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Segundo Homero Homem, Linha do Parque é o único romance proletário [no Brasil] digno desse nome

zam: um, representado pelo povo, e outro, pela cidade. A abordagem escolhida para esta pesquisa se dá partir de um contexto mais amplo para, assim, compreender melhor as questões suscitadas pelo romance. Neste sentido, são de extrema importância às condições sociopolíticas do Brasil daquele período, como também as discussões a respeito da “arte proletária” proposta por alguns artistas da antiga União Soviética após a revolução de 1917, levando-se em consideração suas influências na realização da literatura dalcidiana. Segundo Homero Homem, Linha do Parque é o “único romance proletário [no Brasil] digno desse nome”, ainda que seus componentes narrativos mais visíveis o caracterizem de imediato como um autêntico romance histórico. Com base na crítica literária, consideramos que o “romance histórico tradicional”, dentro de uma perspectiva ampla, é o texto narrativo em que: o autor abdica de seu tempo e tenta reconstruir, através da ficção, o episódio histórico, detalhe por detalhe, batalha por batalha, feito heróico por feito heróico. Falase, aqui, de um Walter Scott, de Alexandre Herculano ou ainda de Paulo Setúbal. O autor abdica de seu tempo, isto é, torna-se apenas uma testemunha dos fatos, procura

pensar e agir como as personagens históricas pensariam ou agiriam. O papel do escritor, nesse caso, é absolutamente passivo, pois à luz do documento – tal como faria o historiador – pretende reconstruir a história, preenchendo cautelosamente as lacunas, criando supostos diálogos, descrevendo cenários e levantando hábitos e práticas culturais.4 Por outro lado, encontramos também em Linha do Parque a realização de uma narrativa ficcional intensamente engajada na luta política de sua época, expressando alguns princípios do “realismo socialista”. A literatura dos escritores soviéticos pós-1917 não pode deixar de estar, em parte, relacionada ao pensamento marxista. A “estética marxista”, conforme afirma Sánchez Vázquez, passa necessariamente por questões relacionadas à causa operária: o desenvolvimento intelectual desigual entre as classes sociais, a exploração dos trabalhadores, a subversão à sociedade capitalista, a esperança revolucionária, arte e trabalho, entre outros fatores. Dentro do entendimento

materialista dialético apresentado por Sánchez Vázquez, a estética marxista compreende a arte como uma “esfera essencial do homem”, não-alienada e dentro de uma visão filosófica de “cotidianidade”, estabelecendo uma concepção do trabalho artístico e de sua função social: “graças à arte, esta realidade formada através do trabalho, de um mundo de objetos humanos ou humanizados, se amplia e se enriquece sem cessar. E, por sua vez, graças à arte, enriquece-se e aprofunda-se nossa relação com a realidade”5. Seus fundamentos, portanto, consideram a atividade artística como um campo essencial para a existência do homem, como ser criador, histórico e social.

4. BURKE, Peter (org.). A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Ed. da Unesp, 1992. 5. CHIAPPINI, Ligia; AGUIAR, Flávio Wolf de (org.). Literatura e história na América Latina. São Paulo: EDUSP, 1993.

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Edição Especial da Revista PZZ sobre a militância política de Dalcídio Jurandir

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