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Editores Maria Anita dos Anjos e Pedro Salanek Filho Conselho Editorial Alexandre Bajotto, Daniel Thá, Erik Jenichen, Fernando Botto Lamoglia, Fernando Guiraud de Brito, Ivan Dutra, Luiz Alberto Saavedra Martinelli, Pedro Salanek Filho, Reinaldo Paiva, Wolney Pereira Projeto gráfico e diagramação Maria Laura Zocolotti Apoio Giselle Buschmann e Luciana da Rosa Mendes

REVISTA EBS DE GESTÃO, Curitiba, v.1, n.1, p.1-4, jan./jun. 2013

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EDITORIAL

Nesta primeira edição a Revista EBS de Gestão apresenta seis artigos científicos voltados à área de gestão corporativa. Os textos destacam conteúdos com embasamento teórico apurado e aplicações de situações práticas, em sua maioria no formato de estudo de caso, vivenciadas ou pesquisadas pelos seus respectivos autores. O primeiro artigo traz um estudo sobre a importância de um bom planejamento para a área de auditoria interna das organizações. O segundo está concentrado em uma avaliação de metodologia multi-índice para análise de investimento em uma empresa do setor varejista. Nesta mesma linha de indicadores, o terceiro artigo destaca um estudo comparativo entre indicadores estáticos de balanço e o EBITDA, com um comparativo de empresas brasileiras do setor de alimentação e aviação civil. O quarto artigo, elaborado em língua inglesa, apresenta um estudo sobre governança corporativa de 32 empresas, nacionais e transnacionais, dos aspectos de transparência e divulgação de informações empresariais em ambiente de internet. O quinto artigo, direcionado para políticas públicas, enfatiza a importância dos recursos financeiros aplicados em projetos de pesquisa e desenvolvimento na área de ciência e tecnologia. O último artigo traz uma proposta de uma sistemática para mensuração de custos relacionados a falhas internas, aplicadas no processo de envase, de cinco grandes empresas vinícolas nacionais. Curitiba, agosto de 2013 Prof.ª Maria Anita dos Anjos Prof. Pedro Salanek Filho Editores da Revista EBS de Gestão

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APRESENT AÇÃO APRESENTAÇÃO

A Estação Business School (EBS), como escola de negócios inovadora, traz a público esta primeira edição da sua Revista EBS de Gestão, como veículo propagador de estudos e pesquisas aplicadas realizadas por professores e alunos da EBS, notadamente os seus Trabalhos de Conclusão de Cursos (TCC) dos seus vários MBAs. É uma Revista de cunho técnico-científico, que visa: a) compartilhar conhecimentos e experiências da comunidade acadêmica da EBS; b) incentivar o debate científico nas diversas áreas do conhecimento; c) difundir os resultados de trabalhos desenvolvidos dentro da EBS; e d) servir de estímulo a que professores e alunos produzam ainda mais estudos ligados a uma melhor gestão eficaz dos negócios empresariais. Esta primeira edição servirá de estímulo para dar início à publicação dos próximos estudos e pesquisas dos nossos professores e alunos. É o início de uma longa caminhada de divulgação da fronteira do conhecimento em gestão. É um grande desafio para uma instituição privada, que além de um ensino-aprendizagem de excelência, deve também apoiar a pesquisa aplicada, como meio de enriquecimento profissional e acadêmico. Temos muito ainda a avançar nesta questão, mas esta Revista é uma âncora apoiadora para que a EBS cresça neste segmento da pesquisa aplicada. Finalmente, desejamos que esta publicação semestral da Revista EBS de Gestão seja o início de um grande avanço nas produções técnico-científicas da EBS, uma instituição cujo DNA é o de formar lideres para uma sociedade menos injusta, e que façam transformações positivas nas organizações levando sempre em primeiro lugar o homem e o meio ambiente. Esta é a razão de ser da EBS. Prof. Judas Tadeu Grassi Mendes Diretor Presidente da EBS

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SUMÁRIO

AUDITORIA INTERNA: UMA ABORDAGEM SISTÊMICA PARA A GESTÃO ESTRATÉGICA DOS NEGÓCIOS Veridiana Loyola Serrano ___________________________________________________________________ ESTUDO

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DE VERIFICAÇÃO DA UTILIZAÇÃO DA METODOLOGIA MULTI-ÍNDICE FRENTE À METODOLOGIA

CLÁSSICA DE ANÁLISE DE INVESTIMENTOS EM UMA ATIVIDADE DO SETOR DE VAREJO

Fábio José Horst Brites e Pedro Salanek Filho _________________________________________________ INDICADORES

ESTÁTICOS E

EBITDA:

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UM ESTUDO DE CASO SOBRE SUA COMPLEMENTARIDADE

NOS SETORES DE AVIAÇÃO CIVIL E ALIMENTAÇÃO

Vinícius José Lindolpho Antunes ____________________________________________________________ INVESTOR

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RELATIONS AND THE VOLUNTARY INFORMATION RELEASE PROCESS THROUGH VIRTUAL

ENVIRONMENT IN BRAZILIAN MARKET: A TRANSNATIONAL STUDY

Luís Alberto Saavedra Martinelli e Diego Deliberador Francescon _______________________________

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POLÍTICAS PÚBLICAS DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA: O CAMPO CIENTÍFICO NO PARANÁ Mário José de Souza _______________________________________________________________________

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PROPOSTA

DE UMA SISTEMÁTICA PARA MENSURAÇÃO DOS CUSTOS DE FALHAS INTERNAS APLICADA

À INDÚSTRIA VINÍCOLA

Fernando Guiraud de Brito _________________________________________________________________

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AUDITORIA INTERNA: UMA ABORDAGEM SISTÊMICA PARA A GESTÃO ESTRATÉGICA DOS NEGÓCIOS

Veridiana Loyola Serrano

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RESUMO A Auditoria Interna tem sido reconhecida como uma forma eficaz no intuito de auxiliar a organização no alcance dos seus objetivos, com uma abordagem sistêmica e disciplinada que propõe avaliar e aprimorar os processos de gerenciamento de riscos com o objetivo de adicionar valor aos acionistas da empresa e melhorar os resultados da organização como um todo. A proposta do artigo é apresentar o contexto da Auditoria Interna e sua relevância para a alta administração, baseada em atividades e experiências adquiridas no âmbito profissional, como auditora interna e áreas relacionadas. O contexto em questão destacará os procedimentos gerais adotados para execução da Auditoria Interna, sendo composto por: Plano Anual de Atividades, Planejamento dos Trabalhos, Execução dos Trabalhos em campo e Relatório ou Parecer de Auditoria. Para análise, será considerado o segmento de atuação da organização, seus ambientes interno e externo. Apresenta, ainda, o conceito de Auditoria de forma geral, Auditoria Interna, Auditoria Externa e Controles Internos, com o intuito de diferenciar os procedimentos e propor comportamentos necessários ao bom andamento dos trabalhos da auditoria interna. Além disso, este artigo analisa o perfil do profissional da área e as técnicas a serem consideradas entre autores contemporâneos e a legislação vigente no país aplicáveis no contexto atual das empresas. Palavras-chave: Auditoria. Auditoria interna. Auditoria externa. Controles internos. Auditor.

ABSTRACT Internal Audit has been recognized as an effective way to assist the company to achieve its goals with a systematic and disciplined approach to evaluate and improve risk management processes, with the aim of to add value to the company shareholders and improve the entire organization performance. The purpose of this article is to present the context of Internal Audit and its relevance to the senior management, based on activities and experiences acquired in professional environments, such as internal audit and related areas. The approached context highlights general procedures adopted in Internal Audit, such as Annual Plan of Activities, Work Scheduling, Work Execution in field, and Report or Audit Opinion. For analysis, it will be considered the company’s sector and its internal and external environments. The article also presents the concept of Audit in general, and Internal Audit, External Audit, and Internal Controls, in order to differentiate the procedures and to propose the necessary behaviors for the proper conducting internal audit. In addition, it examines the professional profile of the area and the techniques to be considered among contemporary authors and the applicable legislation in the country, in the current context of the companies. Keywords: Audit. Internal Audit. External Audit. Internal Controls. Auditor.

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MBA em Contabilidade Gerencial e Auditoria e graduada em Administração de Empresas.

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Veridiana Loyola Serrano

I NTRODUÇÃO

Originalmente, o conceito de auditoria é descrito como forma de examinar as demonstrações financeiras contábeis de uma empresa, e emitir parecer ou resultados acerca dos levantamentos efetuados. Nesses levantamentos, o foco principal da revisão são os números emitidos pela contabilidade. Porém, há várias categorias para a realização de procedimentos de auditorias, devendo ser aplicadas a todas as áreas da empresa. Mas essa percepção da auditoria como aliada da organização ainda é bastante pequena por parte da alta administração das organizações, que considera o trabalho do auditor como um trabalho rotineiro de avaliação do departamento de contabilidade. De forma geral, os funcionários entendem o procedimento como um mal necessário, em virtude de que o auditor impactará nas atividades diárias, aumentando a demanda e, ao final do procedimento, realizará criticas acerca da execução das atividades. Em um cenário altamente regulado, tal qual se encontra atualmente, procedimentos de auditoria devem ser entendidos como uma forma de ter um aconselhamento que permita precisão e segurança na tomada de decisão pela alta administração. No entanto, existe para alguns segmentos a obrigatoriedade do cumprimento de procedimentos de auditoria no intuito de fornecer Relatórios ou um Parecer que, na realidade, se trata da opinião do auditor expressa em um documento formal, acerca das diversas legislações e obrigatoriedades que devem ser atendidas pelas empresas em relação a um Regulador do Mercado, como: Comissão de Valores Mobiliários ou Banco Central do Brasil. Para tanto, deve-se aliar a regulamentação com a opinião do profissional de auditoria no intuito de limitar ou eliminar diversos riscos da organização. Infelizmente, apesar de as organizações acatarem os procedimentos de auditoria, ainda o visualizam como algo obrigatório para estar em conformidade legal e não como um meio de aprimorar e desenvolver seus processos de controles. Nesse sentido, o objetivo geral proposto neste trabalho é enfatizar a importância da auditoria interna no processo de gestão dos negócios para possibilitar a compreensão do papel do auditor nas empresas do mercado. Os objetivos específicos são: a) apresentar um breve histórico de auditoria, demonstrar como a auditoria interna pode ser considerada uma forma de consultoria especializada; b) propor a estrutura e os procedimentos básicos e apresentar a base da metodologia para execução dos trabalhos da auditoria interna; c) destacar a auditoria interna como um conjunto de ações para integração e aprimoramento das áreas, por meio de ambiente regulatório, técnicas, conceitos e formas de auditoria; d) possibilitar a compreensão do papel do auditor interno. A base conceitual neste trabalho consistiu na análise das Normas Brasileiras de Contabilidade, com foco na NBC T-12 - Da Auditoria Interna, associada ao estudo do referencial teórico de Attie (1992). Os dados serão obtidos basicamente de trabalhos já existentes sobre o tema da pesquisa, denominados de bibliográficos, como: livros, artigos científicos, reportagens de jornal, relatórios de empresa e, ainda, sites sobre o tema, entre outros. Terá, também, ênfase em fontes e informações obtidas por meio de observação e levantamento de dados referentes às ações desenvolvidas em trabalhos, como auditoras interna e externa e atual responsável pelos procedimentos de auditoria de um grupo de empresas atuante no segmento financeiro do mercado. Em todos os momentos da pesquisa foram considerados os métodos e procedimentos apresentados pela NBC T 12 e por Attie (1992), que indicam o contexto de forma geral da aplicabilidade da auditoria interna nas organizações. O tema deste trabalho, bem como os objetivos propostos, tende a ser comprovado com base no esboço dos Procedimentos Básicos que devem compor a metodologia para o desenvolvimento dos trabalhos que serão executados pela Auditoria Interna, adequando-se, quando necessário, à modalidade do escopo do procedimento a ser empregado.

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Auditoria Interna: uma abordagem sistêmica para a gestão estratégica dos negócios

1 REFERENCIAL TEÓRICO 1.1 AUDITORIA O termo auditoria, no latim, tem o significado de aquele que ouve ou ouvinte. A partir de então, sua evolução constitui-se de acordo com a evolução do capitalismo e o início do modelo atual de atuação ocorreu no momento em que as empresas deixaram de ter sua concentração acionária familiar, ou seja, fechada. Segundo Boyton apud Hoog e Carlin (2011, p.49): “A auditoria começa em época tão remota quanto à contabilidade. Sempre que o avanço da civilização tinha implicado que a propriedade de um homem fosse confiada, em maior ou menor extensão, a outra, e a desejabilidade da necessidade de verificação da fidelidade do último, tornou-se clara”. Devido à expansão do mercado e às concorrências, os administradores das empresas constataram que, para suportar os novos mecanismos apresentados e ampliar seus negócios, precisariam buscar novos investidores no mercado para que, por meio da realização de sociedades de capital aberto, elas proporcionassem a liquidez necessária para novos investimentos, principalmente em tecnologia, propiciando o aumento da participação de seus produtos ou serviços no mercado e, consequentemente, sua lucratividade. Segundo Almeida (1996, p.61), “Com a expansão do mercado e o acirramento da concorrência, houve a necessidade de a empresa ampliar suas instalações fabris e administrativas, investir no desenvolvimento tecnológico e aprimorar os controles e procedimentos internos em geral principalmente visando à redução de custos, e, portanto tornando mais competitivos seus produtos no mercado”. De acordo com o Instituto dos Auditores Internos do Brasil (IIA), a Auditoria Interna consolidou-se no ano de 1976, a partir da promulgação da Lei n.º 6.404 para as organizações com capital aberto, denominada “Lei das Sociedades Anônimas de Capital Aberto”.

1.2 AUDITORIA EXTERNA Segundo Hogg e Carlin (2011, p.60), a auditoria externa é aquela em que o serviço é praticado por contadores que atuam por conta própria, credenciados pelos órgãos específicos Conselho Regional de Contabilidade (CRC), Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e Banco Central (BACEN), entre outros. Sá (2002, p.65) retrata que “A Revolução Industrial, operada na segunda metade do Século XVII, imprimiu novas diretrizes às técnicas contabilísticas e, especialmente, as de auditoria, visando atender às necessidades criadas com o aparecimento de grandes empresas.” Como consequência, as demonstrações contabilísticas passaram a ter importância muito grande para os futuros aplicadores de recursos, como medida de segurança contra a possibilidade de manipulação de informações. Almeida (1996, p.83) descreve que os futuros investidores passaram a exigir que as demonstrações fossem examinadas por um profissional, independentemente da empresa e de reconhecida capacidade técnica, surgindo, então, a profissão do auditor, devido ao conhecimento e à técnica em examinar as demonstrações contabilísticas da empresa e emitir sua opinião sobre elas.

1.3 AUDITORIA INTERNA O início oficial das atividades de auditorias consta da data de 1941, na cidade de Nova Iorque, após a fundação do Institute of Internal Auditors, mas até chegar a esse contexto, passou por diversas fases bem menos valorosas. De acordo com a análise de Lopes de Sá (2002, p.22): No Brasil, o movimento de arregimentação dos auditores iniciou-se em São Paulo, há cerca de 30 anos através do Instituto de Contadores Públicos do Brasil, mais tarde surgiram outras instituições, como o Instituto Brasileiro de Auditores Independentes na Guanabara, assim como Instituições de Contadores no Rio Grande do Sul (ICARGS).

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Essa fase atual, no entanto, surge como resultado da grande utilização de firmas de auditorias independentes por grandes empresas que pretendem assegurar aos seus acionistas e investidores que seus balanços, indiferentemente do segmento de atuação de suas empresas, refletem fielmente uma escrituração contábil válida. Assim, com o passar dos anos e com a evolução e o aumento das estruturas dos negócios, os administradores dessas organizações passaram a compreender a importância das verificações realizadas pelas empresas de auditorias independentes, mas, principalmente, passaram a considerar que não era possível somente serem levantados aspectos minuciosos nas rotinas de atividades diárias sem que isso viesse gerar alto custo. O fato é que a Auditoria Interna surge como espécie de apoio institucional, com o objetivo de desenvolver um plano de ação que auxilie a organização a alcançar seus objetivos por meio da adoção de uma metodologia disciplinada para a avaliação e melhora na forma de gerenciamento de seus riscos e, dessa forma, agregar valor ao resultado da organização. Atualmente, pode-se inferir por conceito que: Todos os planos ou ações tomadas para corrigir as condições apontadas necessitam ser avaliados pela auditoria quanto à efetividade e, se considerando inadequados discutidos até alcançar a disposição satisfatória (ATTIE, 1992, p.43).

Em pouco tempo, a auditoria interna passou a avaliar e prestar ajuda de forma geral para a alta administração das empresas, em que os modelos de procedimentos para execução das atividades de auditoria interna foram amplamente difundidos, assim como foram definidos os requisitos necessários acerca da autonomia para desenvolvimento adequado de suas atribuições.

1.4 CONTROLES INTERNOS Segundo o AICPA - American Institute of Certified Public Accountant apud Mota (1988, p.90), o controle interno é conceituado da seguinte forma: O Controle Interno compreende o plano de organização e todos os métodos e medidas adotadas numa empresa para proteger seu ativo, verificar a exatidão e a fidelidade de seus dados contábeis, incrementar a eficiência operacional e promover a obediência às diretrizes administrativas estabelecidas.

É importante a compreensão de que os Controles Internos fazem parte da rotina de atividades da organização, tendo como função acompanhar a execução de forma a sugerir melhorias que possam proporcionar a prevenção ou correção das ações a serem desempenhadas, e atendendo ao Sistema de Controles Internos da empresa em relação aos aspectos financeiro, contábil e patrimonial, bem como os controles administrativos de modo geral. Por outro lado, o trabalho executado pelo auditor está além desses controles, em virtude de que atua sobre todas as atividades da organização, tendo como ponto de referência para execução dos testes realizados pela auditoria, o controle interno, devendo serem considerados para a composição do planejamento dos trabalhos que serão realizados pela Auditoria. Portanto, ao contrário do controle interno normalmente executado, a auditoria interna não compõe necessariamente a estrutura ou as atividades normais da organização. Apesar de não haver obrigatoriedade de que essa atividade seja desempenhada por profissionais de escritórios de auditoria independente, são recomendáveis, em ambas as situações, a Auditoria Interna estar subordinada junto ao Conselho de Administração ou Diretor Presidente. Para que, assim, seja mantido o grau necessário de independência do auditor e para que as recomendações sejam de conhecimento em nível da alta administração da empresa. É importante mencionar que o grau de confiabilidade dos controles internos é fundamental para o trabalho do auditor interno. Conforme o nível dessa confiança, será desenvolvido todo o planejamento e escopo dos trabalhos, bem como será a diretriz na natureza da auditoria a ser efetuada (ATTIE, 1998, p.111). Uma vez que os controles internos de uma organização sejam satisfatórios, serão escolhidos procedimentos mínimos em uma extensão reduzida, sendo, por exemplo, realizada uma auditoria por amostragem e não completa. Porém, os controles internos apresentando-se insatisfatórios, deficientes, o trabalho do auditor deverá ser o mais amplo possível, com ênfase em todo o processo da execução, principalmente quanto às áreas orçamentárias e contábeis, abrangendo a área de recursos humanos e demais controles contábeis e administrativos. REVISTA EBS DE GESTÃO, Curitiba, v.1, n.1, p.5-18, jan./jun. 2013

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2 AMBIENTE DE A TU AÇÃO DA A UDITORIA INTERNA ATU TUAÇÃO AUDITORIA É importante mencionar que as atividades de Auditoria e a Consultoria são distintas, porém, devido ao contexto de evolução das atividades de auditoria, é necessário que a administração das empresas compreenda os aconselhamentos e esclarecimentos prestados pelo auditor como um bônus secundário à manutenção do relacionamento interpessoal entre os auditores e os profissionais executores das atividades. O intuito desse relacionamento é proporcionar esclarecimento aos funcionários e, por outro lado, desmistificar a imagem do auditor interno como punitivo, que figura em lado contrário ao do auditado. Dessa forma, inserindo outra representavidade acerca das suas ações, sendo possível conceituá-las de acordo com os mesmos princípios básicos da consultoria, que propõem o apoio aos gestores, em geral, por meio de um profissional qualificado e conhecedor do tema para auxiliar as tomadas de decisões estratégicas. Assim como os trabalhos executados por uma consultoria, existe uma metodologia composta por etapas básicas de ação, ou seja, os trabalhos realizados pela Auditoria Interna costumam seguir também etapas necessárias, tais como: Planejamento, Aprovação, Execução e Emissão de Relatório ou Parecer de Auditoria (TREVISAN, BDO, 2007). Normalmente, no trabalho em campo realizado pela auditoria, fazem parte: as entrevistas com os gestores das áreas, a identificação ou constatação de eventuais controles insuficientes ou inexistentes, a mitigação de possíveis riscos ao negócio, a composição de memorandos descritivos, fluxogramas das áreas e a proposição de soluções e, em alguns casos, o acompanhamento e assessoramento na implementação das medidas recomendadas para solucionar os problemas existentes na organização (TREVISAN, BDO, 2007). A Auditoria Interna deve possuir dentro da empresa total autonomia para atuação. O auditor interno deve ter acesso a todas as áreas e informações que fazem parte do desenvolvimento do seu trabalho. Em áreas que não possua conhecimentos específicos, como tecnologia, no todo ou em parte, deve assessorar-se por profissionais habilitados, evitando o erro em seu julgamento ou interpretação. Deve, ainda, assessorar o Conselho de Administração e o Conselho Fiscal, se houver (TREVISAN, BDO, 2007). A função básica da auditoria interna, de assegurar o sistema de controle interno eficaz não isenta aos responsáveis pelas atividades das responsabilidades de verificação e controle nos seus setores.

2.1 O PERFIL DO AUDITOR INTERNO É importante ter consciência de que uma crítica envolvendo um departamento de auditoria recai sobre todos os profissionais que atuam na área de forma geral. Cada membro que faça parte da área é julgado pela organização, com base nos trabalhos que realiza em campo junto aos demais funcionários que tenha contato. Por isso, é fundamental todos representarem ou fazerem parte da estrutura de auditoria de forma unânime, possuírem prestígio e admiração por parte dos auditados. O perfil de um auditor: A relevância da auditoria nas organizações depende do nível dos profissionais admitidos e esta importância deve ser considerada igualmente relevante para ser admitido em um departamento de auditoria, não sendo de forma alguma precipitado afirmar que é mais positivo suportar o impacto da falta de pessoal do que inserir um novo profissional que não corresponda aos requisitos mínimos necessários ao bom desempenho das atividades. Essa participação inexpressiva revelará posteriormente sua inoperância e falta de preparo que, consequentemente, refletirá na falta de credibilidade da área de auditoria como um todo, tornando-se, por fim, um peso aos demais membros da equipe. Assim sendo, a confiança tão necessária para evolução da relevância da auditoria nas organizações não ocorrerá, visto que a auditoria para oferecer tal função precisará demonstrar estar à altura dos desafios propostos pela administração. De acordo com Attie (1992, p.30) “a Auditoria Interna é uma atividade profissional e seu propósito é fazer julgamentos profissionais. Portanto ela é necessária do mais alto grau de imparcialidade, Integridade e Objetividade”. De forma contraditória, também ocorre que o crescimento organizacional impõe necessidades muitas vezes de mudanças e especializações que não acompanham o mesmo ritmo de formação e adequação. Sendo assim, muitas empresas acabam optando pela educação continuada aos seus próprios profissionais no intuito

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de oferecer oportunidade internamente. Porém, não são escassas as situações nas quais a organização opta em contratar um profissional com as qualificações necessárias no mercado, na maioria das vezes por questão de redução de custos ou por falta de interesse do quadro interno, há de considerar ainda os que têm interesse, mas não possuem o perfil necessário para assumir mais responsabilidades. Nesse sentido não é difícil entrever algumas constantes na busca das condições básicas do profissional desejado, devendo estas serem consideradas, como, por exemplo, a inteligência, as habilidades interpessoais em vários níveis hierárquicos e a competência técnica. Para serem comprovadas as habilidades interpessoais e de inteligência, devem ser aplicados testes psicotécnicos. No entanto, quanto à competência técnica esta cabe ao superior imediato da área de Auditoria do possível candidato, não devendo haver interferência por parte da área de Recursos Humanos. De acordo com a pesquisa realizada pelo Institute of International Auditors (2010), e que é a base para o exame CIA - Certified Internal Auditor, citada no site: http://www.portaldeauditoria.com.br, as seguintes áreas são consideradas como “Corpo de Conhecimento do Auditor Interno”: · · · · · · · · · ·

Contabilidade e Finanças Auditoria Ciências do Comportamento Comunicações Sistemas Eletrônicos de Processamento de Dados Economia Aspectos Legais dos Negócios O Processo Administrativo e as Atividades Gerenciais Métodos Quantitativos Sistemas e Métodos

Mais do que permear um perfil necessário ao auditor, é importante a organização possuir em sua estrutura um processo ético e confiável de seleção: por meio não somente de entrevistas junto ao candidato, mas também com aplicação dos testes para fins de comprovar as habilidades necessárias; Avaliação do perfil: por meio de aplicação de testes específicos pela área de Recursos Humanos; Entrevistas: quando ocorrerem, devem considerar aspectos importantes referentes aos últimos trabalhos do profissional, suas conquistas, aptidões e a forma que mantêm sua atualização acerca dos conhecimentos necessários. Essas informações servirão de base para compor o perfil do candidato e para possíveis adequações comportamentais futuras, se necessárias. De acordo com Attie (1992, p.60) “Os auditores internos devem ter competência técnica essencial ao exercício profissional entre esses atributos, encontram-se a competência na aplicação de normas procedimentos e técnicas de auditoria interna”. No entanto, além de algumas características essenciais também deverão ser verificadas se o futuro auditor as corresponde, conforme sugerida pela obra de Brink, Cashin e Witt, “Modern Internal Auditing-na Operational Aproach” em seu capítulo 7, citada no portal de auditoria: · · · · · · · · · ·

curiosidade; atitude crítica; atenção (no sentido de considerar todas as possíveis fontes de informação e todas as inter-relações); persistência; energia; auto confiança; coragem; imparcialidade; habilidade para julgar corretamente; integridade (qualidades que fazem os outros confiarem nas informações e conclusões do auditor).

Os mesmos autores, procurando verificar quais características que mais contribuem para o Auditor Interno, pretendendo obter respeito e cooperação, sugerem as seguintes: · honestidade e Integridade; · dedicação aos interesses da companhia; · humildade razoável;

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Auditoria Interna: uma abordagem sistêmica para a gestão estratégica dos negócios

· porte profissional; · empatia; · conduta consistente à imagem. Em posse desse conjunto de resultados e informações, será possível optar por um candidato, que deverá ser admitido, integrado e cobrado de forma positiva na aplicação de seus conhecimentos e potencial junto à organização.

2.2 TIPOS DE AUDITORIA INTERNA As auditorias podem ser classificadas em sua natureza como Auditorias Interna e Externa, cabendo, ainda, à reclassificação em formas ou tipo de auditoria. A seguir, são descritos esses tipos ou modalidades, conforme publicada na Apostila de Auditoria Interna.

2.2.1 AUDITORIA CONTÁBIL De forma ampla, o procedimento de auditoria executado nas Demonstrações Financeiras de uma organização, por meio da solicitação dos documentos emitidos pelo departamento de contabilidade tem por finalidade propor a salvaguarda dos ativos e da fidedignidade das contas. Tem por propósito possibilitar a garantia de que as operações e o acesso aos ativos se efetuem de acordo com as devidas autorizações, comprovando a qualidade dos controles internos existentes. Também realiza a verificação quanto à aplicabilidade das normas e dos regulamentos dispostos pela administração e a correta aplicação dos Princípios Fundamentais da Contabilidade e das Normas Brasileiras de Contabilidade. A contabilização dos ativos é comparada com sua existência física a intervalos razoáveis de tempo, e são recomendadas ou exigidas as medidas corretivas adequadas, caso ocorra inconsistências injustificáveis ou sem amparo em legislação específica. Dentro dessa área, são examinados e avaliados: · exatidão e fidedignidade da apresentação e da publicação das demonstrações contábeis; · Integridade, adequação, confiabilidade e utilidade dos registros orçamentários, financeiros, econômicos e contábeis; · correção, eficácia e adequação dos controles da guarda, da divulgação, do arquivo, dos meios de consulta e da informatização da documentação pertinente à área contábil, bem como das formas de identificação, classificação, comunicação e divulgação das respectivas informações; · adequação e eficácia de controles, registros e meios de proteção dos ativos e da comprovação de sua existência real, utilidade, ociosidade e economicidade, bem como a comprovação da autenticidade dos passivos; · cumprimento das políticas, procedimentos, normas legais e regulamentos, metas e objetivos compreendidos na área auditada; · avaliação do alcance dos objetivos das operações financeiras, investimentos, imobilizações, obrigações, despesas, receitas; etc.; · exame e avaliação das fontes de recursos, observando os aspectos econômicos acerca da tempestividade de sua aplicação; · exame e avaliação da rentabilidade das aplicações e sua contribuição na formação do resultado da empresa; · transparência, adequação e tempestividade das informações, particularmente em relação aos princípios fundamentais de contabilidade; · emissão de opinião sobre as Demonstrações Contábeis, fundos e programas e planos de natureza financeira, instituídos ou administrados pela empresa; · assessoramento ao Conselho Fiscal, em matéria compreendida no âmbito de sua competência específica; e · acompanhamento dos trabalhos de auditoria independente. Segundo Hoog e Carli, (2011, p.60), “Por se tratar de uma auditoria com fim específico de emitir uma opinião sobre as demonstrações contábeis que serão publicadas, o trabalho normalmente deverá contemplar auditorias intermediarias”.

