal como ele é. Uma comédia e uma tragédia. - Aceitar o mundo como ele é, longe da violência e da miséria … - Sim, porque vivemos no melhor mundo possível. - O melhor mundo possível? Então imagine que alguém lhe punha uma bomba no salão? Aceitaria tranquilamente o sucedido, caso sobrevivesse, conformando-se com a natureza humana? - Accionava o seguro contra todos os riscos. - Guarde o sarcasmo para outro cliente. Mas no entanto acaba de me dar razão. Até os privilegiados sentem que a vida é uma permanente ameaça. E o que fazem os que não têm seguro contra qualquer risco? Quem os protege?

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- Pretende então entrar no inferno para ver se lhe apaga o fogo? O mais certo é ficar também queimado. - Há quem faça trabalho voluntário em zonas de guerra, quem socorra feridos de catástrofes naturais, quem enfrente o vírus do Ébola… - E porque é que o senhor não vai também ajudar os desvalidos? Talvez finalmente encontre a redenção para o que o diz ser uma responsabilidade moral. - Não seja cínico. Sabe muito bem que a minha idade não me permite grandes esforços. - Não se sinta culpado. Ajudar desconhecidos é algo admirável, mas muito poucas pessoas são capazes de tal. O homem começa a falar mais alto. - E no fundo é isso que lhe convém. Que ninguém faça nada pelos outros para haver sempre infelizes que venham ao seu salão ser enganados. O Barbeiro Espiritual compreende por fim que o cliente trouxera a sua própria navalha, bem afiada. Talvez estivesse diante de um colega frustrado. - Afinal, procura algo mais do que uma redenção … O homem dá um murro no braço da cadeira. - Sente-se desmascarado não é? O Barbeiro Espiritual interrompe de novo o corte e respira fundo. Os peixes agitam-se no aquário. Sem que o cliente veja, engole um comprimido. - Quer pegar no pincel e na navalha e fazer-me a barba? - Já lhe estou a tosquiar a soberba. O

homem

solta

uma

gargalhada,

continuando

a

falar

entusiasmado. - Não estava à espera que lhe dissessem que é uma fraude e que não consegue ajudar ninguém, pois não? Não pensava que um dia iria entrar alguém como eu no seu salão e pô-lo no lugar? Pois esse dia

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chegou. E até lhe digo mais: é capaz de ter mesmo razão. O mundo não pode ser mudado. A natureza humana não tem emenda. Nem mesmo Deus pode fazer alguma coisa por nós. Não há redenção possível. Para quê nos ralarmos, afinal? E é por isso mesmo que o seu salão não serve para nada. Feche-o. Feche esta espelunca. O homem olha triunfante para o Barbeiro Espiritual, como se lhe tivesse arrancado o escalpe. Este pousa a navalha e coloca um espelho do lado esquerdo e do lado direito do cliente para que este avalie a simetria das patilhas. O homem parece satisfeito com o trabalho. Sorri. Por agora, a desgraça do mundo boiava no copo onde fora limpa a navalha.

JOÃO CERQUEIRA é doutorado em História da Arte pela Universidade do Porto. É autor de oito livros, entre eles A Tragédia de Fidel Castro, publicado nos EUA com o título The Tragedy of Fidel Castro, que venceu diversos prêmios, como o USA Best Book Awards 2013, Beverly Hills Book Awards 2014 e o Global Ebook Awards 2014. Em 2015 será publicado em Espanha pela Funambulista, na Itália pela Leone Editore, no Reino Unido pela Freight Books e na Argentina pela Eduvim. Seus textos são publicados em uma série de revistas internacionais. | JOOMCERQUEIRA@GMAIL.COM

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JÁ REPAROU? PEDRO IVO | Cunha, SP.

você já reparou no arrepio subjacente a qualquer brisa, a qualquer vento a qualquer bicho, coisa ou gente? você já parou (ou dançou) para Perceber sentindo o absurdo infinito produtor de cada ente? você sente? e já reparou que algo em ti fica intolerante, impaciente Com o mistério insistentemente rente?

PEDRO IVO (Curitiba em 1984), atualmente vive no interior de São Paulo, de onde lê e escreve intensamente, desde a pré-adolescência. Passou alguns anos na USP, pesquisando e explorando diversos assuntos. Seus interesses principais tem sido Arte, Ecologia, Antropologia, Natureza e pesquisas teóricas e práticas para desvelar novos níveis de realidade e novas possibilidades de sentimento, pensamento, percepção e experiência. | POIESISPEDRO@GMAIL.COM

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NOITE E LOUCURA EBER S. CHAVES | Vitória da Conquista, BA.

Deus chamou a luz de dia, mas a escuridão chamou de noite. Houve noite e houve manhã no primeiro dia. Noite que a maioria dos seres vivos tem como período de descanso, o que não é o meu caso. Nesse período sombrio, a minha visão fica diminuída, e vêm os ruídos inexplicáveis e visões enevoadas. Naquele determinado momento, durante a rotação da Terra, naquelas horas em que o meu leito encontra-se na parte escura do planeta, vulnerável ao espectro de uma noite invernal, o orvalho forma-se como um depósito de gotas de água resultantes de condensação de vapor na superfície de objetos que permanecem ao ar livre, durante as horas e minutos em que trevas reinam, até que venha o próximo sol. Mas, enquanto não vem o sol, apago a luz do meu quarto no mesmo momento em que o silêncio da noite bate à janela, silêncio apenas quebrado pelo riso das estrelas de um céu enluarado. Desde que era menino, ouvia falar de como, em noites passadas – noites como esta que agora desaba sobre mim –, haviam aprendido a amar a luz de minha lamparina, que para eles tornara-se como uma estrela guia. E, quando os homens insanos não conseguem dormir enquanto não fazem o que é mau, conservo-me imóvel, a natureza dorme, entrego-me ao sono, e não acordarei até que não haja mais estrelas no céu. Nesse momento, Deus me deu um espírito de profundo sono, e olhos para que não vejam e ouvidos para que não ouçam a realidade desperta. Sou liberto do estado de vigília, da consciência, da vida terrena. Entorpeço-me entre imagens oníricas e submerjo

