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revistaragga.com.br

'N' ROLL

Agosto.2009

AGOSTO . 2009 . ANO 4

não tem preço

#28

Long live rock and roll! Lobo mau? Bem ao seu estilo, Lobão fala sobre rock, Caetano, prisão e drogas 20 anos sem Raul Rei do rock nacional continua mais vivo do que nunca O que é rock para eles? Roqueiros respondem à pergunta em um ensaio fotográfico Galeria do Rock . BHZ Boys . Paraty . Israel


O MAIOR NÚCLEO DE COMUNICAÇÃO JOVEM DE MINAS :: www.ragga.com.br


foto: gus benke

A VELOCIDADE NOS

MOVE.

o que

move

você?


WOOHOO NEWS - DUAS EDIÇÕES DIÁ APRESENTAÇÃO - BIANCA MEDEIROS


ÁRIAS AS 18H e 19:50H

Esportes de Ação 24h na TV

"44*/&+«3*0%&+"/&*30   4°01"6-0   '-03*"/»10-*4 *OTUBMBÎÍP TVKFJUB Ë FYJTUÐODJB EF WJBCJMJEBEF UÏDOJDB 1BSB JOGPSNBÎÜFT TPCSF QPTTJCJMJEBEF EF BEFTÍP  JOTUBMBÎÍP  WBMPSFT  QBDPUFT  UFDOPMPHJBT EJTQPOÓWFJT QBSBTVBDJEBEF DPOEJÎÜFTEFDBODFMBNFOUP DPOTVMUF P SFHVMBNFOUP OP TJUF XXXUWBDPNCS


BÚSSOLA BHZ Boys

18

Vamo falar de rock!

Galera dá um rolé na nova pista de skate do Mangabeiras

Lugar de roqueiro

51

Artistas dizem o que o bom e velho rock ‘n’ roll representa em suas vidas

28

Conheça a Galeria do Rock, onde tudo é inspirado no estilo musical

Toca Rauuul!

40

A Ragga homenageia Raulzito, morto há 20 anos

Longe da guerra Na noite de Israel também rola funk, axé e Xuxa

58

Johnny B. Goode!

71

Aos 82, Chuck Berry vem a BH e prova que rock não tem idade

Sem censura

76

No Perfil, Lobão, roqueiro, polêmico e ex-mascote do Comando Vermelho


foto: luiza ferraz / trat. imagem: fernanda santiago

EDITORIAL

Ragga ‘n’ Roll É engraçado pensar como algumas coisas são intraduzíveis. E, normalmente, coisas assim carregam uma boa quantidade de prazer, mistério, perigo, atitudes, comportamentos e outras tantas sensações. O rock ‘n’ roll é, sem dúvida, umas delas. Pare por alguns minutos e tente traduzi-lo. Se você disser que é um estilo musical, eu te pergunto, qual? Garage rock ou surf music? Hard rock ou psicodélico? Progressivo ou Glam rock? Folk rock ou heavy metal? Punk rock ou new wave? E por que não, blues, jazz, gospel, country? Se você disser que é moda, eu te pergunto, qual? Calça de couro colada, jeans, saia ou bermuda? Cabelo grande ou curto, vermelho ou amarelo? Camisa preta, gravata ou camisa nenhuma? Bota preta, All Star ou sapato? Liso ou zebrado? Pelado ou vestido? Se você disser que é comportamento, estilo de vida ou cultura, eu te pergunto, qual? Rebelde ou careta? Jimi Hendrix ou NX Zero? Jovem ou velho? Divertido ou perigoso? Jack Daniel`s ou cerveja? Caveira ou rosa? Garagem ou show business? Masculino ou feminino? Deus ou Diabo? E ainda estou sendo extremamente egoísta a limitá-lo a essas pequenas e rápidas comparações que passaram rapidamente pelo meu pensamento enquanto escrevia. O rock ‘n’ roll realmente consegue ser tudo e nada ao mesmo tempo, consegue ser de todos e de cada um. O que é rock pra você? Porque ao ler as comparações acima cada leitor pode ter pensado suas respostas de maneira óbvia, mas o óbvio de um, provavelmente não foi o do outro, e é isso que faz do rock ‘n’ roll algo tão extraordinário. Dedicamos essa edição ao rock. E fizemos com a certeza que não caberia tudo e que não iríamos agradar a todos. Por um simples motivo: Seria impossível. Mas uma coisa eu me arrisco a dizer: É tudo culpa da guitarra elétrica! Let`s rock! Lucas Fonda :: Diretor Geral lucasfonda.mg@diariosassociados.com.br

destrinchando

já é de casa

14

on the road // paraty estilo

38

quem é ragga

34

48

eu quero! // rock 'n' roll

passando a bola

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ragga girl: fernanda carvalho

68

cultura pop interativa

62

aumenta o som

72

70


cartas SEXO! Kátia Resende // pelo Twitter Muito legal a entrevista com Wando, a matéria sobre a Cicciolina e sobre o Redlight District! Parabéns!

Obrigada, Kátia! A gente apostou que o conteúdo picante agradaria a galera.

CAUSOS DE BH Fernando D'Agostini // pelo Twitter Tô adorando essas matérias da @Ragga1 sobre as lendas urbanas de BH: Os filhos do Antônio Luciano [edição de junho] e o famoso Padre Lebret [edição de julho].

Valeu! A gente aceita sugestões de novas lendas.

ON THE ROAD GUAICURUS Priscilla Glenda // por e-mail Faço questão de mandar este e-mail só para elogiar a matéria do Bernardo "On the road Guaicurus, em BH". Adorei a sensibilidade misturada ao sarcasmo. Sempre tive muita curiosidade sobre a vida daquelas pessoas e acho que seria muito legal se ele se aprofundasse nisso um pouco mais. A vida fácil, que de "fácil" não tem nada.

Oi Priscilla. Fico feliz que tenha gostado da reportagem. Prometo voltar lá outras vezes para escrever o que não escrevi. Será um "prazer". [

LEITOR FIEL Marcos Mardem // por e-mail A Ragga sobre sexo está demais! Ótimas matérias e temas bem legais. Continuo acompanhando o trabalho de vocês. Um abraço.

expediente DIRETOR GERAL lucas fonda [lucasfonda.mg@diariosassociados.com.br] DIRETOR DE COMERCIALIZAÇÃO E MARKETING bruno dib [brunodib.mg@diariosassociados.com.br] DIRETOR FINANCEIRO josé a. toledo [antoniotoledo.mg@diariosassociados.com.br] GERENTE DE COMERCIALIZAÇÃO E MARKETING alessandra costa [alessandracosta.mg@diariosassociados.com.br] EXECUTIVOS DE CONTAS lucas machado [lucasmachado.mg@diariosassociados.com.br] thaís pacheco [thaispacheco.mg@diariosassociados.com.br] CIRCULAÇÃO guilherme cançado (guilhermecancado.mg@diariosassociados.com.br) PROMOÇÃO E EVENTOS cláudia latorre [claudialatorre.mg@diariosassociados.com.br] EDITORA sabrina abreu [sabrinaabreu.mg@diariosassociados.com.br] SUBEDITOR bruno mateus [brunomateus.mg@diariosassociados.com.br] REPÓRTER bernardo biagioni [bernardobiagioni.mg@diariosassociados.com.br] JORNALISTA RESPONSÁVEL luigi zampetti - 5255/mg DESIGNERS anne pattrice [annepattrice.mg@diariosassociados.com.br] marina teixeira [marinateixeira.mg@diariosassociados.com.br] maytê lepesqueur [maytelepesqueur.mg@diariosassociados.com.br] ILUSTRADOR matheus dias [xgordinhox.dias@gmail.com] FOTOGRAFIA bruno senna [bsenna.foto@gmail.com] carlos hauck [carloshauck@yahoo.com.br] dudua´s profeta [duduastv@hotmail.com] ILUSTRADOR CONVIDADO vinil cius [flickr.com/ziriguidummdesignhouse] ESTAGIÁRIOS DE REDAÇÃO daniel ottoni [danielottoni.mg@diariosassociados.com.br] izabella figueiredo [izabellafigueiredo.mg@diariosassociados.com.br] ARTICULISTA lucas machado COLUNISTAS alex capella. cristiana guerra. kiko ferreira. rafinha bastos COLABORADORES frederico bottrel. teca lobato. kleyson barbosa. cisco vasques. luiza ferraz. fê santiago. marcelo esteves. roberto assem. paola maximo PÍLULA POP [www.pilulapop.com.br] RAGGA GIRL fernanda carvalho FOTO jana vieras MAQUIAGEM E CABELO fabiano vieira PRODUÇÃO michelle capriss e li maia ROUPAS E ACESSÓRIOS saravá CAPA fernando biagioni REVISÃO DE TEXTO vigilantes do texto IMPRESSÃO rona editora REVISTA DIGITAL [www.revistaragga.com.br] :: inkover [inkover.com.br] REDAÇÃO rua do ouro, 136/ 7º andar :: serra :: cep 30220-000 belo horizonte :: mg . [55 31 3225-4400] Os textos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não expressam necessariamente a opinião da Ragga, assim como o conteúdo e fotos publicitárias.

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Fala, Marcos! Esperamos que você continue lendo a Ragga... Valeu pela força!

FALA COM A GENTE! por e-mail >> redacaoragga.mg@diariosassociados.com.br, pela comunidade no Orkut >> “Revista Ragga” ou pelo correio >> R. do Ouro, 136 :: 7º andar Serra :: BH/MG CEP: 30.220-000

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anne pattrice

por Lucas Machado

Cabral e o abuso do poder “A veraneio cinza nunca esteve tão perto. A 200m, 300m. QSL, Tigrão, QSL. Temos que agir rápido. Quanto mais demorar na delegacia, maior será o espancamento.” 'Rota 66 – A história da polícia que mata', Caco Barcellos

que pode até esquecer de colocar a farda, mas o bafômetro Se você não é amante da ufologia avançada, aeroporto “tá mais na mão do que os dedos”. Poxa, qualquer camelô, ou de discos voadores e afins, pense comigo: que tal se eu lhe o próprio mercado negro, como diz a gíria, vende o tal apareconvidasse para fazer uma expedição espacial sem volta lhinho que multa e pode tomar a carteira de habilitação. e o destino escolhido fosse Marte? Com certeza, teria que Olha esse caso. Misteriosamente, o celular de onde construir uma superdefesa para o recrutamento. Tipo: Meu, trabalho sumiu. Tivemos que fazer a ocorrência para pelá em cima tem muita terra, hotéis intergalácticos de luxo, dirmos outro aparelho à operadora. Na primeira delegacia, vários tipos de naves espaciais, riquezas como ouro e diachegamos às 16h e o escrivão ainda estava em horário de mante, internet gratuita, a mais nova versão do game Guitar almoço. Na segunda, não tinha impressora; na terceira, a Hero liberada em qualquer ciberespaço, especiarias mil, mesma coisa. Perguntamos por uma mais próxima. Cheindianas virgens (mistura de índia com marciana) e tals... gando lá, não tinha tinta para imprimir. Minha sugestão foi Aí eu lhe pergunto: Quem seriam os primeiros a serem ir à delegacia onde trabalha um conhecido. Quando chegarecrutados? Bom, com certeza, pessoas já sem esperanmos, vimos, já na entrada, o detetive. Com os pés em cima ças na vida, com doenças terminais, foragidos, náufragos, da mesa. ”Foram vocês que chegaram com a moto na contraficantes e tudo mais. Pois foi nesse contexto que aquela tramão? Me deem a identidade. geringonça que, na época, chamavam de navio, comandada por Pedro Cuidado ao fazer o Boletim de Vocês vão ficar detidos, vou puxar Álvares Cabral, invadiu nossas ter- Ocorrência. É uma versão nova a ficha criminal”, disse, sem pesras e deu início à nossa colonização. de angariamento de propina tanejar. Apesar de a rua ser mãodupla, entregamos o documento Como fomos colonizados e não coloe ficamos por quatro horas sob nizadores, desde os primórdios nos para a polícia pressão psicológica. Até que consegui explicar o que havia acostumamos com imposição, com a lei do mais forte, ou acontecido e que conhecíamos um funcionário da casa. Putz, pior, com o abuso de poder e falta do cumprimento da lei. foram mais três horas até eles conseguirem falar com o tal Com certeza absoluta, colhemos os frutos de nossos conhecido no telefone. Moral da história: cuidado ao fazer o antepassados. Quem nunca ouviu falar frases do tipo: “A Boletim de Ocorrência. É uma versão nova de angariamento corrupção no Brasil é cultural”, “Para o carro, é a polícia”, de propina para a polícia. “Você sabe com quem está falando? Vou prender você.” No Há várias especulações em relação aos financiadores caso da polícia, então, é brincadeira. Existem coisas que já das expedições de Pedro Álvares Cabral. Na literatura, enviraram senso comum. contramos políticos e banqueiros que traficavam escravos. Quem não sabe que os policiais do Rio têm uma tabeTalvez isso seja mais uma justificativa das calamidades que linha onde consta que cada infração custa um tanto de real assolam nosso país. Até hoje, ainda não consegui acreditar ou dólar? Um baseado ou briga de rua saem a R$ 300 e meia em disco voador e nem se realmente existe vida em Marte. hora sentado na caçamba do camburão. Se não tiver o flaMas de uma coisa podemos ter certeza, os portuga nos deigrante, dependendo do lugar, eles arrumam um rapidinho e xaram uma lição: o problema do esperto é que ele acha que colocam no seu bolso. Você vai falar o quê? Ou vai me dizer todo mundo é bobo. E no país do Bope e da lendária Rota 66, que nunca tomou uma dura na famosa barreira na estrada de se a coisa apertar, é só dar o famoso “faz-me rir”. Búzios, que parece mais um pedágio policial? Tem guardinha J.C.

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manifestações: lucasmachado.mg@diariosassociados.com.br


COLABORADORES fotos: arquivo pessoal

Fernando Biagioni é o Jack Kerouac da fotografia. Em menos de 26 anos de estrada, esteve pelos quatro cantos do mundo. Morou no Brasil, Estados Unidos, Espanha, Dinamarca e Alemanha até descobrir que seu lugar, provisoriamente, é na Itália. Fotografou para a Lee Jeans, ganhou o 3º Concurso de Fotos Oakley, em 2007, e é responsável por quatro capas da Ragga (inclusive desta). Hoje mora em Florença e é editor-chefe da revista digital anonmag.com. flickr.com/photos/fernandobiagioni // fernandobiagioni@gmail.com Frederico Bottrel é repórter dos cadernos de Informática e Turismo do jornal Estado de Minas. Aprendeu a gostar de computadores e gadgets por causa do emprego - de viajar não precisou, ele já gostava. Também é ator cara-de-pau que pratica teatro de improvisação (se apresenta diante de 500 pessoas sem saber previamente o que vai fazer no palco). Em Israel, entrou no Mar Morto (foto) e curtiu as baladas de Jerusalém e Tel Aviv para fazer o Na Gringa desta edição. fredericooliveira.mg@diariosassociados.com.br // twitter.com/fredbottrel

marina abadjieff

Fê Santiago é publicitária e promoter há 4 anos do Deputamadre Club. Marcelo Esteves é publicitário e artista plástico. Juntos, fazem parte do Mistura Estúdio de Design e Cultura, atuando como produtores de eventos e assessores de moda. Fê e Marcelo foram responsáveis pela produção do ensaio fotográfico do editorial desta edição e da festa Let´s Rock, que comemora os 4 anos da Ragga. estudiomistura.com // fesantiago@estudiomistura.com // marcelo@estudiomistura.com

A fotógrafa e estudante de jornalismo Luiza Ferraz registra eventos e festas de uma maneira fotojornalistíca. Está focando seu trabalho em fotografia de moda e iniciou junto com outras três profissionais a equipe SINCRO (www.estudiosincro.blogspot.com). É fotógrafa oficial do Velvet Club, festa Camarim e o blog de moda belo-horizontino Ameixa Japonesa. É dela a foto do editorial desta edição e do ensaio da festa Let´s Rock, que celebra os 4 anos da Ragga. luizaferrazfotos@gmail.com

O publicitário Bruno Martinho já foi apresentador do Megahertz, programa de rock da Fumec FM, e baixista da banda Vellocet. Hoje ele toca na banda de indie rock Churrus. É dele o Prata da Casa desta edição. www.myspace.com/churrus // brunochurrus@yahoo.com.br ※ * 1     " ÊÊ"      ÊÊ " ÊÊ7   "  , ÊÊ ,  -    , " ※ ÜÜÜ°Ü>ŽiLÀ>ȏ°Vœ“

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Promoção Ragga

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O Ragga Wake World Series, etapa mundial de wakeboard realizada Lagoa dos Ingleses, continua dando o que falar. A revista Wake Brasil, publicação oficial da modalidade no Brasil, deu 14 páginas sobre o evento na edição de julho. Valeu!

