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EXPEDIENTE Edição Anderson Oliveira anderson@revistasom.com.br

Digramação Anderson Oliveira Redação Anderson Oliveira

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ENTREVISTA STANLEY CLARKE

Para sugestões, críticas e mais informações, fale conosco: contato@revistasom.com.br

OS 40 ANOS DA DISCO DEMOLITION NIGHT

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A gente gosta de falar de música!

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ENTREVISTA O TERNO

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LANÇAMENTO - RAMMSTEIN


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PITTY

MADONNA O X DA MÚSICA POP

DJ TUDO

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14 MEMÓRIA: OS 20 ANOS DE SUPERNATURAL

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O MERGULHO DE GEORGE BENSON POR NEW ORLEANS

ENTREVISTA AVE SANGRIA

DONA IRACEMA

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LEITURA: TERAPIA SUPERCOMBO

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ENTREVISTA: PIN UPS

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17 DISCO ESTRANHO

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A VOLTAL DO REGGAE DE ARENA 03


Créditos: Divulgação

lançamento

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Muita coisa mudou no país desde o último lançamento de Pitty, em especial o protagonismo do rock e as relações humanas. E com boas melodias, parcerias e a capacidade de ir além das paredes que definem o rock, a cantora baiana mostra em seu novo álbum, Matriz, que o futuro da música é mais agregador do que o nicho que ajudou a definirno novo século. por Anderson Oliveira

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Quem ouve atentamente os versos iniciais de Bicho Solto, faixa de abertura de Matriz, novo álbum da cantora baiana Pitty, percebe que ela ainda é a mesma artista que conquistou o país desde o lançamento de seu primeiro álbum, Admirável Chip Novo (2003), mas existe algo diferente no ar. Ao cantar “Eu me domestiquei / Pra fazer parte do jogo / Mas não se engane maluco / Continuo bicho solto”, Pitty apresenta um velho novo rock que justifica o título de seu álbum, a matriz de uma artista que olhou bem a frente sem esquecer o passado, especialmente o mais recente. De fato muita coisa mudou ao longo de metade de uma década no mundo da música, mas talvez nada se compare à função social do rock nos últimos anos e seu protagonismo. Perdido entre a ascensão do hip hop e o engajamento da MPB, o filho rebelde do blues precisou se adaptar. E se o gênero ainda não percebeu isso em sua grande maioria, Pitty já entendeu perfeitamente o recado. Diferente da rebeldia tão exaltada pelo gênero, a música de Pitty em Matriz esbanja um lirismo acima da média. Empolga ao mesmo tempo em que soa extremamente agregador, dialogando com outras vertentes enquanto vai do dub ao metal sem se perder no caminho. E tudo dentro de uma embalagem pop, enquanto passa longe da demonização do termo. Composto por 13 faixas e produzido pelo parceiro de longa data, o talentoso Rafael Ramos, Matriz tem como momento emblemático a faixa Roda, que conta com a participação do inovador BaianaSystem. É seguramente o momento que representa bem esse velho novo rock de Pitty. Intensa, a faixa tem tudo pra se tornar uma das mais festejadas ao vivo. Outras participações marcam presença no repertório, como Larissa Luz e Lazzo Matumbi, nas faixas Sol Quadrado e Noite Inteira, respectivamente. Essa última lançada como primeiro single do disco e marcante pelo refrão “Gente se junta pra fazer revolução / Gente se junta pra falar besteira / Com quem tu andas? / Quem é que te estende a mão?”. Definitivamente, 06

disponibilizado em todas as plataformas digitais, Matriz também ganhou lançamento em LP azul e K7 - Créditos: Divulgação

Pitty está afiada e antenada em seu novo álbum! Sem se alongar em seu tracklist, ouvir Matriz é uma tarefa fácil até mesmo para aqueles que ainda tinham dúvida da capacidade de Pitty em seguir mantendo sua carreira e um nível alto. Com poucas, mas extremamente certeiras, baladas, o disco é pautado pela diversidade do início ao fim sem precisar exalar o mesmo sentimento durante toda a sua execução, permeada por dois interlúdios que enchem de poesia um álbum que não faz a menor questão de ser rock, mesmo o sendo. Dentre tudo o que foi dito ao longo da audição de Matriz, o que mais enriquece a música brasileira dentro do tão confuso mundo do rock é o protagonismo de Pitty. Distante do rótulo de “nova Rita Lee”, é extremamente importante que uma artista como a cantora baiana alcance tamanha relevância em um gênero que parece ter decidido andar na contramão da história. Em Matriz, Pitty foi além da reconstrução ou da escolha de um novo rumo na carreira. Ao se abrir para o que importa, reescreveu o que já sabia, mas com letras garrafais e para que possam entender, o que realmente deve ser o rock no Brasil, tal qual uma verdadeira matriz. •


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Créditos: Divulgação


Créditos: Divulgação

entrevista

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Ao longo da última década muita coisa mudou no mundo da música, mas isso não se aplica ao trio formado por Tim Bernardes, Guilherme D’Almeida e Gabriel Basile, integrantes da banda O Terno. Dono de uma discografia sólida, o trio mostrou-se tão fiel aos seus ideais que essa paixão pela arte a arte acabou ligando a banda com os fã e garantindo ao grupo o posto de um dos mais criativos da frutífera cena nacional. Com influências que passam pela psicodelia sessentista e brasilidades, O Terno se tornou uma referência. Essa consolidação se deu com o lançamento de seu quarto álbum, o minimalista <atrás/além>, que desafia o dinamismo das plataformas digitais e explora suavemente caminhos distintos, proporcionando a viagem por um universo onde a música quase pode ser tocada como um objeto, tamanha a sensibilidade apresentada. E conversar com Tim Bernardes sobre tudo isso, óbvio, rendeu uma entrevista fantástica que você confere agora na Revista Som! por Anderson Oliveira

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O mergulho intimista em <atrás/além> e a conexão com o público Tim Bernardes: Acho que é importante que as pessoas percebam isso, de que nós três também gostamos de ouvir música dessa forma. Sentar, parar e ouvir música. E é exatamente assim que fazemos música, sentando, parando e produzindo. As faixas podem funcionar separadamente, mas o disco em si sempre foi uma grande atração. Acho que isso foi atraindo cada vez mais pessoas à nossa música. O clipe foi um jeito de chamar, a estética dos shows etc, mas acredito que o que toca mesmo as pessoas é a música em conjunto, o disco como produto final. Nesse caminho as pessoas que gostam de ouvir o disco foram chegando junto. Para nós sempre foi muito sincero e verdadeiro fazer uma música para um público que é extremamente sincero conosco. Tão atencioso e que ouve a música com o mesmo sentimento que a gente faz. Com carinho e afeto. <atrás/além> no palco Tim Bernardes: Esse disco é um disco diferente dos outros no sentido de que é o mais intimista e minimalista que já produzimos, mas por outro

Com cada vez mais reconhecimento no exterior, O Terno já foi atração de vários festivais internacionais, entre eles o Primavera Sound - Créditos: Divugação

lado também é o mais grandioso da nossa discografia pela quantidade de instrumentos usados. No estúdio foi um grande desafio conseguirmos entender como tocaríamos canções tão delicadas sem pesar a mão como um trio de músicos. Essa foi a primeira vez que a gente passou para o show de lançamento com outros instrumentos também. Passamos os arranjos com sopro, para tentar dar e entender o peso da orquestração, de parte dela. Acho que nesse show temos momentos em que soamos exatamente como um trio, apenas com a gente tocando junto, bem minimalista, mas em outros bem intenso, com a galera participando. Nosso grande desafio nessa turnê é sempre usar o disco para criar. Como é difícil recriar exatamente o que está no disco em cima do palco, queremos sempre usar esse espaço para nos divertir e ter a liberdade de criar. Por ser um disco diferente ele também tem um resultado diferente, que acabou agregando ao seu repertório, que é bem mais claro, outras músicas da banda que seguem essa linha. Claro que sem deixar de fora as faixas mais agitadas e conhecidas. É um retrato bem fiel do que é O Terno.

Dono de uma carreira solo tão elogiada quanto o trabalho realizado com O Terno, Tim Bernardes posa com seu primeiro LP solo e o novo álbum da banda Créditos: Divugação

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Tim Bernardes: Acredito que o momento de hoje seja bem diferente de tudo o que aconteceu durante os anos 60 e 70 na música no Brasil. Aquele foi um momento de conjunção entre a indústria e a criatividade muito rara e hoje é


é diferente. Essa combinação já ruiu de certa forma, diferente dos anos 60 e 70. Naquele período a indústria conseguiu tomar conta disso, depois houve toda a crise e tudo começou a mudar com o começo da internet.

infelizmente a educação no Brasil nunca tenha instigado o cidadão a consumir e curtir cultura, ter tesão por cultura, então de algum lugar as pessoas acabam indo atrás. A coisa não vai parar nunca!

A MPB de ontem e de hoje Tim Bernardes: De uma certa forma é um momento onde a criatividade foi voltando para a cena, já que o artista não dependia mais de ninguém, dando a liberdade criativa novamente para o artista. Por sua vez, o artista atingia o público não mais pela indústria, mas justamente pela liberdade de fazer algo criativo. Agora, nossa geração, está chegando em um grau de maturidade importante, as músicas estão atingindo mais gente, assim como estão chegando em pontos mais distantes.

A relação entretenimento e arte Tim Bernardes: Para mim o barato de tudo é que seja algo híbrido. Entretenimento com arte e arte com entretenimento. Acho muito pouco convidativo uma obra artística se recusar a entreter e acho sem graça um produto apenas se propor a entreter.

Os compositores de hoje não são mais novatos e estão desenvolvendo seu trabalho de uma forma diferente. E ser novato não é ruim, é onde exerce-se a liberdade criativa. Nessa época estamos nos desenvolvendo bem e atingindo em nível altíssimo, que não pode ser mais considerada underground, no sentindo de estar distante dos grandes canais de rádio e TV. É um momento especial, lindo de ver as pessoas cantarem, se envolverem e se engajarem com os artistas. Em nosso novo álbum é incrível ver as pessoas cantando junto canções tão densas. As pessoas se envolvem com as composições de uma forma mais intensa e profunda. O acesso à cultura Tim Bernardes: Eu acho que cada geração vai atrás buscar de alguma forma aquela cena específica de cultura. A gente tem acesso a muita coisa hoje e somos uma geração que nasceu com internet e tinha uma coisa muito saturada da imagem de bandas de rádio que falavam a mesma coisa, eram muito semelhantes. De repente podia começar a baixar discos antigos e conhecer coisa nova. Buscar algo antigo, movimentos que achávamos diferentes e interessantes e referencias estéticas musicais. Houve gerações que buscaram isso na internet e haverá uma geração que buscará tudo isso no YouTube, acredito que o meio não é o problema, a procura e acesso à cultura existe e, embora

Capa do novo álbum d’O Terno, o delicado < atrás/além>, lançado em 2019 - Créditos: Divulgação