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2.2.2 AUDITORIA OPERACIONAL Essa auditoria coincide com todos os níveis de gestão, nas fases de programação, execução e supervisão, sob o ponto de vista da economia, eficiência e eficácia. É também conhecida como auditoria de gestão, de eficiência, de resultados ou de práticas de gestão, em que são auditados todos os sistemas e métodos utilizados pelo gestor para tomar decisões. Analisa a execução das decisões tomadas e aprecia até que ponto os resultados pretendidos foram alcançados. O objetivo maior da Auditoria Operacional é assessorar a administração no desempenho efetivo de suas funções e responsabilidades, avaliando se a organização, o departamento, os sistemas, as funções, as operações e os programas auditados estão atingindo os objetivos propostos com identificação de falhas e irregularidades no sistema operacional.

2.2.3 AUDITORIA DE GESTÃO A Auditoria Interna em nível de gestão desempenha suas atividades participando de reuniões de diretoria, comitês operacional-financeiros, grupos envolvidos com projetos de qualidade total, etc. Trabalha em nível de planejamento estratégico, tático e no processo decisório decorrente da aplicação de sistemas, políticas, critérios e procedimentos. Segundo Hoog e Carli (2011, p.61), “trata-se de um trabalho mais específico, pois a auditoria de gestão acaba tendo como objetivo geral a validação da qualidade da estrutura e cultura organizacional, utilizando-se da contabilidade para extrair informações quanto à situação econômica, financeira e patrimonial das sociedades empresariais, avaliando os sistemas de informações e a forma de utilização dos controles internos”.

2.2.4 AUDITORIA DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO Os sistemas informatizados tiveram sua aplicação ampliada com o passar dos anos, e hoje é quase impossível imaginarmos uma entidade sem eles. Instituições financeiras, indústrias, comércio, serviços, tudo está estruturado em nível de controles sobre os sistemas informatizados. O auditor interno envolve-se no processo de planejamento, desenvolvimento, testes e aplicação dos sistemas, preocupando-se com as estruturas lógica, física, ambiental, organizacional de controle, segurança e proteção de dados. Cabe-lhe informar a administração sobre: adequação, eficácia, eficiência e desempenho dos sistemas e respectivos procedimentos de segurança em processamento de dados. Em alguns países, é conhecida como auditoria de informática computacional ou de sistemas, ou como auditoria de TI. Segundo Hoog e Carli, (2011, p.62), A auditoria de sistemas objetiva certificar-se de que: · · · · ·

as informações são corretas e oportunas; existe um processamento adequado às operações; as informações estão protegidas contra fraudes; existe a proteção das instalações e equipamentos; existe proteção contra situações de emergência (paralização de processamento, perda de arquivos, inundações, incêndios, etc.).

2.2.5 AUDITORIA DA QUALIDADE Com o aumento da competitividade em função da globalização da economia e das exigências de novos mercados, passamos a conviver diariamente com novos conceitos em produtos e serviços, a que chamamos qualidade. As normas ISO 9000 definem claramente as exigências que devem ser perseguidas a fim de obtermos a qualidade. O auditor interno, mais uma vez, é chamado a dar sua contribuição, assessorando a alta administração.

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Auditoria Interna: uma abordagem sistêmica para a gestão estratégica dos negócios

Pode-se dizer que a Auditoria da Qualidade é uma avaliação planejada, programada e documentada, executada por pessoas independentes da área auditada, visando verificar a eficácia de um sistema implantado, no atingimento dos objetivos e padrões preestabelecidos, servindo como mecanismo de retroalimentação e aperfeiçoamento do próprio sistema. As Auditorias de Qualidade podem ser classificadas em internas e externas. Exemplos: - Auditoria Interna da Qualidade - quando ocorre avaliação do plano de desenvolvimento do produto, para verificar o atendimento dos requisitos do cliente. - Auditoria Externa da Qualidade - avaliação de fornecedores de matérias-primas. Quanto ao objeto, a Auditoria de Qualidade classifica-se em: Auditoria de Sistemas, Auditoria de Processos e Auditoria de Produtos.

2.2.6 AUDITORIA AMBIENTAL Talvez o ramo mais recente da Auditoria Interna seja o que chamamos de Auditoria Ambiental. Prática corrente em países do chamado primeiro mundo, é o ramo da Auditoria Interna que examina e analisa os prováveis impactos que as empresas possam causar ao meio ambiente, com reflexo direto sobre a imagem delas no mercado e, consequentemente, sobre a captação de recursos, sob a forma de financiamentos ou lançamento de ações no mercado financeiro. O trabalho da Auditoria Interna deverá caminhar no sentido de formar opiniões consistentes, não apenas em relação aos custos dos empreendimentos, como também aos riscos ambientais previstos com sua implantação e às medidas compensatórias e reparadoras a serem tomadas. Um exame de auditoria em atividades com envolvimento em relação ao meio ambiente deverá considerar a existência de relatório de impacto ambiental; as políticas traçadas pela alta administração. É preciso saber como e quanto a utilização predatória dos recursos naturais degrada a qualidade do meio ambiente, afeta a vida de uma população ou mesmo o valor de uma propriedade próxima às instalações da empresa. O trabalho de auditoria ambiental comumente é executado por profissionais de ramos diversos, como: engenheiros ambientais, técnicos, entre outros, não necessariamente um contador. E a ideia proposta é somente dimensionar as ramificações da auditoria de formas ampla e geral, mas sem necessariamente ocorrer um aprofundamento referente ao contexto ambiental ou do regulatório pertinente. Em referência, é importante citar o texto disponível em site da www.anagea.org.br: “Antes de entrar no mérito da questão dos conselhos profissionais, é importante falar sobre o projeto de Lei 5.825/09 que, aprovado, exige que todas as empresas do cadastro de potencialmente poluidoras e utilizadora de recursos naturais, contratem um profissional graduado ou pós-graduado em gestão ambiental exigindo apenas o diploma na área correspondente.” Esse contexto regulatório somente reafirma que a atuação desse procedimento de auditoria é uma preocupação em paralelo crescente ao da organização social, no qual para haver sustentabilidade e continuidade dos processos e atividades empresariais são imprescindíveis ações concretas quanto ao impacto ambiental causado por eles.

2.3 ESTRUTURA A Auditoria Interna hierarquicamente deve estar disposta de forma a subordinar-se diretamente aos maiores postos da administração da organização. A disposição dos cargos dos profissionais dentro da área de Auditoria Interna, porém, deve estar de acordo com a Resolução CFC N.º 560, que informa o seguinte: As funções de chefia e supervisão de uma Auditoria Interna são privativas do Contador, bem como as atividades relacionadas à competência profissional dos mesmos (Resolução CFC n.º 560-83). Poderá, todavia, contar com a colaboração de outros profissionais, especialmente quando se tratar de trabalhos em áreas que requerem especializações e que não podem ser realizadas pelo Contador. Apesar de claramente compreendido que os trabalhos de auditoria podem ser executados por demais especialidades, além da contabilidade, ainda é precário o conhecimento em geral de que, mesmo na atividade de auditor interno, somente um contador pode responder pela chefia e supervisão de uma área de Auditoria Interna.

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2.3.1 COMPOSIÇÃO DE CARGOS A seguir, descreve-se uma estrutura proposta, bem como sua composição mínima de cargos atuantes em uma área de auditoria interna. A estrutura sugerida é proveniente de interpretação da apostila de Auditoria disponível no site: www.uff.br, e em apostilas de treinamento de auditoria externa da BDO, Trevisan Auditores Independentes.

2.3.1.1 GERENTE DE AUDITORIA Esse profissional deve possuir amplos conhecimentos na área de auditoria. Devendo, ainda, responder de forma direta pelo departamento de Auditoria Interna. As atribuições abaixo são de responsabilidade desse profissional: · · · · · · · · · ·

elaborar o Plano Anual de Auditoria; esclarecer a equipe os objetivos do Plano e repassar as atividades pela qual cada um está responsável; administrar os sistemas informatizados internos da instituição a serem utilizados nos trabalhos de auditoria; aprovar e validar os trabalhos e resultados das atividades da equipe de auditoria interna; encaminhar a alta administração de acordo com a periodicidade mínima anual o Relatório de Auditoria; apresentar de forma periódica ou sempre que necessário ou, ainda, quando julgar pertinente relatório que promova o aprimoramento dos controles internos da organização; realizar reuniões entre os Gestores das áreas auditadas no intuito de discussão de integrar e discutir os procedimentos de necessários a serem implementados; avaliar o desempenho da equipe de auditoria em relação aos trabalhos desempenhados; promover treinamentos de aperfeiçoamento da equipe e manter o nível de excelência dos trabalhos desempenhados; manter a sinergia entre os trabalhos realizados pela Auditoria Externa e pela Auditoria Interna.

2.3.1.2 ENCARREGADO DE AUDITORIA INTERNA · · · · · · · ·

realizar reunião ao final dos trabalhos realizados com a equipe de auditoria que esteve em campo; proceder com o fechamento dos apontamentos e recomendações que irão para o Relatório ou Parecer; dirimir quaisquer dúvidas quanto à correta aplicação dos procedimentos de auditoria; mediar os conflitos entre as áreas auditadas e os gestores responsáveis; promover ética e imparcialidade de julgamento pela equipe de auditoria frente aos processos da área; revisar os papéis de trabalho emitidos; elaborar complemento aos testes realizados quando necessário; sugerir novos controles internos e testes de efetividade dos controles existentes.

2.3.1.3 AUDITOR INTERNO · · · · · · · · · · ·

realizar a verificação de todos os departamentos existentes da organização; prestar informações e orientar aos auditados a cerca do correto cumprimento dos controles internos; elaborar o planejamento dos trabalhos de auditoria interna; elaborar os papéis de trabalhos necessários ao desenvolvimento das atividades de auditoria; realizar a leitura de normas e regulamentos, bem como da legislação aplicável ao contexto do procedimento de auditoria; manter-se atualizado sobre a legislação emitida pelos reguladores; providenciar, quando necessário, as informações solicitadas pela Auditoria Externa; realizar o preenchimento em sistema informatizado acerca do procedimento de auditoria; manter e zelar pela integridade das informações; emitir os relatórios ou pareceres de auditoria; realizar atividades diversas desde que pertinente a natureza principal dos trabalhos comumente realizados pela auditoria. REVISTA EBS DE GESTÃO, Curitiba, v.1, n.1, p.5-18, jan./jun. 2013

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Adicionalmente, ainda faz parte das atividades da auditoria, de forma geral, prestar esclarecimentos aos auditados, acerca dos apontamentos realizados com a finalidade de esclarecimento do processo e, se necessário, alteração das recomendações realizadas. Conforme mencionado inicialmente, a interpretação é proveniente da Apostila de Auditoria disponível no site: www.uff.br, e nas apostilas de treinamento de auditoria da BDO Trevisan Auditores Independentes, além de experiência como profissional atuante na área.

2.4 PROCEDIMENTOS BÁSICOS DE AUDITORIA INTERNA 2.4.1 PLANO ANUAL DE AUDITORIA O Plano Anual de Auditoria é um documento elaborado ao final de cada exercício para os trabalhos que serão desempenhados no ano seguinte, devendo ser assinado pelo responsável Gerente responsável pelos trabalhos e aprovado pela Diretoria de Auditoria. Esse Plano deve conter quais as áreas que serão auditadas. Se houver filiais, quais farão parte do escopo, o tipo de auditoria que será realizada, o período, a finalidade, a quantidade de auditores, os conhecimentos específicos necessários dos auditores, sistemas informatizados e todas as informações que forem relevantes. Deverá ser emitido o Plano e, posteriormente, encaminhado à Diretoria para aprovação, podendo sofrer alterações necessárias e previamente discutidas junto à Gerência ou Coordenação de Auditoria Interna.

2.4.2 PLANEJAMENTO DOS TRABALHOS O planejamento dos trabalhos da auditoria se trata de um documento emitido com o intuito de evidenciar os procedimentos que serão adotados durante a auditoria. A finalidade principal é possuir um escopo prévio referente aos levantamentos que serão realizados, quais áreas devem possuir maior atenção, no sentido de orientar o auditor quando estiver em campo, podendo, ainda, ser alterado ou complementado a qualquer momento, de acordo com a percepção do auditor. Deve conter o maior número de informações pertinentes ao desenvolvimento dos trabalhos e em relação ao objetivo a ser alcançado pelo procedimento de auditoria. Além disso, deve considerar a legislação aplicável, os relatórios e pareceres de auditorias realizadas anteriormente, bem como limitar a extensão e a profundidade que os trabalhos alcançarão. De acordo com a Pesquisa sobre Auditoria Interna no Brasil, publicada pela Deloitte, em 2007, as melhores práticas para elaboração do planejamento da auditoria interna, consiste em: · condução de análise geral de riscos de negócio para balizar a preparação do plano de auditoria interna; · Validação do plano com a alta administração, incorporando a percepção dos executivos na priorização dos trabalhos; · Atualização periódica do mapa de riscos da organização; · Definição clara de expectativas para cada projeto, escopo e principais riscos que deverão ser avaliados; · Formalização e aprovação de todas as alterações no plano de auditoria interna.

2.4.3 EXECUÇÃO DOS TRABALHOS EM CAMPO Os trabalhos executados pelos auditores em campo são uma composição de ações e procedimentos adotados, tais como: observação, entrevistas, exames de relatórios e documentos, conciliação e recálculo de dados orçamentários e contábeis, e demais informações julgadas relevantes. A metodologia é determinada pela auditoria, porém os dados levantados pela Pesquisa sobre a Auditoria Interna no Brasil, realizada pela Deloitte, em 2007: “35% dos auditores internos não manifestaram o uso de alguma metodologia formal.” E 52% consideraram a necessidade de melhorar as técnicas auditadas.

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Quanto às técnicas de auditorias, elas geralmente consistem em: · amostragem: quando o auditor realiza a seleção de uma parte do processo para realizar as verificações, podendo ser realizada por meio de um sistema informatizado, aleatoriamente ou de acordo com os critérios do auditor; · exame societário: quando o auditor confronta a documentação legal societária emitida pela empresa com a legislação pertinente aplicável para emissão do documento e se necessário com os livros fiscais ou mercantis; · formalização: quando na ausência de documentos que suportem as informações, o auditor solicita área um e-mail ou documento formal por escrito acerca da inexistência do processo; · exame Físico: quando o auditor examina a documentação em campo, devendo ocorrer junto ao auditado, por meio do acompanhamento da atividade por ele desenvolvida, no intuito de chegar a uma conclusão ou formar opinião sobre a área ou o processo; · exame de documentação original: quando o auditor examina os documentos entregues pelo auditado, podendo serem solicitados no início ou durante o procedimento para confrontação das operações que foram realizadas com a legislação formal pertinente para forma de emissão do documento; · exame Contábil: quando o auditor realiza a verificação, se necessária, do recálculo de impostos, taxas e/ou tributos aplicáveis no intuito de conciliar com as demonstrações financeiras emitidas; · recálculos de somatórios: são realizados em áreas que possuam fluxos de informações financeiras para verificações dos somatórios e recálculo de valores de operações realizadas no intuito de confrontação com os extratos e demais documentos pertinentes emitidos.

2.4.4 RELATÓRIOS OU PARECERES O relatório ou parecer de auditoria é o documento final emitido pelo auditor após a conclusão dos trabalhos, devendo conter as recomendações da auditoria. Nessa apresentação, ainda é possível a alteração de pontos levantados decorrentes de interpretações equivocadas ou advindas por falha de comunicação. O documento será encaminhado à Diretoria e também aos auditados para que realizem as considerações que julgarem pertinentes. Porém, é importante que os auditados, em especial, recebam somente as recomendações pertinentes à sua própria área, no intuito de preservar o sigilo das informações. De acordo com a NBC T 12. 3, as Normas Relativas ao Relatório do Auditor Interno são as seguintes: a) O relatório é o instrumento técnico pelo qual o auditor interno comunica os trabalhos realizados, suas conclusões, recomendações e as providências a serem tomadas pela administração. b O relatório deve ser redigido com objetividade e imparcialidade, de forma a expressar claramente os resultados dos trabalhos realizados. c) O relatório do auditor interno é confidencial e deve ser apresentado ao superior imediato ou pessoa autorizada que o tenha solicitado. d) O auditor interno deve, no seu relatório, destacar, quando for o caso, as áreas não examinadas, informando os motivos pelos quais não as contemplou. O Relatório deverá ser emitido de forma técnica, de acordo com os requisitos mínimos de: introdução ou apresentação, objetivos, resultados ou pontos de recomendação, e as sugestões indicadas pela auditoria para melhoria do processo. Deve, ainda, ser claro e preciso nas informações de forma a não gerar dúvidas ou ocasionar a falta de credibilidade por parte do auditado em virtude de erros de interpretação dos documentos ou atividades verificadas e, consequentemente, erro de julgamento. Quando pertinente, devem ser disponibilizados o amparo da legislação, as regras, as normas ou os controles internos aplicáveis, e/ou que resultaram na recomendação.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Auditoria Interna tem por objetivo principal propor a conscientização dos auditados sobre a importância dos controles internos existentes, e possui a finalidade de assessorar a alta administração na redução dos riscos da organização de forma geral. Nesse sentido, a formação de uma área de auditoria que permita atuar de forma autônoma e ilimitada inibe a possibilidade de ocorrência de erros ou fraudes, trazendo certa tranquilidade para as organizações. Porém, mesmo com o alto grau de confiança atribuído aos trabalhos realizados pela auditoria interna, é comum haver falta de valorização das vantagens oferecidas pela área, principalmente como meio de redução de custos. Essa interpretação ainda inequívoca do papel do auditor dentro das organizações possibilita uma resistência por parte da alta administração em tratar como prioridade o bom desenvolvimento dos trabalhos desse profissional e ao mesmo tempo um desafio para as áreas de auditoria e ao próprio profissional de auditoria, que terá que aprender a driblar as barreiras de relacionamento, falta de conhecimento do auditado acerca de normas, regulamentos e legislações aplicáveis ao segmento de atuação da sua empresa e até mesmo de compreensão da existência do procedimento de auditoria. Por isso, o estudo procurou demonstrar os principais aspectos relacionados ao tema e a priorizar não somente a questão da obrigatoriedade do atendimento legal, mas a necessidade de compreensão por parte dos auditados de que as recomendações realizadas pelos auditores fazem parte dos objetivos estratégicos da empresa, e proporcionarão melhorias na rotina diária de suas próprias atividades, além de isentar o funcionário de possíveis questionamentos referentes a erros de execução. O apoio dos auditados durante o desenvolvimento dos trabalhos torna o processo mais ágil e produtivo e as mudanças no interior da organização somente ocorrerão se, após a conclusão da auditoria, forem implantadas. Os principais responsáveis pela melhoria por meio da implementação os próprios auditados. Por isso, é necessário que, além do atendimento habitual durante o período de auditoria, o próprio colaborador busque constantemente os conhecimentos necessários ou novos conhecimentos no intuito de fortalecer suas argumentações e influenciar as pessoas que fazem parte da sua área a se tornarem responsáveis pela conformidade e promover as adequações necessárias a uma nova realidade para que, dessa forma, obtenha resultados diários nos próprios controles internos. Em virtude de os controles internos serem a base da fidedignidade das informações que comporão o escopo da auditoria interna e quanto mais e melhor forem a eficiências deles, menor será o impacto dos procedimentos de auditoria a serem aplicados. Atualmente, as práticas realizadas pelas empresas consistem em adotar procedimentos e ferramentas voltados à auditoria ou aos controles internos sem a preocupação de serem compatíveis ou adequados ao segmento da empresa ou ao seu porte, ou, ainda, ao conhecimento técnico de seus profissionais. Dessa forma, a falta de integração entre as capacidades viabiliza o fracasso dos esforços e o aumento dos conflitos internos, além de investimentos desperdiçados em oportunidades sem que se tornem reais. Sendo necessário os próprios auditores valorizarem suas atividades como forma de capital intelectual que proporciona às organizações mais do que atendimento legal obrigatório ou a emissão de relatórios e pareceres no intuito de acompanhar documentos a Órgãos reguladores, mas, principalmente, como forma de garantir a sobrevivência de toda a estratégia da organização. Nesse sentido, o objetivo de apresentar a relevância da auditoria interna nas organizações busca demonstrar para as empresas uma visão além do enfoque tradicional da auditoria interna, demonstrando somente falhas e erros diante dos processos, mas agregando valor ao investidor e a todos os envolvidos de modo geral.

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REFERÊNCIAS

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ESTUDO DE VERIFICAÇÃO DA UTILIZAÇÃO DA METODOL OGIA METODOLOGIA MUL TI-ÍNDICE FRENTE À METODOL OGIA CLÁS SICA DE ANÁLISE MULTI-ÍNDICE METODOLOGIA CLÁSSICA DE INVESTIMENTOS EM UMA A TIVIDADE DO SETOR DE V AREJO ATIVIDADE VAREJO Fábio José Horst Brites„ „„ Pedro Salanek Filho

RESUMO O presente artigo trata de um dos temas mais importantes da gestão financeira das empresas, que é a análise de investimentos. Como os recursos são escassos, sua correta alocação é fundamental para a saúde financeira da organização. O enfoque dado neste trabalho é na comparação da metodologia clássica de análise de investimentos, com seus indicadores de retorno amplamente utilizados e aceitos no mercado, frente à metodologia multi-índice, que traz alguns novos conceitos que nos permitem inserir uma visão mais relativa e qualitativa ao processo de tomada de decisão, principalmente no que tange ao risco incorrido no investimento em questão. Palavras-chave: Análise de investimentos. Risco. Retorno. Metodologia Clássica. Metodologia Multi-índice.

ABSTRACT This article deals with one of the most important topics in corporate financial management: investment analysis. As resources are scarce, their correct allocation is critical to the financial health of the company. This paper compares the conventional method of investment analysis - with its return indicators widely used and accepted in the market - to the multi-index methodology, which brings some new concepts that allow us a more relative and qualitative view of the decision process, especially regarding to investment risk. Keywords: Investment Analysis. Risk. Return. Classical methodology. Multi-index methodology.

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MBA em Finanças e graduado em Administração. Mestre em Sustentabilidade Socioeconômica e graduado em Administração de Empresas.

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Fábio José Horst Brites e Pedro Salanek Filho

1 INTRODUÇÃO

Em um ambiente de grande competição, onde empresas locais enfrentam enorme concorrência, inclusive de players internacionais devido à globalização dos mercados, a correta alocação de recursos é fundamental para se obter vantagens competitivas, tanto no que tange a parte de custos como na parte de inovação em produtos de maior valor agregado. O Brasil, atualmente, vive um momento de queda nas taxas de juros, buscando um novo ânimo nas taxas de crescimento do PIB. Isso contribui para a queda no retorno dos investimentos, chamados livre de risco, como, por exemplo, o investimento em títulos do tesouro nacional. Essa situação faz com que as empresas estejam mais dispostas a correrem riscos em seus investimentos produtivos, pois seu retorno mínimo esperado ou taxa mínima de atratividade (conceito que veremos na sequência) tende a diminuir. Outro ponto bastante interessante dessa queda de juros, alinhada a outras medidas para ampliar a liquidez no mercado, é que o crédito às empresas ficou mais acessível e menos burocrático, contribuindo para ampliar a capacidade de investimento delas. Também temos a situação de que, frente à crise econômica internacional, o Brasil consolidou-se como um dos mercados mais atrativos, pois mesmo que apresente taxas menos agressivas, continua crescendo e possui um pujante mercado consumidor interno, que é comparável apenas ao de alguns poucos países. Para corroborar ainda mais o momento vivido pela economia brasileira, estamos vivendo uma situação de tentativas do governo de reduzir o imenso fardo da carga tributária sobre as empresas, com medidas de redução de impostos, e também com medidas para melhorar a precária infraestrutura nacional, privatizando portos, aeroportos e ferrovias, visto que o gargalo logístico é hoje um dos maiores causadores de desperdícios nas empresas. Nesse cenário previamente apresentado, a importância de uma correta análise e decisão de investimento é de extrema importância. Segundo Camargo (2007), o objetivo principal de uma empresa é a maximização da riqueza dos proprietários. Para atingir tal meta, o gestor depara-se com três principais decisões financeiras: de investimentos, de financiamentos e de distribuição de lucros. Sendo a análise de investimentos tema principal deste artigo, que é responsável por determinar como os recursos da empresa serão alocados, lida com as expectativas de receita e lucro, e também com toda a perspectiva de custos, inclusive os esforços para reduzi-lo. Para auxiliar os gestores nessa difícil missão de tomar a decisão de quais investimentos devem ser realizados e quais não devem, existem algumas metodologias e ferramentas. E, neste trabalho, estaremos estudando duas delas: a metodologia clássica de análise de investimentos e a metodologia multi-índice. Portanto, tem-se como problema de pesquisa deste artigo o seguinte questionamento: quais são os benefícios da utilização da metodologia multi-índice frente à metodologia clássica de análise de investimentos? Por fim, o principal objetivo deste artigo é verificar quais são os benefícios da utilização da metodologia multi-índice frente à metodologia clássica de análise de investimentos, verificando ambas as metodologias por meio de pesquisas bibliográficas e ilustrando com um caso prático por intermédio de um estudo de caso com base nas informações de uma empresa de artigos para marcenaria.

2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 INVESTIMENTO Entende-se como investimento “o comprometimento atual de dinheiro ou de outros recursos feitos na expectativa de colher benefícios maiores no futuro” (CAMARGO, 2007, p.23). Investimento “é a decisão de aplicação de capital com o objetivo de obter um retorno que remunere o seu risco” (Neto, 2005, p.638). Ou seja, investimento é alocar capital em determinada atividade, objetivando um retorno maior que o valor inicial empreendido em um determinado nível de risco.

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Estudo de verificação da utilização da metodologia multi-índice frente à metodologia clássica...

A decisão de uma empresa ampliar sua capacidade produtiva, de comprar material para estoque à vista ou a prazo, de adquirir um concorrente ou lançar uma nova linha de produto, são decisões de investimento. Assim como a decisão de uma pessoa física colocar seu capital em uma caderneta de poupança ou em uma operação com ações na bolsa de valores objetivando um determinado retorno, também é uma decisão de investimento. No entanto, essa decisão de onde investir o capital envolve grande variedade de fatores de natureza extremamente complexa. E como os recursos empresariais são escassos, não existe a possibilidade de se investir em todas as opções disponíveis, o que torna extremamente importante a definição do investimento correto.

2.2 DECISÕES DE INVESTIMENTO “A origem da palavra decidir vem do latim decaedere, em que o prefixo “de” significa extrair, interromper e “caedere” refere-se ao ato de cindir, cortar” (GOMES et al., 2006). Decidir “significa determinar, resolver, solucionar, dar preferência” (FERREIRA, 2006, p.286). Portanto, decidir pode ser definido como o ato de parar e escolher entre os caminhos/alternativas possíveis, criando uma ruptura com o que foi preterido no momento da decisão. Segundo Clemente e Souza (2009, p.8), a decisão de investir é de natureza muito complexa, pois envolve diversos elementos, inclusive fatores de cunho pessoal. E quando se trata de decisões de investimento, a razão tem que falar muito mais alto que a emoção, pois se, mesmo agindo com racionalidade, já existe exposição ao risco e ao erro, agindo de maneira emotiva, tem-se a elevação dessa exposição. A máxima da economia, de que a sociedade possui necessidades ilimitadas e recursos escassos, corrobora com a importância da correta decisão de alocação/aplicação dos recursos disponíveis na atividade econômica, pois não existe espaço para desperdícios e também muitas vezes decisões errôneas podem ser irreparáveis. Toda decisão de investimento está ligada às receitas, aos custos e, principalmente, ao retorno esperado de uma aplicação de recursos no decorrer do tempo a determinado nível de exposição ao risco. Segundo Gitman (2004, p.730), retorno é o ganho ou perda total sofrido em um investimento em certo período.

