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Ano XVII • nº 277 Maio de 2018

R$ 5,90

Filé com molho rôti e flocos de alho, do Café Savana.

Temporada dedicada à gula 59 bares e restaurantes da cidade participam do Festival Brasil Sabor a partir do dia 17


#vacinagripe #vacinagripe

VERDADES DA VACINA CONTRA A GRIPE /minsaude

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MITOS e

VERDADES DA VACINA CONTRA A GRIPE A GRIPE É UMA GRANDE ADVERSÁRIA, MAS A VACINA É A ESTRATÉGIA PERFEITA PARA A VITÓRIA. CONFIRA OS MITOS E VERDADES QUE PREPARAMOS E VEJA SE VOCÊ ENTENDE TUDO SOBRE A GRIPE.

É POSSÍVEL PEGAR GRIPE PELA VACINA. MITO

Isso não é possível. A vacina contra a gripe é feita com o vírus morto. Portanto, é 100% segura e incapaz de provocar a doença nas pessoas que são vacinadas. VERDADE

É PRECISO TOMAR A VACINA TODOS OS ANOS. MITO VERDADE

Sim. Isso acontece por dois motivos. Primeiro, porque a imunidade da vacina se mantém por um período de aproximadamente 12 meses. Segundo, porque a cada ano temos vírus diferentes, que causam diferentes tipos de gripe, e a vacina é produzida a partir dos vírus que estão mais propensos a aparecer durante o período de vacinação.

EM GESTANTES, A VACINA FAZ MAL PARA O BEBÊ. MITO

Pelo contrário. É muito importante a vacinação das grávidas, pois quando a mãe é vacinada o bebê também fica protegido. VERDADE


GRIPE E RESFRIADO SÃO DOENÇAS DIFERENTES. MITO VERDADE

Embora os sintomas sejam muito parecidos, os vírus que causam a gripe e o resfriado são diferentes. A gripe é uma doença mais grave, que causa febre alta, dores musculares, dor de cabeça, dor de garganta e exige mais cuidados para não evoluir para uma pneumonia. Já o resfriado é mais brando e dura menos tempo.

A GRIPE PODE MATAR. MITO VERDADE

Se não for tratada a tempo, a gripe pode causar complicações graves e levar à morte, principalmente nos grupos de alto risco, como pessoas com mais de 60 anos, crianças menores de cinco anos, gestantes e doentes crônicos.

A ÚNICA FORMA DE PREVENIR A GRIPE É TOMANDO A VACINA. MITO

A vacina contra a gripe é a melhor e mais segura forma de se proteger contra a doença, porém, existem outras medidas importantes que ajudam na prevenção: VERDADE

Lavar e higienizar as mãos com frequência. • Não compartilhar objetos de uso pessoal, como talher, copo e garrafa. • Evitar tocar mucosas do olho, nariz e boca. • Ter boa alimentação e beber bastante líquido. • Evitar contato com pessoas que estejam com sintomas da gripe. • Manter a sua casa bem arejada. •

SAIBA MAIS EM SAUDE.GOV.BR/VACINAGRIPE


EMPOUCASPALAVRAS Daryan Dornelles

Tudo começou com o picadinho de carne com farofa de ovo e banana frita. Foi em volta de uma mesa que dez amigos começaram a se reunir em jantares cada vez mais requintados. Quem leu O clube dos anjos, livro de Luís Fernando Verissimo, certamente se lembra de como o autor aborda a gula, um dos sete pecados capitais, e o que ela pode provocar se levada ao extremo. Mas é quase impossível não incorrer nesse pecado sempre que chega à cidade um festival gastronômico do porte do Brasil Sabor. De 17 de maio a 10 de junho, nosso problema será escolher entre nada menos que 59 bares e restaurantes que criaram menus completos – entrada, prato principal e sobremesa – com quatro faixas de preço: R$ 50, R$ 60, R$ 70 e R$ 80. Em comum, o uso de ingredientes e sabores típicos do Cerrado (página 6). Esse é o grande esforço, aliás, de chefs e pequenos produtores locais que se uniram no projeto Panela Candanga, um movimento que celebra a gastronomia brasiliense e acaba de lançar um catálogo e uma plataforma online com informações detalhadas sobre produtos, produtores, sobre onde encontrar o cajuzinho do cerrado, o palmito pupunha, o limão imperial chinês e demais delícias regionais (página 8). Outro bom exemplo disso é a abertura do Teta Cheese Bar, primeira casa brasiliense a trabalhar exclusivamente com queijos artesanais brasileiros. Com muito bom humor, os sócios viabilizaram o projeto por meio de um crowdfunding, ou seja, financiamento coletivo comumente chamado de “vaquinha”. Como brincam, trata-se da “vaquinha da Teta” (página 10). Na seção Galeria de arte, o destaque é a exposição J. Borges – 80 anos, que chega à Caixa Cultural dia 30 com belo acervo da arte popular do pernambucano que começou como cordelista dos bons e hoje é reconhecido mundialmente por seu trabalho como gravurista. O cotidiano da vida simples do campo, o cangaço, o amor e a religiosidade são fontes de inspiração para J. Borges, que, apesar da fama, continua trabalhando em seu ateliê de Bezerros, em pleno agreste pernambucano. Evoé! (página 28). Para terminar, convocamos os saudosistas da Jovem Guarda a mergulharem no túnel do tempo e curtirem 60! A década de arromba, musical que vai trazer ao palco do Centro de Convenções boas lembranças de certas tardes de domingo. É a “ternurinha” Wanderléa quem comanda a festa, dias 18, 19 e 20 (página 30). É ou não é uma brasa, mora? Boa leitura e até junho! Maria Teresa Fernandes Editora

24 graveseagudos Zeca Pagodinho e Maria Bethânia são a atração do dia 30, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, com o show De Santo Amaro a Xerém.

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ROTEIRO BRASÍLIA é uma publicação da Editora Roteiro Ltda. | Endereço SHIN QI 14, Conjunto 2, Casa 7, Lago Norte – Brasília-DF – CEP 71.530-020 Endereço eletrônico revistaroteirobrasilia@gmail.com | Tel: 3203.3025 | Diretor Executivo Adriano Lopes de Oliveira | Editora Maria Teresa Fernandes Diagramação Carlos Roberto Ferreira | Capa Carlos Roberto Ferreira, com foto de Rafael Lobo/Zoltar Design | Colaboradores Alessandra Braz, Akemi Nitahara, Alexandre Marino, Alexandre Franco, Ana Vilela, Cláudio Ferreira, Conceição Freitas, Elaina Daher, Heitor Menezes, Gustavo T. Falleiros, Laís di Giorno, Lúcia Leão, Luiz Recena, Mariza de Macedo-Soares, Pedro Brandt, Ronaldo Morado, Sérgio Moriconi, Silvestre Gorgulho, Súsan Faria, Teresa Mello, Vicente Sá, Victor Cruzeiro, Vilany Kehrle | Fotografia Rodrigo Ribeir | Para anunciar 98275.0990 | Impressão Editora Gráfica Ipiranga Tiragem: 20.000 exemplares.

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(MobilizAção)

Saiba mais:

www.cl.df.gov.br

Quem agride a

mulher machuca toda a família.

CANAIS DE DENÚNCIA:

Combate à violência contra a mulher. Entre nessa luta você também.

Procuradoria Especial da Mulher da CLDF: 3348-8296 Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher: 3207-6195 Central de Atendimento à Mulher: 180 Disque-Denúncia: 197

A violência contra a mulher faz mais vítimas do que você pensa. Ela está em toda parte e se revela de diversas formas. No DF, os estupros, a violência doméstica e o feminicídio não param de crescer. É por isso que a Câmara Legislativa não mede esforços para garantir os direitos da mulher, propondo e aprovando leis em sua defesa. Faça também a sua parte. Se for vítima ou testemunha de alguma ocorrência, denuncie. • IMPLEMENTAÇÃO DO BOTÃO DO PÂNICO • PROCURADORIA DA MULHER DESDE 2013 • VAGÃO EXCLUSIVO PARA MULHERES NO METRÔ • POSTOS DE TRABALHO PARA VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA • UMA DELEGACIA DA MULHER EM CADA REGIÃO ADMINISTRATIVA

Você significa tudo


ÁGUANABOCA

Menu do Natural Green's: salada, risoto de cogumelos e pavê de castanha de baru.

Menu do Primeiro Bar: casqueta de bacalhau, coroa de camarões

Ingredientes e

sabores originais

POR VICTOR CRUZEIRO

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ão acho que exista culinária típica de Brasília”, disse-me certa vez um incauto connaisseur, que atribuía a presença expressiva de feijoada e queijo coalho nos bares e restaurantes ao feliz encontro entre mineiros e nordestinos promovido por JK. “Achou errado!”, pensei, refletindo sobre como esse clichê se repete com muita frequência na capital, esse intenso caldeirão de influências e referências, infelizmente negligenciado por sua construção tão recente e atípica. Felizmente, são muitas as tentativas de derrubar esse mito, como o Festival Brasil Sabor, que se inicia no dia 17 e vai até 10 de junho. Promovido pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), a 13ª edição do festival se mantém como uma das grandes forças de consolidação da gastronomia local, unindo 59 bares e restaurantes da capital em torno da originalidade do Brasil como tema para a criação de seus menus. Assim, através do uso de ingredientes e sabores típicos, a criatividade dos chefs

brasilienses contribui para a própria formação da identidade gastronômica da cidade. Além do tema, similar ao do ano passado, o festival mantém, como de praxe, a arrecadação social de R$ 1 do valor dos menus, compostos de entrada prato principal e sobremesa, que terão este ano quatro faixas de preços: R$ 50, R$

File de tilápia grelhado com camarões, do Liv Lounge.

60, R$ 70 e R$ 80. Mas traz também uma série de novidades. Para começar, a tecnologia entra como um ingrediente forte neste ano, buscando tornar o festival mais sustentável. O Guia Brasil Sabor, antes impresso, deu lugar ao Clube de Benefícios Abrasel (www.guiaabraseldf.com.br), um portal em que o cliente se cadastra e, à guisa de um jogo, acumula pontos enquanto participa do Circuito Gourmet. Repetindo a fórmula de sucesso das edições anteriores, o Circuito Gourmet é uma forma de fidelizar o cliente ao festival, dando-lhe a oportunidade de, após aproveitar o menu em cinco estabelecimentos, ter o direito de voltar ao seu preferido para um almoço ou jantar grátis. O diferencial deste ano é que esse processo foi totalmente digitalizado. Através do portal, o cliente irá simplesmente cadastrar um código de acesso, recebido após o consumo em cada casa. Todos os códigos cadastrados no portal também vão gerar pontos que, somados, poderão ser trocados por brindes, convites e mesmo menus. E, finalmente, o cadastro pessoal de cada usuário poderá dar, ao fim do festival, uma pers-


mesa do bar, levando novas formas de ser dos ingredientes regionais ao grande público, aproximando os chefs e suas receitas dos seus admiradores, clientes e, com sorte, herdeiros dessa tão curiosa e rica gastronomia que está se construindo em Brasília. Identidade e ingredientes

pectiva dos gostos e preferências dos clientes – não numa tentativa de categorizar ou premiar as casas mais visitadas, como no Comida di Buteco, mas de conhecer melhor o paladar do público brasiliense, as combinações que melhor funcionaram e mesmo oferecer um feedback para cada casa se aprimorar para a edição seguinte. Na esteira das várias novidades, o Brasil Sabor de 2018 realizará duas ações paralelas ao circuito: as arenas gastronômicas e o jantar beneficente. Realizadas em 26 de maio e 2 de junho, das 10 às 16h, no Gama e em Sobradinho, respectivamente, as arenas gastronômicas terão atividades que vão de aulas-show a palestras sobre empreendedorismo, passando por feiras de produtores locais. E serão coroadas com um mini-circuito em que chefs venderão pratos a preços promocionais de R$ 10. O jantar beneficente, por sua vez, acontecerá no dia 7 de junho, no Espaço Brasília, na 904 Sul, a partir das 20h. Por uma entrada de R$ 60 e um agasalho em bom estado, o participante irá desfrutar de um menu em três etapas preparado pelos chefs do projeto Panela Candanga: Mara Alcamin, do Universal Diner (210 Sul), Francisco Ansiliero, do Dom Francisco (402 Sul), Gil Guimarães, da Baco Pizzaria (309 Norte e 408 Sul), e Lui Veronese, do Sallva (Pontão do Lago Sul). Assim, o 13º Brasil Sabor ultrapassa a barreira do salão do restaurante ou da

Festival Brasil Sabor 2018

De 17/5 a 10/6 em 59 bares e restaurantes da cidade. Relação dos participantes, com fotos, descrição e preços dos menus, em www.guiaabraseldf.com.br e www.brasilsabor.com.br.

