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arte, educação e cultura | 5


A

Edição Especial da Revista PZZ nº 11 através dos pesquisadores João Aires e Diego Bragança e do historiador José

Varella, apresentam o homem, padre jesuíta, arqueólogo,

fotógrafo,

museólogo

e

“ítalo-

marajoara” Giovanni Gallo. O seu trabalho, além da evangelização e de organização social foi de resgatar a história e ancestralidade marajoara e amazônica. Criador do Museu do Marajó, construiu junto com a Comunidade de Santa Cruz e Cachoeira do Arari (Marajó-Pará) uma das maiores referências arqueológicas do Brasil. A PZZ nº 11 apresenta o Ensaio Fotográfico de Elza Lima com poesias de Otávio Nascimento Júnior (Soure, Ilha do Marajó) uma viagem em direção as belezas do Marajó desbravando rio e sertão; Caminhando em um chão que não tem fundo; Flutuando em um céu que não tem nuvem e não tem ar; Nadando em um mar que não tem água e não deságua revelando um mundo, incerto e sem fundo, profundo, misterioso e belo... A Edição Especial traz o artigo da arqueóloga Denise Shaan que aborda a vida dos antigos habitantes do Marajó. Observando as representações na cerâmica marajoara podemos aprender muita coisa sobre as antigas crenças, rituais religiosos, cerimônias e festas que faziam parte da vida nos tesos de um dos povos mais evoluídos culturalmente que existiram na face da Terra. E o Inventário Nacional de Referências Culturais do Marajó – INRC-Marajó, realizado pela Superintendência do Iphan no Pará, constitui uma das pesquisas mais completas em termos de levantamento cultural realizado nessa região da Amazônia Brasileira. A pesquisa abrangeu as três microrregiões que compõe a Mesorregião Marajó com seus 16 municípios. O quadro geral nos dá cerca de 750 bens catalogados, 700 contatos além de um grande acervo fotográfico com belas imagens do cotidiano marajoara. Boa Leitura Carlos Pará - Editor da Revista PZZ

Diretoria Executiva: Carlos Pará | Laura Santana Projeto Gráfico: José Viana Direção de Arte: José Viana | Ygor Pará Direção de Fotografia: José Viana Comunicação e Marketing: Daniel Rocha | José Vianna | Pesquisa: Carlos Pará | Moacir Pereira | Diego Bragança João Aires. Editor Responsável: Carlos Pará Conselho Poético: Benedito Nunes, Elza Lima, Aldrin Figueredo, Geraldo Mártires Coelho, Gunter Presler, José Roberto Pereira, José Varella, Luis Arnaldo, Célia Maracajá, Jussara Derenji, Moacir Pereira, Chico Carneiro, Albery Albuquerque, Rosa Acevedo, Hilton Silva, Isabela do Lago, Karlo Romulo, Fernando D’Pádua, Edson Farias, Vicente Cecim, Marinilce Coelho, Almandrade, Ná Figueredo, Rosa Arraes, Moema Alves. Distribuição: A Revista PZZ é uma publicação bimestral Editora Resistência Ltda CNPJ: 10.243.776/0001-96 ISSN 2176-8528 Assinatura, números atrasados e Publicidade: (91) 3083-3793 / 9616-4992 e-mail: revistapzz@gmail.com www.revistapzz.com.br Av. Duque de Caxias, 160 Loja 14 | Marco | 66.093-400 Belém - Pará - Amazônia - Brasil


por Elza Lima

por Elza Lima

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Artista do Marajó

Ensaio Fotográfico

Ensaio Fotográfico

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O Marajó

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Giovanni Gallo

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Cultura Marajoara Origens e significados por Denise Pahl Schaan


fotoPoesia

O Maraj贸

\\\ fotografias por Elza Lima e poesias de Ot谩vioNascimento


A VIAGEM Olhando de uma proa vi o destemido prático conduzir bem a embarcação seguindo em direção a leste onde brilhava o sol cortando as ondas em retas, curvas e parábolas Vi as belezas do marajó desbravei rio e mar até que me assustei... eram gotas d’água no rosto dormente que me acordara derepente quando o cabo do leme quebrou Embalado nas ondas pra lá e pra cá era o movimento singular o único que pudera fazer até que o cabo fosse emendado tudo então foi controlado e a bela viagem continuou.

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DESERTOZINHO

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Neste momento estou só no mundo caminhando em um chão que não tem fundo Flutuando em um céu que não tem nuvem e não tem ar Nadando em um mar que não tem água e não deságua. Aonde vai esse mundo? incerto e sem fundo será a canção da orquestra do oceano profundo Já não entendo mais nada só sei que viajo nado no céu e flutuo no mar ando nas nuvens sem sair do lugar

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AOS CAMPOS DO MARAJร“

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Às vezes seu moço até me surpreendo com as coisas que talvez nunca vi com o vaqueiro no campo correndo e até mesmo o queijo de jabuti Belos mui belos pássaros vivendo verde mui verde nós temos aqui vejo ainda o potro pequeno comendo do quicuio às margens do Lago Arari Levanta poeira menino levanta galopa depressa galopa e canta que ouço longe o som de teu curimbó Deixa no prato traíra e tambaqui carimbó e açaí é em Cachoeira do Arari desbrava os campos do meu Marajó.

