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Documentário

Orozco

atinge os escritores. Há pouco tempo, Monteiro Lobato escreve um livrinho para adultos e crianças, um livrinho que é um documento de nossa época pela verdade elementar que ele encerra e porque encarna as aspirações de populações inteiras que querem sair da escravidão a que estão condenadas. A polícia de São Paulo não respeitou o nome de um dos maiores escritores brasileiros, apreendeu o livro como apreendeu o livro de Jorge Amado sobre a vida de Luiz Carlos Prestes. Daí para a queima de livros nas ruas, para queimar Dostoievski como escritor bolchevista, para queimar bibliotecas e caçar escritores, mandá-los para a Ilha

Grande e atirar no lixo os seus trabalhos não custa nada. Lembro-me que Graciliano Ramos quase perde os originais de Angústia. Não fosse ter enviado uma cópia do romance para um lugar desconhecido da polícia e hoje a literatura brasileira não contaria com um dos seus maiores livros. Cabe perguntar: que farão os escritores? Reduzir-se ao silêncio, aguardar, ficar naquele pútrido attentisme ou resistir também, acusar e lutar como homens? Alguns respondem-nos que trabalham, que a ação anula a criação literária. Mas voltamos a indagar: onde está essa criação literária? Em nome dela, de concessão a concessão, prestam-se a

todo servilismo, a toda covardia, a toda sordície. Em nome dela, acomodam-se e não criam nada. Dessa rumorosa e colorida teoria de defesa da criação literária saem pílulas poéticas, confeitos de ficção, qualquer coisa tão incolor, tão álgida e “passada” que nem ao menos chega a enganar os leitores. Esses fabricantes de gelatina literária inventam também um ar pessimista e consideram que não há salvação no Brasil e atiram a culpa em cima do povo. Um povo que não reage, um povo carneiro, um povo es-

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Edição Especial da Revista PZZ sobre a militância política de Dalcídio Jurandir

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