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#54 , OUTUBRO , 11 , ANO 6

NÃO TEM PREÇO

REVISTA

, BMX , PERFIL

, RED BULL SOAPBOX

PECADO Bota, meu amor Retrospectiva das campanhas prócamisinha no Brasil

Entrevistas SERGINHO GROISMAN SOBRE POLÍTICA, EDUCAÇÃO E ROCK’N ROLL LÍDERES E FIÉIS DO HINDUÍSMO, BUDISMO, JUDAÍSMO, ISLAMISMO, CATOLICISMO, UMBANDISMO

Rodolfo Abrantes,

ex-Raimundos

“Há dez anos, escolhi uma vida de santidade” E mais: 70 pecados virtuais Do vocabulário infantilóide às fazendinhas e vilas idem


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A maior banda independente do país, com mais de um milhão de CDs vendidos, encerra a turnê do disco Raçaman e ainda devem dar uma amostra do que estão preparando para o DVD Acústico em Ipanema, próximo trabalho da banda.

Projeto surgido em Amsterdam, no verão de 2010, o iLove Bubble permeia áreas da música, fotografia, comportamento, moda, e vídeos, em um set que contempla desde indie, rock e surf music, até as últimas peripécias eletrônicas, como o dubstep.

É a união de dois amigos DJs e produtores, em busca do mesmo propósito; levar a pista uma sensação única e totalmente inesquecível, projeto formado por Rodolfo Brito e Michel Lara, residentes da boate 5inco de Belo Horizonte.


Uma Rede Internacional com 100 anos de Brasil.


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facebook.com/festivalplanetabrasil a cada novo curtir, o festival planeta Brasil vai plantar uma árvore. ou seja, é só levantar o dedão e ajudar a preservar a nossa casa.


EDITORIAL

EU CONFESSO! Não há dúvidas de que um dos maiores mistérios da vida, senão o maior, é o que virá depois da morte. Assim como não há dúvidas de que um dos maiores temores da humanidade é pensar em um possível julgamento pelo qual passaremos e que supostamente irá determinar se, dali pra frente, seremos condenados ou absolvidos; se será céu ou inferno. E aÍ, natural e inevitavelmente, vem à tona vários questionamentos: será que realmente alguém irá nos julgar? Baseado em quais fatos? Será que fomos pecadores? Em quais níveis? Para onde vão nos mandar? E por aí vai... Crescemos cercados por essas crenças e doutrinas e, de alguma maneira, o fato de pensarmos que esse julgamento existirá provavelmente é o que nos impede de cometer atos inconsequentes, ajudando de certa forma a puxar os freios de um caos completo. Apesar disso, acredito que a percepção do que é certo e errado também seja algo muito pessoal. Algumas pessoas sentem uma enorme culpa por tomar uma taça de vinho, enquanto um assassino em série pode se considerar um bom homem e não carregar consigo nenhum remorso. Se esse suposto tribunal estiver realmente dentro de cada um, a definição do que

é pecado ou não também passa a ser algo íntimo e pessoal, dependendo de cada juiz. Os sete pecados capitais foram criados pelo homem no final do século 6, ou seja, já faz um bom tempo. Mas, em função das mudanças ocorridas na sociedade atual, o Vaticano criou, em março de 2008, um conjunto de novos pecados adaptados à era da globalização. Nós aqui da Ragga achamos pouco e resolvemos brincar de Papa, aumentando um pouco a lista e publicando tudo na página 32. O Vaticano também definiu que o ato de se confessar pode livrar você dos pecados cometidos, portanto, faça isso já! Se estiver sem tempo, ou não conseguir aquela vaga na porta da sua paróquia, basta acessar um site especializado e contar tudo e, assim como na igreja, só o padre fica sabendo — nesse caso será só o programador. Interessados podem procurar pelo endereço virtual da salvação na página 68. Seja virtualmente ou diretamente com Deus, confesse. Você se sentirá melhor, é o que garante Rodolfo, capa desta edição e eterno Ex-Raimundos, que conversou com a gente durante dois dias e falou sobre fé, rock, drogas, evangelho e crise dos 40 anos. Pecado mesmo será não ler esta edição. Lucas Fonda — Diretor Geral lucasfonda.mg@diariosassociados.com.br

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TAMO JUNTO Enrico Ogliaro e nosso fotógrafo nos melhores picos de BMX em BH

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SEM PERDÃO Os 70 erros capitais do mundo digital

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VIDA NOVA Crente, Rodolfo Abrantes diz que nunca foi tão feliz

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BACANA Uma conversa sobre de tudo um pouco com Serginho Groisman


ILOVEPLAYMO

BÚSSOLA

já é de casa DESTRINCHANDO

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ESTILO , Diana Junqueira QUEM É RAGGA

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40

ON THE ROAD , Barcelona

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RAGGA GIRL , Michelle Capriss EU QUERO , Chuva

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CAIXA DE ENTRADA < Expediente > DIRETOR GERAL lucas fonda [lucasfonda.mg@diariosassociados.com.br] DIRETOR DE COMERCIALIZAÇÃO E MARKETING bruno dib [brunodib.mg@diariosassociados.com.br] DIRETOR FINANCEIRO josé a. toledo [antoniotoledo.mg@diariosassociados.com.br] ASSISTENTE FINANCEIRO nathalia wenchenck GERENTE DE COMERCIALIZAÇÃO E MARKETING rodrigo fonseca PROMOÇÃO E EVENTOS isabela daguer EDITORA sabrina abreu [sabrinaabreu.mg@diariosassociados.com.br] SUBEDITOR bruno mateus REPÓRTERES bernardo biagioni. flávia denise de magalhães JORNALISTA RESPONSÁVEL sabrina abreu – mg09852jp NÚCLEO WEB guilherme avila [guilhermeavila.mg@diariosassociados.com.br] damiany coelho ESTAGIÁRIOS DE REDAÇÃO diego suriadakis. izabela linke DESIGNERS anne pattrice [annepattrice.mg@diariosassociados.com.br]

REVISÃO DE TEXTO vigilantes do texto IMPRESSÃO rona editora REVISTA DIGITAL [revistaragga.com.br/digital] REDAÇÃO rua do ouro, 136/ 7º andar. serra cep 30220-000. bh. mg. 55 (31) 3225 4400

bruno teodoro marina teixeira marcelo andrade FOTOGRAFIA ana slika. bruno senna carlos hauck. carol vargas romerson araújo ILUSTRADOR CONVIDADO bruno dellani [brunodellani.com] ARTICULISTA lucas machado COLUNISTAS alex capella. cristiana guerra henrique portugal kiko ferreira lucas buzzati rafinha bastos COLABORADOR maria moysés RAGGA GIRL MODELO michelle capriss FOTOS carlos hauck BELEZA silvinho almeida CAPA FOTO ana slika TRATAMENTO bruno senna ILUSTRAÇÃO rodrigo almeida

SCRAP por Alex Capella

SA

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bruno dib [brunodib.mg@diariosassociados.com.br] rodrigo fonseca [rodrigoalmeida.mg@diariosassociados.com.br] < SAIBA ONDE PEGAR A SUA >

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Os textos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não expressam necessariamente a opinião da Ragga, assim como o conteúdo e fotos publicitárias.

fale com ele: alexcapella.mg@diariosassociados.com.br *A coluna Scrap S/A foi fechada no dia 20 de setembro. Sugestões e informações para a edição de novembro, favor entre em contato pelo e-mail da coluna.

/ Games de esportes / IMAGENS: DIVULGAÇÃO

Com a chegada do fim de ano, as grandes empresas do setor de games começam a lançar as novas versões dos seus principais jogos. Neste ano, as indústrias apostam nos jogos de esportes, como Fifa, PES (Pro Evolution Soccer), NBA e Fórmula 1. As lojas físicas e online da Eletrocell, empresa mineira tradicional no comércio e venda de consoles e jogos de videogame, participa do lançamento mundial do Fifa 2012 e PES 2012. A Eletrocell já realizou várias pré-vendas dos jogos e está presenteando os compradores do Fifa 2012 com uma camisa “Sou Fifeiro”.

/ Escritório da praia / A Cila, grife mineira de moda praia criada no final dos anos 1970, acaba de abrir as portas da sua nova fábrica, localizada no Bairro São Lucas. O empreendimento conta com cinco pavimentos, sendo que dois são voltados para a produção. O investimento entre a aquisição do terreno e a construção foi de R$ 3,4 milhões. A empresa já conta com duas lojas próprias em Belo Horizonte, produz 11 mil peças por mês e conta com 60 colaboradores diretos, distribuídos entre fábrica, administrativo, marketing e lojas.

ERRATA Em 2012, a Fórmula Academia, situada na Savassi, passará a se chamar Bodytech. Reformas e adaptações serão feitas, novos equipamentos e aulas serão oferecidos para marcar a mudança da bandeira. Mas o público-alvo do empreendimento permanecerá o mesmo: a classe AA. Também no próximo ano, o plano de expansão sob o nome Fórmula prevê a abertura de 9 novas academias, em espaços em torno de mil metros quadrados, destinadas ao público AB, sempre com foco na região Centro-Sul de Belo Horizonte.

arquivo pessoal

COLABOROU NESTA EDIÇÃO

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Da mania de colecionar, Maria Moysés começou a comprar todos os playmobils que via pela frente. Da vontade de unir duas grandes paixões — Playmobil e fotografia, surgiu iloveplaymo. Da simples brincadeira de inserir bonecos em cenários reais, coleciona, agora, dezenas de fotos. Aliás, a do índice desta edição é dela, com dois dos seus 400 toys. facebook.com/iloveplaymo . instagram/iloveplaymo . iloveplaymo@yahoo.com


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ARTIGO

Ditadura nunca mais! por Lucas Machado ilustração Andrea Lacerda

“É preciso que a juventude passe a estudar, conhecer e debater como era o Brasil antes de ele ser chamado Brasil. Precisamos mostrar aos jovens sua real identidade e seus reais valores, principalmente os culturais.” Afrika Bambaataa, o Papa do hip hop, em entrevista ao site Bocada Forte, em 2007

Abuso de autoridade e poder. Não poderia deixar de mostrar minha indignação com uma ação truculenta feita pela Polícia Militar no mês passado. Vou iniciar este texto falando sobre partes do Art. 5º da Constituição da República: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Não caberia aqui todo o artigo, mas cito alguns incisos para deixar bem claro do que vamos falar: “III — ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante”; “IV — é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”; “IX — é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”; “XVI — todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”. É do conhecimento de quase todos os jovens da província belo-horizontina que, desde 2007, temos, às sextas-feiras, debaixo do Viaduto de Santa Tereza, o Duelo de MC’s, criado pelo coletivo Família de Rua e eleito uma das maiores manifestações da cultura hip hop nacional, conhecido por grupos culturais, imprensa, empresas patrocinadoras, entidades governamentais e não governamentais. Para falar de hip hop, voltemos um pouco à história. O DJ americano Kevin Donovan, mais conhecido como Afrika Bambaataa, é reconhecido como fundador oficial do movimento, que floresceu nos bairros negros nova-iorquinos na década de 1970. Nascido em 1957 e criado no Bronx, Bambaataa também é líder da ONG Zulu Nation, que tem como missão espalhar o verdadeiro espírito do hip hop.

O Duelo de MC’s tem alvará de funcionamento e, desde sua primeira exibição, os organizadores vêm pedindo ao poder público da cidade melhorias relacionadas à estrutura e segurança do local, como banheiros químicos e melhoria da iluminação. Segundo eles, nunca foram acatados os seus inúmeros pedidos. Em uma das últimas reuniões do coletivo com representantes da Regional Centro-Sul da PBH e da Polícia Militar, foi solicitada por ambos os órgãos a transferência do local, sob alegação de que o espaço não comporta mais o público. Os responsáveis pelo evento não acataram, pois os motivos apresentados não haviam sido colocados em pauta antes, muito menos os seus pedidos atendidos. No dia 2 de setembro, a Polícia Militar chegou ao local O Duelo de MC’s com o Juizado de Infância e tem alvará de Adolescência e uma emissora de TV prontos para o sensafuncionamento e cionalismo. Afinal, o que eles os organizadores não fazem por uns pontinhos a no Ibope? Foi fechado por vêm pedindo ao mais 40 minutos todo o entorno do poder público local e, além disso, a PM manmelhorias dou abaixar o som, usando e abusando da autoridade. Prenrelacionadas à deram alguns jovens e menores estrutura de idade que portavam drogas e segurança e bebidas alcoólicas e, debaixo de muita repressão e falta de diálogo, deixaram indignados os que ali sempre frequentam para assistir um evento pacífico de cultura e arte. A pergunta é a seguinte: essa é a melhor forma de combate às drogas? Onde não tem droga neste país? Ela está nas ruas, na Zona Sul, nas próprias corporações que fazem a apreensão. O assunto é polêmico e, como tal, tem que ser discutido e não imposto. Geralmente, além de artistas, poetas e simpatizantes, o Duelo é frequentado por pessoas que não têm condição e não querem pagar por eventos fechados, que vêm de escolas públicas em sua maioria, que também pagam impostos e sofrem com a má qualidade da educação. Vou ficando por aqui, lembrando que todos têm o direito de se expressar, este é o meu. Assim como todos têm o direto de resposta. Está em aberto.

manifestações: articulista.mg@diariosassociados.com.br | Twitter: @lucasmachado1 | Comunidade do Orkut: Destrinchando ,18

J.C.