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MINHAS RAÍZES Sou filho daquele caboclo nato mistura de vaqueiro e pescador uma manada de palavras eu laço e com um anzol sou bom escultor Às margens do rio meu braço te caço sumo nas alvas rimas do criador sustento do povo e afogado mato valente menino que bela tua cor Masco tabaco e respiro da boa arte boto pra correr já fiz minha parte ando ligeiro e ninguém vai me ver Parido bem fui no teu pensamento ferido um pouco mas eu sempre agüento não sou lenda e nem mito estou em você.

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Elza Lima

Formada em história pela Universidade Federal do Pará, Belém (1979), começou a fotografar profissionalmente em 1985, atuando na área da fotografia documental. Participou do projeto Fotoativa de documentação do núcleo histórico da cidade de Belém (1985). Trabalhou na Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves, onde criou um acervo fotográfico das manifestações culturais da Amazônia e, em convênio com a Fundação Nacional do Índio, realizou a documentação fotográfica das tribos indígenas da Amazônia Legal. Recebeu o Prêmio José Medeiros, do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1991); bolsa do Kunstmuseum des Kantons Thurgau, Suíça (1995), onde residiu por seis meses; o Prêmio Marc Ferrez, da Funarte (1996); e a Bolsa Vitae de Artes/Fotografia (2000). Integra o Conselho Curador da Galeria de Arte da Universidade da Amazônia, Belém, desde a sua criação em 1993. arte, educação e cultura | 21


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Fonte: Jornal Diรกrio do Parรก - Caderno D - de 25 de novembro de 1987. 24 | documentรกrio


Giovanni Gallo e O Museu do Marajó: A PRESERVAÇÃO DE UMA HISTÓRIA INVISÍVEL \\\ Por Diego Bragança e João Aires. Imagens cedidas pelo Acervo d'O Museu do Marajó

DIEGO BRAGANÇA DE MOURA é Graduando em Bacharelado/Licenciatura em História, na Universidade Federal do Pará (UFPA). Bolsista PIBIC/FAPESPA pelo Museu Paraense Emilio Goeldi na área de arqueologia. JOÃO AIRES DA FONSECA é pesquisador mestre em arqueologia, bolsita do programa de Capacitação Institucional do Museu Paraense Emílio Goeldi (PCI-MPEG).

N

ascido em 27 de abril de 1927 , em pleno VII ano da Era Fascista de Benito Mussolini, Gallo como costumava dizer, se considera um filho do fascismo,

mas não por concordar com as ideais desse projeto político de governo. Mas sim, pelo fato de aos seis anos de idade, sua mãe o ter matricula na Primeira Série do Primário no colégio Pagella, e assim, como era costume na época, transformando de forma involuntária o Balilla Giovanni Gallo portador da carteira do partido fascista de Nº 1.539.899, mais um membro seguidor da ideologia facista do Duce Benito Mussolini. De infância difícil e condição de vida muito precária, Gallo e sua família sofriam com a escassez de alimentos, devido à guerra em que a Itália estava desenvolvendo sobre o comando de Mussolini, onde os gêneros alimentícios como, batata e trigo, estavam reservados a manutenção do exército e, é claro, aos mais ricos. Restando assim, apenas carne da cabeça do boi, que era mais barata, e uma espécie de pão com manteiga sem sal, a alimentação básica da maioria das famílias pobres da Itália do começo do século XX. arte, educação e cultura | 25


Gallo sob a educação fascista

Essa vida fez com que ainda muito cedo, o pequeno Giovanni

disponibilidade de alimentos, fato que se agravava ainda mais,

assumisse grandes responsabilidades na família, sendo

devido à situação financeira precária da família. Mas mesmo

responsável pela casa e por seus irmãos mais novos na

com todos esses obstáculos em seu caminho, esse pequeno

ausência dos pais. Preparava seus irmãos e levava-os para

italiano de origem podre, conseguiu superar as dificuldades

o jardim de infância, tarefa que exigia extrema habilidade

de uma infância entre guerras, e as consequências que um

e preparo físico, para controlar seus irmãos no caminho da

conflito como sofrido por ele acaba trazendo. Sofrimentos

escola, além disso, fazia as compras e preparar o almoço de

como a morte de seu pai em 1943, em um bombardeio militar

sua família. Atividades a primeira vista simples, mas que

Américo. Mas outras dificuldades ainda se apresentariam,

estavam sendo desenvolvidas por uma criança com menos de

que ele assim como as já mencionadas, superaria.

10 anos de idade, que já mostrava maturidade exigida pela guerra sofrida.

A VIDA RELIGIOSA

Assim o pequeno Galinho tinha que se desdobrar entre as

Aos onze anos de idade entra no Piccolo Seminário di

afazeres da vida de um “pai” de família com os cuidados com

Giaveno, depois que um vigário da sua igreja perguntar se

seus irmãos mais novos, as obrigações da escola, além de

ele queria entrar para a vida religiosa se tornando padre.

