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N°2 | maio | 2012

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solidariedade

Por valores populares, ASIA oferece saúde e atendimento de excelência para a população carente

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Qualidade, preço e

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Revista dos antigos alunos do Santo Inácio

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Índice

N°2 | maio | 2012

Conheça a história do projeto Imagem Solidária, que oferece exames a preços populares, e entenda a relação dele com o ambulatório mantido pela ASIA página 12

O antigo aluno Raphael Gomide (94), jornalista do site IG, nos conta sua experiência na cobertura da revolução no Egito página 16

Fique por dentro, através de fotografias, das principais mudanças físicas pelas quais vem passando o Colégio Santo Inácio página 8

Revista dos antigos alunos do Santo Inácio Conselho Editorial Pe. Luiz Antonio de Araújo Monnerat,

Menos conhecidas que as do Sul do Brasil, as Missões Jesuítas na Bolívia foram responsáveis por igrejas que são patrimônio da humanidade página 6

SJ; Vera Porto; Izabela Fischer; e Maria José Bezerra Jornalista Responsável Pedro Motta Lima (JP21570RJ) (editor@revistasino.com) Projeto Gráfico Ana Mansur (anamansur@gmail.com) Diagramação Daniel Tiriba (dtiriba@gmail.com) Fotografia Rafael Wallace (rafaelwallace@gmail.com) Revisão André Motta Lima Contato Publicitário 21 2421 0123

Os inacianos lançaram campanha mundial de ajuda ao Haiti. Um casal de chilenos – antigos alunos jesuítas – viajam divulgando o projeto página 22

Fale Conosco sino@revistasino.com.br www.revistasino.com.br

Anuncie na Sino | (21) 2421-0123

Fale com professores e alunos do Colégio Santo Inácio, seus familiares e mais de 2 mil antigos alunos que recebem a revista em casa, pelo correio

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Gráfica Walprint

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Tiragem 6 mil exemplares

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Produção ML+ (Motta Lima Produções e Comunicação)

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editorial

Queremos a participação dos leitores Chegamos ao segundo número da SINO certos de que estamos no caminho correto. Não foram poucas as manifestações, tanto por e-mail quanto pessoalmente, parabenizando pelo lançamento da revista. Além disso, o aumento no número de anunciantes também é um reflexo positivo. Esperamos crescer ainda mais, para continuarmos apresentando um produto de qualidade, além de direcionar verbas para as obras sociais da ASIA.

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Nesta edição trazemos duas matérias com a intenção de instigar a participação dos leitores. A primeira mostra as missões jesuítas na Bolívia, responsável pela construção de igrejas belíssimas, todas feitas em madeira trabalhada a mão, e que foram consideradas pela Unesco Patrimônio da Humanidade. Na outra o jornalista e antigo aluno Raphael Gomide (94) conta um pouco de sua experiência na cobertura da revolução no Egito. O recado é o seguinte: mandem material, pois temos todo o interesse em publicar – se não for na revista será na internet, como fizemos com um conto e uma carta.

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Também demos destaque para o Imagem Solidária, talvez o mais conhecido projeto social da ASIA, que muitas pessoas, inclusive, sequer o vinculam à associação. Esperamos que, ao contar esta história, não sobrem mais dúvidas. E, finalmente, aproveitamos para reforçar o convite para que os leitores se tornem sócios da ASIA e ajudem nos projetos sociais que temos mostrado na revista. É bom lembrar que não é necessário ser antigo aluno para se associar. Espero que gostem do nosso segundo número. Pedro Motta Lima (94) editor@revistasino.com.br

Espaço do leitor Venho felicitá-los pela publicação da ótima revista SINO e agradecer o exemplar recebido. Quero crer que a oportuna publicação transformar-se-á em um totem em torno do qual a Comunidade Inaciana se organizará e produzirá, de forma criativa e profícua. Muito obrigado. Nilson Calasans (77) Escrevo para expressar a enorme alegria que estou tendo ao ler a revista SINO. A alegria teve início quando abri a caixa do correio e a vi, depois no deleite da leitura. É muito bom saber um pouco da vida daquele que está dirigindo nosso querido colégio, melhor ainda é ver nele, pela leitura da matéria, uma pessoa com capacidade de manter vivas as tradições de nossa escola. Muito obrigado por me enviar a revista e por me oferecer momentos de muito prazer com a sua leitura. Ricardo Cidade (92) Agradeço o envio da SINO, cujo formato e informações achei ótimos. Tenho especial carinho pelo nome que escolheram, por ter perdido um bom tempo com colegas de turma bolando um meio de roubar esse sino do pátio interno, sem sucesso como podem ver. Envio, em anexo, um texto que escrevi há cerca de 2 anos, por ocasião da morte de um de nossos colegas da turma de 71, o Luciano Henrique Mariani, que foi muito meu amigo. Como acabei escrevendo um pouco sobre nossas memórias de escola, e no dia 21/4 passaram-se 2 anos de seu falecimento, passo-lhes esse texto. Parabéns e sucesso. Carlos Henrique Reis Malburg (71) Nota do editor: Para ler o texto, acesse http://bit.ly/sinomalburg ou aponte o leitor de QR Code de seu celular

A Sino é sua: participe Envie histórias, fotos e informações e ajude a manter viva a memória dos antigos alunos

minhasino@revistasino.com.br | facebook.com/RevistaSino


badaladas

A tradicional casa que o CSI mantém em Corrêas, distrito de Petrópolis, está aberta para confraternizações. Antigos alunos podem matar a saudade dos amigos e do espaço, que passou por reformas e funciona como uma pousada, com 20 suítes (as disposições de quartos estão em www.revistasino.com.br). Podem ser fechados grupos de até 75 pessoas. O local, cujos passeios geravam tanta expectativa entre os alunos, tem piscina, sauna, quadra poliesportiva, campo de futebol e churrasqueira. Os grupos interessados devem ter um representante, que será responsável pelo contato com o colégio, assim como pelo depósito de 20% do valor total do evento para garantir a reserva. A diária com pernoite é de R$ 106 e inclui café da manhã, almoço e jantar. Sem pernoite, o valor é de R$ 56 e o jantar é substituído por um lanche no fim da

Maria Auxiliadora / Núcleo de Mídia CSI

Confraternizações em Corrêas

tarde, antes da saída. Crianças com até 5 anos não pagam. As que tiverem entre 5 e 14 anos pagam meia. Refeições poderão ser substituídas por churrasco com o acréscimo de R$ 20 na diárias, e todas as bebidas são pagas por fora. Os interessados em agendar uma data devem mandar e-mail para antigosalunos@ santoinacio-rio.com.br ou ligar para 3184-6207 e falar com Izabela Fischer, que fará uma consulta à agenda do local.

