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entrevista exclusiva do novo secretรกrio de cultura do df, guilherme reis

Ano XIV โ€ข nยบ 236 Fevereiro de 2015

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Na primeira edição deste ano, chamamos a atenção para a abundância de bons programas cinematográficos, cinco mostras ao todo, que compensavam a entressafra de outras áreas culturais no período pré-carnavalesco. Pois novamente o assunto cinema é destaque da Roteiro, merecendo desta vez um lugar na capa. A razão é forte. Vem aí, dia 22 de fevereiro, mais uma cerimônia de premiação do Oscar, a estatueta mais cobiçada por dez entre dez estrelas de cinema. E o Brasil tem uma boa razão para ficar de olho na disputa, pois concorre na categoria melhor documentário com O sal da terra, de Juliano Salgado e Wim Wenders, sobre o fotógrafo Sebastião Salgado.. Nosso crítico de cinema Sérgio Moriconi apresenta sua visão sobre os filmes tidos como favoritos e salienta a incrível disparidade entre eles, o que dificulta qualquer prognóstico dos especialistas. Boyhood, de Richard Linklater, é um deles, ao lado de O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson, e Birdman, de Alejandro Iñárritu. Por que eles são favoritos? Veja a resposta a partir da página 30. Voltamos as lentes também para a participação do cinema nacional no Festival de Berlim, o Berlinale, com nada menos do que 12 produções, entre elas Ausência, de Chico Teixeira, um dos cineastas brasileiros ouvidos por Paula Pratini na capital alemã (página 32). Destacamos ainda a mostra com 23 filmes de Jerry Lewis, o rei da comédia, que entra em cartaz dia 18 no CCBB, além do documentário sobre o cultuado disco Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho, lançado em DVD (página 34). Pra não dizerem que só falamos de cinema, recomendamos a leitura da entrevista exclusiva que Vicente Sá fez com o novo Secretário de Cultura, Guilherme Reis, ele próprio um homem de teatro consciente das enormes responsabilidades assumidas. Entre muitas outras, a de devolver à cidade os espaços públicos destinados à cultura que os governos anteriores não souberam preservar. É hora, segundo disse, de respirar fundo, dar um passo à frente e modernizar a gestão cultural da cidade (página 18). Outro destaque é a vinda da cantora inglesa Joss Stone, pela primeira vez, a Brasília. Seu show Total world tour ocupará o palco do Net Live no dia 13 de março (página 26). Uma semana antes, Maria Bethânia vem abraçar e agradecer a seu público fiel pelas cinco décadas de sucesso. A celebração vai ser no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, no dia 6 (página 27). Boa leitura e até março. Maria Teresa Fernandes Editora

26 graves&agudos Brasília recebe dia 13 de março uma estrela de primeira grandeza da música internacional: a inglesa Joss Stone.

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ROTEIRO BRASÍLIA é uma publicação da Editora Roteiro Ltda. | Endereço SHIN QI 14 – Conjunto 2 – Casa 7 – Lago Norte – Brasília-DF – CEP 71.530-020 Endereço eletrônico revistaroteirobrasilia@gmail.com | Tel: 3203.3025 | Diretor Executivo Adriano Lopes de Oliveira | Editora Maria Teresa Fernandes Diagramação Carlos Roberto Ferreira | Capa André Sartorelli -| Colaboradores Adriana Nasser, Alessandra Braz Akemi Nitahara, Alexandre Marino, Alexandre dos Santos Franco, Ana Vilela, Beth Almeida, Cláudio Ferreira, Eduardo Oliveira, Elaina Daher, Heitor Menezes, Júlia Viegas, Luana Brasil, Lúcia Leão, Luís Turiba, Luiz Recena, Mariza de Macedo-Soares, Melissa Luz, Pedro Brandt, Sérgio Moriconi, Silvestre Gorgulho, Súsan Faria, Vicente Sá, Vilany Kehrle | Fotografia Eduardo Oliveira, Fabrízio Morelo, Gadelha Neto, Sérgio Amaral, Zé Nobre | Para anunciar 9988.5360 Impressão Editora Gráfica Ipiranga | Tiragem: 20.000 exemplares. 5

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Food truck orgânico Por Vicente Sá Fotos Fabrizio Morello

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s comidas de rua são uma festa em todo o mundo. Consumidas com verdadeira paixão, elas têm lugar de destaque na gastronomia turística, pois são comumente consideradas emblemáticas e muito apreciadas por viajantes. No Brasil não é diferente e já faz parte da nossa história. Desde o Século XVIII, nas nossas duas maiores cidades à época, Rio de Janeiro e Salvador, os “escravos de ganho” saíam das cozinhas das casas para as ruas levando seus tabuleiros e panelas com beijus, cuscuz e bolinhos, e cruzavam nas esquinas com outros vendedores a apregoar suas deliciosas sardinhas fritas. Esse carinho com a comida de rua só cresceu com o tempo. Pesquisas mostram que na América Latina, nos grandes centros urbanos, em torno de 25% do orçamento familiar são gastos com comida de rua, já que os trabalhadores têm nela uma opção prazerosa e mais em conta. Nos úl-

timos tempos, uma nova modalidade de comida de rua vem despertando interesse tanto de consumidores quanto de empresários, com o inevitável – nos dias de hoje – nome inglês de food truck. Em São Paulo já brilham franquias de sucesso, com possibilidade de expansão para outros Estados. Aqui, há mais de uma dezena de empresas, cada uma buscando um diferencial para conquistar seu espaço no mercado. Um exemplo é o Corujinha, que os donos definem como um food truck orgânico. Desde 2013 o casal Marcela Prado e Daniel Junqueira (na foto acima) vinha pesquisando e percebeu o crescimento do food truck em São Paulo e depois no resto do país. Ela, formada em comunicação social, estudante de gastronomia, sonhava em ter seu próprio negócio, mas com um viés diferente, que fosse além de apenas servir refeições, que trouxesse bons momentos de interação e possibilitasse maior elasticidade de horário. Ele também acreditava que os brasilienses estavam aprendendo a importância de ocupar os espa-

ços públicos da cidade. Juntando as peças, resolveram encarar o desafio e aí nasceu o Corujinha, em junho de 2014. Daniel ainda ficou, até o final do ano, trabalhando como gerente em outra empresa e ajudando a mulher nos fins de semana, mas assim que pôde passou toda sua atenção para o Corujinha. Tendo como carro-chefe os burguers artesanais, o Corujinha é centrado em alimentos orgânicos, lanches gourmet e saladas, tudo preparado com ingredientes frescos, selecionados e de produtores locais. O Picanhudo, um dos que têm mais saída, é um burguer de picanha (150g), cebola caramelada, bacon, tomate e molho especial de gorgonzola no pão caseiro. O Lasquera de Frango é outro burguer artesanal feito de lascas de frango (150g), queijo mussarela, tomate seco, rúcula orgânica com molho especial de mostarda dijon no pão francês caseiro com parmesão. Trabalhando com o conceito de cozinha criativa, o Corujinha, durante as saídas nos horários de almoço, serve algu-


mas saladas e refeições. Entre as saladas destaca-se a Descolada, feita com agrião orgânico na redução de laranja, queijo canastra temperado, presunto de Parma e chips de batata doce. Entre as refeições de maior sucesso está o Corujinha do Dia, um picadinho de filé mignon, farofa de banana e arroz branco. O Corujinha mantém a característica do movimento food truck, que é ser itinerante, e atualmente está trabalhando com duas ou três saídas por semana, preferencialmente nos horários do almoço (das 11 às 14h) ou do jantar (das 18 às 22h). O carro tem uma cozinha pequena, mas funcional, e algumas mesinhas são espalhadas nos locais onde estaciona. A trilha sonora faz parte do conceito do Corujinha: rocks libertários podem ser escutados enquanto você devora o seu burguer orgânico com um suco. A média de atendimento varia entre 80 e 100 refeições quando em saída-solo, e entre 200 e 300 quando em eventos. Mas, na contramão dos outros food trucks, o Corujinha tem preferido voos solos a encarar engarrafamentos e multidões em eventos. “Gostamos de

pensar na frente e trabalhar com parcerias. Hoje estamos aqui em um arranjo com uma sorveteria e amanhã participando da limpeza da orla do lago. Gostamos de estar onde tem gente legal e bom astral”, explica Marcela. Daniel conta que investiu um bom dinheiro na confecção e adaptação do truck, mas garante que valeu a pena. O treinamento dos funcionários também é outro fator determinante, pois a intenção não é só servir uma boa comida, mas também proporcionar momentos agradáveis aos clientes. O Corujinha é tocado pelos proprietários com apenas dois funcionários e também trabalha com oficinas de gastronomia para crianças e eventos particulares, como casamentos, aniversários, festas de formatura e festas infantis. Os contatos devem ser feitos pela sua página na internet. Segundo o site Comida de Rua, de São Paulo, um dos motivos do crescimento do segmento food truck é a ausência do aluguel imobiliário, que permite que a lucratividade cresça entre 60 e 70%. Mas Daniel lembra que eles acabaram tendo que alugar uma pequena loja para servir

de base. O espaço ficou sendo o local onde eles armazenam, preparam os petiscos e fazem o planejamento de todo mês. Como liberdade é a palavra que anda junto com a comida de rua, para saber onde o Corujinha ou outros food trucks estarão no próximo final de semana é preciso acessar suas páginas no Facebook. Corujinha

https://www.facebook.com/corujinhafoodtruck

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Mexicano moderninho Por Alessandra Braz, de São Paulo

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Edifício Copan é um dos ícones de arquitetura de São Paulo. Há quase meio século reina no centro da capital paulista. Projetado por Oscar Niemeyer, com 115 metros de altura e 1.160 apartamentos distribuídos em seis blocos, o maior edifício residencial da

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América Latina ainda abriga no térreo uma série de restaurantes, butiques, lojas de confecções e salões de beleza, além da frequentadíssima galeria de arte Pivô. Em meados de dezembro ali nasceu também o mexicano La Central, restaurante e taqueria que alugou parte das dependências da galeria Pivô. No comando, as sócias Camilla Barella, paulista, e Sol

Camacho, mexicana que veio morar no Brasil. A primeira faz parte do conselho artístico da galeria; a segunda sentiu falta de um restaurante realmente mexicano na cidade. “Quando a Pivô pensou em alugar o espaço para um restaurante, imaginamos que seria ideal para nosso projeto. Primeiro, por estar ligado a uma instituição de arte; depois, por ser no centro de São Paulo; e, por último, por ser num prédio icônico da arquitetura da cidade. Sempre tivemos vontade de nos unir criativamente em um projeto gastronômico e neste cenário, sendo possível juntar outras paixões nossas, a arte e a arquitetura, pareceu perfeito!”, conta Camilla. O cardápio é criação da chef e consultora gastronômica Ana Soares, que passou um ano no México fazendo pesquisas. Ela é responsável também por uma badalada rotisseria em São Paulo, a Mesa III (Rua Alves Guimarães, 1.464, Pinheiros). O principal prato da casa é o taco. Feito a partir das tortillas (pão folha), um dos produtos mais importantes da culinária mexicana, ele é recheado com carne, frango ou porco, mas há lugar também para os vege-


galeria Pivô. Então, preservamos os elementos característicos da arquitetura, integrando e destacando as colunas no ambiente, restaurando toda a fachada, janelas e lambris, conforme o projeto original. Também quisemos fugir dos clichês mexicanos e mostrar um lado contemporâneo da cidade do México, que, assim como São Paulo, é super cosmopolita”, explica Camilla Barella. Os móveis foram desenvolvidos especialmente para o restaurante pela própria Sol Camacho, que é arquiteta, e pelos designers Guilherme Wentz e Maurício Jorge. Com portas de vidro por todos os lados, até a cozinha pode ser vista de fora. À noite, as mesas são decoradas com velas, criando um ambiente especial para casais. Por não ser ainda um local muito badalado, é possível conseguir mesa até nos horários mais movimentados.

Fotos: Gui Gomes

tarianos. Os preços vão de R$ 12 (petiscos como a quesadilla, de várias sabores) a R$ 58 (pratos principais, como o peixe do dia). Segundo Camilla, oferecer opções veggies foi um cuidado que a casa resolveu ter com os clientes. Para quem quer apenas se divertir em um ambiente agradável, o restaurante oferece uma bancada de frente para o bar, onde é possível beliscar petiscos como queijo coalho grelhado com mel picante de manguey (R$ 19). Para quem gosta de drinks adocicados, a dica é o Paloma, mistura de tequila, limão, grapefruit e club soda (R$ 25). Já o Bloody Maria mistura tequila, laranja, suco de tomate temperado, romã e essência de pimentas (R$ 25). Os drinks são todos à base de tequila ou do ainda mais rústico mescal. A decoração, bem simples, pouco tem a ver com a de outros estabelecimentos de comida mexicana. Nada de cores fortes (como vermelho, rosa, verde ou azul), de sombreros pendurados pelas paredes ou de caveiras características do Dia de los Muertos. “Quisemos respeitar o fato de estar num projeto de Niemeyer e junto à

La Central

Avenida São Luís, 140 – Edifício Copan, Loja 53 (11-3231.0570). De 2ª a 5ª feira, das 12 às 16h e das 19 às 24h; 6ª e sábado, das 12 às 24h; domingo, das 12 às 18h.