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ILUSTRADOR CONVIDADO

Bruno Dellani

[brunodellani.com designer@brunodellani.com] Ele gosta de suspiro. Aquele doce, bem doce. Queria ser astronauta, arqueólogo e viajante do tempo, porque não sabia que desenhar podia ser profissão. Mas é o que ele faz há 15 anos. Começou criando estampas de moda em sua terra natal, Fortaleza. Seu trabalho já foi exposto na passarela das diversas edições do SPFW. E pode ser visto circulando nas ruas, nas praias, em ilustrações de revistas e até na China.

Quer rabiscar a Ragga? Mande seu portfólio para annepattrice.mg@diariosassociados.com.br


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COLUNA

,reflexões reflexivas do twitter

RENATO STOCKLER

REBELDES NA LÍBIA E O BOM E VELHO MOLETOM

< RAFINHA BASTOS >

BRUNO DELLANI

é jornalista, ator de comédia stand-up e apresentador do programa CQC (Custe o Que Custar)

Ñ uso drogas. Tô acordado pq preciso pentear o unicórnio azul que vive no jardim dourado do meu AP

Boa notícia: Os Rebeldes dominaram a Líbia e prometeram nunca mais fazer novelinha adolescente. Bom.

Jailson, Zelivelton e Claudemirdes. Tem RG que é atalho pra ser destaque do mês do Mc Donalds.

Se eu tivesse que escolher sobreviventes de um desastre, os últimos da lista seriam os que mastigam chiclete de boca aberta

Pq o sujeito vende mapa-múndi no sinal? Quem para o carro e pergunta: “Amigo, onde fica o Sudão?”.

Qual a diferença entre um homem assistir a maratona Glee e um homem transar com 16 caras? Não existe felicidade antes das 10 horas.

Gente baixinha quer sempre ocupar mais espaço do que precisa.

“Qual o seu signo?”, perguntou toda mulher chata que eu conheci até hj. Acabei de ver um jovem num Monza. Ele não é humilde, ele apenas valoriza o passado. Feliz dia do corrimão de escada.

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fale com ele: rafinhabastos.mg@diariosassociados.com.br

Perdi um sabão de hotel dentro do meu rabo. Obrigado.

Tem mais igreja evangélica do que água neste país.

Impossível conquistar objetivos trajando moletom. Não se deixe enganar pela euforia do radialista: ninguém é feliz entrando no trabalho às 6h. Msg do dia: Vc pode não ser linda, mas pelo menos... pelo menos está viva. Sei lá... Espero ter ajudado.


COLUNA

,provador

ELISA MENDES

O topo da montanha

No embalo do amor-esporteradical ralei os joelhos, quebrei os dentes, engessei pernas e braços, cortei a pele e levei pontos por todo o corpo

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BRUNO DELLANI

< CRIS GUERRA >

41 anos, é redatora publicitária, ex-consumidora compulsiva, ex-viúva, mãe (parafrancisco. blogspot.com) e modelo do seu próprio blogue de moda (hojevouassim.com.br)

O coração dispara, a respiração quase não há. No alto da montanha, o ar vai ficando mais e mais rarefeito. O cansaço do corpo tira o sentido das pernas, mas elas continuam a se mover para o alto, como coro que canta um mantra. Pergunte a um alpinista o que o move até o topo da montanha: a paisagem ou o perigo? Lá de cima, um passo em falso é traslado para a morte em poucos segundos. A paisagem é abismo vestido de sedução. E por que diabos o paraquedista volta a saltar? Certamente, não pela segurança. Queremos subir. Queremos voar. Queremos o escuro e o desafio para nos provar. Mesmo quem não é afeito ao ar, às águas ou à velocidade sabe essa sensação bem cedo na vida. É bem assim que aprendemos o amor. Por muito tempo achei que o amor não viesse sem que pagássemos por ele um preço alto, de dúvida, insegurança e dor. Buscando topos de montanhas, vi horrores pelo caminho, em troca de paisagens nem sempre estonteantes. No embalo do amor-esporte-radical ralei os joelhos, quebrei os dentes, engessei pernas e braços, cortei a pele e levei pontos por todo

fale com ela: crisguerra.mg@diariosassociados.com.br

o corpo. Até que aprendi. Está nas cicatrizes a lição para ler: nem sempre é o skate, nem sempre a prancha, nem sempre a montanha. Quase nunca o paraquedas, que um dia pode não abrir. O amor pode ser tai-chi, pilates, ioga, frescobol. Pode ser esporte-prazer, sem pontos ou competição. Sem meta definida a não ser o próprio caminho, a trajetória e o que se leva dela. Para mim o amor é natação, que me envolve na sensação do silêncio uterino, mas também me deixa livre para mergulhos e flutuos. Na água que me acarinha inteira, continuo sendo eu mesma. Não me afundo, não dissolvo, respiro sempre que necessário e, se me cansar, coloco os pés no chão ou deixo o corpo boiar. Não há ameaça à espreita, não há onda que venha me engolir. Nado em piscina azul, coberta e com água quentinha. Abandonei o vício do perigo. Deixei para trás a adrenalina, combustível que queima e mata o que eu chamava amor. Chega do risco iminente. Basta o respirar ofegante. Quilômetros de viagem, um corpo cansado e finalmente sábio. No topo da montanha suave que estive subindo ao longo da vida, encontro um amor tecido de delicadezas, sem rastros de tumulto ou dor. E a paisagem que vejo vale cada segundo da viagem.


ESPORTE ,bmx

SOLTO fotos Carlos Hauck

Levamos Enrico Ogliaro para visitar seus picos favoritos de BMX Da Praça 7, no Centro de Belo Horizonte, até o desconhecido Bairro Darcy Ribeiro, em Contagem, os picos preferidos de Enrico Ogliaro para praticar BMX estão todos em Minas. Recém-saído da faculdade de administração, que tirou, por quatro anos, um pouco do tempo que costumava dedicar ao esporte, o ciclista voltou à cena com sede de treinar e competir mais do que nunca. As paisagens do estado acenam para ele, dando boas-vindas.

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No bowl de Santa Tereza, mandando um aĂŠreo bunny hop, e (na pĂĄgina ao lado), num descampado em Contagem, completando um look down perfeito


Voador (no sentido horรกrio:) superman seat grab, no foot can can to tail whip e manual

< Procure por > BMX | Enrico Ogliaro na www.raggatv.com.br


PECADO

70 PECADOS DIGITAIS Como perder a noção nas redes sociais ou num simples e-mail 1) Cutucar no Facebook. 2) ESCREVER FRASES SÓ COM LETRAS MAIÚSCULAS (JEITINHO DA XUXA). 3) Achar que, só porque está no Twitter, é preciso colocar hashtag em todos os posts #desespero. 4) Adicionar quem nunca viu na vida, fazendo “o íntimo”. 5) Adicionar quem só viu uma vez na vida. 6) Aceitar a solicitação de amizade daquela butique desconhecida só para dar volume entre seus amigos facebookianos. 7) Falar “facebookiano”. 8) Usar mais de cinco vezes o Instagram num mesmo dia (sua vida não é tão interessante assim). 9) Não achar que o nome daquela rede social é “querido diário”. 10) Achar que é fotógrafo profissional só porque tem uma conta do Flickr e uma câmera boa. 11) Postar fotos de gato no Instagram (o mundo não precisa de mais fotos de gato). 12) Entrar num blog de moda e comentar que não liga para a moda. 13) Ter uma conta ativa no Flogão. 14) Ter uma conta ativa no Fotolog. 15) Mandar convite para seus amigos entrarem no Hi5. 16) Mandar convite para seus amigos, convidando-os para entrarem no Badoo. 17) Encaminhar qualquer Power Point. 18) Não iluminar sua tia, avisando-a que é pecado encaminhar e-mails com Power Point. ,32


19) Linkar as atualizações do Twitter ao Facebook. 20) Enviar e-mails para todos os amigos avisando que seu blog tem novo post (O RSS taí para isso). 21) Implorar: “GaLeRa, comenta no meu blog, yay!”. 22) Escrever em “miguxês”. 23) Escrever sobre a fila na qual você está há horas. Se ela é chata para você, mais chato será ler

seus comentários sobre isso nas redes sociais. 24) Colar correntes no mural e esperar que seus amigos façam o mesmo (se você odeia quem faz isso, cole isto no seu mural: http://migre.me/5PWK3). 25) Postar vídeos de crianças em situações constrangedoras no YouTube. 26) Tirar foto de tudo o que come ao longo de um dia (a menos que seja para enviar, por e-mail, para seu nutricionista). 27) Se autofotograr em frente ao espelho, tendo mais de 13 anos ou não sendo a Scarlett Johansson. 28) Ignorar o vídeo da Bixa Muda de Juazeiro. 29) Nunca ter visto o vídeo da Vovó Cantora. 30) Falar mal do Orkut, esse clássico da vida on-line. 31) Escrever recados melosos para sua namorada/seu namorado, revelando os apelidos secretos (ou que deveriam ser secretos), tais como “Paçoquinha”. 32) Compartilhar senhas da vida on-line com a(o) namorada(o). 33) Escrever como se a vírgula não existisse porque afinal ela existe e há razões específicas para utilizá-la. 34) Pior: escrever separando, cada duas palavras, com vírgula. 35) Pensar que a internet aboliu a gramática. 36) Exagerar… no uso… das reticências... (são três pontinhos, não uma fórmula mágica para tornar sua escrita mais interessante ou inteligível). 37) Pior: exagerar no uso dos pontos de exclamação!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 38) Nos e-mails profissionais, escrever para mais de uma empresa ao mesmo tempo. 39) Mandar e-mail para 100 contatos, sem colocá-los em cópia oculta. 40) Ter um endereço de e-mail no BOL. 41) Ter um endereço de e-mail que inclua sua data de nascimento ou idade — por que, ó céus, alguém faria isso? 42) Incluir apelidos da infância no seu endereço de e-mail, ex: “jujufofis@...”. 43) Criar um endereço de e-mail que contenha autoelogio, do tipo “amaisgatadeBH@...”. 44) Fazer 98% das atualizações em inglês, sendo que menos de 2% de seus amigos são gringos. Ou 0% é. 45) Tuitar freneticamente em shows, como se alguém tivesse solicitado uma cobertura séria e profunda do evento. 46) A essa altura dos anos 2010, cair em vírus que dizem “olha como você ficou bem nas fotos do churrasco”, sendo que você não foi em nenhum churrasco nos últimos 90 dias. 47) Nas redes sociais, participar do protesto contra a exploração da mão de obra infantil, militando e fazendo as unhas ao mesmo tempo. 48) Enviar e-mails com piadinhas idiotas e gifs animados. 49) Não deslogar sua conta da rede social quando num computador que não seja seu. 50) Se aproveitar do descuido de quem esqueceu de dar logout e fuçar a rede social alheia. 51) Achar que está abafando porque usa o Foursquare a cada 5 minutos e é prefeito da lanchonete da faculdade. 52) Marcar o nome de todos os seus amigos num flyer de festa. 53) Reclamar da cidade onde vive, diariamente, nas redes sociais e, ano após ano, nunca se mudar dela. 54) Usar programas para aumentar seguidores no Twitter. 55) Criar evento para a posse do síndico do seu prédio. 56) Fazer posts de 15 mil caracteres no blog, estilo Zeca Camargo. 57) Dar Crtl C + Ctrl V nos trabalhos acadêmicos. 58) Copiar a frase de efeito do coleguinha e postar sem dar os devidos créditos. 59) Achar que porque indicou primeiro um vídeo incrível você é incrível. 60) Curtir notícias ruins, como: “Trânsito engarrafado nas duas direções, há quatro horas, na Avenida Amazonas” ou “Meu cachorro quebrou a pata”. 61) Dar updates sobre a vida do seu cachorro. 62) Criar um perfil para seu cachorro e adicioná-lo como filho. 63) Escrever uma frase de autoajuda seguida de “bom dia” todos os dias pela manhã. 64) Reafirmar suas religiões na vida on-line a cada 15 minutos. 65) Tuitar Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector sem nunca ter folheado um livro deles. 66) Cuidar de FarmVille, mandar convite de FarmVille, achar normal quem cuida de FarmVille ou manda convite de FarmVille, CityVille, FodasVille. 67) Fazer check-in em lugares desinteressantes, tipo: “Pedro @Açougue do Zé”. 68) Trocar a foto do perfil todos os dias. 69) Tuitar para fulano, seu amigo, dizendo que mandou uma DM a qual avisa que escreveu no mural dele um recado lembrando-o de checar o e-mail que você enviou há 3 minutos. 70) Cutucar de volta quem te cutucou no Facebook. ,33


PECADO

Na fé

Dez anos depois de sua conversão, Rodolfo Abrantes garante: “Sou mais feliz que nunca em minha vida” por Sabrina Abreu fotos Ana Slika