Entender bem o trade-off retorno/risco é fundamental para uma boa decisão de investimento. E para o bom entendimento dessa relação, é muito importante o entendimento dos conceitos de risco, custo de oportunidade, taxa mínima de atratividade, taxa de juros, entre outros que serão explicitados abaixo.

2.3 RISCO Risco pode ser definido como a “possibilidade de que os resultados efetivos sejam diferentes dos esperados” (GITMAN, 2004). “[...] risco pode ser entendido pela capacidade de se mensurar o estado de incerteza de uma decisão mediante o conhecimento das probabilidades associadas à ocorrência de determinados resultados ou valores” (NETO, 2005). Segundo Bodie e Merton (2000, p.161), risco envolve o grau de incerteza sobre os retornos futuros dos períodos de manutenção do investimento. Risco também está relacionado à correta previsão dos custos a serem incorridos em determinada operação. O surgimento de um custo, que não estava previsto no orçamento ou projeto, pode tornar um ganho até então certo em um prejuízo eminente. A humanidade, no decorrer de sua existência, sempre conviveu com a exposição ao risco. A palavra risco, segundo Bernstein (1997, p.8), deriva do italiano “riscare”, que significa ousar. Toda decisão tomada é uma ousadia com um risco inerente. Inclusive o ato de assumir riscos, deixando de lado a passividade, foi fundamental para o desenvolvimento humano, conforme atesta Bernstein, na passagem a seguir:

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Fábio José Horst Brites e Pedro Salanek Filho

A Ideia revolucionária que define a fronteira entre os tempos modernos e o passado é o domínio do risco: a noção de que o futuro é mais do que um capricho dos deuses e de que homens e mulheres não são passivos ante a natureza. Até os seres humanos descobrirem como transpor essa fronteira, o futuro era um espelho do passado ou o domínio obscuro de oráculos e adivinhos que detinham o monopólio sobre o conhecimento de eventos previstos. (BERNSTEIN, 1997, p.1).

O importante é sempre tentar mensurar da melhor forma os possíveis riscos que podem aparecer durante o horizonte do investimento. Fazer a gestão dos custos esperados e não-esperados e manter atualizadas as previsões de retorno são elementos fundamentais da avaliação e gestão do risco. No entanto, “faça o que fizer, o dirigente de uma empresa não estará em condições de eliminar o risco de investimento. O melhor que poderá fazer será reduzir o campo de incerteza [...]” (FENSTERSEIFER et al., 1999, p.16). E para reduzir esse campo de incerteza, dividir o risco em tipos pode ajudar muito.

2.4 HORIZONTES DE PLANEJAMENTO E TAXA

DE JUROS

Segundo Clemente e Souza (2009, p.13), os métodos de avaliação das oportunidades de investimento baseiam-se na comparação da magnitude do investimento, ou seja, do dispêndio de capital, com os ganhos líquidos esperados durante certo período de tempo, denominado horizonte de planejamento. O horizonte de planejamento é fundamental para a tomada de decisão, pois o dinheiro ou o capital empregado ganha ou perde valor no decorrer do tempo, uma vez que é impactado/referenciado a determinada taxa de juros. Comparar fluxos de caixas ou retornos esperados em diferentes horizontes de planejamento leva à tomada de decisões equivocadas. Trazer todos ao mesmo período é mais que fundamental. Taxa de juros pode ser definida como a taxa que remunera o capital investido. É a taxa que o agente superavitário cobra do deficitário por abrir mão de seu capital ao emprestá-lo por determinado horizonte de tempo. A taxa de juros é responsável por fazer a ligação entre o valor presente e o valor futuro de um investimento. O valor presente, que nada mais é do que o valor dos pagamentos ou recebimentos na data atual, aplicado a uma determinada taxa de juros em um determinado tempo, transforma-se no valor futuro desses capitais, ou seja, é o valor desses recebimentos ou pagamentos nessa data futura. “O valor futuro é o dinheiro que você receberá em uma determinada data, e o valor presente é exatamente o dinheiro que você tem nas mãos hoje” (GITMAN, 2004, p.89). A operação de encontrar o valor futuro de determinados fluxos de caixa é chamada de valor composto, enquanto a técnica de encontrar o fluxo de caixa no momento zero de um investimento é chamada de desconto. Essa relação é evidenciada na figura a seguir: FIGURA 2 - VALOR COMPOSTO E DESCONTO

FONTE: Gitman (2004)

Um dos principais pontos de um processo de análise de investimento é a comparação entre a taxa de juros de determinado capital empregado e a taxa de retorno que o investidor está esperando, baseado no cenário econômico atual e em suas experiências anteriores. Essa taxa denomina-se o nome de taxa mínima de atratividade (TMA).

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2.5 TAXA MÍNIMA DE ATRATIVIDADE E CUSTO DE OPORTUNIDADE A taxa mínima de atratividade “corresponde à taxa de desvalorização imposta a qualquer ganho futuro pelo fato de não estar disponível no momento” (CAMARGO, 2007, p.25). Pode ser definida como a taxa que o investidor já tem “livre de risco”, é a taxa que remunera seu investimento com maior nível de segurança. A importância dessa taxa na tomada de decisão de um investimento é retratada na passagem a seguir: Entende-se como Taxa Mínima de Atratividade a melhor taxa, com baixo grau de risco, disponível para aplicação do capital em análise. A decisão de investir sempre terá pelo menos duas alternativas para serem avaliadas: investir no projeto ou “investir na Taxa Mínima de Atratividade”. Fica implícito que o capital para investimento não fica no caixa, mas, sim, aplicado à TMA. Assim, o conceito de riqueza gerada deve levar em conta somente o excedente sobre aquilo que já se tem, isto é, o que será obtido além da aplicação do capital na TMA. (CLEMENTE; SOUZA, 2009, p.71).

Geralmente, a base para estimar qual seria a TMA de determinado investidor seria a taxa de juros praticada pelo mercado. No caso brasileiro, a taxa mais comumente utilizada como TMA pelas empresas é a taxa SELIC, que é a taxa básica da economia e remunera os títulos públicos federais. Dependendo da natureza do investidor e da operação, podem ser consideradas também outras taxas, como a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo) e a TR (Taxa Referencial). Essa decisão de qual taxa utilizar também depende muito do horizonte de planejamento, conforme quadro 1.

Portanto, um investimento só é atrativo se sua taxa de retorno for superior à taxa mínima de atratividade, ou seja, determinado investimento precisa gerar um saldo residual na sua relação com a TMA. Mas se a taxa de retorno do investimento for inferior à TMA, incorre-se numa situação de custo de oportunidade. Custo de oportunidade pode ser definido como o valor deixado de se obter ao escolher determinada oportunidade de investimento, cujos rendimentos são inferiores à taxa de retorno esperada pelo investidor. Segundo Camargo (2007, p.26), custo de oportunidade equivale à diferença entre o ganho que poderia ser obtido pela empresa com a melhor alternativa de investimento e o ganho realmente alcançado com um investimento atual. O gráfico 1 evidencia bem o custo de oportunidade ao comparar quatro diferentes alternativas de investimento:

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Assim, quando um investimento apresenta um retorno superior à TMA, gera um saldo residual e não gera custo de oportunidade, ou seja, é um bom investimento. Quando apresenta retorno inferior à TMA, gera custo de oportunidade e se mostra como má opção de investimento (gráfico 2).

2.6 TÉCNICAS DE ANÁLISE DE INVESTIMENTOS Conforme mostrado anteriormente, a decisão de investir envolve muitas variáveis de alta complexidade. Para auxiliar o investidor na árdua atividade de decidir, existem algumas técnicas que podem ajudá-lo. Abaixo, serão retratadas as técnicas do Valor Presente Líquido, Valor Presente Líquido Anualizado, Índice Benefício/ Custo, Taxa Interna de Retorno, Taxa Interna de Retorno Modificada, Payback, Payback Descontado e Retorno Adicional sobre o Investimento.

2.6.1 VALOR PRESENTE LÍQUIDO (VPL) Valor presente líquido talvez seja a técnica mais utilizada nos projetos de análise de investimentos. Ela consiste em utilizar a TMA para trazer todos os fluxos de caixa ao seu valor presente na data zero, ou seja, VPL é “igual à diferença entre o valor presente das entradas líquidas de caixa associadas ao projeto e o investimento inicial necessário, com o desconto dos fluxos de caixa feito a uma taxa k definida, ou seja, sua TMA” (FENSTERSEIFER et al., 1999, p.39). A análise do VPL é bem simples. Se a soma dos fluxos de caixa quando trazidos a valor presente pela TMA for superior ao investimento inicial, o VPL será positivo. Quando essa soma for inferior ao investimento inicial, será negativo. Segue a fórmula de cálculo do VPL: VPL = - CF0 + ? CFj/ (1+ i)n Em que CF0 corresponde ao valor do investimento inicial, CFj corresponde a cada um dos fluxos de caixa esperados no investimento, i corresponde à taxa utilizada (TMA) e n corresponde ao período de tempo de cada fluxo. A regra utilizada no VPL como indicador de viabilidade de investimento é que quando negativo, o investimento deve ser abandonado e, quando positivo, deve continuar sendo analisado, e, quanto maior, melhor.

2.6.2 VALOR PRESENTE LÍQUIDO ANUALIZADO (VPLA) Segundo Clemente e Souza (2009, p.77), quando se analisam projetos com horizontes de planejamento longos, a interpretação do valor monetário do VPL apresenta dificuldades para comparação e uma alternativa é pensar em termos de um VPL médio para cada um dos períodos do projeto. Assim, “ao invés de mostrar qual o lucro total obtido com o investimento na data zero, o VPL anualizado indica quanto se pode ganhar, em média, em cada um dos períodos ou anos do projeto.” (CAMARGO, 2007, p.82). REVISTA EBS DE GESTÃO, Curitiba, v.1, n.1, p.19-35, jan./jun. 2013

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Seu critério de análise é exatamente igual ao do VPL, quanto maior melhor, e o investimento deve continuar sendo analisado quando o VPL anualizado for positivo. Segue sua fórmula de cálculo: VPLa = VPL. (1+i)n. i/ (1+i)n – 1

2.6.3 ÍNDICE BENEFÍCIO/CUSTO (IBC) O Índice Benefício/Custo retrata exatamente a mesma relação que o VPL, pois compara valor presente do fluxo de benefícios (fluxos de caixa futuros) com o valor presente do fluxo de investimento. Porém, a diferença é que nos permite enxergar qual será o retorno de cada unidade de capital investida. Segue sua fórmula de cálculo, que demonstra exatamente isso: IBC = Valor presente do fluxo de benefícios/ Valor presente do fluxo de investimentos Um IBC maior retrata um VPL positivo, ou seja, a soma dos fluxos de caixa futuros do investimento quando trazidos a valor presente é maior que o valor presente do fluxo de investimento. Portanto, quanto maior melhor e o investimento deve continuar sendo analisado.

2.6.4 RETORNO ADICIONAL SOBRE O INVESTIMENTO (ROIA) “O ROIA é a melhor estimativa de rentabilidade para um projeto de investimento. Representa, em termos percentuais, a riqueza gerada pelo projeto” (CLEMENTE; SOUZA, 2009, p.79). O ROIA mostra qual foi o percentual de ganho gerado acima da TMA pelo investimento. O IBC, ao relacionar o valor presente dos fluxos de caixa futuros do investimento com o valor presente investido, traz a taxa de retorno do projeto durante todo o horizonte. O ROIA nada mais é do que essa taxa equalizada ao período da TMA. Quanto maior o ROIA, maior o saldo residual desse projeto com relação à TMA e, consequentemente, melhor é essa alternativa de investimento que está sendo analisada.

2.6.5 TAXA INTERNA DE RETORNO (TIR) Segundo Fensterseifer (1999, p.41), a taxa interna de retorno (TIR) de um investimento é a taxa que torna o valor presente das entradas líquidas de caixa associadas ao projeto igual ao investimento inicial ou, equivalente, à taxa que torna o VPL do projeto igual a zero. A TIR nada mais é do que a taxa que remunera determinado fluxo de caixa. Definindo de maneira mais simples, segue um exemplo de investimento, cujo montante inicial é de 500 reais e o projeto apresenta retorno de 150 reais durante sete meses. FIGURA 3 - FLUXO DE CAPITAIS DE UM INVESTIMENTO

FONTE: Elaborado pelo autor

A TIR é a taxa de retorno que faz com que essas entradas futuras de caixa, quando trazidas a valor presente, igualem-se ao investimento inicial, ou seja, torna-se verdadeira a equação abaixo: -CFo + ? CFj/ (1+TIR)n = 0

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Em que CFo é o investimento inicial, CFj são os fluxos de caixa futuros e n é o período de retorno destes fluxos. O gráfico retrata bem essa relação TIR e VPL: FIGURA 4 - ILUSTRAÇÃO GRÁFICA DA TIR

FONTE: Clemente e Souza (2009)

No entanto, essa relação TIR e VPL pode acabar levando a análises equivocadas, uma vez que “o cálculo do VPL pressupõe que os fluxos liberados pelo investimento estão sendo reinvestidos na TMA, enquanto o cálculo da TIR pressupõe que os fluxos intermediários de caixa estão sendo reaplicados na TIR” (CAMARGO, 2007, p.88). A TIR pode ser considerada em dois diferentes tipos de análise, uma focada em rentabilidade e outra em nível de risco. Falando em rentabilidade, a utilidade da TIR para avaliação de determinado investimento ocorre da seguinte forma: quando a TIR for superior à TMA, é um bom investimento, cujos ganhos superam o mínimo esperado. E quando for inferior, não é um investimento que deva ser realizado. Porém, deve ser lembrado que a TIR não é a taxa de retorno do projeto e, sim, a taxa que zera os ganhos (VPL) do projeto dentro do tempo estabelecido. Portanto, a análise do ROIA torna-se muito mais útil que a TIR, uma vez que traz o ganho incremental sobre a TMA. No entanto, no enfoque risco, a TIR pode ter grande utilidade, conforme passagem abaixo: Pela dimensão risco, a informação da TIR é mais relevante. Aceitando-se o fato de que a TMA flutua segundo as mudanças nas taxas de juros da economia, então pode-se pensar na TMA como uma variável, cujo limite inferior é a taxa livre de risco que flutua ao longo do tempo. Ora, sabendo-se que, dada uma TMA, o VPL representa o ganho (EVA) associado ao projeto de investimento, e que a TIR é a taxa que zera este VPL, então ela pode ser interpretada como um limite superior para a variabilidade da TMA. Isso decorre do fato de o VPL (ganho) ir decrescendo à medida que a TMA se aproxima da TIR. (CLEMENTE; SOUZA, 2009, p.86).

Portanto, quanto maior a distância entre a TIR e a TMA, menor é o nível de risco do projeto, e o contrário também é verdadeiro. Quanto mais próxima estiverem essas duas taxas, maior a exposição ao risco.

2.6.6 PAYBACK E PAYBACK DESCONTADO O período de payback compreende o espaço de tempo que uma empresa leva para recuperar o valor inicial aplicado em determinado investimento a partir das entradas de caixa. “O payback nada mais é do que o número de períodos necessários para que o fluxo de benefícios supere o capital investido” (CLEMENTE; SOUZA, 2009, p.88).

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É um instrumento amplamente utilizado devido à facilidade da sua aplicação. Segue o critério de cálculo: Payback = n.º de períodos inteiros + (quanto falta para retornar o investimento/valor da próxima entrada) Quando as entradas de caixa foram constantes, o cálculo é ainda mais simples, basta dividir o valor investido inicialmente pelo valor da entrada de caixa. O payback é utilizado como ferramenta de análise de risco dos investimentos. Quanto mais próximo o período de payback for do horizonte de planejamento do investimento, maior o nível de risco. Uma vez que aumenta a exposição dele às variações internas (fusões, lançamento de produtos, etc.) e externas à empresa (eleições, conjuntura econômica, política monetária, etc.). No entanto, um item falho nessa metodologia, que é muito criticada, é a questão do payback não considerar o valor do dinheiro no tempo, uma vez que reputa os valores brutos das entradas de caixa. Para corrigir essa falha, utiliza-se a metodologia do payback descontado. O payback descontado consiste em utilizar a taxa mínima de atratividade (TMA) para descontar as entradas de caixa ao seu valor presente para, depois, comparar com o valor presente das saídas de caixa. Ou seja, reflete quanto tempo leva para recuperar o investimento comparando os valores presentes envolvidos. As técnicas apresentadas acima são as tradicionais utilizadas na metodologia clássica de orçamento de capital, e na metodologia multi-índice, a ser explicitada na sequência, tem-se a utilização de outras ferramentas para melhorar a qualidade da análise.

2.7 METODOLOGIA MULTI-ÍNDICE Segundo Clemente e Souza (2009, p.124), a metodologia multi-índice consiste na não incorporação do prêmio pelo risco como um spread sobre a TMA; na expressão da rentabilidade do projeto por meio do ROIA, como um retorno adicional sobre além do que seria auferido pela aplicação em títulos de baixo risco (TMA); utilização da análise ambiental para aprofundar a avaliação sobre os riscos envolvidos e confrontação dos ganhos esperados com a percepção de risco de cada projeto. A metodologia utiliza as técnicas tradicionais de orçamento de capital, explicitadas anteriormente (VPL, VPLa, IBC, TIR, ROIA, etc.) com a incorporação de três novos indicadores: grau de comprometimento da receita, risco de gestão e risco de negócio, que serão explicados na sequência.

2.7.1 GRAU DE COMPROMETIMENTO DA RECEITA O grau de comprometimento da receita compreende a relação entre a receita da empresa no ponto de equilíbrio operacional (receita se iguala ao custo produzindo lucro zero) e a receita encontrada na sua capacidade máxima de atividade. Segue a fórmula de cálculo:

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GCR = Receita de Equilíbrio/Receita no Nível Máximo de Atividade O objetivo dessa análise é medir com qual capacidade a empresa é capaz de gerar lucros, pois quanto mais próxima estiver a receita no ponto de equilíbrio da receita máxima, maior o risco operacional do investimento. Ou seja, quanto mais próximo de 1 estiver o índice, maior a exposição ao risco.

2.7.2 RISCO DE GESTÃO Risco de gestão está diretamente ligado à capacidade de gerir o projeto de investimentos dos gestores envolvidos. É uma ferramenta qualitativa expressa em índice que avalia competências e habilidades dos envolvidos, conforme explicitação abaixo: O Risco de Gestão está associado ao grau de conhecimento e de competência do grupo gestor em projetos similares. Argumenta-se que o conhecimento e a experiência acumulados sobre o processo produtivo, processo de comercialização, canais de distribuição e, principalmente, na condução de negociações, auxiliam a empresas em períodos turbulentos e desfavoráveis. Essas competências e habilidades põem ser inferidas, numa escala de 0 a 1, por meio de coleta de opiniões de especialistas. (CLEMENTE; SOUZA, 2009, p.126).

Portanto, para medir essa perspectiva, definem-se quais são as competências necessárias para gerir determinado investimento. Podem ser atribuídos pesos diferentes a essas variáveis ou não, e, por fim, constróise uma matriz de análise como o exemplo abaixo:

A matriz mostra que o cálculo do índice é feito subtraindo-se de 1 (as notas variam de 0 a 1, em que é a melhor nota possível) a média total das notas por critério de gestão de cada área envolvida no projeto. Portanto, no exemplo acima, o risco de gestão é de 0,43. Quanto menor esse índice, menor é o risco de gestão do investimento.

2.7.3 RISCO DE NEGÓCIO O Risco de Negócio nada mais é do que a exposição que as empresas sofrem a diversos tipos de risco que elas não podem controlar e que afetam diretamente ou indiretamente o projeto de análise de investimento. Também é um indicador subjetivo e as ferramentas de análise estratégica, como a matriz SWOT e as 5 forças de Porter, são as mais indicadas para esse tipo de análise. São definidos, também, pesos para cada uma das diferentes perspectivas analisadas. A média das técnicas de análises estratégicas utilizadas resulta no índice de risco, em que quanto mais próximo de zero estiver, menor é a exposição ao risco de negócio. Segue exemplo dessa análise.

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2.7.4 INDICADORES DE RISCO NA METODOLOGIA MULTI-ÍNDICE A Metodologia Multi-índice dispõe de cinco indicadores que trazem cinco diferentes perspectivas de risco, que são o índice TMA/TIR, índice de Payback/N, Grau de Comprometimento da Receita, Risco de Gestão e Risco do Negócio. Esses indicadores combinados permitem análise muito mais robusta dos riscos que as empresas estão expostas ao estudar determinado projeto de investimento. Segue exemplo gráfico dessa análise combinada.

O gráfico mostra de maneira clara o nível de exposição em cada um dos riscos analisados. O grande ponto agora é compará-los com o ROIA esperado, a fim de determinar se um projeto de investimento deve ser aprovado ou não. Abaixo, segue o resumo da metodologia Multi-índice de análise de investimento.

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3 METODOL OGIA METODOLOGIA

Metodologia, segundo Gil (2002, p.162), consiste em descrever os procedimentos a serem seguidos na realização da pesquisa e sua organização varia de acordo com as peculiaridades de cada pesquisa. Dentro da metodologia, precisamos definir o tipo de pesquisa a ser realizada. Existem três tipos de pesquisa: pesquisas exploratórias, pesquisas descritivas e pesquisas explicativas. Pesquisas exploratórias “têm como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a construir hipóteses” (GIL, 2002, p. 41). Visam aprimorar ideias com base em levantamento bibliográfico ou estudo de caso, entrevistas com pessoas envolvidas com o problema pesquisado, ou com base em análise de exemplos que estimulam a compreensão.

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Pesquisas descritivas “expõem características de determinada população ou de determinado fenômeno. Pode também estabelecer correlações entre variáveis e definir sua natureza.” (VERGARA, 2000, p. 47). Apenas explicitam a relação entre suas variáveis sem compromisso em buscar suas causas. Pesquisas explicativas “têm como preocupação central identificar os fatores que determinam ou que contribuem para a ocorrência dos fenômenos” (GIL, 2002, p.42). Ou seja, buscam explicar como se dá a ocorrência de determinados fenômenos. No artigo em questão, será empregado o tipo de pesquisa exploratória, proporcionando a familiarização do leitor com o problema e propiciando análise com base na observação empírica dos resultados analisados, fundamentados em estudo de caso e pesquisa documental. Com o intuito de aplicar os conceitos de avaliação de investimento explicitados anteriormente, assim como comparar a metodologia Multi-índice com a metodologia clássica de análise de investimento, será apresentado a seguir o estudo de caso da empresa varejista X de artigos para marcenaria (nome não revelado a pedido da empresa). O case ilustrará o processo de tomada de decisão que aprovou o plano de iniciar, no ano de 2004, a fabricação do principal produto comercializado pela empresa, o MDF, responsável por aproximadamente 60% do faturamento bruto da empresa, conforme tabela 1. TABELA 1 - FATURAMENTO BRUTO POR GRUPO DE PRODUTO (Em R$) PRODUTO

2001

2002

2003

2004

MDF

6.091.631

6.713.452

7.084.162

7.905.515

Compensados

1.470.394

1.407.659

1.408.849

1.421.623

Ferragens

315.084

378.985

387.433

865.898

Máquinas

1.575.422

1.407.659

1.643.657

1.738.257

Latarias

1.050.281

920.393

1.216.306

992.551

TOTAL

10.502.811

10.828.149

11.740.407

12.923.844

FONTE: Pesquisa de campo

O processo da coleta de dados no estudo em questão ocorrerá com base em levantamento bibliográfico com pesquisa documental fundamentado nas informações de resultados dos arquivos da empresa, nos documentos de planejamento e na observação espontânea; e por questionários direcionados para o corpo de gestão da empresa. Segue abaixo a DRE da empresa X e a previsão de fluxo de caixa do projeto que serão utilizadas para calcular os seguintes indicadores de viabilidade: taxa interna de retorno, valor presente líquido, valor presente líquido anualizado, payback, retorno adicional do investimento (ROIA), índice benefício/custo e índice payback/N, considerando uma taxa mínima de atratividade de 23% ao ano. TABELA 2 - DRE de 2001 a 2004 (Em R$) DRE Receita Bruta (-) ICMS (-) PIS e COFINS Receita Líquida de Vendas (-) Custo Variável do Produto Vendido (=) Margem Bruta (-) Despesas Variáveis (=) Margem Líquida (-) Custos Fixos (-) Despesas Fixas (=) Resultado antes de Juros, IR e CSL (-) Despesas Fixas de Juros (=) Resultado antes IR e CSL (-) IRPJ (-) CSL (=) Resultado Líquido do Exercício

2001

2002

2003

2004

10.502.811 1.260.337 971.510 8.270.964 5.986.602 2.284.361 525.141 1.759.221 458.753 177.235 1.123.233 0 1.123.233 256.808 101.091 765.334

10.828.149 1.299.378 1.001.604 8.527.167 6.317.142 2.210.025 541.407 1.668.618 477.103 208.648 982.867 0 982.867 221.717 88.458 672.692

11.740.407 1.408.849 1.085.988 9.245.571 6.794.174 2.451.397 587.020 1.864.377 496.187 167.794 1.200.395 0 1.200.395 276.099 108.036 816.261

12.923.844 1.550.861 1.195.456 10.177.527 7.883.545 2.293.982 646.192 1.647.790 516.035 241.353 890.402 0 890.402 198.601 80.136 611.666

FONTE: Pesquisa de campo

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Fábio José Horst Brites e Pedro Salanek Filho TABELA 3 - PROJEÇÃO DE FLUXO DE CAIXA DO PROJETO (Em R$)

PERÍODO

FLUXO DE CAIXA ACUMULADO AJUSTADO PELA TMA

FLUXO DE CAIXA

Ano 0 Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5 Ano 6 Ano 7 Ano 8 Ano 9

4.134.567 543.122 1.005.203 1.467.284 1.789.365 2.072.486 2.289.735 2.525.943 2.598.359 2.688.879

441.562 1.105.983 1.894.478 2.676.247 3.412.396 4.073.629 4.666.674 5.162.647 5.579.925

FONTE: Pesquisa de campo

E no início do mês de setembro de 2012 foi enviada a tabela abaixo para os três proprietários da empresa, assim como para os gerentes de vendas e produção da empresa no ano de 2004, pedindo que aferissem notas de 0 a 1 para a empresa nos quesitos: maturidade, aspectos econômicos, conhecimento de mercado, qualidade do produto, estratégia de comercialização, planejamento estratégico e disciplina, com o objetivo de averiguar o indicador de risco de gestão. TABELA 4 - MODELO DE AVALIAÇÃO DO RISCO DE GESTÃO AVALIAÇÃO QUESITOS 0,0

0,1

0,2

0,3

0,4

0,5

0,6

0,7

0,8

0,9

1,0

Maturidade Aspectos Econômicos Conhecimento do Mercado Qualidade do Produto Estratégia de Comercialização Planejamento Estratégico Disciplina FONTE: Elaborado pelo autor

Com o intuito de averiguar o risco de negócio envolvido no projeto de análise de investimento, foi pedido também, no início de setembro de 2012, aos mesmos proprietários e gerentes que elaborassem a matriz SWOT da empresa, no momento em questão. Dando os mesmos pesos de 0 a 1 para cada aspecto da matriz, e nos quesitos pontos fortes e oportunidades a escala é invertida. TABELA 5 - MODELO DE AVALIAÇÃO DO RISCO DE NEGÓCIO AVALIAÇÃO MATRIZ SWOT 0,0

0,1

0,2

0,3

0,4

0,5

0,6

0,7

0,8

0,9

1,0

Pontos Fortes Pontos Fracos Oportunidades Ameaças FONTE: Elaborado pelo autor

Para o tratamento dos dados coletados serão utilizadas ferramentas do Microsoft Office para o trabalho de cálculo dos indicadores de viabilidade, assim como para a consolidação dos dados coletados nos questionários aplicados.