superar as dificuldades que a guerra provocava, com a pouca

A resposta positiva foi imediata de forma espontânea, sem

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pressão de familiares ou da sociedade. Afinal ele não possuía muitas opções de escolha a seguir, a não ser a escola e a igreja. Mas só no último ano do ginásio aos 16 anos, que o jovem italiano, ingressa na Companhia de Jesus. O reitor do ginásio um fã dos jesuítas, entregou sobre sigilo, um livro encapado com o seguinte título: “Si vis perfectus esse: Se você quiser ser perfeito’... entre na Companhia de Jesus.” A fama dos padres jesuítas como os mais inteligentes do mundo era bastante conhecida, o que despertou o entusiasmo do adolescente Giovanni em se tornar um aclesiástico classe A. Então, preparou-se muito para a admissão, o que resultou com a 2ª colocação geral, e assim o passaporte para a Companhia de Jesus e o Liceu clássico em Cueno (Itália) em 8 de setembro de 1943. Já no noviciado, recebe uma educação muito rigorosa repleta de proibições e regras, fato muito condenado e contestado, apenas

em sua consciência, por Gallo. Pois, o silêncio fazia parte da vida no seminário, muito pouco se falava, era uma lei a ser seguida. Nessa educação severa, até um simples banho era realizado de forma vigiada. “Dio ti vede! Deus está te olhando!” Apesar de Giovanni Gallo considerar a sua “formação além de ridícula e absurda, [que] beirava ou talvez mergulhava na morbidez.” A obediência sempre se fez presente em sua vida religiosa. Ele nunca desobedecia ou questionava as regras, leis e ordens da educação na Companhia de Jesus e do Liceu. Sempre seguia todos os ensinamentos e colocava-os em praticava de acordo como lhe foi ensinado. arte, educação e cultura | 27


Gallo no Seminário, Turim, Itália.

OS ESTUDOS ALÉM DO SEMINÁRIO Na Villa San Paolo na periferia de Turim (Milão, Itália), cursou dois anos de Filosofia na Faculdade de Filosofia em Gallarate. Onde como diversão e para ocupar o seu tempo, desenvolvia

de ricos latifundiários, onde Padre Gallo ensinaria religião. O destino inesperado, mudando todos os seus planos, não mudou sua obediência característica, ele não exigiu nenhuma explicação e seguiu o seu rumo imprevisto e não esperado.

atividades como cuidar da horta e das vacas, atividade que

Mas depois da Teologia, antes de entrar de vez nas atividades

segundo ele, em sua autobiografia realizava sozinho. Cursou

paroquiais, os padres jesuítas passavam por uma última

também devido a sua escolha profissional a Faculdade de

provação, ou melhor, um estágio, que no caso dele foi seguir

Teologia em Chieri (Turim, Itália), conquistando com o fim

para Gandia em Valência, Espanha. Aqui pode colocar

de seus estudos em teologia a ordenação sacerdotal.

seu espanhol em prática, em meio a vários missionários

A facilidade para aprender novas línguas, lhe propiciou a

provenientes de inúmeras nacionalidades.

fama de grande linguista, levando o seu superior o Provincial

Ainda na Espanha pesquisou sobre o curso de sociologia que

Padre Emilio, a destiná-lo aos estudos em uma Faculdade

desejava cursar, deixando a escolha do seu destino nas mãos

de línguas - Cá Foscari de Veneza ou o Istituto Orientale

do padre Costa, que o matriculou no Institut Catholique em

de Nápoles. Mas ele ainda teria uma surpresa, feliz por seu

Paris. Mas uma vez entusiasmado com seu destino, não se

destino decidido, esperava pelo dia da viagem para estudar

importou com a substituição do padre Provincial, pois seu

uma nova língua, quando recebe um envelope lacrado das

destino já estava certo. Mas, novamente, o seu destino não

mãos do provincial que havia, anteriormente, destinado-o aos

seguiria os rumos desejados. “Em lugar de Paris, o senhor

estudos das línguas. Abriu o envelope pensando se tratar do

vai à ilha de Sardenha!”, palavras ditas, pelo novo Provincial

nome do seu destino para alguma faculdade de línguas, mas

Padre Giovanni Colli. Modificando mais uma vez os planos

teve uma surpresa, é destinado para uma escola na cidade

desse missionário frustrado.

de Lecce. Nessa cidade o colégio de Argento, recebia filhos 28 | documentário


Basiléia, Suiça

E

m Sardenha sua primeira experiência de trabalho aos 32 anos, a sua rotina era bastante repleta de compromissos. Entre confissões, missas,

pregações, visitas aos doentes, o agora padre Giovanni Gallo, parava apenas na hora do almoço. Após uma soneca, voltava novamente para a sua rotina, seguindo para outras comunidades. Na Sardenha adquiriu uma grande experiência devido ao seu dia-a-dia intenso, com o desenvolvimento das suas atividades pastorais e os serviços sociais que acabava acumulando. Da Sardenha foi transferido para a Suíça (1962), com a missão de “salvar”, os irmãos italianos emigrados, da ameaça que segundo a igreja católica, era representada por dois “inimigos mortais”: os protestantes e os comunistas que cresciam cada vez mais na região. Já na Basiléia, na Suíça, em atividade, foi responsável pela fundação da Missão dos Emigrados Italianos no Biserck, sendo membro do Conselho Nacional dos Missionários na Suíça. Criou também um jardim de infância, para atender os filhos de italianos que trabalhavam boa parte do dia e não tinha com quem deixar os seus filhos. Buscando oferecer uma assistência a esses italianos que em busca de melhores condições de vida, migravam para a Suíça em busca de trabalho. Após, 5 anos de atividade na Suíça ajudando seus patriotas e muitos suíços também. O Padre Giovanni Gallo recebeu do presidente da Itália o Título di Cavaliere della Stella della Solidarietá Italiana (1967), titulo conquistado pela luta em favor dos italianos na Suíça. Luta essa que teria ido além de um simples conforto e apoio religioso, na Suíça acabou desenvolvendo obras que facilitavam a vida de muitos italianos e suíços também, deixando a esses, um bom suporte social e econômico. Padre Gallo sentiu então que sua missão em terras suíças já havia sido comprida, apesar de saber que havia muito a ser feito, propiciou uma infra-estrutura social e econômica para muitos italianos e suíços. Partindo assim, para uma nova missão em terras desconhecidas.