Fotos: Rafael Lobo - Zoltar Design

ao catupiry e casadinho de brownie e churros.

A ideia dos ingredientes originais é levada muito a sério pelos chefs participantes do Brasil Sabor, que tentam, em todas as cidades, introduzir um pouco da identidade local em seus pratos. Em Brasília, contudo, o debate se acirra ainda mais, graças à nebulosa identidade da cidade, envolta numa suposta miscigenação tépida. A ausência de sotaque, uma famosa pré-concepção que se tem do brasiliense, encabeça o rol de estereótipos que se tem da capital, compondo também essa lista a ausência de uma culinária local. Assim, festivais como o Brasil Sabor contribuem largamente para que não somente os chefs tenham um incentivo para se ocupar com o desenvolvimento de um prato verdadeiramente regional – libertando-se das cruéis amarras da haut cuisine requentada – mas possam também oferecer, com publicidade e incentivo, essas construções ao seu público. Contando com integrantes de peso nesse debate, como os já referidos mestres do Panela Candanga (leia, a propósito, reportagem de Lúcia Leão nas próximas páginas), esta edição do festival traz algumas surpresas de criatividade que merecem menção e prova. Um exemplo é o Bar Brasília, da 506

Sul, que se reinventa totalmente com o menu BSB Nordestino, que no almoço e jantar oferece um carpaccio de maxixe como entrada, um baião de dois como prato principal e um sorvete de queijo com goiabada como sobremesa (R$ 50). Já a Croissanterie, um pequeno café e bistrô da 215 Norte, surpreende com um tour de force bastante mineiro, oferecendo dois menus. No almoço, um caldo de feijão com torresmo (acompanhado de um shot de caipirinha) serve de entrada, uma feijoada com farofa de baru de prato principal e um doce de mamão de sobremesa (R$ 50). No jantar, uma salada faz a vez de entrada e um filé com crosta de baru ou um risoto com queijo coalho gratinado e pimenta-de-cheiro será servido como prato principal (R$ 60). Alguns menus inserem sutilmente ingredientes próprios em receitas já bastante cristalizadas, como o El Paso, que coloca queijo minas em um prato típico criollo, o Tacu Tacu, e o Empório da Mata, que utiliza açaí no molho de massas e filé. As opções são muitas, das mais convencionais às mais surpreendentes, seja utilizando ingredientes produzidos localmente nas receitas, seja reinventando-as completamente com ingredientes do nosso bioma. Independente disso, no entanto, todos contribuem para a construção de um frágil, e às vezes esquecido, sabor do Brasil, bastante original e atrevido.

Lombo suíno marinado na laranja, do Feitiço Mineiro. Filé fatiado ao molho de escargot, do Carpe Diem.

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Joias gastronômicas do Cerrado POR LÚCIA LEÃO

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uma ponta, o pequeno produtor. Mais precisamente um tipo especial de pequeno produtor, o que valoriza o ecossistema do Cerrado, sabe extrair seus infinitos nutrientes e sabores e respeita suas fragilidades e limitações. Na outra ponta, grandes chefs de cozinha, mais precisamente um tipo especial de chef de cozinha que enxerga na culinária a base da cultura de um povo e busca no fundo do tacho identificar o “candango” pelo paladar. É o que os franceses chamam de terroir, um pedaço de terra delimitado pelo “que” a sua natureza oferece e pelo “como” o homem a transforma em alimento. Entre as duas pontas – os produtores e os chefs – uma ponte construída pelo apoio institucional da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) e da Emater do Distrito Federal. Mas o projeto só se sustenta sobre um tripé em que o consumidor é o eixo final, e por isso o foco do projeto Panela Candanga, que lançou, no início do mês, seu primeiro catálogo de produtos e receitas para levar os sabores do Cerrado para as mesas brasilienses. Para a chef Mara Alcamim, uma das mentoras, a definição do Panela Candanga é bem ampla: “Um festival, um movi-

mento, uma celebração da cozinha de Brasília”. Assim, com esse nome, ele está em curso desde outubro do ano passado e se desenvolve em várias frentes e ações. Uma delas o catálogo, lançado durante evento que reuniu no restaurante Universal chefs, produtores rurais e amantes da boa mesa para conversar, trocar ideias e experiências e degustar produtos in natura e preparados em receitas criadas pela própria Mara, por Francisco Ansiliero (Dom Francisco) e Gil Guimarães (Baco Pizzaria e Parrilla Burger). Mas Francisco Ansiliero lembra que o movimento é bem anterior ao Panela Candanga e seu catálogo. Remonta a mais de uma década, aos primeiros encontros na “pedra” – é como os usuários tradicionais tratam carinhosamente a área acimentada onde acontece a feira do Ceasa – entre alguns chefs brasilienses e pequenos produtores. Apoiados pela Emater, eles começaram a vender ali, em meio às movimentadas barracas de hortaliças tradicionais, coisas típicas da região. Fossem as nativas do Cerrado, fossem as adaptadas pela Embrapa às suas características, fossem as preparadas ao modo

da gente daqui. E quem ia às compras ali a cada dia mais conhecia e mais gostava das novidades. “Foi lá, por exemplo, que eu conheci o palmito de pupunha preparado aqui e o limão imperial chinês, uma cultura introduzida na região com muito sucesso por alguns pequenos produtores. Os dois estão há muito tempo no meu cardápio”, conta Francisco. O limãozinho diferente, macio e muito digestivo, é uma das espécies catalogadas pelo Panela Candanga. Para as mesas do Dom Francisco ele vai fatiado com a casca, quase sempre acompanhando porções de queijo e ricota. Outra espécie cultivada que está na publicação é o maracujá pérola do Cerrado, resultado de 20 anos de pesquisa da Embrapa com cruzamento e melhoramento genético da espécie passiflora setacea. Diferente do maracujá tra- dicional, ele é doce, pode ser consumido puro ou dar um toque diferenciado a receitas, como doces, drinks e até alguns pratos salgados. Ana Romeiro Rodrigues é outra antiga frequentadora da “pedra”, onde há muitos anos amanhece todos os sábados


Outro agronegócio selecionado pelo Panela Candanga são os embutidos artesanais produzidos por Léo Hamu no Núcleo Rural Rajadinha, no Paranoá. Membro do Slow Food, Léo diz que seu foco é o resgate da culinária tradicional do Brasil Central, caracterizada pelos temperos e pela forma de tratar os alimentos. “A base da minha produção são as receitas dos meus avós, que foram tropeiros nessa região”, revela. Ao contrário das grandes indústrias, que trituram as carnes sem dispensar pele, aparas e outras partes menos nobre dos animais, seus embutidos são feitos exclusivamente das carnes limpas, picadas na ponta da faca e condimentadas em açafrão, alho e pimentas regionais. Ao final, são postas para defumar na folha de laranjeira. “Elas produzem uma Fotos: Mayara Senise

com as frutas que coleta com a família numa área de dez hectares de vegetação nativa preservada no núcleo rural Taboquinha, em Padre Bernardo. O Panela Candanga catalogou o cajuzinho, sem dúvida um dos maiores símbolos do Cerrado. Mas, através da extração manejada e do replantio, ela já tira dali uma produção significativa também de outras espécies como cagaita, pequi, jatobá e pimenta de macaco. “As safras são rápidas, então temos que processar boa parte da produção pra não haver desperdício e termos um bom resultado financeiro com a nossa área. Fazemos doces, geleias e licores, além de congelar alguma polpa. Temos tido muito apoio da Emater e do Slow Food Cerrado, que inclusive já nos levou para participar do Terra Madre, um encontro de pequenos produtores que acontece na Itália”. A “pedra” foi também o ponto de partida para os queijos do Cabra Chic, agronegócio de Armando Sobral Rollemberg, entrarem no mercado e conquistarem uma exigente clientela de amantes da boa mesa. Armandinho, como ficou conhecido ao longo de algumas décadas de militância de jornalismo em Brasília, hoje é um próspero pequeno produtor de queijo de cabra artesanal (ricota, boursin, frescal, meia cura, montanhês, sardo e demichèvre) produzidos com o leite rico em gordura de seu rebanho de Anglo Nubiana, uma raça rústica que se adaptou com facilidade às condições ambientais do Cerrado. Também está no catálogo.

fumaça branca e liberam ácidos cítricos, que dão um sabor característico único”, explica Léo Hamu. Com todos esses cuidados, a produção desses embutidos é limitada e hoje até disputada por donos de restaurantes que pensam e trabalham para além das receitas de lucro fácil ditadas pelo mercado. Como Gil Guimarães, que mantém Léo Hamu e mais algumas dezenas de pequenos produtores no seu catálogo de fornecedores preferenciais. “Sempre que posso uso produtos dos pequenos produtores, de preferência da nossa região. Desde os embutidos do Léo até os cogumelos e aspargos que estão sendo produzidos com muita qualidade aqui na Vargem Bonita. Eu substituo ingredientes de receitas italianas tradicionais – no lugar do pignole uso castanha de baru, por exemplo – e uso queijos da nossa região, como os do Cabra Chic... Enfim, acho que é nossa responsabilidade, dos empresários da área de gastronomia, entender, reconhecer e valorizar nossa cidade. Foi assim que se firmaram os maiores polos gastronômicos aos redor do mundo. Vamos botar Brasília na mesa”, exorta Gil Guimarães. Além do catálogo, o Mesa Candanga terá uma plataforma online, inicialmente com informações sobre os cinco produtos catalogados – como características, modo de cultivo ou produção, safra, onde encontrá-los e/ou comprá-los, contatos dos produtores e/ou agricultores – e, no futuro, com uma base de dados ampliada e enriquecida pelos usuários por meio de novas sugestões a serem pesquisadas. A plataforma estará disponível brevemente no site www.panelacandanga.com.br.

Gil Guimarães, Armando Rollemberg e Mara Alcamim na fazenda onde são produzidos os queijos Cabra Chic.

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Aventura “queijotesca” POR VICTOR CRUZEIRO FOTOS RODRIGO RIBEIRO

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uantos tipos de queijo você consegue citar de cabeça? Pois é bem possível que, mesmo que você vá além dos mais famosos, como gouda, brie, cheddar, entre outros, essa seja apenas a ponta do iceberg do mundo de texturas e sabores que o Teta Cheese Bar apresenta aos brasilienses. Inaugurado há pouco na 103 Sul, o Teta divertiu e surpreendeu desde antes de abrir as portas. Para dar corpo à ideia de primeira casa exclusivamente dedicada a queijos artesanais na cidade, os três sócios – Mariana Cavechia, André Vasquez e Pablo Júlio – iniciaram um crowdfunding, um financiamento coletivo, também chamado de “vaquinha”. A Vaquinha da Teta, então, seguindo o modelo das plataformas de financiamento coletivo, oferecia recompensas de acordo com a doação. Com nomes como Farra da Teta (dando direito a convite para um soft open de inau-

guração, além de alguns brindes personalizados) e SuperTeta (que dá 10% de desconto durante todo o ano de 2018), os sócios já anunciavam o tom despojado que moldaria – e ainda molda – a nova casa. O Teta ainda está entrando no ritmo,

como todo boa casa que se aventura nesse mar revolto de inaugurações e propostas mirabolantes. Com uma boa ideia, nutrida por anos de paixão – Marina apaixonou-se por cervejas e por queijos, para então ir aos poucos conquistando André


Mariana Cavechia e André Vasquez comemoram o bom movimento do Teta Cheese Bar nas primeiras semanas de funcionamento.

e Pablo – a proposta do trio é servir queijos artesanais de diversos tipos e regiões (algo único até o momento na cidade) ao mesmo tempo em que oferece o ambiente aconchegante de um bar. Assim, fogese da frieza do empório, ao mesmo tempo em que se escapa do mais-do-mesmo. O cardápio do bar, como esperado, orbita em torno do queijo. Conduzindo a carta, e incentivando o público a entrar em contato com a seleção de derivados da casa, estão as tábuas de queijo. Uma gama de porções – que variam entre 50 e 60 gramas – pode ser escolhida para montar uma tábua que une “a tradição e a inovação queijeira”, como especifica o cardápio.