A música tem um lance meio mágico de trazer algo muito maior que o texto escrito, não é só a letra ou a melodia. Na música pop não é somente a cara ou a foto do artista, a textura, os timbres, conceitos, videoclipes... Tudo é uma pílula pop formado pela canção e você pode injetar nela tanto significado e conceito de uma forma que seja para todos, que as pessoas tenham que estudar para entender. Seja sempre convidativa e que faça as pessoas refletirem. A megalomania de grandes eventos ou o lado intimista? Tim Bernardes: Acho que as coisas estão nesse meio do caminho, talvez não seja o meio, mas os dois lados do contraste, no sentido de ser o mínimo e o máximo. O entretenimento e a arte não podem ser impeditivos. É muito legal 11


Milimetricamente desenhada, cada foto de divulgação d’O Terno explora o minimalismo do álbum. O trio é formado por Tim Bernardes, Guilherme D’Almeida e Gabriel Basile e lançou em 2019 o quarto álbum da carreira, cravando seu lugar como um dos mais criativos nomes da moderna música brasileira - Créditos: www.facebook.com/oternobanda

para nós termos a chance de fazer um show no Lollapalooza para tanta gente e ao mesmo tempo fazer isso em um teatro pequeno. Em ambos estaremos levando essa sinceridade, essa verdade da música. E ela pode ser apreciada da melhor forma em cada ambiente. Como somos comunicadores, temos que saber que existe algo abstrato, um mistério da arte no mundo da música. Temos que entender os contextos, os meios que estamos falando e não ter medo e nem preconceito, não ser banal. Esses contrastes são importantes e gostamos de estar nesse lugar. A música como objeto de consumo Tim Bernardes: De alguma forma a música pop mainstream grande saturou as pessoas e acabou deixando um espaço a ser preenchido por um consumo de música mais pessoal e íntimo. A coisa mais artesanal. Pode acontecer da pessoa gostar do pop e do folk/indie, isso são caminhos diferentes, mas normais, assim como a música erudita e a popular. A coisa pop mainstream é um mundo 12

isolado, um mundo próprio. Uma coisa não compete com a outra, o indie não surgiu do zero e foi encontrando pessoas que queriam música assim e fazer música assim. Acho que nem é o intimismo dessa música que faz ela ganhar espaço, mas o afeto e a sinceridade/ necessidade dela. Não ser vista como produto, mesmo se relacionando com isso. A urgência da música contemporânea Tim Bernardes: Isso é realmente muito louco porque estamos em um momento da vida em que esperamos reações imediatas. A música que fazemos ainda vai estar dando reações daqui 10, 15 ou 20 anos. Eu sempre tento me concentrar na música e ideal que acredito, que a música não se modifique com a resposta imediata da coisa. Quando uma música é lançada, nós pensamos em como divulgar como um quebra-cabeça e dialogar com essa ansiedade e velocidade das mídias sociais sem atrapalhar os princípios sinceros por trás da música.


Nós escolhemos o que queremos fazer quando vamos trabalhar um disco. Fazemos da forma como acreditamos. Sabemos que não fizemos um disco urgente, ele vai ser compreendido e eu não vou fazer nenhuma divulgação que fuja dos nossos princípios. Vamos dialogar com a coisa e deixar a verdade e nossos ideais sempre sendo colocados como o principal, sempre sendo coerente com nossa discografia. O trabalho diário é impulsionar as coisas para que cheguem em cada vez mais gente sem perder a verdade da coisa.

O significado do sucesso Tim Bernardes: Bob Dylan sempre falou uma coisa que é importante. “Sucesso é quando você passa a maior parte do seu tempo fazendo o que você gosta”. Essa visão é muito libertadora e muito legal porque ela não é baseada em produtividade ou algo financeiro, retorno ou algo imediato. O sucesso que me vem à cabeça e me faz ter a sensação de dever cumprido é quando ouço o o meu disco e gosto daquilo que está sendo lançado. •

Abaixo, O Terno em ação durante a turnê do álbum <atrás/além>, disco mais minimalista do trio, mas que ao vivo explora de forma ainda mais profunda a riqueza de cada instrumento em um trabalho intimista e grandioso - Créditos: www.facebook.com/oternobanda

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Créditos: Divulgação


Indecifrável, imprevisível e - mais uma vez - certeira, Madonna retorna ao topo com Madame X, disco que corajosamente caminha por águas inexploradas e mostra que o pop pode ser qualquer coisa, mas sua imagem sempre estará um passo a frente. por Anderson Oliveira Quando Madame X nasceu, em meados de 2017, o momento era de total desalento e tédio na vida de Madonna. A cantora americana havia se mudado para Lisboa, em Portugal, onde buscava encontrar uma academia de futebol para seu filho David, que queria se tornar jogador de futebol profissional, e durante o período em que por lá permaneceu, teve acesso a um novo mundo, cheio de novos costumes e, principalmente, novos ritmos, o que inspirou a “espiã” de seu 14º de inéditas na carreira, Madame X. Em um disco que flerta com o funk, o reggaeton, o trap e até mesmo a cúmbia, Madonna é a dona do jogo. Em parcerias com artistas como o badalado Maluma, o rapper Quavo e a brasileira Anitta, mostra desenvoltura cantando em português, rebola nos videoclipes e seduz como uma adolescente, e segue ignorando totalmente os seus 60 anos mostrando que ainda tem muita, mas muita lenha para queimar em uma carreira que não fez questão de abraçar o pop, mas foi

completamente abraçada por ele. Madame X revela várias “Madonnas”. Não é como David Bowie em suas mudanças de direção musical, mas também o é. Revelando uma nova faceta em uma carreira que sempre teve a capacidade de chocar, a diva maior do pop faz de seu novo projeto seu trabalho mais humano ao longo da última década, especialmente por trabalhar com artistas relacionados a uma sonoridade que já é forte, mas ainda não vive seu auge dentro da cultura americana. Acompanhada de grandes produtores, caso de Diplo, Madonna traz em seu novo álbum um punhado de nomes que tem tudo para ditar o ritmo da música pop nos próximos anos, em especial na figura do francês Mirwais, o grande nome do disco e possivelmente o novo “Willian Orbit” de sua carreira. Mike Dean é outro que se destaca ao trazer o trap para dentro da música de Madonna, especialmente na faixa Crave, que 15


marca a parceria com o rapper Swae Lee. Diferente de álbuns como o fraco Rebel Heart, existe em Madame X uma Madonna muito mais palatável socialmente. Ao se enveredar por vertentes populares em países latinos, a sensação de proximidade da maior diva do universo pop é inevitável. E isso se faz ainda mais presente no dueto realizado com Anitta, na sensual Faz Gostoso, assim mesmo, em português. Passeando por várias vezes pelo idioma português e espanhol em seu novo álbum, Madonna claramente mostra-se um passo a frente em relação a tudo que cerca o chamado panteão do gênero mais rentável do planeta. Uma sacada genial demais para ser desprezada, já que só com um know-how como o seu essa ousadia poderia ser sustentada.

Madonna apresenta essa gênese pop cheia de swing latino-brasileiro, pronta para ditar aquela que talvez seja a próxima onda pop a dominar o mundo. E na mesma prateleira em que outras divas pop se completam – e isso passa por nomes que vão de Taylor Swift a Shakira – Madonna tem algo diferente, atrai algo diferente. Mais do que qualquer artista na história, a cantora americana segue sabendo como poucas o que é ser abraçada por onde passar. •

Focado principalmente nos ritmos latinos, Madame X também se destaca pela facilidade com que Madonna consegue transitar por faixas bem desenhadas em meio a todo circuito eletrônico, como em I don´t search I find, uma das melhores do disco e forte candidata a novo clássico de sua carreira, marcada pela diversidade e a ousadia tão explícita agora. Mesmo em faixas mais intimistas como Come Alive e, o que se percebe em toda a produção do disco é a riqueza como faixas aparentemente simples parecem esconder. Há um ar simplista que esconde o poder das músicas de alguém que não se cansa de lançar tendências nos mais variados espectros da sociedade. Ou então, “alguém acima de qualquer suspeita”, tal qual Madonna. Há de se destacar que, contramão de tanta produção, existe também a preocupação de evitar o gigantismo de outrora. Em contraponto ao esperado pelos fãs, Madonna preparou também sua mais intimista turnê, que só deve passar nesse momento por pequenos teatros europeus e americanos. E é puxando a fila, algo como sempre fez, que 16

Seguramente a parceria de maior impacto em Madame X, Maluma atinge o Olimpo da música pop ao levar seu ritmo para o universo pop de Madonna. Além do músico cubano, artistas como Anitta mostram como a bola da vez da música pop está no hemisfério Sul - Créditos:


disco estranho

por Anderson Oliveira

Há um século o mundo viu nascer Nelson Mandela. Sinônimo de liberdade, assistiu sua trajetória ser coroada em 1994, quando assumiu a presidência da África do Sul e deu fim ao regime do apertheid, encerrando o mais sombrio período daquele que é um dos maiores países do continente africano. Dono de uma história inspiradora, Mandela foi (e segue sendo) referência para um número incontável de músicas que exaltam seu legado de luta por igualdade. Tantas que foram necessários dois discos (36 faixas) para que a VP Records (gravadora americana especializada em reggae e dancehall) disponibilizasse a coletânea Reggae Mandela, homenagem ao líder sul-africano. Na linha de frente, nomes expressivos como Alpha Blondy, Jimmy Cliff, Ub40 e Aswad, além de outros tantos artistas menos conhecidos do público brasileiro, mas de valoroso legado, caso de Bounty Killer e Brian Tony Gold. Sugar Minott, “Poderoso Chefão” do dancehall, também está lá. São nomes que engrandecem o tributo com uma naturalidade fora do comum. Mais do que seus protagonistas, o que fica a frente de Reggae Mandela é a capacidade de cada faixa colocando sempre em primeiro plano questões sociais que permearam a vida do homenageado. Não é “propaganda gratuita”. Salvo raras exceções, como em Free Mandela, de Yomi Bolo, parte do repertório trata especificamente da cultura africana, da luta por igualdade e por valores que remetem diretamente a Mandela. É aí que fica claro o tamanho de seu legado.