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Bairro da Floresta, Maranhão. por Giovanni Gallo

BRASIL: O DESTINO FINAL Após oito anos de trabalhos na Suíça, e da recusa de tornasse

contribuiu para as três prisões do recém chegado. Entusiasmado

um superior geral da Escandinávia, que significava ser o

com as paisagens do país, em viagens desenvolvidas para

responsável das missões italianas na Suécia, Noruega e

conhecer as obras religiosas desenvolvidas pela igreja, tira

Dinamarca, por não gostar da ideia de trabalhar com muita

inúmeras fotos de tudo que lhe despertava o interesse, mas

burocracia e diplomacia, decisão talvez tomada devido as

acaba sendo confundido com um espião do comunismo,

ações que presenciou de alguns de seus superiores, que se

sofrendo com isso revistas e interrogatórios intermináveis

desvirtuaram em contato com o poder e o dinheiro que o

nas cadeias, cada vez que a sua figura estranha projetava a

cargo de um Provincial possuía. Fatores que fizeram o Padre

sua câmera para um cenário, o que lhe dava características

Giovanni Gallo, se oferecer para atuar na América Latina, em

em tempos de ditadura, um ar de espião estrangeiro.

qualquer país de língua espanhola, pois, falava muito bem o

O interessante é que essa sua paixão pela fotografia, acabou

castelhano, e assim teria facilidade na comunicação. Mas lhe foi destinado o Brasil, não uma escolha pessoal, como ele mesmo dizia, mas uma escolha proveniente de sua carreira e aceita devido sua obediência jesuítica.

lhe rendendo mais tarde inúmeros prêmios fotográficos como: O 2º prêmio no Concurso Fotográfico da SECTET e Y.Yamada: Retrato Pará (1980); o 4º Prêmio no Concurso Fotográfico da Universidade do Pará, “Preserve a Memória

Embarcou no navio cargueiro Henrique Lage, seguindo em

da sua cidade” (1981); e o 5º Prêmio de Menção Honrosa, do

direção a seu novo destino, deixando para traz, segundo ele,

Concurso Nacional de Fotografia, “Aleitamento Materno” de

a posição de padre classe A, e as conquistas merecidas com

Porto Alegre (1982). Além de exposições como a ocorrida

o trabalho desenvolvido na Suíça, para se aventurar em uma

no Teatro da Paz como o título “O Meu Marajó”, em 1982.

terra totalmente desconhecida, o Brasil.

Exposições essa que mostrou o resultado de seu trabalho,

Desembarcou em 1970 em Salvador, Bahia, que assim como todo o Brasil, estava sobre uma Ditadura Militar, fato que 30 | documentário

após anos registrando as mais diversas situações encontradas na ilha de Marajó.


Gallo participando da cultura maranhense - Bumba meu Boi

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Viajando por todo o Brasil para conhecer as obras da Companhia e posteriormente escolher seu destino de atuação. Tem proposto pelo Padre Tarcísio, o Maranhão em conversa: “ - Gallo, eu tenho um lugar muito bom, feito na medida para você trabalhar. Porém não o mando lá, porque tenho medo.” [Pe. Tarcísio] - Que lugar é esse? Perguntei curioso. [Pe. Gallo] – É o Marajó. Você faria muito bem, mas o bispo de lá, já me queimou muitos padres. Tenho medo: se você for lá, ele o queima. Acho melhor você ir ao Maranhão, vai ser vigário no bairro da Floresta em São Luís.” [Pe. Tarcísio] Então, Giovanni Gallo seguiu para o Maranhão, para atuar como vigário no bairro da Floresta em São Luís. Ao chegar ao bairro, mais especificamente, na Rua Tomé de Souza, deparou-se com um lugar sem iluminação, de fornecimento de água precária, com esgoto a céu aberto. Não podendo deixar seu rebanho para ficar na mordomia, recusa a oferta de ficar na igreja

de Nossa Senhora dos Remédios, no bairro nobre da cidade. Decide morar em uma casinha na própria Rua Tomé de Souza, para ficar mais perto do seu povo e da igreja de Santo Expedito, onde atuaria como vigário. Em contado direto com a comunidade, além de atuar nas obras religiosas, também acabava sendo uma espécie de amenizador de brigas chegando a

intervir por várias vezes em inúmeras delas. Atuava também como motorista, transportando feridos, doentes e mulheres grávidas no momento de ter os seus filhos para o hospital. Como sempre, Padre Gallo ultrapassava as suas obrigações religiosas, e introduzido nas comunidades onde atuava, desenvolvia funções fora do seu programa de religioso.

