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Texto: Publicado no Jornal TRIBUNA POPULAR em 20.5.50

Estava cheia daqueles rostos que Angelina via na fábrica, nos lares, no campo, rosto de um povo, cujo sofrimento e cólera hão de esmagar para sempre o covarde è bestial inimigo. Na fotografia vemos Angelina, estendida, envolta num lençol branco, o rosto de guerrilheira de uma energia tal que parece ainda vivo. A morte a surpreendeu, nesse esforço supremo. O de não entregar a bandeira e o de mostrar ao povo o seu exemplo. Humilde e brava Angelina. A bandeira te enxugou o suor e o sangue e sentiu quando parou teu coração. Essa bandeira deve estar ainda úmída de sangue, o sangue da heroína, cheia ainda daquela pulsação da agonizante, puIsação que nâo parou porque se acelera em muitos e muitos corações operários. Quem foi, de onde veio, que fazia Angelina? Vinha de uma fábrica, onde trabalhava. Era simples e sem temor. Quero viver dignamente. Por isso lutava e por Isso foi morta. E por, isso mesmo outras mulheres ocupam agora o seu lugar. Sua história vai correr mundo. Todo o pampa há de ouvi-la. O vento minuano saberá. Repetir nas estancias, nos rodeios, do sul, entre as velhas contadoras de história (..)O povo do Sul está jurando qua há de julgar os assassinos. A história, então terá este acréscimo. Era uma vez uma operária e três companheiros que foram mortos por um governo muito cruel . Pouco tempo depois o povo se vingava e botava abaixo esse governo.

Publicado pela primeira vez pela Editora Vitória, em 1959, Linha do Parque é o romance mais extenso que Dalcídio Jurandir escreveu. Dividida em sete partes ou capítulos que perfazem 549 páginas, a narrativa obedece a uma determinação cronológica e a um andamento diegético linear. Para atender ao seu projeto literário, o autor recompõe o ambiente histórico e contextualiza o desenvolvimento da organização operária rio-grandina, além de revelar os segredos da alma e do caráter de personagens fictícios e reais que viveram naquela época. É assim que Linha do Parque vem demonstrar, completar ou mesmo ampliar de forma distinta a história de luta dos trabalhadores e trabalhadoras das indústrias dessa localidade durante toda a primeira metade do século XX. Nossa motivação em realizar esta pesquisa, à luz das relações existentes entre a narrativa literária e histórica, viés por onde passa a construção do texto dalcidiano, decorre, em primeiro lugar, da premente necessidade que há de ampliar a divulgação desse romance, repleto de informações e acontecimentos históricos, que confirmam: além de ser uma manifestação estético-literária de inegável qualidade, Linha do Parque é também um verdadeiro manancial de memórias do importante movimento operário riograndino. Em segundo lugar, decorre do fato de que a maioria dos acontecimentos e ambientes presentes na obra realmente existiram naquela época, tornando-a uma rica fonte de pesquisa e de estudos para professores ou alunos interessados na origem urbano-industrial desta cidade, ainda hoje pouco conhecida. Embora reconhecidos e admirados na sua região de origem, os romances de Dalcídio Jurandir nunca obtiveram um lugar de destaque dentro da tradicional historiografia literária brasileira. Não que sejam indignos desse merecimento, pelo contrário, trata-se de um dos mais importantes acervos literários do país, especializado nas peculiaridades do povo amazonense, em seu modo de pensar, agir e sentir, pautado por um combinado narrativo que envolve ricos e marcantes personagens, viventes daquela região. Dalcídio Jurandir escreveu onze romances. Desses, dez volumes pertencem ao “Ciclo Extremo-Norte” – como alguns críticos costumam classificá-los –, em que são abordados os temas e as paisagens da Amazônia, do povo e vilarejos da Ilha de Marajó, espaços e cenários de origem do escritor, que cresceu em meio à floresta e aos rebanhos de búfalos do Pará. Somente um livro destoa desse ciclo e nos apresenta uma outra realidade nacional: Linha do Parque – da chamada série “Extremo-Sul”, embora

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Edição Especial da Revista PZZ sobre a militância política de Dalcídio Jurandir

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