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Olhar. Significa mirar, contemplar, encarar, examinar, observar, dirigir a vista, sondar, proteger, entre muitos outros.

Um olhar. Quando é lançado para algo ou alguém. Modo de ver e interpretar. Peculiaridade. Análise, leitura sobre. Nesta edição, trazemos muitos olhares. São vários. O olhar do fotógrafo, da modelo, do ilustrador, do colunista, do personagem da matéria. Para finalizar e para tudo fazer sentido, o seu olhar, leitor, sob o prisma da vivência, crenças, valores, conceitos. Daqui, da compilação de várias interpretações, reinará apenas uma, que é o seu olhar sobre este conteúdo; suas conclusões e aquilo que você levará para dentro de si. Nas páginas que seguem, colunas de moda, gastronomia e design, uma matéria sobre o ato de ler, dois editoriais com equipes diferentes, e uma entrevista com a jornalista Carol Garcia.

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EDITORIA


Olhe e sopre! Fotografia: Renato Reis


“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”

Fotografia: Renato Reis

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago


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A - Um

minuto

O RETRAT

DESIG

N - Em qualquer lugar

TOMATES

& BATATAS - picnic

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MOLDUR

urbano

A - Carol Garcia

ENTREVIST

LEITO

R - Sobre roupas, mem贸rias e afetos...

Algum lugar entre a realidade e o inventado

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A forma conforma?

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Edição 02 Outubro de 2010 Belém - Pará Edição: Isaac Lôbo Coordenação Editorial: Yorrana Maia Direção de Criação: Klébeson Moura Direção de Moda: Graziela Ribeiro Direção de Fotografia: Mari Chiba Revisão - Paulo Xavier Web Master - Rafael Guerra Apoio: Avisi Comunicação

Fotografia: Jaime Souza

Revista Sopro

Fone: + 55 91 8119 5255 E-mail: contato@revistasopro.com Av. Gentil Bittencourt, Pass. Paulo Maranhão, 252 Nazaré - Belém - Pa

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olhar

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Um A

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minuto

Yorrana Maia Fotografia: Mari Chiba

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enho pensado muito na complicada arte de ver*. A visão é um dos nossos sentidos mais usados e na moda, talvez, seja nossa principal ferramenta. O prazer de ver e ser visto. Narciso. Fetiche. Voyeur. Imitação. Um mundo construído por imagens. Milhares delas, o tempo todo: desfiles, estilos, blogs, revistas, editoriais, pessoas, tendências. Tudo em um tempo efêmero e cada vez mais curto. E, assim, a gente acaba se acostumando a olhar as coisas simplesmente para não esbarrar nelas.

Cadê o olhar de poeta? O olhar vagabundo? Explorador do mundo? Poeta, vagabundo, explorador, me lembra de paixão. Não apenas a paixão entre dois, mas o fascínio que algo exerce sobre nós. Andar por aí, num estado mental capaz de se apaixonar pelas coisas, pelas pessoas. Descobrir mundos encantados em uma simples dedicatória de um livro antigo.

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Viajar pelo quarto, pelo ciberespaço, pelo mundo. Sem mapas. Sem exigências rígidas, mas que absorva dias imperfeitos. Descobertas, apreciação, olhar com calma, como aquele minuto do filme onde a rua é tomada pelo silêncio e a trilha sonora da personagem reina soberana, para que ela possa admirar o que há ao seu redor.


E tudo dança e encena num espetáculo para um único espectador. Só o vento flerta com seus cabelos e com seu vestido rodado verde-ervilha. É ela observando, se encantando, descobrindo outros mundos. Por um minuto. Até o barulho dos passos rápidos voltar ao normal, trazê-la à vida real. Um minuto apenas.

nos digam o que usar, mapas prontos, receitas prontas (finais/ finalizadas/fechadas) da próxima estação. Não estamos prontos para descobrir e, talvez, nos apaixonar. Porque se apaixonar dói, desgasta nossa pele e nossa sola de sapato; angustia, dá medo, desequilibra, leva algum tempo e tempo nos falta, não é mesmo?

Vivemos em um tempo acelerado, de passos rápidos e em constantes mudanças. Não nos parece lógico que precisaríamos aprender a viver sem os mapas antigos? Explorando novas possibilidades, nem que seja por um minuto, para então entender nosso tempo e construir narrativas que falem desse tempo através de roupa? Eu e minha roupa para ver e ser vista.