A curadoria vai de quejos de cabra do interior de São Paulo, como o Lua do Bosque, variedade suave de Joanópolis (R$ 33 a porção), passando por queijos de ovelha feitos aqui mesmo no DF, como o Azulão, bastante intenso (R$ 22 a porção), sem deixar de lado os já esperados queijos mineiros, entre eles o extra curado Canastra, de São Roque de Minas (R$ 14 a porção). A curadoria dos queijos exibe o diferencial de evidenciar a produção artesanal, apresentando ao paladar do brasiliense as sutilezas e nuances já presentes no mercado de cervejas, por exemplo. No que diz respeito às geladas, inclusive, a casa oferece quatro torneiras com rótulos

em constante mudança, para surpreender e oferecer novas possibilidades de harmonização com as tábuas. Além disso, o Teta disponibiliza rótulos para levar, para que as combinações e experiências queijo-cervejeiras possam também ser feitas em casa. Com um cardápio que conta com entradas frias, quentes, sanduíches e sobremesas (sempre trazendo o queijo a tiracolo), o Teta merece uma visita, um voto de confiança, que harmoniza bem com as histórias e sabores únicos nas prateleiras da casa. Teta Cheese Bar

103 Sul, Bloco B (99223.8429). 3ª e 4ª feira, das 11 às 20h30; 5ª a sábado, das 11 às 24h.

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PICADINHO

Espaguete ao vôngole

do, como tilápia ou escalopinho, por exemplo. Antes de fechar a conta, vale passar no balcão e levar um dos 30 tipos de pães pra casa. Fica na subida da QI 23 (SMDB, Conjunto 12).

Crianças na cozinha Helio Montferre

Divulgação

Típico da Itália, principalmente de Nápoles, Sicília e Ligúria, o espaguete ao vôngole — um molusco marinho — é o destaque da temporada no Siamo Noi, da 405 Sul. Está disponível no almoço e no jantar até o fim de junho e custa R$ 49. “Nós acrescentamos no cardápio para este tempo mais frio e ele pode ser servido na panhoca ou no prato”, diz o chef Milton Carbonara, 43 anos. Nascido em El Salvador, ele já flertava com a culinária italiana desde pequeno, quando gostava de produzir um espaguete à carbonara, daí o apelido. Formado em hotelaria e publicidade, mudou-se para Roma, aos 28 anos, e mergulhou na gastronomia local. Em Brasília, é um dos sócios do Siamo Noi ao lado da mulher, Roseleine Milano, e de Viviane Xavier. A casa tem capacidade para 150 pessoas, incluindo a padaria Pezzo di Pane. Funciona diariamente, das 10 às 23h. De domingo a terça, a cozinha fecha às 18h. “Muita gente pensa que um restaurante italiano só serve massas, mas nós trabalhamos com frutos do mar, carnes e risotos”, lembra o chef e empresário.

Para mães em trânsito

Almoço no Lago Divulgação

Ser mãe é... viajar no Dia das Mães. Mesmo assim, a refeição de domingo pode ser comemorada em grande estilo, degustando uma lagosta no Aeroporto Internacional de Brasília. Na praça de alimentação, localizada no segundo piso, o restaurante Vila Cinco, que funciona das 8 às 2h, oferece um cardápio especial no almoço e no jantar deste domingo, 13. O chef Melquisedeque Tavares criou um prato individual de lagosta e outro de filé. A Lagosta da Mamma leva cauda do crustáceo grelhada em redução de balsâmico e maracujá, acompanhada de risoto de abacaxi e hortelã. Custa R$ 74,90 (R$ 69,90 na unidade do Brasília Shopping). Já o Filé ao Porto Fino apresenta a carne grelhada no molho de cogumelo shiitake, servido com fettuccine ao alho (R$ 54,90 no aeroporto e R$ 49,90 no Brasília Shopping).

No sábado, 19 de maio, crianças de quatro a dez anos são convidadas a participar de mais uma edição da oficina Pequeno Chef, às 10h30, no restaurante Rubaiyat (SCES, Trecho 1). Com orientação de profissionais da casa, os pequenos vão aprender a preparar um cardápio saboroso em três etapas, começando pela tosta Caprese, entrada típica de Capri, na Itália, composta de pão, tomate, manjericão e muçarela. O prato principal será uma lasanha de carne e legumes, e a aula vai terminar com a prática dos coloridos macarons. As inscrições custam R$ 45 e podem ser feitas pelo telefone 3443.5000.

Comidas do Brasil

Morvan Rodrigues

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TERESA MELLO

picadinho.roteiro@gmail.com

Depois de abrir a Berlim Casa de Pães em fevereiro, a empresária Caroline Lara acrescentou, desde 2 de maio, o almoço executivo com pratos alemães e outros do cotidiano do brasileiro. “É uma demanda dos clientes, e não há nada parecido na região”, explica. Das 12 às 15h, de terça a sábado, a chef Alessandra Moura se encarrega do menu, que abre a semana com kassler (corte suíno defumado) ao molho de maçã e arroz cremoso, por R$ 34,50 (foto); e filé de frango ao molho de queijo fundido e arroz com brócolis, por R$ 28,50. Quarta é dia de Frikadellen (bolinho de carne suína e bovina); quinta, há Goulash (guizado de carne); sexta, Spatzli (massa parecida com o nhoque); e sábado, joelho de porco à pururuca. Sempre com um prato opcional mais conheci-

Em 9 e 10 de junho, no Pontão do Lago Sul, uma nova atração gastronômica chega a Brasília: o Festival Fartura — Comidas do Brasil. Com inspiração no evento de Tiradentes, em atividade há 21 anos, o empresário mineiro Rodrigo Ferraz decolou com a empreitada para além das montanhas. Em 2014, aportou em Belo Horizonte e depois voou alto para Fortaleza, São Paulo, Porto Alegre, Belém e Lisboa. A cada ano, uma cidade é incorporada ao circuito e o público pode aproveitar um pouco do Brasil, por meio de 60 destaques de culinária de todas as regiões, com pratos a um custo médio de R$ 25. Aulas e palestras com especialistas fazem parte da programação, que inclui atrações artísticas. Vai funcionar no sábado, dia 9, das 12 às 22h, e domingo, dia 10, das 12 às 20h. Ingressos a R$ 25. Mais informações: www.farturabrasil.com.br.


Gelato com cocada

Com estrutura que remete à arquitetura do sul do Brasil, o restaurante Serra Gaúcha (QS 3, Lote 12), no Pistão Sul, em Taguatinga, abre as portas às 11h30 no Dia das Mães. Até as 16h, a casa recebe os clientes para um farto rodízio de galetos (R$ 44,90 por pessoa) com direito a acompanhamentos: arroz branco, farofa de ovos, maionese de batata, salada verde, talharim ao sugo e polenta frita. O restaurante se preparou também para fazer entregas em casa — Taguatinga, Águas Claras, Vicente Pires, Areal e ADE do Núcleo Bandeirante. As embalagens acomodam três galetos e acompanhamentos e servem bem cinco

Paulo Borin

Galeto para as mães

pessoas. Custa R$ 99 sem taxa. Detalhe: a maionese é de fabricação própria. Pedidos pelo 3352.5353. Vai querer sobremesa? A sugestão é o petit-gâteau de doce de leite e canela com sorvete de creme.

Domingo no Eixão No dia 20, a 10ª edição do Chefs nos Eixos promete atrair uma multidão na altura da 108/208 Sul. Para se ter uma ideia, pelo último evento, em setembro, passaram 18 mil pessoas. Das 10 às 17h, o Eixão receberá um vaivém feliz em torno de quiosques que oferecem um resumo da gastronomia de cerca de 30 chefs. Alguns dos novos participantes são Júlia Almeida, do Caminito, que vai preparar, por exemplo, um arroz com costela bovina defumada e purê de abóbora (R$ 16,90), enquanto Cynara Arnt, do Vegan-se, apresenta um bobó de shimeji (R$ 25). A sustentabilidade e a cidadania estão presentes por meio de embalagens recicláveis, acessibilidade e cardápio em braile. “Além de comida boa, vamos levar também pro Eixão essa consciência ambiental, social e econômica”, diz a produtora executiva, Cris Mardine. O mercadinho terá 15 estandes com produtos como geleias, cafés e queijos. Estão confirmados também os espaços kids e pets, além de oficina de compostagem e palestras sobre saúde e bem-estar. Com objetivo de evitar filas, caixas móveis estarão à disposição para cuidar do cartão de recarga, que pode ser adquirido na hora e creditado no valor definido pelo cliente.

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Danilo Vieira

O casal de empresários Bruno e Laíse Borges, que em 2016 abriu a primeira Stonia Ice Creamland, prepara-se para a expansão da rede de gelaterias, presente na Asa Sul (405), na Asa Norte (109), em Águas Claras (Shopping Metrópole) e no Sudoeste (100). Segundo a assessoria da casa, serão inauguradas duas unidades no próximo semestre: uma delas no Pontão do Lago Sul e a outra em um shopping de Goiânia. A novidade do gelato preparado na pedra, em frente ao cliente, mostrou que o projeto da dupla — Bruno é de Patos de Minas e Laíse de Brasília —, inspirado em viagens ao exterior, deu certo. Enquanto isso, a atração é a cocada de forno em duas criações: Maremoto e Terremoto. Na primeira, a cocada tem a companhia de calda de coco e gelato de baunilha (R$ 31) ou Ninho (R$ 33) e ainda Nutella e bombons Ferrero Rocher e Rafaello. A taça Terremoto tem recheio de cocada, morangos e sorvete de baunilha (R$ 41) ou Ninho (R$ 43), borda de creme de Ovomaltine e fios de Nutella, bombons e uma barra de chocolate Suflair. “É um tamanho ideal para compartilhar entre amigos e família num momento único”, sugere Laíse.

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Padoca do Piucco A Asa Sul ganha uma padaria com pratos quentes e sanduíches para aquecer esse nicho gastronômico. No início deste mês foi inaugurada a Padoca 410 (410 Sul, Bloco C). “Comecei em gastronomia aos 18 anos, na padaria da minha família em Porto Alegre”, lembra o chef Marcelo Piucco, 44 anos (foto). A ideia era criar um local diferente. Por isso, a casa oferece pães de fermentação natural, almoço e sanduíches no fim da tarde. Os destaques da refeição são as carnes especiais, como a picanha Angus, por R$ 39, e o bife Ancho, por R$ 25, todos com acompanhamentos. “O preço é mais em conta, considerando a qualidade”, observa o chef. A partir das 16h é possível experimentar um sanduíche, como o de pastrami (R$ 28): “É uma novidade, eu deixo a carne curada por 21 dias”, revela. Acomodada em pão de centeio com queijo e picles, custa R$ 28. O cheese steak vem com bife Ancho na bisnaga italiana. “Até o fim do mês vamos ter um brunch aos domingos, das 10 às 15h, com os produtos da padaria, pratos assados, panquecas no estilo americano, tapioca, omelete, escondidinho de bacalhau”, anuncia Piucco, com a experiência de quem já trabalhou em hotelaria, restaurantes e food truck e que ainda assina o cardápio de eventos no Palácio Itamaraty. A Padoca 410 abre diariamente, das 10 às 22h. “Por enquanto”, avisa o chef.

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GARFADAS&GOLES

LUIZ RECENA

Sobre mães e senhoras nossas

lrecena@hotmail.com

“Eu vi minha mãe rezando/ Aos pés da Virgem Maria/ Era uma santa escutando/ O que a outra santa dizia”. OS VERSOS OU QUADRINHAS eram comuns na escola pública da infância gaúcha. Tínhamos e aprendíamos para todas as datas. Os menos dotados para o teatrinho, as mais tímidas, preferiam os coros ou os jograis. A consciência do coletivo em tenra idade. Os mais saidinhos, salientes, faziam os cantares “solos”. Desnecessário dizer que o colunista estava no... último grupo! Do cálice bento nasceu Maria e dela o Salvador. Milton Bituca cantou essa história para Jorjão dos Bares e todos curtimos até hoje. As histórias e as saudades, de todos. NA EXTINTA UNIÃO SOVIÉTICA, o antropólogo Dimitri Diegovitch elaborou e provou a teoria da super proteção de avós e mães sobre o homus soviéticus, exemplar da raça humana dos mais mimados já vistos no planeta durante o século vinte. Não era para menos: só entre 1905 e 1945, a Rússia e a URSS enfrentaram lutas com a vizinhança, guerra civil e a Segunda Guerra Mundial. Só nessa morreram 26 milhões de russos, maioria homens. Varão que sobrou, portanto, ficou mais mimado do que gatinho de madame. Tudo podia. Diegovitch foi mais longe, ao comparar as mães russas com as bonecas famosas, matrioshkas. Ou seja, na Rússia sai sempre uma mãe de dentro da outra! Em sequência interminável... PENSOU? VOCÊ NÃO ESCAPA: para o lado que você for tem uma mãe, uma mainha. Nem no Pernambuco do Nordeste, onde as meninas já nascem mainhas, voinhas, etcetera e tal. As mães faziam os filhos e as avós cuidavam. As mães tinham de trabalhar, as avós nem tanto. Viúvas da Guerra Pátria ou de Stálin, tinham salário e tempo para deseducar os netos, sempre poucos, um ou dois, no máximo. Gênia, único, tinha mãe atriz premiada, vovó cuidou. Volódia era caçula de vários. Trabalhou no Partido,

a mãe protegeu até o partido acabar. FUI O ÚNICO ESTRANGEIRO no jantar depois de seu enterro. Convite dela, pois ajudei Volódia quando o partido sumiu. Um pequeno emprego e grande dignidade. Mãestrioshkas sabem tudo! E com avós e mães, lá e cá, sobrou espaço para comidinhas de panelas, forno e fogão. A AVÓ DE GÊNIA fazia maravilhosas pelmênias, prato típico bisavô do nosso ravióli. A mãe e a mulher de Gênia, Lena-mãe-de-Nikita, também fazia. Helena Kriksu, colega russo-brasileira, também sabia fazer. Claro que fazia pelmênia Galina minha amiga, casada com um jornalista soviético que ficou famoso em Brasília. Mais não seja porque me levou para Moscou e para o serviço em português da agência TASS. Pois sim: da última matrioshka sai o ouro de Moscou... kkkkk. Nunca vi o distinto, só rublos. Mas essa é outra história. Vida que segue. VOLTEMOS ÀS MÃES: a minha, a santa Conceição que falava com a Maria do início da crônica, cozinhava total! E os raviólis eram receita dos sogros italianos. Espanhola, cumpria todo o ritual: massa feita em casa, recheio de miolos de boi com acelga, molho de tomate mais caudaloso que a Foz do Iguaçu. Números modestos: 600 a 650 unidades, feitas no sábado, viradas no domingo. Ao final, “gran finale”, o nono, viúvo, declarava, após o quarto prato: “Está cada ano melhor, lembra o da finada, talvez um poquito mais/ou menos de sal no próximo”. Ria, bebia, dormia. No dia seguinte trazia flores. Canalha! E dos melhores e mais simpáticos. Quem sai aos seus não degenera: não disse nem escrevi isso; só pensei! Vazou? Foi a matrioshka russa! Feliz Dia da Mães para todas! E para mim igual!