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Bon appétit! Brasília terá nada menos de nove representantes entre os 1.500 chefs que participarão do super jantar “Goût de France”, de celebração à gastronomia francesa, que será realizado simultaneamente, dia 19 de março, em 150 países de cinco continentes. Trata-se de um projeto do multi-estrelado chef francês Alain Ducasse (foto) inspirado nos “Jantares de Epicuro”, promovidos a partir de 1912 pelo lendário Auguste Escoffier (1846-1935) – “o cozinheiro dos reis e o rei dos cozinheiros”, como se dizia na época – em homenagem ao filósofo grego cuja doutrina pregava que a essência do bem reside no prazer, mas o prazer na justa medida, sem excessos. Os cardápios criados pelos chefs serão servidos em restaurantes e embaixadas francesas localizados nos países participantes. Nossos representantes serão Alice Castro, do Café Daniel Briand, Leonidas Neto, do Grand Cru, Alexandra Alcoforado, do Inácia Poulet Rôti, Manuel Mendonça, do Le Vin Bistrot, Lionel Ortega, da Maison de la Quiche, Simon Lau Cederholm, do Aquavit, Gustavo Maragna, do Bistrot Senac Downtown, e Emerson Mantovani, do Trio Gastronomia.

300, Bloco B1, tel. 3554.4148). Culinárias de várias regiões do país e do mundo estão presentes nos pratos principais, petiscos e sobremesas “Esse novo conceito de gastronomia amplia a criação de novos pratos e colabora ricamente na valorização regional e estética dos alimentos”, diz Cristian Alves de Oliveira, um dos sócios, ao lado de Rodrigo Garrido. Para a dupla, a inovação adiciona novos componentes para fundir sabores e sensações antes não experimentados. Um dos pratos que muito bem sintetizam a proposta do restaurante é o confit de pato em redução de tucupi e pérolas de tapioca, acompanhado de risoto de banana da terra (R$ 68). Outro é a Paella Fusion, feita com azeite dendê e banana da terra (R$ 160, R$ 300 ou R$ 550, para duas, quatro e oito pessoas, respectivamente). Entre as sobremesas, o quindim de açaí, feito com calda de caramelo de guaraná e acompanhado de sorvete de tapioca (R$ 17) e o creme brullé do Pará, tradicional doce francês feito com cupuaçu (R$ 16).

Rogério Gomes

Cardápio de verão

Felipe Menezes

Mais um Fujimoto

Cozinha eclética

Felipe Menezes

Combinações inusitadas e surpreendentes de técnicas clássicas de culinárias regionais, aliadas a alimentos de diversas origens geográficas, resultando em harmonias criativas e deliciosas. É a proposta gastronômica nada modesta do restaurante Fusion, aberto desde o início de novembro no Setor Sudoeste (Quadra

China In Box, La Bonne Fondue, DuoO, Nazo... De fato, o espírito empreendedor está mesmo no sangue da família Fujimoto, que acaba de produzir uma nova cria: o Koi Zushi (assim mesmo, com Z, como se escrevia antigamente). Inaugurado no finalzinho do ano passado na 403 Sul, Bloco D (3322.6161), serve pratos à la carte e rodízio no almoço e no jantar, de terça a domingo. O principal destaque é o Especial do Sushiman da foto acima (R$ 82), que muda diariamente, mas sempre com 18 peças criadas pelos sushimen Raimundo Saraiva e Juvenildo Mendes. O domburi de frango, que leva arroz coberto de frango, ovo, legumes e shimeji com molho à base de shoyu (R$ 27,90), o carpaccio de salmão com molho à base de limão (R$ 18) e a salada de ceviche, com mix de folhas, peixe branco, cebola e limão (R$ 32,50) são alguns dos pratos servidos à la carte.

Vinhos em promoção

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(R$ 89), o argentino Pascoal Toso Malbec (R$ 79) e o espanhol Arnaiz, um Ribeira del Duero Crianza (R$ 85); na Asbac, o espanhol Corona de Aragon Joven (R$ 57,54), o português Dom Rafael Herdade de Mouchão (R$ 49,20), o português Adega de Borba (R$ 43,11) e o italiano Monna Lisa (R$ 40); no ParkShopping, o chileno Santa Ema Terroir (R$ 49), o português Montes Claros Colheita (R$ 52) e o espanhol Antaño Crianza (R$ 55).

Segue até o final de fevereiro a oferta de vinhos a preços reduzidos na rede Dom Francisco. Alguns exemplares: na 402 Sul, o chileno Santa Ema Gran Reserva Merlot

Peixes e frutos do mar são as estrelas do menu especial criado pelo espanhol Carlos Valenti, chef executivo da rede Rubaiyat, para a atual temporada de férias. Ceviche de polvo com alioli (R$ 35), tiradito de atum com vinagrete de shoyo e mel (R$ 29), tagliatelli de palmitos e camarão (R$ 35) e cherne com purê e molho de limão siciliano (R$ 95) estão entre os nove pratos oferecidos desde 26 de janeiro. Para quem prefere carne vermelha, a sugestão do chef Roberto Felizardo, que comanda a cozinha da filial brasiliense do Rubaiyat (Setor de Clubes Sul, Trecho 1, tel. 3443.5000), é o filé preparado na brasa e acompanhado pelas famosas batatas souflée (R$ 79).

Cardápio de verão 2 O Recanto do Camarão de Taguatinga decidiu estender até o final do mês o preço promocional de R$ 69,90 para os pratos das seções de pescado e camarão, que servem duas pessoas, de segunda a quarta-feira, no almoço e no jantar, e sábado, apenas no jantar. A promoção é válida para os pratos já tradicionais e também para lançamentos do cardápio de 2015, como o camarão ao coco (foto), preparado com camarões refogados na cebola, tomate e pimentões, regados ao molho béchamel, leite de coco e cheiro-verde e servidos com arroz ao próprio molho e purê de abóbora.

Rener Oliveira

Divulgação

picadinho


Divulgação Milton Moares Júnior

48 restaurantes da cidade já confirmaram presença na segunda edição do Chefs nos Eixos, que oferece boa gastronomia a R$10, R$15 e R$ 20 o prato. A primeira edição, em novembro, reuniu mais de 20 mil almas famintas no Eixão Sul, e agora a expectativa é de igual ou maior sucesso no dia 1º de março, no Eixão Norte (111/211), das 10 às 18h. Participam, entre outros, os chefs Dudu Camargo, Venceslau Calaf, Alexandre Albanese, Marcello Piucco, Gil Guimarães, Lui Veronese e Rosario Tessier. Estreando no asfalto: Mara Alcamim, Emerson Mantovani, Marcella Pinho, José Luiz Paixão e Agenor Maia. As próximas edições já têm data marcada: 26 de abril (Eixo Monumental), 28 de junho (Eixão Sul), 30 de agosto (Eixão Norte) e 18 de outubro (Eixão Sul). Vida longa ao Chefs nos Eixos!

Felipe Menezes

Festa no asfalto

novos pratos do cardápio: o sanduíche da casa (pão gratinado com fatias de pernil marinado na cerveja pilsen, mussarela de búfala e tomate cereja), as coxinhas de asa de frango ao molho da casa, que leva cerveja de trigo em sua composição, e a carne de panela cortada em cubos e cozida por quatro horas em molho rústico reduzido de cerveja, acompanhada de fatias de pães da casa (foto). Para a sobremesa, uma mistura inusitada: mousse de chocolate meio amargo com cerveja tipo stout, escura, de alto teor alcoólico, de forte sabor de chocolate, café e malte torrado.

Mito ou verdade?

Por falar em sobremesa... Marcelo Cabral

Muito bem bolado A irreverência que é marca registrada do chef Dudu Camargo está presente também, desde o mês passado, no menu executivo do Respeitável Burger (402 Sul, Bloco B, tel. 3224.8852), servido no almoço de segunda a sexta-feira. Além dos hambúrgueres, dos beirutes e do cachorro-quente que fizeram a fama da casa, há vários pratos com nomes divertidos como Cocó Chique, Cocó no Milharal, Carga Pesada, Carga Leve, Cachorrada, Cavalgada, Domador, Mágico e Picadeiro (foto), um suculento filé mignon com alho crocante, arroz piamontese e batata palha. Os preços dos pratos, todos individuais, variam de R$ 20,30 a R$ 38,90.

Massas e risotos

Fondue chinês Isso mesmo. A principal novidade do cardápio do La Bonne Fondue (Setor de Clubes Sul, Trecho 2, tel. 3223.0005) atende pelo nome de Fondue Chinoise (foto). Os ingredientes da receita: magret de canard, lombo suíno, filé bovino, peito de frango, camarão e caldo de legumes com cogumelo Paris ao vinho branco (R$ 123, para duas pessoas). Felipe Menezes

Para o empório Empório Soares & Souza (403 Sul, Bloco D, tel. 3532.6702) não basta a fama conquistada com as cervejas especiais, originárias de várias partes do mundo, que o transformaram em ponto de encontro dos apreciadores da bebida. Desde o início do mês, a própria cerveja tornou-se ingrediente de três

Divulgação

Esse bolo gelado de coco com calda de abacaxi e capim santo (R$ 17,90) é uma das sobremesas leves e refrescantes que passaram a figurar no cardápio do Barbacoa (Espaço Gourmet do ParkShopping, tel. 3028-1530), ao lado da panna cotta com geleia de uva cabernet sauvignon (R$ 14,90), do pudim de pistache (R$ 14,90) e do bolo de chocolate com sorvete Cookies & Cream Häagen-Dazs (R$ 17,90). Divulgação

À base de cerveja

Quem foi que disse que vinho e verão não combinam? Seja quem for, disse bobagem, garante José Filho, sommelier da Enoteca Decanter (208 Sul, Bloco A, tel. 3349.1943). Muito ao contrário, vinhos brancos e rosés são a cara do verão. Leves, aromáticos, refrescantes e com acidez equilibrada, eles podem ser servidos em temperaturas mais baixas, o que combina com o calor da estação. “Existem ótimos rosés no mercado, inclusive nacionais, como o Quinta da Neve, produzido em Santa Catarina. E o rosé é o vinho da moda”, diz o sommelier. Espumantes e proseccos também são muito indicados para o verão, devendo ser consumidos numa temperatura entre 8 e 10 graus centígrados, enquanto os tintos leves pode ser servidos entre 12 e 14 graus. “Temperaturas abaixo de 6ºC anestesiam as papilas gustativas”, adverte José Filho.

As pizzas gourmet, algumas à base de massas integrais, sem glútem e sem lactose, continuam sendo o carro-chefe da Dolce Far Niente (Avenida das Castanheiras, 1060, Edifício Vila Mall, Águas Claras, tel. 3254.2263). Mas nas noites de quinta-feira passaram a disputar a preferência da clientela com um menu de massas, risotos, saladas e grelhados – o mesmo servido nos almoços, de sexta a domingo. Entre as receitas exclusivas da casa, o Ravióli Damasco, recheado com a fruta e ricota defumada ao molho de Martini Bianco (R$ 40,90) e esse nhoque de batata – ou batata baroa – ao molho de gorgonzola e alecrim com camarão (R$ 43,90).

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GARFADAS & GOLES Luiz Recena

lrecena@hotmail.com

Carnaval é Carnaval

Evoé! De repente é Carnaval de novo, constatam os imprevidentes diretores de blocos e escolas de samba. Nosso governo neoestatista esqueceu-se de criar a “Carnavabras”. E a fonte secou, quero dizer, entre nós a água acabou. A grana oficial idem. O dinheiro que irrigava dutos momescos, sempre oportunistas, igualmente acabou. “Não é da natureza do nosso bloco pedir dinheiro aos foliões”, declarou um cartola trocista da capital. É, no mínimo, o recibo antecipado de quem se acostumou a carnavalizar com verba pública. No mar de erros do samba do Aguinulo doido, deixar a festa do Tríduo sem verba oficial até que beirou o acerto. Eis aí uma boa oportunidade para um belo divórcio, amigável ou não: quem quiser fazer Carnaval que faça, organize e banque. Ao governo cabe a segurança e a infraestrutura. E banheiros químicos para os mijões da folia. Entre um Carnaval e outro, tem um ano para festas, parcerias e arrecadação de fundos. Ou descolar algum no milhar ou no inesgotável petroduto estatal, com o risco de migrar das páginas da festa para as notícias do xilindró.

O Pacotão, não!

Não me considero um fundador na acepção americana dos pais da pátria. No máximo um adepto, militante e tarefeiro de primeira hora. Saí em todos, sempre que estive em Brasília. Por isso posso afirmar: o Pacotão começou e durou anos saindo sem dinheiro público. Na contramão, nem segurança pedíamos. A polícia nos protegia porque tinha medo: de nós e, principalmente, de nossas brigas internas, sempre altamente álcoolideologizadas... Tínhamos um Livro de Ouro, por tradição aberto pelo secretário HD, seguido por todos os que ganhassem mais do que o mínimo profissional.

Chapéu itinerante

Nosso problema era a banda, que chorava e pedia mais, além de beber de graça aquela maravilhosa cerveja quente e com muita espuma, como mandava a tradição

da época. Para resolver o assunto, um chapéu passava do Beirute ao Chorão e vice-versa, todas as noites, uma semana antes da primeira saída. Era o momento de pedir ajuda aos que gostavam do bloco de longe, discretamente, pois a ditadura ainda estava lá e quem tinha... medo, votava em Figueiredo...

Vá pra casa

Certa feita, o inquilino de plantão no Palácio do Buriti mandou seu chefe do Detur (era um departamento junto ao gabinete) entregar um cheque para o Pacotão. Qualquer trinta dinheiros da época. Não aceitamos, devolvemos e, aproveitando o sobrenome rima-rica do funcionário, brindamos o distinto com um singelo refrão: “Seu alho, seu alho/ eu quero que você vá pra casa do... baralho... Ôôô, seu alho...” E saímos na contramão. Era assim o Pacotão. Se, de lá

para cá, coisa houve, foi sem procuração. Que o lá de cima continue cuidando dos que se foram, proteja os que ainda estão na folia e a mim não desampare. Bom Carnaval! Evoé!

