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NÃO TEM PREÇO

REVISTA

#63

JUL 2012

UFC O MELHOR DA LUTA QUE FEZ A CIDADE TREMER

CRIANDO FALCÕES

Pequenópolis Como vivem os habitantes da menor cidade de Minas

Ainda existe espaço para aves de rapina em BH

REI DA CACHORRADA Mr. Catra fala sobre submissão ao homem, funk e futebol

“As mulheres têm que ser doutrinadas”


O

ESPÍRITO OLÍMPICO

NOITE Está definido seu circuito de corrida de rua para 2012

PATROCÍNIO

ORGANIZAÇÃO

RÁDIO OFICIAL

TV OFICIAL

APOIO

REALIZAÇÃO


SORTEIO DE BRINDES

PERCURSO

INÉDITO ETAPA AMÉRICA 11 DE AGOSTO

Percurso: 5km e 10km Local: Belo Horizonte Hora: 19h KIT

Camisa + Medalha + Toalha personalizada.

WWW.RAGGANIGHTRUN.COM.BR Mais informações consulte o regularmento no site do evento.


APRESENTA

A Secretaria de Estado de Esportes e da Juventude – por meio da Subsecretaria da Juventude – com o apoio da Ragga e do Plug Minas, irá trazer para você o circuito de palestras com temas que vão de empreendedorismo a sexualidade e mercado de trabalho. Para começar, a gente chamou ninguém menos do que o criador do site mais engraçado do Brasil: Antonio Tabet, do Kibe Loco. Com 36 anos, o cara que revelou William Bonner imitando o Clodovil e fez a montagem da candidata a presidência Heloísa Helena na Playboy, conta como ele começou com um blog para mostrar piadas aos amigos e acabou com o site de humor mais acessado do país.

SEGUNDA-FEIRA, 09 DE JULHO 19H30 PLUG MINAS Rua Santo Agostinho, 1.441, Horto • BH • MG Mais informações: (31) 3484-1015 / 3225-4400


FUNDADOR DO SITE DE HUMOR “KIBE LOCO” E CRIADOR DE VÁRIOS HITS DA INTERNET

ANTONIO

TABET APOIO

REALIZAÇÃO


C

CAIXA DE ENTRADA CARTAS

EXPEDIENTE

Edição Patrícia Abravanel

DIRETOR GERAL

lucas fonda [lucasfonda.mg@diariosassociados.com.br] DIRETOR DE COMERCIALIZAÇÃO E MARKETING

bruno dib [brunodib.mg@diariosassociados.com.br]

Waltinho Tradição, pelo Facebook Confiram aí matéria na Revista Ragga na qual a grande Fernanda Tonani menciona o Gamboa e o Grupo Tradição. Show de bola!!!

ASSISTENTE FINANCEIRO

Juliana Cazeli, pelo Facebook Eventos de oportunidade podem se transformar em projetos excepcionais: Projeto Mercado das Borboletas. "A arte em Belo Horizonte está ficando para trás. Por isso, pretendemos transformar o espaço do mercado em incubadora de artistas." Tarcísio Ribeiro, artista plástico, em entrevista concedida à Revista Ragga de junho. Vale a leitura.

SUBEDITOR

Guilherme Cunha, pelo Twitter A @revistaragga desse mês tá muito bacana. Principalmente as 10 dicas para curtir a Califórnia.

nathalia wenchenck [nathaliawenchenk.mg@diariosassociados.com.br] GERENTE DE COMERCIALIZAÇÃO E MARKETING

rodrigo fonseca [rodrigoalmeida.mg@diariosassociados.com.br] EDITORA E JORNALISTA RESPONSÁVEL

flávia denise de magalhães – mg14589jp [flaviadenise.mg@diariosassociados.com.br]

bruno mateus [brunomateus.mg@diariosassociados.com.br] REPÓRTERES

bernardo biagioni [bernardobiagioni.mg@diariosassociados.com.br] guilherme avila [guilhermeavila.mg@diariosassociados.com.br] izabella figueiredo [izabellafigueiredo.mg@diariosassociados.com.br] ESTAGIÁRIOS DE REDAÇÃO

lara dias [laradias.mg@diariosassociados.com.br] laura dias [lauradias.mg@diariosassociados.com.br] NÚCLEO WEB

renata ferri [renataferri.mg@diariosassociados.com.br] felipe bueno [felipebueno.mg@diariosassociados.com.br] DESIGNERS

anne pattrice [annepattrice.mg@diariosassociados.com.br] anselmo júnior [anselmojunior.mg@diariosassociados.com.br] bruno teodoro [brunoteodoro.mg@diariosassociados.com.br] marina teixeira [marinateixeira.mg@diariosassociados.com.br] FOTOGRAFIA

ana slika bruno senna carlos hauck

lucas machado alex capella . eduardo damasceno . joão paulo kiko ferreira . lucas buzzati . luís felipe garrocho ARTICULISTA

Eduarda, pelo Twitter @PatiAbravanel @revistaragga Pati, sua entrevista está um show... e suas fotos, lindas!! Parabéns :) Adorei a reportagem! Beijos!!! Felipe Campos, pelo Twitter A edição #62 da @revistaragga tá bem bakaninha. O #DESAFIOdoBACON pode ser bem intrigante. O @jvviana que não curte nem um pouco. Kkkkk

COLUNISTAS

COLABORADORES

airton rolim . aline soares . lucas de souza . rafael vilela . ricardo vilella RAGGA GIRL MODELO verena moura FOTOS carlos hauck MAQUIAGEM júlia astigarraga CAPA lucas de souza REVISÃO DE TEXTO vigilantes do texto IMPRESSÃO rona editora REVISTA DIGITAL [www.revistaragga.com.br] REDAÇÃO

av. assis chateaubriand, 499 . floresta . cep 30150-101 belo horizonte . mg . [31 3225 4400] [ragga.mg@diariosassociados.com.br] PARA ANUNCIAR

bruno dib [brunodib.mg@diariosassociados.com.br] rodrigo fonseca [rodrigoalmeida.mg@diariosassociados.com.br] SAIBA ONDE PEGAR A SUA

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EDITORAL

Sabe aquela reunião chata de condomínio que começa depois do expediente, em que todos estão cansados, em que muito se discute, pouco se resolve, o quorum nunca é o suficiente ou decisivo e os poucos ocupantes daquelas cadeiras frias acabam ficando ali mais pela “política da boa vizinhança”? O roteiro é sempre o mesmo e, no fim, um ou dois tentam resolver sozinhos os problemas da fachada do prédio. Pois foi exatamente essa a minha impressão em relação a tão comentada Rio+ 20. Em minha opinião, essa era a percepção e o sentimento dos lideres mundiais ao lerem a pauta do dia na concorrida agenda, sempre tão cheia de urgências. Afinal, Obama precisa se reeleger, Fernando Lugo precisava tirar seu pescoço da apertada forca paraguaia que insistia em apertar e o tirou do poder, a Europa não pode perder tempo ou um barco de proporções incalculáveis pode afundar em mares profundos. Estes, por sua vez, não podem ser poluídos pelo petróleo árabe, que precisa aumentar o preço do barril para sustentar o excêntrico e bilionário turismo de Dubai, no qual muitos brasileiros e chineses desfilam ansiosos para gastar seus emergentes salários, frutos de atitudes de países que, por serem "novos capitalistas", ainda não cometeram os mesmos erros dos mais velhos, mas seguem cegos pelo mesmo caminho. Como pensar em samambaias, golfinhos e ursos-panda se temos tantas coisas mais importantes para fazer? Essa luz alguém apaga quando sair. O problema é que ninguém se lembra, e ela fica lá, muito bem acessa até queimar. Diferente da reunião de condomínio, parar a agenda para solucionar (porque discutir já não dá mais tempo) os problemas ambientais e sociais do planeta é um

bruno senna

URGENTE!

caso real de prioridade. A maior dificuldade de solucionar um grande problema coletivo como "cuidar do planeta" é que, individualmente, ninguém acha que o problema é seu e, portanto, por que se dedicar? Alguém vai cuidar disso. Mas todos concordam que Obama ou Fernando Lugo jamais adiariam um tratamento de câncer. O que ninguém percebeu ainda é que o mundo já está doente e, como somos partes de um todo, precisamos urgentemente marcar a quimioterapia. O desabafo xiita acima não tem nada a ver com as pautas da edição, mas precisávamos tocar na ferida. Afinal, esse também é literalmente o nosso papel. De qualquer forma, a função de um editorial é informar ao leitor o que ele encontrará na edição, e esta ficou bem legal! A começar pela capa com Mr. Catra. Batemos na porta do rei da cachorrada, funkeiro casado com três mulheres (ao mesmo tempo) e que alerta: “O problema da mulher de hoje é que ela acha que todo mundo que usa calça e tem um membro entre as pernas é homem”. Visitamos a Serra da Saudade, a menor cidade de Minas Gerais e a segunda menor do Brasil, para saber se o pessoal de lá tem Facebook, se todo mundo é primo de todo mundo e desvendar outras curiosidades. Ainda tem um bate-papo com Arnaldo Baptista, histórias hilárias sobre os driveins, a arte da falcoaria, dicas de Londres e muito mais! Boa leitura!

Lucas Fonda — diretor geral lucasfonda.mg@diariosasassociados.com.br


lucas de souza

ÍNDICE

O Polêmico Mr. Catra DEPOIS DO SUCESSO DE MAMA, O FUNKEIRO FALA SOBRE SUA RELAÇÃO COM AS MULHERES

58


A luta do ano Falcoaria Criando aves de rapina dentro da cidade

26 #Instamoveis

Uma nova forma de mostrar amor aos fãs

O UFC 147 deixa a capital mineira com sede de sangue

30

Muzzycicles Bicicletas feitas de garrafas PET recicladas

32

Arnaldo Baptista

Festivais de Rua

O artista fala sobre amplificadores valvulados e instrumentos Gibson

As melhores festas de rua de Belo Horizonte já estão marcadas

34 36 38 Dentro do carro

Londres

A menor cidade

Já se aventurou nas quatro paredes do drive-in?

O que há de melhor para fazer na capital inglesa

Com menos de mil habitantes, Serra da Saudade é a menor de Minas

40 44 48 JÁ É DE CASA

Scrap 12 Só no site 13 Destrinchando 14 Twitter 16 Eu quero 18 Estilo Lu Ferreira 20 Rapidinhas 22 Quem é Ragga 24 Por aí 66

On the Road Baile Funk 68 Ragga Girl Verena Moura 72 Livrarada 76 Prata da casa 77 A música e o tema 78 Crônico 80 Quadrinhos Rasos 82

Nas ruas de Paris Tudo fica mais romântico — e misterioso — na cidade das luzes

54


S

SCRAP S/A

COLUNA POR ALEX CAPELLA // ALEXCAPELLA.MG@DIARIOSASSOCIADOS.COM.BR

fotos: divulgação

Sugestões e informações para a edição de agosto, entre em contato pelo e-mail acima.

Festival da cerveja

Minas Gerais vem se transformando num polo da produção de cervejas especiais no país. Diante disso, a Serraria Souza Pinto abrigará, entre 3 e 5 de agosto, a BH Expobier (Festival de Cervejas Especiais). O evento contará com as principais cervejarias, importadoras, fornecedores, distribuidoras, bares, restaurantes e demais agentes da cadeia produtiva da cerveja, além de atrações culturais, palestras e oficinas que incluem temas como harmonização e produção artesanal de cerveja.

NOSSA CAPA Quando a equipe da Ragga chegou ao apartamento onde o funkeiro Mr. Catra mora com sua mulher, Silvia Alves e dois dos seus 20 filhos, ele tinha acabado de acordar. Sem camisa e de bermuda ele não estava com cara de quem queria conversar muito. Mas aos poucos ele foi acordando, animando e no final, quando contamos do nefasto plano de coroá-lo para a capa da revista, ele sorriu, lançou um olhar para Silvia sentou e permitiu que a gente fizesse a cerimônia. Uma tarde incrível com um cara único. Fotografia: Lucas de Souza

12

Sertanejo

Depois do sucesso do ano passado, Belo Horizonte receberá novamente o Sertanejo Pop Festival. A expectativa é de que mais de 40 mil pessoas confiram os shows dos artistas, em 21 e 22 de julho, no Expominas. Serão dois dias de festa, nos quais os apaixonados pelo estilo musical curtirão, em mais de 34 horas de festival, os maiores nomes da música sertaneja do momento.

Nova casa

O badalado Clube Chalezinho se despediu do endereço na região dos Seis Pistas, em Nova Lima, onde funcionou por 10 anos, no último fim de semana de junho. A casa, que começou suas atividades em 2002, prepara os últimos detalhes para reabrir, no fim de julho, no Bairro Buritis, em Belo Horizonte. A mudança aconteceu em decorrência da negociação do terreno com a construtora Caparaó. No antigo espaço utilizado pelo Chalezinho será construído um edifício comercial.

Investimento

A AP Ponto, construtora e incorporadora de segmento médio, segue seu plano de expansão pela Região Metropolitana de Belo Horizonte. No fim do mês passado, a construtora anunciou investimento de R$ 6 milhões, em Contagem. Outro município em que a construtora aposta suas fichas é Betim, que receberá, nos próximos dois anos, oito empreendimentos.


S

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A arte inspira a roupa Não consegue decidir o que vestir? Veja a galeria de fotos com dicas de looks inspirados em clássicas obras de arte bit.ly/arteinspiraaroupa

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fotos: divulgação

Inspiração ou morte Assista ao vídeo em que Elizabeth Gilbert, autora de Comer, rezar, amar delibera sobre a origem da inspiração e as devastadoras consequências de ter uma mente criativa. bit.ly/inspiracaooumorte

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Zonafootball Você conhece o futebolha? A televisão norueguesa inventou um jeito de dar uma incrementada nas partidas e, de quebra, aumentar a segurança dos jogadores. bit.ly/futebolha

Jam section visual Confira a fusão da tradição do Jazz e a contemporaneidade na arte digital de Menote Cordeiro. bit.ly/jamsectionvisual EXTRAS

Falcoaria Confira a galeria com todas as imagens da matéria sobre a arte de criar, treinar e cuidar de falcões. bit.ly/falcoariaragga

carlos hauck

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Fix to ride Na reinauguração da pista de skate Nova Zoo, rolou uma competição com 30 skatistas de peso do cenário nacional. Veja a galeria de fotos do evento. bit.ly/fixtoridefotos

fotos reprodução

bruno senna

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Serra da Saudade Veja a galeria de fotos completa mostrando o cotidiano e a beleza da Serra da Saudade, cidade menos populosa de Minas Gerais. bit.ly/serradasaudade


DESTRINCHANDO ARTIGO POR LUCAS MACHADO ILUSTRAÇÃO ANNE PATTRICE

Norma Jeane Mortensen ou, simplesmente, Marilyn Monroe “QUE ME DESCULPEM TODOS OS HOMENS APAIXONADOS DESSE MUNDO, MAS NUNCA DEIXE SUA MULHER DESCOBRIR QUE ELA SOZINHA É UMA EMPRESA COM FINS LUCRATIVOS" Johnny Depp

m

Contratada pela 20th Century Fox, em 1946, Marilyn iniciou ali uma trajetória que a consagraria como atriz