em

conteúdos

profundos

do

inconsciente:

conteúdos

afundados nas regiões abissais da mente, locais de palácios intocáveis,

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de memórias inescrutáveis e de pulsões e de desejos dos quais o Eu não que ter conhecimento. E num sonho, sonhei o amor. O amor que a mim foi negado, mas não só a mim, a ela também. Vi o destino vestido com seu manto negro, solitário, sentado à beira da praia, que era a Via Láctea, desenhando na areia, que eram as estrelas. E vinha o mar sobre a praia com suas ondas saltitantes, que eram a vida, e arrebentavam na areia, mas os desenhos continuavam como a mão do destino os fez. E consenti que a brisa marinha me arrastasse até bem próximo do destino; e observei que, na verdade, os desenhos eram caminhos surreais feitos para o nosso amor, caminhos que mais pareciam labirintos. Soube, então, que nosso amor foi jogado em algum desses incalculáveis labirintos astrais: labirintos constituídos por um conjunto de percursos intrincados, criados com a intenção de desorientar quem os percorresse. Não tivemos a mesma sorte de Teseu, nosso fio de novelo não era tão longo para que pudéssemos encontrar o caminho de volta. O cosmo – que é a praia, a areia, o mar, o vento, o destino –, de encarnação em encarnação, tem conspirado contra nossa paixão. Os deuses, num acordo secreto, se organizaram para realizar ações subversivas contra um amor estabelecido. Parece ser o nosso desejo algo proibido – uma catástrofe cósmica. Uma proibição de origem incerta que cerca e cerceia as nossas liberdades individuais e coletivas para amar. Estamos condenados aos desencontros! A essas divindades, apenas lembro, que o arrependimento expresso por qualquer uma delas não influirá em suas responsabilidades, mas que isso poderá reduzir a sentença das que forem culpadas. E assim, uma muralha invisível foi erguida entre nós, interditando qualquer contato. Muralha invisível da cor de um mineral transparente, de algum desses tipos de minerais incolores – se em um mineral incidir um feixe da revelação divina de luz branca, não havendo absorção de radiação com comprimento de onda na faixa da luz visível, este mineral será incolor,

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será parte dessa muralha descomunal, daquelas que apenas são vistas nos cenários imemoriais de uma mente desvairada, resultado de alguma doença mental que não é classificada como a própria doença, mas como outra coisa, de difícil sentido, mas que sempre será outra coisa. Outra coisa de algumas visões sobre a loucura – de que o sujeito não está doente da mente, mas que isso é, simplesmente, uma maneira diferente de ser julgado pela sociedade. Mas nem se fossemos loucos mereceríamos tal castigo: deuses, não usem tal ultraje para defender seus atos abomináveis contra um amor tão puro, o amor entre ela e eu e nós e eles, o amor que era para ter sido. Agora, ao tempo foram incumbidos a distância e o esquecimento, e em meio ao som das ondas, ao frescor da brisa marinha, à maresia, e à tamanha consternação, refleti, pensei em palavras, palavras doces, palavras que ao saírem da minha boca, e se propagarem pelo ar em forma de vibrações sonoras, penetrem nos ouvidos da amada, aguçando os seus sentidos e lhe trazendo algum conforto. E assolado por esse turbilhão de sentimentos, tive um pensamento, uma ideia simples, de fácil explicação: contarei a minha amada que esse é o modo do nosso Karma agir, talvez isso seja agradável aos seus ouvidos. Direi a ela que estamos sendo punidos por pecado que a nós nunca foi revelado, e para que não se preocupe conosco, pois podemos ser felizes em outras vidas: talvez, se os deuses tiverem pena do nosso amor, mais uma ou duas encarnações. Sei que ela dirá que eu não acredito nisso, mas, se for para vêla sorrir, apego-me a quaisquer crenças, se para isso as religiões nos são convenientes: para explicar o inexplicável; para tudo dar respostas. Isso poderá acalmar o nosso ser, resolver as questões do dia a dia, salvar nossa alma. Se, por pior que seja nossa existência, é-nos prometida outra chance, um paraíso, um conto de fadas para todo o sempre. Por isso, direi ainda para que não chore por esta vida, pelo amor não amado. O relógio cósmico que marca segundos, minutos, horas e eras, anda muito rápido, os ponteiros nunca param para ouvir

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lamentações, nem retornam para que a lágrima não caia. Sendo assim, amada, brado na mais alta nota para que todos ouçam que te dou duas escolhas: busque-me dentro de si, ou embriague-se com o vinho das fábulas do amor além túmulo. E esse meu brado, ao propagar-se pela atmosfera, interagindo com as diferentes camadas de ar, a topografia, e outros obstáculos capazes de produzir ecos e fenômenos de difração e refração do som, causou, por certo tempo, o emudecimento das ondas do mar, das aves marinhas e, até mesmo, do ribombar do trovão. E, após o ecoar desse brado, houve o revoar de multidões de aves marinhas: aves adaptadas ao meio ambiente marinho exibem, muitas vezes, uma marcada convergência evolutiva. E essas aves realizaram grandes migrações anuais, cortando o equador e dando a volta na Terra, e, cansadas após a grande jornada, repousavam e até dormiam sobre as águas. E a minha amada estava entre elas, e não estava em sua forma humana – àquela forma que me fez nascer o desejo, que me causou convulsões, suspiros e murmúrios que mostraram a imensa desordem dentro de mim –, mas era a imagem e semelhança de uma embranquecida gaivota, que marcas pretas trazia na cabeça, e bicos fortes e compridos cobrindo-lhe as maxilas. A minha amada raramente se aventurava em mar alto, mas aquela gaivota – aquela cujo espírito se pautava em ideias que afirmavam e desejavam a liberdade absoluta – era vista livre pelo oceano, acompanhando os barcos pesqueiros, roubando-lhes os peixes nas redes. Esse é o destino de um espírito livre: voar, voar, voar. A gaivota bate as asas alternadamente, ascende voando, rodopia e plana para baixo, a fim de apanhar alimento em forma de peixe. A gaivota, ave irrequieta e aparentemente incansável, consegue continuar voando quebrantando ventos tempestuosos. O seu grito áspero e rouco revelava sua presença, trazendo horror aos peixes aprisionados às redes e alarme aos pescadores avarentos. Um desses pescadores aproximouse e me contou uma história assombrosa sobre aquelas abundantes e