E se, por um minuto do dia... um respiro profundo de olhos fechados no meio da manhã, uma aventura, uma pausa, uma nova maneira de começar o banho ensaboando primeiro os pés, um frio na barriga, giros com meu vestido rodado. Antídotos para nosso tempo mutante?

Li no encantador blog Don’t touch my moleskine um texto de Paulo Leminski que diz que se a gente está valorizando tanto a paixão, é porque anda faltando. Eu diria que falta o estado de pré-disposição para se apaixonar. Queremos que

Já não sei mais se esse texto é sobre olhar, viagem, protagonistas, angústia, paixão, um respiro. Meio incompreensível? Talvez sejam apenas coisas para se perceber. Um olhar vagabundo. Por algum minuto. * Complicada arte de ver, texto de Rubem Alves.

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Yorrana Maia é bacharel em Design pela Universidade do Estado do Pará e pós-graduada em Moda e Criação pela Faculdade Santa Marcelina. Atualmente é professora do curso de Bacharelado em Moda da Universidade da Amazônia. Tem experiência na área de Design, com ênfase em moda, atuando principalmente em processo de criação, pesquisa em moda e desenvolvimento de coleção.


A forma conforma? Marina Ramos Neves de Castro Fotografia: Gabriela Amaral - Clarté

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ão me interesso muito por moda, mas gosto do que está por trás dela. Do mundo das ideias que está aqui, ali e mais lá. Esse mundo subjetivo que está no logos da sociedade e que conforma formas. Formas de vestir e despir, de falar, comer, degustar, formas de musicalidade, formas de relacionamentos, formas de cultura, de viver juntos, de sentir... Sim, a estética seria, sobretudo, uma forma de sentir, de experimentar o mundo junto; de viver. Pensando assim, vemos como, juntos, conformamos o mundo e buscamos formas de expressão que nos definem, ainda que seja uma definição na incógnita, no turvo, no híbrido. Que formas conformam o imaginário e, sobretudo, o universo mental de Belém no campo da moda? Alguns indicativos podem ser pontuados:

As cores fortes, definidas pela luminosidade que nos envolve. Esse é o princípio, a gênese, que está presente em nossa percepção visual do mundo. E a partir dessa percepção, digamos, germinal, é que começamos a sentir e a pensar o mundo. Essa presença está retratada na pintura de nossos artistas, como Marinaldo Santos e Emmanuel Nassar; também em muitos dos

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ensaios fotográficos de Luiz Braga; mas também nas cores e combinação destas usadas pelos nossos mais novos estilistas. Essa mesma percepção visual intensa vai produzir uma musicalidade específica, capaz de assimilar outras musicalidades que identifiquem esse mesmo padrão, diríamos


ou mesmo em formas de tops, e shorts curtos, em malha ou lycra, evidenciando o termo “popozuda” assimilado de programas televisivos. Chamaria isso tudo de estética do mundo, talvez da vida, estética temporal; mas, que no entanto, tem um fio condutor: apesar das mudanças que sofre ao longo do tempo, ela se mantém fiel a si. Essa estética que define uma sociedade, uma sociedade híbrida e pósmoderna.

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“quente”, de nosso ambiente. Falamos da banda Calypso, da Calcinha Preta, das aparelhagens como Rubi, Tupinambá e outros. Sem deixar de apontar também a altura de como essa musicalidade é colocada no meio urbano. Há a necessidade de dividir aquilo que se gosta - nas alturas, não tem como deixar de ser partilhada.

Criam-se e aparelham-se carros que funcionam como boites ambulantes, onde a música é e deve ser partilhada. As formas de vestir, com ênfase nas barriguinhas de fora, ainda que as mesmas sejam protuberantes, evidenciadas em roupas coladas e de cores fortes; juntamente com decotes cavados, com soutiens à mostra

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Marina Ramos Neves de Castro é professora no campo da Estética, História da Arte e Cultura Visual. Tem mestrado em Estudo das Sociedades LatinoAmericanas, com pesquisa sobre políticas culturais, obtido na Université de Paris, Sorbonne-Nouvelle.