Marilyn Monroe sempre foi excêntrica e sua cinebiografia não será ser diferente. Blonde, que contará a vida da atriz nas entrelinhas, deveria ter começado a ser filmado pelo diretor Andrew Dominik em janeiro de 2012, mas foi interrompida por falta de patrocínio. O galã Brad Pitt não perdeu a oportunidade e já está negociando a produção o filme junto a sua produtora, a Plan B. O longa é uma adaptação do romance homônimo da escritora americana Joyce Carol Oates, e deve começar a ser filmado em janeiro de 2013. A vida de Norma Jeane Mortensen, nome de batismo da atriz, foi definitivamente cercada de mitos. Nasceu em 1926 na cidade de Los Angeles. Devido a conflitos de paternidade — não conheceu o pai biológico — e aos graves problemas psicológicos da mãe, a atriz passou a infância em casas de parentes e em orfanatos. Aos 16 anos, sem muitas perspectivas, casouse, em julho de 1942, com o então namorado Jimmy Dougherty. Conseguiu um emprego em uma fábrica de munições, em Burbank, nos arredores de Los Angeles. Foi a partir de então, longe de todo o glam das telas do cinema, que Norma se transformou em Marilyn Monroe, conheceu a fama, dormiu com os homens que quis, viveu a solidão e a morte prematura. Foi clicada pela primeira vez no próprio trabalho, descoberta pelo fotógrafo David Conover. Ainda não era loira, mas seu ros-

MANIFESTAÇÕES

articulista.mg@diariosassociados.com.br | facebook.com/lucastmachado destrinchando.com.br 14

to já se distanciava de qualquer espécie de seres humanos vivos na terra. Em menos de um ano, já era o sonho de consumo de qualquer fotógrafo da época, tamanha era a desenvoltura da jovem diante das lentes. Porém, ela queria mais e começou a estudar artes cênicas. Contratada pela 20th Century Fox, em 1946, iniciou ali uma trajetória que a consagraria como atriz. Pouco tempo depois, tingiu o cabelo de loiro e passou a chamarse artisticamente de Marilyn Monroe. Suas primeiras fotos foram parar nas mãos de Hugh Hefner, que, por apenas cinquenta doletas, comprou os direitos de uso para fazer o exemplar da primeira revista masculina e uma das mais consagradas até hoje, a Playboy. O sucesso veio no vácuo e atuação em Niagara, de 1953, colocou Marilyn como estrela de Hollywood e lhe rendeu papéis principais em filmes como Os homens preferem as loiras e Como agarrar um milionário. Pelo trabalho em Quanto mais quente melhor, de 1959, levou o Globo de Ouro de melhor atriz em comédia. Um momento ficou eternizado: sensual como sempre, Marilyn cantou parabéns para John Kennedy no Madison Square Garden, poucos meses antes de falecer — dizem que eles já eram amantes antes de Kennedy pisar na Casa Branca. À época, ele disse: “Já posso me retirar da política, depois de ter ouvido este feliz aniversário cantado para mim de modo tão doce e encantador”. Aí vem o dilema da sua morte, em agosto de 1962, aos 36 anos. Acidente, barbitúricos, suicídio? De qualquer forma, Marilyn possui uma mística própria digna de grandes mulheres. Agora nos resta esperar pela cinebiografia de Monroe. Está nas mãos de Brad Pitt, quem sabe teremos mais respostas. J.C.

B


BEYOND REASON TENHO QUE PROGUEDIR PARA CONTINUAR VIVO. | BOB BURNQUIST

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T

TWITTER

harpias

nairbello

reportugal

Ainda não entendi por que mamilos seriam polêmicos.

Às vezes eu uso perfume masculino pra acharem que eu tenho namorado. bentomribeiro

Smartphones deram às pessoas aquela confiança extra para almoçarem sozinhas em restaurantes.

Ocriador

Micaretas, povoando o inferno desde 1990. bmazzeo

Se um operador de telemarketing ligasse para o Sílvio Santos, além de não vender nada, seria convencido a comprar o Carnê do Baú. E se tudo o que o Inri Cristo fala for verdade?

silviolach

Danilomaranhao

PRÊMIO JOVEM CIENTISTA: QUEM CONSEGUIR UM PROCESSO PARA TRANSFORMAR SARNEY EM GARRAFA PET LEVA O PRIMEIRO PRÊMIO. Renatoghost

BenLudmer

Kama Sutra não é nada perto das posições que eu tenho que fazer pra roubar Wi-Fi do vizinho.

Minha mãe reclamou que na TV só passam sexo e violência. Liguei para o telemarketing da Sky para pedir o mesmo plano dela.

Apiada

hebecamargo

TRISTEZA É QUANDO VOCÊ MORRE NO SUPER MARIO COM UM CASCO QUE VOCÊ MESMO JOGOU. Tatawerneck

Minha esteticista tem um jeito todo especial de fazer com que eu não sinta a dor da depilação: me dá socos na cara. eagoraguilherme

rafinhabastos

0.8 de audiência sim, mas pelo menos tenho saúde. E amigos. Ok, só saúde, mas já é legal, vai?! Não? Ok.

DICA DO PEDREIRO: NÃO TRATE COMO COCA-COLA QUEM TE TRATA COMO KI-SUCO DE UVA.

alemigueis

FACE (se leu "feice", você é cretino). hebecamargo

Eu perdi minha virgindade com Adão e nem por isso saí espalhando

licio

Pão caiu com o lado da manteiga para baixo, mas Murphy não contava com a outra metade com manteiga pra cima que deixei embaixo. EPIC WIN!

O que eu tenho que responder pro meu teste vocacional dar "moça do tempo em telejornal"? 16

A prova que ensino superior no Brasil é lixo é o sertanejo, que quando é universitário não consegue nem fazer letra e completa com onomatopeias.

LucasLvp

Você depilou errado ou a Nike patrocina suas sobrancelhas? hebecamargo

Adoro esses robozinhos da novela Carrossel. Até parecem crianças que atuam.


5 C L A S S I F I C AT Ó R I A S , 2 0 0 S K AT I S TA S E 1 0 F I N A L I S TA S . A P E N A S U M I R Á PA R A N O VA Y O R K . V E N H A V E R Q U E M S E R Á .

VENHA VER OS SKATISTAS MAIS TÉCNICOS DO BRASIL QUEBRAREM TUDO NA FINAL NACIONAL DO RED BULL MANNY MANIA, EM BELO HORIZONTE. DEPOIS DAS CLASSIFICATÓRIAS DISPUTADÍSSIMAS QUE PASSARAM POR SÃO PAULO, RIO DE JANEIRO, CURITIBA E BRASÍLIA, FINALMENTE CHEGAMOS À ÚLTIMA ETAPA DA BUSCA PELO SKATISTA AMADOR QUE IRÁ REPRESENTAR O BRASIL EM NOVA YORK.

NÃO PERCA A CHANCE DE VER ESSA GRANDE FINAL.

F I N AI S J U L H O / F I N A L N AC I O N A L B E LO H O R I ZO N T E

18 D E AG O S TO / F I N A L M U N D I A L N OVA YO R K

CLASSIF ICATÓRIA J U L H O / B E LO H O R I ZO N T E

R E D B U LL M A N N Y M A N I A .COM. BR

E N V I E S E U V Í D E O P E LO S I T E E PA RT I C I P E DA C L ASS I F I C ATÓ R I A .


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EU QUERO

CONSUMO

Bicicleta dobrável A Evolubike nano fica do tamanho de um violão e tem um motor elétrico para ajudar nas subidas. R$ 3.699, no ekolev.com

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Carteira mini toys Com uma das estampas mais bonitas da loja, a carteira ajuda a melhorar qualquer visual. R$ 49,90, na imaginarium.com.br

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Mapa raspadinha

Bloquinho de dinheiro Nada como a sensação de rasgar dinheiro sem ter que perder a grana de fato. R$ 35,90, na tshit.com.br

fotos: divulgação

Para quem tem planos de dominar o mundo, nada melhor pra fazer o controle de onde você já foi. R$ 40, no bit.ly/maparaspadinha

Câmera instantânea Pegar a imagem impressa ainda é melhor do que ver na tela. A Fuji instax wide instant camera é uma boa opção para quem quer se divertir com os amigos. R$ 203, no photojojo.com (com filme de 20 exposições)

19


E

ESTILO Lu Ferreira

COLUNA POR LUCAS MACHADO FOTOS léo horta

Vivemos a verdadeira revolução nas tecnologias com as redes sociais on-line e os novos aplicativos para celulares. As pessoas têm nas mãos os meios de se organizarem e mostrarem seus talentos em forma de conteúdo, sem restrições. Luísa Ferreira, ou melhor, Lu Ferreira é uma prova concreta dos novos tempos. Mineira de Belo Horizonte, formada em design gráfico, com pós-graduação em gestão de marcas, comemora o aniversário de cinco anos do seu blog, o Chata de galocha. E lá vem ela: “Tudo começou em 2007, época que veio o boom dos blogs e o Chata já existia. No início, não apenas com posts de moda, aliás, não gosto muito desta definição de que é ‘apenas um blog de moda’. É onde consigo expressar minha opinião, e sou chata de propósito. O blog é um lugar para falar das minhas chatices, porque é muito detalhe”, conta. Hoje, o Chata faz parte do F*Hits, grupo de empresas comandado pela empresária de moda Alice Ferraz. Lu nos conta que, quando não está viajando, gosta de ir ao cinema e adora ler. Seu passatempo predileto são os joguinhos de telefone celular, e, entre Facebook e Instagram, ela dispara: “Imagem é tudo”. Parabéns, Lu, que você possa contar mais e mais velinhas comemorando o sucesso do Chata de galocha, com seus 2,5 milhões de acessos ao mês, e que prove que “se faz sentir, faz sentido”. Além do mais, é preciso ser obstinada.

Lu usa Calça Zara

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J.C.


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© 2012 Doctor’s Associates Inc. SUBWAY® é uma marca comercial registrada de Doctor’s Associates Inc. Imagem meramente ilustrativa.


RAPIDINHAS COLUNA

fotos: divulgação

POR FLÁVIA DENISE DE MAGALHÃES

CHEGA DE ARTE CHATA Em 1971, John Baldessari tomou uma decisão que influenciaria todas as suas futuras obras. Ele prometeu nunca mais fazer arte chata (“I will not make anymore boring art”). As obras que surgiram após a declaração podem ser classificadas por todo tipo de palavras negativas, mas seria difícil achar alguém que acredita que ele fez arte chata. Curiosamente, anos após a declaração, ele finalmente alcançou fama internacional com o que é possivelmente sua ideia mais simples: colar bolas coloridas nas caras das pessoas. Simples e inusitada, a arte não chata dele merece os cinco minutos do vídeo sobre sua vida. youtu.be/eU7V4GyEuXA

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PANTONE QUEEN É difícil dizer quem está mais na moda. Enquanto a família real está em todos os jornais com o casamento de William e Kate e o jubileu da Rainha Elizabeth II, a tabela Pantone, que lista todas as cores do mundo em compreensíveis números, está marcando presença em tudo quanto é loja de roupa, colorindo de cueca a sapato. Nada mais óbvio do que juntar os dois utilizando as cores das roupas usadas pela rainha ao longo dos últimos 60 anos para ilustrar os cartões. Só para provar que Elizabeth II já usou cada cor da tabela comemorativa mesmo, os cartões vêm com a data em que a tonalidade foi desfilada pela regente.


MUITO ANTES DO PHOTOSHOP Muito se reclama sobre as aplicações do Photoshop na fotografia. E, sem dúvida, com o software fica fácil consertar imperfeições na pele, eliminar curvas excessivas e retirar elementos de fotos. Mas nem todo mundo se dá conta que a existência programa é a consequência de um comportamento anterior. O site fourandsix.com coleciona as manipulações em imagens mais antigas. A foto abaixo, por exemplo, é de 1860 e mostra que a imagem mais famosa de Abraham Lincoln é uma composição da cabeça do presidente americano com o corpo do também político John Calhoun.

LITERATURA ERÓTICA Criado a partir de um fan fiction (histórias criadas por fãs a partir de suas obras preferidas) de Crepúsculo, Cinquenta tons de cinza é um livro erótico em que Edward (Christian) é um dominador sadista ao invés de vampiro; e Bella (Anastasia) é uma virgem que se apaixona pelo misterioso milionário. Escrito pela americana E. L. James, o livro está fazendo um sucesso que só é comparável ao da criação de Stephenie Meyer. E o mais curioso da história toda? Todo o gênero erótico está passando por um boom de vendas nos EUA graças a esse lançamento.

MÚSICA DE BH

BELEZA NA QUANTIDADE

Seguindo a máxima de que artista de verdade não se limita a um tipo de expressão, duas bandas mineiras surpreendem com a qualidade do material extra. A banda Dead Lover’s Twisted Heart acabou de lançar um clipe que exige pausa e reflexão. Criado com a ajuda do fotógrafo André Baumecker, é uma obra digna de nota (dlth.com.br). Já The Hell’s Kitchen Project transformou o seu mais recente clipe em uma série de pôsteres com versos da letra e imagens inspiradas no espírito da banda. facebook.com/thkproject

Tudo começou quando Aaron Hobson, um produtor de cinema americano, procurava por lugares onde filmar. Ao invés de sair de carro pela cidade, ele decidiu usar o Google Street View para conferir os possíveis cenários. A partir daí, Aaron, que não é fotógrafo, começou a colecionar belas imagens que encontrava quando “passeava” por várias cidades do mundo no site. “Uma busca por terras remotas e encantadas que são tipicamente reservadas para os olhos de seus habitantes, mas agora são capturadas pelos automatizados e esteticamente neutros carros do street view”, resume. aaronhobson.com 23


QUEM É RAGGA FOTOS ANA SLIKA

24


Veja todas as coberturas do mĂŞs no bit.ly/quemeragga!

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ESPORTE

TREINADOR

DE FALCÕES FALCOEIROS ENCONTRAM ESPAÇO PARA O ESPORTE DENTRO DA CIDADE E REVIVEM A PRÁTICA MILENAR

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POR Aline Soares FOTOS rAFAEL VILELA

Esporte, hobby, profissão, mas acima de tudo: paixão pela natureza. Praticada há mais de quatro mil anos, a falcoaria é considerada a arte de adestrar aves de rapina. Mas não é fácil ser falcoeiro no Brasil. Atualmente, a Falcoaria como esporte de caça é proibida no Brasil, mas muitos falcoeiros acreditam que o esporte não se resume a treinar as aves para a violência, mas conhecer seus hábitos alimentares, comportamentais e de voo. “O falcoeiro é quem domestica uma ave, não necessariamente para usá-la na caça. A falcoaria é uma manifestação cultural em torno das aves de rapina. É uma relação entre o homem, o falcão e a natureza”, explicou o falcoeiro e biólogo Carlos Eduardo Alencar Carvalho, fundador da associação S.O.S. Falconiformes, um centro de pesquisa para conservação das aves de rapina neotropicais, com sede em Belo Horizonte.

Para o biólogo, o país tem que mudar a maneira como vê a prática. “O Brasil tem o hábito de proibir em vez de educar, e isso acaba prejudicando. Um projeto educacional facilitaria demais as coisas, as pessoas poderiam praticar a falcoaria sem prejudicar o meio ambiente, e até colaborar no combate à extinção dos animais silvestres”, afirma. Esse pensamento é compartilhado pelo treinador falcoeiro e vocalista da banda NoVoice Bruno Pimenta, que alertou para a necessidade de se criar cursos de adestramento de aves de rapinas no país. “É preciso ter responsabilidade para criar um falcão. Essas aves, se não forem bem treinadas, se transformam em máquinas de matar, porque é o instinto delas. E qualquer um pode ter um falcão hoje em dia. Você pode ter um falcão em um apartamento em Belo Horizonte. Basta ter o dinheiro para comprar um”, diz. Carlos Eduardo vai além, e defende até mesmo a domesticação dos animais silvestres como forma de proteção. “É preciso trabalhar com a ideia de domesticar animais silvestres. Proteger o animal não é só deixá-lo solto na natureza. O desmatamento existe, não podemos dar as costas para ele. Então, em muitos casos, um animal entra em extinção porque o meio onde vive deixa de existir e ele não consegue migrar. Domesticando esses animais, garantimos a continuidade da espécie”, conta.