Conheça todas as regras de utilização de Corrêas visitando nosso site ou pelo QR Code abaixo www.revistasino.com.br Aponte o leitor de QR Code de seu celular e acesse o conteúdo de onde você estiver

Orla Rio, há 10 anos a imobiliária especializada em Zona Sul. VENDAS LOCAÇÕES

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ADMINISTRAÇÃO

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viagem

Desenhos e pilastras são fruto de trabalho manual na madeira

Os jesuítas na Bolívia

As missões bolivianas foram responsáveis por igrejas que se tornaram patrimônio da humanidade

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ão são poucas as pessoas que logo após a compra de suas passagens já começam a preparar a lista de igrejas que vão visitar. Geralmente o destino do viajante é a Europa, berço do cristianismo. Mas aqui bem perto existem belas construções que merecem a mesma, ou mais, atenção. É o caso das missões jesuítas da Bolívia, cujas seis igrejas são consideradas Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), desde 1990. Os templos ficam nas Chiquitanias, uma região próxima de Santa Cruz de la Sierra, que teve suas cidades fundadas por missionários jesuítas, nas terras dos índios chiquitos, entre os anos de 1690 e 1760.

Se a beleza exterior já impressiona, a parte de dentro merece uma atenção especial por conta dos detalhes – do teto ao altar


Após se estabelecerem no local, os padres iniciaram o processo de catequização dos indígenas. A construção das igrejas veio naturalmente. Todas feitas em madeira elas geram um grande impacto nos visitantes, em sua maioria acostumados às catedrais ao estilo europeu. O estilo jesuíta é facilmente percebido, com grandes pátios internos e locais de destaque para os sinos, responsáveis pela convocação da população para as missas.

Várias passagens bíblicas foram usadas como inspiração pelos artesãos. As peças ficam nas laterais dos bancos dentro das naves das igrejas

Veja mais fotos em www.revistasino.com.br Você fez uma viagem e gostaria de dividir suas dicas e fotos conosco? Envie para minhasino@revistasino.com.br e facebook.com/revistaSino

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O altar, com o símbolo da Companhia de Jesus no alto, impressiona pelos detalhes e pela aparência de riqueza numa igreja feita com madeira talhada

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Acomodação A região das Chiquitanias fica a cinco horas, de van, do centro de Santa Cruz de la Sierra, a segunda cidade mais importante da Bolívia, atrás de La Paz (a mais industrializada, no entanto). Durante o trajeto podem ser vistas criações de búfalos - inclusive com lojas que vendem produtos como muzzarella de búfala. O passeio pode ser adquirido nos hotéis da cidade. Uma boa opção é o Los Tajibos (www.lostajiboshotel.com), que tem excelente estrutura e fica bem localizado. Outras boas dicas são os restaurantes da cidade, que são bons e têm bom preço.

Uma tradição jesuíta, os sinos têm local de destaque nas construções, pois fazem a comunicação entre a igreja e os moradores da região

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Construção das igrejas O trabalho manual, feito pelos habitantes locais com a orientações de arquitetos trazidos da Europa, é o destaque. As vigas de sustentação são cuidadosamente adornadas artesanalmente e em peças únicas de madeira. Ao lado das igrejas há exposições fotográficas sobre as suas construções, inclusive com detalhes sobre a técnica desenvolvida entre os moradores de San Francisco Javier, Concepción, Santa Ana, San Miguel e San Rafael. A igreja de San José é a única feita em pedra, com estilo semelhante ao usado nas missões brasileiras e paraguaias. As igrejas passaram por uma grande restauração a partir de 1972, quando foi comemorado o bicentenário do nascimento do jesuíta Martin Schmid, autor das igrejas de San Rafael, San Javier e Concepción. O arquiteto suíço Hans Roth esteve à frente do projeto, que durou aproximadamente 20 anos.

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o colégio

Um colégio em eterna

transformação Ser tradicional não é sinônimo de parar no tempo. O CSI sabe disso e muda sempre pensando em melhorar suas instalações

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Fotos: Amarildo Lopes/divulgação CSI

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pós o lançamento da primeira edição da SINO, não foram poucas as manifestações de antigos alunos saudosos de seus tempos de estudante. Pensando neles, resolvemos apresentar este “Antes e Depois” com espaços do colégio, que vem passando por grandes modificações – para melhor, como as fotos poderão comprovar. Aproveitamos para convidar todos que tenham registros antigos do CSI a nos enviarem fotos, pois assim podemos montar galerias e mostrar para as novas gerações de inacianos como era o colégio no passado. E se depois desta matéria der aquela vontade de visitar pessoalmente o colégio, não pensem duas vezes. Basta entrar em contato com Izabela Fischer pelo email antigosalunos@santoinacio-rio.com.br ou pelo telefone 3184-6207 e partir rumo à Rua São Clemente, 226. Aproveitem para se associarem à ASIA e ajudar nos projetos sociais da associação.

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A antiga piscina, que durante anos recebeu as aulas de educação física e escolinhas de natação, foi substituída por um pátio, trazendo mais silêncio para os “estudões”. Só faltou o sino.


O que era apenas um ginásio simples e algumas quadras poliesportivas se transformou num amplo complexo esportivo, com salas para aulas de dança, tatame, várias quadras e até piscina coberta e aquecida. Além de banheiros, vestiários e bebedouros

4 divulgação

Aprendendo na prática Durante a realização das obras, o canteiro foi aberto para a visitação dos alunos, que tiveram a oportunidade de ter “aulas práticas” de engenharia civil. Acompanhadas por monitores e devidamente protegidas com capacetes, as crianças podiam fazer perguntas para os responsáveis pela construção e ver de perto toda a transformação pela qual seu colégio estava passando. Muitos tiveram a chance de ver o antes, durante e depois. Provavelmente o índice de interessados em fazer engenharia aumentou consideravelmente.