O que comer?

A festa é da carne. Façamos, portanto, uma barreira de defesa contra os vegetovegas radicais... e pau na costela gorda! Boizinho, porquinho, cordeirinho, coelhinho e um peixinho tambaqui. E rápido, porque os vegetochatos estão crescendo exponencialmente e qualquer dia desses chegarão aos governos e nossos dias estarão contados. Antes disso, comamos bastante e variadas carnes. E frutas e sorvetes para curar as muitas e benditas ressacas momescas. Quando chegarem as Cinzas, prometo revelar endereços e receitas pantagruélicas, com sotaque inglês e gaúcho para as carnes.

Massagem fisioterápica e linfática, tratamento complementar de celulite e obesidade. Técnica japonesa. 12

Mariinha, profissional com mais de 40 anos de experiência. 910 Sul, Mix Park Sul, Bloco I sala 18. Tel.: 3242.8084


PÃO & VINHO ALEXANDRE FRANCO pao&vinho@agenciaalo.com.br

Colcha de retalhos

Tal qual uma mãe de família do passado, que ao longo do ano guardava retalhos e sobras das roupas que costurava para os filhos, este velho enófilo vai ao longo do ano guardando garrafas degustadas com prazer incomum, mas não registradas em meus artigos. Afinal, são vinhos demais para as colunas publicadas. Assim, aproveito o início de ano para costurar esta minha colcha de retalhos ênicos, de garrafas especiais deixadas para depois. Tendo em vista uma certa predileção da minha parte pelas borbulhas, vou iniciar por um champanhe que me foi vendido como “de colecionador”. Não a conhecia, de fato, e realmente se mostrou uma das melhores que já degustei: Comte Audoin de Dampierre – Cuvée des Ambassadeurs. De rótulo discreto, mas imponente. No meu caso, uma “non vintage” brut rosé, de cor rosa-avermelhada, muito bonita, com perlage perfeito, fino e persistente, nariz de brioches, biscoitos, panificação e boca de grande cremosidade, com frutas vermelhas. Excelente. Seguimos com alguns americanos: primeiro, um branco, Chardonnay, é claro, da Hyde Vineyard, comprado no coração do Napa, em Yountville, por indicaçãoo do lojista, em sua versão 2007. Como um bom exemplar americano dessa casta, bem estruturado, mas com uso de madeira não tão intenso como o costume daquelas bandas, de cor verde-clara, nariz com apricot e pêssegos com leve toque de limão, acidez superior ao padrão mais comum americano, mineralidade à Chablis e boca fresca, quase crespa e frutada, mas ainda com boa cremosidade. Um rótulo americano diferenciado. Depois, dois Pinot Noir, um muito clássico, do Domaine Drouhin em terras do Oregon, o que se pode achar de mais próximo dos Pinot Noir da Borgonha. Um 2009, Anúncio_vila e nirá janeiro1.pdf 1 13/01/2015 16:26:29 suave e sensual, com morangos e cerejas. Muito bom.

E um mais simples, menos “borgonhês”, mas muito agradável: o Lincourt 2012, de Sta. Rita Hills – Sta Barbara, produzido pela Lindsay nas terras das quais saíram os tão comentados Pinot Noir do filme Sideways, que enalteceu a Pinot Noir e crucificou a Merlot, chegando a abalar, na época, o mercado americano de vinhos. Com cramberries e pimenta ao nariz, cereja e baunilha ao palato. Interessante. Não poderiam faltar retalhos italianos: um Brunnelo di Montalcino mais que clássico, o Stella di Campalto 2007. Uma das três melhores safras do século para a região. Uma vinícola pequena, mas extremamente competente e famosa pelo requinte e elegância de seus vinhos. De cor ruby claro, nariz de terra molhada e cerejas que se repetem ao palato. Excelente acidez, acompanhada de certa doçura em boca, o torna incrível para acompanhar a gastronomia típica da região de sua produção. Muito bom. Uma novidade de uma das castas italianas que mais aprecio, a Primitivo di Manduria. O 80 Vecchie Vigne tem sido aclamado por muitos como o melhor dessa casta, de cor ruby intensa, com notas de tabaco, café, cassis e couro e palato muito intenso, bem estruturado, quase mastigável, com toques de frutas negras em compota e algum chocolate. Acompanhou soberbamente meu famoso bolonhese (famoso lá em casa, claro). Ótimo. E, para finalizar, não poderia deixar de trazer a essa colcha um sul-americano. Desta feita, na figura de um uruguaio que vem sendo considerado o melhor Tannat do mundo: o Dinastia da H. Stagnari, aqui na sua safra 2008. Escuro e denso, como cabe a um bom Tannat, traz frutas negras muito maduras ao nariz, com alguma especiaria, e na boca apresenta corpo intenso, com taninos elegantes e álcool à vontade nos seus 14,5 graus. Para acompanhar um bom e suculento churrasco, é sem igual. Isso, caros leitores, é o que temos para hoje. Aproveitem.

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DOIS ESPRESSOS E A CONTA cláudio ferreira claudioferreira_64@hotmail.com

Vieram pra ficar

Até bem pouco tempo, pratos vegetarianos estavam tímidos na maioria dos cardápios. Havia uma ou duas opções, como uma concessão àqueles “seres estranhos” que tinham escolhido não comer carne. As alternativas, normalmente, vinham lá no fim do menu, pouco antes das sobremesas. O mundo mudou. Não comer carne agora traz um valor agregado a qualquer ser humano. Do indivíduo verde (inclusive na cor da pele) que só se alimentava de arroz integral, agora o vegetariano é um cidadão consciente que preza pela vida dos animais, é contra o abate violento e defende uma dieta saudável – e gostosa – longe da proteína dos nossos colegas quadrúpedes (e alguns bípedes). Vimos popularizar-se uma categoria ainda mais ferrenha, os veganos, que não comem nada de origem animal. Aliás, não comem, não calçam, não vestem, não usam nada que venha de um animal. Esses também mostraram ao mundo que há cardápios inteiros, atraentes, saborosos, com alimentos acessíveis – e sem esses produtos que sempre fizeram parte da mesa do brasileiro. Bares e restaurantes que quiserem se situar realmente em 2015 precisam olhar para esse público com mais cuidado. Os self-services podem caprichar, cada vez mais, na mesa das saladas, com produtos cuidadosamente selecionados. Também podem elaborar receitas triviais com vegetais. Os estabelecimentos à la carte, então, já não podem se resumir a oferecer carne ou frango: para conquistar um consumidor a cada dia mais exigente, é de bom tom pesquisar as novidades em legumes, verduras, sementes, condimentos e até flores.

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Não dá para incorrer em erros que eu já presenciei, como um bar que serve uma porção de bolinho de arroz e “esquece” de colocar no cardápio que também tem carne no recheio. Ou o restaurante que faz um empanado de frango e “esconde” dentro uma fatia de presunto: o cliente que não come carne vermelha, mas consome carne branca, fica sem essa opção. Os restaurantes naturais já se adiantaram nos mimos a essa clientela específica. A diversidade das bandejas salta aos olhos – e são esses que, às vezes, incluem pelo menos peixe no cardápio para atender aos grupos de clientes em que apenas alguns dispensam a proteína animal. O que vale para a comida salgada vale também para os doces. Neste caso, o vilão não é a carne, mas o açúcar refinado. Restaurantes naturais ou não começam a se preocupar em oferecer alternativas que levem os açúcares alternativos ou simplesmente a frutose. Os cardápios de sucos também estão se adequando aos que seguem a dieta natural. Laranja e limonada – os clássicos – agora têm cada vez mais companhia, sejam os sumos de frutas espremidas na hora ou as polpas. Deixar o refrigerante de lado é cada vez mais comum, mesmo entre os que não se consideram vegetarianos. Muitos, aliás, deixam qualquer líquido de fora das refeições. O importante, para quem está abrindo ou mantém um negócio no ramo da alimentação, é não tratar mais o vegetariano como uma raridade, o chato que vai mudar as receitas pré-estabelecidas ou pedir o ingrediente que não existe no estoque. Eles não são mais necessariamente hippies, com uma vida à margem do sistema. Agora, é o sistema que está cada vez mais verde e menos vermelho.


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dia&noite 40anosdekiss A banda de hard-rock norte-americana já veio ao Brasil quatro vezes, a última em 2012. Mas será no próximo 24 de abril que Paul Stanley, Gene Simmons, Eric Singer e Tommy Thaye farão show em Brasília pela primeira vez, mais precisamente no estacionamento do Estádio Mané Garrincha. A apresentação histórica faz parte da turnê comemorativa das quatro décadas de existência da banda Kiss. Formada em Nova York em 1973, tem como integrantes originais Paul e Gene, que posteriormente tiveram o reforço de Eric e Tommy. Desde sua consagração na década de 1970, o Kiss surpreendeu o mundo com uma nova experiência em palco, misturando rock com pirotecnia, iluminação e ambientação cênica, tudo com a maquiagem e figurinos que se tornaram a marca da banda. Em seu currículo estão 28 discos de ouro e mais de 100 milhões de álbuns vendidos em todo o mundo, assim como 30 turnês internacionais e 20 álbuns de estúdio, sete discos ao vivo, três de turnê, 11 coletâneas e 14 vídeos e DVDs. Devem fazer parte do repertório do show os hits Rock and roll all nite, Do you love me e Detroit rock city. A abertura está a cargo de Digão, Canisso, Marquim e Caio, da banda Raimundos, que comemora 20 anos de carreira. Ingressos já à venda em www.diversaobrasil.com.br e na Central de Ingressos do Brasília Shopping, com preços a partir de R$ 160.

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Dois brasileiros e um norte-americano se juntaram num trio especialmente para se apresentar no CTJ Hall (706/906 Sul), dia 4 de março, às 20h. O norte-americano é Mike Tracy, saxofonista e diretor do programa de Jazz Studies da Universit y de Louisville. Ele está em Brasília pelo Programa Capes/Fipse, para o intercâmbio entre universidades do Brasil e dos EUA, do qual também participam os dois brasileiros, o guitarrista Bruno Mangueira e o pianista Renato Vasconcelos, ambos professores da UnB. A improvisação vai tomar conta do palco a partir de repertório de jazz, música brasileira e peças autorais. Mike Tracy já se apresentou com Ella Fitzgerald, Buddy Rich, J.J.Johnson e Curtis Fuller. Bruno participou de shows e gravações com Leila Pinheiro, Toninho Horta e Nelson Ayres. Renato Vasconcellos já tocou com Beto Guedes, Maria Bethânia, Simone, Leny Andrade e Toninho Horta. Entrada franca.

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Esse nome dispensa apresentações. Afinal, a pianista veterana possui premiado currículo e ganhou destaque no universo musical brasileiro, sobretudo por ter abandonado uma cômoda e promissora carreira internacional para dedicar-se a levar a música a todos os cantos do Brasil. Suas interpretações vigorosas e cuidadosamente trabalhadas vão de Chiquinha Gonzaga a Osvaldo Lacerda; de Bach a Beethoven e a Chopin, muitas delas registradas em CDs e DVD. Seus recitais são verdadeiras aulas de música e de interpretação ao piano. Interpreta com tamanha f luência que transmite a impressão de deixar-se dominar pela intuição seja de música erudita, semierudita ou popular. No repertório que apresenta dia 6 de março, às 20h, no CTJ Hall (706/906 Sul), constam peças de Osvaldo Lacerda, Ernesto Nazareth, Camargo Guarnieri e Rachmaninoff, entre outros.

duojota Priscila Jota Diógenes Parente e João Paulo de Andrade Junior são os violoncelistas que se apresentam domingo, 1º de março, no Espaço Cultural Alexandre Innecco ( 116 Norte). Formado em 2013 pela professora da Escola de Música de Brasília e pelo engenheiro civil e violoncelista diletante, o Duojota tem repertório que inclui músicas eruditas e populares, peças escritas originalmente para dois violoncelos, assim como arranjos sobre obras escritas para outras formações. O duo já se apresentou em diversos palcos brasilienses e participou do Curso Internacional de Verão de Brasília realizado pela Escola de Música. No programa do próximo recital estão peças de Joseph Haydn, Sebastian Lee, Cello Loft e músicas populares. Ingressos a partir de R$ 50, à venda no site www.alexandreinnecco.com.

duasemuma A Galeria Alfinete (116 Norte) apresenta, até 28 de fevereiro, as mostras Reino dos bichos e dos animais é meu nome (foto), de Marcelo Gandhi, e Mesa térrea, do brasiliense Derik Sorato. Na primeira, o artista potiguar tem como mote o uso da imagem animal como metáfora para discutir questões ligadas à ditadura de gênero, sexo e comportamento. Composta por desenhos, vídeos, objetos e pinturas, tem curadoria de João Angelini. Na segunda, o artista brasiliense apresenta sequências de trabalhos que se estruturam por meio de diferentes tratos da imagem, apontando para um mesmo fundo temático. As ideias de paisagem, natureza, arquitetura, lugar e noite dividem o plano dos seus desenhos, como elementos que estivessem sobre a superfície de uma mesa. Tem Rodrigo Cruz como curador. Aberta de quarta a sábado, das 15 às 20h, exceto sábado de Carnaval. Entrada franca.