Gustavo Diniz adestra ave de rapina em Belo Horizonte

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ESSAS AVES, SE NÃO FOREM BEM TREINADAS, SE TRANSFORMAM EM MÁQUINAS DE MATAR, PORQUE É O INSTINTO DELAS

O falcoeiro e presidente da S.O.S. Falconiformes Gustavo Diniz, conta que, para que a prática possa crescer como esporte no Brasil, é preciso mudar a maneira como é enxergada pelo governo. “Em outros países, a Falcoaria é tratada como uma manifestação cultural, e não como é vista no Brasil, um instrumento para a caça”, diz. “A cultura da Falcoaria ainda está nascendo no Brasil. Estivemos em Dubai há poucos meses e ficamos impressionados com a maneira como esta arte é forte no país. Existem mais falcões em Dubai que cachorros. Quase toda casa tem o seu, e é uma relação de muito respeito. Existem hospitais grandes, maiores que os que temos aqui em Belo Horizonte, só para tratar os falcões”, completa Carlos Eduardo. FALCOARIA COMO MEIO DE VIDA

Se como esporte ainda faltam muitos passos para a evolução da falcoaria no Brasil, o adestramento de aves de rapina para

O falcoeiro Antônio Filho treina um falcão no aeroporto da Pampulha

Os falcões têm seus olhos vendados para não perder o foco na presa (acima). Carlos Eduardo brinca com um dos falcões adestrados por sua equipe

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O treinador falcoeiro Bruno Pimenta observa um dos falcões usados para controle de segurança no aeroporto da Pampulha

fins profissionais já está bem avançado graças a equipe da S.O.S. Falconiformes, que criou a empresa Biocev, e foi pioneira no uso dessa arte como medida de segurança em aeroportos. A equipe trabalha há cinco anos monitorando as pistas do aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, em busca de aves que possam se chocar contra as aeronaves que operam no local. “O aeroporto da Pampulha foi pioneiro no Brasil a usar a falcoaria como medida de segurança. Nosso trabalho começou em 2007, e, de lá pra cá, já retiramos mais de 1.500 aves das pistas”, explica Gustavo Diniz. Segundo o biólogo Carlos Eduardo Alencar Carvalho, as aves são atraídas para o entorno das pistas dos aeroportos por se sentirem seguras, protegidas dos predadores naturais, e também porque se alimentam de animais que vivem na grama. “O

entorno das pistas é quase um paraíso para várias aves, porque está cercado e protegido de ameaças, como ataques de cachorros ou gatos, e ainda tem uma ótima fonte de alimento. Por isso, acabam adotando o local como casa”, afirma. Com a nova utilidade prática, a falcoaria vem ganhando muito espaço no país, especialmente com a chegada da Copa do Mundo de 2014. “A gente acredita que até a Copa do Mundo, todos os aeroportos das cidades-sedes terão uma equipe de falcoeiros trabalhando na segurança das pistas”, diz Carlos Eduardo. Recentemente, o aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, também começou a adotar a prática. O trabalho de um falcoeiro nos aeroportos é constante, todos os dias da semana, e as rondas acontecem até mesmo durante a madrugada, quando o volume de aeronaves nas pistas é consideravelmente menor.

Proteger o animal não é só deixá-lo solto na natureza. O desmatamento existe, não podemos dar as costas para ele

“Fazemos mais de cinco rondas diárias na pista do aeroporto da Pampulha, e também entramos em ação quando a torre identifica alguma ave. O uso da falcoaria como instrumento de segurança é muito importante. Quando uma ave atinge uma aeronave, o risco não é de somente derrubar o avião, também gera transtornos e prejuízo para as empresas aéreas. O avião tem de ir para a manutenção, o voo acaba cancelado, e qualquer peça custa muito caro”, afirma Gustavo Diniz, que lembrou ainda que 90% dos acidentes aéreos são choques entre aeronaves e aves. “Não existem casos de morte no Brasil por acidentes aéreos causados por aves, mas um piloto militar já ficou cego devido a um choque de um pássaro contra seu avião. Já no exterior existem muitos casos. Aquele pouso forçado no rio Hudson, em Nova York, em 2009, por exemplo, foi causado por um pássaro. Se não fosse pelo piloto, 155 pessoas teriam morrido“, lembra o falcoeiro. Em 2011, o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) reportou 1.462 ocorrências de colisões com aves no Brasil, um número que vem crescendo nos últimos anos. “A Infraero está muito interessada em espalhar o uso da Falcoaria por outros aeroportos do país, porque, além de ser comprovadamente eficaz no combate ao risco das aves, protege-os contra eventuais acusações de falta de segurança em casos de acidente”, disse Carlos Eduardo. 29


Wanderlei Silva acerta um cruzado de esquerda no americano Rich Franklin e, por pouco, não finaliza a luta em nocaute no segundo round

ESPORTE

DENTRO DO OCTÓGONO

POR Daniel Paixão FOTOS IGOR MAROTTI

UM ESPETÁCULO DE HABILIDADE E GARRA EM UMA CIDADE QUE SE ABRE AOS POUCOS PARA GRANDES EVENTOS INTERNACIONAIS

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Sob a batida eletrônica acelerada da canção Sandstorm, do Dj finlandês Darude, Wanderlei Silva aparece aos olhos de mais de 16 mil pessoas no ginásio Mineirinho, além de outros milhares de telespectadores mundo afora. Luzes piscam acompanhando o ritmo da música e a plateia ecoa um uníssono grito de “Ah, Cachorro Louco!”, apelido tupiniquim do astro da noite. Um verdadeiro show que não deve em nada às grandes edições do UFC (Ultimate Fighting Championship) realizadas em outros países. O olhar fixo e compenetrado de Wanderlei durante o percurso até o octógono já

anuncia o clima acirrado da revanche. Já na parte interna da “jaula”, o americano Rich “Ace” Franklin o aguarda. De calção rosa, parece debochar do adversário brasileiro. Atraiu a atenção do público mineiro pela fama de gente boa — chegando a mandar algumas palavras em português nas entrevistas — e pela cara de galã, semelhante ao ator Jim Carrey, origem do apelido Ace, de Ace Ventura. Mas, definitivamente, a luta não seria uma comédia. Wanderlei enfrenta a tão esperada revanche com o americano, após derrota em 2009 no UFC 99 e promete um confronto de arrasar, orgulhando todo o Brasil.


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Ao chegar ao octógono, Wanderlei cumprimenta a equipe e recebe vaselina no rosto para deixá-lo mais escorregadio e amenizar os impactos. Antes de subir as escadas, ajoelha-se, faz uma breve oração e parte para confrontar o adversário americano. A torcida ajuda e o Cachorro Louco leva a melhor até o segundo round, chegando a derrubar o adversário, desferindo-lhe uma série de socos. Mas Rich Franklin mostra mais resistência física, conseguindo levar a luta até o quinto round e vencendo por pontos, em decisão unânime dos árbitros. O clima de decepção assola o ginásio Mineirinho, que durante toda a noite se manteve agitado com as finais do The Ultimate Fighter Brasil, reality show exibido pela Rede Globo. Além de lutas preliminares com a consagração de brasileiros como Fabricio “Vai cavalo” Werdum, sobre o americano, Mike Russow, para os pesos pesados. “Saio chateado, mas ao mesmo tempo muito feliz por ter tido a oportunidade de ver ao vivo um evento desse porte acontecendo na minha cidade”, revela o estudante Ricardo Campos após a luta final da noite. “Já valeu por ter assistindo às finais do TUF Brasil aqui. A luta do Mutante contra o Serginho foi sensacional!”, completa ainda eufórico o engenheiro Carlos Sousa, referindo-se ao combate que definiu o melhor dos pesosmédios do reality show. DE ATLANTIC CITY

Destaque também para o elenco oficial do evento, que veio direto de Atlantic City no dia anterior. O lendário narrador Bruce Buffer, com seu tradicional estilo de apresentar os lutadores e hilariante sotaque ao pronunciar palavras em português. Além da “ta-len-to-sís-si-ma” Arianny Celeste, ring girl que animava a plateia ao mostrar destreza e habilidade — concentrada em um digníssimo decote — em desfilar com as plaquetas anunciando o próximo round. Dana White, presidente do UFC, também marcou presença e entregou todos os prêmios aos vencedores do TUF Brasil. O diretor de Desenvolvimento Internacional do UFC, Marshall Zelaznik, disse que Belo Horizonte cumpriu totalmente com o esperado e garantiu que o evento retornará à cidade. “A torcida foi fantástica, nos recebeu muito bem por toda a cidade e posso garantir 100% a vocês que realizaremos o evento aqui novamente”, enfatizou o diretor do UFC.

Golpes certeiros podem definir uma luta em apenas alguns minutos. Fabricio Werdum acerta soco que elimina o americano Mike Russow por nocaute técnico ainda no primeiro round. Abaixo, retrato de uma modalidade em que sangrar é tão comum quanto suar

O olhar compenetrado de Wanderlei durante o percurso até o octógono já anuncia o clima acirrado da revanche

“Ladies and gentlemen, we are live!” Personagens ícones do UFC, como o narrador Bruce Buffer e a ring girl Arianny Celeste, marcaram presença em BH

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SUSTENTABILIDADE

Bicicletas feitas de lixo FEITAS COM GARRAFAS PET RECICLADAS, AS MUZZYCICLES SÃO BOM EXEMPLO DE CRIAÇÃO SUSTENTÁVEL POR LARA DIAS

A bicicleta é o mais poético dos meios de transporte, aquele que não libera gases poluentes na atmosfera e ainda melhora o condicionamento físico das pessoas. Mas apesar de existir desde 1817 e de ter sofrido significativas mudanças no formato e no peso (ainda bem!), a produção da bicicleta ainda envolve metais pesados e processos que agridem a natureza. Indignado com essa situação, o artista plástico Juan Carlos Muzzi, apaixonado pelo veículo, dedicou 14 anos de sua vida pesquisando um jeito diferente de produzir bicicletas. A realização veio depois de visitar uma fábrica de bicicletas, em 1998. “Estamos no século 21 e as pessoas ainda usam minério de ferro, alumínio e bauxita, com muita mão de obra e poluição para produzir esse veículo”, lamenta. A solução encontrada resolve dois problemas: retira da natureza um elemento poluidor e fabrica um veículo ecologicamente correto, feito de garrafa PET. 32


fotos: divulgação

Juan chamou as bicicletas ecológicas de Muzzicycles. “O meu sonho é fazer um veículo social. Produzir com o excesso dos que consomem um meio de transporte para os que não consomem”, explica. O que começou como uma utopia vista com pouca credibilidade por investidores, agora é realidade. Os quadros das Muzzicycles são produzidos com uma resina resistente, que provém basicamente de sucata de resíduos sólidos pós-industriais e pós-consumo. A fabricação do quadro é feita a partir de um molde no qual se injeta a resina, já com a cor desejada, o que elimina o processo industrial e dispensa pintura. De acordo com Juan, isso reduz em 96% o consumo de energia na fabricação do veículo. O peso de um quadro varia de 4 a 6Kg. Com o projeto fora do papel, Juan quer produzir a bicicleta em grande escola para diminuir o seu custo final. “Acredito que se isso acontecer, as bicicletas ecológicas vão custar por volta de R$ 50, o que a torna muito mais acessível que as demais”, conta.

A ideia das Muzzicycles veio da vontade de criar quando a febre das bicicletas passou. Depois de sete tentativas, em 2000 ele fez o requerimento da primeira patente que anunciava um veículo feito com PET. Por falta de recursos, parou duas vezes o andamento do projeto e só em 2007 conseguiu chegar ao primeiro modelo de quadro. O molde ficou pronto em 2008 e no ano seguinte já operava a nível comercial, totalizando patentes em 144 países, sendo o Brasil o único que pode produzir as ecobikes. Com mais um sucesso, ele adianta que deve lançar um filme contando a sua história de amor com bicicletas. “Eu vivo do sonho, da utopia. E acho que a gente fica meio viciado em sonhar”, diz.

“EU VIVO DO SONHO, DA UTOPIA”

Juan Carlos Muzzi tem 63 anos, é uruguaio e vive no Brasil desde 1970. Dizer que ele é artista plástico, empresário, designer ou inventor é, na verdade, constatar que se trata de um sujeito que esbanja criatividade. Talvez você não saiba, mas se viveu parte da infância nos anos 90, Muzzi te proporcionou inesquecíveis momentos de diversão. Juan produzia brinquedos feitos com material reciclado e foi o criador oficial das molas coloridas que fizeram sucesso mundialmente (aquelas que fizeram sucesso nos anos 90 e eram um pesadelo na hora de desenrolar). Ele conta que a ideia das molas veio, na verdade, a partir de outro sucesso de sua autoria: os óculos de brinquedo com olhos que saltam para fora. Nas feiras de exposição que participava, as pessoas pediam que ele levasse os óculos para distribuir como brinde e Muzzi percebeu que o êxito dos óculos estava diretamente ligado às molas que prendiam os falsos olhos. E resolveu, para alegria geral das crianças, criar somente a mola, com arcos maiores e muito mais esticáveis. “Essa mola me levou a conhecer 28 países e conversar com crianças do mundo inteiro. Foi, sem dúvida, o maior sucesso da minha vida, até agora”, conta satisfeito.

EM NÚMEROS São

15.840.600 garrafas PET recicladas que se transformam em

132 mil

quadros de bicicleta.

Isso economiza 980.732Kg de petróleo e deixa de despejar 2.738.227Kg de CO2 em material incinerado.

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fotos: divulgação

CONTEÚDO

FEIJOADA

BÚLGARA

COLABORAÇÕES ENTRE FÃS E ARTISTAS ADICIONAM NOVOS TEMPEROS À MÚSICA INDEPENDENTE, PROMOVENDO MISTURAS INUSITADAS

POR GUILHERME ÁVILA

Bandas sem grandes gravadoras sempre tiveram a internet como principal aliada. Hoje, além da divulgação e distribuição de músicas, a web oferece possibilidades para produção de conteúdo autoral baseado no apoio daqueles que admiram o trabalho desses artistas. Assim, fazer parte da obra do seu ídolo ficou tão fácil quanto fazer um novo upload de vídeo no YouTube ou publicar mais uma foto em sua rede social favorita. 34

Entusiastas da combinação dessas novas tecnologias com a música, os brasilienses da Móveis Coloniais de Acaju têm bons exemplos de como esse relacionamento pode ser feito de forma criativa, sem se repetir e abusando das ferramentas on-line. Há dois anos, o grupo procurou estreitar o contato entre sua comunidade de fãs e a produção de seus videoclipes. Em O tempo, canção do álbum C_mpl_te (2009), as arrobas dos tuiteiros que usaram uma hashtag específica da música foram grafitadas em um plano-sequência transmitido ao vivo pela internet. Já na composição Dois sorrisos, o grupo contou com uma ação que envolvia a gravação de vídeos com casais cantando trechos da música ou fazendo declarações apaixonadas pelo Facebook. Posteriormente, via Skype, eles entraram em contato com essas pessoas, tocando e exibindo seus respectivos depoimentos de amor para cada cara-metade, e tudo foi transformado no clipe oficial. O resultado da iniciativa incluiu até um pedido de casamento. Na Campus Party deste ano, uma das maiores feiras de inovação do país, a Móveis Coloniais de Acaju se misturou com participantes e celebridades do evento para gravar um novo clipe usando diversos gadgets e aplicativos. Essa espécie de “feijoada búlgara”, como o saxofonista Esdras Nogueira definiu certa vez em uma entrevista, tem um monte de ingredientes estranhos a princípio, mas que produzem uma explosão de sabores quando estão juntos. Recentemente, a banda pulverizou em suas redes sociais mais duas outras novidades: as versões do clipe Vejo em teu olhar. A primeira, semelhante a um flash mob, focou no embelezamento das paradas de ônibus de Brasília. Na segunda, foi feito um mosaico interativo a partir da colaboração do público pelo Instagram, no qual eram postadas missões que tinham ligação com a letra da música usando a marcação #instamoveis. “Durante as três semanas de divulgação do #instamoveis, recebemos cerca de seis mil fotos. Pensamos todas essas ações como uma parte importante da banda. Queremos que o nosso público se sinta parte desses processos e participe do produto final”, conta o flautista Beto Mejía. Ele explica que essas mobilizações são mecanismos de interação importantes para formação e renovação dos fãs.