Créditos: Divulgação

Disponível em CD duplo e nas plataformas digitais, Reggae Mandela pode funcionar como uma simples playlist no seu perfil de Spotify, mas se você – ao ouvir tantas músicas de tamanha qualidade – sentir uma alegria imensa tomar conta de você, acredite, o legado não será somente das bandas, mas de Nelson Mandela. •

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Criado há pouco mais de 20 anos, um dos grupos mais impressionantes das últimas décadas segue levando seu show-espetáculo a um patamar cada vez mais alto e inimaginável dentro do mundo do rock. E a ideia é essa, não ser uma banda de nicho, mas que abrace algo maior que o metal industrial ao qual é normalmente associado. Com seu mais insano álbum até hoje, Untitled, o Rammstein eleva ainda mais os limites de sua criatividade e mostra que o limite de sua história só pode ser definido por seus integrantes. por Anderson Oliveira

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Créditos: Divulgação


Não há limites para o Rammstein, tanto visualmente como musicalmente. Foi essa a sensação que o mundo teve ao dar de cara com o videoclipe monumental da faixa Deutschland, que abre seu sétimo álbum, Untitled. Faixa que contou com uma produção e roteiro poucas vezes visto para uma banda, Deutschland é o início de um disco que quebra um hiato de uma década sem um trabalho de inéditas e garante novamente ao Rammstein a condição de uma das mais criativas e intensas bandas do mundo da música nesse século. E com justiça! Produzido por Olsen Involtini, que dirigiu, além do Rammstein, bandas alemãs de menor expressão, Untitled se esconde atrás da capa mais simples da carreira do grupo um conteúdo que vai muito além do que se ouve. É irônico, pesado e cheio de traquitranas que parecem ter sido desenvolvidas somente para impressionar quem achava que o grupo liderado pelo vocalista Till Lindemann havia se acomodado na carreira e a condição de um dos grandes nomes da música pesada no novo século. De fato, ainda impressiona que um disco feito por uma banda de rock – normalmente associada ao heavy metal – chacoalhe de forma tão intensa o mainstream como conseguiu o Rammstein em pleno 2019. Ainda que não seja uma unanimidade na boca do público ou domine as rádios como uma banda do porte de um Metallica ou Slipknot, o grupo alemão vive em sua história a ambiguidade de não ser considerada uma banda dita “clássica” enquanto convive com um questionamento silencioso destinado a um iniciante. E em ambos os casos se sai muito bem.

radiofônico muito maior que praticamente todo repertório dos discos anteriores da banda. Salvo raras exceções como em Amerika ou a clássica Du Hast, por exemplo, o que se espera hoje do Rammstein é um gigantismo que se converta em algo absoluto no contexto musical muito além do hype dos views de YouTube ou boatos de dez anos atrás. Mesmo sendo sucesso em parte considerável da Europa, e bote nisso MUITO sucesso, já que as apresentações do Rammstein atingem um nível capaz de fazer qualquer fã de Stones e U2 ficarem de queixo caído e acontecem em grandes arenas, esse paradoxo de seu poderio contrasta com apresentações para 5 ou 6 mil pessoas em países fora do continente, como o Brasil, que recebeu a banda durante a edição 2016 do Maximus Festival. Lançado mundialmente no último mês de maio, Untitled tem sérias condições de mudar isso, mas também não há nenhuma garantia de que seja o zeitgeist de carreira do grupo. Gigante na proposta e curto em sua duração, menos de 50 minutos, o novo trabalho do Rammstein

Com um som muito mais polido em Untitled, especialmente quando comparado ao pesado Liebe ist für alle da (2009), é inegável que há na música do Rammstein um objetivo muito maior do que propriamente chocar o mundo da música com pirotecnia e vocais em alemão. Mais acessível em seu sétimo álbum e com um destaque muito maior para os teclados e sintetizadores de Christian Lorenz, singles como a sugestiva Radio e Zeig Dich tem um potencial 20

Rammstein em cena do impressionante e polêmico videoclipe de Deutschland - Créditos: Divulgação


impressiona pelo tamanho da produção que lhe foi destinada logo de cara, com o videoclipe de Deutschland, mas tem como maior desafio equilibrar a ousadia da banda com a questão do idioma de seu público-alvo. A primeira conquista já foi alcançada, o que o eleva a um espectro ainda bem mais amplo que a ideia de um grupo referência somente dentro do chamado metal industrial. Com mais de duas décadas de história e sete álbuns de inéditas, a glória definitiva do Rammstein parece próxima. Não se trata de números de discos vendidos ou hits de rádio, mas para a consolidação em um espectro maior. Pronto para se tornar uma referência para sua geração, algo que já é para muitos, o grupo alemão ainda está a um passo de bandas como Slipknot e System of a Down, que atingiram essa condição com muito menos lançamentos e turnês, mas é inegável que, caso atinja esse objetivo, o show de Till Lindemann e sua banda serão capazes de ir muito mais adiante. •

Capa de Untitled, sétimo disco de inéditas da carreira do Rammstein. Uma verdadeira antítese com o gigantesco conteúdo e produção exibido ao longo das 13 faixas que compõem seu repertório - Créditos: Divulgação

Notável por apresentações dignas dos maiores nomes da história da música, a nova turnê do Rammstein segue pela Europa com um cenário impressionante, além da já tradicional priotecnia que sempre marcou a carreira da banda Créditos: Divulgação

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principal


Ocorrida há quatro décadas em um estádio de beisebol, a caótica noite que tinha como objetivo demolir a influência a Disco Music mostrou que a intolerância jamais será maior que o poder da música! Como foi? Quem foram os culpados? O que aconteceu depois? Você descobre nesa edição da Revista Som! por Anderson Oliveira

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Existem acontecimentos no mundo da música que são simplesmente bizarros. Fruto de ódio ou inveja (ou até ignorância), se tornaram emblemáticos por terem proporcionado um caos completo, algo que muitas vezes acabou resultando em tragédias de maior ou menor escala; ou então em situações constrangedoras para artistas, que vez por outra acabaram sendo riscados do mapa da música. Um desses episódios é, sem dúvida, a Disco Demolition Night, realizada no dia 12 de julho de 1979, no Comiskey Park, em Chicago, durante uma partida entre os times de beisebol Chicago White Sox e o Detroit Tigers. Entender a importância da Disco Demolition Night é ter a percepção de um movimento iniciado ainda no início da década, com o fim do sonho hippie e o boom da cena noturna de Nova Iorque. Embalados por raízes de funk, soul e uma dose de psicodelia, uma maioria de negros, latino-americanos e gays passaram a encontrar nas discotecas o refúgio para curtição. Nascia ali a “Era Disco” com suas divas e ícones que embalavam as noites da Big Apple. Não era só música. Nunca foi. Pensar em Disco Music também é compreender que os anos 70 foram um período de aumento da independência financeira das mulheres, da libertação gay e, especialmente, de revolução sexual, conforme definiu Jones and Kantonen no livro Saturday Night Fever (1999). E ainda que seja lembrada como um movimento voltado a um nicho específico, a Disco Music alcançou números expressivos, proporcionando um aumento de consumo de gravações musicais entre negros e hispânicos superior ao do público branco. Poderíamos contar a história de centenas de grupos, que vão de The O´Jays a Three Degrees, George McCrae até Sisters Sledge, mas o fato é que, mesmo com uma ascensão meteórica, a Disco Music parecia não despertar um ódio acima da média de uma classe elitizada/ trabalhadora americana, ao menos até 1978, quando o épico do cinema Saturday Night Fever, foi lançado. Foi quando a Disco Music chegou ao público heterossexual e de classe média. Dirigido por John Badham e Robert Stigwood, 24

Nile Rodgers e seu CHIC, em foto de divulgação. Grupo que fez história durante os anos áureos do movimento Disco com clássicos como Everybody Dance e Good Times - Créditos: Divulgação

Saturday Night Fever (lançado no Brasil como “Os Embalos de Sábado à Noite”) contava a história de Tony Manero, um assalariado americano que só encontra a felicidade nas pistas de dança aos finais de semana. O roteiro, assinado por Norman Wexler, claro, foi um sucesso. E a Disco Music atingiu naquele momento um patamar inimaginável. É quando começa pra valer a história sobre a Disco Demolition Night. A DISCO MUSIC NO AUGE INCOMODAVA A Disco Music voou alto, tanto que havia chego ao rock. No topo das paradas, Rod Stewart fazia o público dançar ao som de Da Ya Think I’m Sexy? (1978), um dos maiores hits da sua carreira, enquanto personalidades do rádio como Steve Dahl faziam paródias denegrindo o movimento. Na época, uma versão do hit foi lançada como “Da Ya Think I’m Disco?”, só para se ter uma ideia. Parecia o auge e nada mais poderia parar toda essa onda. Foi quando Steve Dahl teve a ideia de explodir a Disco Music, literalmente. Sim, você não leu errado, EXPLODIR! Ao menos simbolicamente. O plano era ousado. Aproveitando o esporte mais


popular dos Estados Unidos, o beisebol, usou como palco o estádio do Chicago White Sox. Estimulando o público através da rádio onde era locutor, combinou com o time um desconto nos ingressos para cada LP de Disco Music entregue na entrada do estádio. Na sequência disso, uma caixa com todos os discos seria alçada e explosivos garantiriam sua destruição, sepultando um dos maiores movimentos musicais das duas últimas décadas. A EXPLOSÃO Com estádio lotado (números do arquivo do White Sox falam em torno de 20 mil pessoas naquela noite, mas na época o estádio comportava pelo menos 50 mil pessoas e estava lotado), o momento da explosão era certamente mais aguardado que a própria partida. Fãs de rock e de movimentos anti-Disco (na época conhecidos como Suck Disco), insuflados pelo radialista aguardavam pela explosão e o fim da Disco Music, que aconteceu às 20h40, 25 minutos após a realização da primeira partida, que terminou com vitória do time de Detroit.

Poucos minutos após a detonação dos álbuns, o caos tomou conta do estádio, fazendo com que o público começasse a invadir o gramado - Créditos: Divulgação

Posicionada no meio do estádio, a explosão de milhares de discos quase proporcionou uma verdadeira tragédia. Com uma explosão que não fora bem planejada, milhares de discos se despedaçaram sendo arremessados sobre o gramado e próximo ao público. Foi quando o caos começou. Com o impacto da explosão, um buraco foi aberto no gramado e na sequência do evento milhares de fãs decidiram invadir o gramado do Comiskey Park, promovendo uma destruição em massa de artefatos do jogo, bancos de reservas e até da própria arquibancada do estádio. Uma consequência da performance do radialista, que usava o microfone do estádio.

Steve Dahl, radialista e responsável pela Disco Demolition Night, minutos antes da explosão no estádio do Chicago White Sox - Créditos: Divulgação

A polícia de Chicago conseguiu conter o público pouco mais de 1h após a explosão. Quarenta pessoas foram presas, estilhaços de LPs feriram parte do público e a segunda partida, que seria jogada no estádio, foi adiada. Ao menos na cabeça de seus protagonistas, a Disco Music havia sido demolida. 25


DEPOIS DA DISCO DEMOLITION NIGHT De volta ao rádio, Steve Dahl encarou uma verdadeira avalanche de críticas nos periódicos da cidade. Prestes a provocar uma verdadeira catástrofe, o radialista ironizou seus detratores defendendo a ideia de que o evento fora um verdadeiro sucesso. E de certa forma foi, afinal, se tornaria lembrado por isso e, lamentavelmente, a Disco Music encararia seu período de vacas magras nos anos seguintes. Diretores do Chicago White Sox também seriam responsabilizados pelo incidente. Alguns deles

Diretores do Chicago White Sox também seriam responsabilizados pelo incidente. Alguns deles seriam até banidos do esporte posteriormente, mas por outros motivos. Fato é que o time se tornou referência do acontecimento por ter servido de palco para o evento. Mas e culturalmente? O que aconteceu com a Disco Music após a explosão dos álbuns? Tecnicamente nada, afinal, artistas como Diana Ross e tantos outros continuaram suas carreiras normalmente, mas o movimento não resistiu aos anos 80. Culturalmente é impossível que algo seja para sempre e a Disco Music já havia vivido seus momentos de brilho. Com a chegada dos anos 80, gravadoras já chamavam a Disco Music de Dance Music, ampliando seu espectro e novamente dando margem para uma avalanche de artistas que poderiam ignorar o contexto inicial da Disco, liderada por negros, hispânicos e gays. O próprio Steve Dahl chegou a dizer que a Demolition Disco Night não foi determinante para esse declínio, mas que exprimiu a revolta de fãs de outras vertentes, em especial o rock. Claro, foi bastante criticado por ter promovido uma ação homofóbica e racista, algo que nega até hoje. Nile Rodgers, provavelmente um dos maiores músicos da oriundos da Era Disco, comparou o

John Travolta em cena icônica do filme Saturday Night Fever. Obra seria determinante para o último passo de evolução e popularidade da Disco Music, acarretando uma mudança de direção das grandes gravadoras e seu foco no grande público - Créditos: Divulgação

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Insuflado por Steve Dahl, público ostentava no estádio faixas do movimento Disco Sucks, reforçando o ódio pelo movimento Disco Music - Créditos: Divulgação


episódio à queima de livros no regime nazista. Gloria Gaynor, que um ano antes do evento havia estourado com o single de I Will Survive, também fez duras críticas ao episódio. Mergulhando mais profundamente nessa questão, o lançamento do filme Saturday Night Fever realmente foi determinante para a mudança de paradigma das grandes gravadoras. Sucesso absoluto de público e crítica, restava aos managers buscar agradar uma outra camada da sociedade, promovendo artistas brancos e de classe média que nutriam um desprezo não pela Disco Music, mas pelo público do mesmo, formado por gays, latinos e negros. E o movimento intitulado “Disco Sucks” atingiu o ápice no dia da Demolition Disco Night. Chamado de idiota por diversos músicos, Dahl chegou a defender em 2014, em um artigo publicado no maior periódico de Chicago, que tudo aquilo havia sido apenas uma “brincadeira”.

