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Documentário

Anistia

Dalcídio Jurandir

NÃO basta para a anistia a agitação tocante e mobilizadora da rua, da praça pública, dos jornais e dos comícios. E’ necessário que essa agitação se transforme em organização e que esta organização seja a base de outras organizações democráticas para novas e imediatas reivindicações de que tanto precisa o povo brasileiro. Devemos clamar pela anistia organizadamente e, com ela, clamar simultaneamente por outras reivindicações com a liberdade sindical, a extinção do Tribunal da Segurança, a revogação do Ato Adicional, eleições livres, concreta liberdade para a imprensa nos Estados, o direito amplo, legitimamente garantido, de reunião e de associação, discussão popular a respeito da alarmante carestia da vida e a respeito de tremendas especulações que se fazem á sombra da guerra. Dentro da ordem e da tranquilidade a organização da anistia ampla, serena mas firme, múltipla, ardente mas prática, deve aprofundar-se cada vez mais nas multidões. Não somente nas multidões em comício mas em suascasas, oficinas, fábricas, em todos os seus locais de trabalho até casas de diversões, como cinemas, teatros, campos de futebol e turf. Não só nas cidades como no interior. As nossas populações rurais estão ansiosas de esclarecimento e ainda não sabem bem o que significa democracia. Devemos levar-lhes uma “palavra democrática inicial, a palavra anistia. É claro que não irá isolada, outras palavras se derramarão e assim poderemos levar, de maneira simples e construtiva, a ideia da democracia aos

- Arte, política e cultura

nossos irmãos do campo tão batidos pelo analfabetismo, pela miséria e pela doença. Aquele poderoso “slogan” de Eugenia Álvaro Moreyra lançado no comício, sob esplêndida aclamação popular, deve ser repetido e cantado por milhões de vozes do povo do Brasil. Repetido em cartazes, legendas, folhetos, versos populares, marchas, sambas, e nos muros, nos estádios, nas manchetes, nos cabeçalhos, nos trens, navios, estradas e estações de estradas de ferro. Não poderei esquecer o instante supremo do comício ao ouvir de Eugenia Álvaro Moreyra o “slogan” reivindicador: “Nós queremos Anistia! Liberdade para Prestes!”. Nunca se ouvira isto nas praças públicas do Brasil, o nome proibido e “maldito” ressoava no coração do comício como a ressurreição de nossa própria confiança, de nossa inabalável certeza da vitória democrática. Não se tratava de simples apologia de Prestes como militante de vanguarda, como notável teórico de uma ideologia mas da identificação objetiva de seu nome com o povo, a integração de sua vida e de sua liberdade em nossa vida e em nossa liberdade, o direito que ele deve ter, como marxista e como cidadão de exprimir livremente as suas idéias dentro da ordem e da tranquilidade como tem, pode e deve ter o sr. Tristão de Ataíde, como católico e cidadão, de exprimir a sua fé. Estou certo de que as correntes católicas estão conosco também pela anistia. O artigo do sr. Tristão de Ataíde, por exemplo, sobre essa admirável pessoa humana que é Sobral Pinto, vale, subjetivamente,

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como :um apoio à anistia, vale como o sinal do esquecimento de ódios e equívocos e a compreensão pacífica de que se podem incorporar também á jovem cultura brasileira; as idéias socialistas. Isto provocará debate mas imprime, organicamente, a elevação de nosso nível político, definição do nosso nível cultural, conhecimento mais lúcido e mais vigilante dos nossso problemas, o respeito mútuo, o amor do Brasil em seus diferentes sentimentos e em todos os aspectos da opinião e do pensamento que ajudem a libertar o nosso povo. O “slogan” não significa apenas a liberdade de um homem, tão preciosa numa pessoa humana, como dizem os católicos, mas a liberdade de um princípio. Não somente a liberdade de um princípio como a liberdade de pessoas e de outros princípios na volta do sr. Armando Sales de Oliveira e do sr. Otávio Mangabeira, liberais que, pela experiência de seu exílio e da madura apreciação dos fatos brasileiros, muito poderão fazer pelo Brasil. Com a liberdade desses líderes políticos, poderemos contar com a presença também de Agliberto, Costa Leite. Agildo e todos os prisioneiros da Ilha Grande. Terei, particularmente, a alegria de abraçar amigos paraenses, queridos amigos da juventude de ontem, estonteada ainda pelas idéias e posta à prova pelas primeiras lutas, esse Pedro Pomar e esse João Pedroso, anônimos na longa e difícil luta pela libertação nacional, homens do povo, fiéis ao povo. A intensificação do nosso esforço de guerra, com todo o apoio ao nosso Exér-

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Edição Especial da Revista PZZ sobre a militância política de Dalcídio Jurandir

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