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Reflexos de uma crise

Nos três anos que passou na Espanha, o antigo aluno e jornalista Guilherme Coimbra acompanhou de perto as mudanças no dia a dia dos espanhóis

Textos e Fotos Guilherme Prista gcoimbra@hotmail.com

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julho 2012

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m 2007, tomei uma decisão radical. Depois de mais de uma década trabalhando no canal Sportv, onde tinha entrado em 1996, como estagiário, e tinha chegado a editor-executivo, pedi demissão para aceitar uma bolsa de estudos em Madri. Havia passado por um rigoroso processo de seleção envolvendo jornalistas de toda a América Latina e fora selecionado para a sétima edição do Programa Balboa, um intercâmbio de seis meses promovido pela Fundación Diálogos, da capital espanhola. O programa, que já está no 11º ano, oferece trabalho em

meios de comunicação de ponta — El País, El Mundo, ABC, Marca, Televisión Española, Agência EFE, ente outros —, além de palestras com os maiores especialistas de diversas áreas, como política, cultura e sociedade espanholas. Estava acompanhado de minha mulher, que faria um curso de jornalismo internacional na Universidad Complutense de Madrid. A previsão era passar de seis a nove meses por lá, mas acabamos permanecendo por três anos, seguindo de perto o início da crise mundial que abalou o país e cujos efeitos estão longe de acabar. O Programa Balboa me levou a trabalhar na Cuatro, a TV aberta do Grupo Prisa, conglomerado que edita o El País, jornal mais vendido na Península Ibérica. Diferentemente daqui, na Espanha os meios de comunicação não escondem o posicionamento político. O Grupo Prisa tem uma linha editorial afinada com o Partido Socialista Obrero Español, o PSOE do então presidente de governo — equivalente a primeiro-ministro —

José Luis Rodríguez Zapatero. Por isso, a Cuatro e o El País foram dos últimos a admitir que o país e o mundo estavam a ponto de mergulhar numa séria crise. Quando cheguei à Espanha, em janeiro de 2008, fiquei impressionado com a opulência. Madri era um canteiro de obras. A cada semana, uma nova estação de metrô era inaugurada. A expansão do AVE, o trem de alta velocidade, era tocada a pleno vapor. Com o sonho de sediar os Jogos Olímpicos de 2016, o país construía modernas — e caras — instalações esportivas antes mesmo de estar entre as cidades finalistas. A ‘Caixa Mágica’, magnífica sede do Torneio de Tênis de Madri, por exemplo, ficou pronta em 2009 e custou mais de 160 milhões de euros, hoje cerca de R$ 412 milhões. A cada esquina, estação de metrô ou página de jornal, abundavam os anúncios de crédito imobiliário. Praticamente todos os espanhóis que eu conhecia estavam pagando hipotecas de duas, três décadas, com juros baixíssimos.

Revista Sino - Julho/2012  

Revista dos antigos alunos do Santo Inácio, edição de julho de 2012

Revista Sino - Julho/2012  

Revista dos antigos alunos do Santo Inácio, edição de julho de 2012

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