RESSURREIÇÃO Construída à base de amor e muito groove, além, claro, de muito engajamento, a Disco Music é base hoje para praticamente qualquer DJ que desafia o público a dançar durante horas. Seja pelas linhas de baixo de Move on Up, de Curtis Mayfield, da voz de Harold Melvin ou os vocais de tantas divas, a recém-chegada House Music floresceu – ironicamente – na mesma Chicago, servindo de plataforma para uma ascensão do gênero que hoje é um dos mais ouvidos do planeta e abraçou tantas outras vertentes musicais, que vão do hip hop ao próprio rock, novamente. O nascimento da Warehouse, residência do lendário produtor Frankie Knuckles, é um bom exemplo disso e certamente vai ser assunto aqui no Revista Som em um futuro próximo, mas a lição de um episódio tão triste da história da música, quarenta anos depois, é que NADA, absolutamente NADA, é maior que o poder da música. •

Mesmo com uma avalanche de críticas sobre o evento, o declínio da Disco Music foi um caminho natural após a fatídica noite de 12 de julho de 1979, sendo lembrado até hoje em Chicago como “A noite em que a Disco morreu” - Créditos: Divulgação

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Créditos: Divulgação

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Um dos maiores e mais bem-sucedidos artistas de todos os tempos, George Benson está de volta, seis anos após o lançamento de Inspiration: A Tribute to Nat King Cole. O retorno, também em ritmo de homenagem, exalta outra de suas paixões, New Orleans, terra de ícones como Chuck Berry e Fats Domino, artistas que dão forma a um dos grandes álbuns lançados em 2019. por Anderson Oliveira

Pensar em George Benson sem pensar em Nova Iorque é algo simplesmente impossível para quem acompanhou sua carreira ao longo das últimas décadas. Mais do que o maior clássico de sua carreira, a faixa On Broadway é também um sentimento que vive dentro do imaginário da cultura americana. Entre seus versos há uma visão romântica da Big Apple e a definição perfeita do chamado “sonho americano”. Nascido em Pittsburgh, no estado da Pensilvânia, a vida de George Benson é um verdadeiro conto de fadas no mundo da música. Foi através dela que mudou o status quo do jazz a partir do fim dos anos 70, levando esse tipo e música a um novo patamar; mais que isso, estabeleceu um elo bem desenhado do jazz com o mainstream desde então, algo que acabou se perdendo até mesmo no auge do gênero, nos anos 50. Com uma coleção de hits que não cabem em um único texto, George Benson conquistou o mundo (inclusive a Broadway, tão citada em seu maior clássico) e realizou todos os sonhos que um artista possa desejar na vida. Desde então mostra-se dedicado a seguir um caminho similar ao de Eric Clapton, prestando homenagens a alguns de seus ídolos e principais influências. Foi assim com Nat King Cole em Inspiration: A Tribute to Nat King Cole, e agora com uma visita ao Sul dos Estados 29


Unidos, terra de alguns de seus ídolos fizeram história, Chuck Berry e Fats Domino. É daí que nasce Walking to New Orleans, seu mais novo álbum. Com título inspitado em uma canção de Bobby Charles e imortalizada por Fats Domino, Walking to New Orleans é um disco que vai muito além do que se ouve inicialmente. Uma das regiões mais “musicais” dos Estados Unidos, New Orleans teve em sua gênese a influência da cultura europeia e deu vida a um estilo muito único. Por isso, embora tenha em seu repertório faixas de dois monstros sagrados da música, o que se percebe mais nitidamente é que estamos diante de um tributo a uma cultura musical, especialmente nas versões de Benson para clássicos de Fats Domino. Faixas como Ain’t That a Shame, How You’ve Changed e Blue Monday, distintas no período em que foram lançadas e nos números que alcançaram, se unem pela magia do jazz de George Benson, mas seguem se destacando pelo apelo do boogie-woogie e do rhythm and blues que tanto marcou a carreira de Fats Domino. Ao serem recriadas por George Benson, a sensação de se ver um artista fora da zona de conforto executando tais clássicos impressiona, especialmente pelo alto nível técnico que cada música apresenta. Já Chuck Berry era visceral. Um animal possuído, especialmente no palco, por ritmos que davam sentido para sua vida. Fugindo do óbvio, as versões de George Benson em Walking to New Orleans fogem de Roll Over Beethoven ou Johnny B. Goode. Estão lá Nadine (Is It You), Memphis, Tennessee e You Can’t Catch Me, todas menos conhecidas do grande público. Igualmente divididas no tracklist do disco, faixas dos artistas homenageados mostram através de Benson muito mais que seu talento, mas a força da cultura local. É um tributo a uma atmosfera musical de New Orleans, não somente a dois músicos. E é quando percebemos o quanto desconhecemos não só de ambos os artistas, mas muito da cultura que moldou toda uma região dos Estados Unidos. 30

Hoje com 76 anos e em plena atividade, George Benson promove em seu novo álbum um verdadeiro passeio por toda riqueza musical de New Orleans, nos Estados UnidosCréditos: Divulgação

E ainda que Chuck Berry não fosse exatamente de New Orleans, mas do Missouri, mais ao norte no território americano, sua história se liga intimamente aos palcos da cidade localizada na Louisiana (vide os versos “Deep down in Louisiana close to New Orleans / Way back up in the woods among the evergreens”, imortalizados no clássico Johnny B. Goode). Seis anos separaram os dois tributos realizados por George Benson em sua explêndida discografia. Com shows nesse intervalo e turnês intermináveis, fica claro que o objetivo desses artistas certamente não tem mais foco na questão comercial, ainda que o mesmo influencie na real motivação de seus trabalhos. Ao fazer reverberar a música de artistas e movimentos que acabaram se distanciando da esfera pop, George Benson mostra que segue sendo, mais do que nunca, “o cara que queria fazer sucesso na Broadway”, mas hoje de uma forma diferente. Walking to New Orleans faz jus ao título. É um passeio, um passeio pela história da música. E nada menor que George Benson no papel de professor. •


por Anderson Oliveira Quando surgiu em 2015, proporcionando uma verdadeira onda de histeria no mundo do rock, o Supercombo era a sensação do programa Superstar e novidade no rock nacional. Nascido bem antes disso, carregava três álbuns na bagagem e uma ligação tão íntima com a música que era impossível deixa-la somente em um universo artístico. Com composições que sempre proporcionaram um banho de reflexão, o grupo resolveu levar suas letras para outro mundo, não o do cinema ou da TV, mas dos quadrinhos, onde a imaginação de seu público é a linha-guia para seu ótimo novo álbum, o interessantíssimo Adeus, Aurora. Feito para ouvir inspirando-se pela HQ de mesmo nome que o grupo lançou em dezembro de 2018, o novo trabalho do Supercombo tem vida própria, mas desperta uma ligação tão intensa com um universo de cores que se torna quase impossível desassociar da produção realizada nos quadrinhos. São letras que falam de conflitos pessoais e linhas instrumentais que carregam uma roupagem pop que nada deixa a dever à sólida discografia da banda. Composto por dez faixas, Adeus, Aurora, o disco, é sem dúvida, um reflexo de várias páginas da carreira do Supercombo. Exatamente por isso não se parece tanto com o som já produzido pela banda. São recortes que ganham ainda mais sentido embasados por um roteiro que os fãs do grupo já conhecem bem, mas que isoladamente também não se perdem entre si. Maduro, o disco mostra potencial radiofônico na mesma proporção em que reforça o passo ousado do grupo. Créditos: Divulgação

Já a HQ de mesmo nome do disco, lançada em dezembro e que trouxe a participação de Jean Diaz na produção, é perceptível como a música do Supercombo parece clamar por um universo de cores. Disponível para venda no site www.gritaria.com, acaba servindo como um aparato similar a uma edição deluxe do disco, dando-lhe ainda mais sentido, estimulando o público a imaginar onde cada música se encaixa dentro da história. Com seu novo álbum, o grupo capixaba mostra que sua música, embora sempre tenha tido cara de trilha sonora, nunca foi exatamente ligada a uma obra cinematográfica, indo além da imaginação do seu próprio público. •

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CrĂŠditos: Raj Naik

entrevista

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Um dos artistas mais consagrados e talentosos do mundo da música e um dos maiores representantes de seu instrumento, seja no jazz, no funk, no rock, no pop, no R&B e, agora, até na música clássica. A Revista Som se orgulha em apresentar uma incrível entrevista com o artista que redefiniu a função do contrabaixo no século XX.