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Em uma igreja onde as portas serviam como trave para as crianças jogarem futebol, e as paredes como tabela de preso para o corte de cabelo. Decidiu muda essa realidade, iniciando a reforma da mesma, contando com a ajuda da população, que limparam, pintaram e fizeram melhorias na igreja, a tempo de a inauguração se realizar perto da grande festa do padroeiro do bairro. Embalado pelas obras de limpeza da igreja, transformaram barracões e salões em capelas e centros comunitários, onde além de servirem de locais para cerimônias religiosas, seriam

oferecidos

cursos

profissionalizantes,

para

a

população desse bairro, atuando em obras assistencialistas com o objetivo de mudar a realidade social da comunidade. Sem dúvida essa foi uma das atuações mais importantes no estilo do Pe. Giovanni Gallo de ação integrada. Mas após um ano e meio de forte atuação, o que contribuiu para que quase o religioso virasse nome de rua, a igreja através do Provincial Padre Botturi, mais uma vez determina Igrteja do Santo Expedito, Bairro da Floresta, Maranhão

a sua transferência, dessa vez para o Marajó.


Vila de Jenipapo, Ilha do Marajó

MARAJÓ, DO PARAÍSO AO INFERNO

Nessa terra

que segundo Giovanni Gallo era “o paraíso para os fotógrafos e o inferno para o material

fotográfico”, ele desembarca em fevereiro de 1973, na Vila de Jenipapo no município de Santa Cruz do Arari. A Vila de Jenipapo era um antigo acampamento, que servia de base para os pescadores em época de pesca. Nesse local teve uma visão chocante, para alguém acostumado com as atividades na Suíça, e que até mesmo para o vivido no Maranhão, era uma realidade adversa. Estava em uma cidade perdida no interior da ilha, sobre as águas, formada por palafitas, sem saneamento básico, muito menos fornecimento de água potável ou energia elétrica, sem telefone e de alimentação precária. Com o choque inicial ele sabia que teria muito trabalho a fazer neste local esquecido por todas as autoridades governamentais, mas com sua experiência decidiu seguir em frente. Alias essa tinha sido sua escolha, pois poderia ter aceitados os frutos dos seus trabalhos na Suíça. Mas tinha certeza que sua atuação aqui mudaria muitos aspectos na sociedade local.


Vista aérea da vila de Jenipapo, Ilha do Marajó

"A minha chegada a Jenipapo, uma vila de palafitas perdida no interior do Marajó, foi bastante chocante [...] me encontranva no fim do mundo, sem água, sem luz, sem telefone, com uma comida precária, com a previsão de um trabalho difícil. Confortava-me o fato de ter escolhido uma missão que, apesar de difícil, sem dúvida, guardaria para mim muitas satisfações como padre e como homem." [Giovanni Gallo, O homem que implodiu]

"A vila de Jenipapo nasceu num lugar errado, num buraco. Nasceu para ser um acampamento de pesca, uma base provisória durante o verão quando a terra está estorricada [...] durante grande parte do ano, todas as casas ficam isoladas pelas águas: não por acaso Jenipapo é um grande conglomerado de palafitas, que eu carinhosamente chamava de pequena Venezia." [Giovanni Gallo, O homem que implodiu]


Pescadores de Jenipapo por Giovanni Gallo


Pesca do mato por Giovanni Gallo

COOPERATIVA DE PESCA Ao chegar na vila de Jenipapo em fevereiro de 1973, padre Giovanni Gallo recebeu da Prelazia de Ponta de Pedras, na figura do Bispo Dom Ângelo Maria Rivato, a missão de criar no município de Santa Cruz do Arari e Jenipapo, uma cooperativa de pesca. Algo que já estava sendo posto em prática no município de Ponta de Pedras. De posse dessa tarefa, o padre recém chegado se deparou com alguns problemas. Primeiro não sabia como funcionava uma cooperativa, pois nunca havia atuado em uma. Segundo, não entendia nada sobre pesca e os pescadores só tinham a ideia que com uma cooperativa chegaria muito dinheiro para eles. Aqui estava a problemática, a ignorância tanto de um lado como do outro sobre o tema cooperativa.


“Desde o começo fiquei à espreita, para captar todas as mensagens, mesmo as mais insignificantes, uma palavra de gíria, uma história antiga, um jeito de ser, sobretudo aquelas coisas que não valem a pena contar.” Giovanni Gallo


Mas padre Gallo não mediu esforços para conhecer mais sobre o assunto. Partiu com alguns pescadores, para passar alguns dias nos rios da região praticando a pesca do mato. Nessa experiência anotou tudo o que observava, buscando assim, compreender

Pescadores em Vigia

um pouco mais sobre a temática.

Para que os pescadores pudessem aperfeiçoar a sua profissão,

Mas a falta de recursos financeiros e a deficiência no

conseguiu que em Vigia aprendessem técnicas de como pescar

conhecimento sobre o tema tornou muito difícil a concretização

no mar. Pois, os pescadores do Marajó, realizavam em sua

da missão recebida por padre Giovanni Gallo.

maioria uma pesca artesanal, conhecida como pesca no mato. Onde nos rios da região, principalmente, quando as águas estão baixas, os peixes ficam mais fácil de serem capturados. E devido a essa falta de experiência, tinham medo de realizar a pesca no mar. Mas perceberam que essa atividade era muito mais fácil e lucrativa para eles.

Com o dinheiro que recebeu da Prelazia de Ponta de Pedras, para iniciar o projeto cooperativa de pesca, decidiu em conversa com a então prefeita de Santa Cruz do Arari, Gessy Pamplona, atender uma necessidade emergencial da cidade. Ficou então acordado por investir o dinheiro na construção de um posto médico em falta no município. Assim o dinheiro

Mas essas experiências não contribuíram muito para a

seria aplicado em algo que também traria muitos benefícios

construção de uma cooperativa. Como padre Giovanni

para a comunidade.