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dia&noite poesiavisual Os 30 anos de carreira do artista plástico Wagner Barja estão na mostra Experiência Tumulto III, em cartaz no CCBB de 25 de fevereiro a 20 de abril. Com curadoria de Marisa Flórido César, apresenta uma reconstituição do seu extenso universo poético, em acervo de 30 obras, desde instalações em vídeoesculturas, confeccionadas em alumínio e bronze fundido, a objetos e fotografias de grandes dimensões. Há também vídeos, a maioria inéditos no Brasil, que apresentam registros de performances e intervenções urbanas realizadas ao longo de sua carreira. “Por meio de uma revisão de suas participações em algumas coletivas e individuais foi possível a reconstituição de um percurso que, ao final, apresenta uma visão de campo de uma complexa, expressiva e rica produção”, afirma a curadora. A exposição ocupa dois amplos espaços com obras das mais antigas às mais atuais, como é o caso de Armadilhas semânticas. Desde 1984 em processo de evolução, ganhou o prêmio Projéteis da Funarte em 2006 e será recriada para o módulo retrospectivo da exposição, que ocupará a galeria retangular do CCBB. Trata-se de poesia visual em foto e vídeo, com ação de micos que comem bananas e, com elas, formam as palavraschave para a interpretação do público. As mostras Experiência Tumulto I e II, apresentadas na Galeria Macunaíma (RJ) em 1985, foram recriadas para serem expostas na Galeria Cruce Pensamento Contemporâneo, em Madri, no Centro de Arte Moderna de Buenos Aires e no Conjunto Cultural da Caixa, em 2000. Agora, o público brasiliense poderá conferir a evolução desse trabalho na Experiência Tumulto III, que revela a extensa produção do artista e sua sintonia com o pensamento contemporâneo. De quarta a segunda-feira, das 9 às 21h. Entrada franca.

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retratodemulher Ele fotografa o mundo sensível das modelos, repleto de histórias, mas suas protagonistas são em geral mulheres de Brasília, “nem sempre modelos de profissão, mas pessoas como nós, mostrando que toda mulher tem sua beleza característica”. O fotógrafo brasiliense Bernardo Moreira apresenta seu trabalho Menina mulher, uma série de retratos de mulheres com idades entre 16 e 24 anos, na Fnac Brasília, até 10 de março. Quando tinha apenas 17 anos, uma foto de Bernardo foi escolhida no Mês da Fotografia de 2014, entre mais de cem concorrentes. A fotografia não foi um interesse repentino na sua vida: seu pai é fotógrafo e Bernardo ficava encantado com o barulho característico que ouvia da câmera. Sua jornada pela fotografia começou no final de 2010, meses antes de sua viagem para a Nova Zelândia, quando ganhou uma câmera profissional. Desde então foi se apaixonando cada vez mais e aprimorando suas técnicas. A exposição pode ser vista de segunda a sábado, das 10 às 22h, e domingo, das 12 às 20h, com entrada franca. Informações: 2105.2000.

Por que pessoas de todas as partes do Brasil escolheram sua capital para morar e fizeram dela uma cidade multicultural? A pergunta está sendo respondida por meio de imagens produzidas por 13 fotógrafos e artistas de Brasília, entre eles Kazuo Okubo, Anderson Schneider e Monique Renne. Está em cartaz, no gabinete da Presidência da Câmara dos Deputados, a mostra fotográfica Brasília, com acervo de 21 fotografias vindas da galeria de arte A Casa da Luz Vermelha, comandada por Okubo. A exposição revela detalhes sobre sensações, cotidianos e memórias da capital captadas pelos artistas e foi idealizada por Okubo. A curadoria é da arquiteta Rosely Nakagawa, curadora também do acervo permanente da galeria. As visitas acontecerão até 5 de abril, aos finais de semana e feriados, das 9 às 17h, com entrada franca.

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Esse é o nome da exposição concebida para receber os deputados federais recém-eleitos e que estará em cartaz até 8 de abril no corredor de acesso ao plenário da Câmara dos Deputados. Tem como proposta mostrar a evolução da representação popular no mundo e a história do Parlamento no Brasil, desde os seus primórdios, quando deputados brasileiros foram representados nas Cortes de Lisboa (1821), passando pela instalação da primeira Assembleia Constituinte (1823), até a atualidade, com destaque para os momentos em que o Legislativo teve papel relevante na vida política nacional. Imagens e textos registram momentos históricos do Legislativo, como o debate parlamentar sobre o fim do trabalho escravo, que precedeu a sanção da Lei Áurea (1888); o processo de redemocratização do país, com a votação da Lei da Anistia (1979); a luta pelo retorno das eleições diretas (1983/1984); e a mobilização da sociedade civil na Assembleia Constituinte (1987/1988). Todos os dias da semana, inclusive sábados, domingos e feriados, das 9 às 17h. Entrada franca.

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projetoplural Após o sucesso da primeira edição, o Feitiço Mineiro (306 Norte) apresenta mais uma promessa do cenário musical de Brasília. Desta vez, a convidada é Helen Dieb, que abre o Projeto Plural deste ano. Em seu primeiro show solo, apresenta um repertório de clássicos da música brasileira, revestidos com a chamada Nova MPB. Além de canções autorais, Helen irá imprimir sua própria identidade em sucessos de artistas como Vinícius de Moraes, Clara Nunes, Elis Regina e Ney Matogrosso. “A ideia é trazer as minhas inf luências sonoras para alguns dos artistas que sempre me provocaram nesta jornada musical”, explica a cantora. Para fazer jus ao Projeto Plural, que tem como premissa propor um desafio expressivo aos seus convidados, Dieb trará para o show suas poesias, obras plásticas e performances cênicas. Ela será acompanhada pelos instrumentistas Bruno Bezerra (teclado e cavaquinho) e Victorugo (violão, sintetizador, teclado e direção musical). O show tem direção cênica de Du Oliveira. Dia 19 de fevereiro, às 22h, com couvert artítico a R$ 15. Reservas: 3272.3032.

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Até 22 de fevereiro, o brasiliense vai poder assistir à mostra em que está sendo exibida a filmografia completa do polêmico diretor David Lynch. São 42 longas e curtas que ele produziu ou em que atuou, séries para tevê, material exclusivo para a internet, comerciais para a TV, além de filmes de sua filha, Jennifer Lynch, documentários sobre sua trajetória e outros de que participou. O curador da mostra, Mário Abbade, convida fãs de David e apaixonados por cinema para um batepapo, dia 19, às 19h, sobre a obra e trajetória do diretor, roteirista, produtor, artista visual, músico e ocasional ator norte-americano. “É a oportunidade para conhecer a fundo um dos diretores mais inf luentes das últimas décadas, além de abrir discussões sobre questões atuais como a do cinema digital em conf lito com o cinema em celuloide, já que Lynch afirmou que jamais usaria película novamente, uma vez que, para ele, esse formato limita suas ideias”, explica o curador. Entre os destaques da programação estão Coração selvagem (foto), vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1990, a ser exibido dia 13, às 17h30, Cidade dos sonhos, de 2001, dia 21, às 16h30, e Império dos Sonhos, de 2006, dia 22, às 14h. Na Caixa Cultural, com entrada franca, mas sujeita à lotação do teatro. Informações: 3206.9448.

Dia 13 e março, às 20 horas, o grupo Brasil 5/4, que reúne músicos de Brasília, se apresenta no CTJ Hall (706/906 Sul), às 20 horas. No repertório, arranjos inéditos de canções da MPB junto com obras autorais dos integrantes do grupo. Adil Silva, fundador e diretor musical, toca trombone e é responsável pelos arranjos; André Braz, bateria; Bruno Patrício, sax e f lauta; Félix Junior, violão, cavaquinho e bandolim; Flávio Silva, piano e sintetizador; Jhonata Medeiros, contrabaixo e tuba; Márcio Bezerra, clarinete e clarone; Moisés Alves, trompete e f lügel; Ellyas Lucas, trompete, f lügel e trompa. A formação de cinco instrumentos de sopro e quatro harmônicos e percussivos inspirou o nome do grupo. Entrada franca.

Isaac de Castro Alarcão

retrospectiva O óleo sobre tela ao lado pretende retratar a destruição das matas e cerrados e mostra bem como o homem tenta se adaptar à situação que ele próprio criou. Com um toque de surrealismo e bom humor, o artista plástico Isaac Alarcão dá seu grito pela vida e pela natureza. Tem sido assim há 41 anos, desde que se descobriu artista plástico buscando inspiração para seus desenhos e pinturas na fazenda de Anápolis onde nasceu e cresceu, sempre mostrando indignação pelas injustiças sociais. Uma retrospectiva com 50 telas produzidas por Alarcão entre 1973 e 2014 e alguns desenhos a lápis e carvão dos anos 80 ocupará a galeria de arte da CTJ Hall (706/707 Sul) a partir de 4 de março. São trabalhos com paisagens rurais, arraiais antigos e seus carros de boi, assim como telas da sua fase social e retratos do inconsciente, medos e vaidades presentes na fase onírica do artista. Atual diretor do Museu de Artes Plásticas Loures, em Anápolis, Alarcão tem trabalhos expostos em galerias e museus de Portugal, Alemanha, França, Itália, China, Estados Unidos, África do Sul, Japão, Argentina e Canadá. Entrada franca.

Ainda dá tempo, também, de assistir a alguns dos clássicos do cineasta francês tido como o mais lírico dos representantes da Nouvelle Vague, movimento que revolucionou o cinema francês na década de 1960. Morto há três décadas, François Truffaut era conhecido por sua grande paixão pelo cinema e pelas mulheres e se tornou um dos cineastas mais inf luentes do Século XX. Estão na programação exibida pela Casa da Cultura da América Latina seis filmes do diretor. Dia 19, às 12h30, será exibido O homem que amava as mulheres, de 1977, e dia 24 de fevereiro será a vez de O amor em fuga, de 1979. Finalmente, dia 26 de fevereiro, será exibido Contatos imediatos de 3º grau, de Steven Spielberg (1977), no qual Truffat faz o papel de Claude Lacombe, um cientista francês especialista em alienígenas. O Auditório Gonzaguinha da Casa da Cultura da América Latina fica no térreo do Edifício Anápolis (SCS, Quadra 4). Informações: 3321.5811. Sempre às 12h30, com entrada franca.

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Lúcia Leão

galeriadearte brasiliensedecoração

Do outro

lado da rua

Por Vicente Sá

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vida dos atores é muitas vezes mitificada pelos fãs, pela imprensa ou mesmo pelo tempo, esse escritor fantasma. A vida de Guilherme Reis, depois de mais de 40 anos dedicados ao teatro em Brasília, não poderia ser diferente. Numa das versões que circulam pela internet, ele é filho de um pai inglês com mãe goiana. Pura imaginação, garante: “Meu pai, André Reis, era carioca e professor da Escola Técnica Federal do Rio de Janeiro. Depois da Segunda Guer-

ra Mundial, como contrapartida a uma bolsa de estudos recebida, veio dar aulas na Escola Técnica de Goiânia. Para melhorar o salário, dava aulas de inglês. Daí talvez a nacionalidade inglesa”. O certo é que seu André se casou com Dona Vilah, uma de suas alunas, que era realmente goiana. Dessa união nasceram cinco filhos, entre eles Guilherme. Aventureiro, seu André veio buscar trabalho em Brasília, logo no seu início, em 1960. Guilherme tinha seis anos, olhos grandes e sedentos que ficavam encharcados ao acordar todas as manhãs, numa bem cui-

dada casa de madeira no acampamento do Serviço de Limpeza Urbana que ficava entre o Cota Mil e a AABB, em frente ao então recém-criado Lago Paranoá. Solto com os outros meninos do acampamento, Guilherme não cabia em si de tanto verde, tanta brincadeira e tanto céu azul, num lugar onde ainda se acordava vendo antas e capivaras e se podia passear de batelão aos cuidados de candangos simples como a vida daquela época. Foi no acampamento que assistiu às primeiras partidas de futebol disputadas pelos operários que, naquele tempo, tinham tempo e


Diego Bresani Irmaos Guimarães Hugo Rodas

Guilherme Reis nos palcos e no cinema: acima, com Natássia Garcia em Os demônios, de Antonio Abujamra e Hugo Rodas; ao lado, em Arlequim, servidor de dois patrões, de Hugo Rodas, e em Loucos por cinema, de André Luiz Oliveira; abaixo, em Vestido de noiva, dos irmãos Fernando e Adriano Guimarães.