por Anderson Oliveira

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Não faltam elogios quando o assunto é Stanley Clarke. Um dos artistas mais consagrados da história, o músico nascido na Filadélfia em 1951 chega aos seus 68 anos devoto de um instrumento que acabou sendo escolhido por acaso, afinal, havia chego atrasado na aula em que os instrumentos seriam distribuídos na aula de música durante os tempos de colégio. O que poderia ser um trauma se tornou em amor pela música e a evolução na adolescência foi um caminho natural. Durante os anos 70 formaria ao lado de Chick Corea o Return to Forever e redefiniria o conceito do fusion jazz. Diante disso a carreira solo também não tardou a acontecer, garantindo a partir de 1973 uma sequência de álbuns impressionante, que culminaria com o lançamento do seminal School Days, em 1976. Transitando pelo rock, o pop, o jazz, o funk e o soul, Stanley Clarke tocou com praticamente todos os grandes artistas da história, que vão de Jeff Beck a Paul McCartney, passando por Milton Nascimento e George Duke, a quem homenageou em seu último álbum, The Message. Seu trabalho mais espiritualizado. Vencedor de 4 Grammys, Stanley Clarke se tornou uma referência tão absoluta no contrabaixo que um deles tem exposição permanente da Museu Nacional de Cultura Afro-americana, localizado em Washington, nos EUA. Mais do que um músico excepcional, Stanley Clarke é um ícone da cultura pop. E você confere agora o lado espiritual, técnico e repleto de humildade de um dos maiores artistas do mundo da música. A ligação com o Brasil Stanley Clarke: Ir ao Brasil sempre algo que me deixa muito empolgado. Toda vez que vou ao país me deparo com uma rica cultura musical e tenho a chance de encontrar novamente uma verdadeira avalanche de músicos que já tocaram comigo e que até hoje tenho a honra de ouvir em minha casa, como João Gilberto, Gilberto Gil e Milton Nascimento. Acho que o Brasil é um dos países mais ricos em musicalidade do mundo e que tem uma incrível 34

mistura de diferentes estilos que caminham juntos. São ritmos africanos, europeus e especialmente indígenas que trabalham junstos e criam algo único, tão delicioso quanto a comida brasileira. A homenagem realizada no álbum The Message ao amigo George Duke Stanley Clarke: Produzir esse álbum não foi exatamente algo bom para mim. Por mais que sejamos fortes e tenhamos uma personalidade que nos faz acreditar que somos invencíveis, é difícil lidar com a morte. Nesse caso em específico, eu nunca na minha vida imaginei por um segundo que um dia George Duke iria embora. Ainda assim há algo valoroso nesse álbum que foi o fato de conseguirmos transportar para ele a mesma energia de George através de músicos maravilhosos, enriquecendo ainda mais sendo legado, mostrando que ele nunca vai desaparecer. A música e sua relação com o mundo Stanley Clarke: Acho que no geral parte do mundo da música é o que você faz dele e o que você está disposto a sacrificar por ele. Artistas como Al Jarreau fizeram isso durante sua vida. Tudo se resume a quanta energia você deseja dedicar a você e sua música. Ninguém deve nada a ninguém. A responsabilidade do artista Stanley Clarke: Claro, tudo depende do que você busca com a música, mas acredito que nós, como artistas, temos que ser um pouco mais responsáveis e disseminar mensagens de amor, compreensão e esperança, ao invés de confusão e ódio. E acredito na nossa responsabilidade social com as próximas gerações. Se você acredita ter a capacidade de ajudar um jovem música, isso se torna um dever para você.


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CrĂŠditos: Raj Naik


A conexão do jazz com a música clássica em “The Message” e seu acesso ao público jovem Stanley Clarke: Sabemos que a música clássica é uma música de outros tempos... uma música segmentada e extremamente técnica. É normal essa falta de interesse hoje porque os jovens sempre vão ter a sua própria música, à música do seu tempo. Quando eu era jovem eu também tinha meu próprio estilo, meu estilo musical também. Porém, acredito que a música clássica é algo importante demais não só para que o público jovem a ouça, mas para que essa vertente tão rica não ganhe esse estigma de que é uma música” de velho”. Existem compositores contemporâneos maravilhosos, que escrevem para orquestras inclusive. É muito importante que as pessoas tenham acesso a isso e reconheçam seu valor. O pop de ontem e de hoje Stanley Clarke: A música pop sempre aconteceu ao acompanhar aquilo que as pessoas queriam que se tornasse popular. Por isso não podemos

Com Stanley Clarke ao fundo, a capa de The Message e os jovens músicos capitaneados pelo baixista em seu novo projeto- Créditos: Divulgação

culpar a queda de qualidade da música se essa geração escolheu ver na música pop algo ligado à histeria e à sexualidade em detrimento de composições e arranjos mais complexos. A geração dos supergrupos Stanley Clarke: Tive muitos amigos que eram extremamente virtuosos e famosos ao mesmo tempo, então sempre fácil para mim tê-los junto comigo ou tocando em um ou outro lugar, não eram músicos que gostariam de estar preocupados em serem chamados de supergrupos ao fazer isso. As mudanças no mundo da música Stanley Clarke: As coisas no mundo da música tem mudado de uma forma dramática. Volte aos anos 70, 80 e o início dos 90, era impressionante a quantidade de discos vendidos, isso fazia com que as bandas também tivessem orçamentos maiores para produzir novos álbuns. Essa qualidade garantia também ao ouvinte a certeza de ouvir uma música de maior qualidade.

Stanley Clarke (dir.) ao lado de George Duke, um dos maiores parceiros. Sua morte inspirou as faixas de The Message - Créditos: Divulgação

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Hoje o CD se tornou praticamente obsoleto e os orçamentos para gravações praticamente não existem, isso faz com que experiências com trabalhos novos e de alta qualidade sejam cada vez menores, já que os artistas não podem


dedicar tanto tempo buscando uma produção mais apurada. A longevidade de School Days Stanley Clarke: Não sei o que dizer sobre isso, eu ainda fico extremamente surpreso em como as pessoas amam esse disco e ouvem cada canção desse álbum (risos). A importância em se estudar música Stanley Clarke: Uma coisa que acredito é que muitas vezes é difícil ensinar para o público mais jovem a importância da história da música de seu próprio país. Isso não é ensinado na história e o pouco que chega até elas é facilmente perdido. As mídias sociais mostram uma parte desse conteúdo, mas é algo esporádico, que muitas vezes não desperta interesse por um instrumento ou pela música desses artistas para o futuro. Não acho que isso seja exatamente ruim, mas é a única forma dos jovens terem esse contato no mundo atual. Isso é bom, no entanto, também é importante saber o que veio antes de você porque há lições a serem aprendidas, mas não tenho certeza de que seja 100% necessário. A tecnologia no mundo da música Stanley Clarke: Acredito que as

novas

tecnologias podem ser uma faca de dois gumes. Músicos extremamente talentosos veem na tecnologia um presente, que é capaz de facilitar o seu trabalho e lhe dar condição de ser ainda mais criativos. Por outro lado músicos menos talentosos veem a tecnologia como uma ajuda para que eles consigam produzir música de uma maneira não tradicional, afinal, com novas tecnologias você não tem a necessidade de estudar um instrumento por 10 ou 15 anos. A parceria com Jeff Beck Stanley Clarke: Conheci Jeff Beck desde que ele era muito, mas muito jovem. Desde o início de nossa parceria eu sempre tive a certeza do extremo talento dele. A nova mídia musical Stanley Clarke: Existe hoje muito acesso à informação e acho que isso é muito bom. Também existem muitas, mas muitas vias para que as pessoas possam distribuir conteúdo ou qualquer coisa que elas queiram dizer ao mundo. Toda essa variedade gera uma competição. É algo muito bom dar às pessoas uma voz que elas não teriam em uma situação contrária. Estaríamos de volta aos dias em que teríamos apenas MTV, Rolling Stone e Billboard. •

Com Stanley Clarke em ação durante a tour de seu último álbum, The Message, durante a edição 2019 do Detroit Jazz Festival - Créditos: Takehiko Tokiwa

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Um dos maiores pesquisadores musicais do país, Alfredo Bello é muito mais que um herói do mundo da música. Viajando o país e jogando luz a um universo alheio ao mainstream das rádios e programas de TV, lança agora o projeto “Mundo Melhor volume 1” e abre as portas de um Brasil cada vez mais apaixonante, rico e que precisa urgentemente ser descoberto por seu próprio povo. por Anderson Oliveira Quem ouve de relance ao nome artístico de Alfredo Bello, o incrível DJ Tudo, talvez não tenha ideia do que vem pela frente. Ou talvez até tenha, da forma mais deturpada possível. Acostumado nos últimos anos a associar a figura do DJ com a imagem de figuras badaladas como David Guetta e botões que disparam hits que embalam toda uma geração, a figura de um DJ parece ter se resumido apenas a entretenimento, como se sua presença fosse simplesmente mera casualidade para entreter quem quer fugir da realidade. Por isso, Alfredo Bello – o DJ Tudo – pode mudar sua opinião e fazer você descobrir em segundos que o mundo da música é muito 38

mais maravilhoso do que simplesmente aquilo que se ouve. E que a cultura é um elemento tão importante da sociedade onde é impossível desassociar uma coisa da outra. Não se vive sem cultura e esse mineiro criado em Brasília e radicado em São Paulo sabe disso mais do que ninguém. Mente por trás do selo Mundo Melhor, criado em 2004, Alfredo tem se dedicado ao longo dos anos a registrar inúmeros movimentos que estão em vias de extinção. São ritmos que vão do samba de matuto, passam pela congada, o pífano e tudo aquilo que envolve a cultura brasileira. Um trabalho que retrata não só a riqueza do povo


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Créditos: Divulgação

Créditos: Divulgação


Com sua impressionante coleção de discos e material registrado pelos quatro cantos do país, Alfredo é um dos maiores colecionadores/pesquisadores musicais do país. Sempre com o objetivo de manter viva a mais chama da cultura brasileira - Créditos: Divulgação

brasileiro, mas a triste realidade da falta de cuidado com um patrimônio tão impressionante! Em seu show de divulgação do projeto, tradições do Nordeste, Sudeste e Norte do país; um país que tem em sua espinha dorsal Brasis indígenas, africanos, religiosos e festivos. E longe da figura do DJ que aperta botões, Alfredo leva ao palco absolutamente TUDO isso. Daí a perfeita definição de seu pseudônimo artístico. Para se ter ideia, em suas duas apresentações no SESC Pompeia, em show de lançamento do projeto, foi possível conferir AO VIVO a musicalidade dos índios Pankararu, a Congada Santa Efigênia, de Mogi das Cruzes (SP), a Banda de Pife Princesa do Agreste, de Caruaru (PE), e o Carimbó Beija Flor, de Marudá (PA), além do lendário mestre José Tobias, de 91 anos, lenda viva da música brasileira. E só não emociona diante de tamanha riqueza cultural quem é realmente feito de pedra. E tudo isso faz parte de um único projeto, compilado em um CD. A história de Alfredo com o selo Mundo Melhor mergulha em um universo ainda mais profundo da cultura brasileira, explorando raízes que se cruzam com a vivacidade do povo brasileiro, suas crenças e suas raízes. Para se ter ideia do tamanho desse legado, são mais de 25 discos finalizados e que podem ser encontrados no site do projeto, em http://www.selomundomelhor.org. 40

DJ Tudo, literalmente, não aperta botões. Ou talvez aperte, mas apenas em estúdio, com seu trabalho de produtor. Ao lado de sua banda apresenta vertentes instrumentais de uma música ausente de rótulos, mas que o mercado aprendeu a chamar de World Music. São raízes de jazz fundidas ao maracatu, ao frevo e a tudo o que for possível. Uma amálgama construída com o gene de músicos do calibre de Archie Shepp, Frank Zappa e Hermeto Paschoal. Não é normal e nem poderia. No palco, Alfredo e sua Gente de Todo Lugar mostra como somos ignorantes, mas no mais belo sentido da palavra, ao proporcionar a possibilidade de descobrir algo tão bonito, tudo de uma forma que só engrandece seu trabalho. Os números dessa paixão impressionam. São mais de 15.000 LPs em seu estúdio-casa, em São Paulo, somados a mais de 2.000 horas de gravações originais em audio e vídeo armazenados em HDs que somam dezenas, até centenas terabytes. Atuando como uma espécie de detetive/ pesquisador da tão vasta cultura brasileira, viaja aos mais distantes pontos do país para captar imagens e, principalmente, som de movimentos culturais e folclóricos que o tempo se atreve a tentar apagar ou fazer cair no esquecimento, mas que estão devidamente registrados pelas mãos de Alfredo Bello.