Gallo mesmo falou: “A cooperativa nem nasceu, abortou.” Seu objetivo era que essa organização, possibilitasse através de políticas de conscientização e aperfeiçoamento dos profissionais da pesca, o sustento e subsistência dessas famílias durante o ano todo. Buscando acabar com as explorações das geleiras, que pagavam muito pouco pelo

O Projeto Cooperativa de Pesca ficou para traz, mas o objetivo de garantir uma fonte de renda para a comunidade e, assim desenvolver a região, sempre estiveram nos planos do padre. Levando-o a desenvolver ações como o Projeto Piranha e, posteriormente, o seu maior projeto, O Museu do Marajó.

trabalho dos pescadores da vila de Jenipapo e Santa Cruz do Arari. arte, educação e cultura | 39


“Deixando para lá toda forma de inútil modéstia, posso dizer que conheço este recanto do Marajó como poucos. Não fiz a minha aprendizagem engolindo monografias eruditas, mas através de uma caminhada na água, na lama, na ferroada.” Giovanni Gallo


Secagem das piranhas embalsamadas por Giovanni Gallo

O PROJETO PIRANHA Padre Gallo foi muito mais além, e para desenvolver uma atividade capaz de adquirir recursos a serem aplicados em obras de melhorias na própria comunidade, criou o Projeto Piranha. “O que não falta no Arari são as malfadas piranhas que, enfeitadas de lendas e contos horripilantes, podem ser um ótimo produto de exportação, quando devidamente embalsamadas.” Assim improvisou um laboratórios e produziu mais de 12.000 exemplares de piranhas embalsamadas, que foram vendidas em toda a Europa. Com o dinheiro das vendas, realizaram inúmeras obras em Santa Cruz do Arari e Jenipapo. Um trapiche comunitário, para as variações de maré e de estação. A construção de um cemitério seco, para os tempos de enchente. A pista de pouso para aviões, de 800 metros, devidamente cercada. A construção de 350 metros de estivas com esteios de acapu e frechais de maçaranduba, e de um centro comunitário onde eram oferecidos cursos de artesanato para a comunidade, além de servir de escola e jardim de infância. Vale ressaltar que a Projeto Piranha não foi uma agressão a natureza. Mas sim, uma valorização do produto da pesca, pois, as piranhas que antes eram desprezadas e consideradas como dejetos pelas indústrias que exploravam os pescadores do Jenipapo, acabavam sendo utilizadas como alimentação para porcos. E com o projeto piranha, o que antes era descartado, se transformou em bibelôs na Europa, multiplicando o lucro do projeto por mil.

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Aqui no Arari as piranhas são os moradores mais numerosos, só cedendo o passo às lombrigas, com a concorrência das pragas. No fichário da Faculdade de Zoologia, a piranha tem um nome meio esquisito: Serrasalmus rhombeus: serrasalmus, porque as escamas ventrais formam uma rerrilha com as pontas voltadas para trás; rhombeus, já que tem a forma de um rombo [...] Os índios, que a conheciam intimamente, a batizaram “Pirâi”, isto é, “corta-pele” [...] Goeldi a considerava um animal de rapina, o mais perigoso da América Equatorial e, até mesmo, dos peixes, dizia também que se Dante a tivesse conhecido, terlhe-ia dado um lugar de honra no inferno, entre os instrumentos de suplício. Queria descobrir se era necessário limpá-las das entranhas ou simplesmente fazer tratamento com formol [...] Uma noite, na minha palafita perdida na lagoa de Jenipapo, tirei a camisa e me concentrei para criar a minha obra de arte: só eu e Deus. Com calma e todo cuidado estava injetando o líquido na bichinha, que eu mesmo tinha pescado da janela de casa, quando senti uma certa resistência, porque a agulha era muito fina. Carreguei a mão, na marra. Foi nesse momento que aconteceu o desastre. Nem sei o que foi: quiçá, a seringa estourou ou a agulha escapuliu. Só lembro que o meu rosto, de repente, pegou fogo, estava lavado de formol! O que é pior, naquela experiência estava usando uma solução muito concentrada. De repente fiquei cego, com a cabeça que parecia explodir. Tive vontade de pedir socorro, mas compreendi que não adiantaria nada. Isolado como estava, não podia ser ajudado por ninguém [...] Só uma idéia, bem clara na minha cabeça: água, devo chegar à água! [...] Devagarinho, cheguei ao banheiro e mergulhei a cabeça no tambor cheio de água. [GALLO, 1996, p. 171-2]


Aplicação de formol por Giovanni Gallo

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Jenipapo no período das cheias por Giovanni Gallo

O

problema da falta de infra-estrutura na vila de Jenipapo, principalmente na época das cheias,

sempre se apresentou como um obstáculo a ser enfrentado pelos moradores da região. Problemas de locomoção dos moradores, que no verão tinham que se equilibrar sobre as terruadas ou tentar desviar da lama. E no inverno correrem o risco de se crianças estarem sob o perigo de afogamento. Onde a única forma de transporte existente seriam as canoas, conhecidas como casco pelos moradores. Buscando solucionar esses problemas, padre Gallo com o dinheiro arrecadado com o projeto piranha construiu 350 metros de pontes, interligando as casas da vila, garantindo assim, mais mobilidade e segurança para a população.