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sobrepostas penas: de que teria contado seis mil e quinhentos e quarenta e quatro penas numa única gaivota grande. Notei então, que todos os pássaros são aves, mas nem todas as aves são pássaros. Eu também era ave, mas a anatomia do meu corpo não permitia que conseguisse sair do solo, apenas possuía penas, apêndices locomotores anteriores modificados em asas, bico córneo e ossos pneumáticos. E nisso, abateu-me grande tristeza: a tristeza de ter asas e não poder voar, tocar as nuvens, contemplar a borda do oceano, avançar contra cadeias de montanhas, acariciar a imensidão do azul do céu. O meu estado era o de ter os pés no chão. A minha condição era a de estar aprisionado a uma prisão sem muros à beira de uma praia, encarcerado sem julgamento algum, inocente. A minha pena foi das mais duras: estar de costas para o mar, nunca mais vislumbrá-lo. Desiludido, já quase sem esperanças, contentei-me, tão-somente, com a maresia, com a solidão do som das ondas, com o horror propagado por um grito áspero e rouco, com o sentimento de liberdade da alma aprisionada àquela gaivota embranquecida, que marcas pretas trazia na cabeça, e bicos fortes e compridos cobrindo-lhe as maxilas – aquela que viajava livre pelo oceano. E esta noite angustiante vai caminhando para o seu fim. A escuridão dissipa-se; o sol completa seu curso e os primeiros raios atravessam as frestas das janelas. A minha mente ainda está atravessando um período de transição entre o estado de sono e o estado de vigília. A essa altura começam a surgir alucinações: sinto a presença de uma pessoa; ouço vozes; flutuo, saio do próprio corpo, e logo a ele retorno. Meus olhos se abrem, sinto a minha respiração e me vem o alívio. Olho minhas mãos e nelas não há cadeias, e já não percebo a maresia nem o frescor de uma brisa marinha. Os sons das ondas e o grito áspero e rouco da gaivota calaramse. E quem era aquela imagem feminina a quem eu chamava de minha amada? Agora, todas essas imagens perderam seu sentido, apenas uma

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memória dessa noite me atormenta: a lembrança do que estava escrito na areia; das palavras escritas em língua própria de um povo imemorial; povo que habita as moradas estabelecidas acima do arco celeste; moradas suspensas no cosmo por forças divinas. E aquilo que parecia desenhos, labirintos astrais, rabiscos ordenados, a mim revelou-se: Sete noites e sete avisos à sanidade; sete noites e sete consumações de um desejo; sete noites e um terço de um dia; sete noites e esvaece - se a razão; sete noites, e antes que venha a oitava , a loucura.

EBER CHAVES (Itaquara, 1979), atualmente, reside em Vitória da Conquista/BA. Graduado em Administração, é blogueiro, apreciador de psicanálise, filosofia, poesia, literatura fantástica, filmes de ficção e fantasia, rock’n’roll, cervejas especiais e feijoada. | EBER.CHAVES79@GMAIL.COM

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TECHNOLOGY FABIO NAVARRO | São Paulo, SP.

O ego é nada mais do que um aglomerado de impulsos elétricos em uma determinada área do telencéfalo... ...imensuráveis bytes circulam nesses tempos, onde nem as sinapses geradoras de sensações orgânicas são bem resolvidas; Assim, eles não saciam.

FABIO NAVARRO teve o primeiro trabalho como escritor em uma coluna sobre cinema, aos doze anos, no jornal do colégio. Publicou o conto A Cria do Oitavo Dia na coletânea Sangue, Suor e Palavras Mal Dormidas (Editora Big Time). Participou das publicações virtuais Jamé-Vu e Revista Literária Br. Atualmente, escreve para o site Altnewspaper e terá seu primeiro livro de poesia, Descarrilho Cotidiano, publicado pela Editora Benfazeja. | GANGRENADIARIO@GMAIL.COM

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POR QUE TÃO DUROS COM A BRANCA DE NEVE: uma reflexão sobre o modo como interpretamos os contos de fadas ANA LUIZA FIGUEIREDO | Niterói, RJ.

É interessante como tantas pessoas decidiram ler Branca de Neve como uma lição de moral, e não como qualquer narrativa: a jornada de um personagem, que passa por alguma coisa, devido a alguma coisa, em busca de alguma coisa. Tal atitude provavelmente se deve ao gênero em que a história da princesa se encaixa e, sobre ele, há sempre muita discussão. Os contos de fadas traziam verdades relativas aos tempos em que foram concebidos: florestas são perigosas, crianças desaparecem à noite, entre outras. Como quem conta um conto aumenta um ponto, cada aldeão acrescentava-lhes um trecho inédito, espelhado em sua própria vivência. Assim, os contos também viraram registros de situações comuns daquela época – a fome, o abandono dos pobres, o preconceito, a situação dos órfãos. Justamente por isso, davam voz a grupos negligenciados naquela sociedade, como a mulher (vilã ou vítima), o filho caçula, o deficiente físico, as crianças e até mesmo os animais. Acima de tudo, essas histórias eram meios de pertencimento, construção coletiva de referenciais. A recente classificação dos contos de fada como normativos e opressores é, na verdade, bastante equivocada. Os contos eram maneiras de viajar, experimentar e transmitir. Eles realizavam o sentido