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Selim, Eu quero ver o oco, I saw you saying. Já faz mais de 10 anos que o Raimundos, na boa e velha formação original com Rodolfo Abrantes nos vocais, acabou. Mas parece menos. Com a memória de moshs e estrofes cravadas de palavrões ainda fresca na cabeça, não foram poucos os amigos — adolescentes da saudosa década de 1990 — que me olharam consternados quando souberam que eu tinha horário marcado para entrevistar o cara que aceitou a Jesus e deu adeus à uma das bandas mais bem-sucedidas do Brasil pré-rock-felize-colorido. Quase pude ver uma lágrima escorrer do olho de um jovem empresário de 30 e poucos anos, que disse ainda ouvir “os álbuns dos caras, às vezes, no caminho da academia”. Apesar da tristeza de seus fãs ou ex-fãs, Rodolfo parece muito bem. Para ele, os últimos 10 anos, divididos entre o surfe em Balneário Camboriú (SC), onde vive, e apresentações gospel pelo Brasil foram mais felizes do que o tempo que passou no topo das paradas das rádios e da MTV. Daquela época, ficou a saudade de pessoas queridas. E nada mais. O lugar escolhido para a entrevista não poderia ser mais adequado à nova fase — nem tão nova assim — do artista: uma igreja. No Templo da Igreja Bola de Neve, no Buritis, em Belo Horizonte, nos falamos, dois dias seguidos, sempre depois do culto. O assunto principal é a Verdade, assim, com “v” maiúsculo, que ele encontrou numa vida perto de Deus, de acordo com o que está escrito na Bíblia. Longe do pecado e dos palavrões nas estrofes que canta, embora ele continue perto do rock. No culto, você tocou uma música falando de santidade. Que santidade é essa sobre a qual você fala como se a gente pudesse ser santo? Creio que a gente se torna parecido com o que adora. Quando adoro a Deus, isso influencia minha vida. Atributos de Deus começam a me mudar de dentro para fora. Uma vez, ouvi uma frase que dizia que santidade é uma postura de adoração. Se eu aplicar meu coração a adorar a Deus, vou ter menos tempo para fazer besteira, isso vai me edificar. Você peca? Só Jesus não pecou. A Bíblia diz que todos somos pecadores. Quem diz que não tem pecado é mentiroso. Mas, se pecarmos, temos um advogado junto ao Pai que intercede por nós. Alguém pode perguntar “Se todos somos pecadores, qual é sua diferença?”. E a diferença é o que faço com meu pecado: confesso para Deus. Abro meu coração, não vou guardar isso para mim, tendo a certeza de que Ele vai arrancar esse pecado de mim. Faz isso todos os dias? Cara, não tenho uma medida rígida. De certa forma, a gente sempre toma banho para encontrar o noivo [noivo é uma analogia para Jesus, na Bíblia. E a noiva é a igreja] e nesse processo começa a orar e, então, aquela besteira que você falou ou fez começa a incomodar. Você tem uma Menorah [candelabro de sete velas que é símbolo do judaísmo] tatuada. Fez depois que

se converteu? Foi. Estava louco querendo me afirmar. Já tinha várias tatuagens, mas depois de me converter comecei a fazer muitas outras. Foi um momento de tanta coisa mudando. Quando Jesus entrou na minha vida, ficou tudo tão bom: fui curado [de um câncer no estômago], fiquei livre das drogas, noivei. De repente, quando saí da banda virou um caos, porque comecei a ser criticado, odiado. Eu não tinha estrutura em mim para lidar com essa oposição toda, então, queria mostrar: “Olha, não fiquei louco. Estou me tatuando ainda”. Era uma forma de afirmar. Aí, lembro que um dia estava na frente do espelho e senti Deus falando comigo: “Chega, não precisa ficar mostrando para os outros quem você é. Eu que sei quem você é”. Meu, parei de me tatuar. Você contou que, logo que se converteu, ficou perturbado, em conflito com outras verdades da sua vida. Como foi isso? É algo do tipo: você edifica a vida inteira sobre certos fundamentos, o que você pensa, como age. Não quer nem pensar se está certo ou está errado. Só “eu quero fazer isso, eu quero fazer aquilo”. De repente, você conhece o maior amor do mundo, a maior expressão de misericórdia e perdão, da forma como Jesus fez comigo. Pensei: “O que fiz para Ele me amar assim?”. Deu um nó na minha cabeça. Porque não é pelo que você fez, mas por quem você é: Ele te ama. Comecei a pensar: “Meu, comecei a ver que foi a melhor coisa que me aconteceu. Que amor é esse?” Quis conhecer Deus melhor. Então, fui ver os princípios que Deus estabeleceu e vi que comigo tudo era tão diferente deles. Quis alinhar minha vida à vontade de Deus. Mas teve um fator de dificuldade? Isso é o que Jesus chamou de “nossa cruz”: fazer a vontade de Deus todos os dias, em vez da nossa. Fácil não é. Já havia uma busca por Deus na sua vida? Tinha, sim. Lembro que, uma vez, a gente fez uma turnê pela Espanha, com os Raimundos. Antes de entrar no palco, eu rezava — não sabia falar com Deus, então rezava [rezar é repetir versos que foram escritos por outra pessoa, enquanto orar é se dirigir a Deus com suas próprias palavras]. Saiu uma matéria no jornal falando que eu era o roqueiro que rezava. De certa forma, tinha consciência. Mas não pensava muito, porque a verdade traz confronto. E eu não queria confronto, queria conforto. Até que a verdade me pegou e me fez tanto bem. Agora, eu quero a verdade. Existe discriminação contra os evangélicos? Com certeza. E, na maioria dos casos, com toda razão. Porque as pessoas, às vezes, querem fazer na força. Jesus não forçou ninguém a segui-lo. Se quiser, Ele está ali, disponível. Uma vez, estava conversando com o Victor Belfort, lutador [que também é evangélico], e ele disse: “Sou igual a Jesus, se abrir a porta, eu entro”. Tenho meus amigos, se notar que eles querem [saber mais sobre Jesus], se derem uma brecha, eu ,35


entro. Se não derem, não vou perder tempo. Você falou de drogas: este ano, de um jeito especial, foi muito falado sobre descriminalização da maconha. Um dos argumentos é que, se houver regulação na venda e compra de maconha, o governo poderá canalizar seus recursos para coibir o tráfico de drogas mais nocivas à sociedade, como a cocaína, por exemplo. O que você acha disso? Acho que, se quiserem combater as vendas, é só eles mesmos pararem de vender. Eles são os barões, o governo. Todo mundo sabe que vem lá de cima. Essa operação parece a de Cidade de Deus, quando vão tomar uma boca e o Zé Pequeno vai tomar a boca do Cenoura [na verdade, do personagem Neguinho] e ele fala: “Quem disse que a boca é tua, rapá?”. Parece que o governo está querendo tomar a boca dos traficantes. O viciado vai continuar comprando, mas em vez de comprar desse, vai comprar daquele. Você acha que a maconha leva a outras drogas? Acho que quando você usa uma se abre para usar qualquer uma. Não gostava muito de cocaína, porque não gostava do dia seguinte. Preferia maconha. Mas, não tinha temor: usava qualquer uma, ácido, não estava nem aí. Se eu fosse o governo, proibiria até o álcool — que, para mim, é a pior droga de todas. Então, você não bebe? Não. Nem vinho? Não acho errado, conheço muito cristão que bebe, mas não se embebeda. Na nossa igreja, o público com quem a gente lida tem muito ex-dependente [químico]. Se tiver um histórico de compulsividade, melhor não se pôr à prova. Você ouve músicas que não são evangélicas? Não. E quais curtia antes? Ramones, Dead Kennedys. Se estiver tocando Ramones num lugar, você bate o pé, no ritmo? A gente anda na rua e ouve música. Hoje mesmo estava tomando açaí e estava tocando música, não vou tapar meus ouvidos. Mas também não vou parar para ouvir, porque não me identifico. Para mim, hoje em dia, a letra vale muito mais do que o barulho. E som por som, tem muito som de crente bom pra caramba. ,36

SÓ JESUS NÃO PECOU. A BÍBLIA DIZ QUE TODOS SOMOS PECADORES. QUEM DIZ QUE NÃO TEM PECADO É MENTIROSO. MAS, SE PECARMOS, TEMOS UM ADVOGADO JUNTO AO PAI QUE INTERCEDE POR NÓS


WEA/DIVULGAÇÃO

JAIR AMARAL/ESTADO DE MINAS

Com o Rodox, em 2003, e na formação original dos Raimundos, com Digão, Canisso e Fred: “sem chance de retorno”

O seu som gospel não é tão pesado. Tô ficando velho [risos]. Você disse ontem e em várias entrevistas que seus últimos 10 anos foram os mais felizes da sua vida. O que levou isso? É um conjunto de coisas, nem sei como explicar tudo o que Deus tem feito em minha vida. Mas o fato de ter um sentido para viver, um propósito, ter entendimento que não tinha lugar nenhum melhor para você estar, nada melhor para você viver do que aquilo que está vivendo e fazendo naquela hora, acho que centra a gente na vida, neste tempo.

O público atual canta junto músicas do repertório gospel, como Santidade ao Senhor

O que faz para se divertir, atualmente? Muita gente acha que crente não pode fazer nada. Quando estou em Balneário Camboriú (SC), uma cidade muito bonita, lá tem altas ondas, pego onda todo dia. Sou do dia, faço uma caminhada, dou uma remada, vou até uma ilha próxi-

ma. Gosto do mar. Você nasceu em Brasília, morou em São Paulo, mas hoje escolheu Balneário Camboriú. Por quê? Me apaixonei pela minha mulher lá. Quando saí da banda, não tinha mais motivos para continuar em São Paulo, sempre ia visitar meus sogros lá. O estilo de vida é muito legal, se pudesse escolher uma cidade no Brasil para viver seria lá. Você vai fazer 40 anos. Muitos homens entram em crise nessa idade. Será que vai acontecer com você? Não vejo a hora de chegar aos 40 anos. Com 38, você é o mais velho dos 30. Quando faz 40, fica o mais novo dos 40 [risos]. Não por isso. Mas por vir da geração que eu vim, com o passado que tive e chegar aos 40 com saúde, estou feliz da vida.


BRUNO SENNA

BH CULTURA

Para baixo e avante

Em sua quarta edição brasileira, Red Soapbox levou a BH sua corrida de carros e pilotos malucos Mais de 55 mil pessoas estiveram na Praça do Papa, em Belo Horizonte, para mais uma etapa brasileira da corrida mais divertida do mundo. O Red Bull Soapbox, com seus carros temáticos e pilotos malucos, teve sua primeira edição em Bruxelas, em 2000, e contou, em sua edição mineira, com 49 equipes inscritas. Na prova realizada no primeiro domingo do mês, competidores do Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins, além, é claro, dos donos da casa, desceram com seus carrinhos movidos à diversão os 450m da pista montada num dos cartões-postais mais famosos das Alterosas. Com a temperatura beirando os 35°C, a equipe vencedora foi a mineiríssima Red Bule Uai Sô, com seu carro-fogão à lenha. A turma ganhou ingresso para o Grande Prêmio Brasil de F1. Em segundo lugar, ficou a equipe Regresso Nacional, de Brasília; e, em terceiro, a Se Beber, Não Dirija e Não Case, também mineira. Os quesitos apreciados pelos cinco jurados da prova foram: performance da equipe, criatividade do projeto e velocidade de descida.

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fotos: carlos hauck

fotos Bruno Senna e Carlos Hauck


BRUNO SENNA

FOTOS: carlos hauck BRUNO SENNA

< Procure por > Red Bull Soapbox na www.raggatv.com.br


ESTILO

DIANA junqueira por Renê Vasconcelos fotos Carlos Hauck

Dez e trinta e sete. O rotineiro e incômodo calor não se furtou em dar as caras novamente numa daquelas manhãs que antecederam esta primavera. Para muitos, o dia estava apenas começando, mas ela está de pé desde 5h, já saiu para correr, pedalar, ir à academia e fazer pilates. Essa é a rotina da belo-horizontina — mas lagoa-santense de coração e opção — Diana Junqueira, que sempre teve o esporte como papel fundamental em sua vida. Formada em relações públicas pela PUC Minas, ainda estudante atuou como diretora de comunicação da Confederação Brasileira de Motociclismo. “Foi uma experiência ótima na minha vida, fui a lugares inimagináveis, do Oiapoque ao Chuí”, comenta. Mal completou a graduação, no fim de 2000, em janeiro do ano seguinte, Diana partiu para os Estados Unidos ao lado do irmão, o piloto Bruno Junqueira, que foi correr a Fórmula Indy no país. Formou uma parceria de sucesso com ele sendo sua agente, fazendo de tudo, “só não dirigia o carro para meu irmão”, brinca. Ela criou a Speed Mídia, empresa para agenciar primeiro Bruno, depois, outros pilotos. “Foi uma demanda natural”, diz. Dos tempos de Fórmula Indy, Diana lembra com carinho dos quatro anos em que trabalhou na Newman-Haas, equipe da qual o lendário ator Paul Newman, morto em 2008, era sócio e com quem ela teve um contato próximo. “Uma pessoa maravilhosa, aprendi muito com ele”, lembra. Diana ficou 10 anos nos Estados Unidos e, depois de ter conhecido todos os continentes, retornou ao Brasil no ano passado. E não pensou duas vezes em fincar seus pés em Lagoa Santa, onde tem três academias — a quarta é em Belo Horizonte. “É uma referência muito forte da minha infância, sempre passava as férias e os fins de semana aqui. Quero criar uma identidade em Lagoa Santa que seja ligada ao esporte e à preserva,40

< Diana usa > blusa Maria Bonita short NK Store tênis Osklen

ção ambiental”, afirma. Uma das iniciativas de Diana foi ter criado um circuito de corrida de rua na cidade, o Circuito das Águas, que tem três etapas ao ano. Ela também disputou competições de duathlon e triathlon. Foi campeã da Flórida, nos Estados Unidos, por três anos e disputou um Mundial de duathlon. Por conta de um acidente de bicicleta, parou de fazer natação, mas continua correndo e pedalando. E ainda se arrisca em algumas competições. Além da paixão pelo esporte, a empresária gosta muito de moda, com uma tendência ao lado esportivo. Diz que não exagera nas compras, mas não esconde sua queda pelas marcas Coven e Osklen. Leitora voraz — “Sempre li muito, um livro por semana” —, ela adora biografias, e a de um tenista “cabeludo” é uma das quais ela lembra: “Das que mais me tocou foi a do André Agassi, um ídolo de infância”. Quando o assunto é música, Diana é eclética, só não pode tocar funk, axé e sertanejo. “Adoro escutar rádio. É legal ser surpreendida pela música.”