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(1) No segundo andar, além de quadras, há salas refrigeradas para aulas de dança (ao fundo em amarelo) e tatames; (2) No primeiro estão as maiores quadras, com arquibancadas e placar eletrônico (3) A piscina coberta e aquecida e os vestiários estão em uma construção anexa (ainda no ferro da foto do alto), mas fazem parte do interligado Cesi, que é equipado com elevador. (4) O parquinho infantil, que também tem casa de boneca, fica atrás do “campão”, que perdeu um pouco no comprimento para a criação de um corredor

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Fotos: Amarildo Lopes/divulgação CSI

religião

Características da Educação da Companhia de Jesus, nº 131 e nº 132

JIP - Jornada Inaciana para Pais Vera Porto Diretora de Formação Cristã Colégio Santo Inácio – RJ vporto@santoinacio-rio.com.br

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Jornada Inaciana para Pais é um projeto de integração e parceria colégio-família, com a finalidade de estreitar esses laços a partir do aprofundamento e da experiência do modo de educar inaciano. Seu nascedouro contou com a integração da área de Formação Cristã do CSI com a Equipe de Pais de alunos e antigos alunos que trabalhavam em movimentos existentes no colégio. Isso foi em 2005. Em 2010, sob a inspiração do Plano Apostólico da Província do Brasil CentroLeste, passa a ocorrer um múltiplo protagonismo na concepção e realização da JIP. Foi então criada uma Coordenação Interáreas, que faz a mediação e integra Assessores de Formação Cristã, Coordenadores Pedagógicos, Coordenadores de Série,

Orientadores Educacionais e Professores. O projeto então ganha forma e todos os esforços se somam. A JIP torna-se um projeto institucional, formando pessoas comprometidas com a transformação social e com o crescimento humano e cristão. Cada temática é contextualizada à realidade da série. Para que a experiência dos pais seja significativa é oferecida uma palestra que remeta a uma reflexão. Em seguida, através de diversas experiências e oficinas, os pais, os alunos e os pais com os filhos, são convidados a interagir, inspirados em traços do modo de educar inaciano. No final de 2011, com as equipes das três áreas envolvidas – formação cristã, pedagógica e administrativa – que atuam diretamente nas JIPs, recolhemos que a experiência vivida pelos pais e nossa com eles é a confirmação de uma caminhada integradora, necessária e promissora. É importantíssimo o diálogo com as

Os professores e diretores num centro educativo da Companhia colaboram estreitamente com os pais dos alunos, que são também membros da comunidade educativa. Existe comunicação frequente e um diálogo permanente entre a família e o colégio (...) Dentro do possível, os pais entendem, valorizam e aceitam a visão inaciana do mundo que caracteriza os colégios da Companhia (...)

famílias, promovendo uma relação de transparência. Internamente, ao sentarmos para pensar o projeto de cada série, vigora o espírito de comunhão, de equipe, de solidariedade, próprio de quem deseja o melhor para o outro. A educação inaciana se fundamenta numa pedagogia humanística e cristã, onde a afetividade, os sentimentos têm significado profundo. Um afeto bem cultivado constitui um patrimônio que leva ao amor recíproco, verdadeiro. E surge a vontade de construir estruturas humanas mais justas, mais solidárias. Em 2011, cerca de 1300 pais participaram da JIP, atingindo Pré-Escola, 1F, 2F, 3F, 4F, 6F e 7F. E em 2012 cerca de 600 pais da PréEscola, 1F, 3F e 6F também estiveram presentes até o momento. Mais cinco jornadas ainda serão oferecidas para outras séries este ano.


São realizadas atividades apenas com os pais, quando há debates sobre temas propostos por monitores, e uma série de dinâmicas envolvendo as crianças

Depoimentos de pais que participaram das JIPs em 2012

Os temas escolhidos continuam interessantes e instigantes! O tratamento dado aos temas (no auditório, na sala de aula, no pátio...) é tão profundo, mas ao mesmo tempo tão leve e gostoso de saborear! Pe. Klein continua nos oferecendo maravilhosas reflexões! Continuamos vendo o cuidado e o carinho na organização e condução da JIP! Temos a oportunidade de conviver com nossos filhos no ambiente onde passam boa parte de seus dias! Que tal termos uma JIP sobre os Exercícios Espirituais? Seria uma manhã de “Introdução aos Exercícios Espirituais”, de forma a que as famílias interessadas continuassem o aprendizado após a JIP. Cecília e Luiz Paulo – pais de Mariana – 3F – T. 32 Parabéns a toda equipe da escola pela excelente proposta e organização cuidadosa na JIP. Para nós foi muito importante participar, ouvir as exposições e interagir com nossos filhos no ambiente escola. Luciana – mãe de Letícia - 1F – T. 12

Andréa e Ubirajara – pais de Luiza, Vitor e Pedro – Pré-Escola II – T. 8, 7 e 3 Gostaríamos de dizer que adoramos passar o sábado de manhã na JIP! Foi muito engrandecedor e gratificante! Podemos dizer que fizemos uma ótima escolha ao colocarmos nosso filho no Santo Inácio! Obrigada pela iniciativa de vocês! Cris e Alexandre – pais de Breno - 1F – T. 15

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Yonara e Reinaldo – pais de Letícia – Pré-Escola II – T. 1

Fico orgulhosa e feliz em saber que minha filha faz parte da família Inaciana. Vejo o Colégio Santo Inácio não apenas como uma instituição escolar, mas um complemento do meu lar pela seriedade, responsabilidade e dedicação desenvolvidos durante a sua existência. Que tal proporcionar esses encontros de integração entre pais e escola mais vezes? Afinal, são momentos únicos que tocam os corações dos nossos filhos e principalmente os nossos nessa correria diária.

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Que bom que o colégio tem iniciativas para aproximar a família. Acreditamos na parceria família-escola. A JIP foi uma oportunidade para interagirmos com outras famílias e para conhecermos um pouco mais a visão da escola. Sentimo-nos ainda mais seguros e confiantes na escolha que fizemos para a educação de nossa filha.

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A experiência da JIP proporciona múltiplas possibilidades de continuidade, vinculando a participação dos pais em diversos momentos da vida institucional, especialmente naqueles ligados à formação de seus filhos. Ao mesmo tempo, vemos que os pais podem ser protagonistas de determinados projetos para outros pais dentro do próprio colégio. A frutuosidade dessa experiência da JIP nos aponta para a constituição de um Centro de Famílias Inacianas que revele, cada vez mais, essa parceria e integração colégio-família. Por isso, desejamos também oferecer para os pais oportunidades de inserção voluntária nas instituições parceiras do colégio, onde nossos alunos já desenvolvem sua formação social, capacitando-se para serem jovens transformadores dentro da realidade em que vivemos. Atualmente, a CVX (Comunidade de Vida Cristã) oferece a orientação espiritual para grupos de pais que desejam aprofundar a sua experiência de fé. Através dos Grupos Inacianos de Famílias (GIFs), os pais têm a oportunidade de mergulhar no mistério da vida divina. Atualmente há três grupos em funcionamento. A JIP deseja que os pais reconheçam a espessura de sua humanidade, sendo capazes de sentir, vibrar e discernir em suas relações familiares e sociais e, sobretudo, tecendo uma profunda relação com Deus, Senhor da Vida.