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Dois sorrisos bit.ly/moveis_doissorrisos

Espinhas

Seguindo esse grande esquema colaborativo, o músico China decidiu produzir, com a ajuda dos fãs, o vídeo de seu single Só serve para dançar. “Perguntei no Twitter se as garotas que gostam do meu som estariam interessadas em participar e não acreditei na quantidade de e-mails que recebi logo em seguida. As meninas estavam pedindo a música para poder filmar seu bailado e contribuir com o clipe”, explica o pernambucano.

O tempo bit.ly/moveis_otempo

Descubra quais são as melhores formas de tratar as espinhas bit.ly/drops_espinhas

Acesse Campus party bit.ly/moveis_campusparty Só serve para dançar bit.ly/china_soserveparadancar

Orquestra jovem

Música clássica é opção de carreira para jovens do interior bit.ly/drops_orquestrajovem

Orgulho nerd Vejo em teu olhar 1 amor.beleza.verdade bit.ly/moveis_vejoemteuolhar1

Conheça os três principais espaços nerds da capital mineira bit.ly/drops_orgulhonerd

Namorados

Dicas de presentes masculinos e femininos para agradar seu amor bit.ly/drops_namorados Vejo em teu olhar 2 #instamoveis bit.ly/moveis_vejoemteuolhar2


CULTURA

Ce ta pensando que eu sou loki, bicho? ARNALDO BAPTISTA VOLTA AOS PALCOS ENQUANTO MERGULHA NO MUNDO DAS ARTES PLÁSTICAS, SEM DEIXAR DE LADO O FASCÍNIO POR INSTRUMENTOS GIBSON E AMPLIFICADORES VALVULADOS

POR BRUNO MATEUS

Arnaldo Baptista está mais vivo do que nunca — e criativo como sempre. Desde 2009, quando sua emocionante cinebiografia Lóki chegou aos cinemas, o ex-Mutantes não para. Em outubro do ano passado, Arnaldo voltou aos palcos com o projeto Sarau o Benedito? e prepara o disco Esphera, que, como ele mesmo diz, sempre jogando com as palavras, está “espherando” patrocínio. O músico inquieto, criativo e revolucionário também é o artista plástico que sonha e fantasia em pinturas e desenhos muito particulares, psicodélicos. Muitos não sabem, mas Arnaldo reúne uma obra significativa no campo das artes plásticas — pinturas dos últimos 30 anos que, a partir de 2010, ganharam as exposições e galerias de arte. Naquele mesmo ano, ele participou de duas exposições coletivas em São Paulo. De março a abril deste ano, esteve com Lentes magnéticas, sua primeira exposição individual, em uma galeria na capital paulista, e seus quadros já chegaram a Buenos Aires e Barcelona. “Construí 36

esse novo caminho de criação, por enxergar minha alma de uma forma que conecta a música às artes plásticas”, diz. Arnaldo é um artista em constante transformação. Paralelamente à música, as artes plásticas ocupam um papel importante na sua vida. Este ano, você fez sua primeira exposição individual em São Paulo, que reunia pinturas suas dos últimos 30 anos. Qual é a sensação de poder abrir isso às pessoas depois de tanto tempo? É COMO SE VOCÊ FOSSE UM,

ou uma música e, de repente, um show, com você tocando, acontece! Minha exposição foi um sucesso e agora faço parte do mercado da arte. Meus trabalhos estavam na SP-ARTE,


fabiana figueiredo

Tudo, no fim, chega à perfeição. Se não chegou ainda, é porque não chegou ao fim

P.A. [sigla de public address, um conjunto de amplificadores, mixer e caixa de som] valvulado, por isso faço meus shows sem bateria e baixo. Em todos os palcos da Virada, tinha um telão com minha arte; e em todas as cadeiras do Municipal, tinha um cartão com minha arte. Também colocaram frases de minhas músicas de carreira solo nos informativos. Ficou tudo muito bonito. Como está o processo de produção do Esphera, seu próximo álbum? ESPHERA,

“esphera” o patrocínio.

Shows, produção de disco, artes plásticas... Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, este é seu melhor momento?

no fim, chega à perfeição (P.A. valvulado). Se não chegou ainda, é porque não chegou ao fim. Melhor momento é aqui, agora.

TUDO,

em São Paulo, e nas feiras da Argentina e de Barcelona, pela Galeria Emma Thomas. O projeto Sarau o Benedito? o trouxe de volta aos palcos e você tem se apresentado com uma boa frequência. Você é um artista muito querido pelo seu público, tem fãs de idades variadas. Estava com saudade dessa interação, do ao vivo?

Quando nos encontramos há três anos, você comentou com entusiasmo que havia comprado o Álbum Branco dos Beatles, e o disco ficava direto no seu som. E agora, o que você anda escutando? AGORA CONTINUO escutando West, Bruce & Laing, com Gibsons valvuladas. Os Beatles não tinham isso.

Arnaldo, feliz com a volta aos palcos

Além de tocar na Virada Cultural deste ano, em São Paulo, você ganhou uma homenagem especial no evento. Como foi isso? FOI COMO SE TODOS CONSEGUISSEM com-

preender a superioridade dos amplificadores valvulados aos digitais. Não existe nenhum

fabio heizenreder

ESTAVA! SEMPRE GOSTEI. Os ingressos esgotam rápido. Tenho muitos fãs... E eles são jovens.


bruno senna

Festa DE RUA ENTRE JULHO E AGOSTO, A MÚSICA INVADE AS AVENIDAS, AS PRAÇAS E ATÉ O METRÔ DA CAPITAL POR BRUNO MATEUS

Quem ainda diz que em Belo Horizonte não há nada para fazer além de tomar umas e outras nos bares, não sabe o que está dizendo ou se limitou a repetir o discurso dos preguiçosos sentados nas poltronas da mesmice. Depois do FIT (Festival internacional de teatro), da Virada Cultural e do Natura Musical – todos três realizados no mês passado com apresentações gratuitas espalhadas em diversos pontos da cidade – os belo-horizontinos continuam com a agenda cheia de atrações nacionais e internacionais. Mesmo em tempos em que de dentro do quarto o mundo cabe na palma da mão, vale mais a pena sair de casa e ver as esquinas ocupadas com cultura e arte. A cidade agradece. 38


BH MUSIC STATION

Nos três últimos sábados (11, 18 e 25) de agosto, rola o BH Music Station. O evento já é conhecido do público: em diferentes estações do metrô, três palcos são montados e artistas consagrados se apresentam simultaneamente, sempre com um show de encerramento da noite — os destaques da música local também têm vez na programação. E a festa acontece também dentro dos vagões, com artistas independentes tocando ritmos diversos — do blues ao forró. Intervenções artísticas, como circo e mágica, completam a festa no metrô.

bruno senna

Este ano, o Savassi Festival completa 10 anos de história. E para comemorar ao ritmo de boa música, de 22 e 29 deste mês, o jazz invade ruas, bares, cafés e praças da capital. A programação, que além dos destaques da cena jazzística mineira e nacional, traz músicos do Chile, da Argentina, dos Estados Unidos, de Israel e da Dinamarca e também conta com duas exposições, sete lançamentos de CDs de artistas mineiros, nove workshops e quatro cursos. A participação do público é valorizada com três concursos: Novos talentos do jazz, Jazzy, voltado para DJs e Fotografe o jazz, que escolhe fotos registradas no evento. Assim como em 2011, acontecerá a Noite de gala, no dia 25, no Palácio das Artes, com apresentação do compositor e pianista norte-americano Kenny Werner, que, acompanhado da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, tocará uma peça para banda e orquestra de sua autoria, criada especialmente para o evento. O Savassi Festival vai além das montanhas de Minas: no dia 27, chega ao Rio de Janeiro. Confira toda a programação no savassifestival.com.br/2012.

beto magalhaes/em

SAVASSI FESTIVAL

juliana flister/em

I LOVE JAZZ

Criado com a intenção de mostrar que o ritmo de Nova Orleans é essencialmente popular, o I love jazz chega a sua quarta edição — em 2009 o festival passou por Belo Horizonte e outras três capitais. As apresentações, sempre lotadas, em locais públicos servem justamente para desmentir a balela de que o jazz é um ritmo elitista e sofisticado. Este ano, o intercâmbio entre artistas nacionais e internacionais continua sendo destaque e a mescla das linguagens e abordagens entre eles proporciona ótimos shows. Quem ganha é o público. O festival acontece em Belo Horizonte, de 3 a 5 de agosto. Mais informações no ilovejazz.com.br/festival.

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COMPORTAMENTO

POR alex capella FOTOS BRUNO SENNA

OS CASAIS PROCURAM E OS EMPRESÁRIOS APOSTAM NA SALIÊNCIA BARATA

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Muitos casais veem numa transa dentro de um carro uma alternativa barata e excitante para quebrar a rotina. O problema, diante do crescimento da sensação de perigo nos grandes centros urbanos, é encontrar um lugar seguro para realizar a fantasia. Para gozar a experiência e não perder tempo procurando, principalmente quando a intenção é não gastar muito dinheiro, tem gente indo direto para os drive-ins. Ainda mais que os chamados “motéis de baixo custo” ampliaram os investimentos na infraestrutura, desobrigando os apaixonados a fazer verdadeiros contorcionismos na hora de trocar o óleo. Mas, por maior que seja o conforto nos boxes, ninguém resiste a uma pressão no capô, ainda mais quando a chave de roda está ao alcance das mãos. Quem frequen-


ta os estabelecimentos sabe que o limite da fantasia vai muito além do interior dos automóveis. Solteiro, o advogado, que aqui vamos chamar de Roberto, diz que é frequentador assíduo dos drive-ins em Belo Horizonte. Na cidade, são cerca de 130 localizados em várias regiões. As tarifas variam R$ 10 a R$ 25, dependendo da infraestrutura. Tem drive-in que disponibiliza nos boxes cama, banheiro, televisão e interfone para a comunicação com a recepção e com a lanchonete. Em versões mais modestas, os drives têm colchões no chão e, às vezes, nem isso: apenas uma mesinha com duas cadeiras. Mesmo assim, Roberto não reclama. “É pelo prazer do inusitado. Teve uma vez, turbinado por umas cervejas, que decidi sair do carro. E o boxe não tinha cama. Resolvi fazer no teto do carro mesmo. Foi maravilhoso. O problema só vi no dia seguinte. O teto estava todo amassado e arranhado”, conta. Surgidos com a cultura automobilística, na Califórnia, nos anos 1940, os drive-ins foram fundamentais na consolidação do cinema norte-americano. Famílias inteiras procuravam os estacionamentos, equipados com telões ao ar livre, para acompanhar os principais lançamentos da indústria cinematográfica. Na época, milhares de pessoas foram conferir a atuação de Orson Welles em Cidadão Kane no conforto de seus automóveis. No deprimido Brasil dos anos 1970, quando a ideia chegou ao país, o que

ganhou impulso mesmo foi o sexo. Os jovens casais estavam mais interessados na própria performance e o drive-in era o espaço que faltava. Tanto que, até hoje, os poucos que restaram viraram sinônimo de motel barato. Cinema, que também é bom, só em shopping. Mas quem explora o negócio não lamenta os rumos que os drive-ins tomaram no país. Pelo contrário. Defendem abertamente que os espaços, em última análise, são locais para sexo. A psicóloga e especialista em sexualidade humana, Carla Cecarello, concorda. Segundo ela, as pessoas optam por fazer sexo nos drive-ins pelo baixo custo e por sentirem uma certa adrenalina. “É uma forma de se exercer a função sexual de forma quente, diferente e, muitas vezes, até engraçada”, diz. Gerente há 10 anos do Ponto G, localizado na avenida Teresa Cristina, no Calafate, bairro da região Oeste de Belo Horizonte, José Garcia tem muitas histórias curiosas para contar, que revelam um pouco do comportamento bizarro das pessoas quando o assunto é sexo. “Certa vez, três pessoas chegaram num carro. Parecia um homem e duas mulheres. Pouco tempo depois, uma mulher deixou o carro e foi embora apressada. Em seguida, um travesti, seminu, também saiu correndo. O cara ficou sem a carteira e ainda teve de deixar o carro, como garantia, para quitar a conta depois”, lembra. O militar, que aqui vamos chamar de Sérgio, também já teve várias experiências no drive-in. Certa vez, ele e a parceira foram acompanhados de outros dois casais. Como o boxe era bem equipado, os casais promoveram uma espé41


cie de “festa” no espaço. Ele conta que o clima esquentou e os “velocímetros” foram lá para cima. Tanto que a gerência do estabelecimento, com muito jeito, teve de pedir para as coisas se acalmarem, já que eles estavam incomodando os outros casais dos boxes ao lado. “Foi uma farra inusitada. É claro que não dá para fazer sempre, mas recomendo”, diz. Apesar da sensação de aventura no sexo nos drive-ins, a psicóloga Carla Cecarello afirma que a relação dentro de um carro não permite que o casal exercite as preliminares. “O sexo é mais rápido e, portanto, pode dificultar a obtenção do orgasmo feminino”, alerta. Ainda segundo ela, os benefícios variam muito do que o casal procura. “Mas podem ser desde uma

EM VERSÕES MAIS MODESTAS, OS DRIVES TÊM COLCHÕES NO CHÃO E, ÀS VEZES, NEM ISSO: APENAS UMA MESINHA COM DUAS CADEIRAS

quebra da rotina, experimentar posições e lugares diferentes e, além disso, existe e possibilidade de colocar aquela música para apimentar ainda mais o momento”, recomenda. A secretária Renata (nome fictício) também diz que gosta de transar nos drive-ins. Segundo ela, tudo começou com um namorado que gostava de uma pegação dentro do carro. Mas, em função do temor da violência, passaram a frequentar os drive-ins. “Quando a coisa começa, os vidros do carro ficam embaçados. Aí, ninguém vê mais nada e fica perigoso. Então, os drive-ins acabam sendo uma opção segura para quem está em busca de uma rapidinha”, explica. Meio desanimados com o desempenho dos empreendimentos, os proprietários dos drive-ins na capital mineira passaram a perceber, nos últimos meses, um aquecimento no setor. A violência, que brocha alguns casais, de certa forma, reverteu-se como uma injeção de Viagra nos estabelecimentos. A falta de segurança, inclusive, é apontada como um dos principais fatores que levam as pessoas aos drive-ins. Até porque, geralmente, as pessoas que gostam de sexo no carro costumam pará-los em lugares sem muito movimento e sem iluminação, o que facilita a ação dos criminosos. Dênis de Melo, gerente do Pit stop, na Avenida Antônio Carlos, no Bairro São Francisco, reforça que o aumento da movimentação nos drive-ins se deu em função da onda de violência. “A segurança, hoje, é um dos principais aspectos para que os casais procurem esses locais, pois eles não estão sujeitos a assaltos e outros tipos de violência”, assegura.


Além de se precaver contra os assaltos, quem gosta de transar no carro precisa saber que a prática, quando feita em locais públicos, configura crime. Quem faz sexo em local público pode responder por ato obsceno, artigo 233 do Código Penal. As pessoas podem ser condenadas de três meses a um ano de prisão. Com dez anos no ramo, o gerente do Ponto G, José Garcia, lembra que, além de se livrar de inconvenientes com a lei, a pessoa, no drive-in, vai ter uma transa mais picante. “Pois foge do convencional que é a cama”, diz o gerente, lembrando também que, por ser mais barato que motel, o drive-in pode servir de preparação para o ato. “Muitas vezes o casal está em dúvida se deve ou não ter uma relação sexual. O drive-in pode funcionar como um preparo para o motel. O casal pensa: vamos ver primeiro como é”, completa. Com isso, de forma geral, os frequentadores de drive-ins têm mesmo o que comemorar. Os estabelecimentos estão cada vez mais equipados. Antes eram apenas cubículos, fechados com um portão. Agora, os espaços estão modernos. Um dos mais “sofisticados” é o Millenium, na região do Barreiro. Inaugurado em 2001, o drive-in conta com 15 boxes.Todos possuem camas e banheiros. Segundo Pedro Ferreira, um dos proprietários do negócio, os estabelecimentos, se quiserem se manter no mercado, precisam oferecer parte do que os motéis oferecem. “É uma evolução do negócio. Agora, ainda temos uma vantagem sobre os motéis. Não cobramos por hora e, sim, por permanência. O cliente pode ficar o tempo que quiser, pelo mesmo valor, desde que não saia do boxe”, revela o empresário, que pretende até investir na ampliação.