< Olha isto > euamolagoasanta.com.br

J.C.


< Kit sobrevivência >

bolsa Chloê

medalha Meia-maratona Miami, 2010

livro Biografia Lance Armstrong (Editora Berkley)

crachás Indycar

lycra Assos Swiss

capacete Giro

passaportes que rodaram o mundo

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NOITE ADENTRO

Desde maio de 2008, o Velvet Club, localizado no coração da Savassi, segue fiel à sua proposta original: unir arte, música e diversão num ambiente inspirado na pop art. Com uma programação diversificada sem perder a qualidade, a casa se tornou opção ideal para quem quer se divertir ao som que vai de música eletrônica ao rock ‘n’ roll. Em agosto deste ano, a Velvet lançou a revista Velvet MAG, publicação mensal gratuita com dicas de moda, cinema e música, programação e coberturas fotográficas.

fotos Ana Slika


DJS RESIDENTES

Nest Há 13 anos nas pistas de BH, DJ Nest é residente da Velvet desde 2008. Ele chegou a tocar música eletrônica às sextas, mas atualmente se dedica mais ao Sábado Rock, quando mistura clássicos, “para mostrar de onde vem as coisas”, e bandas dos anos 2000 aos dias de hoje.

Trista Luciano, conhecido como DJ Trista, começou há “mais ou menos 10 anos por diversão, por ser fã de música”. Em 2008, assumiu a residência na Velvet e a coisa ficou séria. Também no Sábado Rock, toca de Stones e David Bowie a Strokes e Franz Ferdinand. “A época não importa, o som tem que ser dançante.”

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PECADO

CARLOS HAUCK

O QUE É PECADO?

Psicólogo de formação, o paulista Kelsang Odro, aos 24 anos, decidiu abandonar tudo para se tornar um mestre budista. Hoje, aos 37, é o diretor espiritual nacional da Nova Tradição Kadampa (NTK), uma das vertentes da doutrina no Brasil. Odro tornou-se monge na Inglaterra, há sete anos. De lá para cá, segue à risca os preceitos de Buda, tentando se livrar do materialismo, do desejo, da luxúria e da ambição, sentimentos que seriam responsáveis pela dor da humanidade. Segundo ele, vem conseguindo. A única coisa de que ainda não se livrou foi da ajuda de custo de R$ 290, por mês, da NKT. “Tenho que comprar desodorante e creme dental”, lembra o monge, ainda contaminado pelo modo ocidental de viver. Mas o mestre Gen Odro, como gosta de ser chamado, não vê pecado nisso. Aliás, a palavra pecado no budismo não existe. “Pelo menos com o cunho cristão”, lembra Odro. Segundo o mestre, a filosofia budista prega o fim do apego, do ódio e da ignorância. E isso só é possível ao se aceitar a imperfeição, a transitoriedade e a interdependência entre tudo e todos no universo, o que seria um pecado mortal para muita gente espalhada por aí. “Tudo está ligado. O que causa dor no outro pode ser analisado como pecado, apesar de a palavra não existir na sua concepção cristã”, reforça. Por isso, um dos princípios fundamentais do budismo é o desenvolvimento de uma atitude de compaixão ou benevolência. “O importante é a busca pela paz interior, mesmo que isso signifique abrir mão dos nossos desejos materiais”, recomenda. por Alex Capella ,44

Kelsang Odro, budista


BRUNO SENNA

Silvana Gomes, hinduísta

Cercada por símbolos e representações religiosas na sua loja, na Savassi, a empresária e professora de ioga Silvana Gomes não precisou ler o bemsucedido romance Comer, rezar, amar, da jornalista Elizabeth Gilbert, para acreditar na reencarnação do espírito, base do hinduísmo. Mesmo sem ser uma hinduísta fervorosa, Silvana pratica ioga há sete anos, caminho necessário para todo hindu que deseja atingir o nirvana, ou seja, o paraíso. Tanto exercício e concentração fizeram dela professora na busca pelo contato com o divino. “Tive contato com a ioga na minha adolescência e transformei isso na minha vida”, diz. No complexo conjunto de doutrinas que surgiu na Índia há cerca de quatro mil anos, o pecado se dá no desrespeito às leis sagradas, que são milhares, assim como os deuses. No entanto, pode ser simplificado nas ações boas e ruins, que determinarão como o hindu virá na próxima reencarnação. Na visão hinduísta, a vida é um eterno retorno. Por isso, os hindus não veem os problemas da existência como castigo ou pecado, mas como uma chance de a alma amadurecer, para se chegar à iluminação. De modo que as várias facetas existenciais são tidas como transitórias. “A vida hoje é o futuro do passado”, filosofa Silvana. Na busca pelo eterno amadurecimento espiritual, a empresária, em sintonia com o hinduísmo, prefere acreditar na máxima de que quem faz o bem, receberá o bem. “Isso deveria estar presente em todas as religiões. É uma questão de comportamento”, acredita. [AC] ,45


BRUNO SENNA

“Na minha prédica, gosto de trocar as palavras. Em vez de dizer ‘você pecou’, digo ‘você aprontou’”. A afirmativa de José Luiz Goldfarb adianta a leveza e o bom-humor que são sua marca, ao tratar as questões da vida – incluindo as religiosas. “Se alguém pensa diferente de mim, não sei se é pior ou melhor do que eu. É só diferente”, costuma dizer. Físico formado pela USP, com especialização em história da ciência e professor dessa disciplina na PUC-SP, ele se acostumou durante anos a confrontar a ciência, questionando a ideia de verdades absolutas, porque “elas podem mudar, de época para época, de pessoa para pessoa”. E é com visão igualmente liberal que encara o judaísmo. Sócio do clube Hebraica, de São Paulo, desde sempre, há 18 anos passou a ser diretor geral de cultura da instituição, onde também lidera o serviço religioso semanal e atende à comunidade em todo o ciclo da vida, do nascimento à morte, apesar de não ser rabino. Em relação a quem apronta, Zé — como se refere a si mesmo — explica que, de acordo com a visão judaica, há consequências sérias. A pessoa se dará mal, mas não pelo sistema causa e efeito, do tipo “Deus vai fazer você pagar”. “Para mim, a vida é que vai fazer isso, se alguém balançou a água, vai ter uma região turbulenta”, ensina, completando: “Da hora em que alguém escova os dentes, de manhã, até escovar de novo, à noite, tudo o que faz implica sua vida”. Apaixonado por livros, fundador de bibliotecas pelo Estado de São Paulo e curador do Prêmio Jabuti desde 1991, é para a Torah que José Luiz se volta espiritualmente. Apesar dos 613 mandamentos, entre positivos e negativos listados nos cinco livros de Moisés, ele escolheu não colocar o pecado no foco de seus estudos do texto sagrado ou de suas preleções. Mais do que temer e obedecer, a máxima de José Luiz é refletir, antes de obedecer. “Liberdade aliada à compreensão gera uma vida legal”, resume. por Sabrina Abreu ,46

José Luiz Goldfarb, judeu


BRUNO SENNA

Armando Hussein Salleh, muçulmano

No árabe, a palavra similar à “pecado” é “haram”. “Traduzindo para o português, haram significa o que é ilícito, proibido”, explica xeique Armando Hussein Salleh, filho de libaneses e membro do Conselho Superior da Mesquita Brasil, a mais antiga da América Latina, localizada em São Paulo. Para ele, o conceito do que é pecar, segundo a visão islâmica, está sempre na ponta da língua: “Não se pode fazer nada daquilo que o profeta, sendo inspirado por Deus, alertou que evitássemos”, sentencia. Para um muçulmano, Alá é o único Deus e Maomé seu (último) profeta. Essas palavras são sempre repetidas e podem ser facilmente encontradas em mesquitas ou em países que seguem majoritariamente a fé islâmica, pintadas em muros, nas ruas. Foi o Profeta Mouhamed, como é conhecido no idioma original, o responsável por revelar a definitiva vontade divina aos homens. “Nada pode mudar o que foi escrito”, afirma. Pode ocorrer, no entanto, de o cumprimento de uma lei se tornar muito difícil nos dias atuais e, por isso, prescrever. “A pena por apedrejamento imputada a uma adúltera é legítima, de acordo com o Corão. Mas é preciso que três testemunhas vejam o ato ocorrendo. A punição acabou por ser banida, pela dificuldade de comprová-la”, pontua o xeique, que se esforça para cumprir todos os mandamentos, por exemplo, rezando cinco vezes por dia, todos os dias, ajoelhado na direção da sagrada cidade de Meca. [SA] ,47


CARLOS HAUCK

Nascido em família católica e educado na fé cristã, Felipe Magalhães Francisco, de 20 anos, desde criança se envolve em atividades de igreja. Hoje, ele está no segundo ano do curso de teologia e ministra o curso de Bíblia na Paróquia Santa Maria de Nazaré, no Bairro Vista do Sol, onde mora. Felipe quer desenvolver, se aprofundar no estudo religioso e seguir o caminho da docência. Segundo o estudante, do ponto de vista bíblico, pecado seria um corte na relação entre Deus e o ser humano, ocorrendo uma negação da humanidade do indivíduo. Para ele, a Igreja Católica não quer punir ou castigar o pecador. “A misericórdia de Deus e de Jesus Cristo é infinita. A Igreja busca recolocar o pecador no seio da comunidade”, diz, acrescentando que “faz parte do processo de perdão a prática cotidiana da conversão, que inclui a tomada de consciência da ação pecaminosa, arrependimento e mudança de postura”. Felipe também acredita que o uso da camisinha e o sexo antes do casamento, assuntos polêmicos para a Igreja Católica, devem ser tratados do ponto de vista da ética do cuidado. “Ver a sexualidade como fonte de vida e não só como necessidade fisiológica, que não está descartada, mas vai além.” Felipe, para quem só Jesus não pecou, diz que é fundamental buscar um sentido na ação e suas possíveis consequências. De acordo com o estudante, o pecado ultrapassa essa ou aquela religião: “Mais do que uma questão religiosa, é uma questão moral”, pontua. por Bruno Mateus ,48

Felipe Magalhães Francisco, católico


BRUNO SENNA

Thiago Luiz Ferreira Miranda, umbandista

Na umbanda há 16 anos, o filósofo e professor Thiago Luiz Ferreira Miranda, de 30, encontrou nos cantos da capoeira o início da sua trajetória na religião afrobrasileira. “Comecei a buscar, pesquisar e estudar muito”, lembra. Thiago desenvolveu sua mediunidade e, há quatro anos, é pai pequeno — um estágio anterior ao pai de santo — no Centro Espírita São Sebastião, que pratica a umbanda tradicional, mais próxima ao espiritismo, e foi o primeiro centro a ser registrado em Belo Horizonte, em 1933. Thiago é cuidadoso ao falar de pecado na sua religião. Por ser uma doutrina descentralizada, que não tem uma figura cuja palavra seja a final, ele explica que há várias formas de percepção e pontos de vista em relação ao pecado. “Esta é minha opinião, não um discurso consensual da religião. A umbanda não trabalha a noção de pecado, de crime contra um dogma”, diz. Segundo o filósofo, a ideia de pecado, “de Deus moral me olhando o tempo inteiro”, começou a perder peso em sua vida quando tomou conhecimento da multiplicidade de culturas e linhas de pensamentos e questionou alguns conceitos religiosos como forma de imposição política e cultural. “Essas coisas machucaram minha cabeça durante muito tempo. Em alguns momentos ainda penso: ‘Será que estou pecando?’. Hoje me dói menos, mas o processo é difícil, doloroso”, confessa. [BM] ,49


QUEM É fotos Ana Slika, Carlos Hauck e Romerson Araújo

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PECADO

BOTA BOTA, MEU AMOR

Retrospectiva das campanhas pró-uso da camisinha, a partir dos anos 1990. Foi nessa década que o discurso preconceituoso e fatalista foi substituído pelo bom humor. Com êxito por Diego Suriadakis ilustração Bruno Dellani Falar sobre a camisinha é chover no molhado, lugarcomum. Você está vivo, você não é bobo, você sabe, tem que usar. Mas que faça o exame (de consciência, primeiramente) aquele que já se esqueceu dela em alguma hora. Em 1977, morreu uma pesquisadora dinamarquesa que havia estado na África vítima de uma doença que lhe proporcionara sintomas incomuns para seus 47 anos. Mas foi só em 1981 que descreveu-se pela primeira vez a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, contudo, sem nomeá-la cientificamente. Estados Unidos, Haiti e alguns países da África Central já haviam registrado casos da estranha doença. O primeiro caso brasileiro foi classificado em 1982. Foi um alvoroço: o sexo livre, herança das lutas pelos direitos individuais dos anos 1960 e 1970, corria novo risco de encaretar? Como a doença era transmitida? Vírus? Bactérias?