Fotografia: Renato Reis Produção: Anna Leonard Assistente de produção: Sam Tavares Modelo: Monike Capitani Cabelo e maquiagem: Anna Leonard Lojas: Manolitto, Mix, Makel e Telma Confecções (Mercado Central da Terra Firme) Agradecimentos: Dona Elisa Santos, do Mercadão das Ervas Dona Nazaré, do Mercado de Carne Alberto Aleixo, taxista Keila, gerente da Makel


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O caminho torna-se um trajeto, um meio para se chegar ao destino, ao objetivo. Nele, existem só dois pontos: o de saída e o de chegada. Deixamos para trás possibilidades. Possibilidades de conhecer, se encantar, se emocionar, vivenciar, experimentar. Ignoramos paisagens, momentos, fragmentos, recortes. Com um olhar mais atento, livre de preconceitos e da falsa sensação de familiaridade, é possível encontrar construções, paisagens, combinações, detalhes nunca antes notados, mas que sempre estiveram ali. Todos os dias. Descobrir aromas, sabores. Permitir-se. Um enquadramento diferente, o modo de incidência da luz, a ocupação espontânea cotidiana – a mesma paisagem, vários olhares. O


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Real Gabinete PortuguĂŞs de Leitura, Rio de Janeiro Fotografia: Lidiane Campos


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Algum lugar entre a realidade e o inventado

Fotografia: Isaac L么bo

Juliana Oliveira

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Fotografia: Lidiane Campos


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m questão de minutos, um livro é capaz de lhe fazer conviver com os tipos de uma época presente, futura, passada ou simplesmente desejada por um autor. Aqui, repór ter e dois personagens-leitores contam como embarcam nessas viagens imaginárias.


A respiração difícil, os olhos já acostumados à escuridão das galerias, a sede arranhando a garganta e o cansaço, pela descida de três dias cada vez mais ao centro do vulcão islandês, era evidente, não só ao pobre Axel e ao intempestivo professor Lidenbrock, mas também para mim, que já acompanhava aquela angústia por mais de uma hora.

conhecem bem.

“O que me faz entrar numa livraria e pegar qualquer livro é sempre o fascínio que cada história exerce de maneira particular. As emoções que os personagens vão me passar, as falas que me deixarão pensativo e as ideias que me confortam em qualquer momento da vida”. Esses até poderiam ser meus Recostada no meu travesseiro, em Belém argumentos para justificar o interesse do Pará, tendo como único som na casa pelos livros, mas são do jornalista Luiz o velho ventilador cujas pás insistiam em Carlos Santos, de 31 anos. travar, tive fome, sede e frio junto aos extraordinários personagens de Júlio Como a maioria dos apaixonados por Verne no clássico “Viagem ao Centro da impressos, ele não só fala das novas experiências proporcionadas, como ainda Terra”. se atém a alguns preciosismos. “Adoro o Não é preciso consultar um psicólogo ou objeto livro como um colecionador. Admiro escritor renomado para compreender páginas, capas, encadernação, sinopses, o processo particular que a leitura orelhas, cada detalhe da edição. Em proporciona: o leitor extrai do livro uma casa, eles ocupam lugar privilegiado, realidade que não será nem a pensada porque gosto de olhar sempre para eles, pelo autor, nem somente fruto de suas à distância, quando não estou na frente experiências particulares - será um da estante admirando a coleção. Coisa terceiro lugar, que os amantes da leitura meio louca, né?

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Fotografia: Rogério Uchôa

Engraçado. Hoje mesmo, antes de vir para o

trabalho, comprei dois, um do Albert Camus e outro da Simone de Beauvoir.

Sou um leitor compulsivo. Luiz Carlos

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Sou apaixonado pelos clássicos, os Diálogos Platônicos, a obra de Rousseau. Preciso até relê-los.

Fotografia: Lidiane Campos

Primo


Não para o proprietário do sebo Cultura Usada, o professor de filosofia Carlos Lima ou, simplesmente, o Primo. Com 17 anos de negócio, ele confessa que, se não fosse sua atividade paralela como professor, seria difícil equilibrar os gastos só com a renda do sebo, justamente porque leitores como Luiz Carlos, que ele qualifica como vorazes, são cada vez mais raros. Para ele, até mesmo a figura do livreiro está em extinção, já que hoje o que há são vendedores que sabem tão somente pedir os best-sellers e têm uma relação distante com o livro. Pelas mãos de Primo, já passaram obras raras, como a primeira edição do livro Motins Políticos, do historiador Domingos Antônio Raiol, que narra os conflitos do Pará entre 1820 e 1930. “Também tive a coleção dos álbuns de Belém, de Antônio Lemos, e o álbum do Pará, editado por Augusto Montenegro - livros ricos em imagens, que foram editados na Europa”. Mesmo sendo um apaixonado por belas edições, depois de tantos anos no ramo, Primo diz que já não sofre para vender até os títulos mais raros, porém não dispensa a recomendação de que, caso o leitor não queira mais o livro, lhe dê prioridade na hora da revenda. Uma usura mais do que perdoada entre os apaixonados por livros.