AS DELÍCIAS DE MINAS PERTINHO DE VOCÊ 14

Queijos, doces, biscoitos, castanhas, pão de queijo, pimentas, farinhas, polvilho caipira, massa para tapioca, mel, manteiga, cachaças, linguiça, frango e ovos caipira.

Av. Castanheiras, Ed. Ônix Bl. A - Loja 2 - Águas Claras


PÃO&VINHO

ALEXANDRE FRANCO

Maravilhas da Toscana II Continuando meu relato sobre a feira Buy Wine 2018, a que estive presente em fevereiro último, a qual, vale observar, foi extremamente bem organizada e muito focada em negócios. Dos já mencionados 215 produtores pude contatar pouco mais de 30, tendo em vista que, a partir de uma pré-seleção, reuniões de 25 minutos com cada um foram agendadas para os dois dias da feira. Mas na noite do primeiro dia foi realizado um jantar no Palazzo Vecchio, no qual os convivas podiam degustar qualquer um dos mais de 1.500 rótulos participantes da feira. Entre reuniões e degustações fomos selecionando os vinhos de maior interesse e, depois dos quatro primeiros, já comentados na última edição, aproveito agora para trazer outros que deverão estar disponíveis no Brasil, na Winemania, já no segundo semestre deste ano. Falando-se em Toscana, vamos logo para o principal interesse: Brunellos… Entre tantos que por lá são produzidos, a grande missão era descobrir um que, além de grande qualidade, tivesse um preço atraente, e a missão foi devidamente cumprida. O Brunello de Montalcino 2011 da Ricci, além de apresentar bom preço, é excelente. De coloração profunda e densa como poucos, traz um nariz complexo, com notas de café, frutas vermelhas maduras e toque apimentado. No palato, apresenta corpo pleno, muito bem balanceado com ótimo frutado e leve apimentado. Taninos maduros e final longo. Grande vinho! Nada menos que 93 pontos da Wine Enthusiast. Deverá chegar ao Brasil abaixo dos R$ 400. O Rosso de Montalcino, do mesmo produtor, é outro ótimo vinho e uma grande opção em qualidade x preço. Aromático, com frutas vermelhas e especiarias, além de toque de alcaçuz. Na boca tem corpo médio a pleno, com taninos presentes e elegantes, com final longo e persistente.

pao&vinho@agenciaalo.com.br

E aquela pimentinha agradável também aparece. Deverá estar aqui abaixo dos R$ 200 e será uma grande opção. Ainda da Ricci, o seu IGT Ricciolo, com um ótimo toque de Syrah para complementar a Sangiovese, traz um nariz suave e agradável de frutas vermelhas e especiarias e uma boca deliciosa, com húmus e pimenta e final terroso. Muito bom, deverá chegar na casa dos R$ 100. Dos produtores de Chianti o escolhido foi o Castel di Pugna, de Siena. Tradição e qualidade é o que se encontra aqui. O seu Chianti Superiore é o Governo, aqui em sua safra 2015. Sem dúvida, o melhor Chianti que já provei, 90% Sangiovese e 10% Canaiolo, cuja mágica se dá pela vinificação de 10% das uvas utilizadas sendo passificadas. O nariz é infinito, com frutas vermelhas e negras passadas e a boca é deliciosa, redonda, com taninos perfeitos. Grande vinho, que custará aqui por volta dos R$ 150. E o top deles, um IGT chamado Castel Pugna da safra de 2007, é um 100% Sangiovese, vinificado a partir de suas melhores uvas. Traz aromas de frutas vermelhas e negras com toque de chocolate e o palato é muito elegante, Redondo, com taninos macios e doces. Deverá estar disponível ao preço de R$ 250. Por fim, um Bolgheri de alta estirpe, o Beccaia 2016. Com 40% de Cabernet Sauvignon, 30% de Merlot, 20% de Cabernet Franc e 10% de Petit Verdot, é um legítimo supertoscano, daqueles inesquecíveis. Nariz muito bom e complexo, típico de Bordeaux, terroso em palato e apresentando perfeito equilíbrio entre estrutura, álcool, taninos e acidez. Grande vinho, que chegará a um excelente preço, por volta dos R$ 200. Na próxima edição daremos os últimos traços dos grandes vinhos selecionados na Toscana e na Vinitaly, maior feira de vinhos do mundo, onde estive agora em abril.

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BRASILIENSEDECORAÇÃO

Olhos iluminados POR VICENTE SÁ FOTOS LÚCIA LEÃO

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velho teatro da Escola Parque já abriu suas portas para muitos espetáculos, shows, filmes, ensaios e festivais. As primeiras gerações artísticas de Brasília passaram por sua sala para assistir, ensaiar ou para mostrar seu trabalho no palco. Mas o velho teatro tem outra e importante contribuição para a cultura da cidade: foi ali que a atriz Iara Pietricovsky teve a sua alma artística desperta. Foi ali, aos seis anos, ao assistir Sonhos de uma noite de verão, de William Shakespeare, que em determinado momento da peça os olhos de Iara se acenderam e ela percebeu que aquele seria seu mundo, pois era assim que queria viver: em cena. Iara ainda não sabia, mas estava vivendo um apaixonamento. Aquela menina tinha também os olhos que viam e sentiam as dores dos ou-

tros, do mundo, e, ainda pequena, não se conformava com as injustiças, os desmandos, que eram muitos naqueles tempos duros da ditadura militar. E ela sentia que tinha que fazer algo, tinha que contribuir positivamente de alguma forma nessa sua vida que estava começando a vir com energia e desafios. E assim, por toda sua vida, Iara foi atriz de teatro e guerreira. Se a vida de Iara fosse uma peça, começaria em São Paulo, capital, de onde veio para Brasília, em 1960, por conta do novo emprego do pai, que era jornalista e assumiu uma direção de um jornal nesse período de mudança da capital. Sua mãe era a professora Golda Pietricovsky, que, junto com Sylvia Orthof, ajudou o teatro candango a dar seus primeiros passos. A peça continua e a menina cresce em meio a reuniões de pessoas ligadas à arte e à cultura, como o arquiteto Zanini, a música e pesquisadora Marlui Miranda e a turma do teatro. E foi percebendo a

arte como uma forma de resistência aos tempos desumanos daquela época que a pequena Iara começou a dar seus primeiros passos no mundo do teatro. Depois temos a Iara adolescente, estudando no CIEN e sendo levada por Lais Aderne para trabalhar no revolucionário colégio Pré-Universitário como professora de teatro e fotografia. É lá, atrás dos olhos da câmera com a qual ensina, que ela conhece os jovens Guilherme Reis e Néio Lúcio, que iriam, junto com ela, mexer com o teatro do Distrito Federal e do Brasil nos anos 1970. Em 1975, olhos de Brasília descobrem os olhos de Iara. Ela tem 21 anos e contracena com João Antônio em o Exercício, de Lewis John Carlino, sob a direção de Dimer Monteiro, em uma montagem que lotou diversas sessões do Teatro Galpão e foi motivo de rodas de conversas em bares e salas de aula. Quem assistiu a uma dessas apresentações foi a também


atriz Bidô Galvão, que depois contracenaria com ela em muitos trabalhos. “Fiquei encantada. Maravilhada. A Iara é uma excelente atriz e uma mulher que leva seu trabalho e sua vida com extrema dedicação”, opina Bidô. Com a chegada do uruguaio Hugo Rodas, o teatro brasiliense daria uma boa crescida e Iara, que trabalhou com ele no grupo Pitu, faria uma inesquecível “gata” na inovadora montagem de Os saltimbancos. Depois a atriz iria para São Paulo, onde, sob a direção de Antônio Abujamra, mostraria seu talento em peças como O jogo e A serpente. Por sua atuação nessa última seria indicada ao prêmio de melhor atriz da Associação de Críticos de Arte (APCA). De volta a Brasília, conseguiu desenvolver seu trabalho de cientista política e ativista em defesa dos direitos humanos e ecológicos, sem deixar de trabalhar com Hugo Rodas, em peças como Arlequim, o servidor de dois patrões e Rosanegra – Uma saga sertaneja, com as quais viajou pelo Brasil. Hoje, o trabalho de cientista social é mais forte do que o de atriz, mas Iara não se afastou totalmente das luzes. Recentemente fez o papel da atriz Dulcina de Moraes em um filme de Glória Teixeira e produziu, junto com Alexandre Ribondi, uma série para internet intitulada Direitos humanos em dois minutos, em que atua também como atriz. Por conta do seu ativismo internacional, Iara tem recusado muitos convites para novos trabalhos, mas se confessa cansada de dizer não. Então, quem sabe ainda reste uma esperança para aqueles que não a viram brilhar nos palcos ou para os que têm saudade da força dos seus olhos a iluminar a cena.

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17 DE MAIO A 10 DE JUNHO Brasília-DF

Abbraccio Restaurante

Baco Pizzaria

Bar Brahma

Bar Brasília

Belini Pães & Gastronomia

Bhumi - Cozinha orgânica e saudável

BSB Grill

Café Savana

Cantina da Massa

Carpe Diem 104 Sul

Croissanterie Café | Bistrô

Dudu Bar | Dudu Bar Lago

Dona Lenha

El Paso - Cocina Mexicana

Fred Restaurante

Due Bruschetteria e Trattoria Dom Francisco Restaurante ASBAC

Empório da Mata

Feitiço Mineiro

Fortunata

Godofredo

Gordeixo 306

Hum! Burguer

Ilê Praia Park


La Rubia Café

Liv Lounge

Loca Como Tu Madre

Marietta Café

Martinica Café

Natural Green´s Restaurante

Nosso Mar

Parrilla Burguer

Primeiro Cozinha de Bar

Restaurante do Rubinho

Restaurante Oliver

Siamo Noi Ristorante

Sushi San Experience

Restaurante Universal

Tasca da Vila

Tejo Restaurante

Ticiana Werner

Toujours

Valentina Pizzaria

Veloce

Fique ligado! A partir de 17 de maio você pode ganhar brindes especiais no Clube de Benefícios da Abrasel!

Apoio:

Organização:

Comunicação:

Acessse: www.guiaabraseldf.com.br


Telmo Ximenes

DIA&NOITE

novidadeparaospequenos Tem brinquedo novo de Darlan Rosa nos jardins do CCBB. São os “bancosmoisés” e o painel “para brincar com os olhos”. A inauguração será no sábado, 19, às 10h, com oficina para bebês e contação de história com o artista plástico autor das famosas esferas que são marca registrada de Brasília. Há dez anos, os jardins do CCBB viraram lugar de brincadeiras com a instalação do Projeto Casulo, um espaço de convivência interativo com as obras do escultor. “Percebi que as famílias com crianças menores, bebês e pequenos que precisam mais da atenção dos pais, mereciam obras direcionadas a elas. No banco-moisés, os adultos podem sentar com os pequenos e colocá-los na cesta interna para brincar ou descansar. Cabe até o bebê-conforto do carro, que pode ser encaixado no espaço interno da peça direto”, explica Darlan. Construídas em chapas de aço carbono, têm superfície furada para diminuir a área do metal, criar um sistema de ventilação e, consequentemente, amenizar a temperatura do metal exposto ao sol e a retenção da água da chuva. No painel lúdico com desenhos do artista mora a “lagartista”, uma lagarta que vive a vida a comer bordas de folhas para criar esculturas de todos os tipos. “Queremos que as crianças soltem a imaginação no painel e inventem suas próprias histórias sobre a lagarta artista”, conta Darlan. Bela novidade!