O Chuck Tayloe All Star é um ícone do rock ‘n’ roll. Foi pensando nisso que a Converse produziu modelos inspirados em bandas que marcaram época. E, o melhor de tudo, é que você pode calçá-los respondendo a Em comemoração aos 4 anos de existência seguinte pergunta: “Se fosse um astro do rock, o que não poderia faltar no do maior núcleo de conteúdo jovem do estado, a seu camarim, além de uma pilha de toalhas brancas?”. Mande RG, e-mail Ragga realiza, no dia 28 de agosto, no Museu de e a sua numeração para o endereço promocaoragga@uaigiga.com.br e Arte da Pampulha (Map), a festa Let´s Rock. O tema, fique na torcida. Boa sorte! como não podia deixar de ser, é o rock´n´roll.

* Modelos e numeração sujeitos a disponibilidade e estoque.


Vinicius Póvoa

[flickr.com/ziriguidummdesignhouse]

Artista plástico, designer gráfico e publicitário. Tenho vários estilos dentro do meu estilo hiperativo e procuro adaptá-lo de acordo com cada situação criativa. Daí vem o nome VINIL CIUS, pela plasticidade do vinil e do meu trabalho. Brinco com a hiperatividade que existe dentro de mim por meio de cores vivas e do contraste do preto e branco. Procuro fazer do abstrato algo palpável e ligá-lo de certa forma com a realidade, formando imagens que causam um impacto visual excitante. Atualmente, além de ser designer gráfico, pinto telas, paredes e qualquer tipo de objeto. Trabalho como freela, tendo total liberdade para criar e experimentar... Sem limites, deixo meu pensamento voar longe!


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skate

O skate é hoje resultado da união de contribuição pessoal, da personalidade de cada praticante e do contexto histórico dos envolvidos. Craig Stecyk, jornalista, surfista e proprietário da Zephyr surf e skate shop soube documentar em 1975 a influência divisora de águas de alguns surfistas e mais tarde skatistas californianos de Santa Bárbara: os Z-Boys. Com o artigo “Aspects of the Downhill Slide”, publicado pela revista Skateboarder, Stecyk não deixou passar despercebida uma das fases mais importantes do skate no mundo. Para o autor, os Z-Boys souberam reconhecer o potencial de duzentos anos de despretensiosa tecnologia americana nas construções arquitetônicas, e desenvolveram com isso uma nova concepção de skate. Os playgrounds de cimento das construções, aliados à seca da Califórnia nos anos 1970 propiciaram o crescimento do skateboard moderno, tal como o conhecemos hoje. Foi pensando na linha de surfe que a possibilidade de andar em uma piscina vazia não foi descartada. Para saber onde e como estaremos daqui a alguns anos, precisamos conhe-

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BHZ-BOYS De Ocean Park ao Parque das Mangabeiras por Teca Lobato fotos Carlos Hauck

cer nosso passado. Com o skate não é diferente, precisamos conhecer os modelos de shape, como surgiram as manobras e quais foram os terrenos percorridos por nossos antecessores. Graças às filmagens e imagens captadas dos Z-Boys, uma página importante da história do skate não foi perdida. E foi pensando na ligação entre as origens e o desenvolvimento do skate, que a Ragga resolveu contar um pouco sobre a nova pista pública do Parque das Mangabeiras. Inspirados no estilo de vida dos primeiros verticaleiros californianos, eu, Henrique Vitória, Jorge Barbi (não é o Balbi do motociclismo), Josoel Silva, Felipe, Daniel "Jaka"e Antônio Kaap, o "Toninho", tentamos imaginar e imitar o que eles fariam se na época presenciassem a construção de 900 m2 de granilite, com uma grande variedade de rampas com tribanks e savanas perfeitos para a prática do skate. Henrique Vitória, skatista profissional e um dos idealizadores do projeto feito pela Savannah, participou de cada etapa, desde a elaboração do relatório entregue ao então ministro do Turismo Walfrido dos Mares Guia, até o projeto da pista propriamente dita, conta quais foram os critérios durante esta criação: “Na elaboração, levamos sempre em consideração o nível dos praticantes, tentando atender todos os níveis técnicos de atletas e o maior número de modalidades dentro do skate”.


Jorge Barbi visualizando a linha

Para ler ouvindo: Jimi Hendrix – ‘Easy Rider’ e ‘Freedom’ NOFX – ‘Dinosaurs Will Die’ e ‘Stickin’ in My Eye’ The Allman Brothes Band – ‘One way out’

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Chapéu Volcom, blusa, calça e tênis acervo pessoal

Jorge mandando um bert na 45

Blusa Billabong, infanto short Centauro, meia Centauro, tênis acervo pessoal

Daniel Jaka mandando um Fs/ One foot


Calça Billabong, tênis acervo pessoal

Jorge fazendo tudo parecer mais fácil

Jorge em um Fs/ 5-0 style!


Chapéu Volcom, calça e tênis acervo pessoal

Toninho chocando os presentes em um indy F/s air

Agradecimentos: Fundação de Parques Municipais, que administra, entre 68 parques de Belo Horizonte, o das Mangabeiras e Kau Cavalcanti – DKMG pelas roupas ONBONGO.

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Localizado na Serra do Curral, o lugar escolhido para a construção da pista é um dos maiores parques urbanos da América Latina. Com 337 hectares e mais de 2 milhões de metros quadrados, o parque dos Mangabeiras é a maior área verde da capital e na opinião de vários skatistas, ideal para receber o projeto. O caminho até a pista é tranqüilo, com muito verde e longe do caos e trânsito da capital. O único caos recomendado é um som para “pilhar”. Para vivenciar a época mais louca do skate, o tempo dos Z-Boys, do Woodstock e - conspirações à parte - da chegada do homem à lua, ouvimos Jimi Hendrix com “Easy Rider”. Para andar para frente,

vivendo nossa própria época e não olhar para trás, NOFX, com “Dinosaurs Will Die”. Pilha garantida e o som para acertar manobras novas recomendado. A pista do Parque dos Mangabeiras, é uma vitória dos skatistas mineiros. É com certeza um passo largo rumo à evolução do esporte no estado e, principalmente, motivo para o surgimento de novos talentos, campeonatos e competidores em potencial ou simplesmente um lugar seguro onde as pessoas, independente de idade ou sexo, vão encontrar lazer e tranqüilidade. Agora, se você me permite, com licença que a pista me espera! comente! redacaoragga.mg@diariosassociados.com.br

Para assistir: ‘Dog Town and The Z- Boys – Como tudo começou’ ‘Lords of Dogtown – Versão Hollywoodiana’


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divulgação

>> REFLEXÕES REFLEXIVAS DO TWITTER > rafinha bastos > é jornalista, ator de comédia stand-up e apresentador do programa ‘CQC’ (Custe o Que Custar)

Lobisomens, Josés Serras e Sacis

:: O governador do Paraná acabou de me chamar de ameba. Concordo. Ontem mesmo eu me auto-reproduzi três vezes.

:: Sabia que “skavuska” é uma palavra russa que significa “vou arrancar a tua grana, seu trouxa”?

:: Noite de lua cheia... lobisomens, vampiros e Josés Serras ouriçados.

:: Caneta é como o Mestre dos Magos: quando a gente precisa... SOME.

:: “Tira o pé do chããão”... Uma frase qUE empolga os foliões, mas que põe em risco a integridade física do Saci Pererê.

:: Vi duas gostosas, com uns 20 anos, fantasiadas para irem ao cinema. Uma pena que são fãs de Harry Potter e não de 'Lagoa Azul'.

:: Ou os redatores do Jô assistem a shows de comédia, ou rolou uma chata coincidência. Hoje ele fez uma piada minha. MERDA!

:: Gripe A, meningite B, hepatite C... quem dá nota pra doença?

:: Forró Universitário??? Precisa ter 2º grau completo pAra entrar nesta porra? :: Colocar palavra em português no Twitter é como pichar código num prédio: só os amigos do idiota entendem e acham legal.

Os veículos de comunicação do Poder Legislativo não fazem jus ao seu funcionamento... A TV Senado é 24h.

VINIL CIUS

:: Nos shows de hoje, pedi para que meus followers lEVANTASSEM a mão. De quase 2 mil pessoas, umas 20 levantaram. O Twitter tá no começo. não existe?

com ele: >> fale rafinhabastos.mg@diariosassociados.com.br

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PROVADOR > cristiana guerra > 38 anos, é redatora publicitária, ex-consumista compulsiva, viúva, mãe (parafrancisco. blogspot.com) e modelo do seu próprio blogue de moda (hojevouassim.blogspot.com) elisa mendes

>>

CABELOS primento deles. Eu tinha 19 anos e trabalhava num banco quando finalmente fui salva: um dos clientes, cabeleireiro, colocou sobre a minha mesa o seu cartão de visitas. Entendi o recado. No dia seguinte, eu estava diante dele, corajosa: "Corta tudo." Não imaginava que aquela frase pudesse proporcionar tamanho prazer a um homem. Com suas mãos de tesoura, ele começou extirpando os longos fios aos quais eu havia me afeiçoado tanto. Balancei a cabeça para um lado e para o outro. Uma surpreendente sensação de leveza tomou conta de mim. O que aquele cabeleireiro havia acabado de tirar das minhas costas não era cabelo: era o peso da expectativa do mundo. Naquele dia, acho que nasci outra vez. Hoje, cerca de 240 cortes depois, me sinto a cada dia mais à vontade com meus cabelos curtos. Arrepiados, com gel ou musse, curtíssimos ou maiores, penteados ou no melhor estilo rock'n'roll, só uma coisa não muda: a certeza de que o parâmetro para me aceitar está em mim mesma. Deve ser por isso que, à beira dos 40, eu me sinto como eles: em plenos 20 anos.

O que aquele cabeleireiro havia acabado de tirar das minhas costas não era cabelo: era o peso da expectativa do mundo

VINIL CIUS

Você conhece alguém que sonha ter os cabelos ondulados? Pois os meus pertencem a este meio-termo infeliz: nem o ar angelical dos lisos escorridos, nem a aura sexy dos lisos esvoaçantes e muito menos as fantasias que moram debaixo dos caracóis. Por muito tempo acreditei que só com fios longos escorridos eu seria digna de respeito. Cresci vendo minhas irmãs alisarem os seus. Seguindo o exemplo, passava semanas debaixo do secador, uma vida fugindo da chuva e muitos banhos ouvindo o barulhinho da água batendo na touca – e saía sempre com a sensação de não estar limpa o suficiente. O nível mais baixo a que cheguei foi dormir com os fios enrolados ao redor da cabeça, detidos como criminosos por uma meia-calça. Eu me deitava um monstro na ilusão de amanhecer linda e bem-nascida — naquele tempo, não existia chapinha. Até que me rendi ao corte da moda: o repicado. Subi uns dez pontos na escala do amor-próprio — não fosse o fato de me tornar mais uma sósia do Keith Richards, o que só percebi anos depois, vendo minhas fotos antigas. Os cabelos cresceram, fui de novo ao salão, mas não tive a mesma sorte: o cabeleireiro errou a mão, cortando bem curto na frente e deixando um longo mullet para compensar. De roqueira, passei a uma sertaneja cabeleira Chitãozinho & Xororó. Apegada aos poucos fios longos que o corte me havia deixado, sustentei a situação por algum tempo — minha autoestima parecia ser diretamente proporcional ao com-

com ela: >> fale crisguerra.mg@diariosassociados.com.br

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por Kleyson Barbosa fotos Cisco Vasques ilustração VINIL CIUS

Pelos corredores da Galeria do Rock dá de tudo: ídolos e fãs, emos e metaleiros, Michael Jackson e Elvis Presley Patrimônio musical da cidade de São Paulo, referência para artistas profissionais e amadores, ponto de encontro de turmas de adolescentes montados. A Galeria do Rock, famoso reduto roqueiro bem no Centro da capital paulista (na Rua 24 de Maio, Largo da República), é mais que o lugar certo para comprar camisetas de bandas de rock do mainstream ao underground ou para encontrar aquele vinil super-raro. Famosa por reunir vários estilos em seus cinco andares e 450 lojas, a Galeria é um mosaico de vertentes old school e tendências mais recentes do rock ‘n’ roll. Só de flanar por entre os estúdios de tatuagem, lojas de silk, sedes dos fãsclubes de bandas (de rock, sempre) já dá para entrar em contato com seu lado mais roqueiro – e despertá-lo, caso ele ande meio adormecido. Pelos corredores, encontra-se com Elvis Presley e Raul Seixas, imortalizados em duas estátuas. Desde junho, Michael Jackson também pode ser visto. Poucos dias depois de sua morte, já figurava por lá uma homenagem ao rei do pop feita pela artista plástica Leila Boas. “Quando fiquei sabendo da notícia, comecei a fazer a estátua. Virei a noite trabalhando e dias depois já estava exposta na Galeria”, conta Leila. Inaugurado em 1963, o prédio foi oficialmente batizado como Shopping Center Grandes Galerias. O projeto de Alfre-

do Mathias era inspirado nas curvas de Oscar Niemeyer. “As primeiras lojas eram de eletrônicos, alfaiates e prestadores de serviços. Havia também boates e salões de beleza”, conta Luiz Calanca, que já produziu o ex-mutante Arnaldo Baptista e é dono da primeira loja da Galeria que foi dedica ao rock, a Baratos Afins. A vocação roqueira do prédio floresceu em meio ao caos. Quando chegou ao local, em 1978, Luiz Calanca encontrou um edifício abandonado e decadente. O local onde criou sua loja foi alugado quase de graça. O preço? “Dei uma coleção do Roberto Carlos para o proprietário, mas ele queria mesmo era alguém para pagar o condomínio”, lembra. Nos anos 1980, brigas de gangues e uso indiscriminado de drogas pelas escadarias, banheiros e corredores levaram a Galeria à decadência. A chegada da Baratos Afins já havia impulsionado a entrada de várias outras lojas de rock, mas, ainda assim, os problemas com segurança eram frequentes. A partir dos anos 1990, a infraestrutura do prédio melhorou e ele ganhou o estilo e a fama que tem hoje em dia. Outras lojas, como Wop Bop e a Devil eram paradas obrigatórias para quem sabia ou queria saber quais eram as novidades do rock. “Ela era um ponto de encontro para quem tinha banda ou estava montando uma”, lembra Nasi, ex-integrante do Ira!.