Um dos grandes heróis da cultura brasileira, DJ Tudo sabe que é impossível que nunca tenhamos acesso ao todo de um país tão extenso como o Brasil. Até mesmo por isso, é nítido entender a paixão em suas performances ao ter a oportunidade de apresentar cada número, cada projeto pelo país.

Brant “Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios”. Ao lado de Simone Sou e Marcelo Monteiro, tem o impressionante Projeto Cru, que se apresenta ao lado dos inúmeros grupos que ganham os holofotes diante do público com um legado de anos, mas com ar de ineditismo.

Ao adentrar ao seu universo de folclore, fé e muita música, nos descobrimos carentes de informação, da riqueza cultural de gente humilde que – até mesmo inconscientemente – transporta o legado de gerações sem perceber o tamanho do tesouro que tem em mãos.

Trabalhou na trilha para a Ford no Salão do Automóvel e na direção do espetáculo Pedrinho do Capão, com 100 crianças da Zona Sul de São Paulo. Recebeu prêmios como por todos seus projetos culturais e trabalhou com artistas do calibre de Lee Scratch Perry, Adrian Sherwood, Otto, Apollo 9 e o grupo Pedra Branca.

Caminhando em paralelo, literalmente, do mainstream, é possível conferir o trabalho de Alfredo em várias frentes. Responsável por inúmeras trilhas sonoras, como no longa de Beto

E TUDO isso dito até agora é sobre Alfredo Bello, o DJ Tudo. Onde o tudo nunca vai ser o suficiente para exprimir sua paixão pela cultura brasileira. •

Abaixo, parte dos mais de 25 discos lançados pelo Selo Mundo Melhor, um mergulho por tradições populares, valorizando e entendendo as raízes culturais da sociedade. No site é possível conferir, via streaming, recriações e homenagens como a realizada atualmente em homenagem a Jackson do Pandeiro - Créditos: Divulgação

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Créditos: Divulgação

leitura

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Não é uma história sobre um bluesman, mas bem que poderia ser. Feita sob medida para os fãs do gênero que consagrou artistas como Robert Johnson, Muddy Waters e BB King, Terapia, de Rob Gordon, Marina Kurcis e Mario Cau, é uma obra indispensável, mas não pelos motivos mais óbvios. Como o próprio título da HQ diz, Terapia é baseada na relação de um paciente e seu psicólogo. É quando a música ganha um espectro muito maior do que aquele primariamente imaginado. Com inúmeras referências a artistas, álbuns e episódios que envolvem a história do blues, o roteiro permeia uma verdadeira batalha de seu protagonista contra um monstro invisível, a depressão.

nomes como Robert Johnson e Freddie King. A presença constante de referências a Will Eisner e Bonelli (de Tex) também são sentidas com um pouco de atenção. A presença constante de referências a Will Eisner e Bonelli (de Tex) também são sentidas com um pouco de atenção.no.

Não é uma leitura fácil, embora assim pareça. De poucas palavras, a história corre devagar, como que desvendando traumas não só do personagem principal, mas do próprio leitor. Impossível de se passar como uma ficção, Terapia vai muito além da história em si e mostra o real papel da música como universo paralelo, para o bem e para o mal. Vencedora na categoria Melhor Web Quadrinho 2011 e 2013 no Troféu HQ Mix, Terapia transcorre como um autêntico soco no estômago de quem desafia a lógica de profundidade em uma HQ. Ao abranger temas tão pesados como a solidão e o desafio de vencer um desafio tão complexo, o roteio de Rob Gordon e Marina Kurcis chega a impressionar pela abordagem. Sem desafiar a paciência de seu leitor, transita fácil pelos difíceis desafios de quem sofre desse mal que aflige mais de 322 milhões de pessoas em todo o mundo, muitas delas sem saber quem fazem parte dessa estatística. Separado em capítulos angustiantes de pouco mais de 15 ou 20 páginas, a história consegue manter um ar de suspense de prender o fôlego até o fim, surpreendente. Tal qual um filme de Lars von Trier, Terapia desafia a lógica do dinamismo enquanto cruza seus momentos vitais com episódios bem conhecidos do mundo do blues, especialmente par quem conhece ao menos parte da história e dos mitos que envolvem

Disponível na internet através do site https:// petisco.org/terapia, a HQ ganhou formato físico graças a um processo de crowdfunding, garantindo aos fãs uma edição belíssima de capa dura. Item raro no mercado hoje em dia. Mas para quem está lendo essa matéria hoje, anos depois do lançamento da HQ, basta acessar o site e flertar com os mesmos sentimentos que tantos bluesman da história pareceram encarar e sucumbir de alguma forma. Em Terapia, o blues é o pano de fundo, mas e para quem vivia do blues? Qual era o pano de fundo para fugir da realidade? Bebidas, loucura? Drogas? Mais do que uma HQ para refletir sobre si próprio, Terapia é um estímulo para entender por qual razão a história de tantos bons músicos se encerra de forma parecida. • 43


entrevista

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Quando foi formado, no início dos anos 70, o Ave Sangria representava um momento mais do que especial na música brasileira. Representante da cena psicodélica pernambucana, fez história com seu álbum de estreia, homônimo de 1974, fazendo uma música totalmente fora da curva, fundindo ritmos regionais com toda psicodelia oriunda dos anos 60. Ao lado de nomes como Alceu Valença, Flaviola e O Bando do Sol, Lula Côrtes, Marconi Notaro e Lailson, tinha tudo para ser expoente de um movimento que acabou sufocado pela ditadura, que acabou censurando a banda. Poderia ter sido um capítulo triste da música para os livros de história, mas quatro décadas depois a Ave Sangria está de volta com o álbum Vendavais, um disco sem precedentes e mais do que necessário em tempos atuais, reforçando a condição de uma música engajada que floresce ainda mais forte em tempos atuais. A Revista Som conversou com Marco Polo em uma incrível entrevista falando sobre o passado e o presente da Ave Sangria, além, claro do futuro de uma banda que se recusa a viver novamente os traumas do passado.

Créditos: Natalia Arjones

por Anderson Oliveira

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A produção de Vendavais, quatro décadas depois e em um novo cenário Marco Polo: O primeiro álbum da banda Ave Sangria foi gravado sob diversas condições contrárias. Tivemos apenas cinco dias para gravar as bases e solos e mais um dia para colocar todas as vozes. Para completar, nosso produtor, Marcio Antonucci (ex-Vips, dos tempos da Jovem Guarda), embora fosse uma pessoa ótima, não entendia praticamente nada de rock e muito menos do rock que a Ave Sangria fazia. Assim, embora tenha se salvado por causa da qualidade das letras, melodias e arranjos, o primeiro álbum ficou muito aquém do que a gente pretendia. Basicamente não reproduzia o som sujo que apresentávamos nos shows e que era uma de nossas marcas mais fortes. Nesse segundo álbum, pelo contrário, tivemos um produtor (Juliano Holanda) antenado com nosso trabalho e total liberdade para marcar a sonoridade, inclusive sem limitações para a duração das músicas. Também tivemos quase um mês de estúdio, o que nos possibilitou a tranquilidade necessária para atingir nossos objetivos. Foi, portanto, um imenso prazer gravar o álbum Vendavais e, consequentemente, está sendo um enorme prazer levá-lo para os palcos.

A longevidade do álbum de estreia do Ave Sangria e seu diálogo com Vendavais Marco Polo: Nosso álbum de estreia não chegou a envelhecer, pelo contrário, foi se atualizando, conquistando cada vez mais admiradores jovens, principalmente depois do advento da internet, que possibilitou às novas gerações entrarem em contato com nossa música e se identificarem com ela. Começamos nossa volta em 2008 e desde lá até agora temos plateias jovens que cantam conosco todas as músicas, seja no Nordeste, no Sudeste (Virada Cultural Paulista) ou Sul (Festival Psicodália). Fazer o segundo álbum não nos assustou porque ele foi construído como se não tivesse havido esse hiato de 45 anos. São músicas compostas na mesma época das que integram o primeiro disco. Então partimos da mesma plataforma. É como se estivéssemos continuando nossa carreira sem a interrupção que de fato houve, por causa da censura da ditadura militar que proibiu o disco. Dar continuidade ao trabalho num segundo álbum foi um processo orgânico, natural. Tivemos uma primeira fase em que gravamos as músicas só na base da voz e violão. Ao mesmo tempo íamos incluindo umas e retirando outras, até chegar a um conceito do que é hoje o

Lendário grupo do rock nacional, o Ave Sangria de Marco Polo, Almir Oliveira e Paulo Rafael voltou ao estúdio quatro décadas depois de serem censurados pela ditadura pra gravar Vendavais - Créditos: Flora Negri

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álbum Vendavais. Depois passamos para a fase dos arranjos que, no nosso caso, são sempre coletivos. Mas sempre, até o último momento, limando aqui, acrescentando ali. E, não, não cogitamos regravar o primeiro álbum. Não vamos mexer em algo que já está gravado no coração e na mente das pessoas. A sensação de déjà vu com Vendavais e o sombrio momento social Marco Polo: Vendavais é um álbum necessário em tempos desnecessários. Sim, percebemos a ironia de lançar nosso segundo disco justamente numa situação que lembra o período da ditadura. Claro que aquele foi um tempo muito pior. Nós sempre tivemos a intenção de ser uma banda não apenas de entretenimento, mas também de contestação. Faz parte do DNA da Ave Sangria. Aqueles eram tempos de rebeldia e paixão pela liberdade, entre os jovens. Mantivemos a coerência e autenticidade neste novo disco. Os tempos que estamos vivendo, de conservadorismo totalitário e intolerância semvergonha precisam ser criticados. É preciso colocar em discussão tudo isso que está aí. E a Ave Sangria espera com Vendavais estar fazendo a sua parte nessa batalha. A força da música nordestina hoje Marco Polo: No início dos anos 1970 Recife viveu um período de efervescência musical. Foi nesta época que foram gravados discos independentes como “Satwa”, de Laílson e Lula Côrtes, “Flaviola e o Bando do Sol”, de Flaviola, “No Sub Reino dos Matazoários”, de Marconi Notaro e “Paebiru”, de Lula Côrtes e Zé Ramalho. Por isso acompanhamos com euforia o surgimento do manguebeat, pessoal do qual somos amigos até hoje. De certa forma CS & Nação Zumbi tem paralelos com a Ave. Seu líder misturava um nome em português com outro em inglês, Chico Science. O primeiro nome da Ave era Tamarineira Village. Eles fundem ritmos regionais com o rock. Nós também. E, como a gente, tem letras de crítica social. Pernambuco tem uma forte e altamente diversificada cultura musical. No momento atual, mesmo, existe muita gente fazendo

Lançado em CD e nas plataformas digitais, o novo álbum do Ave Sangria também ganhou uma campanha em crowdfunding para lançamento em LP - Créditos: Divulgação

fazendo coisa muito boa: Siba, Isaar, Eddie, Orquestra Contemporânea de Olinda, Academia da Berlinda, DJ Dolores, sem falar em nomes nacionalmente consagrados como Otto e Lenine. É uma fonte que não seca. Uma nova realidade para lançamentos de álbuns Marco Polo: Não foi complicado entrar nesse processo atual que domina o horizonte musical, com o predomínio das plataformas digitais sobre o disco físico. Pelo contrário, foi graças ao surgimento dessas mídias que o público jovem descobriu a Ave Sangria. E assistimos a todas essas mudanças mais com divertimento do que com susto. Uma coisa que me deixa particularmente encantado é que quando o CD surgiu o vinil foi aposentado. Sem que ninguém esperasse, agora o CD está sendo escanteado e o vinil está voltando a ser valorizado. Sou um homem sem nostalgias. Vivo inteiramente no presente. Então vou assimilando o presente como ele chega até mim. Sem traumas, pelo contrário, achando até engraçado. 47