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de experiência cunhado pela filosofia de 'atravessar' várias camadas espaciais ou temporais. Tais experiências eram transmitidas oralmente, de geração a geração, “como quem passa um anel', na expressão de Walter Benjamin1. Justamente por isso, funcionavam como modo de construção de uma memória coletiva, compartilhada pelos habitantes do mesmo vilarejo, feudo ou comunidade. Igualmente falaciosa é a ideia de que contos de fada são voltados para o público feminino. Branca de Neve não é uma história (nem um manual) para meninas, assim como João e o Pé de Feijão não é exclusivo para meninos. Seria um tanto estranho pensar que o gênero do protagonista determina seus leitores. O Pequeno Príncipe, Alice no País das Maravilhas, Pinóquio, Píppi Meialonga; são todos clássicos que conversam com crianças e adultos de ambos os sexos justamente por tratarem, de modo mais aprofundado, da jornada de um personagem que busca alguma coisa – e que, para alcançá-la, terá que vivenciar uma série de experiências. O homem gosta de contar e de ouvir histórias. Essa conclusão de Walter Benjamin2 revela o atrativo que manteve o público (sobretudo o infantil) interessado nos contos de fadas por tantos séculos, mas que alguns esquecem ao impor aos pequenos uma visão extremamente realista e crítica sobre um universo fantasioso – o que não exigem de outras leituras igualmente fantasistas. Tal condenação é, no mínimo, descabida. Já dizia Benjamin: o universo desses contos seculares é muito limitado para representar a complexidade do mundo em que vivemos hoje. Portanto, não faz sentido

buscar

neles

o

significado

das

nossas

condutas

e

comportamentos cotidianos. O que esses contos nos deixaram são imagens – a floresta, a torre, o castelo – e histórias divertidas. 1

BENJAMIN, W. O narrador. In: Obras escolhidas I. Trad. José Carlos Martins Barbosa e Hemerson Alves Baptista. São Paulo: Brasiliense, 1987. 2

BENJAMIN, W. O narrador. In: Obras escolhidas I. Trad. José Carlos Martins Barbosa e Hemerson Alves Baptista. São Paulo: Brasiliense, 1987.

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Um dos pontos mais polêmicos dessa discussão com certeza é o casamento. O final feliz. Há uma visão equivocada de que a maioria dos contos de fada fala de romance e são majoritariamente protagonizados por moças que, de tanto sonharem com o amor, acabam por encontrá-lo. Primeiramente

é

preciso

esclarecer

que

o

número

de

protagonistas femininos e masculinos se equivale, bem como o número de histórias que nada têm a ver com a temática amorosa. O que acontece é que, nas últimas décadas, as mais exploradas envolvem casais e são protagonizadas por donzelas – o que não é gratuito. Em segundo lugar, nenhum desses contos trazia jovens sonhando com seu romance ideal. Os personagens não possuíam densidade psicológica suficiente para isso. A visão dos príncipes e, principalmente, das princesas como sonhadores e românticos aparece muito tempo depois, através da ressignificação dos contos e seus personagens para o contexto contemporâneo. Devido a essas visões deturpadas, muitos tratam as jovens que terminam felizes para sempre como não merecedoras dessa felicidade. Elas só foram gentis, não viveram uma aventura cheia de perigos como os personagens masculinos. Há ainda aqueles que veem o casamento das mocinhas como uma grande submissão ao sexo oposto, pois é apenas através da união com um príncipe que as jovens conseguem ser independentes de seus malfeitores e realizadas no amor. Já para os personagens masculinos, a conquista da amada seria um ‘prêmio’ por sua valentia e/ou trajetória. Convenhamos que não é difícil inverter essas afirmativas. Por que não dizer que Branca de Neve também vive uma aventura? Por que não dizer que, para ela, o príncipe foi uma espécie de prêmio, conquistado depois de muitos sacrifícios, ou uma ‘recompensa’ por seu caráter? Por que não contar quantas aventuras de personagens masculinos efetivamente envolvem resgatar donzelas, antes de dizer

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que são majoritárias? E por que não lembrar dos vários contos em que é a jovem quem resgata o amigo, a família, o reino ou o amado? Afinal, quem (ou o que) tornou essas histórias impopulares? Branca de Neve não diz para as garotas que elas têm que esperar o príncipe para salvá-las – ela inclusive estaria morta se não tivesse fugido da madrasta. Essa “moral da história” foi incluída tempos depois, por grupos interessados em ter a figura feminina subordinada à masculina. O problema não está no conto, mas em como ele passou a ser usado. Ainda sobre a temática do casamento, entramos novamente na questão da temporalidade. Os contos de fadas nasceram na Idade Média, e só havia dois jeitos de ter uma vida melhor naquela época: nascer nobre ou se casar com um. Claro que um camponês não teria a menor chance com uma princesa, mas é para isso que um mundo mágico existe. A única chance plausível de ascensão social para os personagens dos contos de fada era o casamento, até porque eram mulheres e/ou filhos caçulas, ou seja, não teriam direito a nada. Já que o jeito é se casar, porque não por amor, sentimento tão recente nesse tipo de união? Assim, a paixão instantânea é tanto um recurso literário quanto um reflexo da simplicidade da narrativa desses contos. Por essas e outras, não se trata de adorá-los, mas de não exigir dos contos de fada o que não podem dar. Não há como lê-los esperando um reflexo do mundo atual, muito menos cobrar de Branca de Neve a complexidade de uma Capitu. Não vamos transformar os contos naquilo que não são, mas vamos aproveitá-los (e deixar que os outros os aproveitem) por aquilo que de fato oferecem – histórias mágicas, de um tempo remoto e místico. Como Benjamin já explicou, nosso universo não cabe mais nas imagens dos contos de fada, razão pela qual são vistos como infantis.