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“Hoje, a galeria ficou bem mais limpa e agradável do que era há 20 anos. Não tem briga, não tem confusão, as lojas são melhores”, compara André Barcinski, jornalista e apresentador do programa Garagem, da TV Uol. O que não mudou é que antes e agora, o prédio continua sendo o lugar ideal para comprar camisetas de bandas de rock do mainstream ao underground ou para encontrar aquele álbum superraro. Foi lá que Digão, dos Raimundos, encontrou o disco ‘Now’, da banda de reggae Black Uhuru, que não achava em nenhum outro lugar”. Para ele, a galeria “é um templo que inspira rock ‘n’ roll, onde você vai encontrar coisas inimagináveis. Você pode comprar discos, roupas e sair de lá um roqueiro completo”, diz. O espaço atrai fãs de rock que querem ver e ser vistos por outros amantes do ritmo, como as amigas Jenifer Barbosa Araújo e Josy, que costumam passar a tarde toda por lá. "É bom para ver as novidades e porque sempre encontra-

mos algum conhecido", conta Jenifer. “E os melhores shows têm ingressos vendidos aqui”, completa Josy. “Além de referência, o prédio virou um ponto de encontro, reúne as pessoas. Na sexta-feira está cheia de molecada”, diz André Barcinski. Cinco mil pessoas passam pela Galeria todos os dias, segundo a administração. Com sorte, é possível se deparar com um ídolo visitando o espaço. Há para todo gosto e faixa etária. Vavo, do NX Zero, a Digão, dos Raminudos, e Nasi, ex-integrante do Ira!, são frequentadores. Pela galeria também já passaram figuras ilustres como Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, Kurt Cobain, Raul Seixas e o grupo Sepultura.

Pelos corredores, encontra-se com Elvis Presley e Raul Seixas, imortalizados em duas estátuas. Desde junho, Michael Jackson também pode ser visto

Em outros tempos, as escadarias também eram usadas para o consumo de certas substâncias suspeitas

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Algumas pérolas dos 46 anos PORRADA Reunir várias tribos é uma das maiores virtudes da Galeria, mas também motivos de bons atritos. O músico Nasi, ex-vocalista do Ira!, chegou a rasgar um fanzine que criticava um show de sua banda e jogar na cara de Calegari (ex-Inocentes), responsável pelo artigo. O texto do jornalzinho profetizava que era preciso “combater os falsos punks”, fazendo referência ao Ira!. Hoje, os músicos são colegas.

Nas 450 lojas, encontra-se de tudo. Que seja rock, claro. Abaixo, Luiz Calanca, dono de uma loja de vinis desde 1978

FALSIFICAÇÃO A banda Fresno descobriu que uma loja da Galeria estava vendendo camisetas do grupo falsificadas. Pressionaram o vendedor da loja, que entregou todas as camisetas não-licenciadas. Depois do episódio, o Fresno doou as blusas para moradores de rua. DE PRESENTE A visita de Kurt Cobain, ex-vocalista do Nirvana e um dos maiores artistas do rock, foi bem diferente. O músico visitou várias lojas e levou de presente da famosa Baratos Afins uma coleção de discos dos Mutantes – banda que o roqueiro admirava. EMOS Há dois anos, a tribo foi um problema para a Galeria. Os administradores tiveram que tomar atitudes severas contra o grupo, que criava confusão com alguns lojistas. “Os emos radicais foram expulsos, porque mijavam dentro da Galeria e faziam muita bagunça”, revela Calanca. A atitude parece ter surtido efeito somente sobre os mais radicais, porque facilmente você encontra algum emo por lá.

Oriente-se É no SUBSOLO que ficam as lojas voltadas para o hip-hop e salões de beleza afro. O TÉRREO concentra as lojas destinadas a skatistas. As melhores lojas de camisetas e discos de rock ficam no SEGUNDO e no TERCEIRO ANDARES. É no segundo andar que ficam as mais famosas, Baratos Afins e Estrondo, além da Santa Hell.

Garotas à procura de roupas, tatuagens e, por que não, roqueiros?

O QUARTO ANDAR é o paraíso para quem curte criar camisetas e acessórios. É lá que se concentram as lojas de silk screen e estamparias.

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Paradas obrigatórias BARATOS AFINS A loja preferida de Nasi e Digão tem um acervo de 90 mil títulos em vinil (contra 30 mil em CDs). Os álbuns mais raros que você encontra por lá são 'Paibiru', de Lula Cortes e Zé Ramalho (à venda por R$ 2.500) e a coletânea 'Brazilian Rock Tops' (à venda por R$ 1.500). O local é frequentado por músicos e repleto de gente que procura borrachões e obras raras. Para completar, Luiz Calanca, o dono da loja, é uma enciclopédia ambulante do rock e está sempre disposto a bater um papo sobre o assunto. ESTRONDO A loja tem um visual vibrante, com cores vermelha e amarela, e surgiu em 2000. É a preferida de André Barcinski e Vavo e tem como símbolo uma estrela – homenagem à banda The Clash. O lugar é o destino certeiro para quem quer encontrar camisetas e acessórios relacionados ao punk rock.

Inaugurado em 1963, o prédio foi oficialmente batizado como Shopping Center Grandes Galerias. O projeto de Alfredo Mathias era inspirado nas curvas de Oscar Niemeyer Nos arredores A atitude roqueira da Galeria do Rock acabou se alastrando até outro ponto comercial a poucos metros dali: a Galeria Presidente. Em comum, elas têm as lojas voltadas para reggae e black music e os salões de beleza afro. A loja mais conhecida da galeria vizinha é a London Calling, referência na venda de CDs de rock alternativo. O maior diferencial da Presidente, entretanto, é a loja dedicada ao universo HQ, a Comics. Além de mangás e quadrinhos, dá para garimpar camisetas, pôsteres, vídeos, bonecos e revistas relacionados ao tema e também a seriados antigos.

Serviço Galeria do Rock De segunda a sexta, das 9h às 20h; sábado, das 9h às 17h Rua 24 de Maio, 62 (entrada também pela Av. São João, 439)

São 46 anos de serviços prestados ao rock. Na Galeria do Rock pode-se fazer uma tatuagem, comprar uma camisa da sua banda preferida e fazer parte de um fã-clube... E dá-lhe rock ‘n’ roll!

Com sorte, é possível se deparar com um ídolo visitando o espaço. Há para todo gosto e faixa etária. Vavo, do NX Zero, a Digão, dos Raminudos, e Nasi, ex-integrante do Ira!, são frequentadores comente! redacaoragga.mg@diariosassociados.com.br


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paraty

bruno ferrari

Os filhos de Gandhi assistem Ă  uma palestra na Festa de Literatura Internacional de Paraty

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FLIP,

do por Bernar

Biagioni

125, 132, 145km/h. O carro palpitava pelos remendos do asfalto oscilante e temeroso. Dançava, ia e não ia, acelerava impune pelos traços de um mapa extenso, traiçoeiro e vívido. Era como se tivéssemos correndo nossos dedos pelas veias do Brasil, estancando seu sangue, tragando sua liberdade tão desnuda e pura. Pelo retrovisor ondulava o tempo, as barreiras policiais, uma, duas, três e quantas outras aparecessem. Um medo gélido em cada uma delas, afinal, ali estava um veículo potencialmente criminoso, perigoso e suspeito. Nosso pecado? A velocidade. Sempre a velocidade, doce entorpecente dos pneus acelerados, o cheiro inebriante da gasolina que se esvai timidamente pelos poros dilatados do tanque parcialmente preenchido. Mas não importava. Nada importava, senão o destino: Festa de Literatura Internacional de Paraty, ou FLIP. No fundo, sabíamos que era só um nobre pretexto para arrancarmos quatro dias de praia dos nossos rotineiros trabalhos e agora tudo que precisávamos era pisar cada vez mais fundo. Somente pisar cada vez mais fundo. Em alguns minutos estaríamos lá. Nadando pelado com colegiais seminuas, trocando garrafas de cervejas com gringos analfabetos e contando aventuras de amor junto da fogueira. Esse é o meu trabalho. Essa é a minha profissão.


bernardo biagioni bruno ferrari

esquecidos pela indústria cultural brasileira. Todos inertes pelas calçadas ladrilhadas por (não tão) extintos escravos do período colonial brasileiro. JORNALISMO RESPONSÁVEL

Conheça Bill, o maluco do pedaço Acima, blues de graça, batuques estranhos e caiçaras sorridentes. A festa nunca acaba

HOJE TEM FESTA LÁ NA PRAIA Quem me falou sobre as colegiais foi o Marcílio, dono de uma das pousadas da Praia do Jabaquara, em Paraty. Apesar dos seus quarenta e poucos anos, a ideia de ter algumas garotinhas de 18 anos perambulando pelo seu estabelecimento muito lhe agradava. “Se eu fosse você, ficava por aqui”, disse. O discurso libertino que veio em seguida ia em perfeita contramão ao que eu devia fazer: assistir a algumas palestras, entrevistar dois ou três romancistas e elogiar os responsáveis pela festa de literatura mais importante do Brasil. “Não cai nessa de literatura, meu amigo. Só tem velho nessa feira”, continuou Marcílio em meio a sorrisos extasiantes e suspeitos. Fiquei com medo de sua perversão ir além das garotinhas e me prontifiquei em concordar reafirmando minha opção sexual. “Isso aí. Vamos mostrar para essas colegiais quem manda nessa escola.” O olhar selvagem do caiçara me assustou. A verdade é que Paraty, durante os cinco dias de FLIP, se transforma na cidade mais badalada do país. São dezenas de shows, teatros de rua, oficinas de leitura, exibições de filmes e noites de blues em cada uma das ruelas estreitas do Centro Histórico. Isso sem falar nas estrelas globais, escritores decadentes e jornalistas bêbados que circulam pelas esquinas como se fossem grandes artistas deste novo século. Todo mundo se acha importante por estar no lugar certo e na hora certa. Alguns recitam poesia, outros arriscam velhos sambas

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"Coletiva de imprensa? Rá, rá, rá. Você está brincando, né?." Eu não estava brincando. Minha cara não era de brincadeira. Estava de pé em frente à assessora, perguntando quando poderia entrevistar o jornalista Gay Talese, a escritora Sophie Calle e o biólogo Richard Dawkin junto dos demais jornalistas que pipocavam pela cidade como grandes cavaleiros da verdade. "A coletiva foi hoje de manhã, Bernardo. Todas as entrevistas já foram realizadas." Olhei no fundo dos seus olhos com toda a incredulidade do mundo e tentei enfeitiçar seus sentidos mais bondosos com as palavras mais sinceras deste planeta: "Mas você precisa me ajudar. Como vou chegar em Belo Horizonte sem uma única entrevista?". Ela deu de ombros e tornou a bebericar seu copinho de plástico de poucos centímetros. O barulho que fazia enquanto sorvia aquela coca-cola quente era repugnante. "Tudo bem", pensei. "Eu não queria entrevistar ninguém mesmo". Confesso que há alguns meses comecei a ficar obcecado com a ideia de ficar famoso, mudar para o Havaí e escrever grandes histórias de amor. Meu objetivo era ficar largadão na praia, trocar alguns acordes com o Jack Johnson e até pegar algumas ondas quando o mar não estivesse consideravelmente assassino. Mas Chico Buarque me fez repensar a escolha. Não, ele não chegou e falou: "Ei, Bernardo, escute. Cara, você precisa repensar sua escolha". Não foi assim. O poeta, compositor e amante sexual mais promíscuo do Brasil era a maior estrela da Festa. Subiu no palco acompanhado de gritos frenéticos e cada palavra sua era seguida por um suspiro universal. "Ele não é gostoso?", perguntou uma senhora para mim. Concordei com a cabeça para não estragar sua noite e mudei de lugar antes que seus hormônios aflorassem. "Escrever é uma chatice", disse Chico no meio de alguma frase sem muita importância. A platéia foi ao delírio, os jornalistas tiraram bloquinhos de anotações dos bolsos e o "camera man" do meu lado gritou: "Merda!!! A câmera estava desligada!!!". No dia seguinte, 876 jornais brasileiros tra-


Em alguns minutos estaríamos lá. Nadando pelado com colegiais seminuas, trocando garrafas de cervejas com gringos analfabetos e contando aventuras de amor junto da fogueira

ziam estampados em seus cadernos de Cultura: "Chico fala que escrever é uma chatice". Se eu fosse famoso e morasse no Havaí, ia ter que aguentar ver minhas frases mais banais sendo estampadas nos principais jornais do Brasil. Imagina: "Bernardo Biagioni aponta: Jack Johnson enrola um baseado como ninguém". Rá, rá, rá. Isso não ia funcionar. FOGO NO BAMBU O arrependimento de não ter trabalhado costuma bater nos últimos dias. De repente você acorda, percebe que sua pousada não é tão bacana assim, que as colegiais não são tão interessantes e que você está completamente fodido porque não escreveu nem uma única linha durante toda a viagem. Eu estava sentado de frente para a praia, onze e pouco da manhã, e tudo que pensava era: "Velho, o que foi que eu fiz? Por que não trabalhei como os outros cavaleiros da verdade?". Os gregos têm um nome especial para esse sentimento indócil, avassalador e inoportuno que avança pelas nossas cabeças sutilmente sem percebermos: viagem errada. Em todo caso, já estava na hora de colocar as coisas de volta no carro e acelerar mais uma vez. E não há quem fique mal com a ideia de encher um carro de malas e acelerar mais uma vez. Não quando se tem um tanque de gasolina completo, boas praias na memória e nada de preocupante escondido sob a lataria do veículo. Já era tempo de deixar aquilo tudo para trás, Paraty, FLIP, Chico e o velho Talese, que disse coisas incríveis que jamais esquecerei. Naquele momento, só me importava a estrada, seus buracos, desvios, caminhos e placas tão misteriosas e levianas. Um último olhar pelo retrovisor antes de dobrar a cidade e, assim, tudo parecia um grande circo, onde nada aconteceu de verdade. Fomos todos personagens de algum romance eletrizante que envolvia sexo, drogas, pessoas seminuas e assessoras de imprensa desprovidas de amor no coração. E agora, no final, na última curva antes de pisar fundo mais uma vez, estava tudo calmo. O mundo inteiro estava pronto para ser feliz para sempre. Como um bom e velho conto de fadas. Bon voyage.

Bernardo tenta tocar na chave do portal

bernardo biagioni

bernardo biagioni

Gay Talese, homem de boas palavras e chapéu de sambista

bruno ferrari

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Veja só o entusiasmo do Chico Buarque

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CAROL FRANCISCHINI por Lucas Machado fotos Bruno Gabrieli

Carol usa: vestido Diane Von Fürstenberg e sapatilha Prada Tudo começou quando a sua mãe fez escondida a inscrição da Caroline em um concurso de moda realizado pela Agência Mega Models, em 2002. Francischini, além de ficar em primeiro lugar, na sequência se mudou para Nova York com apenas 13 anos. Em nossa entrevista em Sampa, em meio à arrumação de malas, fotos e muitas risadas, nos mostrou que beleza e simpatia acabam se transformando em palavras e versos eternos. Mas o que realmente assusta nessa paulista de Valinhos são os números, ou melhor, as medidas: 1,78 m de altura; 88 cm de busto; 62 cm de cintura e 89 cm de quadril. Esse “contour” é simplesmente o sonho de qualquer top internacional. Com a moda, Carol já conheceu quase o mundo inteiro. “Morava em NY e durante 4 anos não fiquei nem um mês na minha casa. Sempre em ponte aérea para vários cantos do mundo, menos a África”, comenta. Entre os vários trabalhos realizados estão editoriais para Vogue Teen, Itália, Portugal e Brasil, Marie Claire, Elle e Cosmopolitan France. Campanhas para Tommy Hilfiger, Calvin Klein e Gucci, desfiles para Fendi, Max Mara, Diesel e Ralph Lauren. E quando o assunto é passarela, dispara: “Amo o que faço, porque não é rotineiro e cansativo. Mas o que mais me emociona são os desfiles.” Não é por menos. Francischini é uma das modelos que mais participou do SPFW, chegando a subir na passarela de 32 marcas diferentes numa única temporada. E mais: além de ser a queridinha da Victoria's Secret, foi eleita uma das 100 mulheres mais sexies do Brasil.