Tony Winston - Agência Brasília

retratosdavida

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A figura humana é a principal inspiração da artista plástica Fátima Moura, cujo trabalho ocupa a Pátio Galeria, até 2 de junho. Estão lá 16 telas em acrílico sobre tela, como se fossem fotografias estilizadas “uma mistura de formas concretas e orgânicas, priorizando o tema do vibrante ser feminino”, de acordo com o artista visual Júlio César Ramos. Ainda segundo ele, “as formas geométricas, mais do que cor e luz, dão sentido e direção à narrativa que fala do vibrante ser feminino; sem alarde, ela nos brinda agora com suas falantes matizes e pinceladas agradáveis”. A exposição Retratos da vida II fica no 1º piso do Pátio Brasil e pode ser visitada de segunda a sábado, das 10 às 22h, e domingos e feriados, das 14 às 20h, com entrada franca.

A última edição foi no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em junho de 2017, e movimentou um bocado a galera ligada em tecnologia da informação. De 30 de maio a 3 de junho a Campus Party volta a Brasília, agora no Estádio Mané Garrincha. A festa é considerada a maior experiência tecnológica do mundo, capaz de reunir milhares de “campuseiros” que acampam em barracas e trocam experiências com outros jovens “geeks”. É um verdadeiro festival de inovação, criatividade, ciência, empreendedorismo e universo digital. Em dez anos de existência, a Campus Party já tem mais de 540 mil cadastrados em todo mundo e produziu edições em El Salvador, Argentina, Panamá, Costa Rica, Colômbia, Equador, Espanha, Holanda, México, Alemanha e Reino Unido. A Campus Party de Brasília tem ingressos a partir de R$ 150, que podem ser comprados em http://brasil.campus-party.org/cpbrasilia/

amaldiçãodovice Não há país que suporte tamanha instabilidade. O Brasil republicano (1889-2017) teve 35 presidentes, mas só 19 completaram o mandato. A responsabilidade de concluí-los coube, com algumas exceções, aos vices. A história é quase omissa em relação ao desempenho dos vices e às agruras passadas por eles no exercício do poder. O cargo parece amaldiçoado: é o que sustenta o livro Pinguela, do jornalista e historiador Aylê-Salassié F. Quintão, que se inspirou no estigma criado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para caracterizar o governo do vice Michel Temer: “Será uma pinguela”. O trabalho procura mostrar como o cargo de vice-presidente sempre foi problemático. Ao mesmo tempo em que contemporiza crises na substituição do presidente afastado (por diversos motivos), o vice é sempre um incômodo para o titular desde o início, sobretudo quando de outro partido. Com  385 páginas, capa do artista plástico Newton Sheufler e prefácio do jornalista Hélio Doyle, o livro será lançado dia 24, na Associação Nacional dos Escritores (707/907 Sul), e dia 29, no Carpe Diem (104 Sul). Depois, estará à venda na Livraria da UnB, e na Livraria do Chiquinho, também no campus.

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festivalvarilux Divulgação

61 cidades brasileiras participam simultaneamente do Festival Varilux de Cinema Francês, que este ano acontece entre 7 e 20 de junho. Na programação está a cópia restaurada do clássico Z (foto), de Costa Gavras, filmado há 50 anos e considerado um marco do cinema político mundial. O filme-denúncia foi inspirado no livro de Vassili Vassilikos sobre o caso Lambrakis, deputado pacifista grego assassinado em 1963, vítima de um suposto atropelamento. A investigação foi encoberta por uma rede de corrupção e ilegalidade. Selecionado no Festival de Cannes em 1969, Z recebeu o prêmio do júri e o de melhor ator para Jean-Louis Trintignant, além de ter sido indicado à Palma de Ouro. Em 1970, recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro, além de indicações de melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro adaptado. Além de Trintignant, estão no elenco Yves Montand e Irene Papas. Logo nos créditos iniciais o diretor diz a que veio: “Qualquer semelhança com eventos e pessoas da vida real não é coincidência – é intencional”. A programação completa do festival está em www.variluxcinefrances.com.

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oolhardamulhernegra Luiza tem 12 anos e fala com orgulho de seu cabelo crespo e de sua ancestralidade. Ela e as demais entrevistadas do filme Das raízes às pontas (foto), de Flora Egécia, convidam o espectador a questionar os padrões de beleza impostos cada vez mais cedo, além de tratar a afirmação do cabelo crespo como um dos elementos fundamentais da identidade negra. “Ao expandir as possibilidades de olhares que vão para além da lógica colonial, branca e patriarcal perpetuada na produção audiovisual brasileira, temos a oportunidade de ampliar imaginários e questionar estigmas fazendo diluir as verdades que outrora nos pareceram sólidas”, afirma Melina Bomfim, curadora da mostra Cine Curta Brasíl 2018, que a Caixa Cultural apresenta até 10 de julho, sempre às terças-feiras. São 30 curtasmetragens com narrativas construídas a partir do olhar de mulheres negras, seja na direção, no roteiro, na produção e como protagonistas das suas próprias histórias. Na abertura, dia 15, será exibido o curta de quatro minutos Marielle presente, de Yasmin Thayná, uma homenagem à vereadora Marielle Franco. Entrada franca. Programação em www.caixacultural.com.br.

A proposta é valorizar a produção cultural das regiões administrativas do Distrito Federal, representando a autonomia criativa das cidades que estão na periferia de Brasília e dos teatros de bolso, geralmente mantidos pela iniciativa privada. Vem aí o 1º Festival Nacional de Teatro de Bolso do DF, com oito espetáculos selecionados para apresentação entre 5 e 10 de junho no Espaço Cultural H2O, localizado no Recanto das Emas. Coordenado pelo ator e produtor Kacus Martins, tem apoio do FAC e produção de Albergue Lima. Uma equipe de curadores, composta pelos artistas Miquéias Paz, Paulo Russo e Eloísa de Fátima Cunha, vai avaliar as atuações e premiar, com R$ 2 mil, o melhor ator, a melhor atriz e o melhor diretor. Para o melhor espetáculo o prêmio será de R$ 3 mil. Espetáculos de Minas Gerais e São Paulo serão apresentados gratuitamente ao público do Recanto das Emas, promovendo um intercâmbio entre as diferentes linguagens teatrais. Entrada franca, mediante retirada de senhas distribuídas a partir de uma hora antes de cada sessão. Informações: 3206.9448.

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Bonnie & Clyde, Carmem Miranda, Tempos modernos, Miranda, Cine Regina, Almodóvar, The great Gatsby, James Bond, Bonequinha de luxo, La la land, Marilyn Monroe e Lobo de Wall Street. Títulos de filmes, temas, personagens, diretores, histórias e cenas antológicas do cinema foram inspiração para 12 arquitetos que participaram da mostra Decor + Cinema. Entre a emoção do romance, a alegria da comédia ou o suspense do terror, os espaços levam a assinatura de George e Julia Zardo, Maai Arquitetos Associados (Arnaldo, Isabel e Mônica), Juliana Leão, Cybele Barbosa, Studio Gontijo (Gabriela Gontijo, Plínio Barros e Mariana Hummel), Yeda Garcia, Dora e Giovanini Lettieri, Tatiana Estrela e Carla Ramos, Larissa Dias, André Alf, Miguel Gustavo e Sérgio Borges. Até o fim do ano, na loja Artefacto (QI 21 do Lago Sul). Das 10 às 19h. Informações: 2196.4250.

Gabriela Gontijo

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DIA&NOITE

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O título do espetáculo surgiu de um trocadilho bem-humorado feito a partir de stand-up com tom, ou melhor, Tom Cavalcante. Será nos dias 19 e 20 o show solo do humorista no Teatro da Unip (913 Sul). Com performances de seu programa no canal Multishow e do mais recente filme, Os parças, Tom não vai deixar de fazer suas famosas imitações de grandes nomes da música, além de trazer novos personagens nas duas apresentações. O ponto forte de Tom é captar a essência do comportamento humano e traduzi-la com absoluta riqueza de detalhes no gestual, no olhar e na reprodução da voz. Entre criações próprias e imitações, já deu vida a mais de 200 personagens. Seu sucesso começou na televisão em 1992, com a Escolinha do Professor Raimundo, Sai de baixo e Megatom, na Rede Globo, e Show do Tom, na Rede Record. Sábado, às 21h, e domingo, às 20h, com ingressos entre R$ 75 e R$ 300, à venda nas lojas Cia Toy, na Belini Pães e Gastronomia (113 Sul) e em www.naoperco.com.

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Cigarra, gafanhoto, barata, louva-a-deus, besouro, mariposa, borboleta, mosquito, cupim e formiga são personagens da fábula cujo texto traça paralelos entre a natureza e questões políticas e sociais da atualidade, evocando comportamentos coletivos e individuais que vão sendo revelados na voz desses personagens. Assim é Insetos, montagem da Cia. dos Atores que estreia dia 17 no CCBB e fica em cartaz até 10 de junho. Com texto inédito de Jô Bilac, adaptado pela companhia e pelo diretor Rodrigo Portella, a peça marca os 30 anos de atividade do grupo carioca. Em cena, uma situação de êxodo gera um desequilíbrio imenso na natureza. Há escassez, tirania e guerra. Os gafanhotos tentam destruir tudo, mas se veem diante de uma nova ordem imposta pelo louva-a-deus. Nesse universo, o olhar sobre o humano ganha uma nova perspectiva, atravessada pela realidade dos insetos. “O Jô usa os insetos na dramaturgia em analogia com personagens da nossa história, situações que estamos vivendo atualmente. Temos figuras do poder, estratos sociais, mas sem uma nomeação direta”, explica a atriz Susana Ribeiro. De quinta a domingo, às 20h. Sessões duplas aos sábados, às 18 e às 20h. Ingressos a R$ 20 e R$ 10.

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Lucas Casado

metamorfoseambulante Alguém pode explicar como funciona o cérebro de um adolescente? A trupe brasiliense Trabalhe Essa Ideia acha que sim. De uma maneira divertida e lúdica ela apresenta o espetáculo Não conta para os meus pais, em cartaz no Teatro Goldoni (208/209 Sul), nos dias 19, 20, 26 e 27. O texto original é da peça inglesa Brainstorm, criada junto com a neurocientista Sarah-Jayne Blakemore, do famoso Ted Talk (vídeo de 14 minutos) intitulado O misterioso funcionamento do cérebro adolescente. O espetáculo brasiliense é adaptado com histórias pessoais dos atores, que têm entre 11 e 17 anos, para dar um tom ainda mais real à discussão. Mudanças, dúvidas, oscilações de humor, descobertas estão em foco, mas também a visão dessa fase da vida sob uma perspectiva ainda pouco explorada: a neurociência aplicada ao cérebro do adolescente. “O córtex pré-frontal é um exemplo bastante citado no enredo”, conta a diretora do espetáculo, Renata Bittencourt. “Essa é a parte da frente do cérebro, que é a última a se desenvolver completamente. Ela está relacionada ao controle, planejamento e relacionada a ‘não fazer coisas estúpidas’, como o texto coloca”, destaca. Sábados, às 20h, e domingos, às 19h. Ingressos a R$ 40 e R$ 20, à venda na Trupe Trabalhe Essa Ideia (713 Norte, Bloco G) e nas escolas Happy Code de Águas Claras e da 415 Sul. Informações 99251.9780.

Os amigos Leo e Kayla descobrem um lugar onde muitas aventuras podem acontecer. Trata-se de A pequena loja fantástica de chapéus extraordinários do Sr. Onório, espetáculo que até o fim de maio estará no palco da Casa dos Quatro (708 Norte, atrás do restaurante Xique-Xique). A primeira montagem autoral da Cia. Mundo Fantástico vai esclarecer muitas dúvidas da criançada, tais como: será que a curiosidade pode mesmo comer a língua do gato? Claro que a marca registrada da peça é a forte interação com as crianças da plateia e muita diversão! “É sempre bom ver como as crianças interagem e se divertem, e como os pais compram a ideia. Faz toda diferença vê-los imersos na magia que é o teatro”, conta a diretora Kayla Cristina, que interpreta a menina Kayla. “À medida em que o tempo passa, aumenta nosso desejo de fazer o melhor para as famílias que nos acompanham. Podemos garantir: vocês não podem perder”, brinca o também diretor, Leonardo Gomes, que dá vida ao menino Léo. Sábados e domingos, às 16h, com ingressos a R$40 e R$20. Mais informações: 99822.3344.