VIAGEM

LONDEANDO MUITO ALÉM DAS OLIMPÍADAS

POR AIRTON ROLIM FOTOS MARINA TEIXEIRA

Se existe uma palavra para descrever Londres, essa é certamente “diversidade”. Enquanto sedia os Jogos Olímpicos e logo após comemorar os 60 anos de trono da rainha Elizabeth II, a capital do Reino Unido mantém seus incontáveis universos paralelos a todo vapor. É tanta cultura, etnia, religião, língua, gente, costume e evento diferente... E, apesar de ser uma das cidades mais caras do mundo, dá para fazer muita coisa de graça ou pagando bem barato.

1 VÁ A PÉ!

Uma sensação incrível é deixarse perder pelas ruas e vielas. Descobre-se muitas coisas e o cenário muda o tempo todo. Uma ideia também são os tours a pé grátis, incluindo o do Jack, o estripador. É só ir no newlondon-tours.com


2 LONDRES SOBRE DUAS RODAS

As bicicletas públicas estão por toda parte e custam menos do que ônibus ou metrô. Uma dica é pegar uma magrela em Notting Hill, depois de visitar a feira da Portobello Road e pedalar às margens do Grand Union Canal. O itinerário cruza a charmosa Little Venice, margeando o Norte do Regent’s Park, e corta o zoológico ao meio. Devolvendo a bike logo depois do zoo, a pedida é subir a colina do Primrose Hill, com uma das vistas mais fantásticas da capital.

3 CRUZEIRO NO TÂMISA

Para ver os principais pontos turísticos por uma perspectiva fascinante, é só pegar um barco sentido Leste no Westminster Píer, bem abaixo do Big Ben e da London Eye. A arquitetura das pontes é incrível. E o trajeto passa por Southbank, pelo prédio circular da Prefeitura, pela catedral de St. Pauls, pelo Museu de Arte Moderna, pelo Shakespeare Globe Theatre, pelo Tower of London e pelo Tower Bridge, além dos imponentes edifícios da city. O passeio termina em Greenwich, onde fica o famoso Meridiano. Lá estão também o observatório astronômico e o Museu Marítimo.

4 FALANDO EM VISTA...

Em pleno cruzamento da Oxford Street com Tottenham Court Road, no miolo de Londres, a vista de 360° do topo do prédio do Centre Point, no 32º andar, é de tirar o fôlego. Já no restaurante na cobertura da National Portrait Gallery dá para ver a Trafalgar Square de cima e todo o Sul da cidade. No café do Museu do Design, as paredes de vidro oferecem uma bela visão da Tower Bridge, uma das pontes mais famosas do mundo. No domo da catedral de St. Pauls, além da magnífica vista do Tâmisa, está a interessantíssima Galeria do Sussurro. 45


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CINEMA EM TETO DE ZINCO QUENTE

BEER GARDENS

Já pensou em ir ao cinema no telhado de um pub? Assim é o Rooftop Film Club, no Queen of Hoxton, em Shoreditch, uma das áreas mais hypes, no Leste. Mais cool ainda é o Dalston Roof Park, na cobertura de um prédio no extremo Leste. Lá no alto rolam feiras de comida e artesanato, mostras de arte e shows.

Fazer um tour pelos famosos pubs ingleses pode ficar mais interessante no verão, com os “jardins de cerveja”. Destaque para o Secret Garden, em Battersea, no Sul; o Edinboro Castle, em Camden, onde rola churrasco no jardim; e o tradicional Windsor Castle, em Holland Park.

7 É VERÃO? NADA!

É fato que o verão londrino tem mais chuva e frio, mas quando o sol resolve aparecer, nada mais prazeroso que nadar nos lagos de Hampstead Heath. E muita gente não sabe disso! Londres tem também várias piscinas públicas outdoor. Limpas e organizadas.

8 PARQUES ABERTOS DESDE O SÉCULO 17

Existe pelo menos um parque por bairro, e o verão é a temporada dos piqueniques, banhos de sol, cricket, futebol e rugby. O destaque vai para o Richmond Park, com diversificada vida selvagem e campos de golfe. O escondido Chelsea Physic Gardens é o segundo jardim botânico mais antigo da Grã-Bretanha, fundado em 1673, em Chelsea, a região mais posh (elitista) da cidade. Sem contar os famosos Hyde Park, Holland Park, Regent’s Park, St. James e Green Park, no Centro.

Regent’s Park


9 STREET MARKETS

Os mercados de rua estão por toda parte, com destaque para o peculiar e artístico Broadway Market, em Hackney. Já o Borough Market, em London Bridge, é o mercado central londrino. O de Brick Lane, aos domingos, é supermulticultural. Já o da Columbia Road em Whitechapel é o colorido mercado das flores. Não dá para deixar de citar os famosos Stables Market e Camden Lock, na gótica Camden Town.

Stables Market em Camden Town O restaurante Petersham Nurseries fica dentro de uma estufa de flores

10 Londres é provavelmente a cidade com a maior diversidade gastronômica do planeta. Para falar dos mais excêntricos, tem um restaurante “cego”, o Dans le Noir, em Farringdon, com um menu surpresa, totalmente no escuro. No The Mayor of Scaredy Cat Town, em Liverpool Street, rola um bar secreto com entrada por uma porta de geladeira. Em Richmond, o Petersham Nurseries fica dentro de uma estufa de flores, com chão de terra batida e comida caseira. No Centro, em Covent Garden, tem o exótico Sarastro, em forma de teatro. Num porão em Charring Cross, o Gordon’s é a casa de vinhos mais antiga do mundo ainda aberta, desde o fim do século 19.

petersham/nurseries

TEMPEROS DO MUNDO


CULTURA

erra audade da

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A MENOR CIDADE DE MINAS GERAIS E SEUS PERSONAGENS POR BRUNO MATEUS FOTOS BRUNO SENNA

Chegar à Serra da Saudade não foi fácil. Não que o caminho fosse longo e sinuoso, não é isso. Dois viajantes um pouco distraídos e a nossa noção geográfica não tão boa ajudaram a atrasar nossas previsões. Poucos carros em direção à cidade denunciavam que estávamos mesmo indo para um lugar completamente diferente de tudo o que vemos nas cidades grandes, com toda essa correria desenfreada que agrada a muitos, e em outros tantos coloca na cabeça uma ideia contestável de progresso. Serra da Saudade, a 270 quilômetros de Belo Horizonte, é a menor cidade do estado em número de habitantes, com 815 moradores — segundo o Censo do IBGE/2010, é a segunda do país, só perdendo para Borá, no interior paulista, com 805. Em fevereiro de 2006, os Rolling Stones fizeram um show histórico no Rio para 1,3 milhão de pessoas. Para se ter uma ideia, seria preciso multiplicar a população de Serra da Saudade por 1.600 para conseguir lotar as areias de Copacabana. No entanto, em extensão territorial, a cidade na Região Central de Minas tem números de metrópole — 335 quilômetros quadrados, quase o mesmo que Belo Horizonte. Mas na capital mineira são quase 7.200 habitantes por km², enquanto esse número em Serra cai para menos de três. A história da cidade, como de muitos outros povoados da primeira metade do século passado, passa pela linha do trem e o desenvolvimento e o progresso trazidos por ela. Na década de 20, a construção da estrada de ferro e a inauguração da estação ferroviária trouxeram moradores e movimento à região, com a instalação de casas comerciais e restaurantes — e a cidade foi crescendo e novas ruas ganharam vida ao redor da praça. As décadas seguintes foram movimentadas, de muito comércio e festas. Em 1963, num primeiro de março, foi fundada a prefeitura da cidade e, em agosto do mesmo ano, Serra da Saudade deixou de pertencer a Dores do Indaiá e ganhou status de município. Com a construção da BR-262, o intenso movimento teve uma importante redução, até que em 1969 a ferrovia teve seus trilhos arrancados. O que, de certa forma, fez com que o lugar se tornasse, para sempre, um paraíso de ares tranquilos encravado ao pé da serra.

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Todas as noites, Zé Sinhorio vai dormir com a cabeça no passado

A CIDADE E SEUS PERSONAGENS

Seu Odilon Costa ainda se lembra de quando chegou à Serra da Saudade, há 65 anos. “Aqui na praça passava a ferrovia. Era muito movimentado, transporte em carro de boi.” Foi nos bailes dessa mesma praça que Odilon conheceu a esposa, falecida há quase sete anos. Recentemente, ele teve um infarto. Contrariando as expectativas médicas, sobreviveu e, sentado na varanda de sua casa, aos 86 anos, visita o passado como se pudesse ainda dançar pela primeira vez com a mulher que foi sua companheira por 52

Em 1969 a ferrovia teve seus trilhos arrancados, o que fez com que o lugar se tornasse, para sempre, um paraíso de ares tranquilos encravado ao pé da serra

anos. “Ela agradou de mim, eu agradei dela. Começamos a namorar e acabamos casando. É o destino, né sô?”. Viver arrependido é o destino de Zé Sinhorio. De família nobre, moço trabalhador, rico, solteiro, Sinhorio teve uma vida de rei. “Fazenda grande, comprava muito boi”, lembra. Foi muito namorador, só moça boa, ele diz. Sinhorio, por ciúmes, matou duas mulheres em 1963. Um ano depois, foi preso. Ele diz que foi bem tratado nos 10 anos em que ficou na cadeia. Mas a lembrança daqueles tiros sempre o acompanhará. “Gostava demais delas. A gente fica pensando, vou esquecer, já passou... Mas não esquece. Pedi a Deus para dar um bom lugar pra gente, sem Deus a gente não vale nada.” E hoje, na casa de um cômodo onde mora sozinho, próxima ao cemitério, ele vai se deitar pensando no que fez, tendo as estrelas que cintilam no céu de Serra da Saudade como confidentes. Jair José de Sousa, de 76 anos — embora sua mulher jure de pé junto que ele tem bem menos —, mora em Serra há 35. Vive com a esposa e o caçula dos quatro filhos numa casa perto da praça. Um quadro de Ayrton Senna e outro de Santo Expedito decoram a parede da sala. Goiano, como é conhecido, gosta de andar por aí assobiando e cantando. Vai à praça conversar com os amigos, por lá toma um refrigerante. “A cervejinha também tem seu lugar”, ri.


A fala cantada, mansa guarda nesse senhor a nostalgia, e quando ele fala, a lágrima parece irremediável. Ele se alegra e sorri quando diz que gosta de cantar música sertaneja, fumar um cigarrinho. E tem saudade do tempo em que podia trabalhar. “Hoje tenho vontade de trabalhar, mas por problema de coluna não dá, isso judia demais da gente.” Os olhos de Beatriz brilham quando fala do futuro. Ela faz faculdade de nutrição em Bom Despacho, a uma hora e meia de ônibus de Serra da Saudade — ela até leva travesseiro para a outra uma hora e meia de volta, já no fim da noite. Beatriz gosta muito de Serra da Saudade, mas, como toda jovem de 22 anos, ela tem sonhos e faz planos: quer se formar no fim do ano que vem e se mudar para uma cidade maior, com mais possibilidades. “Meu sonho é ser totalmente independente, estudo para isso. Minha independência é o que eu mais queJosé Jair de Sousa, o Goiano, anda por Serra da Saudade cantando e assobiando

ro”, diz. Na menor cidade de Minas, o que não podia faltar também é o famoso disse me disse. “Um pouquinho de fofoca tem. Todo mundo fala um pouco da vida do outro”, confessa. A impressão que se tem é que as coisas realmente funcionam em Serra da Saudade. O centro cultural oferece curso de informática, aulas de dança, sem nenhum custo para os moradores, que também têm um centro esportivo com quadras de futebol e de volêi de areia e duas piscinas. Todas as residências com computador recebem automaticamente acesso gratuito à internet, fornecido pela prefeitura desde janeiro de 2011. Serra da Saudade conta com uma creche e uma escola municipal, que funciona em dois turnos com ensino fundamental e médio e atende cerca de 200 alunos, que recebem café da manhã, almoço e lanche. Trinta e cinco por cento dos estudantes vêm da zona rural. Engana-se quem imagina que a menor de cidade de Minas está no meio do nada, longe das parafernálias tecnológicas. Fernando, de 11 anos, tem Orkut, Facebook, Twitter, MSN e e-mail e fala com a naturalidade de quem vê nisso pouca novidade. O amigo Vinícius, da mesma idade, tímido num primeiro momento, se apressa em di-

Um quadro de Ayrton Senna e outro de Santo Expedito decoram a parede da sala. Goiano, como é conhecido, gosta de andar por aí assobiando e cantando


zer que só não tem Twitter. Em Serra da Saudade, é possível fazer coisas que seriam loucura na cidade grande — dormir com a casa aberta, por exemplo. Violência é um mal do qual Serra da Saudade não sofre. Há mais de 20 anos não se tem notícia de homicídio na cidade. As pouquíssimas ocorrências que o cabo da Polícia Militar Carlos Júnior registrou foram de furtos corriqueiros — e nenhum assalto nesses quatro anos em que está na cidade. E ele não pretende se mudar tão cedo. Apesar de sentir muito a falta do marido, morto há menos de um ano, Dona Diná só tem boas lembranças das quase quatro décadas em que mora na cidade. “Fui muito feliz aqui. Lembro com muito carinho de todas as fases que vivi aqui. Muitas festas, muitas coisas bonitas que passei”, conta. Quando chegou à Serra da Saudade, naquele 22 de maio de 1976, a estrada de ferro não mais existia. “A cidade já era um cantinho sossegado. As ruas não eram asfaltadas, era tudo mais simples. Tem melhorado muito”, diz. “Serra da Saudade mudou muito, ficou bonita. Mas a população não cresceu não, sô”, diz Valdemar Cardoso, que chegou há 20 anos “já querendo descansar”. O fato de todo mundo da cidade se conhecer, para Dona Diná, torna Serra da Saudade um lugar especial: “É como se a gente fosse uma única família”. ESTRANHOS NA NOITE

Obviamente, sabiam que havia dois desconhecidos na cidade. Já tínhamos sido vistos caminhando, conversando com os moradores, tirando fotos e, quando a fome apertou, lanchando na única padaria de Serra da Saudade. E já sabíamos que para

O dia de Aloísio Aparecido começa às 4h30 — às 6h já tem pão saindo do forno 52

Vinicius e Fernando: nossos primeiros entrevistados

passar a noite era preciso ir à casa de Dona Lia, uma senhora que nos alugou um quarto simples, porém aconchegante. Evangélica, ela disse que não participaria da quadrilha na praça, no dia seguinte. Nem vai passar perto, garantiu. O neto de Dona Lia comia uma linguiça da roça com vontade. Ele tem 4 anos — com uma cara invocada, andava de bicicleta com as rodinhas bambas. A noite de Serra da Saudade pediu algumas cervejas e uma prosa no bar de Seu Donizete, umas partida de sinuca com o Daniel e duas boas rodadas de frango frito no boteco do Zé Preto. Os cachorros se amontoaram e disputaram os ossos. A mesma lua que já iluminou a mansão de Jay Gatsby brilhava e a fumaça do cigarro se espalhava lentamente pelo ar. Era hora de dormir.