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TRIBUTO

por Bruno Mateus ilustrações VINIL CIUS

Raul Seixas, morto há 20 anos, continua, com sua obra, flamejando seu rock e seu grito como uma mosca na sopa a zumbizar Há algum tempo, na velha Bahia, ele imitava Little Richard e se contorcia. As pessoas se afastavam pensando que estava tendo um ataque de epilepsia. A cena, na capital baiana de meados da década de 1950, era protagonizada por um garoto de topete de brilhantina e camisa aberta com gola levantada. O cenário musical era polarizado. De um lado, Teatro Vila Velha e bossa nova para universitários, gentes-finas e intelectuais; do outro, clubes frequentados por proletários onde, e só onde, se podia dançar rock. Foi nesse cenário que Raul Seixas teve contato com o estilo musical que faria uma revolução no seu modo de ser, agir e pensar. Sua família morava perto do Consulado Americano, alguns conhecidos traziam LPs dos Estados Unidos. Os primeiros discos que ouviu foram de Elvis Presley, Little Richard e Jerry Lee Lewis. Ele queria mesmo era ser escritor, mas viu no rock a maneira mais fácil de dizer o que pensava. Este mês, serão lembrados os 20 anos da morte daquele que injetou poderosas doses de filosofia, metafísica, rebeldia e realismo no iê-iê-iê tupiniquim e misturou rock com música

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nordestina. Os raulseixistas podem esperar por novidades. O kit 20 Anos sem Raul, com um CD com os grandes sucessos de Raul e Paulo Coelho em versões em inglês e um DVD documental de 30 minutos sobre a vida do roqueiro será lançado pela MZA Music no dia 21 deste mês, data da morte do artista. Outro projeto é um documentário sobre o baiano, que está sendo filmado e tem previsão para chegar às telonas no fim deste ano. Mosca na sopa desde pequeno, Raul fazia rock em uma Salvador onde a bossa nova era chique; rock era coisa de gentinha. Aos 10 anos – ele nasceu em 28 de junho de 1945 – já tocava profissionalmente nos Relâmpagos do Rock. Com o grupo Raulzito e os Panteras, lançou um álbum homônimo, em 1968, que alcançou pouco sucesso comercial. Em 1971, inocente, puro e besta no Rio de Janeiro, Raul, então produtor da gravadora CBS, aproveitou as férias do presidente e, revelando sua personalidade anárquica, gravou, com Edy Star, Miriam Batucada e Sérgio Sampaio, o álbum ‘Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez’ às escon-


ao Sistema. A semente da Sociedade Alternativa estava sendo plantada, motivo pelo qual foi preso e torturado por agentes do DOPS. Deixou o país com a então mulher Edith, Paulo e sua mulher, rumo aos Estados Unidos. Lá, teria se encontrado com John Lennon e dado uma canja em um bar com Jerry Lee Lewis. Pelo menos é o baiano quem contava. O álbum ‘Mata Virgem’, de 1978, é o último em que os dois trabalham juntos. No fim dos anos 1970, vida pessoal atordoada, desilusões amorosas, desavenças com gravadoras e problemas profissionais e de saúde por conta de alcoolismo já começavam a fazer parte da rotina de Raul Seixas.

didas com o dinheiro da gravadora. Foi demitido logo depois que descobriram a traquinagem. “Conheci Raulzito em 1972. Ele chegou vestido de terno preto, cabelos penteados, óculos e mala preta, bem tradicional. Raul era produtor de feras como Jerry Adriani e Renato e seus Blue Caps. Fomos para uma sala. Ele me disse que tinha um grupo de rock e diversas músicas de sua autoria. Pedi pra ele me mostrar. Raul pegou o violão e começou logo com ‘Let me Sing’. Saí da sala pensando: ‘o cara é fera!’”. Quem saiu da sala impressionado foi Marco Mazzola, produtor de cinco discos do cantor, entre 1973 e 1977. Nesse tempo, apesar de ganhar boa grana com shows e royalties, Raul ainda morava de aluguel. Mazzola quis ajudar o amigo e, com o dinheiro do próprio bolso, querendo fazer surpresa, deu o sinal para garantir o apartamento para o roqueiro. “Após uns drinks, resolvi contar o que eu tinha preparado. Com os olhos cheios d’água, me abraçou e disse: ‘Mazzoleira, muito obrigado por isso que fez por mim’. Foram momentos tão emocionantes que carrego comigo até hoje”. A parceria com Paulo Coelho também começou em 1973. Tempos de fortes influências do bruxo inglês Aleister Crowley, discos voadores, estudos esotéricos, desobediência

ANOS 1980, CHARRETE QUE PERDEU UM CONDUTOR Em 1980, Raul lança ‘Abre-te Sésamo’ e muda-se, com a mulher Kika e a filha Vivian, para São Paulo, deixando o Rio, onde viveu toda a década de 1970. “Eu tinha 17 anos quando o conheci, em 1981. Coloquei um anúncio no jornal dizendo que eu queria montar um fã-clube do Raul. O anúncio repercutiu e consegui o número da casa dele. Fiquei dois dias ensaiando, até que liguei. Ele ficou muito feliz, me convidou para almoçar. Dali pra frente não nos desgrudamos mais, até o fatídico 21 de agosto de 1989.” A frase acima é de Sylvio Passos, que, de fundador de fãclube, se transformou em amigo e companheiro do contador “nas histórias engraçadas e tristes”. Segundo Sylvio, a partir do álbum ‘Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!’ (1987), começou a degradação física do roqueiro. Desconfiança do meio artístico devido ao seu alcoolismo e internações para tratar da saúde complicaram a vida de Raulzito. “De 1987 a 1989 foi um período triste. Ele estava deprimido, desgostoso,

“Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha juntos é realidade” (Raul Seixas)

ivan cardoso

cbs/divulgação

“Não tinha ninguém [do meio da música] no enterro. Só vi o Kiko Zambianchi e o Kid Vinil. Depois que ele morreu, todos querem gravar, fazer tributo” Marcelo Nova

“Que o mel é doce é coisa de que me nego a afirmar. Mas que parece doce, afirmo plenamente” (Raul Seixas)

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mila petrillo/cbpress divulgação

A parceria com Paulo Coelho começou em 1973. Tempos de fortes influências do bruxo inglês Aleister Crowley, discos voadores, estudos esotéricos, desobediência ao Sistema. A semente da Sociedade Alternativa estava sendo plantada

arquivo pessoal/paulo coelho

Raul e Paulo Coelho em show no Canecão, em 1989: viva a Sociedade Alternativa! No alto, Raulzito e Marcelo Nova, seu último parceiro. Com a ex-mulher Kika Seixas (centro)


arquivo

arquivo pessoal/sylvio passos

triste. Rebelde, não queria tomar os remédios. Os momentos de alegria eram com a música.” “Tristeza profunda, não dá para traduzir em palavras. A saudade que sinto do Raul é a mesma que sinto do meu pai. O meu ídolo continua vivo, quem morreu foi o amigo”, diz Sylvio, lembrando-se do dia em que recebeu a notícia da morte do cantor. O presidente do Raul Rock Club ainda acredita na Sociedade Alternativa – “é você ser o que você quer, é o seu desejo, sua vontade” – e se sente privilegiado em dar continuidade à obra do amigo. “Ele dizia: siga seu próprio caminho para ser feliz de verdade. Essa é a mensagem.” Carinhoso e brincalhão. É assim que Vivian Seixas, fruto da união com Kika Seixas, se lembra do pai. O Capitão Garfo, personagem que Raul criou para brincar com ela, e o dia em que cataram formigas com pinça no escuro do quarto do hotel, também não saem da memória da terceira filha do baiano. Embora estivesse com 8 anos, Vivian se lembra da morte de seu pai. “Minha mãe ficou muito tempo ao telefone. Depois, me sentou no colo e disse que tinha uma coisa triste para contar: ‘Papai Raul morreu’. Ainda hoje me emociono, a saudade não vai embora.” Simone e Scarlet, as outras duas filhas do cantor, moram nos Estados Unidos. Vivian, que é DJ, vai lançar, este mês, um CD com músicas do baiano em nova roupagem. “Tomei cuidado para manter a identidade do meu pai. Estou feliz, me emocionei muito no caminho.” Procurado pouco antes das nove da noite, Marcelo Nova atendeu o celular e disse, sem frescura: “E aí, meu velho. Pode me ligar aqui em casa mesmo.” O ex-vocalista do Camisa de Vênus estava

pronto para fazer a entrevista e falar sobre aquele que foi seu parceiro e amigo. Marcelo Nova volta no tempo para lembrar do impacto que sentiu quando viu Raul no palco, em Salvador. “A primeira vez que vi e escutei rock foi com Raulzito e os Panteras, a dois metros de mim. Mudou a minha vida. Pensei: ‘Ah, quero fazer essa porra também’. Raul foi o primeiro compositor com o qual me identifiquei. Ele falava as coisas que eu queria falar.” Em 1989, por ideia de André Midani, então gerente-geral da gravadora Warner, os dois gravariam aquele que seria o último álbum de Raul: ‘Panela do Diabo’. “Queríamos fazer um disco de rock 'n' roll. É um disco que me agrada muito. Entre os meus 17, é um dos favoritos.” Em 16 de agosto, dia do seu aniversário, Raul desceu de pijama até a rua para abraçálo. “Foi a última vez que vi Raulzito vivo”, lembra. No triste 21 de agosto de 1989, Dalva, empregada do cantor, ligou para Marcelo Nova. Por volta de oito e meia da manhã, ele chegou ao apartamento de Raul com o empresário dos dois e um amigo em comum. Ele já estava morto, vítima de falência múltipla dos órgãos, pancreatite aguda e parada cardíaca. No enterro, em Salvador, cerca de 100 pessoas invadiram a igreja para levar o caixão e Raul para passear. Na confusão, Marcelo Nova levantou a voz, pediu respeito e conseguiu botar ordem na bagunça. Se o povo queria estar ao lado de seu ídolo, Marceleza lembra do descaso da classe artística: “Não tinha ninguém [do meio da música] no enterro. Só vi o Kiko Zambianchi e o Kid Vinil. Salvo engano, foram os únicos artistas. Depois que ele morreu, todos querem gravar, fazer tributo”, ironiza.

fotos: arquivo pessoal/sylvio passos

Acima, o roqueiro e Sylvio Passos, amigo e presidente do Raul Rock Club, fã-clube oficial do cantor. À direita, Raul e o produtor Mazzola: amizade e parceria que renderam cinco álbuns

Marcelo Nova evita lembrar do amigo de forma melancólica. “O que fica para mim é um artista que deixou uma obra para o mundo. Ele já fazia história e entrou para a história. O tempo se encarrega de botar as coisas no lugar. Lembro do Raul de uma maneira divertida, das sacanagens que a gente aprontava”, diz, gargalhando, como se estivesse pronto para mais um show do ‘Panela do Diabo’ esta noite. Gênio, louco, areia da ampulheta, profeta, maluco beleza, cowboy fora-da-lei, cachorro-urubu, metamorfose ambulante ou, apenas, um magrelo abusado. Mesmo 20 anos após sua morte, Raul Seixas continua vivo através de sua obra atemporal. Sim, como Raul bem disse, as pessoas não morrem, elas despertam do sonho da vida.

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Em uma manhã de terça-feira protegida pelo Sol, Raul nos recebeu em sua casa de quatro espremidos andares, no Bairro Serra. Ali, o baixinho barbudo fica à vontade, grita e gargalha feito criança. “Minha casa é uma maravilha, é a mais diferente do mundo todo. É o meu sonho”, diz, com palavras lúcidas que saem em meio ao seu longo bigode grisalho. Raul era moleque quando ia para a casa do vizinho escutar as músicas do baiano. Nessa época, ainda era Isoé Jorge Mateus de Faria. O personagem veio em 1990, quando ficou desempregado. “Começaram a falar que eu parecia com o Raul. Me deram a bicicleta e o violão. Mesmo sem saber tocar, comecei a andar pela cidade tocando as músicas dele”, lembra. Com sua bicicleta, a cachorra Pretinha e o violão, Raul trabalha na Feirinha do Arnaldo, aos sábados, e, aos domingos, na Feira Hippie. Nos dias de semana, ele toca

em bares pela cidade e é reconhecido por onde passa. “Eu sou feliz, porra!” Raul trabalhava de auxiliar de serviços gerais, em Angra dos Reis, quando recebeu a notícia da morte do cantor. “Acabou o dia, desceu uma lágrima. Foi como se tivesse morrido um pedaço de mim”, lamenta, com infantil ternura. Hoje, não gosta nem de lembrar, “dá uma vontade de chorar”. Sobre Paulo Coelho, parceiro mais famoso do baiano, Raul prefere que não seja publicada sua verdadeira opinião, justificando que o escritor o conhece e pode ler a matéria. Ele se limita a dizer: “Tudo que Paulo Coelho é hoje ele deve ao Raulzito.” Entre pausas e olhares buscando o nada, Raul deixa claro o carinho e a amizade que sente pelo cantor. “Deus fez o homem com barro e Raul com barro e amor.” A música preferida é o famoso hino à “maluquez”. “Sou maluco beleza com muito orgulho. É da minha loucura que vivo.” Educado, procura um cinzeiro para este repórter que fumava. “Aqui são todos bem tratados”, diz. É no pequeno terraço de sua casa – segundo ele, agora também minha – que ele fala de Raul Seixas com conhecimento catedrático: “Raul é o presente, não o passado. É ser feliz, amar. E viva a Sociedade Alternativa!” O grande sonho deste arquétipo de Raulzito é tocar viola no túmulo do baiano, em Salvador. E, quando estiverem frente a frente, de Raul para Raul, o discurso já está pronto. “Quando morrer, quero encontrá-lo e agradecer muito, de coração. Ele é meu alimento, minha paz e meu espírito”, afirma, como um velho sábio chinês. bruno senna

“Eu rezo para o Raul. Ele é um profeta”


a música e o tema

Os Doces Bárbaros, em ‘Chuck Berry Fields Forever’, cantavam que rock é o nosso tempo, baby. Em 1977, o punk rock procurava se contrapor ao rock progressivo para vender o rockestilo como sinônimo de atitude, e não de música. Foi aí que o jornalista britânico Jonathan Green compilou dezenas de frases sobre rock´n´roll num dos capítulos do livro ‘The Book of Rock Quotes’ (Ed. Omnibus Press), inédito no Brasil. Leia algumas das melhores frases ditas por roqueiros de várias idades, estilos e tendências sobre a música que incluiu o jovem e sua cultura na indústria da música.

reuters

O que é o rock’n’roll? Arte ou diversão? Sopa instantânea ou Nescafé? Revolução intelectual, ou um simples jeito de passar as horas, de três em três minutos?

“A música é um jeito seguro de ficar alto.”

Mono Man/ Jeffrey Connolly

Rock’n’roll é isto?

“Rock´n´roll é dirigir um carro por aí, com o rádio ligado.”

por Kiko Ferreira

Jimi Hendrix

“Rock´n´roll é café solúvel.”

nicholas roberts/afp photo

Bob Geldof

“Acho que rock´n´roll é todo frivolidade - ele deve ser sobre cetim cor- derosa e meias brancas.” Mick Jagger

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Mark Farner, do Grand Funk Railroad

Malcolm McLaren

“Nós tiramos os garotos de suas casas e de seu ambiente, para um lugar onde a única coisa real é a batida e o ritmo.”

“Rock´n´roll não é só “Música é tudo. As pessoas deveriam música. Você está vendendo morrer por ela. Elas morrem por atitude também. Tire a atitude tudo, por que não pela música?” Lou Reed e você será como qualquer um. Os garotos precisam de “Rock´n´roll é uma arte tecnológica." Patti Smith um sentido de aventura. E rock´n´roll dá isso a eles.”


ap photo file

resenha do filme ‘Blackboard Jungle’ - no Brasil, ‘Sementes de Violência’, - no trecho em que fala da música ‘Rock Around the Clock’, de Bill Halley

“A escola do rock´n´roll concentra um mínimo de linha melódica e um máximo de ruído rítmico, deliberadamente rivalizando com os ideais artísticos da própria selva.”

“Rock´n´roll é a música que me inspirou a tocar. Não há nada conceitualmente melhor do que o rock´n´roll.” John Lennon

“Se você não consegue dizer uma coisa em uma música de três minutos, você não deve dizer.” Noddy Holder, do Slade

reuters stringer

“Rock´n´roll é uma sopa de sonhos. Qual seu sabor?” Patti Smith

“Senhores e senhoras: vou cantar agora uma canção que conta uma história que faz muito sentido: awopbopaloobopalopbamboom! Tootie Fruttie! All Rootie!”