Andre L Oliveira

direito a esse santo lazer brasileiro. Depois, na juventude, Guilherme seria um excelente pivô de futebol de salão, mas não devemos antecipar nossa história. Ainda nos primeiros anos de Brasília, a família mudou-se para a quadra 16, que vem a ser hoje a 707 Sul, ao lado da Praça 21 de Abril, em frente ao Cine Cultura e à Escola Parque, dois points culturais da época. “Foi uma infância maravilhosa, em uma outra Brasília! A praça era um imenso jardim com o coreto. Eu estudava no La Salle e meus irmãos no jardim de infância, que era na própria praça. Era tudo de bom!”, lembra Guilherme. Por essa época criou-se o primeiro clube de cinema de Brasília. A administração ficava na garagem de sua casa e os filmes eram projetados na Escola Parque. Cleide Fernandes, uma prima, tocava o projeto com o apoio do cineasta Geraldo Moraes, de Rogério Costa Rodrigues e de Paulino Celestino, entre outros. Assim, logo aos nove anos o menino Guilherme pôde entrar no mundo mágico de Gláuber Rocha, Buñuel, Fellini e Godard. E algumas vezes realizava o sonho de todos os meninos do mundo assistindo aos filmes da sala do projetista. “Depois foram as guerras de mamona, catar caju no cerrado, os carnavais que ainda eram na W3, o golpe militar, as passeatas, o futebol e a vida passando num pulo”, recorda Guilherme. O teatro entrou em sua vida no PréUniversitário, um colégio que, com seus cursos profissionalizantes voltados para arte, ajudou a abrir a cabeça de uma geração. “Lá tinha fotografia, jornalismo, cinema, teatro... e eu enlouqueci. Cursei fotografia com a Iara Pietricovsk, que era monitora, e acabei fazendo teatro, substituindo um ator que faltara em A invasão, de Dias Gomes. Eu, que sou vascaíno, fazia um garoto que queria jogar no Flamengo. Era para ter desistido do teatro ali mesmo”, brinca. De lá para cá, nunca mais se largaram, nem ele ao teatro nem o teatro a ele. Por necessidade, passou a também produzir espetáculos. “Era aquela coisa, ninguém nos grupos queria fazer o pedido da sala para ensaio e apresentação, ou buscar apoio e patrocínio; aí eu tomava a dianteira e acabei gostando”, explica. Como ator e produtor, participou de toda a movimentação cultural/teatral da cidade. Encenou João sem nome, um dos primeiros musicais de Osvaldo Montenegro, passou pelo grupo Pitu, com Hugo Rodas, trabalhou

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com os irmãos Guimarães, B. de Paiva e Antônio Abujamra. Dirigiu atrizes consagradas em Brasília, como Bidô Galvão e Carmem Moretzsohn, que também é sua companheira de vida há alguns anos. Fez vários longas-metragens, entre eles Loucos por cinema e Sagrado segredo, de André Luís Oliveira, O sonho não acabou, de Sérgio Resende, A república dos anjos, de Carlos del Pino, O cego que gritava luz e O troco, ambos de João Batista de Andrade. Também trabalhou na equipe responsável pelo roteiro de Araguaya – A conspiração do silêncio, de Ronaldo Duque. Mesmo sendo um ator requisitado e reconhecido, a inquietude de Guilherme Reis não cabia na profissão. Então, dedicou-se a algumas outras atividades ligadas à cultura, como criar o Festival Latino Americano de Arte e Cultura (Flaac), na Universidade de Brasília, ou gerenciar, no final da década de 1980, a crise da Fundação Brasileira de Teatro, lançando o projeto Temporada nacional, que tirou do buraco a Universidade Dulcina, no Conic. Ou, ainda, inaugurar o Teatro Goldoni, em 1999, com a peça Réveillon. Uma de suas maiores contribuições à cultura brasiliense foi, sem dúvida, a criação do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, que desde 1995 traz à cidade espetáculos de algumas das melhores companhias teatrais do mundo. Em 1999, Guilherme viajou para o Canadá e os Estados Unidos, para aprofundar seus conhecimentos em gestão de espaços culturais e grupos teatrais, modalidades de financiamento e tudo que sempre quis saber e não tinha a quem perguntar no Brasil. Ao retornar, continuou trabalhando em teatro e cinema e desde 2005 dirige o grupo Cena, responsável por um sem número de montagens no Brasil e no exterior, como Dinossauros, com Murilo Grossi e Carmem Moretzsohn, e o pequeno Teatro Cena, na 205 Norte, onde se apresentam músicos e atores e são feitos lançamentos de livros e exposições. No final de dezembro, nosso incansável personagem foi convidado pelo governador eleito Rodrigo Rollemberg para assumir a Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Como era de se esperar, aceitou prontamente, e hoje encara uma Secretaria com pouca verba e escassos funcionários, mas que ele acredita que pode insuflar e muito a cultura do Distrito Federal. Pelo que tem demostrado em toda a sua vida, a luta vai ser boa e a torcida está com ele.

ENTREVISTA / GUILHERME REIS, secretário de cultura

Os artistas, os produtores culturais e a população em geral – sem excluir o próprio governo – estão saturados da “política cultural ultrapassada” desenvolvida na cidade ao longo dos últimos 30 anos. Esse é o diagnóstico do Secretário de Cultura, Guilherme Reis, que assumiu o cargo “confiante como um louco” de que poderá respirar fundo e dar um passo à frente, levando Brasília novamente à vanguarda da política cultural no Brasil. Nesta entrevista exclusiva, ele responde às perguntas da equipe de Jornalistas da Roteiro* e assume o compromisso de “fazer o que for necessário” para mudar – e aprimorar – a gestão da cultura no Distrito Federal. Por que aceitou esse desafio? Porque eu sou louco! (risos). Falando sério: primeiro, porque acredito nas poderosas intenções do governador Rodrigo Rollemberg e Brasília não aguentava mais essa política tão rastaquera. Hoje, Brasília é um exemplo do que de pior se pode fazer em termos de política cultural neste país, na América Latina. São trinta e tantos anos de abandono, algumas tentativas, boas intenções, mas que não transformaram esse quadro. Eu venho

falando isso e alguém pergunta: e aí, topa pegar o touro a unha? E eu achei que era uma hora interessante, especialmente pela forma com que o governador Rodrigo Rollemberg me fez o convite. Quando perguntei o que esperava de mim, ele respondeu: “Que faça o seu trabalho. Você tem carta branca, monte sua equipe e trabalhe”. Está sendo assim. Estou montando minha equipe com técnicos que conheço e em quem acredito. Está na hora de a gente recuperar um pouco da imagem de Brasília para o Brasil e para a gente mesmo.


Está na hora de voltarmos a gostar de nós mesmos e da Secretaria de Cultura reassumir seu papel como formuladora de política pública na área da cultura

Antes de sair qualquer outro novo museu a gente tem que dar estrutura aos que já existem. Não vamos pensar em criar qualquer coisa nova se o MAB ainda não está aberto.

Os artistas e produtores reclamam que E a situação do Museu Nacional? não foram ouvidos pela Secretaria de Não existe mais a possibilidade de federaCultura nos últimos quatro anos. Você lização do Museu Nacional. O que existe vai ouvi-los agora? é a possiblidade de compartilhar uma gesJá começamos a conversar loucamente, eu tão com apoio do Ministério da Cultura. e minha equipe. Nossa primeira medida O Museu Nacional é nosso. foi reformular, reestruturar a Secretaria, que agora tem uma subsecretaria de polítiA Secretaria de Cultura fará alguma cas culturais para fazer as análises e comeparceria com a Secretaria de Educação çar a dar rumo às coisas. Já começamos as para melhorar o nível cultural das criandiscussões com a sociedade e na medida ças das escolas públicas do DF? em que a saúde financeira do GDF meClaro que sim, e quem mais quer isso e lhore vamos melhorar também nossa esestá nos buscando é a Secretaria de Educatrutura. De forma correta, sistêmica e ção. Montamos uma comissão que já está aproveitando tudo que já foi feito e engatrabalhando neste início de ano letivo. Ela vetado. Durante os seis primeiros meses, tem duas pessoas na linha de frente, um nosso trabalho será essencialmente discujovem chamado Glauber tir com a sociedade e estuCoradesqui, mestre em dar como mudar o caráter "Brasília é um mediação cultural para esda Secretaria. Eu não quero mais uma Secretaria de exemplo do que de colas, e o bem vivido Carlos Alberto Xavier, que vai eventos, nem eu nem a cipior se pode fazer se incumbir de buscar didade aguentamos mais. nheiro, estrutura, apoio. Precisamos de instrumenem termos de Juntos, vamos começar tos corretos para fazer isso. política cultural. um trabalho novo, de Então, é preciso que as ponta, e mais uma vez a pessoas da nossa equipe Vamos precisar gente pode ser um exemsentem em suas mesas e de 20 anos de plo para o Brasil. Mas não comecem a trabalhar. quero reproduzir o que Acho que vamos precisar trabalho contínuo nós, artistas, já vivemos de 20 anos de trabalho para recuperar durante muitos anos em contínuo para consertar os projetos como o Plateia ou 30 para trás. Mas temos os 30 para trás." o Arte por toda parte, que que começar! levavam os artistas até a constrangimentos de se apresentar sem Quais são os planos para a Rádio nenhuma estrutura para um público não Cultura, em termos de jornalismo e preparado. programação musical? Recuperar o papel histórico que ela já teve, E o Polo de Cinema, o que será feito dele? de ser uma rádio de ponta onde a gente esAinda não tenho a menor ideia. cutava pela primeira vez muita coisa, que era referência para os produtores e consuQual será a escala de prioridade para a midores de cultura da cidade. O Diógenes revitalização de espaços culturais hoje Barbosa já assumiu a direção e convidei o desativados, como o Teatro Nacional, o Marquinho Pinheiro e o Celso Araújo paEspaço Cultural Renato Russo, o MAB ra integrarem a equipe ao lado da moçada e outros? que está lá – a Paola Anttoni, a Sheila O Teatro Nacional é um caso mais sério. Campos e o Tenisson Ottoni. Vamos reA obra está orçada em R$ 230 milhões. cuperar uma grande equipe. Eu acho muito cara, ainda mais neste momento que a gente está vivendo. Vou ter Tempos atrás propagou-se que Brasília teuma reunião com a equipe de arquitetos ria um Museu Nacional da Imagem e do do projeto, que já está pago, para ver se é Som. A agenda de cultura do governo isso mesmo, se a gente vai conseguir tocar Rollemberg contempla algo parecido?

ou se ele será revisto para diminuir os custos. Mas temos que dar um jeito de abrir, buscando dinheiro fora, apoio do BNDES... ainda não sei bem qual é o caminho. No caso da 508 Sul, do Espaço Renato Russo, é claro que o ideal seria fazer um projeto bonito e abrir com um padrão de primeiríssimo mundo, mas não temos dinheiro para isso agora. Será que a gente consegue resolver problemas pontuais e reabrir já? Essa é a minha ideia. Se aparecer um dinheiro lá na frente a gente faz toda a reforma necessária. Mas minha intenção, neste momento, é estudar como posso reabrir o espaço já. No MAB e no Centro de Dança as reformas foram iniciadas e andam a passo lento. Estamos tentando incluir essas duas obras num empréstimo emergencial e concluí-las até o final do ano ou início do ano que vem. Fora o Teatro Nacional, que é mais complicado, queremos devolver todos os espaços culturais para a cidade até 2016. Os grandes eventos culturais da cidade (Festival de Cinema, Porão do Rock, Cena Contemporânea) ainda estão limitados, de uma forma geral, ao público da cidade. Brasília pode se tornar um ponto de turismo cultural? Acredita que a solução está mais ligada à iniciativa pública ou privada? Eu acho que sim, que a gente tem que pensar em um calendário correto agora para atrair turistas. Há um interesse muito grande do Jaime Recena, Secretário de Turismo, para que isso aconteça. De preferência com recursos privados, de patrocínio de leis de incentivo. Quando se trabalha com a iniciativa privada, como o Cena Contemporânea, que eu administrei durante tantos anos, você trabalha no efeito sanfona. Quando tem mais dinheiro, o evento é mais aberto; quando tem pouco, é mais fechado. Eu acho que em 2015 estará todo mundo mais fechado, mas não vai deixar de fazer e fazer bonito. A gente tem que modernizar a gestão desses espaços e desses projetos. O governo não suporta mais esse tipo de gestão e nunca suportou, tanto que está tudo fechado. Então, está na hora de respirar fundo, dar um passo à frente e modernizar a gestão. * Vicente Sá, Lúcia Leão, Cláudio Ferreira,

Heitor Menezes, Súsan Faria, Maria Teresa Fernandes, Vilany Kehrle e Pedro Brandt.

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criaçãocoletiva

O serígrafo Leandro Mello imprimindo camisetas "da hora".

O artista plástico Helder Spaniol em atividade criativa no computador.

Arte compartilhada Texto e fotos Lúcia Leão

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um certo dia do século passado, tempo em que as paredes eram mais tagarelas, uma delas falou: ou a gente se Raoni ou a gente se Sting. O poeta Luiz Turiba percebeu a beleza da forma e da mensagem e fez dela um verso. Pouca gente com menos de 40 anos há de se lembrar hoje do cacique que era, à época, nossa maior liderança indígena, e do cantor inglês, vocalista do The Police, que empunhou a bandeira da defesa da Amazônia e dos povos da floresta. Mas a ideia apregoada no jogo de palavras parece mais forte do que nunca: unir forças é o modo mais fácil – e às vezes o único – de materializar sonhos. Foi essa crença – ou melhor, essa constatação – que juntou um punhado de artistas, no final de 2013, no “Sindicato 35”. 35 porque esse é o número da casa do bloco A da 705 Sul que abriga o grupo. E Sindicato “porque sim”! Uma brincadeira co-

mo tantas que aliviam a lida cotidiana de trabalho e criação que move a casa. A primeira motivação desse “coletivo” – uma forma de organização de inspiração anarquista que prolifera tanto em Brasília como mundo afora – foi viabilizar um espaço de trabalho para cada um de seus integrantes. Com o aluguel rateado, a casa, bem espaçosa, foi dividida para abrigar ilhas de edição, oficina de serigrafia, escritórios de produção e estúdio, além de preservar espaços de uso comum de trabalho e lazer. Com a recente adesão da Caminho do Meio, produtora da cineasta Tania Quaresma, hoje são quatro os núcleos de produção/criação instalados no Sindicato. Os outros são o Ilustrativa, estúdio dos designers Santiago Mourão, Eduardo Belga, Gabriel Góes e André Valente, que trabalha principalmente na área publicitária e promove cursos de desenho, ilustração, serigrafia e outras artes gráficas; a Pimba Press, editora do jornal Pimba e outras pu-

blicações de quadrinhos, coordenada por Leandro Mello – que é também serígrafo – e Felipe Sobreira; e o Confronto Sound System, estúdio do doublê de DJ e diretor de arte Claudius Ferigato, organizador, entre outros, dos já tradicionais eventos de hip hop do Conic. O artista plástico Helder Spaniol e a produtora Geralda Magela completam a trupe dos “sindicalizados”. Com tanta energia criativa e força produtiva pulsando sob o mesmo teto, era inevitável a fusão de ideias e a complementação de expertises em produtos e ações coletivas “da hora” – jargão apropriado pelo grupo para definir tudo de bom e que às vezes também é aplicado no sentido literal. Como no evento que aconteceu no último dia 7, o Camisetas da hora, em que os artistas da casa, junto com ilustradores e serígrafos convidados, montaram mesas de impressão para estampar camisetas “da hora” “na hora”, em peças que o público levou, cada um a sua, e pagou pela impressão. E como num coletivo tudo é festa, o


O designer Santiago Mourão em frente à colorida casa da 705 Sul.