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ação social

Imagem Solidária AÇÃO SOCIAL DA ASIA

Este é o nome do projeto de maior visibilidade da ASIA, que recebe elogio de médicos e pacientes. Seria impossível criar um título melhor Fotos: Rafael Wallace

Por dia são realizados entre 42 e 45 exames de ressonância – média bem maior que a praticada por clínicas privadas

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ma imagem vale mais do que mil palavras. Para quem está precisando de um exame de imagem para ter um diagnóstico mais preciso – e não tem como pagar os preços de mercado ou como encarar as filas e demoras do serviço público – a máxima se aplica perfeitamente. E foi pensando nessas pessoas que, há cinco anos, foi criado o Imagem Solidária,

a ação de maior visibilidade da Associação de Antigos Alunos do Colégio Santo Inácio (ASIA). Mas ele nasceu de um projeto mais antigo da ASIA, que existe desde 1960, e que é igualmente importante: o Ambulatório São Luiz Gonzaga, que oferece atendimento médico a preços populares – e até mesmo gratuitos, nos casos determinados pelo setor de serviço social da associação.


Os médicos pediam os exames e as pessoas, por conta das dificuldades em conseguí-los, acabavam não se tratando” Maria José Bezerra

para viabilizar tudo. Mas desde então o projeto é autossustentável, fazendo com que a ASIA possa direcionar a maior parte de sua verba para a área educacional, com a creche e a educação infantil na Comunidade Santa Marta. “Não foi simples organizar tudo. Durante um ano tivemos reuniões semanais com as empresas parceiras, além das obras. O reitor do colégio à época e, consequentemente, presidente da ASIA, padre Paulo D’Elboux, foi um grande entusiasta do projeto e nos ajudou demais durante o processo”, lembra Maria José, que desde então dirige o Imagem Solidária.

Desde o início, foram cobrados os valores mínimos necessários para que o serviço pudesse ser prestado - e isso representava 10% do preço de mercado. A ressonância começou custando R$ 130 e teve o preço mantido por quatro anos. Agora custa R$ 150. “É claro que há casos em que fazemos gratuitamen-

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Exames sempre foram cobrados

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um mamógrafo. A ASIA, então, conseguiu ampliar o espaço, ao lado do CSI, onde já funcionava o ambulatório. “A Amil também foi parceira de primeira hora e custeou a reforma física do espaço. Conseguimos parcerias com a Kodak, que nos cedeu filmes durante três anos – os equipamentos ainda não eram digitais –, a ArSul nos deu um grande desconto para instalarmos o sistema de refrigeração, a Mopri fez o transporte gratuito das máquinas e a Guerbet, nossa única parceira que vem do início até hoje, entrou com os contrastes”, enumerou Maria José, destacando o apoio constante de Romeu em todo o processo, principalmente no contato com as empresas parceiras. O projeto ainda contou com a participação da GE, que montou a ressonância e doou a primeira máquina de ultrassom. O projeto começou, então, com três máquinas: ressonância, mamografia e o ultrassom. A inauguração foi em 14 de fevereiro de 2007, após um ano de muito trabalho

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O espaço, que foi aberto no alto da comunidade do Santa Marta com apenas um clínico geral e voltado para os moradores do local, começou a passar por uma transformação em 1998, com a entrada de Maria José Bezerra como voluntária. Mãe de alunos do colégio e casada com o neurologista Marcelo Bezerra, Maria José, que tem formação em Gestão Empresarial, era responsável pela organização do consultório do marido e tinha muitos amigos médicos. Ela conseguiu ampliar o número de voluntários e a gama de especialidades oferecidas no posto e, ao assumir a vice-presideência da ASIA, no ano seguinte, as instalações começaram a ser modernizadas. O aumento no número de atendimentos fez com que fosse percebida uma carência: exames de imagem. “Os médicos pediam os exames e as pessoas, por conta das dificuldades em conseguí-los, acabavam não se tratando e, quando voltavam, já era para ver um outro problema”, conta Maria José. “Foi quando, durante um jantar, encontrei o antigo aluno Romeu Côrtes Domingues e conversamos sobre esta situação. Ele era dono da CDPI e da Multi-Imagem, empresas da área de exames médicos, e já tinha tentado montar um projeto social de acesso à exames de imagem, mas que não conseguiu se manter por variadas razões. Foi quando resolvemos montar o Imagem Solidária pela ASIA”, contou. A primeira máquina de ressonância magnética foi, então, doada pelas empresas de Romeu, que também doaram

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A antiga aluna Maria Cecília Saba (74) faz exame de ultrassom na paciente Elezangela do Carmo: “sou cliente”

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te, mas é tudo muito organizado e há entrevistas criteriosas feitas por assistentes sociais. É inviável manter o projeto sem a cobrança”, garante Maria José. Mas os pacientes não reclamam. A auxiliar de perfumaria Elezangela Leitão do Carmo já frenquenta o espaço há três anos. “Vim por indicação de uma amiga para uma consulta no ambulatório e fiquei. Apesar de estar sempre cheio, somos bem atendidos e é tudo muito organizado. Tem vezes que agendo por telefones e outras vezes venho marcar pessoalmente”, contou a moradora do Centro da cidade, que estava fazendo um exame de ultrasonografia de abdômem total solicitada por um dos médicos do ambulatório. Ela estava sendo atendida por Maria Cecília Saba, antiga aluna da turma de 74 - “fui da segunda turma que aceitou mulheres”, contou. Após 21 anos trabalhando em uma clínica particular e na Santa Casa, a médica está preferindo dedicar mais tempo ao Imagem Solidária, onde trabalha como autônoma. “Aqui é o melhor padrão. Os equipamentos