“Rock´n´roll não é arte - é o jeito de gente comum falar.” Billy Idol

“Esse é o problema do rock dos últimos anos. As pessoas chamam de arte. Mas não é.” Mick Jones, do The Clash

“Não me interprete. Minhas músicas não querem dizer nada. São só palavras.” Bob Dylan

“Não existe punk, nem new wave. É só um próximo passo para os grupos seguirem seu caminho. Chame do que quiser. Todos os títulos fedem. Chame só de rock´n´roll.”

kevin winter/getty images

Little Richard

Elvis Costello

“O rock´n´proll com certeza não vai mudar o mundo. E nem está interessado em tentar.” Todd Rudgreen


quem

é RAGGA

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fotos Dudua’s Profeta


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O QUE É ROCK PARA VOCÊ?

Com o rock 'n' roll, tive a sorte e o talento de transformar meu hobbie em minha profissão.

roberto assem

Marcelo Nova


O rock ‘n’ roll é uma experiência na qual demonstro o que sinto. Nesse sentido, tento fazer meu lado rebelde. Com os Mutantes, minha rebeldia era aceita, respeitada e foi aumentando com o passar do tempo. Deixou eu me abrir, como se fosse uma flor. Com o rock, consigo explicar coisas que, às vezes, podem parecer utopia. Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o meu rock ‘n’ roll.

bruno senna

Arnaldo Baptista, ex-Mutantes


paola máximo

O rock era um caminho para que eu me libertasse de tudo o que achava hipócrita e da educação castradora de meu pai. Me apaixonei pela guitarra do Angus Young e comecei a tocar cedo, já sonhando com minha banda. Até hoje, tudo o que consegui realizar na minha vida foi por causa do rock. Rock 'n' roll rules!

Syang


Rock 'n' roll já foi uma música para mim. Hoje é muito mais, é a atitude. Tentei trazer um pouco de rock 'n' roll pro disco [A Arte do Barulho´´], com guitarras e tudo mais, mas eu vi que não era simples assim. Rock é muito mais que isso.

carlos hauck

Marcelo D2


carlos hauck

O rock é um estilo musical, um meio de vida, uma maneira de lidar com a vida. O rock compreende esses quatro rapazes que hoje são uma banda [a Fresno]. Se não fosse o rock, eu seria só mais um qualquer, não tinha outra perspectiva antes de tocar. Então, não existe nada mais importante que o rock. Viva o rock!

Tavares, baixista da Fresno


I

WANNA!

Mesmo quem não sabe a diferença entre indie rock, rock progressivo, hard rock, hard core, emo, trash metal e heavy metal se rende diante da estética roqueira que, com visual meio agressivo e muito sensual, revoluciona a moda desde 1950. Couro, caveiras e peças-homenagens a bandas clássicas podem ajudar a criar um look rock star até para aqueles que trabalham dentro de um escritório. Vale a pena tentar. Vai que alguma groupie aparece pelo caminho...

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Fab5

fotos: carlos hauck

Nos anos 1980, roqueiro que era roqueiro tinha que ter, além de uma coleção de vinis e pôsteres de bandas nacionais e gringas, muitos botons. Eles costumavam infestar as mochilas jeans da galera. Mesmo que as mochilas jeans tenham entrado em extinção, ainda dá para usar os pins (como são mais conhecidos atualmente). Comece sua coleção com o símbolo do rock (e da Ragga). R$ 5

PIN

Basta ler alguma revista de moda para saber que o rock é tendência e que o coturno deixa qualquer produção mais pesada. Para fugir do ritual de amarrar os cadarços e afivelar por meia hora, a solução da Black Boots foi criar um modelo cinco fivelas com zíper na lateral interna. Mais prático para calçar, mas continua com pinta de revoltado fashion – seja lá o que isso signifique. R$ 269

Quem compra este porta-níquel (20cm) – peça de Sonali Armani para a Botões inspirada nos Beatles – corre o risco de passar o dia inteiro cantarolando “we all live in a yellow submarine, yellow submarine, yellow submarine”. Nada mal. R$ 48

Pesado

...ROCK ‘N’ ROLL


Incendiada por Jimi Hendrix ou tratada com amor sexual por Keith Richards ao longo das eternas megaturnês dos Stones, a guitarra Fender é sinônimo de rock ‘n’ roll desde 1946. A Fender American 60th Anniversary Stratocaster, edição comemorativa do seu modelo mais famoso, é um clássico com escala em rosewood com 22 trastes MJ e marcação em madre-pérola, três pickups SC-Am Vintage ´57 Strat e outros luxos. R$ 7.202

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Botões 31 3223-5152 // Fridda 31 3225-7510// Mercado 31 3223-3186// O ovO 31 3261-9533// Black Boots 31 3281.8845 // A Serenata 31 3211-1313 *Os preços foram divulgados em julho e são sujeitos a ajustes.

Fofos Peça-chave

Uma camiseta de rock é a camisa branca dos descolados: um curinga. Você tem que ter pelo menos uma. Para as meninas, as criações da Skate Rock Violeta têm manga princesa. À venda na Mercado. R$ 39,90

Seis cordas

divulgação

Depois de cuspir sangue, pisotear pintinhos com botas de plataforma e tocar com guitarras-lança-fumaça, os integrantes do Kiss alcançaram um feito ainda mais inimaginável: tornaram-se bonecos fofos (de 46cm). À venda na loja O oVO. R$ 79

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israel

Balada forte israelense

texto e foto Frederico Bottrel

Entre clubes da moda e espaços alternativos, a noite de Tel Aviv e Jerusalém tem espaço até para as músicas do Tchan

A introdução do 'Rap das Armas' é inconfundível. Quando o batidão invade a pista e os primeiros acordes são acompanhados do incomparável ”papaparapapá”, nos vocais de Cidinho & Doca, o pessoal desce até o chão – ou pelo menos tenta. Seria previsível se a balada em questão fosse uma casa noturna qualquer no Brasil, mas estamos em Tel Aviv, cidade com ares cosmopolitas, conhecido polo econômico de Israel. E ouvimos o mesmo funk em todos os clubes que visitamos em uma noite de sexta-feira; da diversão mauricinha na boate fina à jogação insana em uma casa russa alternativa, todos se acabam ao som de “O morro do Dendê é ruim de invadir/ Nós com os alemão vamo se divertir”. Antes da diversão noturna, é imperdível ir à praia em Tel Aviv. Ali, a convivência entre tradição e, digamos, cosmopolitismo, pode até assustar. Em uma caminhada breve enquanto o sol vai embora, às 20h (horário de verão), você pode passar por um muçulmano fazendo embaixadinhas enquanto suas duas esposas se banham com roupas e chador (o lenço que elas usam na cabeça). Bem ali ao lado, dois casais gays assistem ao pôr do sol, abraçadinhos, trajando microsunguinhas. Um menino e uma menina se amassam na areia, adiante. Ali perto, um quiosque toca música brasileira. Mas não há espaço para o 'Rap das Armas'. O pessoal prefere descer

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na boquinha da garrafa ou segurar o tchan – os gringos, é claro, não entendem a letra explicativo-coreográfica e dançam espécie de salsa, com as mãos fechadas, sacudindo maracás imaginárias. E nem é preciso esperar o sol mergulhar no Mediterrâneo para entender por que Tel Aviv é conhecida como uma cidade do mundo. Com quase 400 mil habitantes, o lugar comemora 100 anos, e é daqueles que (por que os moradores sempre adoram essa expressão?) nunca dormem. O antigo porto é, provavelmente, o melhor exemplo disso. O espaço foi totalmente reformado para receber bares, restaurantes, lojas e clubes. Os estabelecimentos simplesmente não fecham as portas. É possível fazer compras às 4h30 da manhã. Dá para sair da balada e tomar um café da manhã com champanhe entre queijos e frutas, a poucos metros da casa noturna. Os antigos manuais turísticos recomendam evitar compras no sábado em Israel, já que o sétimo dia é sagrado para os judeus (do poente de sexta-feira ao poente do dia sábado). De fato, em muitas cidades, na tarde de sexta-feira todas as portas já estão baixas. Esqueça essa regra em Tel Aviv, que não para mesmo. A noite pode começar em um restaurante como o Boya, com espaço interno e também mesas dispostas na parte de


A poucos metros do Kibutz está a TLV, a maior boate do porto. O espaço é líder na renomada cena eletrônica de Israel. Celebridades internacionais do mundo dos DJs, como Tiesto e Paul Oakenfold, batem ponto ao vivo na TLV, vez ou outra. É bom ficar atento ao calendário da casa, no site oficial, para não se meter em enrascadas. São noites específicas para cada tipo de público. Escolher entre terça, quarta ou quinta vai depender se você gosta de gente do sexo oposto, se não, ou se você é de todo mundo (opção para as festas de swing que rolam por lá). Se tanta “modernidade” não faz a sua cabeça, saindo do porto também existem bons points espalhados pela cidade. O High Windows é um dos mais badalados. Com piso e paredes de vidro, mulheres desavisadas de vestido, no segundo andar, fazem a diversão dos marmanjos que olham para o alto e agradecem. É ali que o DJ Tako explica, entre uma Fergie e uma Shakira: “O 'Rap das

Armas' chegou aqui por causa do filme 'Tropa de Elite'. Começou a tocar e é sucesso garantido na pista”. A temática da violência urbana, que norteia a letra da dita canção brasileira, não é realidade em Israel. Um assalto à mão armada é tão raro que pode ir parar na capa dos jornais, juram os nativos. A violência que estigmatizou o país, marcada pelo conflito histórico entre israelenses e palestinos, também parece estar em trégua nas ruas de Tel Aviv. De modo que a vida ali segue seu curso – curso bem animado, diga-se. Animação despojada se encontra no Nanutchka, um bar russo. Chama atenção o balcão ornamentado com moças bêbadas de saias curtas. Elas são frequentadoras comuns que, lá pelas tantas, perdem a noção do perigo, sobem no bar e não estão nem aí para o resto. Além de 'Rap das Armas', outro sucesso do passado recente da música brasileira que costuma fazer pirar as mocinhas do balcão é 'Tic tic tac', do pitoresco Car-

ministério do turismo de israel/divulgação

fora, bem diante do mar. Decoração moderninha e público idem. Frutos do mar são destaque, a preços justos para um dos restaurantes mais bacanas da cidade. Passe longe se você não quer deixar pelo menos 80 sheklim (cada shekel, a moeda israelense, vale 50 centavos de real) no Boya. E se o assunto é preço, o campeão da cerveja barata é o Kibutz. Batizado com o mesmo nome das organizações comunais trabalhistas de Israel, o bar tem espaço para o pessoal praticamente se deitar em esteiras, enquanto bebe boa cerveja, em garrafas com preço equivalente a R$ 1,50. As mesas têm narguilês e, entre uma e outra baforada, os mais empolgados podem se jogar, de graça, nos controles de PlayStation e Nintendo Wii. A nobre ideia de comunidade socialista que originou os kibutzim passa longe da galera que se esmera nos jogos eletrônicos trajando Nike e Adidas, mas ninguém ali se importa.

Efervescência nas boates e ruas serenas em Jerusalém: contrastes

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Bares, boates e pubs. Em Tel Aviv e Jerusalém sobram opções para garantir a diversão

Na TLV, maior boate do porto, escolher entre terça, quarta ou quinta vai depender se você gosta de gente do sexo oposto, se não, ou se você é de todo mundo (opção para as festas de swing que rolam por lá) rapicho, grupo amazonense criado em Parintins. Se você não se lembra, talvez os versos “Bate forte o tambor, eu quero é tic tic tic tic tac” digam alguma coisa. O batuque amazonense pode ser surpreendente, mas o espanto maior fica por conta da noite em Jerusalém, capital do país, a 1 hora de carro de Tel Aviv. O lugar sagrado para judeus, muçulmanos e cristãos finca as bases do turismo nas sinagogas, mesquitas e igrejas e esquece de divulgar a surreal noite teen que invade o centro da cidadela. O set list do Zollis Pub, um divertido e movimentado boteco com narguilês e pipocas por conta da casa, tem espaço até para Xuxa, a rainha dos baixinhos. Ao som de 'Ilariê', um grupo de novaiorquinos de 18 anos, que estão em Israel servindo ao exército, sacodem os braços. Mais à frente, três estilosas meninas russas, que também são militares, fazem uma coreografia ensaiada para 'My humps', do Black Eyed Peas. Em Israel, o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres. Muitos judeus, em todo o mundo, mandam seus filhos para morar lá e adquirir essa experiência. À noite, alguns deles vão para o Zollis. O pessoal joga conversa fora enquanto decide onde esticar a balada. A boate

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Bonita, com hits latinos, é opção ali ao lado. De lá de dentro, as luzes da pista contrastam com a mesmice arquitetônica tradicional da cidade – todas as casas são revestidas pela mesma pedra branca, dando aquela sensação de que estamos em um filme que conta a vida de Jesus. Mas, de sagrada, a noite tem muito pouco. Um ou outro jovenzinho de kippar (aquele chapeuzinho) marca presença. Um deles logo acende um cigarro. E, quando os bares começam a fechar, eles ficam por ali mesmo, na rua, alugando narguilês a 15 sheklim cada, e fazendo autofotos com câmeras digitais. A diferença para os teens brazucas é que, em vez de parar no Orkut, as imagens se destinam ao Facebook. Normalmente, para aproveitar a noite de Jerusalém, é preciso escapar do roteiro – que costuma ser religioso e ponto final. Não é preciso desprezar o Muro das Lamentações, mas vale a pena experimentar o outro lado da cidade sagrada. Já Tel Aviv tem até guia de turismo especializado em nightlife. Se até Xuxa, Carrapicho, Cidinho e Doca batem cartão ali, como ficar de fora?


ministério do turismo de israel/divulgação

Mesmo ao som de Xuxa, Carrapicho e É o Tchan, Tel Aviv respira pura e aliviada

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RAGGA fotos Jana Vieras modelo Fernanda Carvalho


O mundo é grande A mente é suja O sangue é quente E o desejo indisfarçável

‘pecado’, Ira!

Yo sólo quiero hacerte el amor E ir caminando un rato bajo el sol Y de un momento a otro te diré que tengo que dejarte otra vez pero estaremos juntos hasta el amanecer

‘El Tren de las 16’, Pappo


MODELO fernanda carvalho FOTO jana vieras ROUPAS E ACESSÓRIOS saravá 31 3264.4336 MAQUIAGEM E CABELO fabiano vieira PRODUÇÃO michelle capriss e li maia

Close your eyes, close the door you don’t have to worry anymore ‘I'll be your baby tonight’, Bob Dylan I'll be your baby tonight


Qualquer problema fica mais fácil de se enfrentar quando muita gente está do seu lado.

Ajude na luta contra o câncer.