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Entretanto, o semiólogo, antropólogo e filósofo Jesús Martin-Barbero3, dialogando com os estudos do sociólogo Edgar Morin4, encontra um paradoxo no novo milênio. Segundo ele, nós, pessoas do século XXI, ainda desejamos o conforto de um mundo simplificado, dividido entre o bem e o mal, o feio e o belo, isto ou aquilo. Desse modo, qualquer produto cultural que deseje ser largamente consumido pelo público precisa estar o mais próximo possível dessa dicotomia, utilizando elementos que sejam familiares aos consumidores. Assim, a publicidade e o mercado cultural retornam aos contos de fadas em busca das imagens que eles sedimentaram no nosso imaginário, atribuindo-lhes novos significados. O problema não está na Branca de Neve, ou em lê-la, mas na transferência de valores para a personagem, através de atributos que nada têm a ver com sua concepção original. A princesa bondosa deixa de ser solidária, agora ela só precisa ser bonita e, para isso, deve usar a marca X. O príncipe não vem a cavalo, vem num carro de luxo; não é mais corajoso, é bem-sucedido; não se apaixona prontamente, é seletivo. A varinha de condão vira o cartão de crédito, o baile ganha a sigla VIP, final feliz é ficar rico, feio é não ser empreendedor. Assim, valores morais vão sendo cada vez mais substituídos por valores de mercado (não apenas na publicidade), enquanto as fórmulas consagradas permitem que o público se identifique mais rapidamente com os frutos da produção cultural massificada. O que é Harry Potter senão um predestinado, tal qual o jovem cujo destino era tirar a espada da pedra? Os grandes estúdios e editoras não lucram ao reforçarem uma determinada visão dos contos 3

MARTIN-BARBERO, Jesus. Dos meios às mediações. Comunicação, cultura e hegemonia. Trad. Ronald Polito e Sérgio Alcides. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2003. 4

MORIN, E. Cultura de massas no século XX: Neurose. Trad. Maura Ribeiro Sardinha. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.

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de fada, fazendo vários remakes que “os contam de um novo jeito”? Aliás, por trás de tantos best-sellers apresentados como inovadores, não se escondem conceitos antigos como a pureza, o amor que salva, o escolhido e a profecia? Dirigir as críticas e o rancor a contos de fada seculares é condenar a vítima injustamente. Eles não possuem os valores que tanto criticamos, muito menos foram criados com o propósito de doutrinar ou convencer. Se tinham um propósito, era o de agregar – como já foi discutido lá no comecinho do texto. Assim, vemos pessoas atacando furiosamente esses contos que, se fossem todos destruídos amanhã, não alterariam o modo como a publicidade, a cultura de massa e o mercado cultural se apropriam de imagens universais para legitimarem seus discursos e criarem suas produções. Se não viessem dos contos e mitos, esses referenciais imagéticos viriam de qualquer coisa mundialmente difundida, cujo significado original pudesse ser radicalmente adaptado. Portanto, sejamos severos com o que merece nossa severidade. Vamos criticar essa cultura de consumo que usa os referenciais mais intrínsecos à história dos povos para vender, a repetição de ideias, as mazelas que se mantém desde a Idade Média. E mais carinho à Branca de Neve.

ANA LUIZA FIGUEIREDO é redatora, publicitária, freelancer, estudiosa e dá seus primeiros passos como escritora. Recém-formada em Publicidade e Propaganda pela UFRJ, pesquisa sobre consumo, representações de gênero, configurações sociais e produção cultural – sobretudo literária. Já foi premiada em diversos concursos literários, entre eles o Prêmio Off Flip, com trabalhos selecionados para as antologias Fragmentos do Medo, Pasiones (publicada na Espanha), e Trópicos Fantásticos. Entusiasta da Literatura Infantil, lança seu primeiro livro do gênero no final de 2015 – O Mirabolante Doutor Rocambole. Ana também escreve para a revista digital Afronte e no blog Check-in. | ANALUIZA.DFIGUEIREDO@GMAIL.COM

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TRABALHO PALAVRAR JORDANO SOUZA | São Gotardo, MG.

quando pequeno, Deus colocou a mão na sua boca e disse: esse franzino vai botar palavra pra trabalhar.

era tanta judiação que havia palavra que não sabia seu lugar. palavra porta, sempre usada, já não sabia se ficava aberta ou fechada.

adivinhou a ficar nem fechada nem aberta, semicerrada recebia o calor e o sonho de todo mundo que nela não entrava.

JORDANO JOÃO BATISTA DE SOUZA é mineiro de São Gotardo, escreve desde que conheceu sons e palavras. Produziu várias poesias que já foram publicadas em Blogs e Revistas digitais, tendo algumas classificadas em concursos da área. Atualmente o autor se dedica aos Haicais e poemas sobre o cotidiano, depois de passar por Goiás e Brasília reside novamente em Minas Gerais. | SOUZA_JORDANO@HOTMAIL.COM

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E SE... LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES | Porto, Portugal. Pois é, e “se” isto e “se” aquilo… enfim a vida é feita de “ses”! De facto sou forçada a admitir que, esta expressão verbal é uma constante na nossa vida, mas, pode mudar tudo! Exemplos? Vários!!! O nosso namorado/noivo chega atrasado… Duas coisas podem acontecer: fazemos uma birra e é zanga na certa, mas “se” o ouvirmos atentamente “se” calhar até existe uma razão plausível para o atraso. ”Se” não for o caso, temos sempre a hipótese de o enviarmos de volta para casa da mãe e seguir em frente… O nosso filho adolescente está naquela idade complicada em que nada que a mãe compre agrada? Pois, “se” insistirmos em comprar a sua roupa ao nosso gosto… é certo que não a vestirá, mas “se” pelo contrário o levarmos a escolher as suas próprias roupas, ou até “se” lhe dermos dinheiro e o mandarmos sozinho... Poderá não fazer a compra mais acertada, mas certamente comprará a que faz o seu gosto. Agora, provavelmente outros “ses” terão início… E não partirão do(a) seu(sua) filho(a) que, certamente fez a compra que queria! Mas sim de si mãe… Isto claro “se” o gosto do(a) filho(a) não coincide com a sua ideia de compra acertada! Então, nova onda de “ses” terão início... “se” eu tivesse ido… “se” o tivesse orientado melhor… “se” o tivesse convencido a aceitar a minha companhia… Mas enfim mães, os filhos crescem! Crescem e tornam-se autónomos e isso é ótimo, sinal que estão a evoluir como seres pensantes! E “se” lhe transmitirmos uma boa dose de princípios e bom senso talvez consigamos diminuir os “ses” que tanto atormentam o nosso