são sempre de ponta e o atendimento é ótimo, além de ser tudo extremamente limpo e organizado”, testemunha. Segundo Maria José, o Imagem Solidária conta com 33 médicos autônomos enquanto o ambulatório tem 37. “Estes dois projetos ainda compartilham outros 42 funcionários, como telefonistas, porteiro, faxineiro, atendente, digitador, técnicos de radiologia, de mamografia e enfermagem”, revela. Mas há também médicos voluntários, como o cardiologista Alexandre Cosenza, que se divide entre o ambulatório São Luiz Gonzaga, seu consultório e o Hospital Samaritano – no Imagem Solidária não há voluntários. Segundo ele, a diferença é grande, mas apenas no público atendido. “Aqui atendemos pessoas que realmente precisam. É muito motivante, pois até mesmo as pequenas coisas fazem muita diferença. Mas as condições de trabalho que tenho aqui são as mesmas no Samaritano, por exemplo. Pudemos montar um espaço para fazer ecocardiogramas e testes ergométricos exatamente com os mesmo

equipamentos que existem no hospital”, contou ele, que se ofereceu para trabalhar no local. “No meio médico as pessoas conhecem o projeto do Santo Inácio. Era voluntário esporadicamente e resolvi dar um pouco do meu tempo aqui, de forma sistemática”, disse Cosenza, que não é antigo aluno, mas tem uma filha estudando no colégio. Quando a reportagem da SINO foi conversar com o médico, ele estava atendendo a aposentada Judith Barreto, de 79 anos, que tem problemas cardíacos e estava pela primeira vez no ambulatório. “Como sou uma pessoa que conversa muito, fiquei sabendo daqui por alguns amigos, que falaram muito bem do serviço e me aconselharam. Eles estavam certos. Gostei do atendimento”, disse ela, que teve os medicamentos alterados por Cosenza. O cardiologista ainda pediu exames de sangue e um ecocardiograma. Ou seja, Judith fará o caminho de muitas outras pessoas, que foram buscar atendimento médico no ambulatório e acabam clientes do Imagem Solidária.


Imagem Solidária 2 A parceria entre a ASIA e a Petrobras deu origem ao projeto Imagem Solidária 2, que apesar do nome não tem seu foco nos exames médicos. Desta vez, a maior empresa do Brasil está ao lado da associação na missão de complementar a formação educacional de 120 crianças da comunidade Santa Marta, de 6 a 12 anos, que estejam matriculadas na rede pública ou privada de ensino – no último caso como bolsistas. O projeto inclui o oferecimento de refeições, acompanhamento pedagógico, psicológico e social e monitoramento de rendimento escolar realizado em parceria com as escolas. Além disso, as crianças e seus familiares (pais e irmãos) terão atendimento gratuito no Ambulatório São Luiz Gonzaga e acesso, quando necessário, aos equipamentos do Imagem Solidária. O cardiologista voluntário Alexandre Cosenza examina a aposentada Judith Barreto: “mesmas condições do Samaritano” Novos equipamentos

te mais. Mas a associação comprou outros dois equipamentos de ponta. No ano passado, foram realizados 129 mil atendimentos. E um projeto divulga o outro. “Quem vem para o ambulatório vê que há exames de imagem e vice versa, pois a entrada é a mesma. Além disso, temos muitas especialidades aqui, diferentemente do que acontece em muitos postos de saúde pública”, conta Maria José.

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máquina era antiga. Foi quando, em 2008, a Petrobras começou a patrocinar o nosso projeto e conseguimos comprar uma nova máquina. Foi o primeiro projeto da Petrobras na área de saúde e eles continuam parceiros da ASIA”, contou Maria José. O mamógrafo continua sendo o mesmo, mas já passou por trocas de tubos de imagem – “gastamos R$ 58 mil só com isso”, lembra Maria José –, enquanto o primeiro ultrassom não exis-

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O Imagem Solidária e o Ambulatório São Luiz Gonzaga ficam em uma casa ao lado da Igreja de Santo Inácio

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A ressonância é o carro-chefe do projeto. Geralmente há uma fila de um a dois meses para se conseguir fazer os exames, mas os pedidos de urgência médica são levados em consideração. Segundo a técnica de radiologia com especialidade em ressonância, Cristiana Peçanha, a média de exames realizados no Imagem Solidária é bem mais alta do que os feitos em clínicas particulares onde também trabalha. “A média diária daqui é de 42 a 45 exames, de segunda a sábado. Os outros locais fazem de 30 a 35. Está sempre lotado e é tudo bem corrido. Fora isso não há muitas diferenças. As pessoas são mais carentes, você percebe, mas a reação ao aparelho e, eventualmente, o medo de fazer o exame, acontece na mesma proporção”, contou ela, enquanto operava a máquina, de frente para um computador. A ressonância, evidentemente, não é mais aquela, de filme. “Aquela antiga começou a apresentar defeitos e era muito difícil encontrar as peças, pois a

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artigo

liberdade Grito de

A Primavera Egípcia, no relato de um repórter inaciano enviado ao Cairo

A Praça Tahrir era frequentada por crianças, jovens, adultos e idosos, todos na mesma luta

Textos e Fotos Raphael Gomide (94) rgomide@gmail.com

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maio 2012 março 2012

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e milhões de eleitores egípcios votaram para presidente no fim de maio, após 29 anos de ditadura de Hosni Mubarak e um mandato-tampão de militares, devem isso a dias de intensos protestos em janeiro e fevereiro de 2011, cujo símbolo foi um lugar com nome de liberdade, a Praça Tahrir (liberdade, em árabe). Foi um momento especial, em que os egípcios se deram conta de sua força e derrubaram o ditador. O movimento começou com uma improvável manifestação combinada pelas redes sociais por jovens de classe média-alta em Zamalek, bairro da elite do Cairo, e ganhou a adesão das mais diversas camadas da fragmentada sociedade egípcia. Até a violenta polícia, acostumada a dissolver pela força a presença da massa – para cada 100 ousados cidadãos, eram 500 agentes – hesitou, a princípio, antes de reagir com força.


to, meio-fios e calçadas até chegar ao hotel para me lembrar do estilo egípcio de negociar. “Senhor, como o sr. vê, o hotel está lotado e só temos a suíte especial: 700 euros.” Eu tinha um cartão de crédito e cerca de US$ 2.500 para passar uma semana. Não podia gastar tanto na primeira noite. Desconsolado, perguntei se não havia nada mais barato. Voltou ao computador, e, após algum “esforço”, achou uma suíte mais “modesta”, a 300 euros. “Tem algum outro hotel aqui perto?” Ele se deu conta de que eu era apenas um jornalista brasileiro. “Um minuto, senhor”, e encontrou um quarto por 200 euros, sem internet e com forte cheiro de cigarro. Assisti até tarde ao esperado discurso de Mubarak na CNN, quando prometeu não concorrer nas eleições presidenciais seguintes, previstas para setembro. Mas, ele já perdera em silêncio o momento em que suas pequenas concessões acalmariam a nação. Como o governo cortara a internet, em um esforço para evitar as comunicações entre os opositores, precisei ditar por telefone a matéria da primeira noite. Na manhã seguinte, tomei um táxi e cheguei ao Hotel Intercontinental Se-