O legado maldito dos tempos de ditadura Marco Polo: A ditadura foi devastadora não só com a cultura brasileira como também com a educação e a segurança. Andamos para trás. Como agora, em que está no poder gente que quer regredir ao século 17. Mais do que lamentar o estrago que a ditadura fez, devemos é estar atentos ao estrago que essa gente aí está querendo fazer. Quantas liberdades conquistadas a troco de muito suor estão querendo enterrar? O Brasil e seu desconhecimento da própria obra Marco Polo: Sempre digo que somos uma banda de rock. Rock nordestino. Uma linhagem de personalidade própria. Com muito peso e muita psicodelia. Mas o fato é que somos parte de uma minoria, com um público muito específico. Mas isso não tem importância. Tem importância sim que um artista como Naná Vasconcelos seja até hoje praticamente desconhecido no Brasil enquanto é idolatrado na Europa, nos Estados Unidos, no Japão etc. É um descompasso esquisito e injusto. A música e sua megalomania de festivais e difusão Marco Polo: Não sou contra os megaeventos que estes eventos encenam.

de música. Acho que isso começou com Woodstock. Gosto do lado de celebração tribal No meu ponto de vista festivais como Rock in Rio e Lollapalooza são bem-vindos. Também não tenho nada contra a música de entretenimento. O pintor Matisse, um gênio incontestável, dizia que gostaria que a arte dele fosse como uma poltrona confortável onde as pessoas pudessem descansar dos problemas e estresses da vida. Apesar de pregar a consciência crítica, acho que fugir da realidade de vez em quando é saudável. O que é imperdoável é a música ruim, a “música pornô’, a “música ostentação” e a “música grito e baticum” ou “música tatibitate” com letras resumidas ao A E I O U, “sai do chão!!!”, e outras besteiras. De fato, nos grande cenários comerciais temos uma cena pop muito pobre. Cadê as Blitzs e os Paralamas de hoje? Entretanto há uma cena pop que permanece subterrânea, sem a menor chance de aparecer nos programas de entretenimento da Globo, por exemplo, mas que nem por isso está morta. Muito pelo contrário. Quem procurar direitinho vai encontrar. Daqui por diante? Marco Polo: Novos discos, novos shows. Nova energia. Nova alegria. •

Ave Sangria, em foto de divulgação de seu primeiro álbum, em 1974 - Créditos: Divulgação

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Um disco que é uma verdadeira balbúrdia! Palavra tão em voga nos últimos tempos, “Balbúrdia” é também o título do disco de estreia do grupo baiano Dona Iracema, oriundo de Vitória da Conquista e que finalmente lança seu álbum cheio após 4 EPs. Rápido e intenso, Bálburdia merece atenção. As letras maduras se somam a um rock rápido e vigoroso, definido pela própria banda como caatincore. Uma música com o mais autêntico tempero baiano. Primeiro single do disco, “Volta pra casa João” ganhou clipe e conta com o veterano ícone baiano Luiz Caldas. Composto por 15 faixas, Balbúrdia é moderno. Tão moderno que caminha na contramão de um rock assombrado por uma onda conservadora.

Créditos: Divulgação

por Anderson Oliveira

E se rock é atitude, o Dona Iracema, de Balaio (vocal), Diegão Aprígio (baixo), Anderson Gomes (guitarra) e Oscar Sampaio (bateria) e que tem seu nome inspirado na mãe de um dos integrantes, surge como um dos lançamentos mais interessantes do ano, mostrando que não é necessário se encaixar em nenhuma vertente musical, seja heavy metal ou hardcore, para ser o mais puro rock and roll.•

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Créditos: Divulgação

memória

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Um dos maiores guitarristas da história, Carlos Santana conquistou praticamente tudo o que um artista poderia conquistar e se tornou uma lenda. E em pleno 1999, depois de escrever os maiores clássicos da carreira e dar a sensação de que tinha escrito seu legado por completo, lançou Supernatural, disco que redefiniu a música pop no novo século e estabeleceu uma geração marcada por parcerias. por Anderson Oliveira

Quando olhamos de relance a lista de lançamentos realizados no ano de 1999, praticamente entramos em parafuso com a quantidade de clássicos produzidos naquela época. São discos que redefiniram várias vertentes musicais, algo que vai do rock ao trip hop, do jazz até a música eletrônica; porém, entre tantos, um deles chama a atenção por ter feito isso com a música pop. Lançado em 1999, Supernatural, 17º trabalho da carreira de Carlos Santana, deu novos ares para a todo o conceito de mainstream, garantindo fôlego para a indústria fonográfica, que na sequência dos eventos encararia a ascensão da música digital. Depois de um sucesso estrondoso nos anos 60 e 70, Carlos Santana havia conseguido o que poucos artistas conseguiram nos anos 80, manter em alta o seu nome enquanto sua música passava por uma guinada considerável. Nessa época, depois de praticamente fritar o cérebro dos fãs com uma fusão de jazz e música latina, se viu abraçando o pop com álbuns como Shangó (1982), emplacando sucessos como a faixa Hold On, o que garantiu uma evidência incomum para um artista oriundo da geração Woodstock. Já os anos 90 foram mais ingratos com Santana. Com o auge do movimento grunge e o britpop, o guitarrista americano oscilou com lançamentos sem expressão e acabou ganhando um papel de coadjuvante, ao menos até 1999. Lançado no segundo semestre daquele ano, Supernatural surgiu na esteira de outro fenômeno, talvez o mais substancial quando comparado a tudo que aconteceu nas décadas anteriores, que foi o surgimento do Napster. Naquele momento a música havia se tornado grátis e a revolução se iniciaria. Supernatural não era um simples álbum e muito provavelmente acabou iniciando naquele momento uma revolução única na música pop e que se tornaria fundamental para sua sobrevivência nos anos posteriores. Recheado de convidados, o álbum de Carlos Santana roubou do próprio guitarrista o seu protagonismo, mas automaticamente o alçou ao ponto 51


mais alto da música, garantindo ao lado de sua guitarra a certeza de hits e turnês que movimentaram milhões de dólares. Um alento para uma indústria que tanto deixou de ganhar na virada do século. Rob Thomas, Dave Matthews, Wyclef Jean, Maná... de repente tudo era SANTANA. Mesmo com o clipe e Smooth, primeiro single do disco e exibido à exaustão na MTV, não era incomum ver toda uma geração achando que na verdade o vocalista do Matchbox 20 era Santana. Dono da composição mais famosa do ano, Rob Thomas assumiu o protagonismo da música, ainda que seu nome seja pouco lembrado até hoje. E não faltam exemplos nesse sentido. Normalmente associado ao México, Santana também teve seu nome ligado ao grupo Maná, em Corazón Espinado, e Wyclef Jean, em Maria, Maria. Exceção feita à faixas como The Calling,

Santana em ação ao lado de Fernando Olvera, vocalista do Maná e responsável por outro single do disco, Corazón Espinado - Créditos: Divugação

O sucesso foi estrondoso. Quase 4 meses no topo das listas da Billboard, 15 discos de platina e 25 milhões de cópias, apenas para começar. Porém, o maior legado de Supernatural vai além de seu próprio repertório. Responsável por resgatar o protagonismo de Carlos Santana no cenário pop, o disco acabou resultando em mais dois trabalhos similares, Shaman (2002) e All That I Am (2005). Todos repletos de hits e convidados.

Ao lado de Rob Thomas, Santana lançou uma das principais faixas de sua carreira, a consagrada Smooth - Créditos: Divugação

com Eric Clapton, a maior parte do disco parecia mostrar um artista em ascensão e com uma enormidade de convidados. Tudo isso em faixas de alto nível e com um instrumental riquíssimo, que sempre foi a tônica do trabalho de Carlos Santana. 52

Grande trunfo da indústria fonográfica, Supernatural estabeleceu um padrão na música pop que hoje se mostra bastante comum, que são lançamentos de grands artistas da música pop ao lado de muitos outros. A o termo “feat / ft / featuring” (de participação) se tornou tão comum que hoje é quase impossível pensar em um disco realmente solo. São DJs, rappers, divas ou emergentes... tanto faz, mas a música pop aprendeu com o premiado trabalho de Santana que a única forma de sobreviver era se unindo, ao menos em estúdio. Até hoje boa parte o repertório de Supernatural segue presente nas apresentações de Carlos Santana, que ao longo dos últimos 20 anos reuniu sua banda clássica, mergulhou novamente na psicodelia e conseguiu se manter relevante, movimentando cifras milionárias na indústria. Uma trajetória que se deve totalmente ao acerto de duas décadas atrás. •


por Anderson Oliveira

Com seu quarto álbum, Liturgia Sambasoul, o grupo do guitarrista e vocalista Eduardo Brechó ama o funk, tanto o americano como o carioca, mas acima de tudo ama o Brasil. E por isso prega a unidade em faixas que exaltam o candomblé e a cultura afro-brasileira. Musicalmente é como se o Funkadelic encontrasse Fela Kuti e Tom Zé. Com diversas linhas vocais, o Aláfia tem faixas carregadas de espiritualidade, mas que só proporcionam esse impacto graças ao trabalho ralizado pelo performático Jairo Pereira e às vocalistas Estela e Eloisa Paixão, que fazem disso tudo algo é intenso do início ao fim. Ao vivo tem cara de show, mas também de culto, com a diferença que ninguém fica parado, então também parece uma boa festa.

Acostumado a colocar o dedo na ferida, o Aláfia chega ao seu quarto álbum com a faca nos dentes, literalmente. Primeiro single do disco, Faca Fake causou polêmica nas redes, colocando o grupo na mira de olhos conservadores, mas isso para o Aláfia pouco importa. Quem conhece sua história sabe que fé, política e raça são questão ligadas de forma intrínseca ao DNA da banda. Pronto para voos mais altos, Liturgia Sambasoul, como o próprio nome aponta, tem tudo para abrir o leque musical do grupo, levando-o um degrau acima em sua rica história. Aláfia é a cara do Brasil, mas não o Brasil dos contos do Zé Carioca. Aláfia é a antítese de um Brasil que os livros de história e a sociedade conservadora querem empurrar para debaixo do tapete, mas que falha ao se deparar com o poder da música. Aláfia é o mais puro retrato da diversidade e a música precisa disso. •

Créditos: Divulgação

Se você nunca ouviu, ouça, sinta! O Aláfia não é uma banda comum, mas também não é uma big band. Composto por 12 músicos, o Aláfia é tudo o que você imagina, mas mais do que isso, é também tudo o que você sente.