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coração de mãe. Porque “ses”… Ah, esses sempre existirão, em todos os tempos, em todas as épocas. Fazem parte de nós! Senão

vejamos,

ficam

jovens

adultos,

fase

em

que,

inevitavelmente, já não será possível controlarmos os seus passos. Sim, porque nós mães, somos naturalmente controladoras e tudo em nome do imenso amor que temos pelas nossas “crias”. Mas aí até que está justificada a nossa, por vezes, exagerada preocupação, afinal, deixamos de conhecer uma boa parte dos seus amigos, os pais dos amigos. Enfim, começam a sair do ninho e isso é terrivelmente assustador para uma mãe. E claro está “se” anda em boas companhias, a coisa corre tranquilamente. Agora quando notamos algo de diferente no seu comportamento, o nosso radar entra em ação. E “se” forem os novos amigos que estão a desviá-lo do que, na nossa sábia visão da vida, consideramos seguir no “bom caminho”?! Aí o coração de mãe entra em alerta geral. Que saudade de quando era pequenino. Até as noites mal dormidas se transformam em momentos perfeitos! Fim do secundário! As nossas “crias” vão para a faculdade… e “se” não escolhem o que consideramos o curso certo? Será que devemos influenciá-lo(a) noutra direção? Mas, e a felicidade e opções de vida dele(a) não contam? Cuidado! Somos mães, não donas das suas vidas! Devemos aconselhar não obrigar, até porque “se” não seguirem o seu próprio coração, correm sérios riscos de “se” tornarem adultos infelizes e não realizados. Então, e a primeira namorada? “Se” gostamos dela, a coisa vai correndo… um ciumito aqui, outro ali, mas até que não importa “se” é alta ou baixa, loira ou morena… Mas bonita, ah bonita convém ser, mas “se” na, nossa ótica, for boa rapariga até a toleramos mesmo não se não for uma beleza! Agora, se conseguirmos vislumbrar algo que não se encaixe no perfil de nora perfeita (será que isso ainda existe?!), aí o

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assunto muda de figura e a mãe leoa vem ao de cima… E tudo pelo bem da nossa “cria”, claro! Pensamos nós… Mães! As mães têm muitos “ses” em relação aos(as) seus(suas) rebentos… Bem sei que esse vínculo não desculpa tudo, mas enfim somos mães que fazer?!

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES integrou em 2014 e 2015 a Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho”, Vol. V, Chiado Editora e publicou “Regresso e Reencontro” (prosa) também pela Chiado Editora. Além disso, foi coautora na Coletânea “Eu tenho um Sonho…” (prosa), publicado pela Papel d’Arroz Editora. Em 2015, foi coautora na Coletânea “Poema-me”, publicado pela Lua de Marfim Editora. | LUCIAGONCALVES65@GMAIL.COM

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UM TOM MAIS BRANCO DE PALIDEZ LUIZ HENRIQUE M. SOARES | Jacarezinho, PR. E embora meus olhos estivessem abertos Daria no mesmo se estivessem fechados. Whiter Shade of Pale, 1967. A cidade acordava de uma noite ruidosa, sem a doçura dos verões, sem o cheiro de pão, com o tempo seco e espinhoso. A polícia militar paulista com fardas e luzes, naquela madrugada de terça-feira, enxergou tão veemente: Uma mulher grávida e morta, deitada no carpete vermelho-sangue. Lamentos de todos os lados, olhos curiosos, exclamações piedosas. Antônio, marido da vítima, chorava pelo corpo branco e puro. As lágrimas caíam por simples dilatação dos olhos. Remorso. Do outro lado da cidade, em um bairro sem nome, com gente sem nome, coberta pela seca desgraceira paraibana, em meio a tantos encontros e desencontros da fome, a doce Michelle vai descobrindo que travesti não tem lugar no mundo. Respiração de puta velha. A poeira impregnada no cabelo preto e sujo a faz nunca esquecer-se do Nordeste esquecido. Poeira na pele, poeira nas partes. Negra craquenta. A morte vai comendo aos poucos como cupim roendo a madeira velha. O relógio parece que anda mais rápido, contando os segundos como se conta os dedos das mãos. Um segundo a mais é sempre um segundo a menos. A morte é uma festa surpresa, sem convidados nem bolo. O diabo, que é cliente fixo das putas, hoje deveria estar cansado. Era certo. Ou deveria estar atrás de freiras mal comidas ou fanfarrões de

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terno. Michele, que era Star, foi e ainda é uma criança que não abre os olhos, não respira, não clama, não vive. Um ser raquítico, imundo de sonhos. Naquela

manhã

cinzenta

que

ameaçava

perfumes

primaverescos, ainda era Carlos. Na verdade desde sempre foi Carlos Manoel, registrado e marcado a ferro e fogo na pele, mas uma vez ou outra lhe ocorria ser Michelle. Uma vez ou outra nada. Michelle Star é de um profissionalismo extremo e quase nunca falava de sua vida. Não tem importância nenhuma. O ronco latejante do seu estômago, que só não é mais vazio que as suas emoções a faz Michelle. O ser e o não ter a faz Michelle. Quando deixa de sonhar, é Michelle, vivendo a vazia e opaca rotina da prostituição, cantando Elis Regina nas horas vagas, no Neon, bordel barato da cidade, derramando as mesmas lágrimas que movia a bela “pimentinha” estelar da década de 60. Desmaiada no sofá da sala, sem nenhum carinho ou coberta, movida pelas deliciosas e insustentáveis necessidades humanas, com uma saia de couro e blusa colada, deixava palpitar sensações matinais de não entender o que está acontecendo ou aconteceu. O relógio adiantado alguns minutos ao lado da porta, a dor sem precedente cravada no peito, a calcinha manchada de sangue, a virilidade dos fatos, a timidez do sol de setembro, a infelicidade de não saber quem é, quem foi ou quem estás a ser, tudo isso, num pacote de presente entregue a si mesmo, sem remetente. E hoje, emplaca-se o cansaço e o desgaste dum tapete velho, na luz de um sol que desponta fracamente pela janela de vidros sujos, que