31 3218.4200


vidal cavalcante / ae timothy a. / afp photo

O hard rock não virou purpurina por Izabella Figueiredo

Embora tenha surgido nos anos 1970 representado por bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, AC/DC e Kiss, foi nas décadas de 1980 e 1990 que o hard rock atingiu seu ápice. Era impossível ligar o rádio e não ouvir um hit do Motley Crue, Poison, Skid Row e Guns 'n’ roses. Essas bandas predominavam no topo das paradas mundiais e mostravam que hedonismo inconsequente podia ser transformado em música (e fazer muito sucesso). A identidade instrumental do hard rock se dá pelo combo: riffs de guitarra pesados mais arranjos trabalhados, baixo, bateria e guitarra comandada por um mestre no instrumento – como Jimmy Page ou Slash. Entretanto, quando se trata desse estilo, o que marca mesmo são os gritos agudos do vocalista, solos performáticos, muitas canções cultuando sexo, drogas e rock n’ roll e, de vez em quando, uma baladinha mela-cueca para não deixar as garotinhas apaixonadas órfãs de trilhas-sonoras. A extravagância no palco e no estilo de vida refletiam diretamente no vestuário dos caras. Roupas chamativas e estampas de oncinha eram indispensáveis a um hard rocker, assim como o laquê nas

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jubas acompanhadas de muita maquiagem e biquinho nas fotos. Muitas vezes rotulados de homossexuais, essa parte não incomodava, já que a defesa vinha por conta das groupies orgulhosas de dividir a cama com os membros – e roadies – das bandas. Após reinar por quase 20 anos, o hard rock foi destronado por um certo cara fedendo a espírito adolescente, que chegou para anunciar que não havia mais espaço para tanta alegria. Com raízes no punk e hardcore, Kurt Cobain e o Nirvana falavam de suicídio, agulhas infectadas e depressão. A simplicidade das bandas de garagem que se valiam de palcos simples, roupas de flanela e cabelos ensebados acabou por contradizer o que o hard rock pregava. Nessa guerra o grunge levou a melhor. Enquanto o hard rock ia perdendo força, bandas como Pearl Jam e Soundgarden vendiam milhões de álbuns pelo mundo, movimentando a indústria fonográfica. Mesmo com seu declínio, o hard rock continua caminhando lentamente com o suporte de fãs que glorificam e tentam manter vivo o estilo “farofa”. Henrique Godinho, de 24 anos, conheceu a namorada Alana Mazoro, de 21, graças a isso. Ele – que como todo hard rocker que se preze, tem um nome de guerra: Rick Kilcher – usava um fotolog para divulgar sua banda, enquanto Alana postava, no mesmo site, textos sobre a cultura hard. O “encontro” deu tão certo que hoje o casal mora junto em São Paulo (Rick é de Belo Horizonte e Alana de Santa Maria, no Rio Grande do Sul). Polêmico e demodê, o hard rock não agrada mais a todos como outrora, mas justiça seja feita: quem o escuta, no mínimo, se diverte muito.


Em Breve Vit贸ria/ES Sete Lagoas/MG

BOUNDLESS

Belo Horizonte/MG: S茫o Pedro Mangabeiras Savassi

31 3223 2146 31 3223 0487 31 3317 4250

Divin贸polis/MG: Centro

37 3222 9025

Rio de Janeiro/RJ:

Barra da Tijuca CONTATO : 3296 14 70 Shopping Downtown Bloco 22

21 3449 4080

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fotos: afp photo

fotos: divulgação

Flashrock ‘09

por Sabrina Abreu

Todo dia é dia de rock. Mas só 13 de julho é “o” Dia Mundial do Rock. Comemorações à altura celebraram a data nos cinco continentes. Por aqui, a Converse (marca eternamente roqueira graças a ninguém menos que Marky, Dee Dee, Johnny e Joey Ramone) realizou o Flashrock pela terceira vez. Este ano, a cidade escolhida foi o Rio. Na noite do dia 12, o pessoal já começou a se aglomerar na Lapa para assistir ao show do Cachorro Grande, num palco montado na rua. Para completar, Mop Top, Macaco Bong e Fantasmagores tocaram até o dia 13 amanhecer.

Esporte: Muay Thai Modalidade: K1 Rules Saulo Cavalari Cidade: Curitiba, PR (Saulo Clay) Idade: 19 anos campeão sul-americano de thai-kick. ConquisAltura: 1,87m Peso: 90kg o título Mundial de thai-kick e lutar no K1. Naturalidade: Almirante Tamandaré, PR tar Melhor resultado em competições: Por que pratica? Escolhi o muay thai por- 2007 Campeão Brasileiro de Muay Thai; 2008

arquivo pessoal

que sempre procurei um esporte que pudesse ter uma prática esportiva bem completa. E sempre gostei muito de lutas.

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Compete desde: 2000 Metas para 2009: Defender

meus títulos, como o Cinturão Brasileiro (CBMT) e o título de

Campeão Sul-americano de K1 Rules; 2008 Campeão Brasileiro de K1 Rules; 2008 Campeão Paranaense Cinturão GP, Penta Campeão Estímulo Muay Thai. Com 30 lutas, 29 vitórias, uma derrota e 23 nocautes. Contato: saulo_cley@hotmail.com

Atenção, atleta em busca de patrocínio, cadastre-se na seção Adote um Atleta no portal Ragga (revistaragga.com.br), ou escreva para: redacaoragga.mg@diariosassociados.com.br


mark duncan/ap photo

MÚSICA

amy sancett/ap photo

O rock and roll vem a BH. Em pessoa

por Bruno Mateus

Nascido em 1926 no estado de Missouri, nos Estado Unidos, Charles Edward Anderson Berry ou, simplesmente, Chuck Berry representa com precisão matemática o que é rock and roll. Mesclando blues com música country e versos sobre garotas e carros, Chuck Berry começou a fazer história em 1955, mesma época em que artistas como Elvis Presley, Johnny Cash e Jerry Lee Lewis mostravam para os pais recatados que a filhinha sabia, e queria, sacudir os braços, rodar a saia e dançar rock. Seria pouco dizer que Chuck Berry influenciou bandas como Beatles e Rolling Stones; ele conseguiu unir brancos e negros na música e nos bailes. Berry marcou gerações com toques inconfundíveis de guitarra e com seus passos e danças, enquanto parecia brincar com aquela guitarra vemelha, que, até isso, ele definiu como ícone do rock and roll. Berry bagunçou, no bom sentido, a vida de guitarristas como Keith Richards e Eric Clapton, que já declarou que, se não fosse pelo ídolo, nunca teria pegado no instrumento. Entre seus clássicos estão ‘Sweet Little Sixteen’, ‘Roll over Beethoven’, ‘Rock and Roll Music’ e ‘Memphis Tennessee’. Impossível não falar de ‘Johnny B. Goode’, que tem umas das introduções mais famosas do rock. Se você não sabe qual é, não sabe o que é rock and roll. Prestes a completar 83 anos, Chuck Berry se apresenta em São Paulo, no dia 19 de agosto. Dois dias depois, é a vez de Belo Horizonte receber um dos maiores ícones do rock and roll. Tenha você 70 ou 16 anos, um show desse não é de se perder. “Se você tentasse dar outro nome ao rock ‘n’ roll, poderia chamá-lo de Chuck Berry” (John Lennon)

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1°Roberto e Erasmo

_Olha aí os tremendões, os bambambãs, os reis da bala chita e agora os símbolos do rock ‘n’ roll. Eles são terríveis e vão perturbar seu sono se não levarem o primeiro lugar.

2°Rita Lee

_ Erva perigosa, lança-perfume e treze microgramas de LSD. É chato admitir, mas sem ela os Mutantes não teriam sido tão mutantes.

3°Sérgio Dias/Arnaldo Baptista

_ Os grandes xamãs do rock. Psicodélicos, subversivos, vanguardistas e estupradores da bossa nova recatada que ajudaram a destituir. Gênios.

4°Lobão

_ Ex-presidiário, ex-maloqueiro e “melhor amigo” de Caetano Veloso. Currículo impecável.

5°Marcelo Nova

_ Grande Marceleza. Esse ficou na Terra depois que o interplanetário Raulzito debandou dos palcos e não tentou mais uma vez.

6°Supla/João Gordo

_ Se o punk morreu, Supla e João Gordo não ficaram sabendo.

7°Tom Zé

_ Para provar para todo mundo que a Bahia tem o rock no pé. Diz aí, Pitty.

8°Dih Ferreiro

_ Um beijo para o Fih, o Lih, o Fuh, Luh, Cuh, Cleyton e toda a família NX. “Emo é o caralho, porra.”

9°Gilberto Gil

_ Ele é tão rock ‘n’ roll que foi ministro da Cultura por uns dias aí.

10°O rock morreu

_ Se você é um roqueiro de verdade, assinale essa opção com um X.

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último ranking

Raul Seixas, Cazuza e Cássia Eller abandonaram o barco. Renato Russo (rock de Brasília, mano) também levantou a bandeira depois de viver como se não houvesse amanhã. O que sobrou, sobrou. Na redação da Ragga, este foi o debate mais fervoroso desde a relevância de uma matéria sobre índios tupinambás. “Quem seria o grande símbolo do rock nacional?” Nós vamos passar a bola para vocês, porque essa brincadeira gerou até demissão por aqui. Sério.

paulo namorado | geraldo viola | fabio motta

símbolos do rock ‘n’ roll nacional

top 10

Tom Jobim/Vinicius de Moraes/Chico Buarque E qual seria então o maior símbolo sexual do Brasil? Muitos falaram em Latino, Kelly Key e até no Belo, mas vocês, leitores, provaram que ainda existe salvação para este mundo febril e descompensado. Dá só uma olhadinha no pódio: 1º) Tom Jobim/Vinicius de Moraes/Chico Buarque (34%) 2º) Roberto Carlos (18%) 3º) Wando (12%) Tom, Vinícius e Chico. Os três boêmios cariocas conseguiram transformar a pegação desvairada e promíscua na maior poesia do último século. Essa coisa de banquinho, violão e tapete debaixo da porta não engana ninguém, não. Por essas e outras, a santíssima trindade leva o primeiro lugar. Em segundo, de calhambeque, terno branco e cheio de tantas emoções, o rei mostra que seu reinado vai além do que previa quando disse para Jesus Cristo que estava aqui. “Jesus Cristo eu estou aqui.”. Yeah. Isso aí, rock ‘n’ roll até a última ponta. Em terceiro, mas com 15 mil calcinhas, a nossa última capa: Wando. Dissimulado, conquistador barato e malevolente, ficou com o terceiro lugar porque mascou e sussurrou palavras de amor no ouvido de alguma funcionária da Ragga. Dos primeiros, ficou em último, mas estará sempre na frente de todos os safados que perambulam pelas noites em busca de prazer. Wando nelas!!!


fotos: divulgação

JÁ INVENTARAM

por Sabrina Abreu

Toque você mesmo I

Toque você mesmo II

Desde que Guitar Hero virou mania, é comum flagrar gente por aí com crise de abstinência, fazendo “air guitar” no trabalho e na escola. O problema pode ser contornado com o Guitar Hero Carabiner, espécie de minigame licenciado do Guitar Hero, com 10 músicas e três níveis de dificuldade. O layout é meio tosqueira, mas o preço é honesto: US$ 10. Como também é pequeno (4”x 3”), não é tanto incômodo para aquele seu amigo trazer um na próxima viagem.

Assumir as baquetas que foram de Ringo Starr, o baixo de Paul McCartney, as guitarras de John Lennon e George Harrison está prestes a ser um sonho possível. O lançamento The Beatles Rockband está marcado para 9 de setembro, nos Estados Unidos. O brinquedo é fiel ao design dos instrumentos originais e as canções vêm diretamente das fitas originais de Abbey Road, o lendário estúdio onde eles gravaram vários de seus clássicos. Um atentado contra a sanidade mental dos fãs.

Completa

Mais que um canivete

Se o celular já não dá conta de toda sua veia artística/fotográfica, está na hora de investir em um equipamento mais completo, como a Nikon D5000. A maior novidade é o monitor vari-angle que desce (90º) e gira (180º), dando liberdade total na escolha dos ângulos. As fotos supernítidas podem ter até 12,3 megapixels. E também grava vídeos. À venda só na gringa.

Os kits-sobrevivência da vida moderna têm que incluir um pen-drive. A Victorinox sabe disso. Entre a tesoura, a faca, a pinça e outros acessórios de sua linha de canivetes suíços, a marca adicionou pen-drives de até 32GB, laser e bluetooth. No Brasil, só está à venda o modelo de 2GB, mas até 2010 devem chegar outros com mais memória.

camilla maia/agência o globo

Jonas Torres Ele foi objeto de inveja das nossas infâncias. Afinal, quem não queria ser o Bacana para surfar com Juba e Lula ou flagrar Zelda Scott pelada? Passados os bons tempos, Jonas Torres desapareceu. Dizem que virou piloto nos EUA e ator de novela da Record. Se você também tiver um palpite sobre o destino dele, envie para: redacaoragga.mg@diariosassociados.com.br

Se lembrar de mais alguém que um dia foi reconhecido pelas ruas, mas hoje inexiste no imaginário popular, nos avise.

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Os novos cabeludos lívia mendonça

por Rodrigo Ortega

Músicas lentas, graves e pesadas. Público violento, com direito a crowdsufing, empurrões e até roda de pogo. Banda concentrada, vocalista pouco simpático, exceto por algumas palavras em alemão no começo do show (mesmo que tenham sido simpáticas, foram em alemão). Tirando o baterista, todos escondiam o rosto atrás dos tufos de cabelo. Parece a descrição de um show do Soundgarden em 1991, mas esses são os ingleses Arctic Monkeys na sua versão 2009. No Viena Arena, na capital da Áustria, numa noite quente de julho, eles fizeram um dos primeiros shows com o repertório do seu terceiro disco, 'Humbug', com lançamento este mês.

Na Rede por Taís Oliveira Noé e a Baleia :: baixe em noahandthewhale.com O segundo disco do quarteto londrino Noah and the Whale só sai no dia 31 de agosto, mas a banda já disponibilizou o primeiro single, ‘The first days of spring’, para download gratuito. Também dá para ouvir a nova ‘Blue skies’ no MySpace do grupo, que anda mais melancólico do que na época do hit ensolarado ‘Five years time’.

Valeu a pena enfrentar o empurra-empurra e distribuir cotoveladas para ver um show potente e sem frescuras. Entre as novas músicas, estava ‘Crying lightning’, single inicial do disco, que chega às lojas alguns dias antes do álbum. A primeira impressão é mesmo de que é a melhor das novas. Parece que a parceria dos ingleses com Josh Homme, dos Queens of the Stone Age, fez bem a eles. Além do novo single, eles também tocaram três faixas novas: ‘Pretty visitors’, que abriu a apresentação, ‘Dangerous animals’ e ‘Potion approaching’. Todas seguem a linha de ‘Crying lightning’, menos animadas do que os antigos hits do grupo e com guitarras distorcidas de sobra. Eles disseram que o álbum tem influências de Black Sabbath (também falaram que é um disco de reggae, mas não sei se é sério, e pelas músicas do show não parece). As faixas inéditas foram bem recebidas pelo público, mas claro que os momentos de maior empolgação foram hits como ‘When the sun goes down’, ‘Brianstorm’, ‘This house is a circus’ e ‘Bet you look good on the dancefloor’. Em ‘Fluorescent adolescent’, eles alteraram o arranjo, pisando no freio e desviando dos caminhos mais pops do passado. Após o "mais um" em alemão, a banda voltou com ‘505’, com os teclados tocados por um músico que está acompanhando a banda no palco. Alex Turner, mais magro do que nunca e parecido com o vocalista dos The Horrors, não parecia estar nos seus melhores dias. Saiu antes de a música terminar. Mesmo assim, ele e seus colegas de Sheffield fizeram um show competente que atiçou a curiosidade para o novo disco.

Gripe suína de pelúcia :: compre em giantmicrobes.com A gripe suína já chegou no mundo da música. O cantor Jens Lekman fez alguns shows no Brasil, Argentina e Chile, e levou para a Suécia "uma lembrancinha", como disse em seu site: o vírus H1N1. Infelizmente é o vírus verdadeiro, e não a versão de pelúcia vendida na internet. Autoflagelo :: veja no youtube.com/user/DominoRecords O Franz Ferdinand parece se divertir cada vez mais em seus clipes. Em ‘Can't stop feeling’, eles interagem entre si através de telas diferentes, e acham jeitos nada tradicionais de fazer flexão ou mesmo ir ao banheiro. Pode parar de dar tapa em si mesmo, Alex Kapranos, a gente garante que o clipe ficou bem legal. Mallu na garagem :: ouça em musicadebolso.com.br O single ‘O Tempo’ já estava disponível para download gratuito desde março. Em maio, foi a vez de o CD inteiro da banda brasiliense Móveis Coloniais de Acaju ser disponibilizado para quem quiser baixá-lo de graça. O legal é que você pode ter C_MPL_TE no seu computador legalmente. Everybody dance now :: veja em youtube.com/user/dkellerm Um homem dança, sozinho, uma música da Santigold (ela recentemente trocou o "o" pelo "i"). Outro homem se junta a ele, de brincadeira. Até aí, tudo normal. Um terceiro vem e, em menos de dois minutos, uma multidão se reúne em volta deles e começa a dançar. Parece até comercial, mas aconteceu no festival Sasquatch.

