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VERSO&PROSA

Música underground Em seu novo livro, Yury Hermuche apresenta as trajetórias de nove bandas do rock alternativo.

Divulgação

POR PEDRO BRANDT

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m 1992, em São Paulo, o brasiliense Yury Hermuche assistiu pela primeira vez a um show da banda paulistana Pin Ups. “Aquela intensidade sonora era de uma violência tão marcante, visceral e crua, sendo projetada pela banda na nossa direção no escuro e pequeno Retrô... aquilo nunca mais saiu da minha cabeça”. A experiência mexeu profundamente com o jovem que, pouco depois, montaria uma banda e passaria as décadas seguintes acompanhando shows no underground brasileiro. “É a melhor cena, louca e livre”, define. Guitarrista e vocalista da banda paulistana FireFriend, ele acompanhou de perto esse universo de muita liberdade – criativa e de estilos de vida – e loucura – álcool, drogas e delinquência (juvenil ou mesmo na idade adulta). E, claro, muita música diferente, alternativa aos padrões hegemônicos do mainstream brasileiro. Parte de sua vivência e dezenas de relatos (de músicos, produtores e pessoas envolvidas nesse meio) recheiam as 600 páginas de RCKNRLL – Outsiders, viciados em música, procurando confusão, quarto livro de Yury (o primeiro de não-ficção). Além da FireFriend, o autor repassa casos e histórias – “Ouvi choro, risos e até ameaças”, conta – das bandas paulistanas Thee Butchers’ Orchestra, Forgotten Boys, Biônica e Giallos, da paulista (de Piracicaba) Travelling Wave, da brasiliense Divine e do cantor fluminense Lê Almeida. “São bandas que eu conheci em shows. E que me abriram os olhos. É por isso que elas estão no livro”, justifica. Todas traçaram seus caminhos à margem do grande mercado, das rádios e da televisão, tocando onde fosse possível, em bares ou festivais, com ou sem estrutura adequada. “Essa vontade de tocar sempre supe-

rou todos os problemas. A gente marcou muito show sem saber se ia ganhar ou não. Não estava nem preocupado com isso, na verdade”, atesta Gustavo Riviera, vocalista dos Forgotten Boys. Yury nota que, além da paixão pela música, outros aspectos em comum ligam os personagens do livro. “O tesão pela experiência, por exemplo. Essa vontade de fazer algo na vida. A perspectiva muito crítica, que percebe alguma coisa muito errada no mundo. E o encontro, nesses espaços de troca temporários, fora do consumo, esses espaços de sociabilidade pura. É o underground, desafiando a falta de sal do horário nobre”. Cada capítulo de RCKNRLL é construído com depoimentos em primeira pessoa, bastante coloquiais, tal qual em Mate-me, por favor, seminal livro que reconta o surgimento do punk rock na Nova York de meados dos anos 1970. Yury também cita On the road, de Jack Kerou-

ac, e Crônicas, de Bob Dylan, como referências. Essa opção narrativa traz os personagens para o lado do leitor, como se eles estivessem ali, numa conversa tête-à-tête. Entretanto, pode impor desafios para quem não conhece as bandas, seus universos e as idiossincrasias do rock alternativo. Para os “iniciados”, a garantia é de uma leitura deliciosa. Para os neófitos, pode ser a porta de entrada para valiosas descobertas. “O underground brasileiro mantém vivo um mundo muito interessante, diverso e excitante — onde há muita música, muito encontro, muita energia e muitas ideias”, comenta Yury. “Não é pasteurizado, não é de plástico, não é caro. Mas é muito exclusivo, bem foda e, felizmente, bem alto”, garante. RCKNRLL – Outsiders, viciados em música, procurando confusão

De Yury Hermuche. 600 páginas. Editora Longe. R$ 60. À venda em www.rcknrll.com.br.

Roteiro 247  
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