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iluminam

justamente os livros, os discos e algumas produções

pornográficas empilhadas na estante principal. Não se lembra de nada. Vomitou a noite toda como uma louca cancerígena. Dormiu encolhida e suja no sofá (se ainda for a única coisa da qual se lembra, já que essa maldita memória só falha e de nada lhe serve). Vomitou sangue e o pus do mundo doente e corroído. Vomitou a alma e o resto que ainda restava dela. Cuspiu as imundícies do ofício e o gosto salobro da boca disfarçou com bala de cereja. Adeus profanidade! Eis a pureza de um novo dia. Eis a pureza de uma indesejada dor de cabeça. Levantou-se. Ajeitou os cabelos. E a vida que já não lhe cabia de tão apertada e miúda. Transviada. A noite passada foi dose de gato: atendeu a uns nove clientes. Apesar do movimento fraco, estes nove clientes foram bem “ativos”. Dois idosos que mal conseguiam enxergar os buracos, um préadolescente pensando estar em filme pornô americano, dois solteirões que não sabiam nem o que era um traveco, três casados que só queriam conversar e reclamar de suas esposas (isso sempre ocorre) e um doido achando que ia sair sem pagar. Haja paciência! Precisava mesmo era de um banho bem tomado, um disco da Elis, ou uma bituca fumada de um cigarro barato. Debaixo do chuveiro pensava nas riquezas que merecia, nas joias, nos perfumes… Queria ser estrela de cinema, andar como senhora, ser rica, viajada, conhecer a Alemanha… Ah, a Alemanha parecia tão

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romântica e histórica e isso era tudo que mais queria: Viajar e aprender sobre o mundo. A água vai caindo pelo corpo magro e negro, ensaboando as partes íntimas, tão gastas, e ainda assim, sustentáveis, imaginando ter os mesmos cabelos que Bardot, a mesma pele que Monroe… Mas ao desligar o chuveiro é como acordar de um sonho. Não é ninguém. Ou melhor, é tudo aquilo que não deveria ser: Negra, nordestina, pobre e travesti. Pobre quimera… De noitinha encosta a cabeça no travesseiro, encolhe o corpo puído e usado, pensa na mãe de avental florido, pensa no pai com o bigode amarelado de fumo, pensa no tio Geraldo abaixando as calças e tapando-lhe a boca. “Quieto, seu viadinho, quietinho…” Lembra como se fosse ontem: Ela, menino lombriguento, no sertão da Paraíba, sem nada no bolso e nas mãos, bebendo água suja de um poço artesiano, aguentando as surras que o pai lhe dava com o intuito de “fazer virar homem”, lembra dos meninos jogando bola no campinho de terra, lembra-se da mãe usando umas únicas sandálias vermelhas que batiam o solado no chão de madeira da sala, que uma vez ou outra botava nos pés. São tristes lembranças que rasgam o peito e a faz vulnerável. Veio pra São Paulo com seus dezoito anos na chance de ser feliz. FELICIDADE… Que coisa burra é essa? Felicidade é bicho estranho que não para no lugar. Mas um dia a gente aprende e se aquieta. Não corre mais atrás. O negócio não é ser feliz, é sobreviver. Quem é vivo, ainda assim pode aparecer, mas quem sobrevive não tem direito de querer mais nada. Com um sutiã estampado que lhe dava enchimentos e uma calcinha vermelha bem combinando com a

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pele, andava pela casa procurando uma vassoura para limpar a sujeira dos dias. O odor do sexo era sentido por toda a casa. Era como se os móveis, todos desarrumados, as peças decorativas fora do lugar e todas essas tralhas supérfluas da vida mundana também estivessem participado dos seus atos tão libidinosos. Mas o cheiro não era tão ruim. As narinas humanas, tão acostumadas com tal odor, não se sentiriam atreladas ao ato sexual se fossem separadas do seu estado corpóreo. O pensamento já ia bem longe da realidade. Vestiu uma camisola preta de florezinhas nas bordas. Transpirava de um regalo deprimente. Percebeu o peito apertado e louco, quase gritando e saindo pela boca ou por onde tiver que sair. A cabeça explodia de dor. Lá fora, os carros iam e vinham em um trânsito infernal. São Paulo é a cidade do pecado. Engana-se quem pensa em Las Vegas ou qualquer outra metrópole americana. Nas ruas, dobrando as esquinas, vemos corpos à venda, excitados, promovendo desejo, desmentindo o pudor das relações perfeitas e conjugalmente felizes. Durante o dia, durante a noite. É ate quando tiver gente. E sempre tem. Com

camisinha,

sem

camisinha.

Furando

acordos

matrimoniais,

deixando a esposa decente em casa, crianças birrentas babando aos litros, quebrando a rotina sufocante do trabalho e sendo feliz na rua, comprando um prazer tão discreto e descartável. Hoje é dia do prazer, amanhã é o do cuspe. A maldita memória a fez esquecer os detalhes da noite passada, mas ela sobrevive, sempre sobrevive. Essa é a lei. Sorriu, tão falsamente, e uma barata morta sendo levada aos destroços pelas formigas apertou ainda mais seu peito, revirou as lembranças, norteou a mente poluída e começou a chorar feito