Construída em 1922, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo é o ponto mais alto da cidade

LENDAS

Os meninos Fernando e Vinícius falaram algo sobre uma história que aconteceu há muitos anos. Em Serra da Saudade, todo mundo conhece o “causo” do menino que entregava marmitas para os trabalhadores do túnel. As lembranças de Zé Gomes, de 76 anos, reviram o passado, “quando o pau quebrava mesmo nas festas”. “Deve ter sido em 1948, mais ou menos. Contavam que ele era carregador de boia para a turma. Ele ‘lá ia’ com as marmitas e caiu um dreno na cabeça. Ele era novo, rapazinho. Tem a cruz lá para ele”, diz, referindo-se ao símbolo no local de sua morte. Tem a história da Balofa também, uma mulher que morava ali, aponta Zé para a rua à direita da praça. Segundo a lenda, ela bebeu veneno e se afogou dentro de uma gruta na região, em 1940 e poucos, não se sabe ao certo. Fantasmas não assustam Zé Gomes. “O povo contava isso, que ali naquela curva aparecia assombração, mas nunca vi isso não”, ri, dizendo que mora sozinho e nunca viu nada. Outra lenda explica o nome da cidade. Conta que, no século 18, uma tribo de índios vivia ali. Por motivos desconhecidos, a tribo foi dizimada, restando apenas uma sobrevivente, que vivia em completa solidão. Certa feita, parentes que moravam na Bahia lhe escreveram uma carta — naquela época o transporte era lento e improvisado. Muito tempo depois, a carta chegou, mas a índia já havia falecido. Os moradores, então, abriram a carta, um tanto danificada, com uma única letra legível: saudade.

Em Serra da Saudade, é possível fazer coisas que seriam loucura na cidade grande — dormir com a casa aberta, por exemplo A rua principal de Serra da Saudade: tranquilidade

Segundo a lenda, a cruz é para o menino que morreu no túnel

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ENSAIO

ANテ年IMOS EM PARIS


Uma viagem a Paris, no fim do ano passado, e algumas ideias na cabeça fizeram com que a fotógrafa Tatiana Caju saísse de lá com o ensaio Anonymous in Paris. Foram 40 dias observando a cidade acontecer em diferentes pontos da capital francesa — da correria de uma avenida a uma rua pouco movimentada. Aliar experimentos fotográficos a um olhar bem particular sobre a Cidade Luz e seu cotidiano do caos era a ideia da fotógrafa. “E poder ver isso de uma forma poética”, completa.


PAPAI CHEGOU PERFIL

DANDO SINAIS DE QUE QUER CRIAR UMA RELIGIテグ, MR. CATRA FALA SOBRE SUAS MUITAS MULHERES, AMOR AO FUNK E テ好OLOS DO FUTEBOL POR Flテ。via Denise de Magalhテ」es FOTOS Lucas de Souza

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Mr. Catra faz o que ele chama de "sinal do avatar"

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Ele nasceu Wagner Domingues Costa, filho da Dona Elza, do Morro do Borel, no Rio de Janeiro. Mas, ainda no berço, foi para o bairro de classe média Usina, no Alto da Boa Vista, onde o patrão e pai de criação da mãe virou também pai de Wagner, que estudou nos melhores colégios do Rio, chegando a cursar a faculdade de direito por dois anos. Curiosamente, foi no morro que ele se encontrou. Mais precisamente, no baile funk, como Mr. Catra — inspirado no Morro Doutor Catrami. E foi na parceria com Valesca Popozuda na canção Mama, que chocou e divertiu o país, que Mr. Catra chegou a um novo patamar da fama. Em uma conversa no seu apartamento no Rio em que não faltaram participações especiais dos filhos, amigos e de uma das suas mulheres, Silvia Alves, ele proclama seu amor ao funk — “É a cola da cidade partida” — e mostra porque é conhecido como um cara polêmico ao oferecer opiniões, sobre mulheres e homens, que arrepiam os cabelos até de quem não é feminista.

O QUE É O FUNK PARA VOCÊ? É UMA COISA QUE VEM DO CÉU. Como assim? O FUNK É UMA BENÇÃO de Deus. O funk resgata, ele é a cola da cidade partida, é a alegria. Funk salva muita gente. Entendeu?

Você fez faculdade de direito por dois anos . Por que largou? PORQUE QUANDO VOCÊ ENTENDE que existe uma lei divina, não é justo você estudar para exercer a lei do homem. É melhor você ter sabedoria e exercer a lei de Deus.

Quantas mulheres você tem? É DIFÍCIL FALAR “tenho tantas esposas”. É uma caminhada muito longa de uma mulher até chegar a ser a minha esposa.

O que envolve essa caminhada? VOU FALAR UMA COISA PARA VOCÊ:

envolve muita coisa. Sou homem à pampa, sou sujeito homem. Para ser minha mulher, tem que chegar ao grau de sujeita (sic) mulher como eu sou sujeito homem. Entendeu?


Existe diferença entre elas? NÃO QUERO SABER de onde veio. Mas, se

Não rola ciúmes entre elas? CIÚMES É COISA DE MULHER POBRE. Entendeu? Ciúmes é

coisa de mulher pobre.

E você? Tem ciúmes delas? NÃO TENHO CIÚMES. Gosto de respeito, tá ligado? Porque, se faltar o respeito, vai sapateando.

Como funciona esse respeito? Existem limites? TEM. A leoa não respeita o leão? A égua não respeita o garanhão? A vaca não respeita o touro? Então, a mulher tem que respeitar o homem. A mulher tem que se colocar no seu lugar de mulher. O homem é o animal mais irresponsável de toda a natureza. Os animais da natureza, pelo menos, faziam alguma coisa pelos seus, pela sua cria. O homem não. Nem pela sua cria, nem pela sua fêmea. Tudo que o garanhão pega, ele leva na vida e vai aguentando nas quatro patas. O leão, a mesma coisa. O homem, infelizmente, não faz isso. O homem perdeu a responsabilidade de macho e a mulher perdeu a responsabilidade de fêmea. Isso tudo é culpa da semente da nossa sociedade. Lá de baixo, lá de trás.

Lá de trás, de quando?

é baseada nas leis da Igreja Católica Apostólica Romana, logo, a semente da nossa sociedade é a Roma Antiga, onde as leis eram feitas por Baco: veado [gritando]. Ele não era homossexual, era veado. César: veado. Marco Antônio: veado. Alexandre: veado. E não sou obrigado a viver na modernidade da veadagem. Sou homem, entendeu? Por isso a corrupção nunca vai acabar no nosso país, por isso a pedofilia nunca vai acabar. Porque essa é a modernidade da Roma Antiga. É uma sociedade incestuosa, pedófila, pederasta. Uma sociedade podrona, corrupta. Isso veio da época de César.

A NOSSA SOCIEDADE

E como se conserta essa sociedade? COM UMA REVOLUÇÃO MENTAL da população, mas a natureza... Sabe o que acontece? Você pode envolver a terra de asfalto, que a natureza vai sempre prevalecer, ela vai romper o asfalto, vai quebrar tudo. A natureza vai prevalecer. Então, o homem tem que voltar à sua forma natural.

depois que eu passar a sabedoria, continuar na mancada... Profana quem queira ser. Eu dou a oportunidade. Porque dentro do fundamento se dá ajuda. Uma coisa muito louca, esse negócio é a maior burrice, casar um homem com uma mulher. A sociedade fica fraca, as famílias ficam fracas. As pessoas não param para pensar que Deus é exato. Ele não faz nada errado. Se Deus fez mais mulher do que homem, fez uma penca de homossexual, será que é para o homem ter uma mulher só? Será que não tem homem no mundo que não vê que nasce mais mulher do que homem e que, no meio dos homens, tem os caras que não gostam, o que é opção deles? Homem quando é homossexual não pega mulher. Agora mulher, quando é lésbica, dá uma sentadinha. Se não fosse assim, a indústria dos vibradores estaria falida.

Então mulheres e homens não são iguais? SE FOSSEM IGUAIS, não existia prostituição.

E elas ainda têm que carregar a gente nas costas, porque a prostituição existe pela necessidade do homem, num lance que vocês [mulheres] falam que é traição. Traição só se o cara virar veado. Aí ele está traindo a mulher dele. Se ele da noite para o dia começar a dar, acabou-se. E digo legal para todas as mulheres: a amante do seu marido tem que ser a sua melhor amiga. É melhor somar com a melhor amiga do que perder para a piriguete. A maioria dos casamentos é destruída assim. Burrice da mulher, que quer envelhecer sozinha. E olha, uma mulher levanta um homem. Duas fazem dele um lorde. Três, um príncipe, e cinco: rei.

Qual é a forma natural? A FORMA DO HOMEM COMO HOMEM.

Responsável por tudo que faz, responsável pelos atos dele, responsável pelas mulheres que tem. Porque, hoje em dia, é mole. Uma pancada de prostituta no meio da rua. E, de coração? É triste. A maioria das mulheres tem preço. Isso é triste numa sociedade. Eu venho de uma cultura na qual as mulheres são sagradas [judaísmo]. E elas são sábias porque se colocam na condição de sagradas. É uma mulher que respeito. Venho de uma sociedade que a mulher não tem preço. Onde é a mulher que faz o homem, são as mulheres do homem que fazem o homem. Se existe sultão, se existe sheik, se existe rei é por causa das rainhas, das esposas e das consortes. Eu vim de uma cultura onde só existem dois tipos de mulher: uma antes e a outra depois de mim.

Homem quando é homossexual não pega mulher. Agora mulher, quando é lésbica, dá uma sentadinha


O funkeiro e uma de suas mulheres, Sílvia Alves

A AMANTE DO SEU MARIDO TEM QUE SER A SUA MELHOR AMIGA. É MELHOR SOMAR COM A MELHOR AMIGA DO QUE PERDER PARA A PIRIGUETE

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O problema da mulher hoje é que ela acha que todo mundo que usa calça e tem um membro entre as pernas é homem Abraão. Eles não falavam com Deus? Ele

precisava ir à igreja, à sinagoga, ao centro de macumba? Ele precisava ir a algum lugar? Então, estou aqui bem com o Senhor. E uma coisa que aprendi é que não tomo decisão. A outra coisa que aprendi é que a melhor coisa do mundo é você não ter opção.

Então, a mãe delas as faz sofrer porque vêm de um mundo de ilusão, não entendem a realidade. Sabe qual é o problema da mulher hoje em dia? Ela acha que todo mundo que usa calça e tem um membro entre as pernas é homem. De coração, nem todo mundo é homem. Então você é contra a monogamia. TOTALMENTE.

E se o homem só quiser uma mulher? FICA DIFÍCIL. Você não pode ir contra a natureza de Deus. Na natureza, o homem é macho como qualquer animal é macho, senão não existia a prostituição. É a natureza do homem.

Todo homem trai? A GENTE NÃO TRAI.

Então, você deixa as coisas acontecerem? NÃO,

deixo tudo na mão de Deus.

Você assume a responsabilidade por toda a sua família (mulheres e 20 filhos). Como isso funciona?

Com amor. Se tiver amor, não tem dificuldade. Só você amar a sua família que o resto Deus faz. Mas tem que amar de verdade.

TRABALHANDO.

Você é rei?

um instrumento na mão do senhor. Mais nada. Agora... Todo poder é concedido por Deus. Por enquanto não tenho nada de rei não. Mas vou chegar lá. Para que eu seja um rei, é preciso mulheres doutrinadas e é difícil doutrinar uma mulher católica, uma mulher cristã. É difícil demais. Porque ela já está contaminada pela mente romana. O errado já passou por certo na cabeça da mulher. O ciúme, porque “o homem é igual à mulher, tem direitos iguais”. Não quero o direito de dar de quatro. Vocês são lindas dando de quatro, mas não quero esse direito. Quero o direito do camarada ali. Para mim, não. Então, você fica com o seu direito pra lá que eu fico com o meu pra cá.

SOU APENAS

Você estava falando de doutrinar. Você tem uma religião organizada? NÃO DÁ PARA FALAR de Deus e religião no

mesmo assunto.

Mas acredita que outras pessoas devem enxergar Deus da mesma forma que você? MUITAS PESSOAS.

O pessoal gosta de brincar e sempre perguntam se você lembra o nome de todos os seus filhos. Você lembra? LÓGICO, NÉ?

Ainda mais quando vejo.

Você os encontra com frequência? VÊ-LOS É MARAVILHOSO. Tem quem queira ter um monte de carros, vários imóveis. Eu prefiro ter filho. Minha herança é espiritual. Minha herança é muito cara. Tudo que tenho não vale o que sou.

Não tenho religião. Sou que nem Adão, que nem ISSO É ESPIRITUALIDADE PURA.

Não usa essa palavra.

Todo homem tem mais de uma mulher?

Senão não existia a prostituição. Que negócio é esse que dá lucro onde a demanda é menor do que a produção? Antigamente, uma garota de programa vivia um ano da prostituição e construía a vida. Hoje, é subsistência por causa da mídia, da prostituta boazinha. Várias meninas que podiam ser outra coisa na vida viram prostitutas por causa da influência da mídia. Antigamente, me recordo muito bem, só tinha prostíbulo no mangue, em Copacabana e na Quinta da Boa Vista. Depois daquela novela da Capitu [Laços de família], abriram-se vários puteiros. Não tenho nada contra as prostitutas, mas isso é um bagulho que fere a mulher no “eu” dela. Fere o espírito da mulher, porque tem uma troca de energia.

LÓGICO.

Como funciona essa troca? Seus filhos seguem a sua espiritualidade? ELES TENTAM SEGUIR, mas, infelizmente, algumas mães entram na mente das crianças. Mas eles estão crescendo. E quando crescer vão ter o discernimento do que é certo e errado. É com o tempo. Não esquento a cabeça não. Sou imortal, sou eterno, então aguardo meus filhos crescerem. A melhor coisa do mundo é você perder o medo da morte.

E as suas filhas? Já demonstraram alguma opinião sobre a sua espiritualidade? JÁ.

Como isso funciona sem ser uma religião?

[Fica bravo]

O que elas dizem?

A maioria delas tem um problema por causa do recalque da mãe.

UMAS ACEITAM.

A ENERGIA DO HOMEM fica seis anos dentro de uma mulher. Você vê que quando começa a conviver com uma mulher, ela pega o seu jeito de falar, de andar. É porque sua energia está dominando o corpo dela. O homem demora seis horas para limpar o corpo de uma mulher. A mulher demora seis anos. E você pode ver que todas essas piriguetes aí são bipolares. Pode reparar. Essas mulheres “dadeiras” são todas bipolares, tripolares, quadripolares. É muita energia misturada, confunde a mente. As pessoas acham que sexo é um bagulho carnal, mas é espiritual, você está trocando energia. O gozo é a palavra mais sagrada depois de Deus. Porque é do gozo que vem a vida. E as pessoas fizeram o amor ser promíscuo. Sabe qual é a primeira coisa que a mulher fala para você quando se apaixona? “Nega teu Deus, otário”. E você, como um bom otário, 63


vai e nega. “Amor, eu não sou tudo na sua vida?” “É”. Acabou-se. Você, na frente do juiz, jura uma fidelidade que não pode. Você está montando a sua família em cima de uma mentira. Casamento, véu, grinalda e tal é mentira! [Aos gritos] Deus não erra, isso aprendi no Oriente. Dois mais dois são quatro. Não são cinco e não são três.

Vocês escreveram juntos?

essa música quem fez pra gente foi o Mag, grande letrista, MC nervoso, pagodeiro. O cara é multicaneta e ainda por cima canta.

NÃO,

Quem chamou você para cantar? EU E A VALESCA

temos um casamento artístico.

Só artístico? Você teve um momento de espiritualidade no Muro das Lamentações. O que aconteceu?