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Estação das lamas por Giovanni Gallo

aventurar nas águas repletas de piranhas, além de as


Estivas na Vila de Jenipapo por Giovanni Gallo • Acervo d'O Museu do Marajó

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Igreja de Nossa Senhora de NazarĂŠ de Santa Cruz do Arari por Giovanni Gallo

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Estivas sobre a lama por Giovanni Gallo

O

sucesso do Pe. Giovanni Gallo com os resultados do Projeto Piranha lhe garantiu

a simpatia da população, mas acabou atraindo também alguns inimigos, que não entendiam como o padre conseguiu tamanho sucesso sem os investimentos da igreja ou de terceiros na viabilização de seus projetos. O fato de o religioso ter conquistado prestigio e a simpatia da população, pelas suas atividades em benefícios da mesma, tenha talvez contribuído para que se enxergasse nesse homem, um possível adversário político, fato que fez com que algumas pessoas, atrapalhassem os seus projetos com histórias difamatórias com o objetivo de diminuir o seu prestigio perante a comunidade. Mas mesmo com as dificuldades encontradas, ele tinha mais um projeto a realizar na cidade, com

o objetivo de desenvolver a comunidade no aspecto econômico, social e cultural. arte, educação e cultura | 49


MARAJÓ, FONTE INESGOTÁVEL DE INFORMAÇÕES Se pudermos dizer quando de fato O Museu surgiu em Santa Cruz do Arari, sem dúvida foi a partir de um presente incomum. Seu Vadico, um amigo e colaborador, entregou um embrulho, sem falar nada colocou em cima da mesa. Pe. Gallo curioso perguntou do que se tratava. - Aqui estão uns negócios que não prestam, como o senhor gosta. [Seu Vadico] Tratava-se de cacos (artefatos arqueológicos) de cerâmica marajoara, os mesmos que os “búfalos pisam e os homens chutavam faz mais de mil anos.” A partir desse presente que Pe. Giovanni Gallo decidiu coletar objetos e, sobretudo, informações sobre esse mundo misterioso e encantador que é o Marajó. Em outras palavras, nasce a partir deste momento, a ideia de se criar um museu com o objetivo de preservar, valorizar e divulgar a cultura da ilha de Marajó e, principalmente do povo marajoara. Desenvolveu assim, inúmeras pesquisas sobre os mais variados temas culturais presentes na ilha de Marajó. Entre essas pesquisas realizadas,

“...retrata com fidelidade a vida na região do Marajó, principalmente na Vila do

a desenvolvida sobre a arqueologia da ilha de Marajó, coletando

Jenipapo. Apesar de sua

artefato da cerâmica marajoara. Resultou em 1990, após vinte anos de

formação religiosa, Giovanni

trabalho sobre o assunto, na publicação do livro Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara Modelos para o Artesanato de Hoje. Livro

Gallo consegue tratar de forma

produzido com o objetivo de ajuda no trabalho da bordadeira, do

fiel assuntos não muito fáceis

serigrafista, do pintor, do carpinteiro. Um trabalho com a missão

para um religioso, como,

de servir como suporte para auxiliar os artesões em seus trabalhos,

por exemplo, a macumba. É

facilitando a reprodução dos motivos artísticos da fase marajoaras, e assim dinamizar a economia desses homens e mulheres. Mas suas pesquisas não se limitaram a arqueologia da ilha, as suas experiências sofridas, seja nos campos do Marajó, entre os vaqueiros e os moradores das cidades, ou nos rios da região realizando a pesca no mato, contribuíram para que o padre adquirisse um conhecimento muito significativo sobre os aspectos culturais e sociais da região. Esse fato contribuiu para que ele construísse vários artigos, que foram vinculados nos jornais O Liberal e O Estado do Pará, de forma semanal. Aos domingos tratava de temas variados, como cultura, esporte, lazer, política, economia e sobre o social observado nas cidades do Marajó. Após anos escrevendo para esses jornais, seu amigo particular Dalcídio Jurandir, o maior escritor paraense, incentivou-o: “Tire uma coleção de reportagens e faça um livro que será o retrato da terra e da gente de Jenipapo. Lendo-o, fico com as minhas raízes marajoaras estremecendo.” E foi o que ele fez, reuniu os seus melhores artigos e publicou o livro, Marajó a ditadura da água (1980), que teve duas edições esgotadas, com 9.000 exemplares, apenas dentro de Belém. Este livro segundo Hildegardo Nunes: 50 | documentário

fantástico o que ele consegue passar nesse livro.” [Jornal O Liberal de 13/01/1996]