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“Perdoamos” o Primo porque também compreendemos como o livro pode “pescar” o leitor obcecado, que vai de bulas de remédios até papel de pão, mas também o leitor eventual, que prefere os livros mais vendidos ou, quando muito, algum título prometendo milagres, do tipo como ficar rico. Basta que surja a opor tunidade do livro cer to calhar no momento preciso e a viagem até aquele terceiro, quar to e muitos outros lugares acontece.

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Fotografia: Rogério Uchôa

O jornalista Luiz Carlos e o seu acervo.

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Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro Fotografia: João Vital


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o final de semana, li tantos blogs que falavam sobre moda, amores e paixões, que lembrei das minhas adoráveis paixões mal sucedidas. Passei horas divagando sobre a moda, a vida, as coisas da moda, e as coisas da vida que a moda e as paixões representam. Muito da história dos panos, suas tramas e as roupas que delas derivam, têm ocupado meu tempo, sobretudo as vestes, quem as veste e o porquê das escolhas de quem veste. Penso sempre em quem faz as roupas, como elas nascem do desejo e a partir daí transformam-se em amores e em objetos de desejo. Vivo a me perguntar quem as deseja e quanto desejo acomete aqueles corpos outrora nus. Tanto tenho procurado entender estes sentidos, signos e significados, tanto! Porque a moda e, sobretudo, o ato de vestir transformaram-se em paixão. Das mais avassaladoras.

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LEITO

Sobre roupas, memórias e afetos... Por Heidy Bastos, estudante do curso de Bacharelado em Moda da Universidade da Amazônia (Unama) Fotografia: Isaac Lôbo


E, movida pela paixão, fui em busca de tais respostas. Quanto Freud li para tentar entender a sinuosidade de desejar, em quantos Lacan busquei o significado ético de tanto desejo, em Nietzsche tentei entender porque o super-homem, motivado pela superação, consegue ser o criador e, dessa forma, transmutar seus próprios valores; foi em Jung que busquei todos os signos mitológicos que as Vênus e as Minervas expressam tão bem nas mídias de moda. Com toda essa curiosidade, acabei me deparando com uma luta séria para derrubar a visão obtusa e equivocada da moda, como o mais fútil e efêmero aspecto da cultura ocidental. Além de demonstrar as condições sociais do indivíduo e do grupo ao qual deriva, a moda é também um foco de estudo poderoso do pôr-se no mundo, traduzido pela mão de nossas escolhas, vivências, amores, desejos e sensações. O ato de vestir exprime, à maneira de cada um,

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sonhos e esperanças, refletindo na construção de uma identidade influenciada pelo mundo que está a nossa volta e pelo que ele nos suscita, através de alegrias e tristezas, tédios e paixões. Hoje, ao me olhar no espelho, sei um pouco mais sobre o que me liga as minhas roupas e, consequentemente, sei mais sobre mim mesma. Ao fazer uma simples combinação de cores, texturas e estilos, mostro a minha forma de ver o mundo e a vida. Sou minha própria estilista e o meu guarda-roupa transforma-se todos os dias em minha coleção. Somadas às minhas cicatrizes e tatuagens, minhas roupas contam a minha história. Ilustram de maneira concisa quem eu escolhi ser. Levei minha vida inteira para aprender que as melhores lembranças que podemos ter são as que ainda estão por vir. Minha camiseta de banda continua aqui, contando e entrelaçando a minha história à história deles, sem nunca termos nos visto e ainda que eu não escute mais tanto Ramones...