Numa espaçosa e colorida casa da W3 Sul, um punhado de artistas se divide entre artes plásticas, desenho, ilustração, serigrafia, artes gráficas, edição de jornais e revistas em quadrinhos, produção de cinema e estúdio de som. Camisetas da hora foi uma grande celebração, com um dia inteiro de trabalho embalado por muita música, uma cervejinha de leve e até cinema (trash) para encerrar o dia. Um dia, aliás, bem família. Um tipo de família nem tão convencional, mas de netos, filhos e avós “da hora”. “Da hora” é também a opção dos artistas que se juntaram no Sindicato pelas técnicas analógicas e produtos palpáveis, como o tecido e o papel. A loja virtual que o coletivo mantém no endereço www.sindicato.art.br oferece jornais e publicações diversas, gravuras e camisetas impressas uma a uma em serigrafia. Quase uma ode ao papa da comunicação da era hyppie Marshall McLuhan, que apregoava que “o meio é a mensagem”. Não se trata, no caso da casa, dos efeitos devastadores das mensagens difundidas pelos veículos de massa – foco do filósofo canadense – mas uma versão “do bem”, da utilização de técnicas e materiais que remetem ao tempo em que os jovens come-

çaram a testar novas formas de organização e de vida em contraposição ao individualismo e ao consumismo exacerbado do pós-Segunda Guerra. “Nossa intenção não é sermos alternativos, como os hippies da década de 1970 ou como a sociedade alternativa do Raul Seixas. Nós queremos fazer nossa arte, produzir de forma criativa, e nos sustentar com isso. Ainda não conseguimos, mas essa é a meta. E pra chegar lá juntamos pessoas que tenham interação, identidade, para se apoiarem mutuamente. É tudo muito orgânico no coletivo”, define o sindicalizado Santiago Mourão. Com a tranquilidade de quem vivenciou os ateliês comunitários hippies, ancestrais dos atuais coletivos, a sindicalizada decana Tania Quaresma é bem pragmática. “Eu moro numa chácara afastada do centro de Brasília e precisava de uma base na cidade para montar a produtora e eventualmente passar alguns dias da semana. Encontrei aqui o espaço perfeito, em com-

panhia perfeita e com um custo perfeito”, resume a cineasta, que ainda não assimilou o “da hora”, mas está ansiosa para dividir também produções com o coletivo. E assim também começa a acontecer, na prática, a revitalização da W3 Sul. Ninguém contesta que a casa 35, reformada e agora com fachada colorida, dá uma nova cara e valoriza aquele quarteirão da 705. Como aconteceu com a 703 depois da instalação do Cine Memória, museu criado e mantido pelo cineasta Vladimir Carvalho. Mais adiante, outros coletivos, o Espaço Laje e o Pântano de Manga, provocam o mesmo bom efeito respectivamente na 706 e na 708. E quem sabe esse movimento acabe por conseguir, nessa tão charmosa e querida avenida de Brasília, o mesmo resultado que os estúdios e galerias undergrounds produziram no Soho. Eles ocuparam o bairro novaiorquino, na década de 1960, atraídos pelo espaços amplos e aluguéis baratos dos lofts, e o transformaram em ponto chic da Big Apple.

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Fotos: Maciej Rusinek

queespetáculo

Passos

de esperança

Por Júlia Viegas

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moção, delicadeza, profundidade. Sentimentos e qualidades que estão na base da dança butô dão o tom do espetáculo Fukushima mon amour, o novo solo do japonês Tadashi Endo, que faz uma rápida passagem por Brasília, de 6 a 8 de março, no teatro da Caixa Cultural. Endo é um dos maiores nomes da dança butô hoje no mundo. Radicado há 40 anos na Alemanha, onde mantém uma escola na cidade de Göttingen, o bailarino e coreógrafo condensa, em sua dança, a tradição do Oriente e as vanguardas artísticas contemporâneas do Ocidente. Ele mesmo diz que, no fundo, permanece em foco a espécie de “transe” do butô. Mas as outras informações estão todas lá, em sua formação – ele estudou direção teatral em Viena. Em Fukushima mon amour (o título é uma referência clara ao clássico Hiroshima mon amour, filme que o francês Alain Resnais dirigiu em 1959), o artista procura vivenciar todas as situações desencadeadas pela tragédia que caiu sobre o Japão em 2011: o tsunami seguido de um acidente nuclear. Mas ele já afirmou seguidas vezes

que o “o tema é Fukushima, mas o importante mesmo é o mon amour do título”. Com isso, quer passar um recado: é preciso relembrar a dor gerada pela tragédia, mas, sobretudo, falar do renascimento da vida com a esperança. “Se você está feliz, você não precisa dançar, mas se você está triste ou sente dor, você tem que dançar”, costuma repetir. O espetáculo estreou em dezembro de 2012 em Hannover, na Alemanha, e desde então está em turnê, tendo passado por vários países da Europa. No Brasil, esteve em Recife, Fortaleza e São Paulo. De Brasília, segue para a Suíça, Estados Unidos e Costa Rica. Fukushima mon amour tem um atrativo a mais para o público brasileiro: a trilha sonora especialmente composta pelo músico mineiro Daniel Maia. Aliás, a história da música merece um capítulo à parte. Daniel e Tadashi foram parceiros antes, em 2010, na montagem do espetáculo MabeMa (no qual Tadashi dirigiu atores brasileiros num trabalho inspirado no pintor Manabu Mabe). Ao decidir abordar o tema do acidente em Fukushima, o japonês lembrou-se do músico brasileiro e

o convidou a fazer uma residência artística em sua casa, em Göttingen. Daniel foi para lá e encontrou o bailarino e sua esposa secando a casa depois de uma chuva torrencial. Era a imersão numa pequena tragédia cotidiana que faltava. Os dois trabalharam juntos vários dias. O bailarino trazia referências que o músico foi incorporando. De imagens da cidade de Hiroshima logo após a explosão da bomba atômica, na Segunda Guerra, a fotos de Auschwitz e Pompeia. Foi surgindo uma música pontuada por gritos e sussurros. Ao voltar para o Brasil, Daniel deixou a trilha sonora pronta para só então Tadashi elaborar a movimentação. No palco, o bailarino conta apenas com seu corpo e projeções de paisagens e sombras. Mas Tadashi Endo preenche o espaço com sua expressividade. E surpreende sempre. Afinal, ele mesmo costuma dizer que gosta de movimentos que desafiem seu conforto. Mais uma lição do mestre. Fukushima mon amour

6 e 7/3, às 20h, e 8/3, às 19h, na Caixa Cultural (SBS, Quadra 4). Ingressos: R$ 20 e R$ 10. Classificação indicativa: 14 anos. Mais informações: 3206.9448/3206.9449.


Vida de artista de abril no Espaço Cena, na 205 Norte. Maíra conhece o ofício como poucos. Ela é filha do ator, diretor e agitador cultural Ary Pára-Raios, criador do Esquadrão da Vida, em 1979. Desde pequena respira teatro, música, circo. Com a morte do pai, em 2003, assumiu a direção da trupe. Na época, ela já atuava como assistente de direção. Conhecia bem de perto a visão particular que o pai tinha do teatro de rua. E foi só uma questão de adaptação. Aos poucos, a jovem atriz/diretora foi injetando sua própria personalidade nas criações do grupo. Dividindo a direção com o mestre João Antonio de Lima Esteves e contando com a direção musical do grande violeiro Ro-

berto Corrêa, Maíra repassa seu compromisso com a arte e compartilha com o público sua vida dedicada ao teatro. Procura dar sua resposta à pergunta: por que fazer teatro? “Talvez não exista uma resposta objetiva”, diz ela. “No entanto, a tentativa de se fazer um espetáculo que tente respondê-la, de alguma forma, pode nos dar a dimensão da importância da arte no mundo em que vivemos, nos mostrar que sua potência cria agitação e crescimento em toda parte, substituindo a conformidade em cada cidadão por um dote de poder imaginativo, essencial para a afirmação do poder transformador da humanidade”. Na composição do monólogo estão textos, memórias, cartas, músicas, poemas e imagens que fazem parte da trajetória de vida da atriz, assim como do Esquadrão da Vida e de seu pai. Um emaranhado de histórias e depoimentos que, juntos, compõem uma análise poética sobre a escolha profissional da artista. Todas as apresentações serão gratuitas e acompanhadas de debates. (J.V.) Quando o coração transborda

7/3, às 21h, e 8/3, às 20h, no Espaço Pé Direito (Vila Telebrasília); 14/3, às 20h, e 15/3, às 21h, no Mercado Sul – Invenção Brasileira (Taguatinga); 21/3, às 20h, e 22/3, às 19h, no Imaginário Cultural (Samambaia); 28/3, às 20h, e 29/3, às 19h, no Espaço Cultural Bagagem (Gama); de 3 a 26/4 – sextas e sábados, às 21h; domingos, às 20h, no Espaço Cena (205 Norte, Bloco C).

Foto Marcelo Nenevê

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uem já assistiu a uma apresentação do Esquadrão da Vida, o grupo de teatro de rua pioneiro de Brasília, certamente se deparou com a energia esfuziante de Maíra Oliveira. Desde criança, nos primeiros tempos da companhia, a atriz emprestou seu talento, seu sorriso largo e a voz vibrante a personagens que misturam a linguagem do circo com a música, a dança, o teatro. Agora, Maíra Oliveira decidiu encarar outro desafio: subir ao palco, sozinha, e falar do ofício de artista. Este é o foco do espetáculo Quando o coração transborda, que, ao longo do mês de março, de 7 a 29, poderá ser visto em quatro diferentes espaços do Distrito Federal, e em todos os fins de semana

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graves&agudos

Estrela de primeira grandeza Por Heitor Menezes

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mexe com isso quem for autêntico. Se o blues for vazio, melhor virar burocrata. E autenticidade é o que não falta à estrela inglesa Joss Stone, que, depois de algumas visitas ao Brasil, finalmente colocou Brasília no roteiro, dia 13 de março, no Net Live (cercanias da Vila Planalto). O show integra a turnê Total world tour, que prevê apresentações em 204 países. Isso mesmo. A cantora informa em seu website que pretende fazer pelo menos uma apresentação em cada país deste planeta. Em cada lugar, Stone pretende interagir com artistas locais, num diálogo Divulgação

amor que os britânicos têm pela black music, assim entendida como aquela vertente em cujo DNA encontram-se traços de blues, soul, rhythm’n’blues, jazz, funk e afins, vem gerando continuamente artistas de alto calibre na velha Albion. Nomes como Amy Winehouse, Adele e Joss Stone são apenas expressões mais “recentes” de uma longa linhagem apaixonada pelos gêneros da black music norte-americana que nunca deixaram de chegar à Grã-Bretanha. Regra óbvia nesse meio musical: só

só possível porque a música é a verdadeira linguagem universal. Aliás, em seu site tem um vídeo da loira caindo numa roda de samba em São Paulo. É ver para crer. Se Joss Stone ainda precisa de credenciais para o brasiliense se animar e ir conferir, eis algumas. Seu disco de estreia, The soul sessions, de 2003, não obstante ter sido um sucesso mundial em vendas, apresentou uma menina prodígio de 16 anos cantando como uma profissional e cercada de bambas da soul music, como a cantora norte-americana Betty Wright e músicos da ponte aérea Miami-Philadelphia. Com certeza esse álbum entra na lista dos discos para se levar para uma ilha deserta (como e com quem, isso fica com o leitor). The soul sessions é um disco de covers, que tem Super duper love (Are you diggin’ on me?) (original de Sugar Billy, 1974) e All the king’s horses (Aretha Franklin, 1972), entre outros números de Carla Thomas, The Isley Brothers e, a grande surpresa, Fell in love with a boy, canção de 2001 da banda White Stripes, de Jack White. Todos os trabalhos posteriores de Joss Stone são dignos de serem degustados. Como tem uma carreira muito bem orientada e parece ser uma moça ajuizada, ela soube variar a paleta musical, seja em parcerias (Mick Jagger, Jeff Beck, Raphael Saadiq, Nas, Common, David Sanborn, Dave Stewart), seja no repertório ampliado e em covers muito bem selecionadas. The soul sessions volume 2, lançado em 2012, pega onde o primeiro parou. Contém a sensacional Teardrops, da dupla Womack & Womack, e números que fazem a festa de quem tem familiaridade com o soul, o blues, enfim, a mais fina e sublime black music e suas joias, ouro negro para a alma. Se não bastasse, a credencial visual é mesmo impactante: linda, jovem, loira e descalça. Uma estrela de primeira grandeza sobrevoando o imenso céu de Brasília. Imperdível. Joss Stone – Total world tour

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13/3, às 21h30, no Net Live (Setor de Hotéis de Turismo Norte). Ingressos (meia): pista, R$ 130; pista premium, R$ 200; camarote, R$ 250. Classificação indicativa: 14 anos (de 8 a 13 anos, só com acompanhante)