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tão rápido quanto pude, preocupado de o diplomata mudar de ideia, afinal ele era representante do regime cujo fim era pregado pela Praça Tahrir. Passei na redação para pegar o computador, gravador e blocos e comprei dólares. Atrás de um colete à prova de balas – aprendera em 2009 que no Egito não se vende o equipamento a civis –, liguei para contatos do Exército, da Secretaria de Segurança e o comandante do Bope. Foi ele quem me telefonou, no fim da tarde, com a boa notícia. “Você não deixará de ir ao Egito por isso!” Embarquei com o coração na boca e passei o voo pensando nas matérias possíveis, que seriam, claro, superadas pelo turbilhão de acontecimentos que viria nos dias seguintes. No voo da Itália para o Cairo, eu era o único não-egípcio. Desembarquei à noite, preocupado se seria admitido no país com o colete na mala e as credenciais de repórter. Passei pelo controle sem problemas, mas o funcionário de aeroporto riu de mim quando eu lhe perguntei se conseguiria um táxi até o centro. “Impossível. Está tudo bloqueado, com toque de recolher.” Caminhei 500 metros pelo estacionamento em obras do aeropor-

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Este era o jornal da praça: uma forma encontrada para divulgação de informações entre as pessoas que lá estavam

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Quando cheguei ao Cairo, em 1º de fevereiro, a cidade fervia. A polícia abandonara as ruas por ordem do ditador – com o aparente objetivo de provocar o caos – e cada quarteirão formava milícias para defender os moradores diante da ausência de proteção estatal. O toque de recolher decretado pelo governo e o medo transformaram a normalmente vibrante e frenética capital egípcia em uma cidade fantasma. Do avião, às 21h, via do alto uma cidade sem os carros que fazem o Cairo ter um dos piores trânsitos no mundo. Era estranho ver as ruas desertas, quando, exatos dois anos antes, eu levara duas horas até o aeroporto em uma noite de sexta-feira, a caminho de Israel para entrar na Faixa de Gaza, após a ofensiva de 2009. Como da outra vez, minha viagem foi programada com a mesma antecedência: nenhuma. Nos dois casos, fiquei sabendo que iria a uma zona de conflito no mesmo dia. A adrenalina misturada ao medo do desconhecido dá dor de barriga. Não é um sentimento reconfortante e nos faz amaldiçoar os editores pela imprevidência e falta de planejamento com nossa vida. Não acreditem que a vida de repórter é uma montanha-russa diária, com aventuras de Tintin e reportagens que tiram o fôlego e mudam o mundo. É uma mitificação dos jornalistas para dar ao menos um pouco de glamour à nossa profissão de tediosos plantões em feriados e fins de semana. Esses momentos são eventuais, até raros – nenhum coração ou família os aguentaria se frequentes –, e nem todos jornalistas os têm, mesmo em uma carreira inteira. Eis que às 11h daquela segundafeira soube que iria ao Egito. Corri para o Consulado em Botafogo para tentar o visto para embarcar naquele dia, e fui recebido com surpreendente boa-vontade, tratando-se de um jornalista. Ouvi que o cônsul-geral me concederia o visto se tivesse a documentação completa até as 13h. Tomei um táxi para casa e voltei

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Christine Henri, que faz parte da minoria católica no Egito, trabalha como voluntária para manter a limpeza da Praça Tahrir

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miramis, à beira do Nilo, onde estava concentrada a imprensa internacional. Fui, então, à Praça Tahrir. Embora uma das vias de acesso fosse a apenas 200 metros do hotel, estava bloqueada pelo Exército. Dei uma volta e caminhei pelas ruas vazias e à primeira vista tranquilas, apesar do evidente rescaldo de confusão: o prédio de um ministério destruído pelo fogo, carros e ônibus virados e carbonizados. A praça ainda estava vazia às 10h. Do lado de fora, ouvi um pequeno grupo de defensores de Mubarak. Entrei, após três revistas pessoais, para evitar armas. Entrevistei manifestantes tranquilamente. Havia muitos jovens, mas também muitas mulheres, idosos e crianças no protesto por democracia e pela queda do ditador. Dali a duas horas, o clima começa a ficar tenso. Vejo um rapaz com a cabeça sangrando ser empurrado com brutalidade para fora da praça. Minutos depois, mais um. Seriam defensores do presidente. Vou ao hotel e logo retorno, por volta das 13h. A atmosfera no percurso é outra, tensa. Já há muitos grupos pró-Mubarak, com cartazes e bandeiras. Entro na praça com alguma dificuldade, depois de ser praticamente forçado a ouvir alguns manifestantes da situação, exasperados.

Na praça, a apreensão é geral. Há o temor de que o grupo de Mubarak invada a Tahrir pela entrada do Museu Egípcio, próxima do meu hotel. Vi 11 pessoas serem expulsas da praça, cada vez com mais violência e sangue. “Lá fora são policiais, com armas”, dizem. Os jovens passam a quebrar as calçadas para pegar suas armas, as pedras. Outros arrancam barras de ferro das grades da praça. Numa saga solitária e inglória, uma estudante canadense da Universidade Americana do Cairo, tenta demover, aos gritos, manifestantes de transformar em arma a pilha de pedras aos seus pés. “Eles vão nos matar, temos de nos defender!”, argumentou um rapaz. Em 15 minutos, já não tinha controle de “suas” pedras. As pedras voavam de lado a lado, em uma impressionante chuva. Eram centenas no ar ao mesmo tempo. Pedaços de calçada passavam por cima das barricadas. Numa cena antológica, uma “cavalaria” medieval improvisada com camelos e cavalos irrompe as colunas, mas é repelida a golpes de porrete, barras de ferro e pedras. Alguns cavaleiros são derrubados e espancados. O Exército olhava impassível. Já passava das 17h e logo escureceria. Comecei a me preocupar seriamente com minha segurança, temendo a invasão iminente e o possível massacre dos ocupantes da