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1997

1999 2000

IMAGENS: MINISTÉRIO DA SAÚDE/DIVULGAÇÃO

1998

2001 Pouco ou nada se sabia sobre a inicialmente chamada “Doença dos 5 H”, representando os homossexuais, hemofílicos, haitianos, heroinômanos (usuários de heroína injetável) e hookers (nome em inglês dado às profissionais do sexo), o primeiro grupo considerado de risco. As primeiras descobertas e notificações a respeito da doença aconteciam em paralelo às primeiras formas de preconceito. Só em 1985 a designação “grupo de risco” foi substituída por “comportamento de risco”. Um ano depois, foi criado o Programa Nacional de DST e Aids e surgiu a primeira campanha brasileira para uso do preservativo. O discurso era fatalista e a mensagem era imperativa: ,31


2002

HEBERT DE SOUZA CLAMOU POR UM DISCURSO MAIS HUMANO. SÂO DELE AS FRASES COMO: “AIDS NÃO É MORTAL. MORTAIS SOMOS TODOS NÓS”

Aids é morte certa. O sociólogo Herbert de Souza entrou em cena nessa época e por meio de iniciativas sociais diversas clamou por um discurso mais humano. São dele frases como: “A Aids não é mortal. Mortais somos todos nós”. Na década de 1990, o humor passou a substituir, gradualmente, o ideário pessimista das campanhas anteriores. Na transição para os anos 2000, com a crescente conscientização da sociedade e seus atores, as campanhas iam adotando um tom mais natural, próximo dos cidadãos. A associação do preservativo com a de um comportamento sexual promíscuo ou desviante ainda resiste. O quiproquó ainda gera um climão entre a Igreja Católica e instituições públicas de saúde. E isso não acontece só no Brasil. Não entraremos nos méritos da fé. Como informação é prevenção, vamos a uma cronologia das campanhas do Ministério da Saúde brasileiro, que vêm as ruas anualmente, no carnaval e no Dia Mundial de Luta Contra a Aids, comemorado em 1° de dezembro.

2003

2004


IMAGENS: MINISTÉRIO DA SAÚDE/DIVULGAÇÃO

2005 2006

2007

2008

2009

2010

2011


ON THE ROAD ,barcelona

Barcelona ĂŠ o primeiro dos prazeres texto e fotos Bernardo Biagioni

A poesia e um poeta nas ruas de GaudĂ­. E todas as outras noites atravessadas


Oscar Wilde. Assim, em letras sibiladas e o L dobrou bem no alto a língua do poeta de rua que acabou de entrar na conversa. A ilusão é o primeiro dos prazeres, meu amigo. Estamos, pois, abençoados pela fachada ilusionista da Sagrada Família, que cresce impune por cima de uma dúzia de prédios de cinco andares que se enfileiram em azulejos coloridos pela rua escura e vazia. Hernandes parou aqui porque sentiu que podia encontrar inspiração para o seu penar. Barcelona está criando ódio, ele diz. Corre os dedos pelo cabelo que escorre até os ombros, e ajeita os pés na calçada recortada em flores minuciosamente desenhadas. Quase cai. Sevilha e Madri também. Repressão e preconceito. Dor e medo. Nem a polícia nem a cidade estão sabendo respeitar o sinal dos tempos. Sinal das mudanças e das andanças mundanas. De identidade e de moral. Crise social e econômica. Catalão nato e, bem, mais Dalí do que Gaudí, dá para ver o medo franzindo seu rosto enquanto desenha uma frase e outra em um espanhol forte e carregado. Hernandez mora dois quarteirões pra cima, duas ruas para dentro, desde 1983, quando abriu os olhos pela primeira vez, enxergando alardeado um hospital de arquitetura catalã colorida e ondulada. Na semana passada, ele apanhou de dois neonazistas aqui na porta deste albergue enquanto voltava para casa. Confundiram-no com um estrangeiro. Ou com um veado. Barcelona mudou, e isto é um fato para qualquer cidade que amanheça, todos os dias, de uma maneira diferente. Os azuis e branco, laranjas e vermelhos de violeta de Gaudí, espalhados em construções inebriantes e entorpecentes, estão derretendo dos prédios e criando uma poça enlamentada de pluralismo e desassossego. Uma explosão de dúvidas e anseios que recebem turistas que chegam hoje, vão embora amanhã, e que estão prontos para qualquer coisa que lhes for sugerida. E quase sempre é oferecido Perigo. Segunda, terça, quarta-feira, e os bares e quebradas estão sempre todos abertos e receptivos, garçonetes espanholas trabalhando seminuas, os melhores skatistas do mundo repartindo garrafas de vodka quentes e baratas, baladas à beira mar que não se paga entrada, reggae, house e minimal atravessando os glóbulos brancos

Sacrada Família: Ilusionismo que ecantou Hernandez

que regozijam sob os efeitos de MD, a droga desta década. Nas ruas pela manhã existe toda uma proliferação de extensões perfeitas de uma Scarlett Johansson bonita e requintada, incontáveis personagens falhos de Woody Allen em busca de diversão e de arte, de traços e de descompassos, de um amor de verão que apague toda a realidade que existe no mundo. A sensação é que o amor da minha vida está aqui, e agora, em cada esquina que cruzo. Porque Barcelona não parou no tempo, como às vezes convém imaginar. Ficou mais rápida e impiedosa, mais indecorosa e colorida. Todos os pecados são permitidos entre as ruelas estreitas que cortam a Rambla, o Centro de Arte Contemporânea, a primeira esquerda que vai descer até as primeiras palmeiras do Bairro Barceloneta. E qualquer problema a gente coloca na conta do mar. Em Barcelona vive uma vontade irreparável de largar tudo e ficar. E é difícil resistir a esse desafio ouvindo a brisa soprando de mansinho para cima do Parc Guell que acabou de acordar, com os pássaros saindo de casa,


ON THE ROAD ,barcelona

Tudo é música, possibilidades e pintura. A vida se converte em arte em uma caminhada simples e fulgás, cortar o bairro gótico, descer a Rambla com uma toalha nas costas, para estirar na areia e ficar esperando o sol vir

É ao ar livre que a cidade faz sentido

as primeiras turistas do dia fotografando as escadas, as ondas e o horizonte quebrando em azul lá no fundo, se misturando nas notas e compassos de uma banda que começa a afinar seus instrumentos. Tudo é música, possibilidades e pintura. A vida se converte em arte em uma caminhada simples e fulgás, cortar o bairro gótico, sentar na calçada da casa Batllò, reformada por Gaudí, descer a Rambla com os lábios soltando fumaça e uma toalha nas costas, para estirar na areia e ficar ali, calmo e sereno, esperando o sol vir beijar as almas que caminham em sossego. O poeta mais mente do que fala. Hernandez desaparece na esquina como um sopro, como um vulto que veio no vento. Ódio e medo, ele disse, e repetiu tantas vezes. Mas hoje ele dorme tranquilo. Os anseios alinhados em ordem e os cometas colidindo. É que no fundo ele sabe — e sente: doa o que doer, na semana que vem eu ainda quero estar aqui, em Barcelona. E eu também. É claro.


Nテグ DEIXE A ROTINA TE ABDUZIR.


Ragga modelo Michelle Capriss fotos Carlos Hauck

ELA NÃO ESTÁ MAIS LÁ por Diego Suriadakis

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Um hotel, algum hotel. No meio de tudo. No Centro de todos. O Hotel. Nas ruas, o trânsito do mundo, nas faixas os pedestres, destinos, certos, quem olharia pra cima? Quem sairia de si? O sol queimando o dia útil, ela saiu, e subiu. A primeira pele a despir quase caía ali mesmo, no corredor, tamanho o seu encanto, afim. Um lance. Da escada via o relógio andar: ela parada, estática. Começou a gostar. E gostou. Gostou de brincar: com o rapaz, sua câmera e seu mirar.

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Ele lhe pedindo pra voar: voou sobre o chão, sobre a cama, nua de todas as peles. O que teria ficado para trás? Outro endereço, outra manhã, outro café? Sim, o traço de seu corpo. Desenhos no tecido branco, o vento de seu passar balançando janelas, portas e ela saiu pela sacada. Em prédios vizinhos, olhares no ar, a luz deitada por cada canto do quarto, e nem mais uma mulher interia por se entregar. Para ele, para eles, para elas. Suave, intenso, seu verso, seu romance, e passou. Ela não está mais lá.

FOTOS Carlos Hauck BELEZA Silvinho Almeida MODELO Michelle Capriss ,64


DIVULGAÇÃO

CULTURA


AO SOM DO REGGAE

Natiruts será a atração musical do Ragga Summer Fashion, em novembro por Izabela Linke

< Serviço > O que Ragga Summer Fashion Moda, música e arte Quando 5/11 Onde Mix Garden Quanto Feminino: R$ 60 Masculino: R$ 70 + Info raggasummerfashion.com.br

São 15 anos de estrada, sete discos lançados, um DVD e muitas mudanças no currículo. Sob a liderança do frontman Alexandre Carlo, o Natiruts é uma das bandas que podem ganhar um atestado de sucesso no Brasil. Nascida em Brasília como uma reunião de amigos que só queriam fazer um som, a banda sempre teve sua raiz muito bem firmada no reggae, mas a influência da música brasileira também se fez nítida na sonoridade do grupo. O novo trabalho do Natiruts, Raçaman, foi lançado em 2009 por um selo independente. A terceira faixa do álbum, Groove bom, ganhou um clipe todo filmado em Cabo Verde, na África, que foi lançado em agosto deste ano. E quem estava com saudade do reggae do Natiruts pode se preparar: eles já estão com data marcada para tocar em Belo Horizonte e com nova formação (Alexandre Carlo, Luís Maurício Ribeiro, Mônica Agena, Bruno Wambier, Adenilton Conceição e Rodrigo Prado). Em novembro, a Ragga trará o Natiruts para embalar a festa Ragga Summer Fashion, que promete uma noite de moda, arte e muita música boa.


STOCK.XCHNG

PECADO

Eu queria lhe falar por Guilherme Ávila

A confissão, antigo sacramento católico, numa atualíssima versão on-line

Todos nós sabemos que a confissão faz bem para a alma, Sigmund Freud, com seu método de “cura pela fala” não nos deixa mentir. Hoje, ao que parece, o antigo sacramento da Igreja Católica também é bom para aumentar os acessos de alguns sites. Nos últimos anos um número ainda tímido de páginas da web surgiu para oferecer aos seus visitantes a oportunidade de desabafar anonimamente sobre seus erros mais profundos. Além de ler e comentar, em alguns casos é possível curtir e até mesmo compartilhar os segredos das outras pessoas. Apesar da presença inevitável de exibicionistas e voyeurs, as confissões on-line têm um apelo menos intimidador que os tradicionais confessionários barrocos. Na internet, a identidade dos penitentes está escondida por políticas de privacidade que prometem não usar cookies ou recolher quaisquer outros dados sigilosos de seus usuários. No Confessar.com.br, por exemplo, existem regras para as confissões e moderação dos comentários publicados em qualquer uma das 32 categorias de pecados só para evitar mensagens ofensivas, mentiras óbvias, informações comprometedoras e propagandas oportunistas. O site, inclusive, ainda organiza um ranking com os dez pecados mais populares. Na ,68

primeira semana de outubro, os três primeiros lugares eram: medo de confessar; sair com uma prostituta e roubar. As páginas americanas Absolution-online e Dribbleglass. com são mais práticas. Ambas oferecem opções em múltipla escolha para os visitantes. A absolvição depende da gravidade do pecado – venial ou mortal – e os algoritmos são encarregados de calcular quantas orações são necessárias para aliviar a consciência do pecador. Satirizando os segredos sem dono na rede, o coletivo artístico do PostSecret.com oferece uma proposta mais bem humorada para confessar por meio de fotos e imagens estilizadas. O sucesso desse projeto acabou rendendo um novo aplicativo para iPhone que, além de postar segredos, permite buscar pelos pecados que estão na moda e sua localização no mapa. Longe de serem um novo meio de interrogatório ou algum tipo de tortura religiosa para espionar a vida das pessoas, as confissões on-line asseguram aos seus confessores que eles não estão sozinhos em sua miséria ou estranheza. Isso, somado às outras comodidades da vida virtual, pode ser um importante passo para se reconhecer e começar a enfrentar as coisas que de outra forma não seriam ditas a mais ninguém.


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CONSUMO

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“O tempo está louco”, diria minha avó. Depois de longa estiagem, a previsão de tempestade e trovoadas até o fim do ano pode se concretizar. Ou não. De qualquer jeito, caso seja verdadeira, você vai querer andar o mais protegido(a) possível pelas ruas da cidade. Ou, melhor, nem ir à rua e ficar sequinho(a) dentro de casa. Para as duas opções, não faltam dicas boas. E é bom lembrar: depois de meses de estiagem e tempo seco, não vale reclamar da chuva. Deixa ela vir.

FOTOS: DIVULGAÇÃO

chuva

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CARLOS HAUCK

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1. < À prova de poças > Nada mais sem classe do que passar a manhã inteira com as barras da calça molhadas. Para evitar o estilo degradê-úmido que a chuva empresta ao visual, só com um belo par de galochas. Este é da My Shoes. A sombrinha Olha o arco-íris da Imaginarium também ajuda no desafio de manter a roupa — e sua cabeça — seca. Galocha, R$ 179 myshoes.com.br Sombrinha, R$ 79 imaginarium.com.br

5 3. < Para folhear > Se for para ficar em casa, ler é prazer certo. Aquele livro novo ou a revista preferida. Para dicas sobre bons títulos, consulte a seção Livrarada (página 74). Para organizar a coleção com todos os números da Ragga, o revisteiro em aço inoxidável da Tok&Stok é boa pedida. R$ 153 tokstok.com.br

2. < Protegido > Esse negócio de andar embaixo de chuva, no centro da cidade, é muito bonito em filme. Mas, no mundo real, ninguém quer dividir o elevador com uma pessoa toda molhada. Vai por mim: use uma capa de chuva. Esta, da Maria Pumar, tem inspiração toyart. E o Anoraq impermeabiliza no ambiente urbano ou na natureza. Capa de chuva, R$ 117 à venda na goodmoodstore.com.br Anorak, R$ 229 da Trilhas e Quilhas: (31) 3264 0201

4. < Para refrescar > Está chovendo, mas não está frio. Se o trânsito piora com os primeiros pingos d’água, se a cidade ensopada dá preguiça de sair de casa, vale fazer um social na sala de TV, mesmo. Champanhe já é boa companhia, mas não custa convidar os amigos (vai que um deles anima a encarar o tráfego). A champanheira da Imaginarium mantém a temperatura da bebida no ponto. E os adesivos de taça são para o caso de a noite chuvosa se transformar em festinha. Identificadores de taça: R$ 38 osegredodovitorio.com.br Champanheira: R$ 410 imaginarium.com.br

5. < Cantando no chuveiro > Para encarnar o Fred Astaire todo dia, antes de sair do trabalho, esta cortina para chuveiro, do Segredo do Vitório, é o ideal. R$ 138 osegredodovitorio.com.br

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COLUNA

,frente digital: o programa dos artistas independentes

#FALANAFRENTE

WÉBER PÁDUA

Falando com o Frente, o músico Leonardo Felizardo, baterista e produtor da banda mineira Vitrolas, que lança Liberdade, seu terceiro disco.