Morri e ressuscitei. Matei um espírito que acreditava em um estilo de vida e dentro de mim renasceu outro. O que estou falando com vocês não li em lugar nenhum, não busquei em livro nenhum. “Para você acreditar na vida, tem que acreditar no Torah; para acreditar no Torah, tem que acreditar no Alcorão, tem que acreditar no livro dos antigos.” Quer que eu fale legal? Foi tudo escrito por homens. Tudo foi um homem que escreveu para fazer lei. A maior maldição do mundo foi o número e a letra. A letra para você escrever lei e para enganar os outros. O número para reunir riqueza. Antigamente, quando as coisas eram trocadas, as pessoas eram mais felizes.

SENTI O ESPÍRITO DE DEUS ALI.

Vamos falar um pouco de funk?

O funk é isso. É uma cultura livre. No funk, a gente faz o que a gente quer. É o movimento que mais dá ouvido e valor à mulher. No funk, ela pode ser o que quiser. Se quiser ser safada, vai falar “sou safada”, e tá tranquilo. Se ela quiser ser responsa, vai falar e tá tranquilo. Se ela quiser falar que é lésbica, vai falar e demorou! Ninguém vai discriminar. Temos homossexuais que cantam funk e são DJs e ninguém discrimina. O funk é uma família muito grande.

NÓS ESTAMOS FALANDO DE FUNK.

E a música que você canta com a Valesca Popozuda?

Mama é uma obra de arte. Não é uma música, é uma inspiração. Porque todo mundo tem vontade de falar “mama” nessa hora. Mama é uma coisa que vem do fundo.

O MAMA?

Respeito muito a Valesca. Ela é uma mulher excepcional. Considero-a muito, a admiro muito pelo jeito de ser, pelo jeito de me tratar, pelo carinho que tem por mim. A paixão que a gente tem um pelo outro atravessa o limite de homem e mulher. É uma admiração tão grande que a gente nem pensa nisso. Nossas famílias se conhecem. Ela é uma irmã.

SÓ ARTÍSTICO.

E a letra? Qual foi sua reação quando viu? A PRIMEIRA COISA QUE FIZ FOI RIR PRA CARAMBA. O Mag

falou: “É a sua cara! Sua e a da Valesca”. Fizemos o som.

Como está sendo a reação da galera? UÉ, É A MÚSICA MAIS BAIXADA DOS ÚLTIMOS TEMPOS.

[Gargalhadas] O que você acha? E o retorno financeiro?

já está dando. A gente não fala em financeiro, a gente fala em prosperidade. No funk, você não é rico financeiramente, você é próspero. Você tem que tratar bem da cultura, porque ela é uma benção. Não é acima de Deus. Funk é uma coisa dos mais desfavorecidos. É uma cultura que não adianta ter dinheiro, não adianta ter nada. O funk acontece, é uma mágica. Assim como aconteceu com a Tati Quebra-barraco, com o Insensatão. Acontece. O funk é muito louco, uma magia muito louca. Espiritual total.

O RETORNO QUE TINHA QUE DAR

Apesar disso, tem gente que critica a letra de Mama, diz que é muito explícita. É. A GENTE FEZ UMA MENOS EXPLÍCITA AGORA. Uma versãozinha light para as pessoas não ficarem “oh!”. Porque na cama ninguém quer saber de nada, todo mundo é piranha, é safado. Mas saiu da cama, você falou alguma coisa: “oh!”. À noite, ela estava gritando aqui na cama. Acho que a pessoa fica: “Será que me escutaram?” [Risos]

Se não tivesse funk no Rio, a galera ia curtir o quê?

com outro nome. [Gargalhadas] Se não existisse o funk, ia ter a mesma coisa com outro nome. Mas ia existir, porque o funk é a vontade de Deus.

OUTRA COISA DA MESMA FORMA

Quando você começou a cantar?

MAMA É UMA OBRA DE ARTE. NÃO É UMA MÚSICA, É UMA INSPIRAÇÃO 64

CANTAVA ROCK 'N' ROLL NO GINÁSIO.

E como chegou no funk?

criei uma banda de hip-hop com o DJ Fernando Neurosis chamada Contexto. Foi nessa época que conheci dois Marcelos e um Falcão. [Risos] A gente ensaiava sempre junto no estúdio do Lobato. Contexto, Planet [Hemp] e O Rappa. O sonho dos meus amigos se realizou. Ouvir o som de todo mundo acontecendo, do Marcelo D2, do Falcão, o sonho de vários irmãos. A gente cresceu junto. Eu e o Marcelo, a gente faz aniversário no mesmo dia. É difícil de

DO ROCK,


divulgação

push/divulgação

marcelo theobald/extra/ag. o globo

Mr. Catra em 2011, durante show (à direita) e com a família (abaixo)

encontrar, mas tenho um carinho e uma admiração muito grande por ele. Somos amigos de muitos anos. Aí encontrei o mundo funk. Fui convidado por dois ícones do funk, o Cidinha, da Cidade de Deus, e o Duda, do Boréu. Eles me falaram: “Essa cultura é a sua cara”. E comecei a estudar. Aí descobri que o funk e a música eletrônica não vieram da América. A música eletrônica é europeia, de Stuttgart. Todo tipo de música eletrônica veio de Kraftwerk. Você planeja show? O FUNK NÃO SE ENSAIA. Ele acontece. Se você planejar, dá tudo errado. Silvia Alves [esposa]: Sabe por que dá errado? Chega lá na hora, ele esquece o que tem que fazer e o que tem que cantar. Melhor deixar ele por conta dele mesmo. [Risos]

Quanto você ganha por show? NÃO SEI.

Meu empresário banca tudo. É ele quem sabe.

time você acha que eu sou? De coração? Não tenho cara de tricolor, não tenho cara de vascaíno, não tenho cara de botafoguense. Só tem um time que encaixa no perfil, pô. Tâmo sofrendo agora, mas vai melhorar. Sou Flamengo e não desisto nunca. Ouvi dizer que você é muito amigo do Neymar.

de coração bom. O pai dele deu [ao garoto] uma educação maravilhosa. Ele é irmão, amigo. O Neymar é sem palavras. Como o Thiaginho também é sem palavras, como o Ronaldinho Gaúcho, parceiro. Tenho vários irmãos.

O NEYMAR É UM MENINO MARAVILHOSO,

O que você achou do Ronaldinho no Galo? Quais esportes pratica?

sou lutador de jiu-jítsu, lutador de boxe. [Risos] Fiz muita coisa, fui campeão de judô, fazia natação. SURFE, SKATE,

E futebol? NÃO SOU BOLEIRO,

mas não faço feio não.

Para que time torce? OLHE BEM PARA A MINHA CARA . Qual time você acha que

eu sou? Pode falar. Sou do Rio, sou negão, favelado, qual

DEMOROU. Já chegou fazendo gol. Gosto dele, independentemente do que aconteceu no Flamengo. O problema foi muito mais sério do que o Ronaldinho Gaúcho. Ele foi só para apagar a fumaça que está por trás. Esse lance de diretoria de clube acabou com o futebol de coração. Acabou o futebol do Garrincha, o futebol dos caras. Eles jogavam por amor, eram guerreiros. Na época, o Brasil era o país do futebol. Hoje, o Brasil é o país do MMA, porque os lutadores são mais lutadores do que os jogadores de futebol. Eles não lutam pela fama, lutam pelo tesão de lutar. 65


Celtic Irish Pub O Celtic Irish Pub é o primeiro bar irlandês de Belo Horizonte. Inaugurada em fevereiro de 2011, a casa recebe todos os dias shows ao vivo de bandas de rock, conta com cardápio tipicamente irlandês e decoração original de um verdadeiro pub europeu. Rua Rio Verde, 253 – Sion (31) 3227 1072 celticpub.com.br


avaliação da casa Para encontrar os amigos

O que sai da cozinha

Quem frequenta

fotos: lucas de souza

“O Celtic tem cara de pub de verdade” quem. quando. porque Saphira Costa Gomes, de 25 anos, frequenta o Celtic desde a inauguração. Carioca, a estudante de arquitetura chegou à capital mineira há quatro anos e diz que o atendimento da casa é o que garante as constantes visitas. “Já trabalhei em outras casas como bartender e de atendimento eu entendo um pouco. O Celtic sabe criar fidelidade com o cliente”, ressalta. Saphira conta que já chegou ao Celtic e deixou seu cartão de comanda a gosto dos atendentes, que escolheram tudo para ela, sem errar nos pedidos. Para a estudante, os melhores dias para ir ao pub são terça, quarta e domingo, pois são mais tranquilos e costumam reunir a galera que curte rock and roll de verdade. A carioca gosta de ouvir o som do The Presley's Band, cover de Elvis, e aponta o ambiente original como outro atrativo da casa: “Diferentemente de outros lugares de Belo Horizonte, o Celtic tem cara de pub de verdade”. A dica de cardápio dada por Saphira são os sanduíches da casa e a Prime Ribs, costela bovina ao molho marinado, acompanhada com cerveja Heineken gelada. “São muitas opções boas. Tudo aqui é muito gostoso”, garante. Ela recomenda o Celtic “porque tem música boa, cerveja sempre gelada e um atendimento diferenciado”.

Cola aí Participe da próxima cobertura fotográfica. Consulte as próximas datas no revistaragga.com.br.

APRECIE COM MODERAÇÃO.


O

ON THE ROAD POR BERNARDO BIAGIONI FOTOS Ricardo Villela

Baile Funk Rio

passei em Copacabana, na primavera de... 1963? O tempo se esvai por pensamentos longíquos e apaixonados. Se antes eu aqui descia cantarolando um samba de Noel Rosa, hoje me parecem muito mais pertinentes os versos do menino Naldo. FAVELA ON BLAST

e

UM CONVITE PARA O RIO DE JANEIRO. UMA FESTA NA ROCINHA

Eu não fumo, mas sei exatamente o momento em que o universo inteiro pede um cigarro. O mundo parece um lugar bem seguro, até que o seu celular vibra, 20h, e todos os planos que você não tinha vão por água abaixo. Era quinta-feira e, bem, os astros estavam colidindo. O telefone toca e tem uma assessora de imprensa do outro lado me convidando para uma desventura inoportuna. Eu trabalho nas sextas-feiras à noite, então escuto. Baile funk na Rocinha, Rio de Janeiro. Embarque imediato pelo portão três. Tenho comigo um fotógrafo desacertado com as malevolências da vida. Piloto de avião e formado em medicina chinesa pelas ruas de Nova Lima, Ricardo Villela é um sujeito de ditados indianos e conversa arrastada — que, invariavelmente, fará você acreditar que também poderia estar cruzando os cinco oceanos em máquinas gigantes e magistrais. Somos dois entre os vários cavalheiros da verdade que estão se encontrando no saguão do aeroporto Tancredo Neves, Confins, agora. BOSSA-NOVA

O Rio de Janeiro queima e os santos fingem que não estão vendo. Seis horas da tarde e a nossa van vai se espremendo pelo trânsito intermitente que serpenteia as esquinas iluminadas. O Rio é uma cidade indócil, inquieta e dissimulada. Sua beleza desconexa inebria uma lembrança que cativo de uma noite que 68

Mas ao contrário do que se esperava — que a globalização e os novos tempos fossem homegenizar a cultura, criando objetos de consumo aspirados por jovens de todos os países —, a contemporaniedade tem comprovado a relevância e o crescimento de gêneros íntimos de uma dada cultura. Como o Kuduro, de Angola. Ou o Funk carioca. O Fuck carioca é o retrato de uma geração em transe. É um gênero em formação, que ainda passa por uma contínua transformação de caminhos e sentidos. Diferentes são suas linguagens. O Andinho, por exemplo, usa a língua para uma coisa. O Catra, para outra. Ou outras. Ao lado do Tecnobrega, o funk continua sendo o gênero mais interessante do Brasi. A razão é simples e rudimentar. Por muitos anos os barões das mídias escolheram sozinhos o que ditar. Hoje, nesta certa revolução tecnológica democrática que vivemos, todo mundo tem onde cantar. BAILE DA FAVORITA

E muitos deles estão cantando aqui, no pé da favela mais famosa do Brasil, e é disso que este texto tem que falar. O credenciamento para entrar na Escola da Samba Acadêmicos da Rocinha não demora e logo estamos nos enfiando entre uma Mercedes e um Audi para chegar ao portão de entrada. Os arcos da Rocinha sobem impunes pelo horizonte pincelado em luzes pequenas e desorganizadas. Parece um céu estrelado que abençoa o despertar da noite carioca. A Escola é grande, mas não tanto. Do palco pequeno dá para ouvir as primeiras notas da noite. Os funcionários da festa mexem-se rapidamente pela pista como animais espreitando comida na selva. Olhando de cima, parece até jogo de futebol que alguém esqueceu de levar a bola.


Mc à vontade no palco de ricos e famosos do baile quente e dominado

Mas todo mundo sabe como se mexer por causa dessa garota chamada Carol Sampaio. Promoter do Rio de Janeiro, conheceu o promoter Michel Diamant em uma noitada carioca, e acabaram afinando algumas ideias. Apaixonada por funk, e como já fazia seu aniversário... funk todos os anos, acabou interligando as coisas e, em 2011, procurou um lugar. Ou talvez o berço. O Baile da Favorita é um dos movimentos mais instigantes no Rio de Janeiro - tanto que agora terá algumas edições especiais em outras cidades brasileiras. Belo Horizonte em agosto. Do ano passado para cá, a festa conseguiu reunir ricos, famosos, modelos, subcelebridades, estudantes de teatro, pilotos de avião, e toda uma gama de profissionais respeitáveis para dançar um dos ritmos mais sacanas do país, como se nada mais fizesse algum sentido. PERIGO

Ricardo que o diga. Piloto de avião contratado e legitimado, o fotógrafo desta matéria não demorou a fazer parte do... contexto. Contudo, no lugar de atender a pedidos contínuos de garotas bêbadas e inconsequentes — como costuma acontecer enquanto está em Terra — em um dado momento da noite pude ver suas pernas tremendo. “A filha do Sílvio, velho!”. A garota agarrou seu braço e o arrastou até o camarote 69


Muitas são as cenas da Favorita. A filha do Silvio e o lutador do UFC (abaixo), as gatas, os famosos e os DJs e MCs. Tubarão, com as duas loiras, sorri no pé da página

RIO DE JANEIRO QUEIMA E OS SANTOS FINGEM QUE NÃO ESTÃO VENDO

mais próximo, porque queria, de qualquer jeito, uma foto com um lutador do UFC. Marcelo Novaes — sim, o ator — acompanhou toda a movimentação incrédulo e saiu de fininho, antes que sobrasse pra ele. Meia dúzia de ex-BBBs dançavam despretensiosamente na plateia. O DJ Wally colava um hit no outro e fazia o pessoal perder o controle. Quando Ricardo levantou a câmera de novo — agora para fotografar um artista da Globo — o jovem pediu carinhosamente para esconder o cigarro antes. O Baile é intenso porque o Rio de Janeiro respira diferente. E não é bom falar demais, porque falar dá ressaca. A van volta a correr na avenida e agora os ânimos estão exaltados. Seis da manhã, e a cidade maravilhosa está amanhecendo. O que está acontecendo, comandante? Pergunta ele. Se nem o Marcelo consegue lembrar onde estacionou o carro, é melhor deixar as conclusões para o segundo turno. 70


/hbbrasil

Photo Fred Pompermayer

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RAGGA GIRL MODELO Verena Moura FOTOS Carlos Hauck MAQUIAGEM JĂšlia Astigarraga

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LIVRARADA #bobdylan

COLUNA POR BRUNO MATEUS FOTO bruno senna

A balada de Bob Dylan: um retrato musical

imagens: divulgação

Daniel Mark Epstein (Editora Zahar)

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Na apresentação de A balada de Bob Dylan, o jornalista e dylanmaníaco Eduardo Bueno lembra o livro lançado por dois britânicos no começo dos anos 1990. Oh, no! Not another Bob Dylan book era, ao mesmo tempo, uma auto-ironia e uma provocação ao mundo de livros sobre o cantor. No entanto, para a sorte dos fãs, Daniel Mark Epstein consegue fugir do óbvio e acerta a mão com uma narrativa despretensiosa e pessoal, poética e nostálgica na medida exata. Epstein amarra quatro shows de Dylan como fio condutor de sua balada: em Washington, em dezembro 1963; no Madison Square Garden, em Nova York, em 1974 — concerto que rendeu o ótimo álbum du-

plo Before the flood; no Tanglewood Music Center, em Massachusetts, em 1997; e, em Aberdeen, na Escócia, em 2009. O escritor sabe do que está falando: ele esteve presente nesses quatro momentos — o primeiro, aos 15 anos, assistiu a poucos metros do palco, ladeado pela irmã e pela mãe. Epstein tem o mérito de levar o leitor àquelas cenas, de criar uma fantasia no imaginário de quem se debruça sobre o livro. “Naquela noite, os aplausos irromperam logo que o último sopro de gaita e os golpes triplos no violão sinalizaram o fim de The times they are a-changin.” De fato, o escritor revisitou suas anotações da época — só assim para reacender a memória e fazer com que ele se lembrasse do olhar de Dylan para a garota atrás do palco ou da timidez do cantor ao mirar a plateia no fim de uma canção. Mas A balada vai além desses quatro shows: relata Dylan em diferentes momentos — do encontro estranho e triste, em 1966, com John Lennon, que, anos mais tarde, diria a Rolling Stone que os dois estavam usando heroína naquela ocasião, à apresentação para o papa João Paulo II, em 1997, em Bolonha. E confirma que, desde 1961, quando chegou a Nova York num gelado inverno, Bob Dylan é um artista imprevisível, dono de muitas carreiras. E, bem, este não é apenas mais um livro sobre ele.