praça. Se eram policiais e tinham armas de fogo, seria uma carnificina contra os manifestantes desarmados da Tahrir. Ao tentar sair, percebi que estávamos presos, cercados por todos os lados por opositores e bloqueados pelo Exército. Tento várias saídas, sem sucesso. Após uma hora, já às 19h, encontro uma rota de escape. Sob iluminação feérica, percorro ruas estreitas e desertas. Vejo dezenas de carros queimados e virados de cabeça para baixo, barricadas e sou revistado em checkpoints de homens armados de pedaços de pau e pés-decabra, milícias de moradores em defesa de saques. Faço uma enorme volta caminhando rápido até chegar ao Nilo, em direção ao hotel, cumprindo em mais de uma hora um caminho alternativo que normalmente levaria dez minutos. Respiro aliviado ao entrar no hotel. Não houve massacre. Os manifestantes, contra todos os prognósticos, resistiram e reverteram a situação, repelindo os rivais, em longa batalha de pedras e paus, quase medievais, que durariam a madrugada e o outro dia. O saldo inicial do caos absoluto, diante dos braços cruzados dos militares nos tanques, foi de três mortos e 639 feridos. O problema foi que o grupo próMubarak ficou concentrado na área do meu hotel. Assim, no dia seguinte, com


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Compra e venda de livros e CDs usados

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Crianças no chão, observadas e fotografadas por adultos, fazem homenagens aos mártires da revolução

após o fim do toque de recolher, orientado por um ex-Forças Especiais australiano segurança da emissora CNBC, dos EUA – passei por diversos checkpoints até chegar ao novo hotel, em zona mais segura. Ele retiraria os seus com um grupo de comandos fortemente armados, em um ônibus, pouco depois. Nos dias seguintes, o clima amainou e os manifestantes pró-regime sumiram. Voltei à praça, epicentro e símbolo da derrocada de Mubarak todos os dias e senti a força da História à minha frente. Escrevi sobre voluntários médicos que se arriscavam para tratar feridos numa mesquita improvisada; sobre a cidade autônoma em que a Tahrir se transformou, com serviços de segurança, coleta de lixo, alimentação e informações; encontrei um dos “cavaleiros” da Tahrir que mais aparecem nas fotos e vídeos e descubro que é um pobre jovem apolítico que depende do turismo nas pirâmides para sobreviver.

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os ânimos exaltados pelos intensos confrontos da véspera e revoltados com a cobertura mundial pró-Tahrir, passaram a atacar jornalistas. Os poucos repórteres que saíram foram agredidos ou gravemente ameaçados, retirados à força do carro e salvos pelo Exército. O hotel proibiu filmagens ou fotos e entraram em quartos com cinegrafistas e fotógrafos para pedir as imagens, sob a alegação de que incitavam os manifestantes contra o Intercontinental. Ficamos sitiados no hotel até a manhã seguinte, sob a ameaça de invasão e com um blindado militar na porta. Repórteres passaram a ser evacuados em carros diplomáticos ou pelo Exército. O diplomata brasileiro para quem liguei fez pouco caso e pediu para eu retornar na manhã seguinte, às 10h, porque estavam todos “muito cansados”. Sob minha argumentação, sugeriu que telefonasse então às 9h... Deixei o lugar às 7h, logo

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Entrevisto uma intérprete de Mubarak, que pede sua renúncia; mostro como os mortos nos protestos ganham o tratamento de mártires; como o governo manipula as informações até na TV estatal, na guerra psicológica e de informações, mostrando a praça vazia em imagens de arquivo enquanto a Al-Jazeera a exibe lotada ao vivo; escrevo como a falta de uma liderança política entre os manifestantes diante da recusa do presidente em sair frustra o “Dia da Partida” e parece dificultar um desfecho – a força do movimento, a massa, também era sua fraqueza. Procurei desmistificar o papel da Irmandade Muçulmana, tão temida no Ocidente, a partir da opinião de muitos egípcios que defendiam sua legitimidade no processo político, do qual estavam alijados pelo ditador. Acuado, o governo busca sem êxito esvaziar a Praça Tahrir com a reabertura do comércio e dos bancos, povoando a cidade vazia. Mas uma entrevista em que o executivo do Google Wael Ghoneim contou ter ficado 12 dias preso e vendado – por ter promovido o movimento “Somos todos Khalid Said” (jovem morto após ter sido espancado por policiais) – exorta milhares às ruas novamente. Relato em minha reportagem favorita um dos pontos mais belos, embora pouco visíveis da revolução. Em uma sociedade claramente estratificada – ou mesmo segregada por classes e religiões, para alguns –, as manifestações uniram os egípcios em torno de um novo projeto de país. O movimento contra o regime autoritário operou naquele dias de fevereiro uma “revolução de costumes”. As enormes disparidades econômicas, o discurso desagregador do regime e a falta de liberdade tinham levado a população à apatia, à frustração e à raiva e incentivavam o ressentimento entre diferentes grupos sociais e religiosos, para dividir e imperar. A “revolução” trouxe de volta a autoestima, o orgulho nacional e o sentimento de pertencimento do país. “É a primeira vez que me sinto pisando em

Homem ferido, que seria simpatizante de Mubarak, é expulso da praça violentamente pelos manifestantes meu solo. Renasci, agora sou dona das ruas. A única coisa boa que Mubarak fez foi unir todos contra ele. Sinto-me como se tivesse 18 anos”, disse-me Nema Khalija, que vive de US$ 45 de pensão. Mulheres pararam de ser assediadas nas ruas, podiam fumar publicamente sem repreensões, jovens ricas catavam lixo na praça; muçulmanos e cristãos sentavam-se lado a lado; religiosos e jovens muçulmanos seculares conversavam amigavelmente. O movimento foi algo mágico, inimaginável para a maioria dos egípcios apenas três semanas antes. A marcha que começou com jovens de classe média em um bairro rico do Cairo, porém, espalhou-se e juntou milhões. “Roubaram nossos sonhos e nos deram raiva, frustração. Como fomos tão idiotas de parar a vida, de viver assim (sem liberdade)? Espero isso desde meus 20 anos. Jovens, vocês nos orgulham tanto! Esta é uma verdadeira revolução”, afirmou Wahba Said, 40. Para a estudante de Ciência de Computação Habiba Mahmoud, 19 anos, o movimento abriu todas as possibilidades para a afirmação de uma nova geração. “É a minha revolução, agora sabemos que podemos fazer qualquer coisa. Estamos exigindo os nossos direitos. Esta-