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4 ANÁLISE DOS DADOS 4.1 RESULTADOS A tabela 6 abaixo mostra o resultado dos indicadores de taxa interna de retorno, valor presente líquido, valor presente líquido anualizado, payback, retorno adicional do investimento (ROIA), índice benefício/custo, índice payback/N, risco de gestão e risco do negócio para o período de 10 anos do investimento acima descrito. TABELA 6 - ÍNDICES DE VIABILIDADE DE PROJETOS INDICADOR VPL VPLa IBC ROIA TIR PAYBACK Índice TMA/TIR Índice PAYBACK/ N Risco de Gestão Risco do Negócio

RESULTADO R$ 1.960.067 R$ 533.627 1,47 4,41% 34,33% 5,43 0,67 0,60 0,82 0,85

FONTE: Elaborado pelo autor

4.2 ANÁLISE

DOS

RESULTADOS

O VPL de R$ 1.960.067 mostra que o investimento no projeto de abertura da fábrica é capaz de recuperar e superar o capital investido inicialmente. O VPL anualizado é de R$ 533.627. No entanto, o problema da utilização desses dois indicadores é que ambos trazem valores absolutos e não relativos (prática de mercado). É válido ressaltar que a metodologia do VPL é uma das mais aceitas/ utilizadas no mercado. O IBC desse projeto é de R$ 1,47, ou seja, para cada R$ 1 investido (unidade de capital imobilizada) no projeto, tem-se um retorno de R$ 1,47, ou seja, teria R$ 0,47 acima do valor investido à TIR. Esse indicador, portanto, não apresenta a mesma deficiência, uma vez que é um indicador relativo, porém a sua utilização ainda não é satisfatória para determinar se um projeto deve ser executado ou não. O ROIA, indicador de retorno que mostra a rentabilidade anual de um projeto de investimento, foi de 4,41% ao ano. Ou seja, a execução desse investimento traria para a empresa um retorno incremental com relação à TMA de 4,41% ao ano. A TIR, na metodologia multi-índcie, é tratada como um indicador de risco e não um indicador de retorno. A TIR superior à TMA mostra a viabilidade do investimento, no entanto, a relação entre TMA e TIR pode dar uma noção mais precisa de qual é o risco de alocar recursos nesse projeto. Nesse caso, a relação (índice TMA/TIR) foi de 0,67. É válido ressaltar que, quanto mais próximo de um for o indicador, maior é o risco. O payback mostra em quanto tempo o investimento inicial, balizado pela TMA, leva para igualar o capital inicialmente investido. Nesse caso, o índice payback foi de 5,43, ou seja, a empresa levará 5,43 anos para recuperar o capital investido a uma TMA de 23%. As ferramentas tratadas acima compõem a maior parte da metodologia clássica de indicadores de viabilidade de negócios. Todas são amplamente divulgadas e aceitas, porém, por definição, não consideram fatores ambientais (internos e externos) que podem inviabilizar o projeto. Analisando apenas essa parte dos resultados, conclui-se que o projeto apresenta retorno positivo frente ao investimento e, portanto, deveria ser levado em frente. Conforme citado acima, a crítica desse modelo de análise clássica, é que ela não traz nenhum fator de percepção/situação de mercado em que a empresa está inserida, assim como informações da própria empresa. Portanto, são indicadores puramente matemáticos que não expressam de fato os riscos envolvidos no projeto. A fim de corrigir esse GAP, Souza e Clemente nos trazem à metodologia multi-índice, que passa a considerar fatores qualitativos internos da empresa (risco de gestão) e externos (risco do negócio), além de novos indicadores financeiros relativos que serão mostrados abaixo.

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Fábio José Horst Brites e Pedro Salanek Filho

O índice TMA/TIR foi de 0,67, ou seja, a TMA representa 67% da taxa interna de retorno do investimento. Esse índice representa um risco relativamente alto para o investimento, pois quanto mais próximo de 1, maior é o risco envolvido. A análise payback/N é bem parecida com a análise acima. O índice de 0,6 representa que o retorno do investimento se iguala ao valor inicial investido quando atingir 60% do período previsto no projeto, ou seja, é a relação entre os 5,43 anos de payback frente ao horizonte total do projeto que é de 9 anos. O índice 0,6 pode ser considerado de médio risco, uma vez que quanto mais perto de 1, maior é o risco envolvido. Com relação à análise da qualitativa, avalia-se primeiro o risco de gestão, cujo resultado, apurado com os tomadores de decisão da empresa, foi de 0,82, que representa um risco bem alto, pois, como em todos os indicadores da metodologia multi-índice, quanto mais próximo de 1, maior é o risco incorrido. Por último, o resultado do risco de negócio, que avalia a empresa em relação ao mercado que está inserida, assim como o momento econômico, foi de 0,85. Apresentando, portanto, índice de alto risco.

CONSIDERAÇÕES FINAIS A metodologia clássica de análise de investimento, com a utilização de indicadores absolutos e não relativos, pode muitas vezes levar a uma tomada de decisão míope. Pois, tomar uma decisão tão importante para o futuro da empresa sem avaliar se seus gestores estão preparados e também sem avaliar o ambiente macroeconômico e o mercado é muito arriscado. No case da empresa varejista X, os indicadores clássicos de análise de investimento, VPL, VPLa, TIR, payback foram positivos, mostrando que o investimento deveria ser levado adiante. No entanto, ao entrar nos indicadores da metodologia multi-índice, cujo foco é analisar o risco envolvido e não o retorno, a resposta é justamente o oposto. O risco de gestão elevado mostra que a empresa não estava preparada para a criação de uma fábrica. Seus gestores apresentavam elevada experiência e relativo sucesso no mercado varejista de artigos para marcenaria, porém, dirigir uma fábrica, ter um processo produtivo focada em eficiência em custo, uma vez que o produto não é de alto valor agregado, exige muitas outras expertises, as quais eles não tinham preparo. Somado a isso, o risco de negócio foi bem elevado. A competição estava cada vez mais acirrada, com elevação no número de players. O lucro da empresa em 2004 caiu 25% em relação a 2003, mesmo com a receita bruta tendo crescido aproximadamente 10%. Isso mostra o aumento da pressão nas margens devido ao aumento da concorrência. Outro ponto também analisado no risco do negócio foi que já tinham consolidados três grandes players no mercado nacional, um de capital nacional e duas multinacionais, fabricando MDF em escalas muito agressivas. E, além de tudo, o volume de importação de MDF oriundo da China aumentou, pois passou a apresentar custos altamente competitivos. E para complementar, o Brasil passava por um monte de taxa de juros elevada devido às incertezas políticas, e estava muito difícil conseguir crédito com taxas competitivas. Resumindo, o momento não era nem um pouco favorável. No entanto, a empresa ignorou esses fatores ambientais e tomou a decisão de construir a fábrica baseada nos indicadores de retorno. O resultado foi que a fábrica levou um ano para ficar pronta e com apenas dois anos de atividade foi tomada a decisão de fechá-la, pois estava trabalhando abaixo do seu ponto de equilíbrio e prejudicando a saúde financeira da empresa, comprometendo o caixa e exigindo alto nível de capital de giro. Segundo informação dada por um dos sócios da empresa, a construção da fábrica além de trazer um alto nível de endividamento, também aumentou o custo fixo mensal em aproximadamente 30%, derrubando as margens de lucro. Portanto, conclui-se, em acordo com o case apresentado, que a metodologia clássica de investimento é de grande utilidade, porém não pode ser a única base para a tomada de decisão. Fatores externos e internos da empresa precisam ser considerados nesse momento. Recomenda-se, assim, a utilização da metodologia multiíndice para tomar uma decisão mais segura e embasada, pois o investimento malplanejado pode levar a empresa a uma derrocada financeira sem volta.

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Estudo de verificação da utilização da metodologia multi-índice frente à metodologia clássica...

REFERÊNCIAS

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INDICADORES ESTÁTICOS E EBITDA : UM ESTUDO DE CASO SOBRE SUA COMPLEMENT ARIDADE NOS SETORES DE A VIAÇÃO CIVIL E ALIMENT AÇÃO COMPLEMENTARIDADE AVIAÇÃO ALIMENTAÇÃO

Vinícius José Lindolpho Antunes

„

RESUMO O EBITDA, ou lucro antes dos juros, impostos, amortização e depreciação, tem sido preferido por muitos analistas no julgamento de sua atratividade para investimentos e outros fins, mas tal utilização é alvo de críticas em certas circunstâncias. Este artigo apresenta um estudo de caso com empresas do setor de aviação civil e alimentação (GOL, TAM, BRF e Marfrig), em que foram utilizados indicadores contábeis clássicos (tais como de rentabilidade e estrutura de capital) e o desmembramento do EBITDA em seus componentes para uma análise qualitativa do EBITDA. Tal abordagem permitiu um juízo mais completo da qualidade e sustentabilidade do EBITDA das quatro empresas selecionadas. Palavras-chave: Custos da qualidade. Mensuração. Custos da não-qualidade. Sistemática.

ABSTRACT EBITDA – earnings beforw interest, taxes, depreciation, and amortization – has been chosen by many analysts when evaluating their attractiveness for investments and other purposes. However, in certain circumstances, the use of the indicator is subject to criticism. This article presents a case with civil aviation and food companies (GOL, TAM, BRF and Mafrig), in which were used, in qualitative analysis traditional indicators (such as profitability and capital structure), and the dismembermen of EBITDA components. This approach allowed a morew complete evaluation of the quality and sustainability of EBITDA of the four selected companies. Keywords: Quality costs. Measurement. Non-quality costs. Systematic.

„

MBA em Gestão da Tecnologia da Informação e graduado em Engenharia Elétrica.

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Indicadores estáticos e EBITDA: um estudo de caso sobre sua complementaridade nos setores ...

1 INTRODUÇÃO

A análise de demonstrações financeiras é tema de pesquisa há muitos anos, embora o termo empregado e os propósitos mudem de acordo com a conjuntura. Existem relatos de estudos sobre o tema já no século XIX, embora mais voltados à análise de concessão de crédito. Alexander Wall, em seu livro Analytical credits de 1922, é um dos pioneiros no trato do assunto. Os inúmeros estudos publicados desde então estabeleceram um número sempre crescente de índices e métodos analíticos, e a facilidade de acesso aos demonstrativos financeiros de empresas de capital aberto, bem como ferramentas computacionais amplamente disponíveis tornaram simples e rápido o cálculo de quantos índices se julgue necessário. Num processo de tomada de decisão, no entanto, a relevância das informações é comumente mais importante que a quantidade (MATARAZZO, 1995). Como exemplo, pode-se citar a análise de solvência da loja de departamentos Mappin, cuja falência foi decretada em 1999. Ao se calcular os indicadores de solvência nos períodos de 1997 e 1998, de acordo com cinco modelos bastante difundidos (Kannitz, Altman, Elizabetsky, Matias, Pereira), apenas dois indicam de forma consistente a iminente falência da empresa (GOMES, 2003). A análise por índices mais tradicionais é formada por indicadores de característica “estática” – valores que expressam a posição da organização num dado momento, mas não carregam muita informação sobre a dinâmica operacional da empresa. Com o passar do tempo, outros indicadores que têm por característica capturar aspectos da operação da empresa foram desenvolvidos, e um deles tem sido muito utilizado ultimamente – trata-se do EBITDA (do inglês Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation, Amortization, ou lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização – LAJIDA), que é comumente interpretado como medida da capacidade de geração de caixa de uma empresa (MUNIZ; HUPSEL, 2011), ou ainda o resultado financeiro advindo, exclusivamente, de suas atividades operacionais. Enquanto o cálculo de índices é tarefa puramente matemática e objetiva, a seleção de quais índices farão parte de uma análise e a definição de qual será o peso dado a cada um deles na construção do diagnóstico é sujeita a processos subjetivos; pode ser feita por meio de métodos analíticos, estatísticos ou mesmo inteiramente empíricos e pautados primordialmente pela experiência do analista (CORRÊA DE LYRA; CORRAR, 2009). Este artigo, na área de finanças, visa estabelecer um paralelo entre a análise de indicadores ditos “tradicionais” e o EBITDA, calcado na noção de que essas duas abordagens são contrastes: uma de natureza “clássica” e a outra “moderna”. Elaborou-se uma análise de dois setores (aviação civil e alimentação) em que empresas tiveram problemas noticiados recentemente, utilizando-se das duas abordagens supracitadas, no intuito de verificar se a distinta natureza delas impacta a congruência das conclusões. Tal análise tem como propósito identificar um conjunto de índices “tradicionais” que, utilizado em conjunto com o EBITDA, possa tecer um diagnóstico mais completo da situação de uma organização. O problema de pesquisa pode ser colocado da seguinte forma: quais indicadores financeiros “tradicionais” podem sinalizar ou ressaltar a inaptidão do EBITDA no diagnóstico da situação de uma empresa?

2 REVISÃO DA LITERA TURA LITERATURA Contabilidade pode ser definida como o processo de comunicação de informações financeiras de uma instituição a partes interessadas, tais como gestores, acionistas e órgãos públicos (ELLIOT; ELLIOT, 2004). Ainda, de acordo com o American Institute of Certified Public Accountants (AICPA), um dos principais objetivos da contabilidade é fornecer substrato à interpretação dos resultados do conjunto de transações que resultam no balanço e nos demonstrativos de uma instituição (SINGH WAHLA). A análise de tais demonstrativos é tema de vasta literatura. Uma das formas de análise é por intermédio das avaliações vertical e horizontal. A análise vertical compara diferentes linhas ou itens de um demonstrativo, dentro de um mesmo período; a análise horizontal é a comparação de um mesmo item no decorrer de dois ou mais períodos consecutivos (RYBA, et al., 2011). Tais análises permitem a um analista identificar tendências e construir questionamentos pertinentes aos dados, mas dificilmente corrobora na identificação das causas de tais observações (MATARAZZO, 1995; BLAT, 2001).

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Vinícius José Lindolpho Antunes

Outra forma de análise, provavelmente a mais amplamente empregada (MATARAZZO, 1995), são os índices econômico-financeiros. Índice é uma relação entre contas ou grupo de contas das Demonstrações Financeiras, que visa evidenciar determinado aspecto da situação econômica ou financeira de uma empresa (MATARAZZO, 1995). Tais índices, por se tratarem usualmente de valores percentuais, relativos, permitem a comparação de vários períodos ou mesmo de diferentes instituições de forma consistente, independentemente dos valores absolutos (BLATT, 2001).

3 ÍNDICES FINANCEIROS 3.1 ÍNDICES ECONÔMICO-FINANCEIROS “CLÁSSICOS” Há um grande número de indicadores financeiros, desenvolvidos com os mais diversos propósitos. É possível estabelecer um grupo padrão de indicadores e classificá-los de acordo com sua finalidade, embora não exista consenso entre os autores no que diz respeito a quais índices são parte da lista ou suas fórmulas. O quadro abaixo relaciona os índices “clássicos” selecionados para estudo neste artigo, retirados de livros de dois dos principais autores brasileiros no assunto (MATARAZZO, 1995; SILVA, 2007). QUADRO 1 - ÍNDICES ECONÔMICO-FINANCEIROS AGRUPAMENTO

ÍNDICE Participação de capital de terceiros

Estrutura de capital

Liquidez

Composição do endividamento

FÓRMULA

PCT =

PC + ELP x 100 PL

Quanto maior, pior

CE =

PC x 100 PC + ELP

Quanto maior, pior

AP X 100 PL

Quanto maior, pior

Imobilização do patrimônio líquido

IPL x

Liquidez geral

LG =

Liquidez corrente Liquidez seca Giro do ativo

INTERPRETAÇÃO

AC + RLP PC + ELP

Quanto maior, melhor

AC PC

Quanto maior, melhor

AC − EST PC

Quanto maior, melhor

VL AT

Quanto maior, melhor

LC = LS =

GA =

Retorno sobre vendas

RSV =

LL x 100 VL

Quanto maior, melhor

Retorno sobre o ativo

RSA =

LL x 100 AT

Quanto maior, melhor

RSPL =

LL x 100 PLm

Quanto maior, melhor

Rentabilidade

Retorno sobre o patrimônio líquido FONTE: Matarazzo (1995); Silva (2007)

Os indicadores carregam um significado implícito e dão substrato a uma análise de primeiro grau da situação de uma empresa. Por exemplo, um grau de endividamento elevado é geralmente situação menos desejável que a contrária, portanto o índice em si carrega algum potencial de diagnóstico como apresentado no quadro. Entretanto, a análise dos índices de forma isolada pode não ser suficiente para um processo de tomada de decisão – é ideal haver algum referencial de comparação que permita classificar o resultado obtido para um dado índice como bom ou ruim. Tais referenciais são conhecidos como índices padrão. Os índices padrão são resultado de um processo estatístico pelo qual os resultados de uma empresa são classificados em relação aos resultados de um grupo de empresas. Este grupo de empresas pode ser definido de acordo com qualquer critério que se deseje, sendo critérios usuais o setor de atividade, porte e localização geográfica. Uma vez definido esse grupo de empresas e calculados os índices para todas elas, são compilados os valores dos percentis adequados ao tamanho da amostra, tais como decis ou quartis. Por fim, identifica-se em qual percentil a empresa sob análise encontra-se para os índices de interesse (MATARAZZO, 1995; SILVA, 2007; CAMARGO, 2007).

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Indicadores estáticos e EBITDA: um estudo de caso sobre sua complementaridade nos setores ...

É possível atribuir classificações aos quantis. No exemplo dado, considerando-se que quanto maior o valor do índice melhor é a situação da empresa, poderia-se classificar o quartil 1 como péssimo, 2 como razoável, 3 como bom e 4 como ótimo.

3.2 O EBITDA O EBITDA, conforme anteriormente enunciado, é a sigla em inglês para Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation, Amortization, ou lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização – chamado de LAJIDA em português por alguns autores. Seu cálculo pode ser feito por meio das demonstrações contábeis e de resultados por intermédio da fórmula abaixo (entre outras possíveis) (MARÇAL, 2006): EBITDA = Lucro antes do IR e CS + Despesas financeiras líquidas + Depreciações + Amortizações EQUAÇÃO 1: CÁLCULO DO EBITDA O propósito original do EBITDA é permitir a comparação da lucratividade de empresas muito distintas, já que são cancelados efeitos dos diferentes ativos de cada uma (pela reversão da depreciação), histórico de desinvestimentos e aquisições (pela reversão da amortização), carga de impostos e diferentes incentivos (pela reversão das taxas e dos impostos) e estrutura de capitais (pela reversão das despesas financeiras) (WIKIPEDIA, 2012). Tal utilização, no entanto, é possível somente se observadas certas premissas e associada à análise de outros indicadores. Contudo, tais ressalvas nem sempre são observadas. O EBITDA passou a ser apresentado com destaque em relatórios gerenciais e há quem a tenha como métrica primária em análises de fluxo de caixa e processos de tomada de decisão. Vários autores expõem problemas na utilização indiscriminada do EBITDA e como é possível uma empresa com ótimos valores para tal indicador apresentar problemas sérios quando analisada por outros índices, e até mesmo usar artifícios para melhorar o valor do EBITDA (MUNIZ; HUPSEL, 2011; MARÇAL, 2006; WIKIPEDIA, 2012).

3.3 ANÁLISE DO DESEMPENHO

DE EMPRESAS

A aplicação do conceito de índices padrão na análise do desempenho de organizações apresenta alguns desafios, exemplos dos quais se lista abaixo: · Acesso a informações contábeis de um conjunto significativo de empresas para comparação; · Seleção dos índices mais relevantes; · Definição do peso ou importância de cada índice participante na análise. É possível que essas dificuldades figurem entre os motivos pelos quais a utilização do EBITDA na análise de empresas tenha se popularizado, haja vista que é um índice geralmente apresentado nas demonstrações financeiras publicadas pelas empresas. Vários autores dedicaram-se a estudar a definição de padrões para comparação e avaliação do desempenho de empresas, bem como identificação de índices mais importantes e pesos relativos dos mesmos em uma análise. Bezerra e Corrar descrevem em seu artigo o emprego da análise fatorial na identificação dos principais indicadores para avaliação do desempenho financeiro de seguradoras (BEZERRA; CORRAR, 2006). Carvalho et al. (2007) descrevem a utilização da mesma técnica na determinação de um conjunto de índices para avaliação de cooperativas agropecuárias (CARVALHO; BIALOSKORSKI NETO, 2007). Corrêa de Lyra e Corrar valeram-se da técnica Delphi para entrevistar diversos docentes na busca de um consenso entre especialistas sobre quais índices são mais importantes, e fazem um abrangente resumo do referencial teórico sobre o assunto (CORRÊA DE LYRA; CORRAR, 2009). Ainda assim, é justo dizer que não há um método ou conjunto de índices “universal” para análise da saúde e do desempenho de organizações.

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Vinícius José Lindolpho Antunes

4 METODOL OGIA METODOLOGIA

A metodologia empregada neste estudo foi a de estudo de caso, envolvendo dois setores econômicos, e duas empresas de cada setor. A seleção das empresas buscou colocar lado a lado, em cada setor, uma empresa que, no passado recente, tenha enfrentado problemas, e outra de porte semelhante cujo desempenho possa ser considerado razoável. As empresas são listadas abaixo, de acordo com sua classificação por setor de atuação usada pela BOVESPA (2012): · Setor: construção e transporte/segmento: transporte aéreo · TAM S. A.1 · GOL Linhas Aéreas Inteligentes S. A. · Setor: consumo não cíclico/segmento: carnes e derivados · BRF - Brasil Foods S. A. · Marfrig Alimentos S. A. Uma vez selecionadas as empresas, empreendeu-se duas análises – uma utilizando-se dos índices “clássicos” e outra baseada no EBITDA e considerações a seu respeito que tenham sido emitidas em publicações financeiras ou artigos especializados. Através dessas análises, se pretende-se verificar a congruência entre esses dois diagnósticos no que diz respeito à situação econômico-financeira da empresa. O cálculo dos índices foi feito com base nos balanços contábeis publicados pelas empresas, considerandose os períodos entre 2009 a 2011, publicados junto à BOVESPA (2012). As fórmulas de cálculo de cada um dos indicadores são aquelas apresentadas no quadro 1. Já o valor do EBITDA foi obtido diretamente dos relatórios gerenciais publicados pelas empresas e disponibilizados em seus canais de comunicação com investidores. Os valores estão em sintonia com a fórmula de cálculo exposta na Seção O EBITDA.

5 ANÁLISE DOS DADOS 5.1 ANÁLISE PELOS ÍNDICES CLÁSSICOS O Apêndice 1 apresenta um resumo das principais rubricas constantes do balanço patrimonial e demonstração de resultados das empresas selecionadas, nos períodos de 2009, 2010 e 2011. Esses foram os valores utilizados no cálculo dos índices econômico-financeiros denominados “clássicos” neste artigo, os quais são apresentados na tabela 1 do Apêndice 1. A análise desses índices aponta alguns fatos interessantes. Começando pelos índices de rentabilidade, observam-se uma queda contínua para todos os valores, de todas as empresas, exceto BRF. Excluindo-se o giro do ativo, a tendência dos demais índices para as outras três das empresas é de queda. Tal observação indica que ao menos essas três empresas vêm tendo dificuldade em gerar lucro com base em seus ativos. Contudo, ao consultar o resultado operacional das empresas, nota-se que os valores apresentam aumento no período analisado, exceto para Marfrig. Considerando o fato de que todas têm em valores de EBITDA bastante significativos (como será mostrado a seguir), parecem haver indícios de uma estrutura de capital excessivamente dispendiosa ou características de depreciação significativas (resultantes de um ativo imobilizado elevado), ou uma combinação de todos esses fatores. Também chama a atenção o fato de índices de estrutura de capital, especialmente a participação de capital de terceiros, apresentarem clara tendência de crescimento ou valores bastante elevados para as mesmas três empresas apontadas anteriormente (todas menos BRF, para qual o índice é relativamente estável). Isso to indica um endividamento crescente. Também se observa uma piora no perfil da dívida ou composição do endividamento em alguns casos, com aumento da parcela com vencimento no curto prazo; combinado com uma redução na liquidez, esse te é um cenário não desejável; contudo, não se observam tendências claras nos índices. 1

Denominação na época dos demonstrativos utilizados neste artigo. A atual denominação é LATAM Airlines S.A.

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Indicadores estáticos e EBITDA: um estudo de caso sobre sua complementaridade nos setores ... TABELA 1 - ÍNDICES DAS EMPRESAS SELECIONADAS GOL

TAM

ÍNDICE Liquidez geral Liquidez corrente Liquidez seca Participação de capital de terceiros Composição do endividamento Imobilização do PL Retorno sobre ativo Retorno sobre vendas Retorno sobre PL Giro do ativo

2011

2010

2009

2011

2010

2009

0,59 0,87 0,83 3,83 0,43 1,76 -0,07 -0,10 -0,34 0,71

0,71 1,60 1,50 2,09 0,28 1,18 0,02 0,03 0,07 0,77

0,68 0,99 0,93 2,34 0,40 1,27 0,10 0,15 0,34 0,69

0,44 0,98 0,93 6,53 0,38 4,39 -0,02 -0,02 -0,12 0,81

0,43 0,90 0,86 4,50 0,42 3,32 0,05 0,06 0,25 0,79

0,39 0,85 0,81 9,00 0,38 6,29 0,10 0,13 0,96 0,75

BRF

MARFRIG

ÍNDICE Liquidez geral Liquidez corrente Liquidez seca Participação de capital de terceiros Composição do endividamento Imobilização do PL Retorno sobre ativo Retorno sobre vendas Retorno sobre PL Giro do ativo

2011

2010

2009

2011

2010

2009

0,99 1,39 1,06 1,12 0,50 0,69 0,05 0,05 0,10 0,86

1,02 1,76 1,39 1,04 0,40 0,66 0,03 0,04 0,06 0,82

0,99 1,68 1,32 1,18 0,41 0,68 0,00 0,01 0,01 0,56

0,68 1,40 1,02 3,04 0,37 1,24 -0,03 -0,03 -0,13 0,92

0,71 1,35 1,03 2,48 0,43 1,07 0,01 0,01 0,02 0,70

0,77 1,83 1,47 2,24 0,38 1,00 0,04 0,06 0,14 0,79

FONTE: O autor

5.2 ANÁLISE

PELO EBITDA

Os valores do EBITDA são apresentados na forma de um gráfico na figura 1. Observa-se que o valor é sempre crescente no período analisado, com exceção da GOL, que apresenta uma forte queda no último período. As três outras empresas apresentam um aumento maior que 100% entre os 2009 e 2011. Tal resultado, isoladamente, é certamente bastante positivo; caso a interpretação “acadêmica” do EBITDA como indicativo do desempenho operacional da empresa seja adequada, se poder-se-ia concluir que, especialmente BRF e Marfrig (que apresentam tendência de crescimento no EBITDA mais acentuada), estão aumentando sua capacidade de geração de receita com base em seus ativos. Tal conclusão, no entanto, diverge do que sinalizam os índices de rentabilidade calculados anteriormente na seção análise pelos índices clássicos – apenas a BRF apresenta tendência de alta nos índices de rentabilidade em linha com o EBITDA.

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Vinícius José Lindolpho Antunes

Ao se estudar a composição do EBITDA nos casos estudados, observa-se alguns fatos interessantes: · Várias empresas apresentam impacto negativo do item “despesas financeiras” no EBITDA, em 2009, provavelmente devido à apreciação do real frente ao dólar (FINANCE; GOOGLE); · o item “amortização/depreciação” tem um impacto no EBITDA relativamente estável nos períodos analisados, tomando-se cada empresa individualmente, mas existem momentos em que eles representam fatia importante do resultado; · o imposto de renda é o fator menos significativo na composição do EBITDA em praticamente todos os casos, exceto: TAM (2010 e 2009), BRF (2009) e Marfrig (2010), neste último sendo o fator menos significativo justamente o resultado líquido; · o resultado líquido figura como fator mais significativo na composição do EBITDA em 4 das 12 situações analisadas; em uma delas, o impacto é negativo (piora o valor do EBITDA). As observações acima parecem corroborar a hipótese de que ao menos a estrutura de capital e a rubrica “depreciação” são aspectos importantes de se analisar em conjunto com o EBITDA. No caso da Marfrig, por exemplo, assim como demonstrado por outros autores (MUNIZ; HUPSEL, 2011), as despesas financeiras em franco crescimento contrastam com o resultado líquido minguante. Sobre a GOL, pode-se dizer que o resultado positivo no EBITDA em 2011, embora muito menor que nos anos anteriores, só foi possível devido a um crescimento abrupto nas despesas financeiras que contrabalanceou matematicamente o enorme prejuízo no resultado líquido. A TAM reduziu o peso da linha “depreciação/amortização” no EBITDA entre 2009 e 2011, mas os componentes mais importantes na composição do valor foram o resultado líquido em 2010, e despesas financeiras em 2011. No caso da TAM, 2011 é o primeiro período em que as despesas financeiras têm um impacto positivo no EBITDA, embora tal cenário seja reflexo de um maior endividamento de longo prazo (como demonstram os índices “participação de capital de terceiros” e “composição do endividamento” apresentados na Seção Análise pelos índices clássicos). Diferentemente da Marfrig e da GOL, a tendência de aumento nas despesas financeiras não se configura claramente. O resultado líquido foi negativo, assim como o da GOL, que atua no mesmo setor, mas de forma menos contundente e com menor significância no resultado do EBITDA. A BRF é a empresa em que o EBITDA é construído com mais solidez ao longo ddurante os três períodos. O cenário inicial (2009), em que o resultado líquido era praticamente o menor dos contribuintes na construção do EBITDA, se altera-se já em 2010, ondeem que é o segundo maior fator (embora por margem estreita), e em 2011 já se configura um cenário contrário a 2009, com o resultado líquido representando 42% do EBITDA. As despesas financeiras representam, na média, a menor contribuição para o índice dentre todas as empresas (se excluído o resultado discrepante da TAM no período de 2009 da amostra total). As conclusões acima são mais bem apreciadas e compreendidas por meio da tabela 2, em que consta uma representação gráfica da significância de cada componente em relação ao valor total do EBITDA, lembrandose de que o mesmo valor é basicamente a soma de quatro fatores. No caso da BRF, em 2011, por exemplo, a parcela do resultado líquido sobre o valor total é de 42% (1,37 / 3,24 bilhões). TABELA 2 - DECOMPOSIÇÃO DO EBITDA (Em percentual) GOL

TAM

COMPOSIÇÃO DO EBITDA (%) Resultado líquido (+) Imposto de renda (+) Despesas financeiras líquidas (+) Depreciação e amortização = EBITDA

2011

2010

2009

2011

2010

2009

-496,7 -164,5 499,6 261,6 100,0

21,9 17,6 31,8 28,8 100,0

60,2 24,2 61,6 25,7 100,0

-15,3 4,6 67,9 42,8 100,0

40,6 26,3 -8,2 41,2 100,0

153,7 80,0 -207,9 74,2 100,0

BRF

MARFRIG

COMPOSIÇÃO DO EBITDA (%) Resultado líquido (+) Imposto de renda (+) Despesas financeiras líquidas (+) Depreciação e amortização = EBITDA

2011

2010

2009

2011

2010

2009

42,2 4,8 25,8 27,3 100,0

30,5 7,5 32,4 29,6 100,0

14,1 25,4 -1,5 62,0 100,0

-42,1 -29,9 130,2 41,8 100,0

9,7 -27,4 76,4 41,3 100,0

73,7 0,9 -20,0 45,4 100,0

FONTE: O autor

Os valores a partir dos pelos quais foram construídos os percentuais acima estão no Apêndice 2.