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A MODA VAI MUITO ALÉM DAS PASSARELAS. DIVULGUE-SE.


www.avisi.com.br


Carol Garcia Fotos: Divulgação

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ENTREVIST

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Carol Garcia Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC / SP), a jornalista Carol Garcia, graduada pela Universidade Federal do Paraná, lançou no início de outubro o livro “Imagens errantes: ambiguidade, resistência e cultura de moda”, pela Estação das Letras e Cores Editora. Ela viajou 16 países pesquisando as estampas florais e os bordados com padrões de flores. Em entrevista à Sopro, Carol falou um pouco sobre a obra, internet e a relação de tempo e espaço no campo da moda. Atualmente, coordena a pós-graduação lato sensu em Criação de Imagem e Styling de Moda do Senac São Paulo, é diretora científica da Modus Marketing e Semiótica, e atua como coolhunter e consultora para negócios da moda em distintos países.

Sopro De onde surgiu a vontade de pesquisar as estampas florais?

Carol Garcia Conforme coloca o comunicólogo Norval Baitello Júnior, professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), é uma problemática fundamental para a comunicação humana descobrir como se desenvolve uma cultura de imagens ao lado de uma cultura dos corpos e como se comunicam e se inter-relacionam esses dois mundos, ou seja, que tipo de vínculo comunicativo se desenvolve entre eles. “Se a comunicação é construção de vínculos, a cultura é o entorno e a trajetória complexa dos vínculos, suas raízes, suas histórias, seus sonhos e suas demências, seu lastro e sua leveza, sua determinação e sua indeterminação”. Passei por uma experiência na Índia que foi marcante nesse sentido e que compartilho na introdução de “Imagens errantes”. Na realidade, a companhia aérea

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perdeu minha bagagem, o que é uma situação corriqueira, mas que me obrigou a conhecer o modo de vestir local e a prestar atenção na forma diferenciada como cada corpo é “envelopado” em distintas culturas. Quando vi as pilhas de sáris dobrados nas prateleiras atrás do balcão – tão distintas das araras comumente encontradas nas lojas ocidentais –, o fascínio foi imediato. O vendedor colocou-me no centro da loja e foi desvendando um universo de texturas e cores em tecidos com padrão ornamental floral, que ele insistia em chamar de chintz. Ora, para alguém acostumado a frequentar as lojas populares do centro e da periferia do Brasil, eu estava diante do mais brasileiro de todos os tecidos: a sorridente chita! Daí em diante, eu fiquei indagando a origem da chita, o que me levou à pesquisa das estampas florais e, posteriormente, também dos bordados com padrões de flores. Percorri 16 países e três continentes nessa busca, revisitando rotas de piratas e aventureiros, e foi precisamente esse resultado que aportou nas páginas de “Imagens errantes”. Se, para tanto, o consumo e o uso sugerem a possibilidade de acessar significados culturais considerados inacessíveis, ou seja, de vincular-se com o Outro distante, a análise enfoca os deslocamentos de imagens presentes na natureza e na cultura de países como Brasil, Índia, Inglaterra, Espanha, Portugal e, sobretudo, México. Têxteis adornados com flores provenientes dessas localidades, os quais adquiriram notoriedade no mercado internacional, são esmiuçados quanto aos padrões e formas de adornos, estabelecendo ligações com imagens arcaicas e mitológicas. A seleção desses itens, em particular, se deu por minha afinidade com o tema, conforme já exposto acima, bem como pelo fato desse material ser muito popular na fabricação de produtos de moda e decoração nos países mencionados. Como tais bens são comumente adquiridos por turistas enquanto souvenirs e mesmo presentes (as chamadas “lembrancinhas”), contribuem na construção da própria imagem dessas nações no exterior. Com o foco nesse corpus, procurei avaliar em que medida o design de superfície interconecta imagens e mescla elementos de várias culturas em produtos feitos com chitas, chitinhas e chitões, ora estampados, ora rebordados com técnicas que lhes agregam texturas numa formidável mistura cabocla.

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O Por que lançar o livro com fusion talk? É alguma tendência?

CG Na verdade, a mestiçagem em si é uma realidade no Brasil. Ou seja, vivemos num mosaico movediço, num caleidoscópio de imagens em incessante movimento. Resolvemos trazer esse conceito para nossa fala e, ao invés de termos uma série de palestras ou uma mesa/ painel onde cada um fala um pouquinho, vamos falar em conjunto, ou seja, fazer intervenções um na fala do outro enquanto ela se desenrola. Não script, como diria o poeta, “o caminho se faz ao andar”.