< HENRIQUE PORTUGAL >

produtor e tecladista da banda Skank twitter.com/ programafrente

Com 10 anos de banda, qual o principal paralelo de hoje e da época em que começaram? O principal paralelo é a facilidade de se comunicar nos dias de hoje, graças às redes sociais, internet. E tem também a facilidade de produzir um material de áudio e vídeo de boa qualidade. Há 10 anos, isso seria bem complicado. E hoje existem mais festivais, além de uma organização maior da cena independente. Vocês tiveram uma temporada em São Paulo, depois voltaram para BH. Como foi a temporada paulistana e o que os levou a voltar? Em São Paulo, tivemos a chance de estudar [música], nos aperfeiçoar. Essa época foi a desencadeadora do Liberdade. A cidade nos possibilitou turnês para o sul mensalmente. Volta-

Liberdade é um disco conceitual, triplo. Como foi a decisão de lançá-lo dessa forma, em um momento em que as vendas de CDs continuam em queda? A obra foi pensada para ter três momentos: início, meio e fim. Um disco completa o outro. A decisão de lançar esse material triplo foi até a consequência da não preocupação se o CD vai vender ou não. Lançamos no nosso site também. Tem sido positiva essa forma como o lançamos [digital e física]. E quem quiser comprar o CD vai comprar. Quem não quiser, poderá baixá-lo. O que importa é a nossa cara, que está lá para ser mostrada.

DICAS DE CDS

QUAL É A DA MÚSICA

Artista: Vanguart Disco: Boa parte de mim vai embora

Música: Passo a passo Composição: Raphael Mancini Banda: Felter Disco: Passo a passo

Selo: Deck Disc

Artista: China Disco: Moto contínuo Selo: Independente

DICA DE LIVRO Pornopopéia Autor: Reinaldo Moraes Editora: Objetiva 480 páginas

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O disco foi gravado de forma independente. Ele sai por algum selo? Produzimos de forma totalmente independente. Ele está sendo lançado dessa forma também. Mas estamos abertos a parceiros. Não temos porta fechada com o assunto.

fale com ele: contato@frentedigital.com.br

Todas as letras do disco foram feitas através de alguma observação que fiz ou sobre alguma situação que vivenciei. Nenhuma ficção foi criada, são letras pessoais de muito valor para mim. Passo a passo segue a linha das situações vivenciadas naquele período. Fala sobre tentativa e erro, sobre você ir atrás do que planejou lutando contra todos os empecilhos do caminho. Quando o objetivo é atingido você acaba indo atrás de coisas novas, fazendo o ciclo se repetir. Uma frase clara que poderia representar a ideia da música: “Tudo concretizou, mas ainda não satisfez o que desejei”.

Meu primeiro passo estava em mim eu só segui Enxergo adiante E o segundo passo planejei e não falhei Tudo concretizou mas ainda não satisfez o que desejei É como um sino tocar mas sem soar Vejo partir um sonho bom que fica na memória Nossa busca é ilimitada em duração Tente entender Que os meus valores caem em cima de nós Tudo concretizou mas ainda não satisfez o que desejei É como um sino tocar mas sem soar Vejo partir um sonho bom que fica na memória É como falar sem ter ninguém pra escutar Parece então que meu limite alcancei Sei que vamos fazer tudo valer a pena Vamos acender a chama e sair da escuridão Vamos sair da escuridão RAPHAEL MANCINI

DIVULGAÇÃO

mos para BH decididos a gravar esse disco, alugar uma casa, fazer nela um estúdio, e produzir tudo calmamente. Como começar tudo de novo.


COLUNA

A MÚSICA E O TEMA CALIFORNICATION por Kiko Ferreira

EMIR PENNA/DIVULGAÇÃO

A&E/DIVULGAÇÃO

Enquanto Madonna usou símbolos católicos em um clipe e desagradou à igreja, Zélia Duncan cantou “a alegria do pecado toma conta de mim”

O escritor português José Saramago, numa de suas passagens pelo Brasil, reafirmou sua descrença no divino: “Inventamos Deus porque precisamos dele, num certo momento”, considerando que as noções de céu e inferno, bem e mal, Deus e Diabo, estão no cérebro. “Sobretudo inventamos essa coisa absolutamente diabólica que é o pecado. Quando a igreja inventou o pecado, inventou um instrumento de controle. Não tanto das almas (...), um instrumento de controle dos corpos. Aquilo que perturba a igreja é o corpo. O corpo com sua liberdade, o corpo com seu apetite. O corpo com suas ansiedades”, continuou o gajo. Quando se fala de pecado e música, a principal questão que aparece em nove entre 10 sites cristãos que tratam do assunto é: “O cristão pode ouvir música que não seja cristã?”. Uma das respostas está num ensaio com título curioso: “MCC: uma joia de ouro em focinho de porco torna um porco bonito?”. A sigla em questão é da Música Cristã Contemporânea. A expressão usada para batizar o arrazoado de motivos vem de um provérbio, que diz: “Como uma joia de ouro em focinho de porco, assim é a mulher formosa que não tem discrição”. O artigo está no solascripturas-tt.org e começa criticando os autores de músicas religiosas que usam a batida do rock como base. “Essa batida nasceu nos prostíbulos do século 19. Os músicos que a criaram dizem que, primeiro, começaram a usá-la com o propósito de ter os homens prontos para as prostitutas. A música (a batida) se disseminou com o propósito da fornicação.” Talvez seja por isso que Raul Seixas afirmou que “o Diabo é o pai do rock” e que a luxúria seja o pecado mais usado na música popular de todos os tempos. Seja na morena que tem a cor do pecado, no samba que poderia ser pecado porque levava ao Carnaval (e portanto, aos prazeres da carne) ou no tribalista que queria colocar a mulher num altar, fora do alcance dos outros homens. Se os Pet Shop Boys radicalizam em It´s a sin (“é um pecado tudo que sempre fiz”) e Ca-

etano Veloso, em Pecado original, afirma que “todo corpo em movimento está cheio de inferno e céu”, o ídolo teen Luan Santana é mais explícito: “amar não é pecado/ e se eu estiver errado, que se dane o mundo”. Talvez por isso o pastor que renega os ritmos diabólicos para tratar as coisas divinas deteste tanto o blues, que seria música para fornicação tocada em tom mais baixo, para não perturbar a ordem, e o jazz, com uma afirmação categórica: “o jazz (e sua filha, o rock) é o espírito do pecado pintado na música”. Faltou dizer que a maioria dos cantores negros americanos veio da soul music (música da alma, literalmente) e usaram seus poderes vocais para criar uma das mais sensuais manifestações da arte popular do século 20. Se lembrarmos que, nos anos 1980, quando o Kiss veio a Belo Horizonte, alguns fiéis tentaram proibir a apresentação da música demoníaca dos caras pintadas, assim como chegaram a hostilizar os Secos & Molhados e Ney Matogrosso, o mundo parece excessivamente pernicioso de lá pra cá. Madonna mais agradou que criou problemas com Like a prayer e seu uso pouco bento dos símbolos da igreja; uma banda batizada de Judas Priest hoje trafega tranquilamente pelas ruas da capital mineira e grupos como Ira! e Dr. Sin possuem fãs enraizados na Tradicional Família Mineira. Numa rápida pesquisa pelas páginas da internet, duas questões musicais parecem cruciais: seria pecado baixar música gospel sem pagar direitos autorais? E reduzir os tempos das músicas, para eliminar solos longos, seria garantia de lugar no inferno dos desrespeitadores de direitos alheios? Na fritada das almas, Zélia Duncan é quem parece ter traduzido com facilidade a sensação de que pecar é coisa de ser humano comum, como eu e você. Diz ela em Carne e osso, uma de suas músicas recentes: “alegria do pecado às vezes toma conta de mim/ e é tão bom não ser divina/ me cobrir de humanidade me fascina/ me aproxima do céu”.

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livra RADA

Estados Unidos: viagens, Sabrina Abreu (Leitura)

“Tenho um espírito de viajante. Por isso, escrevo livros de viagem, não guias.” É assim que a jornalista e escritora Sabrina Abreu define o sentimento que tem com os lugares os quais visita e transporta para as páginas de seu mais recente livro: Estados Unidos: viagens, lançado este mês pela Editora Leitura. Nas suas andanças por Nova York, Miami e Los Angeles, Sabrina, que também é autora de Meu Israel – viagem ao país onde o céu e a Terra se encontram (de 2009), apresenta um olhar de cronista para traduzir a rotina dessas cidades americanas e de quem ali vive. Tudo isso sem pressa, livre às surpresas, desencontros e belezas que uma viagem proporciona. Entrevistas com pessoas que têm uma íntima relação com o país, como o brasileiro Vik Muniz, a chinesa Chai Ling, ativista duas vezes indicada ao Nobel da Paz, e o colunista de viagens Seth Kugel, do The New York Times, também recheiam o livro. Estados Unidos: viagens é, sobretudo, um livro para quem gosta de boas histórias.

por Bruno Mateus

Diários de bicicleta, David Byrne (Amarylis)

Israel em abril, Érico Veríssimo (Companhia das Letras)

De cima de sua bicicleta, David Byrne se perdeu e aprendeu a se localizar em Buenos Aires e Istambul. É sobre duas rodas que ele prefere se deslocar por Nova York, onde mora, ou por qualquer cidade que visite. Espécie de embaixador do estilo de vida biker, o ex-vocalista do Talking Heads debate o tema mundo afora, projetou bicicletários em calçadas nova-iorquinas e escreveu Diários de bicicleta, narrando as experiências de ciclista viajante. Para ler ao ar livre.

Érico Veríssimo escreveu quatro livros de viagem: dois sobre os EUA, um sobre o México e o último dedicado a Israel. Lançado em 1969, Israel em abril é uma mistura de entrevistas e impressões do autor sobre as cidades do país, seus desertos e a costa banhada pelo Mediterrâneo. Ele acreditava que a crianção dessa nação, em 1948, traria um tempo de paz ao mundo. Não foi o que ocorreu, mas as paisagens israelenses continuam valendo a viagem. E a leitura.

ana pedrosa / divulgação

imagens: DIVULGAÇÃO

VIAGEM

PRATA CASA

da

por Lucas Buzatti

RAM Olha isto: rrram.com myspace.com/bandaram Saia da garagem! Convença-nos de que vale a pena gastar papel e tinta com sua banda. Envie um e-mail para redacaoragga.mg@diariosassociados.com.br com fotos, músicas em MP3 e a sua história.

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Quatro anos e muitas composições depois, o Ram vive um momento simbólico. O acúmulo de material se deve ao diferente ritmo de trabalho do grupo. “Desde 2007, venho compondo músicas, gravando e testando-as em shows. Nunca paramos para compor um disco”, conta Geraldo Paim (vocal e guitarra), compositor e fundador do grupo. Dezenove faixas, porém, foram trabalhadas para dar corpo ao primeiro álbum, entitulado Orange orgio orbis, que sai este mês. Sempre autoral, o Ram

seguirá a proveitosa mistura entre o folk de Routine (que ganhou o primeiro vídeo da banda, uma singela animação), com o rock clássico de Sweet golden road, o segundo clipe. O vídeo, à lá Foo Fighters, exibe a história nonsense de um bizarro casal e conta com a atuação dos integrantes e muito bom humor. “A história mostra que muitas vezes achamos que estamos satisfeitos, mas na verdade estamos acomodados. Isso nos prende; ficamos sem saber se estamos mesmo felizes”, filosofa Paim.


PERFIL

BACANA Especialista na comunicação com jovens, Serginho Groisman não perde o ar descontraído, mesmo quando fala de suas preocupações com temas sérios: da descriminalização das drogas à luta contra o bullying, passando pela melhoria da educação. “Toda mudança passa pela educação”, acredita por Sabrina Abreu fotos Bruno Senna ,76

Na adolescência, durante os anos da ditadura militar no Brasil, Serginho Groisman estudava num colégio que, como muitos outros, tentava evitar a perigosa discussão política daquele período. “Lá, era como se nada estivesse acontecendo”, ele lembra. Mas isso não o impedia de ler nos jornais sobre a agitação da resistência e de comparecer, sozinho, às diferentes passeatas que tomavam São Paulo. Décadas mais tarde, fechar os olhos para o que acontece ao seu redor continua não sendo uma opção. Ano passado, depois de ouvir uma vítima de bullying no auditório de seu programa, Serginho decidiu fazer uma campanha contra a perseguição de jovens por colegas de escola e conseguiu colocar o assunto na agenda dos principais veículos de comunicação do país. Inconformado com os problemas que enxerga, ele deseja elevar o debate de temas relevantes. Já pensou em sensibilizar o governo para criar um projeto que conscientizasse os usuários de diferentes drogas sobre o perigo de cada substância. Tenta conciliar, na TV, o entretenimento típico do meio ao desafio de disseminar a educação. E reclama que “a discussão aqui é sempre religiosa”, citando a proibição ao aborto como exemplo. Apesar de atraído por questões sérias, o jornalista formado na Faap em 1977 consegue falar sobre elas num tom descontraído. Divertido, até. Tem a ver com os mais de 20 anos à frente de atrações voltadas para o público adolescente, começando com o TV mix, da TV Gazeta, na década de 1980, até chegar à Globo, onde apresenta, há dez anos o Altas horas — além do Globo cidadania e do Tempos de escola, no Canal Futura. Seu rosto e voz se tornaram conhecidos do público, durante os oito anos que esteve no Programa livre, do SBT, onde popularizou os bordão “fala, garoto” e a mania de responder à fala dos entrevistados com um “bacana” dito bem baixinho. Bacana é ele.