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Indicadores estáticos e EBITDA: um estudo de caso sobre sua complementaridade nos setores ...

CONCLUSÃO

A divulgação de resultados positivos de EBITDA geralmente causa certo furor no mercado de ações, com subsequente alta nos preços dos papéis das companhias. Como documentado na literatura sobre o tema, no entanto, o EBITDA não deve ser usado como único critério de análise de desempenho e decisão de investimentos; o valor do índice pode ocultar problemas de estrutura de capital e até mesmo ser manipulado por administrações mal-intencionadas. O cálculo de alguns indicadores de desempenho “clássicos” pode ajudar a se estabelecer um juízo mais completo sobre a solidez do EBITDA, como demonstrado neste se artigo. Principalmente os índices de estrutura de capital e rentabilidade (em especial rentabilidade sobre o ativo e sobre o patrimônio líquido) foram úteis em estabelecer indícios de um EBITDA, cuja composição era de baixa qualidade. Como destacado na Seção Análise pelos índices clássicos, os índices de rentabilidade de todas as empresas, exceto BRF, registram queda contínua nos períodos analisados, divergindo do comportamento do EBITDA, em linhas gerais. O endividamento, por sua vez, cresceu de forma contínua e significativa para as mesmas três empresas, dando indicativos do motivo pelo qual o EBITDA pode crescer num cenário de baixa rentabilidade. Os problemas indicados pela análise clássica se confirmaram-se ao se realizar o desmembramento do EBITDA em seus quatro componentes, na Seção Análise pelo EBITDA. Especialmente GOL e Marfrig, apresentaram valores de EBITDA compostos primariamente de despesas financeiras (advindas do alto endividamento) e, paradoxalmente, prejudicados em 2011 pelo resultado líquido bastante negativo. A TAM apresenta problemas similares aos de GOL e Marfrig, mas em proporções muito menores. Já a BRF, pelos aspectos estudados nesse artigo, apresenta valores de EBITDA congruentes com um cenário considerado mais sustentável quando levados em contaconsiderados os indicadores clássicos – em outras palavras, o crescimento do EBITDA é sustentado primariamente pelo crescimento da rentabilidade e não das despesas financeiras.

REFERÊNCIAS BEZERRA, Francisco Antonio; CORRAR, Luiz J. Utilização da análise fatorial na identificação dos principais indicadores para avaliação do desempenho financeiro: uma aplicação nas empresas de seguros. Revista Contabilidade e Finanças, São Paulo, v.17, n.42, p.50-62, 2006. BLATT, Adriano. Análise de balanços - estruturação e avaliação das demonstrações financeiras e contábeis. São Paulo: Makon Books, 2001. BM&F BOVESPA. Empresas listadas - BOVESPA. Disponível em: <http://www.bmfbovespa.com.br/cias-listadas/ empresas-listadas/BuscaEmpresaListada.aspx?Idioma=pt-br>. Acesso em: 11 ago. 2012. BRF Brasil Foods. Formulário de referência - 2011. São Paulo, 2011. BRF Brasil Foods. Formulário de referência - 2012. Disponível em: < http://www.brasilfoods.com/ri/siteri/web/ arquivos/BRF_FR_2012_v4_20120706.pdf>. Acesso em: 17 ago. 2012. CAMARGO, Camila. Análise de investimentos e demonstrativos financeiros. Curitiba: IBPEX, 2007. CARVALHO, Flavio Leonel; BIALOSKORSKI NETO, Sigismundo. Identificação dos principais indicadores de avaliação de desempenho financeiro de cooperativas AGROPECUÁRIAS. In: XLV CONGRESSO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO E SOCIOLOGIA RURAL. Anais... Londrina, 2007. CORRÊA DE LYRA, Ricardo Luiz Wüst; CORRAR, Luis J. A percepção dos docentes quanto aos indicadores contábeis: um estudo exploratório utilizando a técnica Delphi. In: III CONGRESSO IAAER-ANPCONT. Anais... São Paulo, 2009. ELLIOT, Barry; ELLIOT, Jamie. Financial accounting and reporting. Londres: Prentice Hall, 2004. FINANCE, Google. US Dollar ($)/Brazilian Real (R$). Google finance finance. Disponível em: <http://www.google.com/ finance?chdnp=1&chdd=1&chds=1&chdv=1&chvs=Linear&chdeh=0&chfdeh=0&chdet=1262386800000&chddm=343939&q=CURRENCY:USDBRL&ntsp=0&ei=3LdPUKDCpnokwPDuwE>. Acesso em: 11 set. 2012.

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Vinícius José Lindolpho Antunes GOL linhas Aéreas Inteligentes. Formulário de referência - 2012. Disponível em: <http://www.mzweb.com.br/ gol2009/web/arquivos/FR_v3.pdf>. Acesso em: 17 ago. 2012. GOMES, Adriano. Análise das demonstrações financeiras. Disponível em: <http:// www.biblioteca.sebrae.com.br/bds/bds.nsf/DowContador?OpenAgent&unid=9D85FA7647F6844A 03256D520059C2EC>. Acesso em: 17 jun. 2012. MARÇAL, Rubens. EBITDA - qual o real valor dessa métrica. Revista RI Relações com Investidores, Rio de Janeiro, n.90, p.6-10, 2006. MARFRIG Alimentos. Formulário de referência - 2012. [Online]. Acesso em: 17 ago. 2012. MATARAZZO, Dante Carmine. Análise financeira de balanços: abordagem básica e gerencial. São Paulo: Atlas, 1995. MUNIZ, Diego; HUPSEL, Thiago. A fantasia do EBITDA. Disponível em: <http://opequenoinvestidor.com.br/2011/ 12/a-fantasia-do-ebitda/>. Acesso em: 20 dez. 2011. RYBA, Andréa; KAMINSKI LENZI, Ervin; KAMINSKI LENZI, Marcelo. Elementos de engenharia econômica. Curitiba: IBPEX, 2011. SILVA, José Peirera da. Análise financeira das empresas. São Paulo: Atlas, 2007. SINGH WAHLA, Ramnik. Accounting terminology. Bulletin, n.1, Review and Résumé. s.l.: AICPA. TAM. Formulário de referência - 2012. Disponível em: <http://tam.riweb.com.br>. Acesso em: 17 ago. 2012. WALL, Alexander. Analytical credits. Indianapolis: Bobbs-Merrill Company, 1921. WIKIPEDIA Accountancy. [Online]. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Accountancy>. Acesso em: 15 maio 2012. WIKIPEDIA. Accountancy. [Online] Wikipedia. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Accountancy>. Acesso em: 15 maio 2012. WIKIPEDIA. Earnings before interest, taxes, depreciation and amortization. [Online] Wikipedia. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Earnings_before_interest,_taxes,_depreciation_and_amortization>. Acesso em: 15 ago. 2012.

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Indicadores estáticos e EBITDA: um estudo de caso sobre sua complementaridade nos setores ...

APÊNDICE 1 RESUMO DAS INFORMAÇÕES DO BALANÇO PPA ATRIMONIAL E DEMONSTRAÇÃO DE RESUL TADOS DAS EMPRESAS SELECIONADAS RESULT

TABELA A.1 - RESUMO DAS INFORMAÇÕES DO BALANÇO PATRIMONIAL E DEMONSTRAÇÃO DE RESULTADOS DAS EMPRESAS SELECIONADAS (Em R$ milhares) RÚBRICA LINHA DE DEMONSTRATIVO

GOL

TAM

SÍMBOLO 2011

2010

2009

2011

2010

2009

Ativo Total

AT

10.655.141

9.063.847

8.720.120

15.985.229

14.459.063

12.940.085

Ativo Circulante

AC

3.138.303

2.704.852

2.403.204

5.116.660

4.505.357

3.793.420

Passivo Circulante

PC

3.595.665

1.688.993

2.439.258

5.246.126

4.993.522

4.454.665

Ativo Permanente (imobilizado)

AP

3.890.470

3.460.968

3.325.713

9.317.951

8.711.850

8.134.028

RLP

1.842.411

1.630.850

1.759.418

940.624

637.832

770.936

PL

2.205.911

2.929.169

2.609.986

2.124.120

2.627.391

1.294.036

Exigível de Longo Prazo

ELP

4.853.565

4.445.685

3.670.876

8.614.983

6.838.150

7.191.384

Estoques (circulante)

EST

151.023

170.990

137.959

212.609

198.760

195.092

Lucro líquido

LL

-751.538

214.197

890.832

-261.513

668.930

1.248.459

Vendas líquidas

VL

7.539.308

6.979.447

6.025.382

12.994.486

11.378.691

9.765.506

Realizável de Longo Prazo Patrimônio Líquido

RÚBRICA LINHA DE DEMONSTRATIVO

BRF

MARFRIG

SÍMBOLO 2011

2010

2009

2011

2010

2009

Ativo Total

AT

29.983.456

27.751.547

28.383.627

23.823.441

22.599.586

12.254.587

Ativo Circulante

AC

11.123.751

10.020.699

10.677.939

9.359.113

9.400.239

5.822.389

Passivo Circulante

PC

7.987.829

5.686.384

6.359.230

6.673.099

6.948.559

3.183.421

Ativo Permanente (imobilizado)

AP

9.798.370

9.066.831

8.874.186

7.315.085

6.963.142

3.791.814

RLP

4.654.837

4.399.259

4.537.839

2.781.092

2.039.469

706.021

PL

14.109.917

13.636.518

12.995.659

5.898.521

6.496.413

3.785.904

Realizável de Longo Prazo Patrimônio Líquido Exigível de Longo Prazo

ELP

7.885.710

8.428.645

9.028.738

11.251.821

9.154.614

5.285.262

Estoques (circulante)

EST

2.679.211

2.135.809

2.255.497

2.526.827

2.249.314

1.148.298

Lucro líquido

LL

1.365.089

804.996

118.591

-746.683

140.092

542.416

Vendas líquidas

VL

25.706.238

22.681.253

15.905.776

21.884.909

15.878.469

9.623.621

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Vinícius José Lindolpho Antunes

APÊNDICE 2 DECOMPOSIÇÃO DO EBITDA DAS EMPRESAS SELECIONADAS

TABELA A.2 - DECOMPOSIÇÃO DO EBITDA DAS EMPRESAS SELECIONADAS (Em R$ milhares) GOL

TAM

COMPOSIÇÃO DO EBITDA 2011

2010

2009

2011

2010

2009

Resultado líquido

-751538

214197

890832

-261513

688930

(+) Imposto de renda

-248880

172299

-134696

78616

447054

649539

(+) Despesas financeiras líquidas

755914

311299

-342844

1159954

-138971

-1688125

(+) Depreciação e amortização

395807

281604

142853

730375

699769

602192

= EBITDA

151303

979399

556145

1707432

1696782

812065

GOL

1248459

TAM

COMPOSIÇÃO DO EBITDA 2011 Resultado líquido

2010

2009

2011

2010

2009 534435

1367400

804100

123000

-746012

146094

(+) Imposto de renda

156500

196500

221200

-529967

-411592

6696

(+) Despesas financeiras líquidas

836000

853500

-13400

2308925

1147243

-145092

884100

780900

540200

740857

620721

328944

3244000

2635000

871000

1773803

1502466

724983

(+) Depreciação e amortização = EBITDA

Os valores para cada linha das tabelas foram coletados dos formulários padrão entregues pelas empresas a CVM (Formulário de referência). A conciliação do EBITDA com os valores dos demonstrativos financeiros consta na seção “3.2 – Medições não contábeis”.

Por motivos práticos, foram feitas as seguintes simplificações nos casos ondeem que os valores apresentados pelas empresas estavam divididos diferentemente do exposto acima: · BRF: linha “Outros resultados operacionais” foi somada a linha “Despesas financeiras líquidas”; · BRF, Marfrig: linha “Participação minoritária” foi somada a linha “Depreciação e amortização”; · Marfrig: linha “Variação cambial” foi somada a linha “Despesas financeiras líquidas”.

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INVESTOR RELA TIONS AND THE VOL UNT ARY INFORMA TION RELEASE RELATIONS VOLUNT UNTARY INFORMATION PROCES S THROUGH VIRTU AL ENVIRONMENT IN BRAZILIAN MARKET PROCESS VIRTUAL MARKET:: A TRANSNA TIONAL STUD Y TRANSNATIONAL STUDY Luís Alberto Saavedra Martinelli „„ Diego Deliberador Francescon „

RESUMO

Esta pesquisa tem como objetivo determinar a diferença entre os níveis nacional e transnacional de divulgação de informação do ponto de vista da governança corporativa, identificando o comportamento dos dois tipos de empresas no contexto da transparência através do ambiente de internet. O estudo considerou 32 empresas nacionais e transnacionais. Os dados foram processados, em paralelo para garantir a consistência dos resultados, com procedimentos estatísticos não-paramétricos Wilcoxon-Mann-Whitney, Fisher Exact e Pos-Order Robust Hypotheses Test. A pesquisa demonstrou um sistema de informações mais consistente apresentado pelas empresas nacionais, comparado aos outros, o que sugere um processo de decisão mais preciso do ponto de vista do seu investidor. Palavras-chave: Governança corporativa. Processo de decisão. Investidor. Sistema de informações.

ABSTRACT

This research aims to determine the difference between national and transnational information dissemination levels, in the corporate governance point of view, identifying the behaviour of both kinds of companies in the transparency context through Internet environment. The study considered 32 national and transnational companies. The dataset were treated according to non-parametric statistical procedures through Wilcoxon-Mann-Whitney, Fisher Exact and Post-Order Robust Hypotheses Tests, in parallel for ensuring the consistency of statistical findings. The study reveals a more consistent information system presented by national companies when compared to others, what suggest a more consistent decision process by the financial investor point of view related them. Keywords: Corporate governance. Decision process. Financial investor. Information system.

„

Mestre em Administração de Empresas e graduado em Engenharia Química.

„„

MBA em Gestão de Negócios e graduado em Engenharia com ênfase em telecomunicações.

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Investor relations and the voluntary information release process through virtual environment...

1 INTRODUCTION

The corporate governance subjects has gained worldwide attention with the financial scandals involving several North American corporations, causing extensive damage to the market and attracting the society focus to these issues. The movement for corporate governance became stronger in the beginning of 80’s in the USA, when large institutional investors began to mobilize against some corporations that were administered irregularly at the expense of shareholders (BORGES; SERRÃO, 2005). The companies poor financial performance, in these cases, were related to the manipulation of accounting statements or a lack of fraud prevention procedures (BLACK, Jang; KAN, 2002; YEH, LEE; KO, 2002; DALTON; DALTON, 2005; REBEIZ; SALAMEH, 2006). Corporate governance practices contribute to the credibility of management actions, reports and results and provide legitimacy to the companies. In this context, transparency is a central concept for allowing the dissemination of relevant and reliable information (BUSHMAN; PIOTROSKI; SMITH, 2001; BUSHMAN; SMITH, 2003), on a public way, reducing the information asymmetry (BLACK; KAN, 2002). That is particularly important in the investment decision because seventy percent of investors consider transparency the main factor to be considered in their decision-making process (McKINSEY, 2002). Since the middle of 90’s, the Internet has been used as a channel for providing to invertors the relevant information, which could help them in their investment decision (STUBENRATH; WEBER, 1999; GEERINGS; BOLLEN; HASSINK, 2003). This channel is particularly relevant in financial environments where national and transnational companies operate in the local stock market and compete for the investor financial resources. This research aims to determine the difference between national and transnational information dissemination levels, for identifying the technical behaviour of both kinds of companies in the information process, taking in account the Internet environment. To reach the objectives, this study, classified as descriptive with an applied nature and a quantitative approach, researched 32 national and transnational companies, collecting data from their corporate websites, using a structured checklist adapted from Mendes-da-Silva and Magalhães-Filho (2005). The data analysis had, as the initial step, the identification of statistical descriptive index and the definition of the data internal consistency level, which was calculated through Cronbach’s Alpha coefficient and, simultaneously, through the Split-Half Test and the Spearman-Brown Prophecy to confirm Cronbach’s Alpha results. Considering that normal distribution characteristics were not present in the dataset, the researchers opted for non-parametric statistical procedures, based on two independent samples, through the WilcoxonMann-Whitney Hypotheses Test, Fisher Exact Hypotheses Test for 2x2 Dimension Table and Post-Order Robust Hypotheses Test, in parallel form ensuring the consistency of statistical findings. The research practical implications can be associated to findings that suggest environment characteristics with more or less information asymmetry or transparency regarded to the financial investor possibilities in local financial market opportunities. It can provide a more governed configuration of public informational schemes, which ensure more reliable decision-making processes when the investment alternatives consider national and transnational companies.

2 THEORETICAL BACKGROUND

2.1 CORPORATE GOVERNANCE Corporate governance has risen in worldwide attention after the negative economic impact provoked by the global companies’ collapse, mainly in North America and Europe, originated from a sequence of corporate scams related to disingenuous practice of manipulation of accounting statements (DALTON; DALTON, 2005; REBEIZ; SALAMEH, 2006). The collapse of those specific companies and the subsequent social and economic

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Luís Alberto Saavedra Martinelli e Diego Deliberador Francescon

problems in the regions where they operated, as well as their global consequences, has resulted on the corporate governance issues in the last two decades, according to Dalton and Dalton (2005). However, corporate governance discussion is present in the business environment since the capital markets’ advent and the dilution of companies’ ownership, according to Rebeiz and Salameh (2006). The dilution of companies’ ownership starting happens when the shareholders were removed from the operational activities of the companies. The firms’ management, in these situations, has been transferred to professional managers, so called agency, which are dissociated from the firms’ financial suppliers, the owners. This corporate configuration was responsible for agency conflicts (WEIMER; PAPE, 1999; BREALEY; MYERS, 2000; ANDRADE; ROSSETTI, 2007; REBEIZ; SALAMEH, 2006), which is treated through the Agency Theory. Agency theory considers that there is a potential conflict of interest between managers and firms’ financial suppliers due to the separation of ownership from control (BREALEY; MYERS, 2000). This theory has its origins in the individuals characteristics related to individualism, opportunism and self serving exposed in the homoeconomicus theory (DAVIS, SCHOORMAN; DONALDSON, 1997). On a extended point of view, this conflict of interest can be established between managers and other firms’ stakeholders, which are defined by Hemmati, Dodds, Enayati and McHarry (2002) as those who have an interest in a particular decision, either as individuals or representatives of a group, considering people who influence a decision, as well as those affected by it. Considering that, corporate governance is related to the ways in which firms’ financial suppliers ensure themselves that will have a return on their firm’s investment (SHLEIFER; VISHNY, 1997; LA PORTA, SHLEIFER; LOPEZ-DE-SILANES; VISHNY, 2000; PINKOWITZ, STULZ; WILLAMSON, 2006). Corporate governance practices contribute to the credibility of management actions, reports and results. They provide legitimacy to the companies and are fundamental for the proper business man agent in terms of stakeholders’ expectancies. Corporate Governance is the system by which organizations are directed, monitored and encouraged, involving relationships between owners, Board of Directors and control agencies. Good corporate governance practices translate principles, objectives and recommendations, aligning interests in order to preserve and optimize the organization’s value, facilitating their access to resources and contributing to their longevity (OECD, 2004; ANDRADE; ROSSETTI, 2007; IBGC, 2009). In Brazil, professional and independent Board of Directors emerged in response to the good practices of corporate governance and the companies’ needs for modernizing their top management in order to become more attractive to the market. The phenomenon was accelerated by the globalization process, privatization and deregulation of the economy, resulting in a more competitive business environment (IBGC, 2009). In addition to that, corporate governance has another role related to actions for arbitrating conflicts between shareholders, managers and other company’s stakeholder (LODI, 2000; NENOVA, 2003; DYCK; ZINGALES, 2004). The mentioned level of professionalism and independence of management control instances is required because a separate and independent body representing the interests of the shareholders can reduce the high cost of an unsupervised management (REBEIZ; SALAMEH, 2006). Corporate governance has been studied by the academic community in order to identify the best practices, which lead companies to a more effective business behaviour and environment. Studies has been conducted to identify relationship between Board structure, governance structure and companies value which result in positive correlation, but some researches did not find relevant cause-effect relations (REBEIZ; SALAMEH, 2006; JIRAPORN; LIU, 2008). Other studies have dedicated efforts for determining the relationship between property structure and control structure for understanding the mechanisms of agency control aiming to minimize problems between managers and shareholders (BREALEY; MYERS, 2000; GARG, 2007), as well as for understanding relations between executive compensation and corporate governance (CYTER, KANG; KUMAR, 2002; HARTZELL; STARKS, 2003; TRENBLAY; CHÊNEVERT, 2004).

2.2 TRANSPARENCY AND DISCLOSURE Companies that have a strong governance model implemented, in general, have better performance than those, which have a weak governance practices in use, considering that corporate governance benefits include improvements in operational performance and frauds prevention (BLACK, JANG; KAN, 2002; YEH, LEE; KO, 2002). A consistent corporate governance system considers as fundamental principles the attention to rights and equitable treatment of shareholders, interests of other stakeholders, roles and responsibilities of the board, integrity and ethical behaviour and disclosure and transparency (IUDÍCEBUS, MARION; PEREIRA, 2003; OECD, 2004; ANDRADE; ROSSETTI, 2007; IBGC, 2009).

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These principles, when applied in the organizational practice, contribute to a strong corporate governance environment allowing investor’s access to reliable and consistent information and reducing the information asymmetry (BLACK; KAN, 2002). Transparency, in the corporate governance context, can be described as the pool of relevant and reliable information which is available regarding to subjects like regular performance, financial status, investment opportunities, value and risk, related to companies which operate in the stock market (BUSHMAN, PIOTROSKI; SMITH, 2001; BUSHMAN; SMITH, 2003). That is particularly important in the investment decision process because seventy percent of investors consider transparency the main factor to be took in account; this specific aspect of corporate governance became important when financial markets implemented mechanisms which allow, on a faster way, the financial resources migration from investors to productive projects. In this context, the information asymmetry reduces the reliability of this process (CARVALHO, 2002; MCKINSEY, 2002; VIEIRA; MENDES, 2004). This specific point is quite relevant considering that, in Anglo-Saxons countries, the corporate governance is based on mechanisms for solving agency conflict, which happens from informational asymmetry and conflict of interests between involved parts. The generation of relevant information by the company addresses to information asymmetry. This contributes to disclosure decisions and their consequences (BROWN, FINN; HILLEGEIST, 2001; BORGES; SERRÃO, 2005). The five factors included in the disclosure theory are related to disclosure and the stock market, disclosure regulations, the role of auditors and assessors in the disclosure process, factors related to disclosure decisions and consequences of the disclosure decision (HEALY; PAPELU, 2001). A relevant point to be considered in this issue is that environments where high transparency standards and consistent rules for protecting the rights of minority shareholders can be found provide barriers for information manipulation regarded to companies’ results and expectancy performance (LEUZ; NANDA; WYSOCKI, 2003; LEUZ, 2006.

2.3 TRANSPARENCY, TRANSNATIONAL COMPANIES AND THE VIRTUAL ENVIRONMENT Corporate governance practices tend to improve companies management systems, the regulatory environment and the investors protection; the challenge is to measure that. The challenge is bigger when considering that corporate governance systems in a particular country are created in a specific context reflecting a framework of legal, institutional, and cultural factors shaping the local managerial decision making process (WEIMER; PAPE, 1999; BORGES; SERRÃO, 2005). This issue is quite relevant when a transnational company operates in equity markets of more than one region where the companies have installed business units. A more specific concept of the transnational organization considers the actions of building and legitimising multiple diverse internal perspectives able to sense the complex environmental demands and opportunities; its physical assets and management capabilities are distributed internationally but are interdependent; and it has developed a robust and flexible internal integrative process (BARTLETT; GHOSHAL, 2000). Considering that, transparency has been identified as a key requirement or feature of good governance with the ultimate purpose of investor protection through the improvement of disclosure standards and the creation of transparency and knowledge. Specifically regarding to transparency and information dissemination, which means the quantitative and qualitative information availability through the companies’ formal channels (GIBBINS, RICHARDSON; WATERHOUSE, 1990), some studies showed the relations between dissemination level and corporate governance practices (HO; WONG, 2001; LANZANA, 2004), as well as, results manipulations and corporate governance practices (LA PORTA, SHLEIFER; VISHNY, 1998; LEUZ, NANDA; WYSOCKI, 2003; LEUZ, 2006). Transparency in corporate information availability has been provided by the definition of global standards for results reportings or by the adoption of quantitative evaluation practices for measuring the level of company compliance to the corporate governance principles (LU; BATTEN, 2001; MOTTA; SILVEIRA; BORGES, 2006; DINGWERTH, 2008).

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Some studies have used Internet reporting for gathering additional knowledge about the subject since mid 1990’s, when companies started processes for using virtual environment for reporting their corporate information (PETRAVICK; GILLETT, 1996; GRAY; DEBRECENY, 1997; DELLER, STUBENRATH; WEBER, 1999). This virtual environment is particularly important for corporate transparency because it is less expensive and has a higher capacity to reach investors, in a timely manner, than the traditional paper-based disclosure. This process increases information comprehensiveness, accuracy and timeliness (PORTES; REY, 2000; DEBRECENY, GRAY; RAHMAN, 2002; XIAO, JONES; LYMER, 2005). The Internet can provide investor relations, and a link between a company and the financial market investors, providing information to help them in their investment decision through a public evaluation process, based on all technological resources available in Internet systems, when compared to the traditional paper-based annual report (MARSTON, 1996; DELLER; STUBENRATH; WEBER, 1999; GEERINGS; BOLLEN; HASSINK, 2003).