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GRAVES&AGUDOS

Grim Reaper Tiê

Gal Costa

Enxurrada de shows POR HEITOR MENEZES

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emporada altamente eclética é o mínimo que se pode dizer da enxurrada de shows musicais nos quatro cantos da cidade. O cardápio tem heavy metal, pop-rock, rock progressivo, MPB, axé, mais heavy metal, reggae e mais pop-rock, por assim dizer. E pensar que o materialismo dialético de Marx baixava o sarrafo na filosofia eclética, por esta misturar alhos com bugalhos e querer unir o impossível, a saber, o idealismo e o materialismo, forças antagônicas inconciliáveis. Toda filosofia inconsequente tem um caráter mais ou menos eclético, dizia o velho barbudo. Tchau, Marx, o lance aqui é outro: um panelão eclético onde é cozida a boa música, pouco importando os ingredientes, pois faz tempo que o entretenimento se diversificou e chiclete com banana nem é mais coisa estranha. Eis as dicas, finalmente. A rodada começa com Tiê, na praça central do Terraço Shopping, dia 17. É a homenagem musical do shopping ao Dia das Mães (detalhe: grátis) e a escolha merece palmas. Quem associa a cantora paulistana apenas a uma novela global (caso de Noite, canção do folhetim I Love Paraisópolis), é bom entrar em sintonia.

Tiê faz canção brasileira renovada, como prova Gaya, álbum de 2017 que a menina atualmente promove mundo afora. Antigamente, heavy metal era música de maus elementos. Hoje é o maior charme, o(a) coroa, os filhos e os netos curtindo a mesma balada ao som de rock pesado. Pois no Toinha Brasil Show, o ousado pub rock’n’roll recém-inaugurado no Setor de Oficinas Sul, quem comanda o peso é a Angra, maior banda de power metal (ou metal melódico) made in Brasil. Dia 18, o grupo comandado por Rafael Bittencourt apresenta as músicas da OMNI World Tour. Na segunda guitarra, aplausos para o elogiado brasiliense Marcelo Barbosa, que acaba de ingressar na banda (leia mais na página 26). Saudade da maravilhosa música do 14 Bis? Fique ligado, pois no mesmo dia 18 a banda aterrissa no Minas Hall (Setor de Clubes Norte) com as músicas do DVD 14 Bis Acústico II. O mesmo Minas Hall que, no dia seguinte, muda o dial para sintonizar o batidão do baile funk. É o Zumbeat, com a sensação Jojo Todynho e o MC Fioti comandando a galera com quadradinho de oito e outras coisas que só acontecem nesses bailes. Ainda no dia 19 dá a partida o Funn Festival, que até 24 de junho promete transformar o Estacionamento 4 do Par-

que da Cidade em espaço de celebração, com muita música, gastronomia, moda, feira de produtos orgânicos, pets e atividades ao ar livre. No cardápio musical, o primeiro fim de semana (19 e 20) promete como principais atrações a dupla Bruno & Marrone, Zeh Pretim, Marcelo D2 e Mart’nália. No segundo fim de semana (26 e 27) tem, entre outros, Ludmilla, Buchecha, Rick & Rangel e Gusttavo Lima. De 30 de maio a 3 de junho a esbórnia musical continua com Sambô, AnaVitória, Make U Sweat & Friends e um negócio chamado Puta Farra. Dias 9 e 10 de junho, Thiago Martins, Jeito Moleque, Zedoroque, Gabriel Correa e uma atração-surpresa. E as demais atrações? Aguarde a Roteiro do mês que vem. Dia 25 de maio, voltamos as atenções ao Toinha Brasil Show, pois quem surge em cena é Paulo Ricardo, que passa por aqui com a turnê Sex on the beach. O figura manda músicas da carreira solo, do RPM, e emenda com homenagens a Cazuza, Renato Russo e John Lennon. Nesse mesmo dia 25 o rock progressivo é a trilha da viagem no Teatro do Bancários. Quem passa por lá é a banda iFloyd, que toca na íntegra as músicas do sensacional DVD P.U.L.S.E., de uma certa banda chamada Pink Floyd. Você não leu errado. Tem alguém ousando tocar


Alex Deitos Divulgação

Rodrigo Teaser

14 Bis Divulgação

Dia 1° de junho a maratona prossegue, desta vez com o pop-rock de Rodrigo Santos no Toinha Brasil Show. Ex-baixista e vocalista do Barão Vermelho, onde esteve de 1992 a 2017, Rodrigo desenvolve carreira solo desde 2007, quando o Barão entrou em mais um período sabático. Ele já teve música em novela, parcerias musicais com Zélia Duncan, Lobão, Leoni e Roberto Frejat. Detalhe curioso: dia 21 de junho, Santos volta a Brasília com o projeto Call The Police, no qual toca o repertório da famosa banda britânica. O baterista João Barone (Paralamas) e o guitarrista original do Police, Andy Summers, completam o time. Detalhes na próxima Roteiro. Do rock ao reggae, quem vai de um extremo ao outro é o pessoal do Natiruts, que orgulhosamente apresenta em primeira mão, em Brasília, o material do CD Indigo cristal. Dia 2 de junho, na Praça das Fontes, a banda comemora mais de 20 anos de estrada com um som que marcou muita gente na capital. Pessoal, foi em 1997 que Liberdade pra dentro da cabeça, Deixa o menino jogar e Presente de um beijaflor viraram trilha sonora da juventude brasiliense. Faz 19 anos que a banda deixou de se chamar Nativus e virou Natiruts. O tempo passa, o tempo voa. Ah, sim. Quem canta na abertura é a rapper Flora Matos, cria mais famosa do figuraça Renato “Um telefone é muito pouco” Matos. Meu nome é Gal. Basta uma frase como essa para que a gente abra alas para Maria da Graça Costa Penna Burgos, Gal Costa, caso você prefira. A musa da Tropicália é a atração do dia 8 de junho no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Desta vez, o show Espelho d’água reúne no palco apenas a baiana e o guitarrista Guilherme Monteiro comandando a parte instrumental. Vapor barato, Vaca profana e Baby estão no repertório. E o Michael Jackson, que não sai da cabeça de muitos? O fenômeno da música, o rei do pop, é objeto de tributo prestado por Rodrigo Teaser, que volta a Brasília com o show Tributo ao rei do pop, dia 10 de junho, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Muitos tentam imitar Michael, mas poucos de fato conseguem chegar perto da genialidade do cantor, compositor e dançarino americano. Para quem estava com saudade do moonwalk, os passos, as paradinhas e aquela ajeitada no terelteltel, este é o momento. Recordar é viver.

Grim Reaper Divulgação

Pink Floyd com aquele esmero peculiar do som da grande banda britânica. É ver e ouvir para crer. Durvalino, meu rei! Pode chamar assim que o cara gosta. Durval Lelys, ainda sem o Asa de Águia, volta a Brasília dia 26. Junto com Saulo Fernandes, comanda o som de fim de tarde na Praça das Fontes. Justamente por isso, o show A praça pretende remeter ao clima de pracinha com música no coreto, pipoqueiro, tio do balão, tio dos churros, tio do cachorro quente, tio das balinhas, balanço, parquinho e tal. Zeca Pagodinho e Maria Bethânia juntos. Não casados, claro, cada um tem a sua vida. Mas os dois grandes da MPB, pela primeira vez neste país, juntam forças, suas melhores canções, e saem em turnê justamente chamada De Santo Amaro a Xerém. Depois de Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo, é a vez de Brasília receber os cantores, dia 30, no palco do Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Volta e meia aparece por aqui um grande metalúrgico. Estamos falando do britânico Steve Grimmet, um figuraça do heavy metal, principal nome por trás da banda Grim Reaper (a boa e velha Dona Morte, como preferem os mais chegados), atração do dia 30 no Toinha Brasil Show. Amigos, a Grim Reaper é da safra de ouro do movimento New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM), que nos deu o Iron Maiden, para ficar no mais conhecido. Tempo passa e tempo voa e Steve Grimmett teve o infortúnio de ter uma das pernas amputadas, no ano passado, quando uma violenta infecção o acometeu durante turnê pelo Equador. Tempo passa e tempo voa, o cara está aí com uma prótese de metal. Com o perdão do trocadilho, agora o som da Grim Reaper ficou mais pesado. Yeah! Fechando o mês de maio, dia 31, feriado de Corpus Christi, vale conferir os premiados pernambucanos do Quinteto Violado, no teatro da Caixa. Na ativa desde 1970, em que pese os membros originais Toinho Alves (voz/baixo) e Luciano Pimentel (percussão) terem partido para outra, o Quinteto se mantém como um dos grandes defensores da cultura musical nordestina, sendo talvez o grupo que mais se dedicou à parte didática, realizando incontáveis turnês, oficinas, concertos-aulas e espetáculos temáticos. Um banho de cultura e boa música.

Durval Lelys

25 Bruno e Marrone


Danillo Facchini

GRAVES&AGUDOS

Talento

made in Brasília

Mal ingressou na banda Angra e Marcelo Barbosa segue em turnê mundo afora POR MÔNICA SIQUEIRA

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Henrique Grandi

músico brasiliense Marcelo Barbosa, um dos principais nomes da guitarra no Brasil, foi oficialmente apresentado como novo integrante da banda Angra ao participar do último disco, Omini, lançado em fevereiro. Gravado em Estocolmo, conta com a produção de Jens Bogren e ainda traz duas participações inusitadas: da cantora Sandy e de Alissa White-Gluz, da banda Arch Enemy, na música Black widow’s web, que está entre as dez primeiras no Spotify. Marcelo foge a estereótipos e faz parte de uma nova geração de roqueiros: é esportista, faz meditação antes de entrar no palco, cuida da alimentação, bebe vinho só eventualmente, é discreto e caseiro. Reconhecido como workaholic, tem uma escola de música em Brasília, a GTR, um curso on-line e, quando está na cidade, ainda encontra tempo para se apresentar com a banda Zero10. Tem um filho adolescente, que faz questão de acompanhar, e está finalizando um disco solo, adiado em função de sua agenda atribulada. Desse trabalho destacam-se duas composições disponíveis no youtube: Unlocked scream

e Dancing heart, ambas com quase 100 mil visualizações. O guitarrista se apresentou duas vezes no Rock in Rio. Em 2015 tocou com o Angra, dividindo o palco com o guitarrista Kiko Loureiro, que o escolheu para substituí-lo enquanto estava em turnê com a banda americana Megadeth. Dois anos antes, o brasiliense se apresentou no mesmo festival com o grupo Almah, com quem gravou três discos. “Assisti ao primeiro Rock in Rio em 1985, quando tinha dez anos, e foi quando me apaixonei de forma definitiva pela guitarra. Tocar lá foi o fechamento de um ciclo”, diz Marcelo. As duas bandas têm estilos bem diferentes. A Almah é heavy metal e o Angra é power metal. A primeira tem melodias mais acessíveis, com alguns elementos da música pop, apesar do som pesado. Já o Angra mistura metal, música clássica e ritmos étnicos brasileiros. O músico diz não ter tido dificuldades em sua integração na nova banda, que tem alto nível técnico. Quando decidiu investir na profissão de músico, ainda adolescente, Marcelo passou uma temporada na norte-americana Berklee College Of Music, uma das

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mais conceituadas faculdades de música do mundo, estudando jazz e harmonia. Aprofundou conhecimentos também no rock progressivo de Pink Floyd, Hursh, Led Zepellin e em bandas clássicas como os Beatles. Apesar disso, sua inspiração inicial foi Legião Urbana e Paralamas do Sucesso, como todo bom roqueiro brasiliense. Suas atuais referências no Brasil são Frank Solari, guitarrista e arranjador, Kiko Loureiro, seu antecessor no Angra, e Edu Ardanuy, da banda Dr. Sin. Em 1994, quando voltou dos Estados Unidos, retomou os trabalhos com a banda Khallice, com quem gravou dois discos. O Khallice era uma parceria com Alírio Neto, hoje vocalista do Queen Extravaganza, a banda cover oficial do Queen. Neto foi o protagonista do musical We will rock you, em São Paulo, e logo depois foi convidado por Roger Taylor e Brian May, companheiros de Freddie Mercury na formação clássica da banda. Ambos têm planos de se reunir novamente; “nem que seja para assistir ao show um do outro”, diz Marcelo sobre o amigo. O novo guitarrista do Angra encara agora o desafio de partir em turnê de quase cem shows na Europa, Estados Unidos, Japão, Canadá e América do Sul. Mesmo com a difícil tarefa de conciliar a agenda sempre cheia, o guitarrista não deixa de vir a Brasília, cidade onde tem suas memórias afetivas. No dia 18 ele se apresenta pela primeira vez na cidade como integrante do Angra (leia mais na página 24).


