Page 73

narrativa dalcidiana verifica-se que há preocupação em subverter essa situação, pois nela os trabalhadores, além de fazerem ouvir sua voz, expõem seus pensamentos e angústias, discutindo e procurando dessa forma entender o processo político em que estão envolvidos, para, assim, conseguir transformá-lo. É nessa perspectiva que encontramos em Linha do Parque uma acentuada consciência histórica. A inserção do conflito de classes no universo ficcional não se deve ao único propósito de fornecer subsídios à trama ou verossimilhança à história, mas traz principalmente em seu arranjo a intenção de presentificar o passado, preservar a memória social e conferir historicidade a fatos de uma época importante no desenvolvimento desta região. Já nas primeiras páginas do romance, o narrador nos apresenta Luiz Iglezias, um viajante que chegara como clandestino ao porto do Rio Grande, em uma noite de maio de 1895. Natural da cidade de Lorenzo (Espanha), Iglezias tinha como “missão” divulgar na América as idéias anarquistas que trazia da Europa. Traz em sua bagagem um outro ideário político e uma nova postura frente à luta de classes. Personagem de primeiro plano, com consciência e ideais repletos de idéias transformadoras aprendidas na Europa. Passando por dados e detalhes da arquitetura de prédios e praças da cidade, Jurandir recupera

a importância que detinham as peças teatrais para a divulgação dos propósitos políticos junto à classe operária; apresenta o nascimento da “Associação União Operária”, os incipientes movimentos de greve que começavam a surgir no interior das fábricas, e finaliza com o “conflito da Linha do Parque” (como ficou popularmente conhecido este episódio na cidade), que é narrado de forma significativa no romance, com cenas intensas desenvolvidas num suceder de frases curtas e imagens rápidas, que mais parecem tomadas cinematográficas constituídas de vários flashes, revelando a ação dos policiais e a reação dos operários. Assim, ao reproduzir uma relação viva entre a história do município e sua classe operária, o autor, além de descrever o estado subumano em que viviam esses indivíduos, assinala a razão da miséria, da desigualdade e da opressão em que eles se encontravam, quando denuncia situações que, em grande parte, eram desconhecidas ou foram ocultadas da população local. Linha do Parque constitui-se em oportuna fonte documental, indispensável à manutenção da memória desta comunidade, já que expressa de forma intensa e realisticamente as concepções, preocupações e anseios de um grupo de moradores cujas vidas, representadas na ficção, trazem lembranças de um período de efervescência política, social e econômica. Linha do Parque passa ao leitor

73

a idéia de uma narrativa inacabada. A trama chega ao final numa condição em que sugere que certas questões de ordem política e social não puderam ser resolvidas plenamente. Isso porque a matéria natural e social inscrita na ficção está intimamente ligada à realidade empírica, com luz, com cor, com a intensidade dos sentidos e com a vida simples dos personagens. Porém, uma realidade não estática, em eterna evolução, é o encontro da ficção com vida, com os sentidos e com a história, que muda, transita e pode ser observada e testemunhada no interior de cada personagem. Um romance sem muito refinamento ou preocupação formal, que segue numa trajetória de mão dupla: de fora para dentro e do particular para o geral, em que enredo e personagens se entrecruzam com dramas pessoais e coletivos, buscando arquitetar uma saída para a trágica condição em que estavam vivendo. Contudo, não percebem que caminham para um acirramento cada vez maior das tensões sociais, que culminam ao final com o fatídico “conflito da Linha do Parque”, episódio real que acarretou na morte de cinco pessoas, entre as quais a tecelã Angelina Gonçalves (que na ficção é representada pela personagem Maria), morta com um tiro na cabeça. Esta é, significativamente, a última cena de confrontação do romance, que demonstra assim a veemência da repressão policial sobre a classe operária naquele período.

www.revistapzz.com.br

www revistapzz com br  

Edição Especial da Revista PZZ sobre a militância política de Dalcídio Jurandir

www revistapzz com br  

Edição Especial da Revista PZZ sobre a militância política de Dalcídio Jurandir

Advertisement