VOCÊ ACOMPANHA DE PERTO DIFERENTES GERAÇÕES DE JOVENS E ADOLESCENTES. É COMUM OUVIR AS PESSOAS DIZEREM QUE QUANDO ERAM JOVENS A SITUAÇÃO ERA MELHOR — MEUS CONTEMPORÂNEOS PENSAM “NA MINHA ÉPOCA TINHA NIRVANA, PLANET HEMP. E, AGORA, TEM ROCK COM MENINOS DE CALÇA COLORIDA”. É POSSÍVEL COMPARAR AS DIFERENTES GERAÇÕES QUE VOCÊ ACOMPANHOU?

ACHO QUE, em cada geração, surgem coisas que são classificadas como ruins e também boas. Se pegar qualquer uma que fale “ah, na minha época tinha Nirvana”, se a pessoa pensar, vai lembrar que tinha coisas que também não gostava, que achava que não era legal. Nos anos 1960, tinha a Jovem Guarda que era considerada uma coisa ruim, brega. Assim sempre foi. Se nos anos 1980 tinham as bandas de rock, também tinha aquela coisa dos cantores superpopulares. Acho que hoje o rock é que está sofrendo um pouco mais. Mas existem coisas bacanas, que estão acontecendo. Claro que as bandas coloridas ou sertanejos dominam a mídia e sempre vão existir. São coisas mais populares, mesmo. Isso só vai mudar quando a gente tiver um povo que tenha uma consciência crítica melhor e que consiga diferenciar aquilo que a gente acha que é bom daquilo que a gente acha que é ruim. ISSO PASSA PELA EDUCAÇÃO.

PASSA PELA EDUCAÇÃO FORMAL, mesmo, da escola. Acho que, na escola, pouco se conversa sobre música, sobre política. Incentiva-se pouco o aluno a ler. Acho que a leitura é o grande diferencial da educação, lê-se muito pouco no Brasil, muito pouco mesmo. EM TODAS AS CLASSES SOCIAIS, O QUE É AINDA MAIS ASSUSTADOR.

NÃO TEM A VER COM A IDADE, nem com a classe social. As pessoas leem pouco aqui. A primeira vez que fui para a Argentina fiquei muito assustado com o Brasil, porque todo mundo lá lê. Toda esquina tem uma livraria, é impressionante. São diferenças importantes. COMO A TELEVISÃO PODE AJUDAR A MUDAR ESSA SITUAÇÃO?

ACHO QUE A TELEVISÃO não pode ajudar muito. É muito vista, mas como entretenimento. Ela é muito colocada como instrumento do entretenimento no Brasil. Já fiquei meio maluco com esses pensamentos, porque, por um lado, sempre quis que a televisão fosse mais educativa. Mas a gente não pode esquecer que ela é o modo mais barato para as pessoas se divertirem — é só comprar um aparelho. A gente, que tem possibilidade de ir ao cinema, gastar um dinheiro no restaurante, não pode se esquecer que as pessoas que não têm dinheiro também querem se divertir um pouco, e fazem isso vendo TV. Minha grande batalha é misturar entretenimento com educação. De que maneira você pode fazer um programa que seja divertido, mas que dê alguns toques — só toques, porque a televisão é um veículo muito superficial. Ninguém pode achar que está bem informado vendo telejornal. A gente não pode deixar de ler o jornal. Não pode achar que vendo o telejornal está bem informado, está razoavelmente informado ou muito mal informado. E COMO VOCÊ SE INFORMA? TEM SÍNDROME

DA INFORMAÇÃO?

TENHO, fico ligado na internet o dia inteiro, no fim de semana leio revistas, toda manhã leio os jornais. Começo pela parte cultural, vou para a parte de esportes, depois política e internacional. NOS ESPORTES, SÓ SE IMPORTA COM O CORINTHIANS, OU TEM OUTRO INTERESSE?

PRIMEIRA COISA É O CORINTHIANS [risos], depois dou uma lida em tudo, porque gosto de me informar sobre futebol, sobre outros esportes. ME FALA DA SUA INFÂNCIA, COMO O COMUNICADOR SURGIU?

MEUS PAIS sempre respeitaram minhas escolhas, nunca disseram “você vai ser médico”. Por isso, fiz um ano de direito e larguei, fiz um ano de história e larguei, terminei jornalismo. Nunca interferiram em nada, nem mesmo na escolha do time — meu pai era são-paulino. Então, devo muito a eles por essa liberdade nas minhas escolhas. Graças a eles aprendi a gostar muito de cinema. Eles iam muito, adoravam música. O QUE OUVIAM?

MEU AVÔ OUVIA ÓPERA, meu pai música popular da época, anos 1950, 1960. Eu me alfabetizei com quadrinhos, meu pai era obrigado a trazer um ou dois quadrinhos todos os dias. E era um ambiente de casa, não de apartamento. Um bairro bem residencial, de ficar jogando bola na rua, na Barra Funda, no Bom Retiro. O BOM RETIRO DA ÉPOCA TINHA UMA COLÔNIA JUDAICA MUITO GRANDE, FICOU FAMOSO POR ISSO.

NÃO ERA BEM NO MEIO dessa colônia que eu morava, era mais na Barra Funda. Mas tenho lembranças de um Bom Retiro judeu, era lá que eu estudava. Ia a pé ou de ônibus e via as pessoas. Mas engraçado que não tinha tantos ortodoxos — que hoje estão no bairro de Higienópolis —, eram judeus vestidos normalmente misturados aos ortodoxos. Havia mais não-ortodoxos. Vivia esse ambiente misturado a um ambiente brasileiro total, não era um gueto. LI QUE VOCÊ FEZ DIREITINHO O KADISH [REZA QUE ACOMPANHA O RITUAL JUDAICO PARA O LUTO, QUE INCLUI NÃO TRABALHAR POR SETE DIAS, DEIXAR DE FAZER A BARBA, ENTRE OUTROS COSTUMES], TANTO DO SEU PAI QUANTO DA SUA MÃE. FOI POR FÉ, OU TRADIÇÃO?

NEM POR FÉ, nem por tradição. Foi por respeito a eles, sei que eles gostariam que fosse assim. Por isso cumpri tudo certinho. É bem forte e muito sofrido também. E bonito. NA ADOLESCÊNCIA, VOCÊ CHEGOU A ENTRAR NUM GRUPO DE RESISTÊNCIA À DITADURA. COMO FOI ISSO?

EU ESTUDAVA na escola Renascença, uma escola judaica, e lá era como se nada estivesse acontecendo. Lia pelos jornais que tinha passeata e ia sozinho. Numa das passeatas, encontrei um amigo que tinha estudado comigo no colégio, há muito tempo não o via. A gente corria da polícia, ficava num bar tomando umas e ele disse “estou na clandestinidade, você gostaria de entrar?”. Falei que gostaria, daí ele disse que, por questões de segurança, não seria com ele. Mas me deu um endereço. Cheguei lá, o cara foi logo falando que meu nome era Nelson, que ,77


não queria saber meu nome verdadeiro, por questão de segurança, e que a gente tinha que panfletar naquele primeiro dia já. Perguntei que organização era e ele disse que não podia falar. No outro dia, perguntei de novo — eu queria saber qual era, porque tinham umas 200 organizações do tipo, na época. E essa foi a minha passagem pela clandestinidade [risos]. O QUE ESTÁ ACHANDO DO BRASIL ATUALMENTE?

O PAÍS DEU UM SALTO econômico muito grande, mas ainda não deu o salto político. Nossas instituições são muito fracas, as instituições políticas são desacreditadas. Conheço pouquíssimos jovens que queiram participar da vida política, por descrédito, mesmo. Admiro muito as pessoas que ainda levam o movimento estudantil. Mas fico um pouco chateado pela ligação desses movimentos com os partidos, dá uma misturada total. Tanto é que vários ex-líderes do movimento estudantil, hoje, estão na vida política, alguns em partidos bons, outros não. Ainda vejo o jovem muito distante dessa liderança. NESTE ANO, HOUVE UMA SUCESSÃO DE PROTESTOS ENCABEÇADOS POR JOVENS. AGORA MESMO [FIM DE SETEMBRO], AS PESSOAS ESTÃO ACAMPANDO EM WALL STREET. POR QUE SERÁ QUE AQUI NÃO ACONTECE NADA PARECIDO? PROBLEMAS NÃO FALTAM.

ACHO QUE A RAZÃO É A SEGUINTE: existem movimentos específicos de mobilização. Na época do Collor, foi todo mundo para a rua. Na época das Diretas Já, foi todo mundo para a rua. Mas acaba isso e as lideranças estudantis são muito distantes dos jovens. Elas querem que os jovens saiam às ruas para protestar contra a inflação, contra a estatização ou a privatização. Querem que as pessoas se mobilizem por questões que não estão no dia a dia delas. Lembro que em todas as faculdades que fiz, fui parte dos movimentos estudantis. E, na Faap, uma faculdade particular, a gente conseguiu parar tudo, não por causa da política, mas da economia: o alto preço das mensalidades. Todo mundo parou, porque tinha a ver com uma coisa palpável, do dia a dia. Claro que a gente aproveitou e discutiu política. Mas, por não ter uma tradição politica no Brasil, é difícil as pessoas se engajarem. Acho que elas têm que ser estimuladas. A música é um elemento que deveria ser mais explorado pelos movimentos estudantis, realização de shows, trazer o jovem para a conversa. VOLTANDO À SUA CARREIRA, VOCÊ ESTREOU NA TV JÁ AOS 38 ANOS, QUE CAMINHO LEVOU A ISSO?

JÁ TINHA FEITO COISAS ESPORÁDICAS, mas comecei mesmo a ter meu programa, dirigir e apresentar aos 38 anos. Não foi graças à faculdade que entrei no jornalismo, porque a faculdade fiz pessimamente, em seis anos. Tanto é que minha turma se formou primeiro que eu. Depois, voltei lá para dar aula. Mas desde os 18 anos já estava procurando fazer alguma nota nos jornais impressos, no jornal O Dia, que acabou, consegui ficar uma semana lá. Depois comecei a cobrir férias na Folha de S.Paulo, umas três ou quatro vezes, na editoria ,78

MINHA GRANDE BATALHA É MISTURAR ENTRETENIMENTO COM EDUCAÇÃO de esportes. Depois passei para aquele esquema de jornalista que começa a escrever jornais de empresas, de construtoras. Depois comecei a fazer rádio. Fiquei oito anos na Band FM. Fui para a Rádio Cultura, onde nasceu o programa Matéria prima que é hoje o Alta horas. Ele tinha quatro horas por dia, com entrevista, música e tudo. Então, quis fazer televisão. POR QUE QUERIA FAZER TV?

PORQUE ACHAVA que tinha um jeito de comunicação fácil e que podia passar todas as coisas que eu achava que eram importantes para um público muito maior. Mas não queria largar a rádio — fui dirigir a Rádio Cultura AM, dirigi por seis meses, mas foi insuportável. Daí, me convidaram para fazer TV na Gazeta. Larguei todo esse cargo de direção para fazer TV. DA DIREÇÃO DE UMA RÁDIO PARA DIRIGIR UM PROGRAMA NUMA TV LOCAL, O SALÁRIO DEVE TER DIMINUÍDO. VOCÊ SE IMPORTOU COM ISSO?

O SALÁRIO ERA MUITO MENOR. Os caras da Cultura falavam “você está louco, largar um cargo de direção e não-sei-o quê, por quê?”. Porque eu quero. Dois anos depois, voltei para a TV Cultura, ganhando muito mais do que ganhava como diretor. Isso foi muito engraçado. Primeiro falaram para eu não ir, não queriam que eu fizesse televisão, depois me chamaram para voltar e fazer TV, ganhando mais do que um diretor. VOCÊ SEMPRE FOI CONVIDADO PARA IR PARA DIFERENTES CANAIS, SEM TER QUE PROCURAR NOVOS EMPREGOS. COMO FOI O CONVITE DO SILVIO SANTOS, ESPECIFICAMENTE? QUERO SABER, PORQUE O SILVIO SANTOS É UM MITO [RISOS].