No direction home Robert Shelton (Editora Larousse)

Crônicas Bob Dylan (Editora Planeta)

No início dos anos 1960, em um artigo no The New York Times, o jornalista Robert Shelton foi o primeiro a chamar atenção para um menino franzino de cabelo desgrenhado que havia chegado há pouco a Nova York e tocava por ali nos bares do Village. Shelton também teve o privilégio de ser o único profissional a acompanhar Dylan naquela década para escrever a biografia do artista. O trabalho começou no fim dos anos 1960 e só foi concluído e lançado em 1986. Depois de vários invernos, e pela primeira vez, em edição atualizada chegou ao Brasil, em agosto do ano passado.

Com tantos livros sobre a vida, as vidas, a política e a poesia e tudo quanto é abordagem sobre a obra de Dylan pipocando por aí, o próprio resolveu escrever um. Crônicas, de 2005, é o primeiro volume de uma trilogia — falta ainda Mr. Dylan lançar os outros dois prometidos. O livro é uma autobiografia, mas não obedece a um esquema clássico, nem a uma ordem cronológica linear. Crônicas é mais um apanhado das memórias do músico contadas pelo próprio do que uma obra para iniciantes que querem conhecer o autor de Like a rolling stone. Que venham os próximos dois.


PRATA DA CASA Eckolu A BANDA CONHECIDA PELA INTERPRETAÇÃO DE CLÁSSICOS COMEÇA 2012 PERSEGUINDO O SOM AUTORAL

COLUNA POR LUCAS BUZATTI

divulgação

A Eckolu planeja um disco com composições próprias para o começo do ano que vem

Acesse reverbnation.com/eckolu soundcloud.com/eckolu

Se você curte o bom e velho “róquenrrou” e frequenta a noite belo-horizontina, provavelmente já trombou com a Eckolu por aí. Presença constante em casas de shows e festivais — como Studio Bar, Garage D’Kaza e NaSala —, o grupo marcou seu nome na cena independente com apresentações divertidas e recheadas de clássicos. O ano de 2012, entretanto, reserva uma guinada na carreira da trupe, que agora aposta no trabalho autoral. Formada em 2005, a Eckolu nasceu do encontro despretensioso entre os amigos João Gabriel (vocal e gaita), Tomaz Petrillo (guitarra), Rodrigo Lara (baixo), Guilherme Cuko (DJ) e Emerson Neiva (bateria). “A ideia era tocar músicas que nos agradassem e beber de graça, é claro! Mas o que era para ser uma brincadeira entre amigos veio a tornar-se trabalho, e o melhor do mundo”, conta Rodrigo Lara. Definido nas interseções entre influências dos integrantes, o repertório de covers, que ganham versões bem arranjadas, vai do clássico ao punk rock, sem tropeços. A lista inclui pérolas como Iron man, do Black Sabbath, Jumping jack flash, dos Rolling Stones, Hard day’s night, dos Beatles,

Time, do Pink Floyd, We’re only gonna die, do Bad Religion, e Let’s go get stoned, do Sublime. Todavia, apesar das seleções “classe A”, a banda agora volta sua atenção para as composições próprias, que já vêm sendo mostradas em shows há algum tempo. Com letras em português, as canções da Eckolu misturam blues, folk, reggae e jazz ao rock’n’ roll. “Tudo com a nossa cara, do nosso jeito”, pontua Rodrigo. O resultado do trabalho autoral dará vida ao primeiro disco do grupo, que já se encontra em fase de préprodução. Ainda sem nome, o debut vai contar com, pelo menos, 10 faixas e tem lançamento previsto para o começo de 2013. “Estamos compondo o álbum inteiro num sítio em Lagoa Santa, e em breve começam as gravações. Esperamos, com o disco, buscar novos lugares para que as pessoas possam conhecer nossa música”, explica o baixista. Enquanto o aguardado álbum é produzido, a caravana da Eckolu não para: a banda mantém uma média de dois shows por semana. Rodrigo Lara acredita que a agenda movimentada também é fruto da efervescência cultural que vive a capital mineira. “BH está caminhando muito em relação à cultura. Mais casas, mais eventos, mais iniciativas e festivais, e esperamos que isso melhore cada vez mais”, defende o baixista, que ainda lembra a qualidade da produção musical da cidade – contexto que obviamente insere a Eckolu. “Quem ouvir a banda pode esperar muita diversão. Música de coração, de nós para vocês.” 77


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A MÚSICA E O TEMA

COLUNA POR Kiko Ferreira

ao vivo é muito pior

divulgação

BANDAS INICIANTES — E ATÉ AS CONSAGRADAS — DESAFINAM EM CIMA DO PALCO E SE DISTANCIAM DA QUALIDADE APRESENTADA NOS DISCOS

Na letra de Apenas um rapaz latino- americano, o cearense Belchior dava o mote: "isso é somente uma canção/ a vida realmente é diferente/ quer dizer: ao vivo é muito pior". Infelizmente, cada vez mais, o último verso do Dylan do Nordeste pode ser usado para classificar boa parte dos shows que andam por aí. Principalmente, como observou o craque André Barcinski, quando o assunto é o artista novo, aquele que nem bem colocou a primeira música na nuvem e virou moda, hype, assunto de quem tem muito espaço e pouca arte para ocupar seu espaço na imprensa, nos blogs, no Twitter. O bom e velho Barça lista shows de bandas indies que se distanciam demais da qualidade dos discos. Entre elas, Gang Gang Dance, White Lies, Foster The People e Bombay Bicicle Club. E a discussão continua com Two Door Cinema Club, Klaxons, Rapture, Friendly Fires... Basta acompanhar as madrugadas dos canais a cabo para conferir que não fazem bonito boa parte das bandas festejadas pela crítica inglesa (matriz da nossa crítica pop, sempre). 78

E mesmo muitas bandas consagradas costumam apresentar vocalistas desafinados em pleno exercício da profissão. Não são poucos os shows decepcionantes de Smashing Pumpkins, The Killers, Megadeth, Evanescence, Iron Maiden (com Blaze Bayley), Guns n´Roses, Linkin Park, Hole e até Nirvana, que fez um show histórico no Brasil, mas displicente e desencontrado. Lembro-me de ter visto um show dos Happy Mondays, no auge da fama, em que a diversão era ver o faz-nada Bez pulando doidão no palco. E só. Mas para os fãs, nada importa. A diversão é a mesma. Como é o caso de megashows de artistas de primeira linha, como Madonna e Michael Jackson. Quem viu mais de perto as apresentações dos dois no Brasil, em 1993, conferiu que em boa parte da apresentação os vocais e parte dos instrumentos eram gravadas. Ou como explicar que era possível emendar uma balada, cantada sem resfolego, depois de um hit com coreografias pirotécnicas? Quando se trata de boy band então, as apresentações costumam ser quase um playback daqueles que Chacrinha comandava nos subúrbios do Rio nos anos 1970 e 1980. Por outro lado, alguns artistas conseguem tal domínio de palco e da linguagem do espetáculo que seus shows costumam ser unanimidade até entre os que não são fãs. Aí, entram Rolling Stones, Pink Floyd (Roger Waters incluído), Rush, Kraftwerk, Judas Priest, U2 e Eric Clapton. Aliás, os dinossau-


divulgação

Lembro-me de ter visto um show dos Happy Mondays, no auge da fama, em que a diversão era ver o faz-nada Bez pulando doidão no palco. E só

ros, que antigamente faziam até disco "ao vivo" no estúdio, sem errar nem desafinar, costumam fazer bonito no palco. As recentes passagens por Belo Horizonte de Joe Cocker, John Fogerty, Johnny Winter, Morrissey, Crosby, Stills & Nash e Roger Hodgson ajudam a melhorar o placar para os veteranos. A internet está cheia de vídeos mostrando micos, de diversos graus de constrangimento, vividos por estrelas de diversos estilos. Como do vocalista do Nickelback saindo sob pedras de um palco em Portugal e de quedas de Bono, Dave Grohl, Jared Leto (30 Seconds to Mars), Kirk Hammett (Metallica), Gene Simmons (Kiss) e Steve Tyler (Aerosmith) em momentos que deveriam ser sublimes e foram desastrosos. Se alguns raros artistas, como Macaco Bong e Móveis Coloniais de Acaju, funcionam melhor no palco do que no disco, a cena brasileira atual está recheada de artistas que não apresentam, em shows, a mesma desenvoltura que mostram no estúdio. Aí vale citar Karina Buhr, Marcelo Jeneci, Cidadão Instigado e até mesmo a charmosa Céu, que varia a eficiência dependendo do dia. Todos mereciam ter lições com Lenine, Seu Jorge, Criolo e outros caras bons de palco. Até Otto, com seu estilo errante, funciona bem gravado e na frente da plateia. Para fechar a conversa, uma lista curiosa. Como o solo e os riffs costumam levar as plateias ao delírio, a revista especializada Guitar World pediu aos seus colaboradores que apontassem os piores solos de guitarra de todos os tempos. Na lista dos 100, alguns nomes e músicas considerados mais do que clássicos definitivos. Como o solo de All you need is love, dos Beatles, Stir it up, de Bob Marley, o "samba" Sympathy for the devil e até Black or white, de Michael Jack-

reuters/paulo whitaker

divulgação

reuters/mario anzuoni

Foster The People e Two Door Cinema Club (na página anterior): bons no disco, ruins no palco

As quedas de Bono e Gene Simmons (acima) foram parar na internet

son. E até o maior de todos, Jimi Hendrix, entrou na dança. Foxy lady, seguindo os analistas de solos, não vale a fita usada para sua gravação. Polêmica é uma classificação suave para a avaliação dos críticos da revista e qualquer outro levantamento que envolva artistas e fãs. Faça sua lista e mande para a Ragga. É diversão garantida.

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CRÔNICO A grande viagem

CRÔNICA POR JOÃO PAULO ILUSTRAÇÃO FELIPE ÁVILA

João Paulo é jornalista, mas seu sonho era saber tocar piano. Por isso essas ideias meio desafinadas.

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Nunca fui voyeur do cotidiano dos outros. Facebook, para mim, é falta de educação. Dos dois lados

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Viajar, hoje, se tornou um sonho. Dadas as condições adequadas de tempo livre e dinheiro no bolso, quase todos arrumariam as malas e partiriam para diferentes destinos. Os mais convencionais e os alternativos só diferem na rota, no planejamento e, talvez, no meio de transporte, mas a sensação é a mesma: a felicidade está do lado de lá. E é aí, na fé em uma felicidade escondida que exige deslocamento, que começo a acreditar que existem outras formas de viajar. Ou de ficar em casa. O encanto de conhecer novos lugares e pessoas não vence a realidade de que as viagens, na verdade, são apenas uma forma de transferência de afetos. Um jeito trabalhoso de transportar as angústias de um lado ao outro do mundo. A cara de herói e as histórias de viajantes sempre me entediaram. Não há nada mais chato do que ficar vendo fotografias de outras pessoas, ilustradas com memórias do que estavam fazendo naquele momento. Acho que é preciso guardar distância da intimidade dos que não são íntimos. Nunca fui voyeur do cotidiano dos outros. Facebook, para mim, é falta de educação. Dos dois lados. O tema “viagem” ocupa muitas histórias, filmes, literatura e está até na arquetípica ligação de Deus com Abel e Caim. Abel gostava de viajar e conhecer o mundo, pôs o pé na estrada e se tornou patrono dos cosmopolitas. Caim era homem da terra e ficou para edificar um reino, trabalhando sem parar. Não se sabe por que, Deus gostou mais do que lhe ofereceu Abel. Caim, com ciúmes, matou o irmão e foi condenado a... viajar. O maior castigo é não poder voltar para casa. A chegada ao cinema do clássico On the road, de Jack Kerouac, pelas mãos de Walter Salles, é um motivo para se pensar em outro tipo de viagem. Escrito em poucos dias de abril de 1950, num rolo de papel de telex, o livro se tornou um típi-

co romance de geração. Uma lenda. Dois amigos, Sal Paradise e Dean Moriarty (na verdade o próprio Kerouac e o poeta Neal Cassady) fazem o que todo jovem deveria fazer um dia: deixam tudo para trás e caem na estrada, numa rota marcada por mulheres, jazz e birita. Um jeito mais estendido de definir a liberdade. Ele é bom não só pela história, mas pelo jeito como esta é contada. Kerouac escreve como quem toca um solo de jazz: suas frases começam e o improviso toma conta. As palavras são a trilha sonora. Além disso, é uma obra do contra: contra a cultura, contra as regras, contra a guerra, contra a entrega da vida a um destino chinfrim. Porém, a revolta política é também uma jornada espiritual. Kerouac era meio budista e vivia em busca de uma iluminação. Talvez por isso o autor seja tão obsessivo nos detalhes, como se estivesse o tempo todo atento para não perder o nirvana que podia estar misturado numa dose de Jack Daniels. Muita gente vê em On the road uma espécie de marco de fundação da cultura hippie. Kerouac nunca gostou dos hippies e de suas comunidades alternativas. Talvez tenha sido mais um equívoco do escritor, que deu uma guinada conservadora em sua vida em razão do sucesso, perdendo o juízo e depois o talento. A ligação entre os beats e os hippies é a grande saída: a coragem de jogar a vida na estrada (ou na sarjeta, se for o caso) e o empenho em construir um lugar bom para se viver. São duas formas de viagem, cada uma mais exigente e prazerosa que a outra. Mas o prazer só vem no fim e só é dado aos que arriscam tudo. A lição dos viajantes de verdade não está nas imagens armazenadas em cartõespostais, nas historinhas de percalços, nas descobertas que amanhã farão parte de um guia qualquer com um carimbo de dica nem nas bobagens que trazem na bagagem. A grande viagem é sempre para dentro e não acaba nunca. Melhor que chegar, já adiantou o Tatarana, é a travessia.


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QUADRINHOS RASOS

COLUNA

POR Eduardo Damasceno E LuĂ­s Felipe Garrocho // quadrinhosrasos.com

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139 ANOS. 175 PAÍSES.

1 FÓRMULA.

Beba com moderação. Venda e consumo proibidos para menores de 18 anos.


R I P C U R L .C O M

Revista Ragga #63  

O funkeiro Mr. Catra fala sobre a submissão de mulheres aos homens, amor ao funk, futebol e religião

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