Por Heitor Menezes

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gosto pela palavra, a palavra poética, que já foi o luxo de uma outrora gloriosa música popular brasileira, pode parecer, nestes tempos, algo meio abandonado, maltratado e com intenções constrangedoras. Não vamos dar exemplos e nem estamos falando de canções que esculacham o vernáculo, a gramática normativa. Para isso, inventaram a linguística, que, generosa, admite as licenças poéticas, o “falar errado”, tendo em vista o bem maior que é a comunicação entre as pessoas. Quem souber fazer um bom uso de um saco de caranguejos, parabéns. Mas sempre que nos visitam artistas como a cantora Maria Bethânia (em cartaz no dia 6 de março, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães), vale a pena dar uma pausa na vida de fast food, esse negócio de “kkk”, “rsrsrs” e excesso de coisas que insaciavelmente engolimos e viciosamente digitamos em nossas traquitanas eletrônicas. Carinho com a palavra, a palavra que toca fundo na alma, parece ser a estrela do norte que Maria Bethânia traz no peito há exatos 50 anos, desde que despontou para o público, no Rio de Janeiro, no lendário espetáculo Opinião, aquele em que a jovem baiana de Santo Amaro da Purificação entoava Carcará, ao lado de figuras como Zé Keti, João do Vale e Augusto Boal. Cinquenta anos de carreira da caçula da MPB (ela, 68; os outros, 70 e tantos) é o mote do espetáculo Abraçar e agradecer, que, como o nome diz, abraça a humildade e resume em qualidade zen uma longa jornada pelos caminhos da música popular, do teatro e da poesia, este último biscoito fino, artigo raro que demanda do ouvinte/leitor entrega e verdade, viver e amar, cair e levantar. Novamente sob a direção e cenografia de Bia Lessa (responsável pelos espetácu-

jornada

los Carta de amor, Amor, festa e devoção e Dentro do mar tem rio) e produção musical de Guto Graça Mello, Maria Bethânia passa em revista a vitoriosa carreira, repleta de grandes sucessos e gravações de cunho pessoal, aquele momento em que o (a) artista não precisa provar mais nada pra ninguém. Portanto, segure-se na poltrona quando a grande dama Bethânia entoar Dindin (Antonio Carlos Jobim), Negue (Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos), Dora (Dorival Caymmi) e Tatuagem (Chico Buarque), emendar pot-pourris, poemas expressivamente declamados e as canções reunidas no DVD Carta de amor, lançado em 2014. Sua versão de Je ne regrette rien,

de Edith Piaff, tem sido muito elogiada. Intrigado com o segredo de Maria Bethânia? Vá com o espírito desarmado e lembre-se que Milton Nascimento explica alguma coisa na letra de Canções e momentos: “Há canções e há momentos / Eu não sei como explicar / Em que a voz é um instrumento / Que eu não posso controlar / Ela vai ao infinito / Ela amarra todos nós / E é um só sentimento na plateia e na voz”. Maria Bethânia – Abraçar e agradecer

6/3, às 21h20, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Ingressos: R$ 100 e R$ 50, à venda na Central de Ingressos do Brasília Shopping, www.ingressorapido.com.br e 4003.1212. Classificação indicativa: 16 anos (menores somente acompanhados dos pais).

Vinícius P.

Invejável

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graves&agudos

Ano de Dominguinhos Divulgação

Por Súsan Faria

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osé Domingos de Morais, o Neném, ou melhor, o sanfoneiro Dominguinhos, será o homenageado do Clube do Choro este ano. Na verdade, as homenagens já começaram na página do Facebook do clube, que passou a estampar fotos, vídeos, comentários e muita música do virtuoso instrumentista, cantor e compositor pernambucano que fez mais de 200 composições, tocou em feiras, bares, casas noturnas, ginásios e clubes, fazendo festa e proporcionando muitas alegrias aos brasileiros. Nos últimos 17 anos, ele lotou por diversas vezes o Clube do Choro, que agora reviverá com saudade parte do legado do afilhado musical de Gonzagão. Alguns meses antes de morrer, Dominguinhos emo­ cionou quem foi ao seu ­­­ show no Clube do Choro, já doente, mas tocando sanfona e cantando com todo o brilho e talento que o consagraram como um dos melhores sanfoneiros de todos os tempos. Agora, a partir de março (possivelmente no dia 4) e até dezembro, será a vez de todos os artistas que subirem naquele palco reverenciarem o músico, tocando algumas de suas composições, assim como, em 2014, foi feito com o compositor João Donato e em anos anteriores com talentos nacionais como Chico Buarque, Chiquinha Gonzaga, Valdir Azevedo e Ernesto Nazaré. “Dominguinhos é um artista que merece de sobra essa homenagem, por toda sua história, sua contribuição à música moderna e popular brasileira, por ter exercido com categoria o papel que Luiz Gonzaga lhe agraciou”, afirma o presidente do Clube do Choro, Reco do Bandolim. Pernambucano de Garanhuns, filho do mes-

tre Chicão, um tocador e afinador de fole de oito baixos, Dominguinhos na infância formou trio com os irmãos (sanfona e zabumba). Em 1948, na porta de um hotel em Pernambuco, foi ouvido por Luiz Gonzaga, que ficou encantado. Em 1954, foi para o Rio da Janeiro e passou a contar com o apoio de Gonzagão, que o apresentou à imprensa como seu herdeiro musical e sugeriu a troca do nome artístico Neném por Dominguinhos, em homenagem ao músico Domingos Ambrósio. Os dois fizeram alguns shows juntos e Dominguinhos começou a se apresentar na Rádio Nacional e a gravar. O milagre de Santa Luzia, longa-metragem de Sérgio Roizenblit vencedor do Candango de melhor trilha sonora e do Prêmio Vagalume de melhor filme no 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro,

é um dos filmes sobre Dominguinhos. Outro é Dominguinhos canta e conta Luiz Gonzaga, de Maurício Machado. A biografia Dominguinhos – O Neném de Garanhuns foi escrita pelo pesquisador e historiador Antônio Vilela de Souza. De volta pro aconchego, Isso aqui tá bom demais, Eu só quero um xodó, Gostoso demais e Xote das meninas são algumas das composições dos 42 discos gravados pelo sanfoneiro, que morreu em julho de 2013, aos 72 anos. O Ministério da Cultura já aprovou o projeto 2015 para o Clube do Choro continuar com as apresentações – de quarta a sexta-feira – de artistas nacionais e internacionais, e nos demais dias com a “prata da casa” (artistas de Brasília). A fase atual é de busca de patrocínios. O projeto da Escola de Música Raphael Rabelo, que funciona nas dependências do clube, também continua em alta. Cerca de 1.200 alunos se matricularam este ano. O sucesso desse espaço tão brasiliense, com cerca de 400 lugares quase sempre lotados e grandes atrações musicais, se deve à boa qualidade e à genuína cultura brasileira exibida nos shows, sempre transmitidos, depois, em emissoras de TV como a do Senado, a da Câmara Federal e a TV Brasil. A programação do projeto Dominguinhos para sempre ainda não está fechada, mas os convites começam a ser feitos especialmente para sanfoneiros e forrozeiros se exibirem. Pianistas, bandolinistas e outros músicos de destaque também terão seu lugar no Clube do Choro. Dominguinhos para sempre

Shows de instrumentistas nacionais e internacionais, a partir de março, no Clube do Choro (Setor de Divulgação Cultural, Bloco G, entre a Torre de TV e o Centro de Convenções Ulysses Guimarães). Mais informações: 3224.0599 e www.clubedochoro.com.br.


LUZCÂMERAAÇÃO

Palhaço genial Por Pedro Brandt

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o longo de sua trajetória artística, Jerry Lewis deu vida a diversos tipos cômicos, adoráveis trapalhões que fizeram o público rir e se emocionar em inesquecíveis comédias. Sua habilidade cênica para encarnar personagens desastrados o tornou uma referência para incontáveis humoristas. Um autêntico talento na frente das câmeras, ele também se destacou nos bastidores como roteirista e diretor. A mostra Jerry Lewis – O rei da comédia, em cartaz no cinema do Centro Cultural Banco do Brasil de 18 de fevereiro a 16 de março, de quarta a segunda-feira, presta homenagem ao ator americano com uma programação formada por 23 filmes. Serão exibidos longas-metragens como Ou vai ou racha (1956), representante exemplar da produtiva parceria de Lewis com Dean Martin, e O professor aloprado (1963), no qual o ator assina também roteiro e direção. “Os dois são filmes radicais e sem concessões, paradigmas não só do cinema americano burlesco, mas também do cinema moderno”, aponta Francis Vogner dos Reis, curador que assina a mostra com Paulo Santos Lima. Com projeções digitais e em 35 mm, Jerry Lewis – O rei da comédia se propõe a jogar luz no lado mais autoral de Jerry Lewis, com filmes que abordam de maneira inteligente e irreverente temas como estilo de vida americano, a fragilidade humana e a delinquência juvenil. Além dos filmes, a mostra oferece uma oportunidade de conhecer melhor o lado cineasta de Jerry Lewis com a realização de um debate em 6 de março, às 20h40, com a participação dos críticos de cinema Luiz Soares Júnior e Marcelo Miranda. Jerry Lewis – O rei da comédia

De 18/2 a 16/3 no CCBBl, com sessões de quarta a segunda-feira, às 18h30 e às 20h30. Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (meia). Mais informações: 3108.7600 e www.culturabancodobrasil.com.br.

Divulgação

Mostra com 23 filmes apresenta as diversas facetas do ator, roteirista e diretor Jerry Lewis

Filmografia Um palhaço no batalhão (1950), de Hal Walker Morrendo de medo (1953), de George Marshall Artistas e modelos (1955), de Frank Tashlin Ou vai ou racha (1956), de Frank Tashlin O rei do laço (1956), de Norman Taurog O delinquente delicado (1957), de Don McGuire Bancando a ama seca (1958), Frank Tashlin O rei dos mágicos (1959), Frank Tashlin O mensageiro trapalhão (1960), de Jerry Lewis Cinderelo sem sapato (1961), de Frank Tashlin Mocinho encrenqueiro (1961), de Jerry Lewis

O terror das mulheres (1961), de Jerry Lewis Detetive Mixuruca (1962), de Frank Tashlin Errado pra cachorro (1963), de Frank Tashlin O professor aloprado (1963), de Jerry Lewis (foto acima) O bagunceiro arrumadinho (1964), de Frank Tashlin O otário (1964), de Jerry Lewis Uma família fuleira (1965), de Jerry Lewis Três em um sofá (1966), de Jerry Lewis Qual é o caminho pra guerra? (1970), de Jerry Lewis Uma dupla em sinuca (1970), de Jerry Lewis As loucuras de Jerry Lewis (1982), de Jerry Lewis O rei da comédia (1983), de Martin Scorsese

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LUZCÂMERAAÇÃO

Boyhood, da infância à juventude

Um Oscar de muitos favoritos Filmes díspares dificultam os prognósticos dos especialistas. Brasil volta os olhos para a disputa de melhor documentário, onde concorre O sal da terra, de Juliano Salgado e Wim Wenders, sobre o fotógrafo Sebastião Salgado. Por Sérgio Moriconi

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uitos costumam contabilizar as chances de uma obra concorrente ao Oscar pela quantidade de prêmios arrebanhados ao longo de sua trajetória em festivais mundo afora, assim como pelo número de indicações da Academia. Exemplos que contradizem esse método não faltam. Há muitos bons filmes agora em 2015. Boyhood, da infância à juventude, frequentemente citado como um dos favoritos, está indicado a seis Oscars, incluindo o de melhor filme, e traz na bagagem nada menos que 40 lauréis internacionais desde fevereiro do ano passado, quando o diretor Richard Linklater foi recompensado com o prêmio de melhor diretor do Festival de Berlim. Boyhood é um dos favoritos, ao lado de O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson, e Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância), de Alejandro Iñárritu, ambos com nove indicações. Por que eles são favoritos?

Não há uma resposta muito convincente a essa pergunta. Boyhood talvez pela peculiaridade da produção. Poucos se sujeitariam a acompanhar durante doze anos a personagem de sua infância à idade quase adulta, borrando os limites entre

O Grande Hotel Budapeste

realidade e representação na tela. O filme é sutil. Supomos inicialmente estar diante de um drama naturalista, mas, à medida que o tempo passa (e as elipses de tempo são de fato muito interessantes), Linklater nos submete a um tratamento dramatúr-


Acima, Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância); abaixo, Sniper americano.

internacionais, dando prestígio ao jovem diretor Damien Chazelle, mas principalmente ao ator J.K. Simmons, uma barbada para o Oscar de ator coadjuvante – pelo menos é o que dizem –, de fato ótimo na pele do furibundo diretor de uma orquestra de jazz de um conservatório cuja política (não se sabe se do conservatório ou de seu alucinado diretor) é humilhar aqueles que não se submetem aos seus tirânicos métodos. A vítima é o protagonista, o jovem cujo objetivo é ser o maioral, o melhor baterista (de jazz, no caso) do mundo. Seria uma crítica ou uma afirmação ao mito da perfeição, uma crítica ao desmesurado espírito competitivo das sociedades ocidentais? Whiplash é ambíguo, ao mesmo tempo uma obra cinematográfica de inegáveis qualidades, mas incômoda. Ambiguidades e subjetividades transformam os palpites sobre quem deve levar os Oscars em disputa naquilo que são de fato: palpites. Longas de ficção como Selma, de Ava DuVernay, e Sniper americano, do veterano Clint Eastwood, correm por fora. O filme de Eastwood, sobre um herói de guerra, parece não ter a seu favor um contexto histórico propício. A teoria de tudo, de James Marsh, aparentemente