FOI ASSIM: estava na TV Cultura e o Juba, que ainda trabalha comigo aqui, disse “olha, o Silvio Santos está na linha”. Não acreditei e deixei esperando. Depois de uma hora, porque o Juba insistiu, atendi e a secretária disse “o Silvio ficou esperando, mas agora foi tomar um lanche, aguarda um minuto”. Quando ele atendeu, parecia um recado de secretária eletrônica. Fui ao SBT muito mais para ver o Silvio do que para mudar de canal [risos]. Não queria deixar a TV Cultura, achava o SBT brega. Fiquei com ele lá um tempão. Ele achou que eu fosse aceitar na hora o convite, mas [a negociação] durou meses. Ele foi provando: pode trazer sua equipe,

Aos 61 anos, Serginho continua preferindo o público adolescente, porque ele é mais espontâneo: “A pessoa levanta e fala o que acha que deve falar, sem medo”


fazer seu cenário, dirigir com liberdade. Então, falei: “por que não? Já que muito mais gente vê.” Ele me deu oito anos de liberdade e mudou 45 vezes o horário do programa. NO SBT, SENTIU QUE ESTAVA FAMOSO? SUA VIDA MUDOU?

NÃO. Mais ou menos, porque na verdade eu não era uma das grandes atrações. O programa era à tarde. O SBT já tinha a Hebe, o Jô, a Gabi, o Aqui Agora, a Angélica. Mas mudou a vida. Ainda tenho uma vida relativamente normal, de ir em todos os lugares, quando quero ir ao cinema eu vou, mas muda a vida. As pessoas chamam, reconhecem, tiram foto. Hoje, todo mundo tem uma máquina fotográfica. Não muda pouco, muda bastante. Apesar de eu ser na minha e não gostar de ficar indo para Castelo de Caras, a televisão expõe. Eu me lembro da primeira pessoa que me veio pedir autógrafo, foi estranhíssimo, numa pizzaria. Gosto de lugar mais sossegado, não gosto muito dessa euforia da rua. ALGUM DOS PROGRAMAS QUE VOCÊ FAZ, ATUALMENTE, DÁ MAIS PRAZER DO QUE OS OUTROS?

COM O ALTAS HORAS, que dirijo e cuido da equipe e de tudo, tenho um envolvimento maior. O Tempos de escola também. No Globo cidadania, já não tenho esse envolvimento, mas ainda me dá muito prazer, tenho muita boa vontade em fazê-lo, adoro, ele tem a ver muito com o que penso.

E A CAMPANHA CONTRA O BULLYING, COMO SURGIU?

NASCEU AQUI, no começo do ano passado. Eu discutia um tema com a plateia a cada semana, sem especialistas. No dia que discutimos o bullying, teve um menino que levantou e comoveu todo mundo. Ele se chama Felipe, falou que não tinha amigo, que era perseguido. Ele estava com a escola que perseguia ele. Pedi para ele descer e falei: “Tenho que fazer alguma coisa”. Começaram a aparecer histórias cada vez mais pesadas para mostrar. Vi que precisava fazer uma campanha. Nós estamos falando das pessoas que morrem por causa disso, que se suicidam, que matam outra pessoa, ou que entram em depressão. Piada tem que ter. Sou contra essa coisa do politicamente correto, mas também sou contra a tragédia. QUE TIPO DE PESSOA ERA VOCÊ NO COLÉGIO?

SEMPRE FUI MUITO TÍMIDO e nunca fui um bom aluno. Não conseguia me concentrar, mas não era dos caras que aprontavam. Ficava ali no limite, sempre buscando as coisas que gostava de fazer. Se eu ia mal era porque não gostava da matéria. Odiava química, física e biologia. ONTEM, VOCÊ TUITOU SOBRE O FILME QUEBRANDO O TABU [DE FERNANDO GROSTEIN ANDRADE, SOBRE A INEFICÁCIA DA GUERRA ÀS DROGAS E FAVORÁVEL À DESCRIMINALIZAÇÃO]. QUAL É SUA OPINIÃO SOBRE O TEMA?

É UMA QUESTÃO COMPLICADA. Algumas coisas que o filme mostra eu vi. Por exemplo, fui à Amsterdã, na época em que tinha uma praça onde o uso de drogas era liberado. Eu ia até lá e via só gente sendo levada de ambulância e pensava “que graça tem isso?”. Nenhuma. Algumas experiências são interessantes, outras muito ousadas. O que não pode é colocar todas as drogas num mesmo nome. Há uns dez anos, eu tinha uma ideia de sensibilizar o governo a fazer uma campanha de orientação do dependente. Assim: “Se você fuma maconha, não dirija”, “se injeta heroína, cuidado, a dependência é muito grande”. Entender que a droga existe. Porque tem coisas no Brasil para as quais se fecha os olhos. Um milhão de mulheres abortam por ano, ninguém discute isso. Deixa como está, as pessoas preferem assim. Mas os problemas precisam ser discutidos. Em relação às drogas, elas são diferentes, os malefícios são diferentes, acho que é hora de ter uma discussão mais específica e menos religiosa a respeito. Porque a discussão é sempre religiosa. EM RELAÇÃO À MACONHA ESPECIFICAMENTE, VOCÊ É A FAVOR

O BRASIL DEU UM SALTO ECONÔMICO MUITO GRANDE, MAS AINDA NÃO DEU O SALTO POLÍTICO

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DA DESCRIMINALIZAÇÃO?

SOU. Mas, claro, quando falo isso, passa por uma série de coisas que ainda não temos: controle, fabricação, orientação ao usuário. Hoje, quem quer fumar fuma. Falar sobre legalizar é só falar de uma lei, porque se você quiser fumar, vai fumar. É quase uma discussão sem sentido. Já começou uma campanha assim “o usuário é o responsável pela existência da droga”. Isso é muito sério, as responsabilidades têm que ser divididas, não pode colocar o usuário como o vilão da história. É como colocar o dependente de cigarro como responsável pelo câncer que ele vai ter. Quando ele tem consciência, já é tarde demais. QUAIS SÃO SEUS LIVROS MAIS QUERIDOS?

SEMPRE LI MUITO, mas nunca fui apegado a um livro. Gosto muito dos livros brasileiros. Gosto muito dos livros do Machado de Assis, e que só vim a gostar depois que saí da escola. Machado de Assis não é para quando você é criança. Graciliano Ramos, pessoas que sabem contar uma história. E NAS SUAS INQUIETUDES, PENSANDO NAS COISAS QUE VOCÊ JÁ FEZ, FALTA ALGUMA COISA?

NA TELEVISÃO ainda tem muita coisa que posso fazer. Talvez dentro do programa porque cabe qualquer coisa. Ou fora dele, numa outra linha de entrevistas. Aqui entrevisto pouco, quem entrevista mais é a plateia. Tenho vontade de entrevistar melhor. O talk-show continua sendo uma vontade. QUEM SERIA O PRIMEIRO CONVIDADO DO SEU TALK-SHOW?

OLHA, tem um cara que eu sempre que convido se torna um problema, mas eu adoro. É o Lobão. Quando eu estava na TV Cultura, na primeira semana eu o convidei, era ao vivo, ele quase me fez ser mandado embora. Daí ele pediu desculpas e tal. Quando fui para o SBT, na primeira semana chamei o Lobão, foi a mesma coisa. Parece que é uma coisa meio doentia minha isso de querer apanhar sempre. E ele está no Tempos de escola, na próxima temporada. É incrível o que ele sobre a escola, é bem o Lobão.

Ele sai e não está pensando em voltar”. Tem viagens diferentes. Quando viajo a trabalho, nunca vou só. Gravo, apresento o Brazilian Day, curto o país, etc. Essas viagens a trabalho têm me feito conhecer os países de uma maneira que eu não iria conhecer como turista. No Japão, onde já fui cinco vezes, devo ter feito umas 25, 30 matérias diferentes em lugares que eu nunca entraria como turista — desde conhecer o campeão mundial de sumô até o Nobu [Matsuhisa], que é um chef de cozinha importante. Quando vou para diversos países, conheço mais o povo por causa das matérias. Adoro fazer isso. E quando não estou trabalhando, vou para não fazer nada, aí prefiro ir para um lugar calmo. VOCÊ É DE SÃO PAULO E NUNCA MOROU FORA DAQUI. COMO É SUA RELAÇÃO COM A CIDADE?

ADORO MORAR AQUI. Já vi lugares maravilhosos para morar, mas não me vejo vivendo em outro lugar, não consigo sair daqui. É uma armadilha. Gosto da cultura daqui, das pessoas, da mistura, driblo o trânsito, tento driblar a violência. Você aqui vive em função do tempo da cidade. São Paulo faz o seu tempo, ela que determina como você vive. Quando vou para outra cidade e fico muito tempo por lá, começo a sentir saudades daqui. COMO É O TEMA DA REVISTA DESTE MÊS, NÃO POSSO DEIXAR DE LHE PERGUNTAR: QUAL A SUA INTERPRETAÇÃO DE PECADO?

O PECADO está ligado a compromissos, à ética. Quando você rompe um compromisso, rompe no sentido ético, você está pecando sob um ponto de vista não tão religioso, mas entre pessoas. O pecado é quando você transgride, quando mente publicamente, deixa de fazer as coisas que você acredita para fazer outras, aí você comete um pecado. É muito individual.

O QUE FAZ UMA ENTREVISTA SER BOA?

A PRIMEIRA COISA é deixar o entrevistado falar. A segunda é você ser surpreendente na pergunta, e isso não significa você criar uma armadilha para as pessoas, que é uma coisa desagradável. E que você diga aquilo que as pessoas gostariam de saber. As pessoas me perguntam por que eu tenho plateia com essa idade. É exatamente por isso que você me perguntou. Essa é uma idade na qual a pessoa ainda não tem vínculos com editor, com o entrevistado, então a pessoa levanta e fala o que acha que deve falar porque não tem alguém que vá dizer, “pôxa, você não deveria ter falado isso”, que é o editor. Ou o entrevistado vá falar, “não vou dar entrevista pra você depois dessa”. Daí a vantagem de ter uma plateia que ainda não tem responsabilidades com a família, etc. Eu gostaria de ser como a plateia, mas o jornalista dificilmente é. VOCÊ JÁ FEZ MATÉRIAS DE VÁRIOS LUGARES DO MUNDO. QUE TIPO DE VIAJANTE VOCÊ É?

TEM UM FILME [The sheltering sky: o céu que nos protege] do [Bernardo] Bertolucci, que tem uma conversa, o ator é o John Malkovich: “Você sabe qual a diferença do turista e do viajante? É que o turista quando sai já pensa na volta e o viajante, não. ,80

AS DROGAS E SEUS MALEFÍCIOS SÃO DIFERENTES. É HORA DE TER UMA DISCUSSÃO MAIS ESPECÍFICA E MENOS RELIGIOSA A RESPEITO


CRÔNICO Elisa Mendes

Elisa Mendes estudou comunicação, letras, foi redatora publicitária, mas garante que ser fotógrafa é sua escolha definitiva. Todos os dias ela escreve no blog 365 nuncas. 365nuncas.wordpress.com

Pecados Contemporâneos Vaidade, gula, avareza, preguiça, ira, soberba e inveja foram escritos lá nos tempos do menino Jesus Cristo. Disso, já se passaram dois mil e onze anos e, certo: a gente continua cometendo os mesmos pecados. Sinais de que a humanidade é lenta, que mudar hábitos é mais difícil do que criar um foguete e pisar na Lua. Mas não satisfeitos em continuarmos pecando da mesma forma, arrumamos mais alguns pecados para cometer. Trabalhamos oito horas por dia, ou mais, cinco dias por semana, ou mais, 11 meses por ano, ou mais, muitas vezes sentados na frente de um computador, presos em escritórios, comendo em intervalos rápidos, muitas vezes sem nem ter tempo de entender o sabor da comida que está nos alimentando. Não seria isso um atentado à vida? Passamos horas descansando na frente de televisões, horas de lazer criando fazendas, aquários, cidades virtuais que ninguém no mundo vai me convencer de algo diferente: é impossível que isso esteja acrescentando ao ser humano. Ganhamos smartphones das empresas e esnobamos entre os amigos a agilidade com que podemos trabalhar mais, e mais, e mais e mais. Passamos horas nas filas de museus, parques e qualquer oportunidade de cultura e entretenimento porque todo

mundo trabalha, sai de casa, almoça e descansa nos mesmos horários. Um exemplar de nossa espécie considerado bemsucedido é o que ficou rico de dinheiro, que trabalhou muito por aquilo, que deixou de estar com os amigos, com a família, para chegar alto na escala social. “Não ter tempo” é chique. Se você tem tempo livre, tem alguma coisa errada. Não seria isso um atentado à vida? A arte, o grande medidor dos movimentos da sociedade, só confirma. Uma das obras mais valiosas no mundo contemporâneo (estou falando de milhões de doláres) trata-se de um tubarão de verdade que, antes era vivo, coitado, morto por um artista, minto, mandado matar por um artista (um dos mais valiosos do mundo contemporâneo) colocado em aquário de formol com o título: A impossibilidade física da morte na mente de alguém vivo. Oras, palmas para o título. Mas precisava mandar matar o tubarão? Não satisfeito, fazem parte da obra também vacas, ovelhas e por aí vai. Me diz, o que há de novo em animais no formol? Me diz, matar pode? Não seria isso um atentado à vida? Pecado, eu entendo, são os excessos. É comer mais do que se precisa, é querer ser melhor do que outro, é não dividir nada do que se tem. São esses conceitos de pecado que, há dois mil anos, tentam nos educar. Tentam nos acalmar, nos ensinar. Continuamos pecando pelo excesso: quando valorizamos demais uma obra de arte que sequer cria um movimento artístico, quando abusamos da tecnologia como se fosse ela o novo messias, quando trabalhamos demais, quando não temos tempo para nada. Não seria isso um atentado à vida? Ó. Ó que atentado à vida é pecado.

Passamos horas de lazer criando fazendas, aquários, cidades virtuais que ninguém no mundo vai me convencer de algo diferente: é impossível que isso esteja acrescentando ao ser humano ,82


Ragga #54 - Pecado  

revista ragga

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