mos nos explorando. Não temos medo de nada”, disse Habiba. Era emocionante estar ali, vendo tudo aquilo, assistindo ao desenrolar da História. Em 11 de fevereiro, Mubarak renunciou. Poucas horas antes, eu desembarcara no Rio. Assisti a tudo pela TV, frustrado, de não estar na Tahrir para ver a festa de comemoração. Mas com a certeza de ter vivido momentos históricos no Cairo. Raphael Gomide, da turma de 1994, é jornalista do Portal iG, onde é possível ler sua cobertura no Egito (digite Raphael Gomide Egito 2011). Trabalhou na Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Dia e Jornal do Brasil. Gomide é vencedor do Grande Prêmio Lorenzo Natali 2008 (União Europeia) e Lorenzo Natali 2008 (América Latina), Prêmio Mundial de Direitos Humanos em Jornalismo da Anistia Internacional (2004) e finalista do Prêmio Anistia Internacional UK (2010). Recebeu seis prêmios nacionais de jornalismo. Como repórter, esteve na Faixa de Gaza, Haiti, Colômbia, Catar e EUA. Publica este ano o livro “Infiltrado, a PM por dentro”, sobre período que passou como recruta na PM do Rio. As experiências no Egito e em Gaza também vão virar livro.

Compartilhe conosco suas histórias Envie para minhasino@revistasino.com.br e facebook.com/revistaSino


Arsoi precisa de voluntários Os interessados em participar como voluntários do Arraial da Solidariedade Inaciana (Arsoi) devem procurar Izabela Fischer no Núcleo dos Antigos Alunos do CSI, nos seguintes contatos: antigosalunos@santoinacio-rio.com.br e 3184-6207. O arraial será realizado no dia 7 de julho, das 11h às 20h, com fechamento dos portões às 18h. Como sempre, o evento contará com barracas de comidas típicas e brincadeiras, além das quadrilhas apresentadas pelos alunos do colégio.

Antigo aluno lança livro O antigo aluno Jorge Claudio N. Ribeiro Jr. (66) acaba de lançar o livro “Coração DoCente”, com 29 crônicas escritas ao longo das últimas décadas sobre as descobertas e surpresas experimentadas em sala de aula. Publicado pela editora Olho D’água, pode ser adquirido pela internet em http://bit.ly/coracaodocente.

badaladas

O novo presidente da Conferência dos Provinciais Jesuítas da América Latina (Cpal) é o padre Jorge Cela, que assumirá as funções do jesuíta Ernesto Cavassa, designado para Cuba e Haiti. Cubano, padre Jorge era superior regional jesuíta de seu país. A Cpal foi criada em 1999 para promover a coordenação e a colaboração entre províncias, provincialatos e regiões da Companhia de Jesus na América Latina. A sede fica na Casa Anchieta, ao lado do CSI.

Conto de antigo aluno O antigo aluno Dalmo Cordeiro (81), ao receber a revista SINO, nos enviou um conto inspirado em sua passagem pelo colégio. Publicamos o texto na íntegra no site www.revistasino.com.br. Quem quiser ler também pode encontrar o material usando um leitor de QR Code.

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o nome ASIA vem do latim Antiqui Societatis Iesu Alumni, que numa livre tradução quer dizer Associação dos Antigos Alunos dos Padres Jesuítas?

Jesuítas da américa latina têm novo presidente

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A nova responsável por intermediar o contato entre os antigos alunos e o CSI é Izabela Fischer, formanda da turma de 1977. Desde o dia 1º de maio, ela responde pelo Núcleo dos Antigos Alunos do CSI, no lugar de Teresa Tang. A relação de Izabela com a Companhia de Jesus vai além da sala de aula. Formada em psicologia e com grande experiência em Recursos Humanos, ela trabalhou no Centro Pedagógico Padre Arrupe, de 91 a 96, e no Colégio São Luís, em São Paulo, entre os anos de 1996 e 99. Os contatos do núcleo continuam os mesmos: antigosalunos@santoinacio-rio. com.br e 3184-6207.

Você sabia que:

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Nova responsável pelo núcleo de antigos alunos

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solidariedade

Inacianos pelo Haiti

Casal de chilenos viaja pelo continente para divulgar a campanha, que é mundial

No CSI, o casal - ambos antigos alunos jesuítas - é entrevistado por membros do grêmio

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terremoto que devastou o Haiti, em 2010, tem unido jesuítas do mundo inteiro em torno de uma campanha para a construção de escolas populares no país caribenho. A campanha “Inacianos por Haiti” (www.ignacianosporhaiti.org), que começou no ano passado e vai até 2013, foi apresentada, no fim de março, para os alunos do Colégio Santo Inácio. Os responsáveis por isso foram os chilenos Carolina Labbe e Christian Fehermann, antigos alunos de instituições jesuítas em seu país. Recém casados, ambos com 27 anos, estes jovens resol-

veram viajar por toda a América (saindo do Chile no dia 16 de janeiro de 2012 e tendo o Alasca como meta) em uma Kombi, divulgando a cultura do Chile e a campanha pelo Haiti. “Este já era um sonho do casal, mas o convite para divulgarmos a campanha pelo Haiti foi um presente que nos permitiu dar um sentido mais profundo a esta viagem”, explicam os recém-casados, que, durante seu percurso, têm se hospedado em instituições da Companhia de Jesus. O casal já passou por colégio jesuítas em Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Fortaleza. A Kombi Westfalia T3 de 1980 é uma atração a parte entre os alunos, que foram estimulados a organizar uma campanha interna para divulgar o projeto pelo Haiti. A viagem dos dois pode ser acompanhada por um blog, cujo endereço é

http://idamerica.wordpress.com. Além disso, sempre que possível, os chilenos postam fotos na Internet www.flickr.com/photos/idamerica. No ano passado, através do site da campanha, foram arrecadados mais de 100 mil dólares. Campanha

A intenção dos inacianos é construir no Haiti escolas do projeto “Fé e Alegria”, que, além de gratuitas, buscam o envolvimento da comunidade e oferecem oportunidades para crianças, jovens e adultos - www.fealegria.org.br. Existem escolas nestes moldes em 20 países e 14 estados brasileiros. No Rio de Janeiro há um Centro Social de Educação e Cultura, localizado no bairro Cidade Jardim Parque Estoril (Marambaia) em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.


Seja sócio Não é preciso ser ex-aluno do Santo Inácio para ajudar a manter projetos como o Imagem Solidária

www.asiarj.org.br

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Associação dos Antigos Alunos dos Padres Jesuítas - RJ Rua São Clemente, 216 - Botafogo Rio de Janeiro - RJ Tel: (21) 2527-3502 contato@asiarj.org.br

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Revista Sino - maio/2012