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A questão racial sempre foi “bem resolvida”, como o próprio Alexandre define, em sua cabeça. “Eu já tinha os relatos familiares de preconceito racial, mas sempre tive boas referências e exemplos que nunca me deixaram ter uma postura defensiva. Minha mãe era professora, o irmão de meu avô foi promotor de Justiça, na família temos engenheiros, advogados... enfim, exemplos de sucesso para que eu pudesse me espelhar”, conta ele, que não se esquiva de temas polêmicos, como as cotas raciais. “Não sou do movimento negro. Costumo dizer que sou um negro em movimento. Mas acho ótimo que exista a discussão sobre as cotas, pois é inegável que há uma distorção no Brasil. Na UFRJ, uma universidade pública, também eram poucos negros. Acho que a cota é um ajuste, mas tem que ser algo de curto prazo. A transformação tem que ser no sistema educacional para que todos tenham as mesmas ferramentas. Afinal, não podemos esquecer que há o branco pobre também. A igualdade de oportunidades é boa para todos. Lembremos que, em grande parte, a violência é fruto da

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(Mendonça Tavares de Almeida), que até hoje é minha melhor amiga. Nos aproximamos, pois a família dela é de Fortaleza e tenho primos em Salvador. Acabamos tendo o Nordeste como um assunto em comum e, através dela, fui conhecendo as pessoas e me entrosando”, contou. Durante os dois anos em que esteve no colégio, Henderson foi o único negro de sua série. “Apesar de perceber alguns olhares de estranheza, nunca passei por qualquer situação de preconceito no colégio. Acho que isto tem a ver com a formação que o Santo Inácio dá aos seus alunos. Mesmo que não se fale especificamente sobre a questão racial, conceitos de igualdade, fraternidade e solidariedade se fazem sempre presentes, assim como o tema da desigualdade”, afirma ele, que cita as amizades que fez como sendo o que mais lhe marcou. “Fiz amigos de verdade. Havia uma pureza naquela convivência. Eu podia contar com meus amigos e eles comigo. Por ser um aluno novo, havia sempre a preocupação em me incluir”.

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A forma como entrou talvez explique um pouco da relação que tem com o colégio. “Sempre fui bom aluno e a educação é algo muito valorizado em minha casa, talvez por minha mãe ser professora. Passei por alguns colégios, mas sempre quis estudar no Santo Inácio. Por conta própria, me inscrevi no processo de seleção e passei. Sabia que ficaria pesado para minha mãe pagar a mensalidade, pois ainda tinha meus dois irmãos. Fui ao colégio procurar o reitor, que era o padre Felix, e expliquei a situação. Consegui um belo desconto e só então fui contar tudo para minha mãe”, lembra Alexandre. “Ela ficou feliz, mas me disse que eu tinha que estar entre os 10 melhores alunos”. Ou seja, a expectativa não era pequena, o que poderia aumentar a possibilidade de frustração no caso do colégio não ser aquilo tudo. “Lembro de entrar no 3º dia de aula. As pessoas se conheciam há anos, pois o pessoal entra muito cedo no Santo Inácio. Mas vieram falar comigo. Logo no início tive a sorte de conhecer a Ana Karine

julho 2012

Gravação do “Globo Ciência” em Recife, em 2008, sobre o médico Josué de Castro, que fez o mapa da fome no Brasil, na década de 40

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Revista Sino - Julho/2012  

Revista dos antigos alunos do Santo Inácio, edição de julho de 2012

Revista Sino - Julho/2012  

Revista dos antigos alunos do Santo Inácio, edição de julho de 2012

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