3 METHOD 3.1 HYPOTHESES The Brazilian financial market is an environment where national and transnational companies operate in equity markets and compete not only for prevailing on a consumer preference level but in the investor decisionmaking process. Considering this corporate goal regarded to both kinds of companies, Internet became a formal channel for disseminating reliable information and reach investors of local market. In this context, is important to observe that there is a lack of roles for disseminating financial information through Internet, especially in the Brazilian market (MENDES-DA-SILVA; MAGALHÃES-FILHO, 2005). Considering both aspects, lack of a standard for disseminating information and the competition for being chosen by local investors in the investment decision process,, this research aims to determine the difference between national and transnational information dissemination levels, for identifying the technical behaviour of both kinds of companies in the information process, taking in account the Internet environment. The achievement of this goal is defined through two research hypotheses testing, as follow: · H0: there is no difference between information transparency level, calculated through information availability, in national and transnational companies websites; · H1: the information transparency level, calculated through information availability, in national and transnational companies’ websites are different;

3.2 RESEARCH CLASSIFICATION AND VARIABLES The presented research can be classified as descriptive with an applied nature, in relation to its goals, considering a quantitative approach through adequate procedures related to technical research and literature survey. The research is descriptive because, according to Gil (2002), it has as main objective the description of the characteristics of a given population or the establishment of relationships between variables. This work establishes relationships between the dependent variable and independent variables for identifying and describing characteristics of the studied population through the sample. The work has an applied nature once, according to Magalhães & Orquiza (2002), it generates knowledge for practical application, aimed to solving problems and has its bases in knowledge previously discovered. In terms of investigative procedures, in addition to the literature research, data collection was performed through the surveyed national and transnational companies’ websites, using a structured checklist adapted from Mendes-da-Silva and Magalhães-Filho (2005). The research considered the investigation of the following relevant information in each company website: annual report, quarter-based report, general view about results,

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information available in more than one idiom, calendar of main corporate governance events, relevant news, independent financial analysts reports, general comments about information, current situation about stocks, historical situation about stocks, web links for independent websites which provide independent financial market information, comments about advantages in investing in the company and financial information about company reinvestment. The checklist was tested in two company’ websites and the results were not considered in the sample.

3.3 SAMPLE SELECTION AND STATISTICAL PROCEDURES APPLIED The chosen sample for the study covers 32 national and transnational companies in the year of 2010, considering this year as the researched horizon because the changing through time website characteristics. The sample considers companies that have a high use of the Internet environment and, regarding to transnational companies, those ones which have headquarters in countries where corporate governance standards are more developed and implemented. The 32 researched companies are divided in two independent groups: 16 national companies and 16 transnational companies, which were compared aiming to the research objectives. The researched companies are ALL, Ambev, Arcelor Mittal, Braskem, Cemig, Confab, CPFL, Dufry Ag, Duke Energy Int. Ger. Paranapanema SA, Eletrobrás, Embraer, Eternit, Gerdau, Gol, LLX, Lojas Americanas, Mahle, Millenium Inorganics Chemicals, Natura, Pearson Sistemas do Brasil, Petrobras, Positivo Informática, TAM, Telefônica, Tereos Internacional, TIM, Totvs, Usiminas, Vale, Votorantim Cimentos, Weg e Whrlpool. The approach was quantitative considering that, according to Silva and Menezes (2001), it translates into numbers information and opinions to classify and analyze them. In this work, data analysis and interpretation were made at the light of statistical procedures. In this data analysis, the first step was to identify the level of internal consistency of the collected data in the sample by calculating Cronbach’s Alpha coefficient and, simultaneously, calculating correlation coefficients using the Split-Half Test and the Spearman-Brown Prophecy to confirm Cronbach’s Alpha results. The statistical model for conducting theses tests are described in Table 1. The analysis of the obtained coefficients considered that, according to George and Mallery (2003), alpha values ??above 0,7 denote an acceptable internal consistency of the sample and above 0,9, an excellent internal consistency. TABLE 1 - INTERNAL CONSISTENCY TESTS OF THE SAMPLE DATA TEST

FORMULA

DEFINITION N

Cronbach’ alpha.

= Number of tested components

σ2X = total variance σ2Yi = componentivariance

Spearman-Brown prophecy and Split-Half Correlation

N

(through the Spearman-Brown Prophecy).

ρxx' = reliability of current test

= number of combined tests

SOURCE: Adapted from George, D.; Mallery, P. (2003)

The second step, as suggested by Siegel & Castellan (2006), was to identify the rationale for choosing statistical tests. Usually, according to Freund (2006) and Kazmier (2004), the sample size of 30 or higher is considered sufficiently large for the application of the Central Limit Theorem to the distribution data. As well as, samples according to this size have a shape that can be considered approximately similar to a normal distribution, regardless of real format. According to Mann (2006), identifying normal distribution characteristics of data in a research is fundamental to the definition of parametric statistical tests to analyze the sample. On the other hand, if these normal distribution characteristics are not present in the dataset, the researcher should opt for statistical procedures non-related to normal distribution assumptions, the so-called nonparametric tests. Considering that, the investigation in this research study was conducted through two independent samples with a sample size smaller than 30 each one. That situation suggests the adoption of non-parametric tests. The tests for two independent samples were selected as most suitable for this work. These kinds of tests, according Siegel & Castellan (2006), can be applied when the independent samples come

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from the application of two random treatments to members of a sample, and the samples do not need have the same size. However, both samples used in this study have the same size. The tests for two independent samples used in this study for the hypotheses analysis and interpretation were Wilcoxon-Mann-Whitney Hypotheses Test, Fisher Exact Hypotheses Test for 2x2 Dimension Table and Post-Order Robust Hypotheses Test, as suggested by Siegel and Castellan (2006). The statistical model for conducting theses tests are described in table 2. TABLE 2 - NON-PARAMETRIC STATISTICAL TESTS FOR TWO INDEPENDENT SAMPLES TEST

Wilcoxon-Mann-Whitney.

Fisher Exact for 2 x 2 Dimension Table.

FORMULA

z=

W x ± 0,5 − m(N + 1)/2 mn(N + 1)/12

(A + B)! (C + D)! (A + C)! (B + D)! p= N! A! B! C!

DEFINITION Wx = test statistic. It is the sum of the ordinal posts classification of the data.

M = number of data in sample 1. N = number of data in sample 2. A, B, C and D =

U(YX) = Post-Order Robust.

Ù=

mU (YX ) − nU ( XY ) 2 V X +VY + U ( XY )U (YX )

number of observations in the fields of Fisher 2 x 2 matrix.

sum of positions of each observation in sample 1,considering the number of data in sample 2 with a lower post.

U(XY) =

sum of positions of each observation in sample 2,considering the number of data in sample 1 with a lower post.

Vx and Vy = variability index of U(YXi) and U(XYj), respectively. SOURCE: Adapted from Siegel; Castellan (2006)

The application of three simultaneous tests aim to identify parallel relations between the two independent variables and the dependent variable. The main factors, which contribute for the adoption of these hypotheses tests among the range of non-parametric statistical tests were their adjustments to the data model and their respective degrees of power-efficiency data evaluation. The Wilcoxon-Mann-Whitney Test, according to Siegel and Castellan (2006), has power-efficiency level of approximately 95% even for moderately sized samples. The Post-Order Robust Test has essentially the same power-efficiency than the Wilcoxon-Mann-Whitney Test, however the test’s statistics seems to approach the normal distribution a little faster when the sample size show growth, which is the case in this research work. Likewise, the Fisher Exact Hypotheses Test for 2x2 Dimension Table is one of the most powerful one-sided tests for dichotomous data and in nominal scale. In all tests that had variants procedures for small and large samples, the procedures were used for large samples, according to the criteria of each test and the characteristics of the mass of data, which suggests a greater power-efficiency in the development of sample’s treatments and analysis.

4 RESUL TS AND DISCUS SION RESULTS DISCUSSION 4.1 DESCRIPTIVE STATISTIC AND NORMALITY CONDITIONS Initially, researchers conducted statistical analysis for identifying the characteristics of the sample for each variable analyzed, through descriptive statistics, which are shown in table 3. Table 1 show that all averages of all dependent variables for national companies are higher than those ones related to transnational companies. As well as, the standard deviation follows the same statistical behavior. Confirming the statistical difference between both samples addressing to the hypotheses analysis, specific statistical tests are required, as defined in the methodological approach description.

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Investor relations and the voluntary information release process through virtual environment... TABLE 3 - DESCRIPTIVE STATISTICS RESULTS INDEPENDENT VARIABLES DEPENDENT VARIABLES

National Companies

Transnational Companies

INDIVIDUALLY ANALYZED Average

Standard deviation

N

Average

Standard deviation

N

Complete annual financial report

1,00

0,00

16

0,88

0,34

16

Complete quarterly financial report

1,00

0,00

16

0,81

0,40

16

Corporate financial performance overview

1,00

0,00

16

0,81

0,40

16

Financial reports in 2 or more languages

1,00

0,00

16

0,75

0,45

16

Corporate events calendar

0,94

0,25

16

0,63

0,50

16

Corporate financial news

1,00

0,00

16

0,75

0,45

16

Market analysts comments

0,88

0,34

16

0,56

0,51

16

Additional financial reports and presentations

0,81

0,40

16

0,38

0,50

16

Current stock price

0,94

0,25

16

0,63

0,50

16

Historic stock price

0,75

0,45

16

0,56

0,51

16

Specific website for investor relationship

0,44

0,51

16

0,25

0,45

16 16

Technical paper listing stock advantages

0,38

0,50

16

0,06

0,25

Detailed report about financial re investment

0,06

0,25

16

0,06

0,25

16

Average of companies

0,78

0,12

16

0,55

0,26

16

SOURCE: The authors

4.2 INTERNAL CONSISTENCY RESULTS Before starting the non-parametric tests for both samples, we performed the sample internal consistency analysis by determining the Cronbach’s Alpha coefficient. This evaluation was conducted for each set of data referred to each sample. In addition to this evaluation, to confirm the data consistency was also conducted other two statistical procedures in parallel: the Split-Half Correlation Test and the Spearman-Brown Prophecy, whose results are shown in table 4. TABLE 4 - INTERNAL CONSISTENCY TESTES RESULTS FOR BOTH SAMPLES SAMPLE

CRONBACH’

SPLIT-HALF

SPEARMAN-BROWN

ALPHA

CORRELATION

PROPHECY

National companies

0,94

0,94

0,97

Transnational companies

0,89

0,75

0,86

SOURCE: The authors

Researchers observed that the values ??of Cronbach’s Alpha of the three researched variables and the data set of entire sample are above 0,8, showing a consistent scenario from a sample internal point of view. This finding was confirmed by the correlation coefficients of Spearman-Brown Prophecy, all above 0,8 and the split-Half Test, even with a 0,75 coefficient result, which can be accepted for an internal consistency analysis.

4.3 FINDINGS RELATED TO THE RESEARCHED HYPOTHESES Once samples of internal consistency conditions were found, which are adequate for continuing the investigation, researchers carried out another step of the investigative process related to the researched objective, seeking to identify, through the hypotheses H0 and H1, if there are differences between national and transnational companies operating in Brazilian market regarding the financial corporate governance transparency levels through virtual relationship to investors. The conducted investigations aimed to the researched objective through three non-parametric tests in parallel and allowing comparable results, seeking to obtain findings. For this purpose it was used the WilcoxonMann-Whitney Hypotheses Test, the Fisher Exact Hypotheses Test for 2x2 Table and the Post-Order Robust Hypotheses Test, as described in the methodological approach description. The tests were conducted for comparing two independent samples: the first one comprising national companies and the second one comprising transnational companies. The statistical data analysis results are presented in table 5.

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Luís Alberto Saavedra Martinelli e Diego Deliberador Francescon TABLE 5 - NON-PARAMETRIC STATISTICAL RESULTS FOR H0, AND H1 FINANCIAL CORPORATE GOVERNANCE TRANSPARENCY

DEPENDENT VARIABLE

THROUGH VIRTUAL RELATIONSHIP TO INVESTORS Wilcoxon-Mann-Whitney Test

Post-Order

Fisher Exact Test for

Robust Test

2x2 Table Test

Independent variables

NON-PARAMETRIC STATISTICAL TESTES

National or transnational companies

p-value*

Α

Ù

< 0,0010 for z = 3,09

0,05

-7,87

Ùmín p/

p-

α = 0,05

value

-1,960

0,04

α

0,05

SOURCE: The authors

In the data analysis for the H0 and H1 hypotheses, we observed through Wilcoxon-Mann-Whitney results that the coefficient z = 3.09 has a probability of p-value <0.0010 when H0 is true. Since this value is less than á = 0.05, we decide to reject H0 in favour of H1. This results are compatible to the Barlett & Gohshal (2000) statements about transnational companies considering that these companies seek to legitimize their positions according to the demands and opportunities in the markets they operate; results suggest that those companies have lower focus on financial markets than on consumer market, where the relevant opportunities happens to them. National companies, on the other side, depend on the local financial resources, once they do not operate, on a large scale, in global financial markets, what lead them to improve their public information systems for attracting local financial resources. TABLE 6 - NON-PARAMETRIC STATISTICAL RESULTS FOR H0, AND H1 FINANCIAL CORPORATE GOVERNANCE TRANSPARENCY

DEPENDENT VARIABLE

NON-PARAMETRIC

THROUGH VIRTUAL RELATIONSHIP TO INVESTORS Wilcoxon-Mann-

Post-Order Robust

Fisher Exact Test for

Whitney Test

Test

2x2 Table Test

STATISTICAL TESTES

Independent variables

p-value

National or transnational companies

< 0,0010 for z = 3,09

α

Ù

0,05

-7,87

Ùmín p/ α = 0,05

-1,960

p-value

α

0,04

0,05

SOURCE: The authors

Considering Black, Jang and Kan (2002) and Yeh, Lee and Ko (2002), companies which have a strong governance model implemented, in general, have better performance than those which have a weak governance practices in use. The research findings shows a more consistent investor relationship model in national companies than in transnational, suggesting a stronger governance model in those companies related to investor relations, but the performance cannot be discussed once it is not part of the investigation. This stronger governance model in the investor relations issues in national companies than transnational companies suggested by data analysis is supported by Iudícebus, Marion and Pereira (2003), OECD (2004), Andrade and Rossetti (2007) and IBGC (2009), once results demonstrate adherence to corporate governance fundamental principles related to the attention to rights and equitable treatment of shareholders, respect to the interests of other stakeholders, disclosure and transparency.

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This decision took from Wilcoxon-Mann-Whitney results is supported by the results of Post-Order Robust Test, since the calculated value of Ù = -7.87 is smaller than the minimum value of Ùmin = -1.960, for á = 0.05, the result also leads to rejection of H0 in favour of H1. These findings suggest that, according to Black, Jang and Kan (2002), these organizational practices in national companies lead to a strong corporate governance environment allowing investor’s access to reliable and consistent information, reducing the information asymmetry, when compared to transnational companies’ practices. In the Fisher Exact Test For 2x2 Dimension Table, we observed that the probability p-value is 0.04, which is a value lower than the significance level á = 0.05. As the criterion for rejection of H0 refers to the region where p-value is less than or equal to á, the calculated value for the statistical test suggests to reject H0 in favour of H1. Considering comparable and coherent results from three different statistical tests, the research can demonstrate the more aggressive behaviour of national companies than transnational ones related to reach the financial investor with relevant information that could lead them to decide investing in national productive projects. Despite some studies that have shown the relations between dissemination level and corporate governance practices, according Ho and Wong (2001) and Lanzana (2004), suggest a weaker informational system in the transnational companies’ governance models in their Brazilian business units. Considering that, national companies use the virtual environment benefits, reported by Portes & Rey (2000), Debreceny, Gray & Rahman (2002) and Xiao, Jones & Lymer (2005), like higher capacity to reach, in a timely manner, investors when compared to traditional paper-based disclosure, increasing information comprehensiveness, accuracy and timeliness, for having more effectiveness in their financial market approach. Coherent with Marston (1996), Deller, Stubenrath and Weber (1999) and Geerings, Bollen and Hassink (2003), the proper and wider Internet use by national companies provides to them a link between to the financial market investors, through information dissemination, what helps theses investors in their investment decision. It happens through a public evaluation process, based on technological resources available in Internet systems used in a better way by national companies when compared to transnational companies in Brazilian financial market.

FINAL COMMENTS The objective of this research was to identify, in national and transnational companies, the differences in the information transparency level, calculated through information availability in companies’ websites, through a structured checklist adapted from Mendes-da-Silva and Magalhães-Filho (2005) and the concept of transnational companies’ according to Bartlett and Ghoshal (2000). The obtained results reveal a more consistent information system presented by national companies when compared to transnational companies what suggest a more consistent decision process by the financial investor point of view related to the national studied companies. This investment environment around national companies became more rational, clear and safety, from the information availability point of view, considering the reduction of uncertainty about the operational performance and frauds prevention, coherent to Black, Jang and Kan (2002), and Yeh, Lee and Ko (2002), when compared to transnational companies environment in Brazilian market, according to the studied companies. The practical implications of the research are related to the findings that suggest a scenario with less information asymmetry regarded to financial investor possibilities in local companies’ opportunities. It provides a more governed configuration of public informational schemes that provides more reliable decision-making process when national companies are considered in the investment alternatives. It must be considered the research limitations regarded to the diversity of productive segments in both groups of studied companies and the variation of companies size in terms of geographical activities and financial results. These limitations suggest opportunities for other researches related to the studied subject, considering the mentioned points and additional ones like, considering the tendency of financial resources migration from investors to national or transnational companies, the tendencies in specific economic sectors about this migration characteristics or the main factors considered in a decision making process for financial investment regarded to the kind of available information and the degree of information reliability. Anyway, all of this suggested research subjects, as well as the presented research, can contribute to the advance of a more consistent environment from the corporate governance point of view, which can improve the financial process in the companies which operate in Brazilian market.

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Luís Alberto Saavedra Martinelli e Diego Deliberador Francescon

REFERENCES

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POLÍTICAS PÚBLICAS DE CIÊNCIA E TECNOL OGIA TECNOLOGIA OGIA:: O CAMPO CIENTÍFICO NO PARANÁ Mário José de Souza

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RESUMO A implantação, execução e avaliação de políticas públicas de ciência e tecnologia dependem dos recursos financeiros disponíveis para projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação da ciência e tecnologia, porém, ainda são escassos. Mesmo sendo obrigatórios pela constituição federal, muitos Estados ainda não têm sua regulamentação efetivada ou, mesmo se a possuem, muitas vezes não contam com a disponibilidade financeira necessária para implementar ações que beneficiem de fato o setor de Ciência e Tecnologia. Este artigo apresenta subsídios para a discussão de políticas públicas de ciência e tecnologia para o campo científico, em uma análise da distribuição de recursos, conforme legislação e avaliação das políticas públicas para a área. Outro aspecto a ser considerado é a política estadual de ciência e tecnologia, com uma visão geral sobre o Fundo Paraná de Ciência e Tecnologia e a distribuição dos recursos financeiros de fomento para o setor no Estado do Paraná, especialmente aqueles abordados pela Lei N.º 10.020/98, que define a destinação de 2% da arrecadação tributária estadual ao Fundo Paraná, para ser aplicada no Sistema Estadual de Ciência e Tecnologia, composto pelas instituições de ensino superior, centros e grupos de pesquisas, empresas sem fins lucrativos, organizações não governamentais e Governo do Estado. O objetivo é trazer uma reflexão crítica que possa colaborar com a criação e implementação de políticas públicas de fomento à Ciência e Tecnologia necessárias à geração de benefícios à sociedade brasileira. Palavras-chave: Políticas públicas. Ciência e tecnologia. Distribuição de recursos. Recursos financeiros.

ABSTRACT Implementing and evaluating science and technology public policies depend on financial resources for projects of research, development, and innovation in science and technology. However, those resources are still scarce. Even required by the Brazilian Federal Constitution, many states in Brazil have no effective regulations on the subject or, when they do have regulations, the lack of financial resources often stop them to implement actions that actually benefit the Science and Technology sector. This article brings ideias to discuss Science and Technology public policies for the scientific field, analyzing resources distribution according to legislation and evaluation of the area public policies. Another aspect to be considered is the Science and Technology state policy, with an overview of the Fundo Paraná de Ciência e Tecnologia (Paraná Fund for Science and Technology), and the distribution of financial resources for promotion of industry in the State of Paraná, especially those resources specified by Law N.º 10.020/98, that defines the allocation of 2% of the state tax revenue to the Fundo Paraná, to be applied in the Sistema Estadual de Ciência e Tecnologia (State System of Science and Technology), which comprised higher education institutions, research centers and groups, non-profit companies, non-governmental organizations and the state government. The goal is to bring about a critical reflection to collaborate in the creation and implementation of public policies to promote Science and Technology, areas which are so necessary for the generation of benefits to Brazilian society. Keywords: Public policies. Science and technology. Resources distribution. Financial resources. „

Mestre em Políticas Públicas e graduado em Agronomia.

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Mário José de Souza

1 INTRODUÇÃO

A produção de conhecimentos científicos e tecnológicos orientados para a solução de problemas econômicos e sociais é hoje aceita como uma necessidade da sociedade brasileira. Utilizando-se como principal referência os recursos de fomento para ciência e tecnologia do Estado do Paraná, apresentamos uma análise do campo científico do Paraná. A política de ciência e tecnologia é debatida, valendo-se de reflexões teóricas e da análise das políticas públicas correlatas, com destaque para o papel das universidades estaduais. Os conceitos da sociologia propostos por Pierre Bourdieu são apresentados e sua aplicabilidade discutida para uma reflexão sobre o uso dos recursos financeiros do Fundo Paraná de Ciência e Tecnologia, buscando o seu impacto no Estado do Paraná. Por fim, o processo de fomento do Estado é tratado à luz de políticas públicas estaduais, de acordo com as orientações do Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia e do governo do Estado, nas questões das áreas científicas e tecnológicas. No Paraná, as políticas públicas e ações no âmbito da ciência e tecnologia são coordenadas pela Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETI), e pelo Conselho Paranaense de Ciência e Tecnologia (CCT-Paraná), responsável pela formulação e implementação da Política Estadual de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PDCT), como parte integrante da política de desenvolvimento econômico e social do Estado. Dessa política emanam diretrizes específicas para a aplicação dos recursos do Fundo Paraná. Entre as áreas estratégicas definidas pelo CCT-Paraná, estão as ações voltadas à ciência, à tecnologia e à inovação, consideradas pelas diretrizes governamentais como instrumentos fundamentais para o dinamismo econômico e social, para atender ao grande desafio do governo estadual de apoiar as potencialidades do setor produtivo e de promover o desenvolvimento regional, com inclusão social, conforme a Lei N.º 9.806, de 8 de janeiro de 1992, que define, além dos conceitos, o Sistema Estadual de Ciência e Tecnologia. Compõem o Sistema Estadual de Ciência e Tecnologia, a Unidade Gestora do Fundo Paraná (UGF), responsável pela aplicação e operacionalização dos recursos destinados a programas e projetos estratégicos do governo, a Fundação Araucária de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Estado do Paraná, entidade de apoio ao desenvolvimento científico e tecnológico e formação de recursos humanos do Estado, o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), estruturado para contribuir com soluções inovadoras para o progresso técnico das atividades econômicas e melhoria da qualidade de vida da população, o Instituto Tecnológico Simepar, com a missão de prover de informações de natureza meteorológica, hidrológica e ambiental, bem como conceber, desenvolver e executar atividades ligadas à pesquisa científica e tecnológica e formação e capacitação de pessoal, e as Instituições Estaduais de Ensino Superior (IEES), baseadas no tripé ensino, pesquisa e extensão, assim distribuídas: Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade Estadual de Maringá (UEM) e a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) no final da década de 60. A Unioeste foi fundada em 1994, a Unicentro, em 1997, a Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), em 2006 e a Universidade Estadual do Paraná (Unespar), em 2011. Segundo a Lei Estadual N.º 12.020/1998, alterada pela Lei N.º 15.123/2006, compete ao CCT-Paraná: propor a Política Estadual de Desenvolvimento Científico e Tecnológico como parte integrante da política estadual de desenvolvimento econômico e social; avaliar planos, metas e prioridades, adequando-se à Política Estadual de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, aos instrumentos e recursos; auditar a execução da Política de Desenvolvimento Científico e Tecnológico; apreciar o relatório anual preparado pela UGF, sobre a gestão do Fundo Paraná e encaminhá-lo, aprovado, ao governador; analisar e decidir sobre projetos do Tecpar financiados pelo Fundo; estabelecer diretrizes para aplicação pelo Fundo Paraná em programas e projetos estratégicos desenvolvidos por órgãos e entidades públicas ou privadas; promover a cooperação com órgãos federais e internacionais de apoio e com o setor privado, em atividades ligadas à pesquisa de recursos humanos; analisar e aprovar propostas advindas da Fundação Araucária, conforme determina a legislação. Os recursos financeiros administrados pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior estão regulamentados por esta lei, destinada a apoiar o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado. Essas leis fazem referência ao artigo n.º 205 da Constituição Estadual, que destina parcela não inferior a 2% da receita tributária líquida do Estado ao Fundo Paraná, anualmente, para o fomento das pesquisas científica e tecnológica. Para esta análise, empregamos como referencial teórico-metodológico a teoria do campo científico do sociólogo francês Pierre Bourdieu, para analisar a distribuição de recursos obtidos pelas universidades junto

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Políticas públicas de ciência e tecnologia:o campo científico no Paraná

ao Sistema Estadual de Ciência e Tecnologia. Os recursos financeiros destinados oficialmente à ciência e tecnologia no Paraná, entre as instituições e os agentes que compõem o sistema estadual, ou seja, as universidades, faculdades, fundações e institutos de pesquisas, são analisados com o objetivo de obter resultados que são discutidos com base na teoria em questão. A dinâmica de cada campo tem um tipo diferente de luta pelo poder. O campo científico é o lugar de uma luta, mais ou menos desigual, entre agentes desigualmente dotados de capital específico e, portanto, desigualmente capazes de se apropriarem do produto do trabalho científico que os concorrentes produzem pela sua colaboração objetiva ao colocarem em ação o conjunto dos meios de produção científicos disponíveis (BOURDIEU, 2004). As influências que a estrutura das relações objetivas exerce sobre as estratégias dos agentes é uma relação de força e de dominação. As universidades criam um espaço que só existe pelos agentes que aí se encontram. Uma grande universidade pode alterar todo esse espaço “científico”, conferindo-lhe certa estrutura. As estratégias e a posição dos agentes para atuação no campo científico dependem do seu capital e da estrutura em que estão inseridos. Há os dominados e os dominantes. Tal hierarquia é caracterizada pelo volume do seu capital científico, em proporção ao seu peso, e depende do peso de todos os outros agentes presentes no campo. O capital científico é uma espécie de capital simbólico que consiste em reconhecimento atribuído pelo conjunto de pares concorrentes no interior do campo científico. É um erro reduzir as estratégias dos cientistas às suas estratégias sociais, em virtude da pressão do campo particular e pelo fato de que cada um tem como cliente seu próprio concorrente. Segundo Bourdieu, o denominado interesse desinteressado difundido pelos cientistas é um jogo, pois os objetos (bens simbólicos) dignos de interesse, de alguma maneira, simulam desinteresse porque compensa.

2 CIÊNCIA E TECNOL OGIA NO BRASIL TECNOLOGIA

A história da ciência e tecnologia no Brasil iniciou-se juntamente ao seu descobrimento, com a vinda dos colonizadores de países já desenvolvidos, trazendo novidades para os diversos setores, como a medicina, a agricultura, o transporte e a mineração. Em 1950, iniciaram-se movimentos mais constantes no campo científico, com a fundação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 1951, que vinha sendo acalentada desde 1919, e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), também em 1951, ambas no Rio de Janeiro. Com o momento político pós-guerra não favorável, as propostas de avanços nas políticas públicas de ciência e tecnologia não prosperaram, apesar de muita discussão, inclusive com o envio de projeto de lei para a criação do Ministério de Ciência e Tecnologia ao Congresso em 1963, colocado em segundo plano. Somente em 1985 foi criado, efetivamente, o Ministério da Ciência e Tecnologia (antes, em 1967, foi criado o Ministério Extraordinário para Ciência e Tecnologia, utilizando a estrutura administrativa do CNPq). Até esse momento, o CNPq foi o responsável pela elaboração e pelo acompanhamento do planejamento de ciência e tecnologia no Brasil, expressos nos I, II e III Planos Básicos de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PBDCTs). Recentemente, um conjunto de políticas articuladas em ciência, tecnologia e inovação, entre elas a formulação do Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Nacional (PACTI, 2007-2010), como um dos principais indutores de nossos progressos científico e tecnológico. Com o PACTI, o Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia ficou mais robusto e conquistou mais institucionalidade. Com as prioridades, foram voltadas para a consolidação do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, para a inovação tecnológica das empresas, para a pesquisa e o desenvolvimento em áreas estratégicas e para a ciência e a tecnologia voltadas à inclusão social. Na infraestrutura, com a criação dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia e a ampliação do Programa de Infraestrutura de Pesquisa, ajudaram o Brasil a dar um salto na qualidade da ciência produzida nacionalmente. Como fato concreto em âmbito nacional, foram criadas a Lei de Inovação N.º 10.973/2004, que estabeleceu medidas de incentivo à inovação e às pesquisas científica e tecnológica no ambiente produtivo, com vistas à

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capacitação e ao alcance da autonomia tecnológica e ao desenvolvimento industrial do País, a Lei da Informática N.º 11.077/2004, que concedeu incentivos fiscais para empresas produtoras de alguns hardwares específicos e que tivessem por prática investir em pesquisa e desenvolvimento e a Lei do Bem N.º 11.196/2005, que previu isenção fiscal para empresas que atuassem em parceria com instituições científicas e tecnológicas e universidades públicas, fomentando a inovação, permitindo a dedução de, no mínimo, metade e, no máximo, duas vezes e meia o valor investido na pesquisa (REZENDE, 2010). Os problemas enfrentados pelo Brasil nos campos da ciência e da tecnologia são complexos e de difícil solução em curto prazo, assim como os desafios relacionados por causa e efeitos existentes, como os conhecimentos científico e tecnológico versus melhoria da qualidade de vida e inclusão social.