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O Em uma publicação que traz informações de várias partes de mundo, de viagens, portanto, um material “globalizado”, por que tornar as obras únicas, por meio dos carimbos? É uma estratégia para aproximar os leitores do conteúdo do livro?

CG

Queremos que cada um se sinta parte desse processo, ou seja, queremos, sim, desafiar as imagens “prêt-aporter”. Temos o desejo de mestiçagem solto no ar com essa atividade lúdica.

O ambiente virtual, com sua simultaneidade, dará conta da notícia em tempo real, crua e seca. Desvendá-la e aprofundá-la por ângulos distintos cabe aos meios tradicionais.

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O Como se deu o contato com os ilustradores que vão compor a obra? Como se desenvolveu o trabalho, já que são de diversos países e não se conhecem pessoalmente? E por que utilizar as redes sociais neste processo?

CG As redes sociais facilitam a interação e agilizam o processo, daí seu uso: velocidade, movimento e potencial para criação coletiva. Os ilustradores e autores que escreveram o prefácio e as apresentações da obra, contudo, formam um time especialíssimo. Explico: todos eles foram pessoas que compartilharam comigo a pesquisa em seus respectivos países. Sylvia Demetresco viajou comigo para o Japão, Leda Senise trocou informações sobre Índia e Nepal, Giovanni Estrada foi meu guia de viagem no México, Julián Posada e Santiago Acosta são companheiros de pesquisa na Colômbia, Eduardo Maciel é minha fonte com respeito ao artesanato nordestino, Eva Medalla descobriu comigo as veredas das estampas espanholas, Patrícia Garcia dividiu roteiros no Uruguai, Chile, Argentina, Estados Unidos e por aí afora...

O A internet é uma plataforma bastante utilizada pelos agentes do campo de moda. Por quê? Quais são os prós e os contras dessa interface internet e moda?

CG A grande vantagem, para mim, é a agilidade na obtenção de informações. A maior desvantagem é o excesso e a veracidade das fontes.

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O O próprio cenário de moda é ávido por mudanças, novidades, lançamentos. Com a massificação da internet e a popularização das formas de comunicar, o mercado de moda precisa ser mais ágil? As criações ficam obsoletas mais rapidamente?

CG Certamente, o próprio conceito de obsolescência planejada fica na berlinda, porque se temos uma tendência segura para o presente é que tudo, tudo ficará mais rápido. Antes, era o maior que engolia o menor. Hoje, é o mais rápido que engole o mais lento.

O Como a internet modificou essa lógica da comunicação de moda? Ainda é interessante esperar por revistas de moda mensais, quando as fotos dos ensaios, por exemplo, já foram disponibilizadas na internet?

CG As revistas precisarão aprofundar seus conteúdos, a meu ver, com análises críticas fundamentadas. O ambiente virtual, com sua simultaneidade, dará conta da notícia em tempo real, crua e seca. Desvendá-la e aprofundá-la por ângulos distintos cabe aos meios tradicionais.

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O Como viajante, o que você absorve das culturas, das histórias, dos povos?

CG Mediante o uso de bens adquiridos nesses locais, surge a possibilidade de acessar significados culturais considerados inacessíveis, ou seja, de vincular-se com o Outro distante. Nota-se que não se trata de uma apropriação dos produtos ou da aparência do viajante em si, mas sim das imagens que neles circulam.

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Carol Garcia


Produção: Thaís Vaz Vieira Assistentes de Produção: Karllana Cordovil e Mariana Melo Modelos: Bárbara Müller e Caíque da Silva Fotografia: Jaime Souza, com câmera profissional Karina Farias, com celular Renan Viana, com câmera profissional e objetiva olho de peixe Rogério Uchôa, com câmera profissional Cabelo e Maquiagem: Grazi Ribeiro Locação: Casa 252 Marcas: Sapatos: Converse e Melissa (Ná Figueredo) Água Benta Objetos de cena: acervo pessoal e Avisi Alunos da Unama Comunicação Angélica Carneiro Agradecimentos: Citron Pressé Avisi Comunicação CoisaMinha Casa Bricolada Confraria Loja Colabora Dinah Raiol Ná Figueredo Emiliah Unama Eubelém Fazendo arte EuQFiz Ná Figueredo Puro Êxtase Risoflora Shoking

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uma cena, quatro vis천es


A simples rotina de um casal é registrada por quatro fotógrafos. Como voyeurs, eles observam a história e registram, cada um da sua maneira, o que mais os interessa. A cena é comum; o que muda é o olhar.

