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tinha mais da metade de seus quadros composta por estrangeiros. Com a desvalorização gradativa do Euro, o achatamento dos salários e as perspectivas sombrias da economia nacional, a cada mês era mais difícil reter os funcionários. Marroquinos, equatorianos e colombianos estavam passando adiante suas hipotecas e voltando para seus países. Enquanto isso, Zapatero, recém-reeleito, negava a gravidade da crise e via o circo pegar fogo sem tomar nenhuma atitude. Entre as poucas medidas paliativas, o governo flexibilizou as leis trabalhistas para facilitar a contratação, mas o tiro saiu pela culatra. Ficou mais fácil demitir e as empresas, endividadas, começaram a cortar pessoal. Para mim, ficava claro que conseguir trabalho na minha área, o jornalismo, seria impossível. Para se ter uma ideia, o Grupo Prisa, onde eu trabalhara por seis meses, simplesmente encerrou as atividades da CNN+, o canal 24h de notícias que tinha em parceria com a famosa rede americana, mandan-

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o equivalente a 40% do seguro desemprego de imediato e os outros 60% em prestações. A gangorra tinha virado. Pouco mais de dez anos antes, em 1996, a Espanha tinha 500 mil imigrantes. Em 2008, eram 4,5 milhões de um total de 46 milhões de habitantes. Nesse meio tempo, minha bolsa acabou em agosto de 2008. O curso de minha mulher estava perto de terminar, mas ela já tinha acertado um contrato de trabalho de seis meses com a Europa Press, uma agência de notícias privada espanhola. Com a previsão de ficar na Espanha até o fim do ano, comecei a buscar trabalho como free lancer para o Brasil e um emprego, já que tentar viver de ‘bicos’ pagos em reais tendo contas em euros para pagar não era uma boa ideia. Como tenho nacionalidade portuguesa e falo alguns idiomas, consegui trabalho na Mondial Assistance, seguradora multinacional com presença no Brasil. Com um forte serviço de assistência, a sucursal espanhola da Mondial

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A corda começou a arrebentar justamente por aí. O primeiro sintoma de crise foi o aumento da inadimplência. Começava a estourar a bolha que culminaria com muita gente perdendo sua casa depois de ter pagado prestações durante cinco, dez anos. Apareciam os primeiros sinais de retração da construção civil, que quebraria imobiliárias e empreiteiras e levaria o desemprego até os mais de 23% atuais. Maioria no contingente de trabalhadores braçais, os imigrantes, principalmente equatorianos, colombianos, marroquinos e romenos, foram os primeiros a sentir os efeitos da crise. Como sempre, na Europa, quando a torneira se fecha, os estrangeiros não comunitários sofrem. Mesmo sem admitir a crise, o governo Zapatero lançou um programa de repatriação voluntária, quando já havia mais de 100 mil imigrantes legais sem trabalho. Trabalhadores de fora da Comunidade Europeia que decidissem voltar para o país de origem recebiam

julho 2012

Manifestação durante festa da independência da Catalunha, em Barcelona, em 11 de setembro de 2010, que é o Dia Nacional da Catalunha

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Revista Sino - Julho/2012  

Revista dos antigos alunos do Santo Inácio, edição de julho de 2012

Revista Sino - Julho/2012  

Revista dos antigos alunos do Santo Inácio, edição de julho de 2012

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