2.1 CIÊNCIA E TECNOLOGIA NO PARANÁ A história da ciência e tecnologia do Paraná, passa pela descrição da formação atual da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, do Fundo Paraná e da Unidade Gestora do Fundo, que formam Sistema Estadual de Ciência e Tecnologia. No início de 1971, deu-se a primeira iniciativa para a criação de uma agência de fomento, foi sancionada a Lei n.º 6.189, criando a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Paraná (Fapep), sendo uma das primeiras do Brasil, que não foi regulamentada e não teve sua efetivação em função de problemas políticos, com vários governos provisórios e a fase de governos militares. Somente em 1981, foi criado o Conselho de Ciência e Tecnologia do Paraná (Concitec), pelo Decreto N.º 3.807, de 28 de maio de 1981, vinculado à Secretaria de Planejamento. Em 1987, o executivo criou a Secretaria Extraordinária do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia, que incorpora o CONCITEC até então vinculado à Secretaria de Planejamento e ao Departamento de Ensino Superior, então na Secretaria de Educação, também acampa as discussões para inclusão do artigo que destina recursos ao fomento da ciência e tecnologia nas Constituições Federal e Estadual. Esse foi um período de discussão em torno da nova Constituição de 1988, de fundamental importância para garantir apoio legal ao desenvolvimento da ciência e tecnologia no Paraná. Assim, após a aprovação de dispositivo na Constituição Federal em 1988 e, na sequência, com a promulgação da Constituição do Estado, em 1989, constou em seu artigo 205 parcela da receita tributária não inferior a 2% para o fomento das pesquisas científica e tecnológica, que foi um grande avanço e marco histórico, pois assegurou um percentual constitucional para o fomento à ciência e tecnologia do Paraná. No período de 1989 a 1994, não houve iniciativa de regulamentação do artigo 205 por parte do Executivo. Em 1995, o executivo apresenta novas políticas públicas para a ciência e tecnologia, coadunadas com as ações do governo federal. Nesse período, a secretaria passa por outras mudanças determinadas pela nova configuração do Executivo, assumindo novo formato após se desvincular da área de Indústria e Comércio e da Coordenadoria correspondente. Denomina-se, a partir de então, Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. O Sistema Estadual de Ciência e Tecnologia passou a ter sua composição conforme figura 1 a seguir. FIGURA 1 - SISTEMA ESTADUAL DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA

FONTE: SETI

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Políticas públicas de ciência e tecnologia:o campo científico no Paraná

Em 26 de junho de 1995, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior apresentou proposta de projeto de lei visando à regulamentação do artigo 205. Tal proposta previa a criação do Fundo Paraná, do Conselho Paranaense de Ciência e Tecnologia (CCT-Paraná) e da Fundação Araucária para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Estado do Paraná e designava a SETI como órgão gestor do Fundo Paraná, autorizando o Poder Executivo a constituir a Fundação Araucária: uma fundação com personalidade jurídica de direito privado, dotada de autonomia administrativa e financeira e patrimônio próprio. Somente em 1998, após dez anos de discussões e negociações, foi promulgada a Lei N.º 12.020 de 9 de janeiro de 1998, que criou o Fundo Paraná, o Serviço Social Autônomo Paraná Tecnologia e a Fundação Araucária para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Estado do Paraná. Em decorrência dessa lei, o Concitec foi extinto de fato. O governo conta com alguns instrumentos preconizados na Lei Estadual N.º 12.020, de 9 de janeiro de 1998, a qual instituiu o Fundo Paraná e estabeleceu ferramentas destinadas a apoiar os desenvolvimentos científico e tecnológico no Estado. Esses instrumentos são: Conselho Paranaense de Ciência e Tecnologia (CCT-Paraná); o Fundo Paraná; o Serviço Social Autônomo Paraná Tecnologia, órgão Gestor do Fundo Paraná; e a Fundação Araucária, órgão de amparo à pesquisa e à formação de recursos humanos, alterada pelo Decreto N.º 4.684, de 12 de agosto de 1998 e pela Lei Estadual N.º 13.180, de 27 de junho de 2001. O Conselho Paranaense de Ciência e Tecnologia é o órgão de assessoramento superior do governador do Estado, para a formulação e a implementação da Política Estadual de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, e é presidido pelo governador do Estado do Paraná. Esse conselho estabelece as diretrizes pelas quais os órgãos devem se pautar. O Conselho Paranaense de Ciência e Tecnologia (CCT-Paraná) é composto por onze membros: o governador do Estado, na qualidade de presidente; dois secretários de Estado, o da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e o do Planejamento e Coordenação Geral, como representantes do Poder Executivo Estadual; e mais oito membros escolhidos pelo governador do Estado, representando os seguintes segmentos: dois das instituições científicas, sendo um deles, obrigatoriamente, pertencente ao corpo docente das Instituições de Ensino Superior; dois do setor tecnológico paranaense; dois do setor empresarial paranaense, devendo pertencer, um deles, ao setor agrícola; e dois da classe trabalhadora paranaense. O Fundo Paraná foi criado com a finalidade de apoiar o financiamento de programas e projetos de pesquisa, desenvolvimentos científico e tecnológico e atividades afins. De acordo com o artigo 3.º da Lei Estadual n.º 12.020/98, modificada pela Lei N.º 15.123, de 18 de maio de 2006, o. Fundo Paraná nasce com recursos constituídos, principalmente, por repasses do Tesouro do Estado, destinando parcela não inferior a 2% da receita tributária líquida do Estado ao Fundo Paraná, anualmente, para o fomento das pesquisas científica e tecnológica. Desse montante, 1% é repassado às Instituições de Pesquisa e Instituições Estaduais de Ensino Superior (IEES), conforme determina o artigo 3.º da Lei. O outro, 1% dos recursos previstos do Fundo Paraná de Ciência e Tecnologia, tem a forma de recolhimento direto e automático à conta especial em nome do Fundo Paraná. O Fundo Paraná utiliza 1% para apoiar programas e projetos estratégicos, no intuito de dar ao Estado condições de elevar sua posição nos cenários nacional e internacional, destinando 50% para projetos estratégicos administrados pela UGF, 30% para a Fundação Araucária e 20% para o Tecpar. Os projetos estratégicos são definidos em consonância com as determinações do Conselho Paranaense de Ciência e Tecnologia (CCT- Paraná), que é o órgão de assessoramento superior do governador do Estado. Na figura 2, destacamos o organograma da base legal e institucional da Ciência e Tecnologia no Estado do Paraná, no qual consta a legislação vigente e a percentagem de alocação de recursos em cada setor do Sistema Estadual de Ciência e Tecnologia. Cabe, ainda, destacar que os recursos dos Projetos Estratégicos e da Fundação Araucária são prioritariamente destinados às Universidades Estaduais. A lacuna existente durante os anos em que foi extinto o Paraná Tecnologia e a criação da Unidade Gestora do Fundo Paraná para administrar os recursos da ciência e tecnologia foram deveras prejudicial ao Estado, com perdas de convênios nacionais e internacionais, além de se distanciar das políticas públicas do governo federal. Diante dessa situação, definiu-se por meio da Lei N.º 15.123/2006, então a SETI, como responsável pela gestão do Fundo Paraná, cabendo à Unidade Gestora do Fundo Paraná (UGF), unidade interna da SETI, a aplicação e a operacionalidade dos recursos destinados a Programas e Projetos Estratégicos de Governo, mantendo-se os mesmos percentuais definidos pela Lei N.º 12.020/98.

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Mário José de Souza FIGURA 2 - ORGANOGRAMA LEGAL E INSTITUCIONAL DA C & T NO PARANÁ

FONTE: SETI

No plano para 2003/2004 da SETI, estabeleceu-se a revisão da Política de Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia, por meio da realização de Seminários regionais, que culminaram com a I Conferência Estadual de Ciência e Tecnologia. Os resultados balizaram a atuação do Sistema Estadual de Ciência e Tecnologia e, a partir de então, houve sistematização do repasse dos recursos para fomento. A partir de 2003, efetivamente, passou-se a gestão executiva dos recursos do Fundo Paraná para a UGFSETI. Enquanto não se definia legalmente o novo papel e as funções do Serviço Social Autônomo Paraná Tecnologia, os dirigentes da SETI decidiram adotar novos princípios para essa atuação, particularmente no que tange à definição de prioridades, critérios e procedimentos na alocação dos recursos públicos. Várias medidas foram tomadas e a principal delas concerne à publicação de editais, como forma democrática, dando maior transparência ao processo de fomento das atividades e projetos estratégicos de ciência e tecnologia geridos pela UGF-SETI e implementadas no Estado do Paraná (SETI). A Unidade Gestora do Fundo Paraná pode apoiar projetos que tenham aderência com pelo menos uma das áreas de atuação aprovadas anualmente pelo Conselho Paranaense de Ciência e Tecnologia e que possam ser enquadrados nos programas prioritários estabelecidos para o exercício em questão. Esses projetos devem visar ao desenvolvimento e à internalização de tecnologias de base, em atividades que permitam conceber novos produtos, processos e/ou serviços, por meio da cooperação entre empresas, instituições de ensino e pesquisa e agências de desenvolvimento. A Lei de Inovação no Paraná aprovada em 24 de setembro de 2012, sob o N.º 17.314, regulamentada por meio do Decreto N.º 7359, de 27 de fevereiro de 2013, cria benefícios e estabelece mecanismos de cooperação entre setor público, setor privado e academia para o incentivo à pesquisa e ao desenvolvimentos científico e tecnológico e prevê melhorias na eficiência do setor produtivo do Estado e geração de emprego, renda e conteúdo tecnológico. A Lei Federal N.º 10.973, criada em 2004, reflete a necessidade de o País contar com dispositivos legais eficientes, que contribuam para o delineamento de cenário favorável aos desenvolvimentos científico e tecnológico. O Estado aprovou a Lei de Inovação do Paraná, fundamentada em três parâmetros: transformação de conhecimento, estímulo à cultura de inovação e contribuição para o desenvolvimento no ambiente econômico e social em geral. A ciência e a tecnologia são atividades “meio”, que visam desenvolver conhecimentos, bens e serviços. A atividade “fim” cria os bens, os conhecimentos e os serviços que serão incorporados pela sociedade, por meio do setor empresarial, organizações da sociedade civil de forma universal. As políticas públicas de ciência e tecnologia devem cumprir o papel de criar uma base técnico-científica estadual que, aliada à política de ensino superior, deve manter e inovar em ciência e tecnologia. Mas, segundo a

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mesma concepção presente no arcabouço legal do setor, a pesquisa básica, sem imediata incorporação ao processo tecnológico, não deve ser relegada a segundo plano, e, tampouco, perder seu papel fundamental de capacitação e formação de recursos humanos técnico-científicos no Estado do Paraná. O enfoque diferenciado se dá na publicação de editais, em que a Unidade Gestora do Fundo Paraná e a Fundação Araucária se complementam na abordagem de Ciência e Tecnologia, buscando equacionar o tripé: pesquisa, capacitação e inovação. Por outro lado, de maneira geral, a ciência e a tecnologia estão pouco incorporadas no cotidiano da sociedade, que a vê, muitas vezes, como invenções individualizadas ou de pesquisa sem retorno social, principalmente a básica. A questão da ciência e tecnologia não faz parte do processo de discussão da sociedade, embora seu domínio seja responsável pela divisão internacional da riqueza. Muitas vezes, a sociedade não consegue viabilizar soluções com base na necessidade de novas tecnologias, para resolver seus problemas cotidianos, até mesmo pela deficiência que têm as instituições responsáveis pela ciência e tecnologia no âmbito regional. Nesse contexto, a SETI preconiza que as universidades e as instituições de pesquisas, além de não perderem a perspectiva de produção do conhecimento, devem também retomar a responsabilidade de formação continuada de profissionais com relação aos outros níveis de ensino, como também realiza a transferência de conhecimentos produzidos, de tal forma que seja partícipe do esforço social de melhoria da qualidade de vida da população. As universidades e instituições de pesquisa não substituem o Estado na formulação de políticas e transferência de conhecimentos, mas podem, sim, participar de programas e projetos induzidos pelas políticas públicas governamentais, como projetos estratégicos de governo. O papel da Unidade Gestora do Fundo Paraná, conforme a Lei n.º 12.020/98, é a repartição de funções das instituições do Sistema Estadual de Ciência e Tecnologia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES

A concentração de ativos institucionais leva à concentração de recursos de fomento, perpetuando um círculo vicioso no desenvolvimento em ciência e tecnologia no Paraná. Supostamente, regiões que concentram tanto os ativos institucionais quanto recursos humanos qualificados, agregam condições de atrair e poderiam absorver a maior parte dos recursos públicos federais destinados à ciência e à tecnologia. A seletividade distorcida ainda favorece a concentração de recursos nas mesmas áreas já bem equipadas e qualificadas em relação à ciência e à tecnologia. As Instituições Estaduais de Ensino Superior com melhores condições econômicas e culturais (infraestrutura e massa crítica) obtêm mais facilmente recursos, consolidando um processo de seletividade distorcida em termos de regiões e de instituições, de equipes, de pesquisadores e de áreas prioritárias. Isso provocou grande concentração das atividades de pesquisa nas cidades e regiões onde estão instaladas as Instituições Estaduais de Ensino Superior (BAUMGARTEN, 2007). Entende-se que as disparidades e desigualdades produzem-se historicamente, marcadas pela construção de trajetórias iniciadas com ações políticas de cada área. Ressalva-se que, embora a mudança no desenvolvimento científico-tecnológico possa indicar ligação entre o crescimento econômico e o científico, ela não é direta nem exclusiva. Fatores culturais e individuais influenciam fortemente esse crescimento, por exemplo, o valor atribuído pela sociedade à ciência e ao capital cultural de determinados cientistas são importantes para a compreensão do processo de desenvolvimento do campo científico. A tendência de concentração em relação a gastos de fomento, número de instituições beneficiadas, grupos de pesquisa vinculados nas mesmas instituições. Por outro lado, é importante demarcar que evidências de transformações em curso estão levando também a um processo de atenuação desse quadro geral de concentração, a partir do que se encontra nos três conjuntos de informações tradicionais: número de pesquisadores, de doutores e de grupos de pesquisa cadastrados no diretório do CNPq. Parece que essa alteração dos padrões de concentração ocorre a partir dos anos 2000, conforme relatório do CNPq. Nesse quadro, o Paraná mantém-se na quinta posição e cresce em termos de grupos de pesquisa, pesquisadores e doutores. Mas o resultado desse crescimento só aparecerá em médio e longo prazos em relação aos indicadores da federação.

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A definição de um modelo de gestão do Fundo Paraná, bem como a redefinição de alguns procedimentos essenciais para a gestão de recursos para projetos é urgente e carece, de nossos dirigentes e governantes, atenção especial. A Secretaria da Fazenda do Paraná deveria criar uma conta vinculada ao Fundo Paraná, bem como para a efetivação do repasse duo decimal, em consonância com a Constituição Estadual e a legislação que regulamenta o Fundo Paraná. Isso daria cumprimento à legislação e o depósito dos recursos em conta vinculada propiciaria a sistematização dos repasses de recursos aos parceiros, possibilitando maior controle sob a execução de projetos, com o repasse após a conclusão de fases e com a execução conforme cronograma de desembolso, independentemente do ano, ou seja, ultrapassando o ano fiscal, sem que isso importe na perda do orçamento do Fundo Paraná. Além disso, o depósito em conta específica poderia produzir rendimentos para apoio a projetos e não haveria perda orçamentária, caso o Fundo não fosse utilizado em sua totalidade. A constituição da área de ciência e tecnologia no Paraná esteve sempre marcada pelo peso das faculdades e universidades estaduais, que desde a década de 70 cumpriram o papel de formação de quadros qualificados no Estado, tendo em vista que havia apenas duas instituições federais de ensino superior no Paraná (UFPR e Cefet, atualmente, UTFPR). Igualmente importantes são as instituições estaduais de pesquisa e produção (Tecpar, Copel, Iapar, Lactec, etc.) que também contribuíram para a estruturação de ações, políticas e, posteriormente, um Sistema de Ciência e Tecnologia com maior peso do setor público. A análise da distribuição espacial da infraestrutura técnico-científica do Estado, considerando as instituições de ensino superior, os institutos e fundações de pesquisa, desenvolvimento e tecnologia, incubadoras e parques tecnológicos, feita no estudo, apontou para a concentração desses ativos institucionais, alocados majoritariamente onde estão localizadas as instituições de ensino superior (Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel, Guarapuava e Ponta Grossa), evidenciando que sua distribuição acompanha a trajetória das dinâmicas econômica e populacional do Estado. O Paraná teve nos últimos anos um avanço significativo no que diz respeito à quantidade de recursos de fomento disponível às instituições do orçamento do Tesouro Estadual. A distribuição de recursos não só está correlacionada à infraestrutura instalada, mas à qualidade da infraestrutura. Entende-se que o gasto em si não se converte diretamente em formação de massa crítica científica e isso justifica os investimentos realizados pelo governo do Paraná. A distribuição beneficia algumas áreas de conhecimentos, demonstrando a adequação do emprego da teoria do campo científico de Pierre Bourdieu para o entendimento dessa tendência de concentração de investimentos públicos nos agentes que se encontram em condições privilegiadas. Usando a sociologia da ciência de Pierre Bourdieu, observamos que, nesse processo, a tendência de acumulação de capital simbólico promove o reconhecimento daqueles agentes que já possuem maiores capitais cultural e científico, currículo lattes mais internacionalizado e pontuado, e que são aqueles agentes que mais recebem recursos. Assim, a concentração do capital científico entre os dominantes, confirma que a teoria de campo aplica-se como forma de análise deste trabalho e que os recursos são destinados para aqueles setores e agentes mais competitivos no campo científico. Dentro de um debate mais democrático sobre políticas públicas, poderíamos incluir a discussão para que os recursos públicos tivessem uma parte distribuída entre os setores e agentes que já possuem maior capital, que já ocorre, para que eles se transformem em referências nacional e internacional, e outra parte dos recursos para empoderar e capacitar grupos com propostas alternativas ou com menor capital simbólico. A formulação, implantação e avaliação das políticas públicas estaduais para a área e que estão entrelaçadas com as instituições que compõem o Sistema Estadual de Ciência e Tecnologia, tendo como parceiro principal o Conselho Paranaense de Ciência e Tecnologia (CCT-Paraná). Este é o representante das instituições científicas e tecnológicas, sendo a sua composição e normas definidas por lei, o que lhe garante, pois a ele estão vinculadas a maioria dos recursos para fomento, bem como a manutenção do sistema. A questão da formulação de políticas públicas na área de ciência e tecnologia é mais complexa do que em outras áreas, pois o grau de exigência dos destinatários é muito grande, diferentemente das demais áreas, ao mesmo tempo em que são formuladores, implantadores e avaliadores dessas políticas. O poder dos dominantes no campo científico influencia a política de investimentos em ciência e tecnologia, pois seus membros mais influentes defendem o interesse dos grupos e do campo nos quais atuam frente a outras influências decisórias no âmbito do governo estadual. Este estudo pode ser considerado como uma tentativa de prestar contribuição para futuras formulações de políticas públicas de ciência e tecnologia, tendo em vista a necessidade de melhoria na qualidade de vida pública democrática, fazendo uso dos investimentos em ciência e tecnologia disponíveis no Paraná. REVISTA EBS DE GESTÃO, Curitiba, v.1, n.1, p.60-68, jan./jun. 2013

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REFERÊNCIAS

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PROPOST A DE UMA SISTEM ÁTICA PPARA ARA MENSURAÇÃO DOS PROPOSTA SISTEMÁTICA CUSTOS DE FALHAS INTERNA S APLICADA À INDÚSTRIA VINÍCOLA INTERNAS

Fernando Guiraud de Brito

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RESUMO Este trabalho apresenta etapas de elaboração de uma sistemática para mensuração e redução dos custos de falhas internas da não qualidade aplicada à indústria vinícola. São apresentados conceitos sobre qualidade, custos da qualidade, desperdícios, custos e então proposta a referida sistemática de mensuração, após aplicação de uma pesquisa de campo em cinco empresas vinícolas de grande representatividade no mercado brasileiro. O resultado desta pesquisa de campo em conjunto com o levantamento bibliográfico de diversos autores sobre os temas acima expostos tornou-se a base para a elaboração de uma sistemática para a mensuração dos custos de falhas internas aplicado ao processo de envase de indústrias vinícolas. Palavras-chave: Custos da qualidade. Mensuração. Custos da não-qualidade. Sistemática.

ABSTRACT This work presents steps for construction of a project for a system to measure and reduce the quality costs related to internal failures applied in a winery. Are presented concepts about quality, quality-costs, waste, costs and a proposal of a measurement system after to apply a field research in five representative brazilian wineries. The result of this research and the bibliographic survey became the base to the construction of a internal failure cost measurement system applied in wineries filling process. Keywords: Quality cost. Measurement. Non-quality cost. System.

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Mestre em Engenharia de Produção e Sistemas e graduado em Administração de Empresas.

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Fernando Giraud de Brito

1 INTRODUÇÃO

Na atual situação de competitividade em mercados nacionais e internacionais, a qualidade, além de preço e prazo de fornecimento, tem influência decisiva sobre a venda de produtos (bens e serviços) no mercado. A garantia de qualidade por meio da implantação de um sistema de gerenciamento, por um lado gera custos, como qualquer outra atividade na empresa, mas, por outro lado, leva também à redução de custos devido à menor incidência de serviços com qualidade não satisfatória. Para um controle rentável do sistema de qualidade, os respectivos custos devem ser claramente compreendidos. Os custos definidos para o gerenciamento da qualidade e os custos das falhas de qualidade são especificados como custos referentes à qualidade ou a custos da qualidade. O registro e o acompanhamento dos custos referentes à qualidade têm o objetivo de reduzi-los, sem que com isso seja prejudicada a qualidade dos serviços ou haja aumento dos custos. A relevância dos custos referentes à qualidade é, muitas vezes, subestimada e isenta de registro sistemático. De acordo com a experiência, eles podem representar entre 10 e 20% do faturamento. Em casos especiais, a parcela está muito acima disso. Aqui se percebe que a qualidade representa variável importante na influência dos custos e, para o planejamento e controle estratégico de uma empresa, as informações sobre os custos da qualidade são imprescindíveis. Este artigo tem por finalidade expor uma metodologia de pesquisa visando propor uma sistemática de mensuração, análise e proposta de melhorias em relação aos custos da qualidade relacionados a falhas internas nas indústrias do ramo vinícola, mas, especificamente, ao processo de envase presente nessas indústrias.

1.1 METODOLOGIA A metodologia de trabalho aplicada nesta pesquisa constituiu-se dos seguintes passos: 1. revisão bibliográfica sobre custos, qualidade, desperdícios e custos da não qualidade; 2. desenvolvimento de estudo de campo envolvendo cinco indústrias vinícolas de grande representatividade no mercado brasileiro; 3. formulação de sistemática de mensuração de custos de falhas internas no processo de envase das empresas estudadas; 4. formulação de diretrizes para redução dos custos de falhas internas no processo de envase de indústrias vinícolas por meio da interpretação dos resultados das fórmulas propostas.

2 ESTRA TÉGIA DE PESQUISA PROPOST A ESTRATÉGIA PROPOSTA A proposta de desenvolvimento da metodologia de pesquisa fundamenta-se na revisão da literatura existente, e seguiu a lógica demonstrada na figura 1. FIGURA 1 - DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO

1. Escolha do tema e

2. Definição do

do corpo teórico

problema

3. Coleta de dados e observações

4. Análise dos dados

5. Síntese dos resultados obtidos

No estágio de definição do tema (item 1), foi revisada a literatura existente, especialmente pesquisando livros e artigos em bancos de dados, sites de busca da internet, revistas técnicas e anais de congressos nacionais e internacionais. Na sequência, a abordagem foi mais aprofundada, de forma a definir detalhadamente o projeto de pesquisa, ou seja, o problema a ser pesquisado. Isso foi feito em um estudo independente, que também possui como objetivo a revisão e a comparação entre modelos e conceitos de diferentes autores, avaliando seus objetivos.

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Proposta de uma sistemática para mensuração dos custos de falhas internas aplicada à indústria vinícola

Também foi realizado um estudo de campo envolvendo cinco indústrias vinícolas de grande representatividade no mercado brasileiro. Essa etapa do trabalho consistiu, principalmente, de coleta de dados nas empresas em estudo, po meio de entrevistas, visitas in loco e conversas informais com os gestores dessas vinícolas. Todos esses dados e observações, feitos durante o estudo de campo, foram apreciados em conjunto, para criar metodologia visando à elaboração do modelo parcial de uma sistemática de mensuração dos custos da qualidade em falhas internas no processo de envase de empresas vinícolas:

2.1 ESCOLHA DO TEMA E DEFINIÇÃO DO PROBLEMA O objetivo principal da pesquisa foi a formulação de uma sistemática, objetivando a mensuração dos custos da não qualidade focado nas falhas internas no processo de envase de empresas vinícolas. Como justificativa inicial, é possível citar que as empresas não dispõem de estratégia formal para mensurar seus custos da não qualidade, e não compreendem também a real importância que o gerenciamento eficaz das informações obtidas por intermédio dessa sistemática podem estratégica e competitivamente auxiliar a empresa. Bons resultados operacionais podem ser trazidos por programas de qualidade implantados nas empresas brasileiras em termos de ganhos de produtividade, aumentando a lucratividade das empresas. No entanto, tais programas podem obter subsídios para gerar melhores resultados com a utilização de medidas de controle dos custos da não qualidade. Segundo Robles Jr. (1996), a mensuração da qualidade por meio dos custos da qualidade é vista pelos administradores como forma de atender vários objetivos, entre os quais, destacam-se: · a possibilidade de fixar objetivos financeiros para os programas de qualidade, priorizando aqueles que possibilitam trazer de forma mais rápida melhores resultados para a empresa; · conhecer quanto a empresa está perdendo pela falta de qualidade para sensibilizar os diferentes níveis da organização no desafio da melhoria contínua pela qualidade. Os custos da qualidade são classificados, conforme Feigenbaum (1994), em custos do controle e custos das falhas dos controles. Os custos do controle são divididos em custos de prevenção e custos de avaliação. Os custos das falhas de controles são dispostos em custos das falhas internas e custos das falhas externas. O processo de envase, parte integrante das empresas vinícolas, devido à sua característica de ser a etapa do processo na qual a maior parte das matérias-primas e dos insumos de produção são direcionados, ou seja, a fase do processo em que o desperdícios desse material se torna mais comum, é o processo considerado crítico em relação à necessidade de mensuração, análise e ações de melhorias para redução de custos relacionados a falhas internas, como: desperdícios de materiais típicos desse processo: tampas, rótulos, garrafas, o vinho a ser envasado, embalagens em geral, entre outros recursos. No contexto acima, elaboramos a problematização da seguinte forma: Como mensurar os custos da qualidade de falhas internas no processo de envase em empresas industriais do ramo vinícola?

2.2 CLASSIFICAÇÃO

DA

PESQUISA

E

COLETA

DE

DADOS

A amostra utilizada para o estudo de campo e coleta dos dados para este trabalho foram cinco indústrias vinícolas de grande representatividade no mercado brasileiro em que, juntas, possuem mais de 60% do mercado consumidor de vinhos finos e vinhos de mesa nacionais. As empresas estudadas estão localizadas nos Estados do Rio Grande do Sul, São Paulo e Paraná. Baseado nos resultados da pesquisa de campo aplicada às vinícolas citadas e utilizando-se dos conceitos levantados por meio da revisão bibliográfica efetuada sobre os diversos conceitos e modelos de custos da qualidade, classificação de custos, desperdícios e tipos de custos, ocorreu a análise dos resultados que será abordada a seguir.

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2.3 ANÁLISE

DOS

RESULTADOS

Com relação à análise dos dados coletados, o intuito foi gerar informações e possibilitar o melhor entendimento do processo em estudo e das sistemáticas utilizadas em outras organizações e também propostas pelas diversas bibliografias relacionadas ao tema. Então, elaborou-se a proposta inicial de uma sistemática aplicável de mensuração de custos de falhas internas levantadas nas cinco empresas vinícolas pesquisadas.