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Fotografia: Mari Chiba

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Os ilustradores selecionados para esta edição receberam uma fotografia feita em estúdio, com uma pessoa vestindo uma camisa branca. Eles tinham a missão de modificar a imagem - a camisa e o fundo - baseando-se em um texto enviado pela Sopro. Queríamos captar as várias interpretações de uma mesma proposta. Nem todos os ilustradores nos mandaram seus trabalhos até o fechamento desta edição. Mesmo assim, colocamos aqui todos os fotografados, com ou sem ilustração.

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- Renam Penante

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- Adrielson Acacio

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- Carolina Coroa

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- Alynne Cid

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- Alynne Cid

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- Renam Penante

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picnic urbano TOMATES

& BATATAS


Dá, sim, para redescobrir o cotidiano Lorena Filgueiras Provavelmente você vai dizer que a vida anda corrida, que está faltando tempo para tudo. Também me diria que adoraria sair da cidade, contemplar a natureza, curtir um pôr-do-sol a dois... O desafio: transformar o trivial em novidade, sem sair de casa. Minha missão: dar dicas de como fazer um picnic urbano. Você, leitor, entra com a disposição. Vamos lá?

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Definir o local é o primeiro passo. Não importa se você mora em casa ou apartamento; o local escolhido tem de ser aconchegante. Se você mora em apartamento, arrume a sacada. Não tem sacada? Não tem problema, arrume a sala. Ouse. Cubra a mesa de centro com uma toalha quadriculada. Clichê? Não acho. É receita certa. Se não tiver mesinha de centro, vá para o chão mesmo. Ou para o quintal. Espalhe almofadas, coloque Diana Krall, Chet Baker ou a música de sua preferência. Incensos ou aromatizadores de ambiente são de excelente ajuda. Meia luz é melhor ainda.

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Salada de grão-de-bico 1 lata de grão-de-bico já cozido (praticidade é o nosso nome, certo?) ½ lata de milho verde cozido 2 ovos cozidos, cortados grosseiramente Cenoura cozida, cortada em lascas (não muito finas) Meia maçã cortada em cubinhos 100 gramas de tomates-cereja, cortados em 4 (se não encontrar o cereja, utilize o comum, em cubinhos) Passas sem sementes Cebolinha (se você gostar) ou utilize orégano

modus operandi Misture todos os ingredientes e regue a salada com azeite e suco de um limão. Misture bem. Cubra a vasilha com papel-filme e leve à geladeira, até a hora de servir. No momento de servir, se desejar, adicione umas gotinhas de vinagre balsâmico.

Vamos às comidinhas? Picnic (especialmente o urbano) pede comidinhas leves: opte por queijos & frios. Eu sugiro uma salada (ela é infalível!) de grãos-de-bico, copinhos de caprese, pães, grissinis, torradinhas e patês. Tudo rapidinho, mas prepare com umas 3 horas de antecedência:

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Copinhos de Caprese (releitura de uma salada mais refinada)

faz um efeitão! Mini taças Queijo mascarpone (se não achar, vá de cream cheese. O efeito é igualzinho) Tomates-cereja Folhas de manjericão

Forre as tacinhas com queijo mascarpone. Eu temperei o meu com um pouco de sal, pimenta e noz moscada. Coloque o tomate cereja e uma folhinha de manjericão. Jogue um fio de azeite e disponha todas em uma bandeja e passe o filme plástico. Leve também à geladeira até a hora de servir.

4 Caprese

Para acompanhar e dar leveza ao picnic, sugiro vinho branco (se você for de vinho, não use o suco de um limão inteiro na salada e abra mão do vinagre balsâmico. Umas gotinhas de limão já resolverão). Pode ser um prosecco, um espumante, o vinho de sua preferência. Mas não se esqueça de colocar água mineral (com gás e sabor), refrigerantes ou suco no balde de gelo.

O mais importante:

permita-se o descompromisso com horários, com telefones celulares. Pare por umas horinhas. Você sozinho (a), você com companhia. Contemple a paisagem e faça planos para o futuro. Elocubre. Eu sei, é difícil. Mas vale a pena tentar.