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criança deixada de lado. Sentiu-se destruída e desolada, como depois das surras que levava do pai. A memória apareceu-lhe como navalha cortando a pele. Dilacerando. Agonizando. Estava louca. Enlouqueceu tão profundamente que já não entendia as coisas direito. Mas sabia que havia matado. Matado por amor. Onde já se viu? Sair por aí bêbada, no meio da noite, invadindo um apartamento de Antônio e despejando palavras na cara de sua esposa? A maioria das pessoas sofre por amor. Mas não havia escolha, como nunca há de ter. Sentiu-se um lixo imundo deixado no mundo para apodrecer, um vômito social, a pior parte desta gente tão recatada e decente, impregnada por essa hipocrisia que as come mais do que seus maridos. Isso não é tudo: está condenada por ainda estar viva, condenada por nascer, por ser bicho excluído, por ser o tipo de gente que ninguém quer ser. Deus não a criou, com certeza não. Como não criou os assassinos, nem os hipócritas, nem os luxuriosos, nem os traidores, nem as prostitutas, nem os falsários. O que esperar de um rato de esgoto, sem alimento de espírito? Por que temer a morte quando já se está morta por dentro? Deixou-se cair no chão duro do apartamento barato daquele bairro sem nome, com gente sem nome. Deixou-se cair, deixou-se cair… Gemeu. Chorou. A implacável sensação de culpa a destroçava. Não conseguia pensar em outra coisa a não ser em Antônio com aqueles olhos azuis, gotas de oceano lhe fitando o corpo, os cabelos

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loiros estrangeirados, a masculinidade do membro a fazendo mulher, envolvendo-a nos braços, sendo tudo o que ele queria e tudo o que ela precisava. Mas ele não veio. Não veio abraçando-a e nem prometendo fazer de Michelle a rainha do Brasil. Não conseguiu o amor que tanto almejava na vida, que tanto precisava e que nunca o teve. Não conseguiu ser cantora, nem atriz de cinema, não conseguiu ser famosa, nem rica, nem amada. Matou um útero, matou uma criança em troca do amor. Ridículo amor. Humilhante e avesso. Quem sabe não seria melhor não ter nascido? Lembra ainda, tão unicamente, que sua esposa era uma linda mulher. Antônio tinha bom gosto com as mulheres, mas não sabia lidar com elas, por isso procurava Michelle. Sozinha e humana. Não tinha frescuras de madame, nem enjoos, nem mal temperamento em dias de TPM. Isso o fascinava. Comeu e a cuspiu, como todos fizeram. Sempre gozavam rápido e Michelle nunca cobrava. Ele era seu “vício”. Maldito! Maldito! Gritou e tossiu logo em seguida. Cuspiu sangue e um pouco de pus como na noite passada. Vomitou a vergonha que nunca teve. Parou um instante, fechou os olhos e chorou novamente. Era uma desgraçada, uma puta velha, um traveco dos infernos. Uma estranha. Pensou na mãe. Coitada! Um filho traveco, um viadinho paraibano sem nenhuma chance. Apenas sonhos remoendo dentro do peito, querendo saltar pro mundo. E a sorte que nem sequer viu, caminha por aí, correndo de quem precisa dela.

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Michelle, que era Star, perdeu o brilho dos sonhos e dos olhos, se é que um dia o teve. Enganada. E a culpa? Não sabemos dizer, e nem me atrevo porque me faltam as palavras certas e as que eu digo ainda me fogem da boca. Falar de tudo isso corrói a mim e a Michele, que na certa nunca lerá tais palavras, mas um dia pode ser que seja alguém. E Antônio chorou pela mulher, pelo desgosto da vítima corna, grávida e inocente. A mulher, antes da morte, chorou pela traição do marido, pelas infames palavras que saíam da boca de Michele e pelos gêmeos que carregava no ventre. E o oficial de polícia chorava porque não conseguia entender o acontecido. E as pessoas choravam em suas casas, porque a linda moça morta, mulher do honesto e correto deputado Antônio Canavais era tão meiga e gentil com o povo pobre e não merecia tal fim, por isso tinha que haver um assassino. Mas por Michelle ninguém chorou. Nenhuma lágrima fora derramada pelo corpo aidético, de magreza estampada, encontrado ainda mais sem vida na tarde daquele mesmo dezoito de setembro de dois mil e um, vestida de luto, a rodear florezinhas na cintura, na rua central naquele bairro sem nome, com gente sem nome. E a luz que jaz para todos, queimou a pele sofrida e sem a corpulenta beleza daquela doce quimera paraibana…

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Era entoada aos quatro cantos desse mundo sujo e indigente uma canção esquecida aos ouvidos. Porém, não se ouvia voz, nem sinfonia, nem nada. O que se ouvia era o silêncio. Fora corajosa, ao menos uma vez. Tinha medo do mundo e medo de altura.

LUIZ HENRIQUE M. SOARES é acadêmico de Letras da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) e vive na cidade de Jacarezinho/PR. É apaixonado por música, cinema e literatura. Sempre preocupado com a questão das minorias sexuais e seus mecanismos de inserção na sociedade, busca por meio desse conto mostrar a realidade tão desfocada de nossas travestis. | LUIZ.MOREIRA@UENP.EDU.BR

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SOBRE RAISA CHRISTINA: “Desenhar também é afigurar na imaginação, ficcionalizar”. RAISA CHRISTINA | Fortaleza, CE

Raisa Christina trabalha com diversas técnicas de desenho e gosta de explorar o conteúdo humano que pode advir de uma imagem erma das cidades. Começou a desenhar na infância, incentivada pelo pai, formou-se em Artes Visuais e, hoje, pesquisa no mestrado a poética presente na criação de mapas de jovens skatistas e seus percursos errantes em Fortaleza. Raisa cria personagens sob fotografias em papel, acredita que há uma íntima relação entre a criação visual e a ficção narrativa. Para ela, apesar dos problemas de valorização do artista visual, os espaços em Fortaleza têm se esforçado para produzir um trabalho articulado, que valorize as obras dos artistas locais. RAISA CHRISTINA | RAISA.CHRISTINA@GMAIL.COM

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PARCEIROS:

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Edição e Revisão: Morgana Rech e Tânia Ardito

Recepção de originais: CONTATO.SUBVERSA@GMAIL.COM

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Revista subversa vol 3 n.º10 dez 2015  

Último número do Volume 3! Nos vemos em janeiro ;)