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entrevista

Verdadeiro patrimônio da cena alternativa, o lendário Pin Ups está de volta com um álbum de inéditas, Long Time No See, o primeiro em duas décadas! Com seu rock torto, o Pin Ups de hoje foge da nostalgia e segue sendo a contramão de uma cena cada vez mais mutável. E é sobre essa nova fase que a banda conversou com a Revista Som em uma entrevista que só confirma o quanto sua presença no mundo da música segue sendo simplesmente essencial. por Anderson Oliveira Formada em 1988 na cidade de Santo André, São Paulo, o Pin Ups é considerado um dos criadores do movimento guitar, precursor do indie rock brasileiro. Dono de um rock torto, teve como influência nomes como MC5, Stooges, Loop e The Jesus and Mary Chain, dando forma a um som tão único que fez história no underground nacional. Depois de achar que diria adeus, em 2012, o Pin Ups viu o quanto fazia a diferença na vida das pessoas. E dessa ligação entre público e banda, a tão aguardada sequência aconteceu em 2018, com a presença do guitarrista Adriano Cintra ao lado de Alê Briganti (vocalista e baixista), Zé Antônio (guitarrista) e Flávio Cavichioli (baterista). E desde então não parou mais, tanto que um novo álbum, Long Time No See, foi lançado e uma turnê se desenrolando, reforçando ainda mais a condição da banda como uma das mais importantes da cena alternativa. 54


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Créditos: Divulgação


A produção de Long Time No See Zé Antônio: No início dos anos 2000 nós praticamente paramos de fazer shows. Sobravam poucos espaços e toda a atenção era voltada à cena hardcore.

estúdio. O Aurora (atualmente Aurora Discos), onde conhecemos duas figuras fundamentais, o Aécio de Sousa e o Carlos Freitas, proprietários, que nos ofereceram o estúdio para a gravação de um disco novo.

A nossa geração parecia estar em um limbo, mas de repente começou a ser lembrada através de livros reportagens, documentários e muitas bandas da nossa geração voltaram à ativa. Naquela época, eu e a Ale conversamos e decidimos que a banda deveria parar, mas queríamos fazer um show de despedida em agradecimento a toda aquela lembrança.

Trabalhamos durante cerca de um ano, com toda a calma e o tempo que nunca tivemos. Pudemos experimentar, usar amplificadores diferentes, lapidar algumas ideias e pela primeira vez fazer um disco do jeito que imaginamos. Estamos muito felizes de levar ele para o palco.

O show, que seria nosso último, aconteceu em novembro de 2015 no palco do Sesc Pompéia e ali recebemos um carinho do público que jamais poderíamos imaginar, foi algo surpreendente e emocionante, principalmente por percebermos que boa parte da plateia era de gente jovem. Ali já nasceu o desejo de fazer mais alguns shows. Pouco tempo depois, gravamos entrevistas para o documentário Guitar Days e eles nos pediram uma faixa inédita para a trilha. O Magoo, produtor do filme, nos levou a um

Pin Ups versão 2019 Zé Antônio: Uma das coisas que mais gostamos nesse disco foi a possibilidade de explorar alguns caminhos novos. Faixas como Spinning e Little Magic não são tão pesadas, flertam com o power pop que tanto gostamos. Já Portraits of Lust e Separate Ways são bem pesadas, até mais do que o que gravamos nos anos 90. O álbum tem também algumas baladas, músicas que misturam distorção hammonds e mellotrons. Mas apesar disso nossa assinatura está lá em cada faixa, não sabemos e nem queremos evitar isso.

Alexandra Briganti e Zé Antonio Algodoal em cena do documentário Guitar Days, que conta a história da cena guitar brasileira dos anos 90 - Créditos: Divulgação

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Por outro lado, depois de todo esse tempo somos pessoas diferentes, tocamos de maneira diferente. Fizemos o disco da maneira mais honesta possível e achamos que tentar emular o que fazíamos há duas décadas não faria sentido. Tenho certeza de que quem acompanha o trabalho da banda vai entender isso. Se você comparar os álbuns do Pin Ups vai perceber que são diferentes entre si. A vantagem é que agora tivemos condições de fazer tudo do jeito que sempre quisemos. A força da internet no processo de divulgação pré-lançamento Zé Antônio: Eu acho esse feedback instantâneo ótimo. Ter contato mais direto com as pessoas é uma grande vantagem que não existia nos anos 90. Não sei se posso falar que isso dá algum rumo para a promoção. Quando escolhemos os singles foi mais porque gostamos das músicas do que pensando em algum resultado específico ou algum tipo de estratégia. Mas sabemos que é importante estar ativo nas redes sociais, da força que isso representa e que isso faz parte do nosso tempo e das nossas vidas. O entorno de um lançamento em tempos atuais Zé Antônio: Sim, toda loucura para divulgar um álbum é brutalmente diferente e melhor do que na época dos primeiros discos. Temos muito mais ferramentas, tudo é mais rápido, a comunicação mais eficiente e você não depende da boa vontade de uma gravadora para divulgar seu trabalho. Coisas que hoje são corriqueiras como poder colocar uma música no Spotify e poder ser ouvido no mundo todo é uma enorme vantagem. Não tenho a mínima saudade dos anos 90 nesse sentido. Relançamento dos primeiros álbuns Zé Antônio: Na verdade é algo difícil de acontecer. A master do primeiro disco, Time Will Burn, foi perdida. Depois do fechamento da gravadora Stilletto a fita ficou perdida e tempos depois soubemos que um funcionário levou pra casa e, acredite, perdeu em uma enchente (risos). No ano passado o Lee Marvin saiu em vinil através de uma parceria entre a Assustado Discos e o Midsummer Madness; chegamos a

conversar rapidamente sobre a possibilidade de outros relançamentos, mas isso dependeria de um acordo com o Luiz Gustavo, nosso antigo vocalista que também escrevia as letras e acreditamos que isso poderia dificultar um pouco. Guitar Days, um documentário sobre o passado, mas pronto para o futuro Zé Antônio: Guitar Days fala sobre as bandas que cantavam em inglês e a gente fez parte daquela cena. É um privilégio ter nossa história contada e registrada. O trabalho de pesquisa feito pelo Magoo foi surpreendente. Tem imagens que

Capa do novo álbum do Pin Ups, Long time No See Créditos: Divulgação

nem a gente sabe onde foram gravadas. E a história está muito bem contada. Agradecemos ao Caio pelo carinho com que retratou tudo isso e o respeito que teve por todos os envolvidos. Em relação à cena, acho que hoje está melhor e mais unida. Quando gravamos o primeiro disco, o Brasil estava tomado pelo BRock, cantar em inglês era quase um pecado. Hoje em dia isso já não tem tanta importância. Por sorte existiam alguns jornalistas na grande imprensa que subvertiam tudo isso e cavavam espaço para as bandas emergentes nos cadernos de cultura, que eram a principal fonte de informação da era pré-internet. Hoje em dia existe uma molecada muito talentosa, muitas bandas boas, muitos músicos criativos. Só falta espaço para que o 57


Um registro raríssimo do Pin Ups, ainda nos anos 90, sendo entrevistado pelo midsummer madness. Expoente do movimento Guitar, o grupo paulista conta hoje em sua formação com Alê Briganti (vocalista e baixista), Zé Antônio (guitarrista) e Flávio Cavichioli (baterista), além do guitarrista Adriano Cintra (ex- Cansei de Ser Sexy) - Créditos: midsummer madness

trabalho deles seja divulgado à altura. A experiência abrindo para o L7 Zê Antônio: Como não tivemos passagem de som estávamos um pouco preocupados com a qualidade do som e dos retornos no palco, mas no final tudo deu certo, o público foi receptivo e saímos de lá muito felizes. Foi realmente uma noite bem boa. A distância entre os dois últimos álbuns do Pin Ups e o efetivo retorno Zé Antônio: Nunca pensei nessa distância toda... Na verdade as coisas aconteceram de forma natural e a gente normalmente não pensa tanto nisso. Mas o frio na barriga continua, sempre! Essa sensação do novo, do desafio, de algo a conquistar é algo que não queremos perder nunca. Se isso acontecer é porque tudo está no automático e aí não vale a pena. O Brasil de hoje e sua influência sobre a música Zé Antônio: Uma das músicas, Mexican Tale, até resvala na questão do muro que o Trump 58

tanto quer construir. Mas justamente por esses tempos estarem tão sombrios, optamos por fazer um álbum mais positivo, foi um respiro pra nós diante de toda essa distopia. Em relação ao generalizações.

rock,

eu

prefiro

evitar

A música, como toda arte, é um instrumento de expressão, para o bem, ou para o mal, depende de quem cria a obra. O cenário atual deu aval para que muita gente assuma seu ódio, preconceito, egoísmo e indiferença. Graças a Deus ainda existem pessoas no rock que pensam de uma maneira mais humanista, mais coletiva, que se preocupam mais com coisas positivas, e prefiro pensar que ainda são a maioria. Daqui para a frente Zé Antônio: Nossa vontade é tocar muito, fazer shows, torcer para que as pessoas gostem do novo álbum e, acima de tudo, que a gente seja capaz de retribuir todo o carinho que temos recebido nos últimos tempos.•


Com dois grandes festivais no segundo semestre, República do Reggae, em Salvador, e Kaya Reggae Fest, em SP, o ritmo jamaicano finalmente ganha o destaque devido no calendário nacional! por Anderson Oliveira Com dois festivais dedicados ao gênero voltados ao grande público, o reggae volta a viver no Brasil um de seus melhores momentos, reforçando a condição de uma das vertentes mais populares do país. Embora nunca tenha estado fora de circuito, uma coisa parecia certa, o reggae parecia preso ao underground, fadado a permanecer longe dos grandes espaços e sem a pretensão de arrastar multidões como festas de música eletrônica e até festivais de rock. Uma tônica que é quebrada de forma clara com a realização da edição 2019 do festival República do Reggae, em Salvador, e da primeira edição do Kaya Reggae Fest, em SP, no estádio do Canindé. Com ambos os line ups formados pela nata do reggae nacional e uma avalanche de artistas clássicos do gênero como Israel Vibration The Gladiators, os eventos marcados para o último trimestre do ano surgem como fundamentais para a consolidação de uma vertente que soube como poucas se sintonizar ao seu círculo social e canalizar suas letras como agente de mudança, acompanhando o rap e a nova MPB como a bola da vez na música nacional. Embora o movimento em torno do reggae já fosse expressivo através de festivais como o Encontro das Tribos, fica difícil lembrar algum evento de tamanho similar desde a época do saudoso Ruffles Reggae, que levou milhares de pessoas ao Anhembi, em SP, ainda na década de 90.

Hoje distante da imagem de “música de maconheiro” que assolou o gênero com a falta de informação nos anos 90, o reggae nacional conversa muito mais fácil com a MPB e outras vertentes populares no país, caso do hip jop e até da música eletrônica, lhe dando a condição de colher os frutos nesse momento. Um bom exemplo disso é a presença do Natiruts no festival da Nova Brasil, que acontece em novembro, também em SP, e terá, além de Gilberto Gil, Paralamas do Sucesso e Adriana Calcanhoto. Portanto, anote na agenda e se prepare para a verdadeira onda de good vibes que artistas como o inovador Groundation e lendários Anthony B, Clinton Fearon e Max Romeo trarão ao Brasil ainda em 2019. Algumas das atrações do festival de Salvador também farão shows solo em São Paulo, caso de Max Romeo. Chegou a hora de consolidar o Brasil como o país do reggae, a autêntica música popular brasileira! • 59


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Revista Som #26  

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