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Salada de grão-de-bico

Lorena Filgueiras é jornalista, adora comer e beber bem. Estudou uma pá de coisas, além do Jornalismo: Língua Inglesa, cozinha, vinhos e até tentou fazer crochê, mas foi vencida pela falta de coordenação motora. Ama Saramago, Fernando Pessoa e Oscar Wilde, apesar de ser viciada nos gibis da Turma da Mônica. Escreve um blog, ao qual apelida de “minha cozinha virtual” (www.tomatoepotato.blogspot. com). Twitter: @lorefil

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Começo meus dias, logo cedo, antes mesmo de tomar café, enfrentando um trânsito caótico. Aproveito os minutos parados nos engarrafamentos para pensar, lembrar dos afazeres diários e observar o cenário. Olho para placas, fachadas, pessoas. Há sempre algo diferente, sempre uma novidade.

Em qualquer lugar

Klébeson Moura

que estava jogado na margem da via. Com um olhar minucioso, parecia observar cada detalhe daquele amontoado. Ele pegava os itens que mais lhe chamavam atenção e corria a vista por toda peça, com velocidade controlada e atenção redobrada. Foi numa manhã dessas, em que os segundos Apreciava aqueles resíduos de forma encantadora. parecem horas, com muitos carros amontoados, que percebi em minha frente uma bicicleta parada Essa foi a novidade do dia: no meio da caoticidade no acostamento da via, com a garupa cheia de do trânsito, o olhar daquele senhor, de uns 60 anos, cacarecos, como dizia meu pai, causando parte que certamente ignorava o som das buzinas e não da confusão do trânsito. Eram pneus, latas, rodas percebia o tumulto provocado por sua bicicleta, era de bicicleta e até uma cadeira velha. “Será que a de fascínio. Ao remexer aqueles entulhos, os olhos novidade nesse dia seria isso?”, pensei. brilhavam ao encontrar coisas que lhe serviriam de Olhei mais pra frente e lá estava um senhor, o dono matéria-prima para algo novo - alguma engenhoca da bicicleta. Ele tinha parado para analisar o lixo, mirabolante ou uma solução simples e genial para

DESIGN

Novidade remete a ideias novas; ideias me fazem lembrar de projetos. Misturando tudo e mais um pouco, chegamos ao design. E qual a relação, nesse texto, entre trânsito caótico, novidade e design?

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algum problema. Seu olhar de avaliação detalhada expressava o que a mente dele poderia estar pensando naquele momento. Quando vi a cena do senhor, lembrei que muitos designers têm voltado seus projetos para a ótica da reutilização. Um olhar diferenciado para aquilo que aparentemente é lixo, além do exercício criativo de pensar em novas possibilidades de uso, por meio da desconstrução de formas antigas, buscando um novo sentido e utilidade aos resíduos. Um exemplo real do que estou falando é a peça “Fascínio”, da designer Lídia Abrahim, criada a partir de CDs reutilizados e prata. A peça está exposta na Bienal Brasileira de Design 2010, dentro da exposição Reinvenção da Matéria, que apresenta produtos sob essa ótica. Interessante perceber como a designer entende e conduz a relação de uma joia com um material que viraria lixo. Esse processo de revalorização dentro da cadeia de produtos é muito significativo e, no segmento de joias, torna-se muito mais valoroso em função da matéria-prima utilizada. O valor do material utilizado em uma joia, portanto, é repassado ao produto final, mesmo que nele contenham CDs, por exemplo. A designer cria produtos a partir de CDs desde 2008, sendo a única em Belém, e também a nível nacional, a desenvolver esse trabalho. Suas peças apresentam sempre uma história para contar e

expressam o olhar e as inquietações de Lídia frente à problemática do lixo urbano. Lídia e aquele senhor catador de lixo apresentam uma característica em comum: apresentam o olhar e a inquietação de criador e nos estimulam ao exercício criativo de pensar.

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Brinco Fascínio, de Lídia Abrahim

Fotografia: Neto Soares Klébeson Moura – é bacharel em Design pela Universidade do Estado do Pará, é atualmente diretor de criação e design da agência Avisi Comunicação. Já foi professor do Cefet PA e gerente da Incubadora de Empresas da Uepa. Atua na área de Design, com ênfase em gestão do design, design gráfico, comunicação e design de produtos.


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- Vanja Fonseca

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- Emídio Contente

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- Vanja Fonseca

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- Daniel Pereira

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- Elaine Arruda

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- Daniel Pereira

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- Emídio Contente

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Sopro 2  

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