Layza Vasconcelos

Viola em estado de

poesia

Primeiro disco autoral de Pedro Vaz é convite à contemplação POR GUSTAVO T. FALLEIROS

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izem que quem viaja devagar aproveita melhor a paisagem. Sem apertar o passo, Pedro Vaz esperou bastante, mais de dez anos, para colher Dê espaço ao tempo, sua estreia autoral. Nascido em São Paulo, o músico fixou raízes em Goiânia, mas foi em Brasília que amadureceu os estudos de viola caipira com os mestres Roberto Corrêa e Marcos Mesquita. Hoje, ensina o instrumento na Escola de Música de Brasília. Até então, o talento de Pedro podia ser conferido em trabalhos coletivos, como nas bandas Cega Machado, Caboclo Roxo e Judas, nas quais exercita uma pegada vigorosa e roqueira. Ao lado do baixista Jefferson Amorim, rodou palcos variados com um show instrumental. A faceta de arranjador, por sua vez, estava à mostra na Orquestra Roda de Viola, onde é responsável pela direção musical. O repertório diferenciado que agora exibe foi idealizado aos poucos, nos intervalos entre um projeto e outro. “Desde a época do Cega Machado havia músicas que não entravam no grupo porque eram mais introspectivas. Desta vez, eu quis buscar o contemplativo e reuni as composições que favoreciam esse es-

pírito”, resume o músico. O material foi gravado em São Paulo pelas mãos de outro violeiro notável, Ricardo Vignini, que teve a sensibilidade de chamar os músicos Pedro Macedo (contrabaixo), André Rass (percussão) e Thomas Rohrer (rabeca e sax) para completar os arranjos. Pode-se dizer que o resultado é camerístico – e faria a felicidade de Ariano Suassuna pelo cruzamento espontâneo entre o popular e o sofisticado. Tem ponteado caipira em Estância, tem herança ibérica em Deghiana (homenagem ao cantor, compositor e violeiro paulista Fernando Deghi), tem sotaque nordestino em Vida seca Severina, tem guarânia em Águas de Mariana, e por aí vai. Seria Dê espaço ao tempo um fruto temporão do Movimento Armorial? “De onde vêm as músicas, como surgem, não sei dizer ao certo. Vou buscando o som, não racionalizo. Vou lapidando com conhecimento musical, mas a maior parte é achado intuitivo, na base da tentativa mesmo”, conta o violeiro, que se preocupou com o aspecto conceitual da obra. “É preciso deixar o tempo consertar as coisas. Todo mundo anda tão ansioso, projetando pra frente... O que eu procuro na música é atemporal”, aponta. Pedro cita ainda cinco discos que fize-

ram sua cabeça, todos eles de viola instrumental: Uróboro, de Roberto Corrêa; Navegares, de Fernando Deghi; Trilha dos coroados, de Levi Ramiro; Paisagens, de Ivan Vilela, e o primeiro instrumental de Almir Sater, de 1985. Cada qual ecoa ao seu modo em Dê espaço ao tempo e encontrar essas reminiscências é um prazer para os ouvintes mais meticulosos. O esmero é percebido, inclusive, na apresentação visual do CD. A capa e o encarte são uma adaptação do designer Danilo Itty para uma obra do artista plástico goiano e professor da UnB Elyeser Szturm. Um tema recorrente de Szturm é a ação do tempo sobre os materiais. Ferrugem e borra de café fornecem pigmentos para suas criações e, no caso, enfatizam o aspecto poético da estreia de Pedro Vaz. Por enquanto, Dê espaço ao tempo teve dois shows de divulgação: um no Clube do Choro de Brasília e outro no Centro Cultural UFG, em Goiânia. É ficar atento para não perder a oportunidade de ver esse repertório ao vivo. O disco também está disponível nas principais plataformas de streaming. Dê espaço ao tempo

CD de estreia de Pedro Vaz. Independente, 12 faixas, R$ 20. À venda em www.deespacoaotempo.wix.com/pedrovaz.

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GALERIADEARTE

A arte popular de J. Borges O xilogravurista que tornou a arte popular nordestina reconhecida internacionalmente POR ALEXANDRE MARINO

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literatura de cordel, uma das mais autênticas formas de arte popular do Brasil, se enraizou nos Estados do Nordeste a partir das últimas décadas do Século 19. Recebeu esse nome porque os livretos, ou folhetos, são expostos em varais nas feiras, onde seus autores, também cantadores, versejam ou declamam, geralmente sob acompanhamento do violão ou viola. Impressos de forma rudimentar, guardam até hoje as mesmas características originais, que são as narrativas em estrofes de dez, oito ou seis versos, e as ilustrações com xilogravuras. E não se pode falar em xilogravura no Brasil sem falar em J. Borges, um dos mais expressivos artistas populares do país. A exposição J. Borges 80 anos trará ao público de Brasília, a partir de 30 de maio, na Caixa Cultural, uma coletânea de gravuras e matrizes, narrando a trajetória de vida do artista. Mas J. Borges não é só um gravurista – é também poeta e cordelista, autor de mais de 400 livretos, com os mais diversos temas, sempre fiéis ao universo cultural das classes populares nordestinas.

O cotidiano da vida simples do campo, o cangaço, o amor, folguedos populares, religiosidade, mistérios e milagres, criminalidade, vistos sempre com o olhar do homem sertanejo que ele nunca deixou de ser. Com exceção do primeiro livreto que publicou, em 1964, O encontro de dois vaqueiros no Sertão de Petrolina, ilustrado por Mestre Dila, J. Borges fez as gravuras de todos os demais, sem contar as xilogravuras de grandes dimensões, o que levou ao seu reconhecimento, nacional e internacional. J. Borges é natural de Bezerros, no agreste pernambucano, onde nasceu em 1935, de pais agricultores. Trabalhou no campo desde os dez anos. Foi cortador de cana, marceneiro, entre outras profissões, e os folhetos de cordel foram seus livros escolares. Criado no campo, era no cordel adquirido

pelo pai nas feiras que ele lia e se informava. “Sua importância é ainda maior pelo fato de ser autodidata”, define Marcelle Farias, curadora da exposição, ao lado de José Carlos Viana. “Ele é um dos maiores gravadores do Brasil. Ariano Suassuna o definia como o maior de todos. É um grande tradutor da linguagem do povo, seu trabalho é a síntese do cotidiano do homem do Nordeste.” Marcelle conta que, em 2016, com 80 anos recém-completados, ela lhe propôs a realização da exposição. “Já tenho


Fotos: Afonso Oliveira

tudo na cabeça”, respondeu J. Borges. Em pouco tempo ele separou as obras que considerava mais importantes e ainda criou dez novas xilogravuras especificamente para compor a mostra. Os temas retratam a trajetória de vida do artista. J. Borges, ou José Francisco Borges, é Patrimônio Vivo de Pernambuco, título concedido pelo governo do Estado aos mestres da cultura popular pernambucana, reconhecidos como patrimônio imaterial. Desde 1964, com a venda, em cinco meses, de cinco mil exemplares do primeiro folheto que publicou, ele assumiu o ofício de cordelista e, em seguida, o de gravurista, trabalho que foi obrigado a fazer por não ter tido dinheiro para pagar o ilustrador do segundo folheto, O verdadeiro aviso de Frei Damião sobre os castigos que vêm. Foi quando entalhou na madeira a fachada da Igreja de Bezerros e, a partir daí, passou a gravar não só as ilustrações para seus folhetos, mas também por encomenda de outros autores. Nos anos 1970, passou a gravar matrizes de grandes dimensões, dissociadas dos cordéis, e foi descoberto por mar-

chands e colecionadores. Sua obra viajou para exposições em países como França, Espanha, Estados Unidos, Suíça e Alemanha. Apesar da fama, J. Borges continua trabalhando em sua terra, da mesma forma que sempre trabalhou – desenhando direto na madeira de imburana, sem produção de esboços ou rascunhos. Ensinou o ofício a J. Miguel e Manassés Bor-

ges, seus filhos, que participam do trabalho que desenvolve em seu ateliê. A mostra na Caixa Cultural também terá obras assinadas por eles, além de uma cinebiografia sobre sua vida e obra, dirigida pelo jornalista Eduardo Homem. J. Borges 80 anos

De 30/5 a 22/7 na Galeria Principal da Caixa Cultural. De 3ª a domingo, das 9 às 21h.

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Caio Gallucci

QUEESPETÁCULO

Sessão nostalgia POR VILANY KEHRLE

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empos de grande efervescência cultural e agitação política, no Brasil e no mundo, os anos 1960 são evocados em 60! Década de arromba, superprodução musical de mais de três horas de duração capitaneada por Wanderléa, ícone da Jovem Guarda, um dos movimentos mais marcantes dos chamados “anos rebeldes” no país. Com um elenco de 24 atores, cantores e bailarinos, 20 cenários, 300 figurinos e uma orquestra de dez integrantes, o espetáculo chega a Brasília para uma temporada de três dias no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, utilizando ferramentas de documentário (com fotos, vídeos e depoimentos reais), teatro e música. Resultado de pesquisa feita pelo diretor Frederico Reder e pelo roteirista Marcos Nauer, 60! Década de arromba narra fatos vividos pela juventude da época, num viés político, social, comportamental e musical, apresentando mais de cem famosas canções, nacionais e internacionais. Nauer diz que tudo que está em ce-

na foi baseado em fatos reais e no documental, as músicas são cantadas na cronologia em que foram lançadas e fizeram sucesso e o espectador acompanha, ano a ano, a narrativa do espetáculo, que tem início com a chegada do rádio ao Brasil, em 1922. A presença de Wanderléa é um dos pontos altos do musical. Carismática, esfuziante, sempre se reinventando, a cantora foi um dos grandes ídolos da Jovem Guarda, ao lado de Roberto e Erasmo Carlos. Nessa sua primeira experiência no teatro musicado ela interpreta a si mesma e encanta o público com antigos sucessos como Prova de fogo e Pare o casamento. O protesto de Geraldo Vandré, a Tropicália de Caetano e Gil, as baladas de Roberto e Erasmo Carlos, a Bossa Nova de Tom Jobim, o Banho de lua de Cely Campelo, a Travessia de Milton Nascimento, Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones, La Bamba, Yellow submarine, dos Beatles, e Non je ne regrette rien, de Edith Piaf, marcam presença no espetáculo, que tem ainda Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Elvis Presley,

Rolling Stones e Vinicius de Moraes. Os anos 1960 foram marcados por profundas transformações, conquistas e reivindicações, pelo fortalecimento dos movimentos pacifistas e em favor das minorias e por fatos históricos como a guerra do Vietnã, a construção do muro de Berlim, a revolução cultural chinesa e o movimento estudantil de 1968, num Brasil que vivia um clima de repressão, censura e violência, cujo cenário cultural sofreu profundas transformações com a inauguração de Brasília e o surgimento da Tropicália, da Jovem Guarda e do Cinema Novo. 60! Década de arromba teve quatro temporadas no Rio de Janeiro e São Paulo, atingindo cerca de 250 apresentações e 140 mil espectadores. Agora, parte para sua primeira turnê nacional. 60! Década de arromba

18, 19 e 20/5 no Salão Master do Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Sexta e sábado, às 20h30; domingo, às 19h. Classificação indicativa: 14 anos. Ingressos (meia): de R$ 25 (balcão) a R$ 110 (área vip central). À venda na central de ingressos do Brasília shopping e em www.tudus.com.br.


