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Crítica Literária

composta de um único livro – em que está registrada a história do movimento operário do município do Rio Grande/RS, entre os anos de 1895 e 1952. Com este trabalho também procuramos ressaltar alguns elementos relevantes de ordem político-social externos ao romance, pois a ficção de Jurandir é cercada por questões provocativas que estavam na pauta das discussões no momento em que Linha do Parque foi escrito e editado. Em 1950 havia uma atmosfera de reconstrução e renovação nos países que participaram da Segunda Guerra Mundial, influenciados e envolvidos pelo

clima agressivo da Guerra Fria e pela revolução que já estava a muitos anos em curso no leste da Europa. Tudo isso faz com que esse romance seja visto como um chamamento aos operários e operárias do Brasil em geral e do Rio Grande do Sul em particular, a se integrarem nesse movimento global e, indiretamente, nessa luta. Na tentativa de aproximação aos conceitos levantados pela “história nova” a respeito da possibilidade da narrativa ficcional servir como fonte de estudo ou de registro à história, procuramos fazer a leitura do romance Linha do Parque norteados pelos postulados do historiador francês Jacques Le Goff, que admite ter surgido nos últimos anos uma “história das representações” que, entre outras formulações e objetivos, possibilitou a manifestação da “história das produções do espírito ligadas (...) à imagem, ou história do imaginário, que permite tratar os documentos literários e artísticos como plenamente históricos, sob condição de ser respeitada sua especificidade”.2 Muitos críticos consideram que tanto a ficção quanto a história podem ser vistas como participantes do mesmo ato de representação, uma vez que partem de um mesmo tronco genérico: a linguagem escrita. Dessa forma, tendem a se somar e prosperar, firmando-se por meio de um constante diálogo.

São os historiadores que seguem o modelo da “história nova”, que se tornaram cada vez mais influenciados pela crítica literária, aquela que, conforme Kramer, tem “ensinado os historiadores a reconhecer o papel ativo da linguagem, dos textos e das estruturas narrativas na criação e descrição da realidade histórica”.3 Quando um autor aproxima a ficção com o discurso da história, faz surgir um novo texto, que mantém vivo o passado e busca promover cada vez mais, junto aos leitores, o interesse pela narrativa. Ao empreender essa recuperação contando e descrevendo os fatos e os lugares de outra maneira, diferente do que foi relatado pela “história oficial”, a ficção dalcidiana abre espaço para outras imagens e vozes sociais que, sem a interferência do ficcionista, continuariam desconhecidas do público. A história da cidade surge pouco a pouco, primeiro uma rua, depois uma praça, em seguida uma fábrica, traduzindo-se na fusão do documentário com a narrativa ficcional, sem que esta, sendo densamente histórica, perca sua característica romanesca, construída numa espécie de círculos em intercurso, precisamente os da caracterização psicológica dos personagens e de toda sua humanidade, cujos conflitos se refletem nos problemas sociais do cotidiano, em uma representação que resulta da fusão de dois círculos que se entrecru-

2. ALVES, Francisco das Neves; TORRES, L. Henrique (org.). A cidade do Rio Grande: estudos históricos. Rio Grande: FURG; SMEC, 1995. 3. BRASIL, Luiz Antonio de A. História e literatura. In: MASINA, Lea; APPEL, Mirna (org.). A geração de 30 no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ed. da Universidade, 2000.

- Arte, política e cultura

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www revistapzz com br  

Edição Especial da Revista PZZ sobre a militância política de Dalcídio Jurandir

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