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fotos: divulgação

por Taís Oliveira Se existem discos com os quais você quer se casar ou constituir família, 'The Eternal' é o disco que você quer como amigo. Experiente, animado, bonito, um pouco doido, clássico, porém com um toque vanguardista. Quem não iria querer sair com ele? Nome pretensioso para alguns, 'The Eternal' descreve exatamente o álbum e reúne o espírito do Sonic Youth, como uma coletânea que resumisse a obra da banda, só que com músicas inéditas. Uma sensação de déjà vu, mas não no sentido negativo. O eterno é cíclico, como mostra a capa. O disco começa da melhor maneira. ‘Sacred trickster’ é forte, agitada, curta e com a agressividade do vocal de Kim Gordon. ‘Anti-orgasm’ começa com um riff repetitivo, mas quando a batida dançante-esquisita de Steve Shelley começa e as guitarras mudam, sabemos que é SY. O dedilhado inicial de ‘Leaky lifeboat’ traz à memória a cara drogada de Macaulay Culkin no clipe de ‘Sunday’ – a música é dedicada ao poeta beat Gregory Corso. Até aí o que vemos é o Sonic jovem e agressivo, com letras

que falam de sexo e referências ao movimento beatnik. A partir de ‘Antenna’, clássico com 6 minutos e várias camadas, vemos o lado maduro da banda (ou do nosso amigo). A voz de Lee Ranaldo deixa isso mais claro em ‘What we know’, com o clima soturno do baixo e dos tambores da bateria e a letra mezzo sombria e autorreferente. Lee Ranaldo devia cantar mais, como em ‘Walkin blue’ – as músicas “dele” têm um clima diferente, mais blue e reflexivo. ’Calming the snake’ tem o timbre de guitarras típico do Sonic Youth e a voz rouca, desafinada e raivosa de Kim Gordon, que talvez só eu goste. Já ‘Poison arrow’ mostra a vocalista mais delicada nos refrões e, com Thurston nos versos, a música resume o passeio entre o experimental e o “agradável” tão típico da banda. ‘Malibu gas station’ é uma espécie de ‘What a waste’ versão 2009, com um toque de Mark Ibold, novo membro do grupo. E se 'The Eternal' resume o espírito da banda, nada mais natural que uma música de quase 10 minutos para fechar o disco. ‘Massage the history’ é cheia de

da A T A PR CA SA \\

Cartoon

Vai lá: bandacartoon.com.br

é um disco mais direto. “Você percebe claramente as influências em cada faixa. Mas, juntando tudo, vê que todas têm um toque do Cartoon”, aponta. Que influências são essas? Bandas de rock progressivo, como Gênesis, Yes, Jethro Tull, além de uma mistura de outros gêneros, como jazz, folk, blues, MPB, rock, música clássica e até música indiana. A banda convive bem com essa diversidade e tem a consciência de usar as influências a seu favor, criando algo

novo, único, que seja a cara da banda. “Digo que somos parte do progressivo, porque nele cabe muita coisa. É um rótulo muito abrangente”, afirma Khadhu. Perto de completar 15 anos de carreira, o principal plano do Cartoon é diminuir o intervalo de tempo entre um lançamento e outro. Para isso, continuam a compor. “Começamos a trabalhar em material novo e esperamos lançar no máximo ano que vem”, adianta o vocalista.

divulgação

Na estrada desde 1995, a banda mineira Cartoon é considerada um dos mais expressivos representantes do rock progressivo nacional. Sempre muito elogiada pela crítica, a banda formada por Khadhu (baixo, violão, gaita, cítara, esraj e voz), Khykho (guitarra, violão e voz), Bhydhu (bateria, percussão e voz) e Raphael (teclados, violão e voz), faz um som próximo aos grandes nomes do gênero e tem conquistado admiradores diversos no melhor estilo “gregos e troianos”. Mas se engana aquele que pensa que o Cartoon fica preso aos estigmas do progressivo. Talvez esse seja o principal atrativo da banda: sempre estar em constante mudança e evolução. Seu último trabalho, ‘Estribo’, de 2008, se diferencia pela sonoridade mais rock ‘n’ roll em comparação aos dois outros álbuns, ‘Martelo’ (1999) e ‘Bigorna’ (2002). Segundo o vocalista Khadhu, ‘Estribo’

momentos “viagem”, com um tom mais calmo no início acompanhado de Kim Gordon e sua limitação de tons. Uma grande parte instrumental é o recheio da música, que não, não é uma barulheira sem propósito. Com a voz de Kim, sexy, cantando “You're so close, close to me/ Let's go back to bed”, é uma canção para massagear a história.

por Bruno Martinho

Saia da garagem! Convença-nos de que vale a pena gastar papel e tinta com sua banda. Envie um e-mail para redacaoragga.mg@diariosassociados.com.br com fotos, músicas em MP3 e a sua história.

O eterno Sonic Youth


PERFIL

por Sabrina Abreu fotos Cisco Vasques

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Para se tornar um ícone do rock nacional, o talento de Lobão na bateria, nos vocais e nas letras foi fundamental. Mas bem que os desentendimentos com gravadoras, a prisão por porte de drogas e os desafetos colecionados na imprensa e no meio musical ajudaram A biografia de Lobão, recheada de brigas com repórteres, editores, cantores e caetanos, poderia intimidar esta jornalista. Mas bastou entrar em seu home studio, no bairro paulistano do Sumerezinho, para desconfiar de que a fama de brigão, difícil e mau, atribuída ao cantor ao longo de quase 30 anos, pode ser, em grande parte, injustiça. Pontual, ele já esperava a equipe na companhia de Lampião (um de seus três gatos. Os outros são as fêmeas Maria Bonita e Dalila). Ofereceu uma dose de Jack Daniels, participou da seção de fotos animado (de novo, com Lampião), sugerindo posições. Apesar de toda a gentileza, a acidez característica não tardou. Antes mesmo de o gravador ser ligado, ele já disparava pérolas: “Moro há um ano em São Paulo e não sei como passei tanto tempo no Rio de Janeiro. Na verdade, não sei como nasci no Rio de Janeiro.” E ainda: “Se São Paulo é o túmulo do samba, o Rio é o túmulo do rock.” Como uma metralhadora impiedosa, mirou também, ao longo da entrevista, em Caetano Veloso, Chico Buarque, Los Hermanos, a imprensa, o Brasil. Quanto ao Rio, as críticas têm a ver com a mania do carioca de, por exemplo, aplaudir o pôr-do-sol. Apesar dos defeitos que vê na cidade, foi de lá que Lobão escreveu seu nome na história do rock nacional. Nos anos 1970, como baterista da banda de rock progressivo Vímana, com Lulu Santos e Ritchie; nos 1980, como parte da Blitz ou em carreira solo. Em Ipanema surgiu a amizade e parceria com Cazuza. No Galeão, ele foi preso por porte de drogas; nos morros cariocas, fez aulas de tiro e viu gente sendo partida ao meio, sem se importar, porque “estava bandido”. Hoje, em São Paulo, escreve suas memórias sobre os velhos tempos (livro a ser lançado em 2010), apresenta um programa na MTV e já passou por cima de polêmicas como a volta ao mainstream marcada pelo CD Acústico MTV, lançado dois anos atrás. Com muito mais para falar, Lobão não poupou a si nem a ninguém durante uma hora e meia de entrevista. Sem censura, tire suas próprias conclusões.

Para fazer esta revista, a gente fez uma lista das pessoas que considera mais rock ‘n’ roll no Brasil. Se fosse fazer a mesma lista, quem estaria nela? Vamos começar com o Arnaldo Baptista. Jupter Maçã também – ele é rock ‘n’ roll pra caramba. Xico Sá [jornalista] é rock ‘n’ roll. Também o Zed, ilustrador. Não precisa estar envolvido com a música para ser rock ‘n’ roll? Nem precisa ser roqueiro. O Cartola, o Nelson Cavaquinho são rock ‘n’ roll. Posso dizer por quê? Tudo o que você pode associar ao rock é uma coisa dionisíaca. Quando é apolíneo, é bossa nova, é pela forma. A bossa nova prima pelo acorde. Tem que ter um acorde, antes de ter uma razão espiritual e


O Brasil é o distanciamento total do rock. Uma sexualidade exacerbada e infantil, num país que fabrica mini-putas e Carlas Peres por metro quadrado visceral para ter o acorde. No rock, não. Para ter aquele acorde, tem que ter uma razão sintética com o delírio dionisíaco. Isso é rock ‘n’ roll. Em seu site há um fórum com opiniões dos fãs. Uma fã escreveu que, além de você, os outros dois ídolos dela são Michael Jackson e Freddie Mercury. Você lê essas coisas? Leio, claro. Acho interessantes todos os recados e revelam sempre comportamentos que a gente não poderia imaginar. Por exemplo, não poderia imaginar que uma pessoa que gosta de mim goste também do Freddie Mercury e do Michael Jackson. E saber que sou o único que está vivo é mais legal ainda, porque eu sou um cara, realmente, duro de cair [risos]. Você achou que duraria tanto? Tem casos fisiológicos e os conceituais, que são muito piores. Já recebi vários atestados de óbito da imprensa, mas não compareci. A [revista] Bizz, por exemplo, em 1991, colocou: “Lobão morreu”. Quer dizer, as pessoas querem isso. Atualmente, o paradigma dos jornalistas é totalmente retrógrado. É querer uma Dona Ivone Lara, o Luiz Gonzaga Júnior, é admirar e discutir o rock do Caetano Veloso. Não sei como isso pode acontecer. Ele detesta rock, toca violão como aquele cara fino que bebe cafezinho, assim, com nojo [leva a mão à boca, fingindo segurar uma xícara]. Ele é bossa nova, de acordo com o que você estava falando antes? Não sei, só sei que de rock eu entendo, e rock ele não é. Pode colocar o Black Sabbah para tocar atrás dele e, ainda assim, vai ser “trópicalista” (imita o sotaque baiano), porque ele é um pavão “mistérioso”, pássaro “fórmoso”. Ele não é David Bowie. Ele é Caetano Veloso. Voltando à morte física. Você chegou a pensar que morreria jovem? Achei que fosse morrer com 2 anos de idade, porque fui o primeiro caso de nefrose na América Latina. Só tive alta

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dessa doença aos 12, apesar de ter tido outras tantas. Depois, peguei uma suposta epilepsia tentando baixar Exu Caveira. Com 12 anos, fiz uma evocação a Exu Caveira com o som do Pink Floyd. Tive uma crise violenta, esperneei, caí, vomitei. Fui fazer eletro, acharam que tive uma crise epiléptica. Nunca mais tinha falado sobre isso com ninguém – sou um cético, não acredito nisso. Aos 24, eu estava com problemas, minha mãe tinha morrido. Uma amiga disse que eu precisava ir a uma jogadora de búzios. Aí a mulher falou: “fizeram um ebó violento para você”. Mas ela disse que aconteceu uma coisa que nunca tinha visto antes: “Dois exus não aceitaram o trabalho de jeito nenhum. Deram para o Tranca-Rua dois bodes, 30 galinhas, e ele recusou. E outra coisa: o Zé-Pelintra aceitou, mas o dono do cemitério, que é o Exu Caveira, falou que [o trabalho] não ia entrar.” Por isso que tenho um lema assim: se tem algum terror, o fantasma sou eu [gargalhadas]. Como foi ser parte da Blitz durante o estouro do Rock Brasil dos anos 1980? O buraco é bem mais embaixo. Houve uma reunião de pessoas que nos anos 1970 falaram: “Vamos tocar no rádio.” Eu, Júlio Barroso, Lulu Santos, Ritchie. A gente fazia rock progressivo e as músicas tinham 16, 20, 20 e tantos minutos. O Big Boy era o cara, o grande disc joquey da nossa geração, que ensinou todo mundo a ouvir música. Fomos mostrar a música do Vímana para o Big Boy e ele falou: “Você acha que vou tocar essa porra? Quanto você vai me dar?” Foi a primeira coisa do jabá. A gente era tão ruim, mas tão ruim, que, na época da ditadura, nem a polícia nos perseguia. Éramos tidos como alienados pela esquerda, mas a gente fazia um rock underground que foi, justamente, o pai de tudo o que aconteceu. Foi essa rapaziada que sobrou dos anos 1970, junto com o Guilherme Arantes, a Marina, que falou “vamos tocar no rádio, vamos fazer músicas de 3 minutos e invadir o programa do Raul Gil, do Bolinha, Barros de Alencar, vamos entrar com o povo brasileiro, porque o rock era

uma coisa só da classe média”. Então, isso foi um plano. Não foi de graça que eu toquei com o Lulu, Ritchie, Marina - só não toquei com o Guilherme Arantes -, dei um nome à Blitz e toquei com a Gang 90. Eu estava ali naquele momento, vi tudo nascer e não foi por acaso. A gente queria aquilo, porque não aguentava mais ouvir música de protesto: Elis Regina, Gonzaga Júnior, “uísque com guaraná”. Aguentar aquela coisa de a MPB ser contra a ditadura era uma coisa esquisita, porque todas as professoras que foram impostas nos colégios pela ditadura eram fãs de Chico Buarque. Para mim, o Chico Buarque nunca convenceu como resistência, porque ele tinha os mesmos olhos azuis do Garrastazu Médici. Quando você fazia um rock que não tinha a letra com a obrigação de ser panfletária, isso não era, na verdade, mais rebelde? Era, mas as pessoas são tão idiotas que... Por isso é que o David Bowie fala que “rock and roll is a fine art”. Acho que, a partir dos anos 1950, o mundo que ficou adulto, Godard, Bertolucci, todos eles eram rock ‘n’ roll, porque tinham esse sentido do dionisíaco e da transgressão. Também as esculturas, a arte moderna, tudo o que é esperto é rock ‘n’ roll. Quanto mais distante do rock, mais jeca. O rock ‘n’ roll é urbano, síntese do mundo, como se fosse um esperanto. Você fala qualquer coisa e as pessoas podem entender você no mundo inteiro. O Brasil é o distanciamento total do rock. Uma sexualidade exacerbada e infantil, num país que fabrica mini-putas e Carlas Peres por metro quadrado. É o beijar pelo beijar. Quem conhece puta sabe que ela não beija na boca. Dá o cu, mas não beija na boca. Aí vem a garota classe média, não dá o cu, mas beija na boca [gargalhadas]. Suas duas experiências na TV, com o [extinto] programa 'Saca Rolhas' e o 'Debate MTV' têm em comum esse lance de discutir ideias. Eles são uma contribuição sua para melhorar a


Lobão faz gracinha com seu gato. Com esta cara de bom menino cristão (à esquerda), você diria que ele já foi mascote do Comando Vermelho?

pra caralho, eu o ajudei na época da AIDS. Nós éramos os caras mais devassados do Brasil. Ele deu uma declaração muito interessante: “O Brasil é foda, para dois artistas como eu e o Lobão sermos razoavelmente reconhecidos, tive que pegar AIDS e ele teve que ser preso.” Ele me defendia. Aconteceram coisas históricas, mas o filme me bypassou. As pessoas me bypassam. Por que essa marcação? Você é muito rebelde, é brigão, qual é o lance? Não é nada disso. É uma história muito complexa, só vou contar isso no livro.

televisão? Não sei se é uma contribuição, mas é uma corrosão minha. Dou minha opinião. Evidente que estou ali para dar o meu editorial. Pensa bem: sou um cara altamente ejetado na mídia, as pessoas me bypassam no jornal, me bypassam no Grammy. No dia que ganhei o Grammy, o Globo publicou assim: “O fiasco do ano”. Quando falo que “Eu sou a Execução/ a Perfuração/ O Terror da próxima edição dos jornais/ Que me gritam, me devassam e me silenciam", não é de graça. Assim como temos péssimos artistas no mainstream, temos péssimos jornalistas nos grandes jornais. Eles mal sabem escrever. Acho que nem têm gosto musical, porque são venais. E como era sua amizade com Cazuza? Outro caso de ser bypassado, porque no filme da historia do Cazuza, eu, que era o melhor amigo dele, não apareci. Nós temos o evento da década que foi a minha prisão, e ele participou, me ajudou

Mas é injustiça? Olha para minha cara e vê... Nenhuma pessoa merece ser tratada assim. Por exemplo: no meu programa, recebo muito filho da puta por metro quadrado, sou incapaz de bypassá-lo, ele está no meu programa! Vou dar a palavra para ele, ele é quem vai mostrar se é mau ou não. Não vou censurá-lo. Esse é o problema. Se sou um cara ridículo, deixa eu mostrar que sou um cara ridículo. O que é insuportável é ser bypassado na sua informação o tempo todo. Também tem casos de lobby. Os Paralamas do Sucesso, nos anos 1980, me copiaram toda a obra. Não posso deixar de dizer que, seja em ‘Cena de Cinema’ [música do Lobão de 1983] e ‘Cinema Mudo’ [música dos Paralamas de 1990], ‘Me Chama’ [Lobão, 1984] e ‘Me Liga’ [Paralamas, 1990], ‘Revanche’ [Lobão, 1986] e ‘Alagados’ [Paralamas, 1994] ou Bateria da Mangueira [que tocou com Lobão no disco ‘Cuidado’, em 1988 e, anos depois, foi convidada a se juntar aos Paralamas no palco]. Por 20 anos, ele me roubou. Não só me roubou como me cortou, e tinha uma rede de jornalistas que ficavam do lado dele. Hebert virou Hebert/ Hermano/Gil e Caetano. A coisa ficou toda tropicalista.