LUZCÂMERAAÇÃO Fotos: Divulgação

Diário da minha cabeça

Be’jam be – Esse canto nunca terá fim

Suíça na tela Mostra reúne produções de destaque da recente cinematografia do país europeu POR PEDRO BRANDT

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ntre 22 de maio e 10 de junho o CCBB Brasília recebe o 7º Panorama do Cinema Suíço Contemporâneo. A programação conta com 14 longas e oito curtas-metragens, documentários e ficções, produzidos entre 2017 e 2018, e falados em francês, italiano e alemão, idiomas oficiais do país europeu. Os filmes selecionados são produções de destaque em eventos cinematográficos internacionais e na Suíça – em especial, no festival Journées de Soleure, realizado há 53 anos na cidade de mesmo nome e dedicado exclusivamente ao cinema suíço. “O grande desafio foi selecionar uma amostra representativa da grande produção suíça, um país multicultural”, explica Célia Gambini, adida cultural do Consulado Geral da Suíça em São Paulo, que assina a curadoria da mostra com Talita Rebizzi, coordenadora de cinema do Sesc São Paulo. Célia observa que temas como deslocamento, diversidade e a busca do outro e de si mesmo podem ser percebidos em vários dos filmes. “O cinema suíço acompanha o cine-

ma contemporâneo internacional. As narrativas são fortemente pessoais. Em geral, parte-se do particular, do local, para as grandes questões da atualidade, situando o cinema contemporâneo no centro das reflexões e dos desafios da nossa sociedade, independente de sua nacionalidade. No entanto, o cinema suíço não é épico, não trata seus temas com ostentação, não é pretensioso, é preciso e não faz concessões”, ela reforça. “Uma particularidade suíça, mas que pode se aplicar às cinematografias contemporâneas, referese às fronteiras entre gêneros, cada vez mais fluídas, com filmes que são híbridos de documentário, ficção, animação etc”, acrescenta a adida cultural. A programação conta com muitos cineastas jovens, que vêm despontando em festivais internacionais e chamando a atenção para o cinema suíço, caso de Olmo Cerri, de Não tenho idade (para amar), Dominik Locher, de Golias, Fabian Kaiser e Luca Ribler, de Televisões, e Caroline Parietti e Cyprien Ponson, de Be’jam be – Esse canto nunca terá fim. Entre os destaques da programação está Diário da minha cabeça, da cineasta

Ursula Meier, diretora já premiada com o Urso de Prata (por Minha irmã, de 2012) e escolhida para presidir o júri da Câmera de Ouro do Festival de Cannes deste ano, representando a nova geração de cineastas. No filme, uma professora de literatura se vê num dilema existencial depois que um de seus alunos envia para ela um diário no qual confessa e justifica um duplo assassinato. Outro destaque é Be’jam be – Esse canto nunca terá fim, documentário dirigido por Caroline Parietti e Cyprien Ponson. Premiado em festivais internacionais, o filme mostra como o povo Penan, da ilha de Bornéu, enfrenta as mudanças causadas pela crescente ameaça de desmatamento. Um dos diretores presentes na programação – Karim Sayad, do documentário Sobre ovelhas e homens, vencedor do prêmio do júri do 53º Solothurner Filmtage – vírá a Brasília no dia 29 para participar de um debate com o público no CCBB. 7º Panorama do Cinema Suíço Contemporâneo

De 22/5 a 10/6 no cinema do CCBB (SCES, Trecho 2). Ingressos a R$ 10 e R$ 5, à venda no local. Programação completa em culturabancodobrasil.com.br/portal/ distrito-federal. Informações: 3108.7600.

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LUZCÂMERAAÇÃO

A delicadeza

de Kawase

Diretora japonesa volta ao cartaz no Brasil com Esplendor, em que reafirma seu estilo pessoal e sua vocação sentimental e francamente humanista. POR SÉRGIO MORICONI

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splendor é o tipo de filme que vai permitir aos antigos detratores de Naomi Kawase recarregar suas armas e disparar contra o excesso de sentimentalismo dos filmes dessa interessantíssima realizadora. Pura maldade. Sentimentalismo é uma palavra um tanto quanto deslocada para definir um cinema que se baseia na construção de uma realidade baseada nas coisas simples, banais e cotidianas da vida. Em Esplendor, a personagem Misako é uma especialista em autodescrições de filmes para cegos. Num determinado dia ela conhece Masaya, um fotógrafo que está perdendo completamente a visão. Não foram poucos os filmes que já retra-

taram o assunto e das mais diferentes maneiras. Uma lembrança óbvia é o filme Janela da alma, de João Jardim e Walter Carvalho. Outro longa-metragem normalmente esquecido, mas excelente, é A prova, de Joselyn Moorhouse, onde a ideia de que os cegos veem mais do que aqueles que têm visão é inteiramente subvertida. Em Janela da alma, dezenas de pessoas com diferentes graus de deficiência visual, das mais suaves à cegueira total, falam “como se veem, como veem os outros e como percebem o mundo”. Entre eles estão o escritor e prêmio Nobel português José Saramago, o músico Hermeto Paschoal, o cineasta Wim Wenders, o fotógrafo cego franco-esloveno Evgen Bavcar, o neurologista Oliver Sacks, o verea-

dor cego Arnaldo Godoy. Todos eles nos contam de que maneira lidam com o problema e fazem inauditas revelações sobre os vários aspectos relativos à visão. Algumas delas são fisiológicas e práticas: o funcionamento do olho, o uso de óculos “e suas implicações sobre a personalidade, o significado de ver ou não ver em um mundo saturado de imagens e também a importância das emoções como elemento transformador da realidade”. A questão da saturação das imagens é um elemento importante quando se aborda o tema, assim como a proposição filosófica do que é de fato ver. Há alguns anos, durante uma das sessões para cegos do projeto Assim vivemos, que acontecia no pequeno auditório do CCBB – e que exibia filmes cujos temas tratavam de to-


frágeis, eu nunca as vi, mas sei que elas existem, e algumas delas me tocam profundamente só de ouvir falar”. Não só imagens, mas algumas falas igualmente emocionam, transportando o ouvinte para paisagens e atmosferas emocionais. Essa falsa incongruência está na base do cinema de Kawase e, especificamente em Esplendor, se consubstancia na fina relação de Misako com Masaya. Apesar de Misako ser uma espécie de sustentação emocional para seu pupilo, é ele quem vai iniciá-la nos mistérios da imagem, seja ela o real visível, o cinema ou a fotografia. A ritualidade quase litúrgica de Masaya vai levar, ou vai facilitar para que a vinculação profissional dos dois personagens se transforme em afetiva. Subjacente a tudo aquilo que é mostrado no filme, existe (para quem quiser ver) uma reflexão sobre a “tristeza japonesa”, o medo de uma hecatombe nuclear. Essa é uma ilação, uma conjectura, que se costuma fazer sobre o país, o Fotos: Divulgação

dos os tipos de deficiência – um dos palestrantes cego disse diante de uma estupefata plateia que ninguém entre os presentes – em sua grande maioria, portadores do sentido da visão – imaginava como era maravilhoso ser cego. Eu mesmo já tive entre minhas alunas de cinema uma deficiente visual. Obviamente, uma de minhas providências foi escalar uma colega para fazer as audiodescrições para Célia durante as projeções de filmes. Mas nos surpreendíamos a todo momento com algumas das considerações de Célia, como, por exemplo, “não me diga se a mulher que fala é bonita. Eu posso tirar minhas próprias conclusões pela forma como ela fala”. Outras experiências, como a do citado grande fotógrafo franco-esloveno Evgen Bavcar, personagem importante no filme de Jardim e Carvalho, dão diferentes perspectivas sobre a relação dos indivíduos com o real visível, presentes também em Kawase. Com obras publicadas e exibidas em todo o mundo, Bavcar, que nasceu em uma pequena cidade da Eslovênia, sofreu dois acidentes consecutivos que lhe tiraram a visão completamente antes de completar 12 anos de idade. Alguns anos depois, conseguiu uma câmera e passou a fotografar uma menina por quem era apaixonado. Percebeu então que “secretamente poderia possuir algo que não podia ver...” Quando alguém pergunta como se dá seu processo, ele responde que fotografa o que imagina. “Os originais estão dentro da minha cabeça. É uma questão de criar uma imagem mental, o registro físico que melhor representa o trabalho do que se imagina”. Bavcar diz ter consciência de que “há coisas que escapam de sua percepção, mas isso acontece com os fotógrafos que podem ver também. Minhas imagens são

fato de o Japão ter nos seus calcanhares um gigante como a China e um vizinho como a Coreia do Norte. Na filmografia de Kawase existe sempre uma reflexão sobre a beleza da natureza humana, sobre (quem nos diz é Maria Roberta Novielli) “a delicadeza dos relacionamentos interpessoais, a felicidade que pode permear uma existência aparentemente dura”. Kawase acha que a natureza pode ter um papel benéfico sobre os indivíduos. Em muitos documentários que fez (16 ao todo) antes de se dedicar à ficção, o tema é recorrente. Como quando venceu a Câmara de Ouro no Festival de Cannes em 1997, com Suzaku, filme que despertou a atenção sobre seu trabalho, e onde Kawase se debruça sobre a região onde nasceu, um vilarejo na província de Nara. Famosa pelos seus cedros, a região viu quase todos os seus habitantes a abandonarem em busca de trabalho nas cidades grandes. Filmado em estilo documental, com um olhar plástico e fotográfico, Suzaku tem em Kyoso um homem preocupado em preservar esse lugar ancestral, lugar onde se originou a família de Naomi Kawase. A partir dessas imagens “fotográficas”, a diretora, da mesma forma que Masaya em Esplendor, tenta transmitir o fascínio interior que essa localidade lhe provoca e que se exterioriza em nós em múltiplas formas de sentimento. Esplendor

Naomi Kawase

Japão/França, 2018, drama/romance, 101min. Roteiro e direção: Naomi Kawase. Com Masatoshi Nagase, Ayame Misaki, Tatsuya Fuji e Kasuko Shirakawa.

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CRÔNICADACONCEIÇÃO

Crônica da

Conceição

CONCEIÇÃO FREITAS

conceicaofreitas50@gmail.com

Quatro cidades,

muitas sobrevidas

P

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ouco me lembro da primeira delas. Um esbarrancado de terra arenosa, pedregulhos e uma casa de madeira afastada de tudo. Uma tia de pele negra, cabelos lisos e um jeito entre delicado e desconfiado. Um avô turrão, que tinha passado a vida cavando buracos para a companhia de água e esgoto de Manaus. Uma avó, morta muito jovem, que tinha os dentes da frente serrados em V e que, se dizia, era filha de um tuchaua de Parintins, o que pode ter algo de exagero (tuchaua, em tupi-guarani, quer dizer cacique). Uma cidade onde conheci relógio de pulso, calça jeans e gravador. Era o começo da zona franca. Estranha cidade desacomodada à beira do rio. A segunda das minhas quatro cidades era do tamanho do mundo. Frondosa e urbana, líquida e enlameada, cheirava a peixe, pitiú, e tinha a textura do barro. Criei pernas entre a ponte de pedaços de madeira sobre um canal de esgoto aberto e a escadaria em mármore do edifício colonial de muitas janelas brancas e fachada cor-de-rosa. Entre os vãos do silêncio dentro de casa e as cintilações urbanas da cidade. Se Belém havia, eu também. A terceira parecia um bairro em mi-

niatura, mas a mim pouco importava. Depois da perda do pai, eu vivia em estado de suspensão – onde quer que estivesse, não estava. Goiânia me deu vida, pós-pai. A faculdade, a luta contra a ditadura militar, a descoberta do coletivo, a certeza absoluta de que podia e ia ajudar a mudar o mundo. Um quê de arrogância, outro de ingenuidade – tudo certo quando se tem 17 anos. E, ao mesmo tempo, o conforto de viver numa cidade pequena, embora capital de um Estado. Toda ela ao alcance dos dias, das noites e das madrugadas. A quarta arrematou (e arrebatou) meu destino-cidade: das fotografias que o pai trazia de uma cidade branca, construída por astronautas, ao lugar que me provocou todos os dias a dar conta do meu existir e, ao mesmo tempo, dar conta de a ela pertencer, de dela fazer parte e de nela habitar com todas as minhas cidades. Em Brasília, pude entender as outras, pude compreender o que é uma cidade, pude me fazer mais brasileira, pude perceber que desde a ocupação dos 1500 até agora, fomos e voltamos, sem muito sair do lugar. Manaus, Belém, Goiânia, Brasília foram atos de desbravamento, de ocupação do território e de afirmação, com

tudo de bom e de ruim que está cravado na alma brasileira. Foram atos de afirmação do meu entrecortado existir. Cidades de um Brasil que não se reconhece na sua inteireza – se é que há uma. As duas primeiras, forjadas na defesa do território pelos portugueses. As duas últimas, erguidas para dar testemunho da capacidade criativa e empreendedora dos brasileiros. Existiu uma quinta cidade, deitada em linha reta, 2 mil quilômetros de uma ponta a outra. Também ela me dizia que havia coisas grandiosas de uma ponta a outra do meu suposto existir. Do norte ao centro-oeste, da Amazônia ao Cerrado, eu me esticava na BelémBrasília, a estrada mítica de Bernardo Sayão. Eu nem sabia juntar as letras e já reconhecia o nome dele – era o nome oficial da minha rua. Tenho vontade de conhecer algumas cidades do mundo – Praga, Amsterdã, Cidade do México, São Petersburgo. Mas nenhuma delas terá maior impacto em mim que Santa Maria de Belém do Grão Pará. Nela, fui Yuri Gagarin, Neil Armstrong, os sherpas do Everest, fui todos os desbravadores da Terra – ela é o território que me arrebata.


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