Fotos: Divulgação

gico de natureza, digamos, homeopática: suas parcimoniosas gotinhas dramáticas vão sendo inoculadas desapercebidamente, fazendo com que o que parecia um inofensivo relato naturalista ganhe contornos cada vez mais espessos, algumas vezes beirando o sombrio e o melancólico. Melancolia à parte, Boyhood foi aplaudido entusiasticamente em sua estreia na Berlinale. Teria sido apenas em função do que a imprensa chamou de “experimento atrevido” (os tais doze anos de produção)? Pode até ser. No entanto, existe em Boyhood uma dissimulada astúcia. Muito do sentimento da mencionada melancolia do filme se dá em função de fazermos analogias com a nossa própria vida, desde que já se tenha uma certa idade, claro: as ilusões (e desilusões) da juventude, a perplexidade em relação aos percalços da existência, etc, etc. No fim das contas, nos apercebemos (sempre sutilmente) de que Boyhood se assemelha muito a um certo tipo de cinema contracultural norte-americano dos anos 60, uma crônica de época à maneira dos primeiros Scorsese e Coppola, sendo que, no caso de Linklater, uma “crônica de época de época”. Estilisticamente, existe um oceano entre Boyhood e outros candidatos potenciais, entre eles O Grande Hotel Budapeste e Whiplash, para ficarmos por enquanto só nesses dois. O primeiro, como tudo de Wes Anderson, é um tour de force de imaginação, um devaneio supra-realista típico desse diretor único no cenário do novo cinema norte-americano. Ao se inspirar no escritor suíço Stefan Sweig, Anderson faz uma fantasia alegórica sombria da Europa da primeira metade do século passado, utilizando-se da caricatura, do humor, da sedução romanesca, exuberantemente imaginativos, a ponto de nos fazer esquecer do “princípio de realidade” (o conceito é do filósofo Herbert Marcuse) e mergulhar nos meandros de um enredo complexo, mirabolante, com toques de suspense infanto-juvenil. Com um tratamento cinematográfico que oscila algumas vezes entre o onírico, o grotesco e o absurdo (ou nonsense), O Grande Hotel Budapeste nos deixa livres para inumeráveis interpretações. Isso mesmo. O filme age como quando despertamos de um sonho, ou pesadelo, e ficamos nos perguntando o real significado daquilo. Pode-se dizer o mesmo de Whiplash, por razões diferentes. Começou sua carreira no festival de Sundance, em janeiro de 2014, ganhou diversos prêmios

tem melhores chances, apesar de ser um melodrama convencional. Quem viu o documentário sobre o astrofísico Stephan Hawkins rodado há alguns anos diz que a obra de Marsh é desnecessária, exceção feita ao ator Eddie Redmayne, uma provável barbada para melhor ator, apenas ameaçado (de leve) por Benedict Cumberbabatch, de O jogo da imitação. Poucas dúvidas existem quanto ao potencial de Birdman para levantar a estatueta de melhor filme. Não apenas pelo incrível virtuosismo técnico e da direção, fazendo crer ter sido tudo rodado num único e enorme plano-sequência. Há claras alusões (um pitel para os amantes da arte cinematográfica) a A marca da maldade, de Orson Welles (o plano-sequência, o jazz tribal da trilha, os diálogos frenéticos),

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também a Absolute begginers, de Julian Temple (o plano-sequência, o jazz tribal metalinguisticamente inserido na cena), e ainda ao igualmente alegórico Voar é com os pássaros, de Robert Altman, sendo que a alegoria negativa e trágica de Altman é substituída por uma positiva e mágica em Iñárritu. Não se pode deixar de mencionar o elenco, todo ele muito bom, com destaque óbvio para Michael Keaton (cuja trajetória como ator – ele que viveu “superhomens” – tem, ou teve, dilemas semelhantes ao do personagem do filme) e também para a jovem Emma Stone, candidata forte ao Oscar de atriz coadjuvante. Birdman é muito mais do que um brilhante artefato técnico. Como diria um velho comercial da Knorr, é o caldo da galinha com a essência da galinha. A atualíssima angústia dos verdadeiros atores em buscar reconhecimento na arte e não na fama. Há no filme, alegoricamente, toda uma crítica à cultura da celebridade, da arte fútil dos blockbusters, das mídias sociais, das virtualidades rasas de todo tipo. O conjunto dos filmes concorrentes ao Oscar, pela própria subjetividade inerente à arte, ou aos produtos culturais, sugerem todo tipo de interpretação. Isso vale especialmente para a disputa de melhor filme estrangeiro, onde obras de geografias cinematográficas muito distintas são confrontadas umas com as outras. De que maneira podemos comparar dois dos favoritos, Relatos selvagens, do argentino Damián Szifrón (com o astro Ricardo Darín no elenco), e Timbuktu, do mauritano Abderrahmane Sissako? Algumas de nossas apostas corretas surgem ao caso, por serendipidade. Levadas por uma determinada circunstância histórica, por prevenção, por alguma predisposição individual, por algum episódio fortuito. O termo, que já foi título de um filme (Escrito nas estrelas, no Brasil), volta à tona através do recém-lançado romance O irmão alemão. No livro de Chico Buarque, a personagem diz ter descoberto informações sobre o irmão, sobre quem pairava uma nuvem de silêncio, por pura casualidade. A origem etimológica do termo deriva de um conto tradicional persa em que três reis de Serendip, atual Sri Lanka, resolviam os mais incríveis dilemas por puro acidente. Dizem que muitos dos insights de Arquimedes vinham por serendipidade. Portanto, Eureka! O Oscar vai para...

O Brasil

na Berlinale

Por Paula Pratini, de Berlim

“Q

uem disse que o jovem no Brasil precisa se transformar em marginal, delinquente, por conta de falta de suporte e estrutura familiar? Conheci muitos jovens que conseguiram dar a volta por cima e viver uma vida melhor, seguir em frente. O filme passa uma mensagem de fé”. Assim o cineasta Chico Teixeira resumiu a essência de seu filme Ausência, uma das 12 produções brasileiras exibidas na 65ª edição do Festival de Cinema de Berlim – o Berlinale. Outros representantes do Brasil foram os longas Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, que deu a Regina Casé o prêmio de melhor atriz no Sundance Festival 2015, Sangue azul, de Lírio Ferreira, Brazil S/A, de Marcelo Pedroso, e Beira-mar, de Filipe Matzembacher, o documentário Jia Zhang-ke, um homem de Fenyang, de Walter Salles Jr., e o curta Mar de fogo, de Joel Pizzini, único brasileiro concorrente ao Urso de Ouro.

Em entrevista à Roteiro, Chico Teixeira e o elenco de Ausência salientaram a importância de mostrar ao público um novo olhar em relação ao jovem brasileiro. No filme, o sensível Serginho, interpretado por Matheus Fagundes, é um adolescente de 15 anos que sofre com a separação dos pais e, por força das circunstâncias, é obrigado a assumir o papel de “homem da casa”. Ele trabalha durante o dia com o tio na feira popular de Santo Amaro, além de cuidar do irmão mais novo e da mãe depressiva. Seus amigos são Mudinho, Silvinha e o professor Ney, interpretado por Irandhir Santos. Ele busca momentos de prazer e diversão nas apresentações do circo que aportou na cidade, nos raros momentos em que o personagem volta a ser novamente um menino. Questionamentos inerentes à adolescência, sexualidade, sonhos e anseios permeiam os pensamentos de Serginho de maneira sutil e pura. “O Serginho é um menino comum que veio de família humilde, um garoto carente de afeto que, ao contrário da gran-


de maioria dos adolescentes brasileiros que vivem nessas circunstâncias, não é agressivo ou revoltado. Ele tem dentro de si uma eterna criança. Eu busquei nas minhas próprias experiências como adolescente o conteúdo para compor o personagem e com o passar do tempo, enquanto filmávamos, consegui enxergar um outro ser humano. Enxergar o que poderia ser a vida dele. O mais gratificante pra mim foi poder vivenciar e expressar isto”, depõe Matheus Fagundes. “A identificação com os personagens foi fundamental para as filmagens. Nós, do elenco, conseguimos transparecer o processo doloroso que as famílias brasileiras vivem no dia a dia. As dificuldades e o ciclo vicioso que se repete: o abandono dos pais, a falta de acesso à educação, uma vida sem possibilidades. O Chico Teixeira traz à tela uma visão mais otimista sobre a realidade dos jovens de baixa renda no Brasil e mostra que é possível seguir os próprios sonhos”, enfatiza a atriz Gilda Nomacce. Em Que horas ela volta? a diretora Anna Muylaert conta a história da empregada doméstica Val, interpretada com maestria por Regina Casé, que trabalha há muitos anos para uma família rica em São Paulo e praticamente criou o filho dos patrões, situação muito comum nas famílias brasileiras mais abastadas. Deixou para traz a própria filha para trabalhar e não a

privado, e está banida das áreas de lazer e de outros locais restritos aos patrões. Já em Sangue azul, que abriu a mostra Panorama da Berlinale, o arquipélago de Fernando de Noronha é o local escolhido pelo diretor para ambientar o filme. O longa- metragem é focado na relação entre dois irmãos – Daniel Oliveira no papel de Zolah, o homem-bala do circo, e Caroline Abras como Raquel. Separados na infância pela própria mãe, que temia pela possível relação incestuosa entre eles, a dupla terá que voltar ao passado e lidar com seus próprios fantasmas no momento de seu reencontro. Daniel de Oliveira interpreta com virilidade e sensualidade o personagem Zolah e Caroline Abras imprime à sua personagem uma delicadeza e uma doçura que envolvem os espectadores. A fotografia de Mauro Pinheiro Júnior é estonteante. O vislumbre do arquipélago, as cores fortes e pulsantes dão vida ao enredo e destacam as belezas naturais desse paraíso natural brasileiro.

Ausência, de Chico Teixeira

Fotos: Berlinale Copyright.

Que horas ela volta?, de Anna Muylaert

vê há mais de dez anos. Um dia, recebe a notícia de que Jéssica, interpretada por Camila Márdila, vai morar em São Paulo e prestar vestibular para Arquitetura e Urbanismo, em uma das mais conceituadas faculdades do Estado, a FAU. A partir desse momento, Val vê seu cotidiano ser completamente abalado e vêm à tona o preconceito e a discriminação veladas entre as classes sociais. “O papel das empregadas no Brasil mudou nos últimos anos, os direitos trabalhistas mudaram. Me inspirei na Dagmar, empregada que trabalhou por décadas na casa da minha família. Sempre fui muito revoltada com essa situação, nunca entendia se ela era da minha família ou não. O papel das empregadas e babás é fundamental na criação dos filhos das patroas, mas o tratamento acaba sendo diferenciado quanto se fala de direitos. No filme, a arquitetura da casa simboliza essa divisão social. A empregada tem seu lugar, um quarto de fundos, sem banheiro

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Sangue azul, de Lírio Ferreira


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Investigando Paêbirú Documentário sobre o cultuado disco de Lula Côrtes e Zé Ramalho é lançado em DVD Por Pedro Brandt

A

Ingá do Bacamarte (PB), repleto de misteriosas inscrições rupestres. As histórias que rondam o local fizeram a cabeça de Lula e Zé, que criaram para as músicas novos mitos em cima dos mitos do Ingá. De uma sonoridade psicodélica bastante própria (com o uso de instrumentos e ritmos regionais), Paêbirú se tornou ainda mais lendário pelo fato de parte de sua tiragem original ter sido destruída numa cheia que devastou o depósito da fábrica. Uma edição de época do LP custa caro. Melhor ficar com as recentes reedições europeias (o disco nunca foi reeditado no Brasil). A inexperiência dos diretores e as dificuldades técnicas enfrentadas pela produção são perceptíveis em Nas paredes da pedra encantada. Elas dão ao filme um charme artesanal, mas podem incomodar em alguns momentos. Mas não se engane: o documentário é essencial – tem vigor, é bastante informativo e escapa de formatos convencionais. Agarra o espectador pelo colarinho e o leva para uma incrível viagem. Nas paredes da pedra encantada

Documentário de Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim. Lançamento em DVD Monstro Discos. R$ 30. À venda em www.lojamonstro.com.br.

Divulgação

lguns anos se passaram desde a primeira exibição pública de Nas paredes da pedra encantada (em um festival de cinema em São Paulo) e o lançamento em DVD desse documentário que aborda o mítico Paêbirú – Caminho da montanha do Sol, disco duplo lançado em 1975 por Lula Côrtes e Zé Ramalho. A demora é justificável: o longa-metragem foi produzido de maneira totalmente independente, capitaneado de maneira quixotesca pelo jornalista gaúcho Cristiano Bastos. Lançado em dezembro passado pela Monstro Discos, de Goiânia, o filme chegou em boa hora, às vésperas do aniversário de 40 anos da obra. Cristiano, que divide a direção com o jornalista e cineasta carioca Leonardo Bomfim, ainda morava em Brasília (ele voltou para a Porto Alegre em 2014, depois de uma década no DF) quando desembarcou em Recife para a apuração de uma matéria de política e aproveitou o tempo na cidade para investigar a história por trás do cultuado LP. O que poderia render uma reportagem ganhou

corpo e a realização de um documentário se tornou inevitável. Bastos, autor do livro Gauleses irredutíveis (sobre o rock gaúcho) e durante anos repórter destacado da revista Rolling Stone, passou um mês entre Pernambuco e Paraíba filmando entrevistas com os principais envolvidos com o disco. Zé Ramalho, que sempre evitou o assunto Paêbirú, não falou com o filme, mas liberou os direitos de uso das músicas para a trilha sonora. A ausência de um dos protagonistas da história não empobrece a narrativa do documentário. E isso se deve principalmente à presença de Lula Côrtes, figura de carisma magnético que prende a atenção do espectador assim que surge em cena. Poeta, designer, ilustrador, pintor, músico, compositor e cantor, Lula morreu em março de 2011, de câncer na garganta, poucos dias antes da estreia do filme. Em clima de road movie, o documentário leva o multiartista de volta à Pedra do Ingá, sítio arqueológico localizado em

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