Quem era esperto tocava instrumento, eu quis ser baterista. Cantor era veado: Caetano... Ninguém queria ser o Caetano ou o Mick Jagger. Queria ser o Keith Richards, o Jimi Hendrix www.revistaragga.com.br

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Lobão em ação: “De rock eu entendo”

Toda mulher é uma groupie

Você pende mais para um lado ou para o outro, ou não? Não. Na MPB o ponto gravitacional é a culpa e a inveja do pobre. Todo o cancioneiro popular brasileiro é cultivado com esse viés. Vê a 'Ópera do Malandro', tem coisa mais ingênua que a 'Ópera do Malandro'? Fui mascote do Comando Vermelho, você acha que tem malandro daquela maneira? Essa é a visão de um babaca da Zona Sul. Então, toda uma produção dita muito inteligente na música brasileira é burra, porque parte de sentimentos ingênuos. Culpa católica: sou classe média, mas vou para um botequim bem fuleiro, comer uma carne de terceira categoria. “Ai, que inveja de um vilarejo que tem no Grajaú.” Isso aniquila o processo artístico. Existe o jabá e o jabá às avessas, que é exercer influência para limitar o outro? Tem um poder. E qual é o papel da internet em relação a isso? A internet sempre será coadjuvante. Mas isso não significa que seu fator coadjuvante seja desprezível. Com a internet, você será paralelamente conhecido. Se quiser ser conhecimento nacionalmente, terá que tocar no Faustão, na novela e no rádio. Você começou na bateria e teve uma transição bem sucedida para os vocais. Como foi isso? Não sei se foi uma transição. É verdade que comecei a tocar bateria aos 3 anos, mas aos 6 já tocava violão. Aos 13, já comecei a tocar violão clássico. Eu não dava a menor pelota para ser cantor. Tinha vergonha, porque na minha rua ser cantor era como ser goleiro no jogo de futebol. Quem não sabia fazer merda nenhuma era cantor. Quem era esperto tocava instrumento, eu quis ser baterista. Cantor era veado: Caetano... Ninguém queria ser o Caetano ou o Mick Jagger. Queria ser o Keith Richards, o Jimi Hendrix.

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Sempre pensei que fosse o contrário e todo mundo quisesse ser o vocalista. Mas isso é porque você é mulher. A mulher tem um tesão muito grande pelo vocalista. Toda mulher é uma groupie em potencial? Em potencial, não. Toda mulher é uma groupie. Em potencial é pouco. O vocalista só aparece porque existe o público feminino. Quem gosta do Rolling Stones gosta do Charlie Watts, Bill Wyman, é dificil gostar do Mick Jagger. Quem gosta do Mick Jagger é mulher, quem faz o vocalista é a mulher, porque o homem não quer saber de letra. Não quero saber de poesia. Quero saber de beat. Você comentou que foi mascote do Comando Vermelho. Já fui, verdadeiramente, o mascote do Comando Vermelho. É um fato histórico. Isso aconteceu durante a prisão. Fui tirando a cocaína e botando o barbitúrico, fui tirando a falta de sono por muuuito sono. Fui dando muito remédio e eles ficaram muito gratos. Entrei numa cela que tinha o dono do morro Dona Marta, o dono do morro de Manguinhos, um monte de chefe de tráfico. Cuidei de todos. Enfim, virei o síndico, virei o cara que ordenava tudo na cadeia. Depois que você saiu, geral retribuiu? Depois que eu saí, tive aula de tiro toda quinta-feira. Quem me dava aula era o tenente coronel Paulinho, da Polícia Militar, mordomo do traficante. O João Guilherme Estrela, do ‘Meu Nome Não é Johnny’, fui eu que o inventei enquanto traficante. Vai ter isso tudo no seu livro também? Ele tirou isso da história dele em consideração a mim, mas fui eu que falei com ele. Você é um cara honesto, não tem tiro, gosta de cheirar cocaína como a gente: pura. Então, você vai ter uma clientela aqui no Rio que vai comprar esta porra.


Ele ficou rico, teve uma carreira brilhante [risos]. E o que acha das drogas hoje em dia? Não sei. Sou a favor da liberação das drogas para que elas não sejam mais uma questão de violência. Enquanto for proibida, ela vai ser violenta. Tem que ser tratada como [problema de] saúde pública, o viciado tem que ser tratado como viciado. E quem quer vender que pague imposto e venda droga pura, porque o pior é o que se põe na droga, misturando. Não estou falando que a droga em si é legal, mas a gente tem que conviver com ela. A gente não quer ser uma sociedade livre? Então, tem que enfrentar o proibidão do funk, o cara cheirador, o padre, o travesti, o rabino. Somos feitos disso. Como é o processo de escrita do livro? Estou escrevendo em parceria com o [jornalista] Cláudio [Júlio] Tognolli. Vou escrever minha parte, com todas as terminologias, minha maneira de falar. Ele vai colocar as entrevistas de pessoas que me conheceram, tanto amigos quanto inimigos. Ele é o da “máfia do dendê” [termo usado por Tognolli numa entrevista concedida à revista ‘Caros Amigos’, em 1998. Refere-se ao lobby feito por artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil para conseguir repercussão positiva na mídia], é o repórter investigativo. Falo para o Tognolli, “vai atrás desta foto”. Quando saí da cadeia, fui fazer o Chacrinha, o Gonzagão estava no camarim e falou: “Quero tirar uma foto, mas quero com o meu filho” – e o Gonzaguinha foi o único que não quis assinar o abaixo-assinado para me libertar [da prisão], porque era comunista e achava que roqueiro tinha que ficar preso. O Gonzagão chamou o Gonzaguinha: “Vamos tirar foto com o meu ídolo Lobão.” E a cara do Gonzaguinha! Quero essa foto. As pessoas vão ler e pensar que não aconteceu. A narrativa do livro é um rolo compressor. Não vai ter um descanso. Cada episódio é muito intenso e louco. E é bom revisitar isso tudo depois de tanto tempo? Estou adorando. Sou uma biografia ambulante. Quando estou no processo, já sei que isso vai ser uma boa história. Quando estava na prisão, contando os minutos e os segundos para sair, pensei assim: “Sou um cara da classe média, tenho 29 anos. Quem é que viveu isso? Estou tendo um acesso a um mundo que ninguém, nem repórter tem. Fui bandido, bati em tiroteio, usei bazuca, vi gente ser cortada ao meio, ser jogada viva no meio daquele negócio de mexer concreto [gira o indicador em círculos]. Você via isso e suas pernas não tremiam? Não. Eu estava bandido, gordão. Estava assim: “mata ele”. O CD de inéditas sai no ano que vem? Não sei, tenho que estar inspirado. Estou compondo. Por incrível que pareça, o fato de eu estar tendo um psicodrama da minha memória, me deixou supercriativo. E como é compor em São Paulo? Tão doloroso quanto é compor em qualquer outro lugar. Compor é doloroso.

Com o projeto da revista ‘Outracoisa’, Lobão lançou mais de 30 artistas, entre eles o Cachorro Grande

Recentemente, você disse que compôs uma música feliz em homenagem a São Paulo. A outra canção feliz foi ‘Corações Psicodélicos’, de 1983. É mais fácil falar de coisas que não são felizes? Só falo de coisas que estou sentindo. Geralmente, é muito mais fácil falar das coisas de que você está desgostando. É sempre menos cafona ter um discurso negativo. É muito mais fácil. É a mesma coisa: se você está com dúvida da roupa que deve colocar na hora de sair, põe um preto total, que é básico. O negativo é o básico. O mundo é brega e o Brasil é mais brega ainda, então, há um terreno enorme para desenvolver. Mas é muito bom quando faço uma música feliz e ela tem uma razão de ser. É uma pérola. Toco a vida toda, porque é a única... “Vamos levantar o ambiente”. Agora tenho duas. E agora você está numa fase feliz? Sou um homem feliz. Minha mulher [Regina Woerdenbag], com quem estou há 20 anos, me acha insuportavelmente feliz. Sou feliz o tempo todo, o que não me impede de recorrer a temas tristes, só porque é mais fácil ficar triste. Para eu poder fazer uma música que não seja canalha e seja alegre, tenho que estar superfeliz, estar fora do padrão de uma felicidade normal, para achar que vale. Comecei perguntando sua lista de rock ‘n’ roll. Agora, olhando para a música brasileira atual, para os músicos que chegaram depois de você, quem é rock ‘n’ roll? Para a figura ser rock ‘n’ roll tem que ser o Nelson Cavaquinho. Não pode simplesmente se vestir de rock ‘n’ roll e achar que vai passar pelo meu crivo impunemente. As próximas pessoas têm que viver mais um pouco. Existe muita gente misturada numa nova geração. Tem que esperar uns 2, 3, 4 anos para ver quem é quem. Mas tem muito som bom aí. Vou arrancar um elogio seu aqui. As pessoas falam isso, mas sou um cara que passou cinco anos lançando 30 artistas [por meio da revista ‘Outracoisa’, lançada em 2003]. Lancei Cachorro Grande, Turbo Trio, Fecho Éclair, pessoas que estão aí, fazendo carreira. Como é que vão dizer que sou o cara que não deixa pedra sobre pedra? Só não deixo, porque o Brasil é muito ruim. Só detono o que é ruim, mas não vou detonar o B Negão, o Mombojó, nem o Instituto, Canastra, Pata de Elefante, MQN. Tem uma porrada de coisa boa. As pessoas ficam tentando colocar assim: “O cara só fala mal.” Mas matéria-prima é o que não falta no Brasil, parece até que é tudo perfeito. Parece que a gente não está envolvido num monte de merda.

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SCRAP

Make up

por Alex Capella

Pelo telefone

O badalado maquiador Bruno Cândido, responsável pelas maiores produções de moda que ocorrem em Minas Gerais, realizará, este mês, um workshop com produtos da marca norte-americana NYX Professional Make Up. Fundada em 1999, em Los Angeles, a NYX tem um estande de vendas exclusivo, instalado estrategicamente no terceiro piso do Diamond Mall. Além do curso, a parceria entre o maquiador e a marca de cosméticos promete outras novidades para as meninas loucas por maquiagem.

Os fãs da descolada Caraíva Pizzaria, instalada no Anchieta, não precisarão nem mais sair do sofá para saborear os 43 sabores das redondas preparadas pela casa, que faz sucesso em Belo Horizonte desde 2002. A partir de agora, a pizzaria conta com um sistema próprio de delivery. Mas para quem quer experimentar as foccacias, as saladas, as bruschetas e os carpaccios e curtir o clima alto astral do lugar, o único jeito é dar um pulo no Anchieta. Essa parte do cardápio não está incluída no serviço de entrega.

Café com chocolate A Doce Cacau e a Villa Café fecharam parceria para que as lojas da chocolateria em Belo Horizonte tenham como café espresso oficial (do italiano caffè espresso) o rótulo Villa Café. As unidades Doce Cacau também terão suas cartas de drinks reformuladas por baristas do Villa Café, com opções criadas especialmente para o inverno. A combinação do chocolate Doce Cacau com o espresso gourmet do Villa Café vai possibilitar a criação de produtos que prometem encantar os clientes da rede. Os clientes também poderão saborear o espresso nas lojas Doce Cacau na cidade e, ainda, levar para casa o café torrado e moído em pó.

fale com ele

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Mais por menos Cerca de 70 profissionais entre arquitetos, paisagistas, decoradores e designers terão como missão transformar radicalmente a mansão que pertenceu à família do português Antônio de Carvalho, instalada no Bairro Cidade Jardim. Os 47 ambientes, reunidos em 1.400 m2, serão modificados dentro do conceito da mostra de decoração Morar mais por menos, cujo desafio é apresentar ao público peças criativas, mas também sustentáveis e a preços acessíveis. O Flamb’art Alta Gastronomia será o restaurante oficial da mostra. O evento ocorre de 14 deste mês a 27 de setembro, em Belo Horizonte.

Nas costas Umas das principais marcas brasileiras de equipamentos para prática de esportes outdoor, a Kailash, presente em todo o Brasil, Argentina e Colômbia, acaba de lançar a Light 44, que segue a tendência das mochilas cargueiras, oferecendo leveza, design arrojado e grande poder de compactação. Formada por placa de PVC semi-rígida com barra central de alumínio pré-formado, seu volume pode ser reduzido de 44 para menos de 28 litros. Estado propício aos esportes outdoor, com montanhas, cachoeiras e estradas de terra, Minas Gerais representa para a marca o 3º melhor mercado no Brasil, só ficando atrás de São Paulo e Rio de Janeiro. Onde comprar a Light 44: Adrena Esporte e Aventura Rua Montevidéu, 495 . Sion (31) 3285.4494 Av. Getúlio Vargas, 1612 . Savassi (31) 3261.1125 Preço: R$ 257,40

Banho de cheiro

fotos: divulgação

A Água de Cheiro acaba de lançar a linha Spa do Banho (SBA), composta por produtos e acessórios. A campanha SBA – renove-se no banho diariamente irá reforçar a ideia do banho como ritual de renovação e beleza. A linha é dividida em três grupos – Revigorante, Refrescante e Energizante – e os ativos de cada um dos produtos foram usados para reforçar o aspecto natural das fragrâncias e dos ingredientes da série SBA.

Fusão Com a intenção de se tornar um dos maiores grupos de comunicação do estado e atender as maiores empresas do país, as mineiras Litro Design e Torchetti Comunicação se fundiram numa única empresa, formando um grupo que ainda conta com a participação da Front Marketing Promocional e Digitown. A empresa conta com representações em Belo Horizonte (Savassi) e São Paulo (Brooklin Novo), de onde captará negócios nas áreas de design, eventos e de publicidade em geral. Alguns clientes são: Fiat, Vivo, FGV ,Copasa , ALE Combustíveis, Tetra Pak, Parmalat, Una e Tecnitur.

A coluna Scrap S/A foi fechada em 20 de julho. Sugestões e informações para a edição de setembro, entre em contato pelo e-mail da coluna.


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Ragga #29 - Rock!