3 PROPOST A DA SISTEMÁTICA PROPOSTA

O presente capítulo também apresenta a proposta de aplicação de uma sistemática para mensuração dos custos de falhas internas, propondo relatórios específicos para aplicação nos processos de envase do ramo vinícola.

3.1 ETAPAS

METODOLÓGICAS UTILIZADAS PARA A ELABORAÇÃO DA SISTEMÁTICA PROPOSTA

As etapas metodológicas a serem utilizadas no desenvolvimento desta dissertação com o intuito de obtenção de uma sistemática de mensuração, análise e formulação de diretrizes para redução de custos de falhas internas no processo de envase da indústria vinícola serão: a) escolher (o)s modelo(s) mais adequado(s) de mensuração e coleta de custos da qualidade entre os propostos por autores diversos e pelos resultados da pesquisa de campo, para serem aplicados ao processo de envase das indústrias vinícolas; b) elaborar descrição do processo de envase típico da indústria vinícola; c) fazer um levantamento das atividades do processo de envase com maior grau de detalhamento; d) classificar as atividades do processo de envase para o custo de falhas internas; e elaborar uma proposta de tabulação dos dados coletados relatórios para este fim; f) propor um formato de relatório para acompanhamento das falhas internas do processo de envase com atribuição de valores às falhas internas a serem analisadas; g) propor definições quanto às unidades de medidas de mensuração das falhas internas e sua interpretação.

3.2 MENSURAÇÃO

DOS CUSTOS DA QUALIDADE

O mercado contemporâneo enfrenta um momento de extrema competitividade, as margens de lucro das empresas vinícolas estão diminuindo no decorrer dos últimos anos, além das características da economia brasileira, há uma forte concorrência interna e externa no setor, e os próprios consumidores estão cada vez com maior grau de exigência e seletividade. Os programas de qualidade que vêm sendo difundidos no setor possibilitaram às empresas a visão sistêmica do negócio, tanto do ponto de vista gerencial como tecnológico, tendo como principal objetivo a promoção de melhorias por meio da uniformização dos procedimentos que visam a qualidade (CORREA, 2005). Entretanto, um dos problemas mais desafiadores de tais programas ainda não se conseguiu resolver. Está relacionado à ocorrência de perceptível variabilidade dos processos, pois tais programas na propiciam condições de identificação, mensuração, correção e eliminação dos desperdícios de materiais, insumos e mesmo de mão de obra, que são relativamente altos no processo em estudo. Grande parte desses desperdícios resulta de falhas internas que ocorrem durante o processo de envase, e um grande efetivo de empresas, mesmo conhecendo sua existência, não controla os custos unitários resultantes de tais falhas.

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Proposta de uma sistemática para mensuração dos custos de falhas internas aplicada à indústria vinícola

Um considerável desafio para as vinícolas, atualmente, está em como promover melhorias de qualidade nos processos com a concomitante redução dos custos de produção. Para que isso ocorra, uma forma de atuação é exatamente a redução da variabilidade dos processos, que está intimamente ligada ao controle que a organização possui dentro do próprio processo produtivo, tanto da qualidade como de custos de produção. A criação de um sistema de gestão de custos de produção pode ser utilizada como ferramenta auxiliar em qualquer programa de qualidade. A mensuração dos custos da não qualidade durante a execução do processo de envase pode possibilitar às indústrias vinícolas importantes informações para a tomada de ações gerenciais, durante a execução do processo produtivo. Portanto, neste capítulo, propõe-se uma sistemática que objetiva propiciar condições para que as empresas do ramo vinícola possam mensurar e avaliar os custos resultantes de falhas internas da não qualidade na execução do processo de envase. São apresentadas as fases da sistemática, bem como o roteiro de aplicação e a forma de apresentação dos resultados para fins de controle e mensuração dos custos resultantes da não qualidade e como interpretar esses resultados.

3.3 CRITÉRIOS UTILIZADOS PARA A ELABORAÇÃO DA SISTEMÁTICA

DE MENSURAÇÃO DOS CUSTOS DE

FALHAS INTERNAS

Diversos foram os modelos e conceitos de custos da qualidade e da não qualidade pesquisados. Também foram desenvolvidas as relações existentes entre as diversas categorias de custos da qualidade sob a ótica de diversos autores para, finalmente, serem elaboradas comparações e comentários sobre conceitos de custos da qualidade e definições dos diversos tipos de desperdícios. Baseado nesses levantamentos, definiram-se critérios para a elaboração da sistemática de mensuração a ser utilizada como proposta deste trabalho. Com relação aos conceitos e à categorização dos custos da qualidade, serão utilizadas as mesmas nomenclaturas propostas por Feigenbaum (1994), o qual considera os custos das falhas internas como parte integrante dos custos de falhas no controle ou custos da não qualidade e também considerada a visão de Deming apud Feigenbaum (1994), quando afirma que não existe um ótimo a ser atingido em relação aos custos da qualidade, o melhoramento é contínuo e deve ser acompanhado constantemente. O autor enfatiza os custos das falhas internas como todos os custos da qualidade insatisfatória internamente à empresa, tais como material refugado, danificado e retrabalhado. Esse mesmo autor separa claramente a definição entre falhas internas e falhas externas, sendo as que ocorrem internamente e externamente à empresa, respectivamente. Aplicado ao processo de envase típico da indústria vinícola, os conceitos serão aplicados, nesta dissertação, exclusivamente ao processo de envase da indústria vinícola. Baseado no conceito acima de custos de falhas internas da não qualidade, foi desenvolvida a tabela 1 apresentada no Apêndice A, relacionando as atividades referentes à categoria de custos de falhas internas para o processo de envase da indústria vinícola. Os processos e atividades foram selecionados baseando-se nos resultados de um protocolo de pesquisa de campo, relacionando os principais geradores de custos de falhas internas nos processos de envase das cinco vinícolas estudadas. A última coluna do Apêndice A será preenchida com o custo-padrão de cada atividade, baseado no conceito de custo-padrão para, posteriormente, esse valor ser utilizado como referencial comparativo ao custo real obtido no preenchimento dos relatórios de levantamento de custos de falhas internas. Também, baseado nos mesmos conceitos, foi desenvolvida a proposta de um relatório para acompanhamento mês a mês dos custos individualmente, acumulado e percentualmente, conforme Quadro 1 representado no Apêndice A deste trabalho. O relatório proposto no quadro 1 do Apêndice A solicita o preenchimento dos campos que fazem parte deste, com informações reais dos custos-padrão relacionadas a cada classificação de falhas internas estipuladas. A quantidade de períodos analisados simultaneamente fica a critério da empresa, mas recomenda-se o máximo de períodos comparativos possível, já que com as informações resultantes deste relatório serão utilizadas posteriormente de forma comparativa em relação aos custos reais de falhas internas no processo de envase vinícola. Com as informações baseadas no custo-padrão das atividades, podem ser tomadas as primeiras ações referentes aos maiores geradores de custos de falhas internas do processo de envase.

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Fernando Giraud de Brito

Observa-se, também, ainda no quadro 1, do Apêndice A, a existência de uma coluna na qual serão apresentados os valores percentuais de cada atividade em termos de custos sobre o processo. Nesta coluna percentual, a soma deles deve representar 100% dos custos de falhas internas do processo de envase. Na coluna para valores cumulativos, preenchem-se com os valores acumulados, em valores percentuais e monetários, para uma classificação por meio da elaboração de um gráfico de pareto, utilizando-se esses dados acumulados percentualmente por atividade, para melhor visualização dos maiores geradores de falhas internas em ordem de representatividade. Vale a pena ressaltar que, nesse ponto da sistemática, o preenchimento do quadro 1 do Apêndice A solicita a utilização dos valores de custo-padrão utilizados até então pela empresa, e não os valores reais de custos das falhas internas da qualidade que serão apresentados posteriormente, utilizando-se unidades de medidas diferenciadas. O gráfico de pareto pode ser feito tanto mês a mês, como do acumulado em todo o período analisado. Com base nos dados provenientes desses relatórios e gráficos, torna-se simplificada a análise e tomada de diretrizes para a redução desses custos de falhas internas no processo de envase da empresa vinícola. Com o intuito de tornar ainda mais detalhada a análise dos resultados dessa sistemática, sugere-se a aplicação desse método por produto, tornando, dessa forma, a análise dos custos de falhas internas geradas nos relatórios e gráfico de pareto, mais facilmente interpretáveis e detectáveis.

3.4 SUGESTÕES PARA ATRIBUIÇÃO DE VALOR ÀS FALHAS INTERNAS Nessa fase, às falhas internas que foram detectadas, são atribuídos os respectivos valores em termos monetários. Para tanto, são utilizadas fontes de informações, como folha de pagamento, sistema de custo em uso atualmente pela empresa vinícola, contabilidade, ficha técnica dos produtos com o departamento de programação da produção, controles internos da produção, etc. Por exemplo, para consignar valor à matéria-prima empregada em unidades classificadas como refugo, o suporte informativo pode ser a ficha técnica do produto, pois nela já constam as quantidades despendidas de material. Basta multiplicar pelo custo de aquisição de cada matéria-prima, na quantidade refugada (informação a ser obtida junto aos controles internos da produção), para obter-se o valor total respectivo. Semelhante procedimento deve ser empregado para a mão de obra utilizada na produção refugada e na manutenção, coletando os dados necessários na ficha técnica e na folha de pagamento. Idem para as horasextras necessárias para recuperação de atrasos e retrabalhos (reprocessamento), ocasionados por defeitos dos produtos fabricados ou para correção das unidades defeituosas. Convém salientar que a não existência de um sistema de custos confiável constitui-se em fator complicador extremo para que se possa atribuir valor às falhas internas. Sua inexistência praticamente impossibilita a aplicabilidade do modelo de mensuração aqui proposto para falhas internas.

3.5 PROPOSTAS DE BASES

PARA RELATIVIZAÇÃO DAS FALHAS INTERNAS

Complementando a sistemática proposta até então, a título de relativização dos valores encontrados de custos totais de falhas internas nos processos de envase, além da comparação proposta entre custo-padrão e custo total das falhas internas, propõe-se, ainda, neste trabalho, a formação de relatórios gerenciais para acompanhamento desses custos mensurados em relação a bases gerencialmente relevantes, já que, para o gerente que fundamentará decisões nos relatórios de falhas internas geradas, somente valores monetários não suprirão suas necessidades de informação. A comparação desses valores com alguma base de medição proporciona informes mais completos, facultando decisões assertivas. Segundo Juran e Gryna apud Wernke(1999), é melhor iniciar um trabalho de mensuração de custos da qualidade com várias bases e, depois, conforme os gestores se familiarizam com os relatórios gerados pela sistemática, manter somente as mais significativas. Apontam como bases de medição dos custos da qualidade: a) hora de mão de obra direta; b) custo da mão de obra direta;

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c) custo da fabricação padrão em dólares; d) valor agregado; e) vendas, em valor monetário; e f) unidades de produto. As bases relacionadas à mão de obra têm o inconveniente de serem afetadas pela automação, por exemplo, gerando consequente diminuição do gasto com o quadro de pessoal. Em relação às vendas líquidas, elas podem ter a comparação afetada pelas mudanças ocorridas nos preços, por alterações no mix demandado, novas políticas de marketing, etc. Assim como as bases relacionadas ao custo de produção, poderão sofrer com alterações em termos do ciclo produtivo, as bases relacionadas com unidades produzidas podem sofrer interferência por ganhos de produtividade oriundos de novos processos ou metodologias implementadas no processo produtivo. O ideal, então, é optar por bases que sejam adequadas às características específicas de cada empresa e às suas necessidades de informações. Para a sistemática proposta nesta dissertação, propõe-se, baseado na facilidade de obtenção de informações pelas cinco empresas vinícolas pesquisadas, conforme resultado do protocolo de pesquisa, a utilização das seguintes bases comparativas: a) Valor das vendas líquidas (VVL); b) Volume de garrafas envasadas (VGE); c) Custo total de produção (CTP). A opção pela escolha da base Valor das Vendas Líquidas (VVL) vem do fato de que essa informação é facilmente obtida, além de ser uma linguagem compreendida por todos dentro da organização. A opção pela base Volume de Garrafas Envasadas (VGE) ocorreu devido ao fato de que pode ser utilizada para o monitoramento do comportamento dos custos da qualidade das falhas internas em relação à produtividade, além de ser informação facilmente obtida. A última base proposta nessa sistemática é a dos Custos Totais de Produção (CTP), que pode ser utilizada para a análise do comportamento dos custos indiretos de produção. Devido ao fato de, mesmo nos casos em que sua participação seja menor do que a dos custos diretos, a tendência observada é que tais custos passem a ganhar, principalmente em decorrência da automação, cada vez mais importância em termos da gestão de custos. Como há forte tendência de automação observada em todas as empresas vinícolas estudadas, essa base pode servir como excelente referencial, mesmo em termos de cálculos e justificativas de investimento em novas tecnologias para o processo de envase. Agora estabelecidas as bases de mensuração a serem empregadas na sistemática proposta, passa a ser necessária a determinação das unidades de medidas às quais fundamentarão os relatórios propostos.

3.6 UNIDADES DE MEDIDAS PARA AS BASES DE RELATIVIZAÇÃO DAS FALHAS INTERNAS Com relação às falhas internas descritas até então, a sua mensuração passou inicialmente por anotações em termos monetários e percentuais por atividade e por período. Também foi proposta a comparação dos valores monetários reais obtidos com os custos-padrões de cada atividade. Agora, com relação às bases de relativização propostas no item 5.5 deste trabalho, faz-se atribuição de valores (em termos de unidades monetárias) a elas, conforme cada caso.

3.6.1 UNIDADE DE MEDIDA BASEADA NO VALOR DE VENDAS LIQUIDA Essa unidade de medida é obtida pela relação entre o total do valor de cada atividade classificada como falhas internas no processo de envase e o valor das vendas líquidas da empresa. Algebricamente, fica: UMF I/ VVL =

Valor total das falhas no processo de envase Valor total das vendas líquidas da empresa

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O valor das vendas líquidas é facilmente obtido no demonstrativo de resultado mensal da organização.

UMF I/ VGE =

Produção com falhas no processo de envase Volume total de unidades produzidas

3.6.2 UNIDADE DE MEDIDA BASEADA NO VOLUME DE GARRAFAS ENVASADAS Os dados necessários podem ser obtidos junto aos controles internos de produção do processo de envase. Essa unidade de medida não possuirá, distintamente das demais, uma atribuição de valores monetários, sendo analisada simplesmente em termos de unidades físicas. O resultado determinará o percentual de garrafas envasadas com algum tipo de falha interna em relação ao total de garrafas envasadas no período considerado.

3.6.3 UNIDADE DE MEDIDA BASEADA NO CUSTO DA MÃO DE OBRA DIRETA UTILIZADA NO PROCESSO DE ENVASE Essa unidade utiliza-se de fontes obtidas com base na folha de pagamento do pessoal envolvido diretamente com o processo de envase. Algebricamente, calcula-se: UMF I/ CMOD=

Valor total da falha interna no processo Valor da folha de pagamento da produção

Esse resultado demonstra boa noção da performance da força de trabalho que atua no processo de envase em relação às falhas internas desse processo. O resultado obtido será tanto melhor quanto menores forem os índices resultantes da aplicação dessa fórmula.

3.6.4 UNIDADE DE MEDIDA BASEADA NO CUSTO TOTAL DE PRODUÇÃO DO PROCESSO DE ENVASE Essa unidade de medida demonstra a evolução da participação das falhas internas do processo de envase no custo total de produção. Dessa forma, torna-se possível o acompanhamento conjunto dos custos indiretos que até então não havia sido considerado pelas medidas anteriormente propostas por essa sistemática, a qual é obtida por meio da seguinte fórmula:

UMF I/ CTP=

Valor total das falhas internas no processo Valor dos custos totais de produção

Essa unidade de medida é baseada em dados coletados ou junto aos controles internos da área industrial e/ou do demonstrativo de resultado mensal da organização.

3.7 INTERPRETAÇÃO DAS

UNIDADES DE MEDIDAS PROPOSTAS

Todas as unidades de medidas propostas podem ser interpretadas, considerando-se que, quanto menor o resultado obtido a cada período de mensuração, melhor o resultado para a empresa, ou seja, se o período posterior obtiver resultado menor, significa que as falhas internas tiveram participação reduzida em relação à base comparativa selecionada. Além disso, multiplicando-se os resultados por 100, as medidas podem ser facilmente transformadas em percentuais, no sentido de simplificar a compreensão e visualização deles. A real intenção dessas unidades passa a ser, a partir de então, prover os relatórios a serem apresentados no próximo item, para a conclusão da sistemática de mensuração proposta neste trabalho.

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3.8 PROPOSTA DE RELATÓRIOS GERENCIAIS DE FALHAS INTERNAS PARA MENSURAÇÃO DAS FALHAS INTERNAS NO PROCESSO DE ENVASE

Segundo Galloro & Stephani apud Wernke (1999), os relatórios sobre custos da qualidade devem ser claros, simples, pertinentes, de entendimento facilitado, ter constância, continuidade, padronização e consistência, para possibilitar a confrontação periódica. Devem, ainda, ser ofertados constantemente para que as decisões possam ser tomadas em tempo hábil. Por meio de relatórios de custos da qualidade, que quantificam monetariamente os fatores de custos da qualidade, o gestor da empresa dispõe de informações relevantes para iniciar ações voltadas para a melhoria contínua e minimização dos desperdícios no processo. Cabe ressaltar que as informações de custos da qualidade são limitadas e não se tornam, por si mesmas, ações de melhoria da qualidade. O que essas informações possibilitam é uma conscientização da administração e, com isso, ocasionar ações no sentido da melhoria. Com os dados coletados, são inúmeras as possibilidades e combinações em termos de relatórios informativos acerca das falhas internas. Segundo Robles Jr. (1996), relatórios padronizados de custos da qualidade podem fornecer uma série de informações gerenciais para toda a empresa ou para os diferentes usuários. Feigenbaum (1994) ainda afirma que a estruturação das formas de relatórios de custos da qualidade deve ser a que mais se adeque às exigências ou necessidades de informação da organização. Conforme sugerido no item 5.3 e orientado por Juran e Gryna (1991), podemos resumir os dados de custo da qualidade por produto, processo, componente, tipo de defeito, ou qualquer outro padrão provável de concentração. Os autores ainda enfatizam que esses procedimentos facilitam a utilização da análise de Pareto para identificar os mais significativos participantes do custo. Nada também impede que outras informações de cunho não financeiro sejam coletadas junto ao processo produtivo e inseridas em relatórios de custos de qualidade no sentido de enriquecê-los em termos de informações. Essas informações complementares, porém, são difíceis de quantificar em termos monetários. Cada organização deve considerar na definição de seus relatórios suas características ou necessidades informativas. Contudo, na sistemática proposta neste trabalho, aplicam-se os diversos relatórios separadamente, como seguem.

3.8.1 RELATÓRIO POR TIPO DE FALHA INTERNA NO PROCESSO DE ENVASE Esse relatório, chamado de Quadro 1, no Apêndice A, enfatiza as várias modalidades de falhas internas detectadas no processo de envase das empresas vinícolas estudadas, podendo ser utilizado como direcionados das ações corretivas que devam ser priorizadas. Demonstra, nos períodos subsequentes, a eficácia das medidas de melhoria implementadas. A diferença no preenchimento é que, anteriormente, foi preenchido com dados de custo-padrão, e, neste momento, é preenchido com dados de custo real das falhas internas no processo de envase. Isso é necessário para a comparação posterior, a fim de externar a diferença obtida entre o custo-padrão e o custo real da não qualidade, e demonstrar, na evolução de cada período, o resultado obtido com cada ação de melhoria no processo. Na realidade, esse relatório é exatamente o mesmo utilizado no item 5.3 e denominado quadro 1, do Apêndice 1. Em termos de informações contidas nesse relatório, encontram-se: a) b) c) d)

o nome de cada falha interna; o valor monetário por período e total de cada falha; o valor percentual por período e total de cada falha; a evolução em relação a período(s) anterior(es).

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3.8.2 RELATÓRIO DE CUSTOS DE FALHAS INTERNAS EM RELAÇÃO A ASPECTOS RELEVANTES NO PROCESSO DE ENVASE O Apêndice A (tabela 1) representa o modelo de um relatório de preenchimento para a demonstração dos valores de falhas internas em relação a diversos aspectos relevantes para o processo de envase em indústrias vinícolas, que são: a) relatório de custos de falhas internas em relação às vendas líquidas; b) relatório de custo de falhas internas em relação ao volume de garrafas envasadas; c) relatório de custo das falhas internas em relação do custo da mão de obra direta; d) relatório de custos das falhas internas em relação ao custo total de produção. Os relatórios propostos para essa sistemática de mensuração dos custos da não qualidade de falhas internas no processo de envase vinícola podem ser alterados conforme a necessidade do usuário, acrescentando ou excluindo dados. Por exemplo, nada impede que a empresa queira incluir a comparação da evolução da margem de contribuição das vendas perdidas. O comparativo desses relatórios propostos, analisados em períodos sequenciais, propicia importantes informações para monitoramento da evolução das falhas internas para detecção de possíveis causas de aumentos/ diminuições delas, subsidiando, dessa forma, ações de melhoria ou até mesmo minimizando os recursos dispendidos. Seria interessante, também, sintetizá-los em um relatório único, mais abrangente, ou mesmo desdobrálos em centros de custo ou por equipamento. Adicionalmente, com o intuito de simplificar seu entendimento ou visualizar melhor o comportamento das falhas internas no processo de envase, gráficos poderiam ser divulgados anexos aos relatórios.

CONCLUSÕES O objetivo principal deste trabalho foi propor uma sistemática de mensuração de custos de falhas internas no processo de envase da indústria vinícola com fins de identificar e quantificar custos relacionados a não qualidade. Em termos específicos, os objetivos desta pesquisa foram: a) a realização de uma revisão bibliográfica a respeito do histórico dos custos da qualidade, conceitos e modelos teóricos propostos pelas literaturas correlatas relacionadas à mensuração dos custos da qualidade; b) realização de um estudo de campo em cinco empresas vinícolas de representatividade no mercado brasileiro, levantando seus principais aspectos relacionados ao processo de envase e à aplicação dos conceitos de custos da qualidade; c) propor um modelo de coleta dos custos de falhas internas no processo de envase aplicável à indústria vinícola. Inicialmente, foi realizada uma revisão teórica sobre custos da qualidade. Fez-se, também, uma breve contextualização do ramo vinícola do Brasil, abordaram-se conceitos de qualidade e de custos, bem como a abordagem teórica sobre desperdícios, focando sua aplicabilidade na indústria vinícola. Nessa revisão, enfatizou-se na comparação e nos comentários sobre os principais conceitos de custos da qualidade, e entre alguns dos principais modelos de classificação e categorização dos custos da qualidade, para posterior adoção deles como base para criação da sistemática de mensuração proposta. Apresentou-se proposta de aplicação da sistemática para mensuração do custo da não qualidade, oriunda de falhas internas no processo de envase de empresas vinícolas. Dividindo-se o processo de utilização da sistemática em fases distintas: a) determinação do custo real do processo por meio do controle e das medições dos insumos e das matérias-primas realmente utilizados no processo de envase para mensuração posterior, tendo-se em mãos os valores de custos-padrão desses insumos e matérias-primas; b) comparação do custo real do processo em relação aos custos anteriormente obtidos pelo sistema tradicional de custo-padrão pela empresa para formação de seu custo unitário de produção ou a título de precificação.

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Nessa fase, são atribuídos valores monetários aos insumos apropriados nas medições para fins de análise com o custo-padrão anteriormente utilizado para o processo. Essa fase detalha o processo analisado, apresentando valores percentuais e em relação a períodos anteriores, podendo ser utilizado para análise por produto, por família de produtos ou mesmo por ordem de produção. A última fase consiste na elaboração de relatórios gerenciais, que apresentam de forma sistêmica os valores resultantes da aplicação da sistemática. Esses relatórios propiciariam resultados reais de como o processo foi executado, possibilitando ações de melhoria. A pesquisa foi realizada utilizando-se de informações provenientes de estudo de campo realizada em cinco empresas vinícolas de grande representatividade no mercado brasileiro, e a sistemática objetivou a mensuração dos custos reais dos processos de envase em indústrias vinícolas com todas as suas particularidades. Este estudo procurou propiciar o entendimento de que as indústrias vinícolas precisam buscar a melhoria dos seus processos internos como forma de minimizar seus custos de produção e tornarem-se ainda mais competitivas no mercado em que atuam. Apesar do comprometimento e atenção aos detalhes de seus processos constatados com os resultados provenientes da pesquisa de campo, identificou-se a necessidade da ampliação dos investimentos por parte das empresas do setor em programas de qualidade e organização gerencial. Também se constatou uma falha generalizada na mensuração dos custos reais de produção e na identificação das falhas que ocorrem em seus processos internos. O gerenciamento dos custos de produção deve ser analisado de forma mais confiável, e o custo final do processo não pode mais ser analisado em função da resultante da soma dos custos de produção e do lucro ou margem que se quer obter com esse ou aquele produto. O que deve ser visto com muito cuidado é que não basta, tão-somente, a implantação de sistemas de gestão da qualidade, uma vez que costumam não ser suficientes para a garantia da qualidade. A constante melhoria dos processos empresariais e de gestão nas organizações vinícolas precisa estar embasada na implantação simultânea de um sistema de mensuração e análise de custos que, junto aos sistemas de qualidade, possam ser utilizados como ferramenta auxiliar aos programas de qualidade.

REFERÊNCIAS CORREA, Sílvio et al. Anuário brasileiro da uva e do vinho 2005. Rio Grande do Sul: Gazeta Santa Cruz, 2005. 136p. COSTA, Sério Eduardo Gouvêa da. Definições metodológicas e métodos de pesquisa. 1.ed. Curitiba: Pontifícia Universidade Católica do Paraná, 2002. FEIGENBAUM, Armand V. Controle da qualidade total: gestão e sistemas. São Paulo: Makron Books, 1994. V.1. GALLORO, Lídia R. R. Sacco; STEPHANI, Douglas Edvandro. Custos da qualidade e da não-qualidade: custo como ferramenta gerencial. São Paulo: Atlas, 1995. JURAN, J. M., GRYNA, Frank M. Controle da qualidade hand-book: conceitos, políticas e filosofia da qualidade. São Paulo: Makron Books, 1991. V.1. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de metodologia científica. 4.ed. São Paulo: Atlas, 2001. PINHEIRO DE LIMA, Edson. Estudo de caso. Notas de Aula, 2005. ROBLES JUNIOR, Antonio. Custos da qualidade: uma estratégia para a competição global. São Paulo: Atlas, 1996. SILVA, Edna Lúcia; MENEZES, Estera Muszkat. Metodologia da pesquisa e elaboração de dissertação. Florianópolis: UFSC, 2001. THIOLLENT, M. Metodologia da pesquisa-ação. 8.ed. São Paulo: Cortez, 1998. WERNKE, R. Relatórios gerenciais aplicáveis aos custos de falhas internas. 1999.114 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1999.

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APÊNDICE 1 - ÁREA: QUALIDADE

TABELA A.1 - ATIVIDADES CLASSIFICADAS PARA A CATEGORIA DE CUSTOS DE FALHAS INTERNAS ATIVIDADE (ITEM DE CONTROLE)

CATEGORIA

CUSTO-PADRÃO (R$)

MEDIÇÃO DA ATIVIDADE

Manutenção Corretiva

Tempo de máquina parada para manutenção corretiva

Verificar horas de máquina parada

Mão de obra direta

Horas extras para recuperar atrasos de produção

Verificar número de horas extras para recuperar atrasos.

Reprocesso de produto não conforme

Total de garrafas retornando para o início do processo.

Retrabalho

Perdas de produção

Desperdício de garrafas

Verificar peso

Desperdício de cápsulas/lacres

Verificar peso

Desperdício de rótulos

Verificar peso

Desperdício de tampas/rolhas

Verificar peso

CUSTO-REAL (R$)

QUADRO A.1 - CUSTO-PADRÃO DAS ATIVIDADES DAS FALHAS INTERNAS DO PROCESSO DE ENVASE - MÊS 01 A 02 MÊS 01 (R$)

CATEGORIAS

%

ACUM. %

ACUM. (R$)

MÊS 02 (R$)

%

ACUM. %

ACUM. (R$)

TOTAL (R$)

%

ACUM. %

Manutenção corretiva Retrabalho Horas extras Desp. garrafas Desp. cápsulas Desp. rótulos Desp. tampas

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ACUM. (R$)

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Lançamento da Revista Científica digital da EBS (Estação Business School).

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