Cultura popular na Vila de Jenipapo por Giovanni Gallo

Cerimônia da Umbanda por Giovanni Gallo

arte, educação e cultura | 51


O INÍCIO DO PROJETO: SURGE UM MUSEU NO MARAJÓ Em primeiro lugar, devemos tentar responder a pergunta que perseguiu Pe. Giovanni Gallo por toda sua vida, a partir do momento que colocou o projeto museu em prática, para que possamos entender o objetivo de sua viabilização. Por que um museu no Marajó? Em um local sem infra-estrutura, com um acesso por terra precário e fluvial também, de comunicação por telefone deficiente e um abastecimento de água mais ainda. Um fornecimento de energia elétrica muito precário, por poucas horas por dia e com muitos blecautes. E para completar as dificuldades, para a instalação desse projeto, faltavam hotéis e outras estruturas complementares a qualquer projeto turístico. Mas mesmo com todas essas dificuldades apresentadas, Pe. Giovanni Gallo recusou ao longo dos anos propostas tentadoras de mudança d’O Museu do Marajó, para outras cidades que apresentavam uma rede de infra-estrutura mais desenvolvida como: Soure, Ponta de Pedras e a própria capital Belém do Pará. Toda essa recusa da mudança da sede d’O Museu do Marajó, para um local mais estruturado, está ainda nos dias de hoje baseada na filosofia que domina os princípios do museu, de “preocupação fundamental com o homem, não somente como objeto de pesquisa, mas também como meta e objetivo.” Em entrevista certa vez em um programa de TV, foi feita uma pergunta ao padre giovanni: “No Museu, o seu interesse maior será a pesca ou a pecuária?” Pergunta que para Padre Gallo, pode ter sido feita de forma ingênua ou maliciosa. Mas a resposta já estava na ponta da língua: “O homem, o homem que pode ser pescador, vaqueiro, fazendeiro ou marreteiro, o homem que carrega consigo uma cultura em fase de extinção, o homem que inconscientemente está destruindo o seu habitat, o homem humilde que terá que enfrentar um futuro apavorante se não forem tomadas providências a fim de adaptar aos novos tempos as estruturas sócioeconômicas.”(Entrevistas de Padre Giovanni Gallo na TV Cultura)

Santa Cruz do Arari


Gebrista (misto de pescador e caรงador) por Giovanni Gallo


Bezerro de duas cabeças por Giovanni Gallo

PARTINDO DESSES PRINCÍPIOS O Museu do Marajó assumiu a empolgante tarefa de ser o ponto de partida de todo um complexo de iniciativas, para um programa integral de desenvolvimento, especialmente de um desenvolvimento que utilizaria valores culturais como, histórias e estórias, lendas, costumes, crenças e tradições da terra, e através desses elementos culturais, promoverem o desenvolvimento da região. Sendo definido assim, como um misto de museu comunitário, gabinete de curiosidade e ecomuseu, que possui uma relação de afinidade com a população e o território onde está desenvolvendo suas atividades, comportando-se como elemento de preservação e divulgação dessas micro-culturas, ou seja, dessas culturas mais específicas.

Sendo assim, no Museu do Marajó a população local se vê representada em todo o seu acervo, como um espelho dessas comunidades, onde procuram informações sobre o território, as populações e as culturas que as antecederam e as permanências observadas através das gerações. Assim, a população busca construir uma identidade local, baseada na apropriação dessas culturas, que no caso refere-se a cultura marajoara, formulando sua construção, com a valorização das histórias ou do território de origem, que podemos chamar de culturas imaginadas. Inventando assim uma tradição, que adota a cultura marajoara, já extinta, como elemento que justifica suas origens, como homens e mulheres marajoaras. 54 | documentário


Interior do Nosso Museu de Santa Cruz do Arari por Giovanni Gallo


“No nosso museu, o homem marajoara é doador e receptor. Ele é a maior fonte de informação e no mesmo tempo o maior beneficiado. Nesta perspectiva, o nosso museu tem um ciclo completo: nasce da comunidade, cresce com a comunidade e volta à comunidade. Agora é fácil entender porque o museu aceitou o desafio de escolher um lugar carente das infra-estruturas essenciais. Porque assumiu o compromisso de promover estas infraestruturas, provocando o desenvolvimento do homem através da cultura.” [Giovanni Gallo]

A resposta para esta questão está no centro de todo seu acervo, o homem marajoara. Para Pe. Gallo: Desta forma, O Museu do Marajó nasce de modo informal em Santa Cruz do Arari em 1973. No inicio estava atrelado a Associação Civil Obras Sociais da Prelazia de Ponta de Pedras, como uma das atividades sociais da igreja católica, funcionando assim, nas instalações do salão paroquial. No seu início, o museu caracterizava-se por expor peças arqueológicas, artefatos típicos do cotidiano do caboclo marajoara, documentos históricos, mas, a maior parte do seu acervo era de animais embalsamados como: o boto, jacaré, insetos e o famoso bezerro de duas cabeças, uma das maiores atrações d’O Museu do Marajó. Característica essa que no início, poderíamos enquadrar o museu em Santa Cruz do Arari, como uma instituição nos moldes dos grandes gabinetes de curiosidade da Europa antiga, por primar, em expor objetos considerados exóticos aos turistas. Após anos de pesquisa para a formação de um museu em Santa Cruz do Arari, em 16 de dezembro de 1981, foi fundada a Associação com o nome de “O Nosso Museu de Santa Cruz do Arari”. Agora independente e autônoma da igreja, adquirindo mais liberdade de atuação em suas atividades sociais. 56 | documentário


Fachada do Nosso Museu de Santa Cruz do Arari


Interior do Nosso Museu de Santa Cruz do Arari por Giovanni Gallo

Mas a construção de um museu em Santa Cruz do

lado do posto médico, outrora construído por iniciativa do Pe

Arari acabou atraindo alguns problemas políticos.

Giovanni Gallo, o museu teve que se transferir para outra cidade

Pois, este projeto e os benefícios que traria para a comunidade garantiam certos prestígios ao padre Giovanni Gallo, o que provocava a inveja e o ódio de adversários, mesmo que involuntários, que iniciaram uma perseguição política contra o padre. Definindo “o museu como uma iniciativa que, com seus bichos fedorentos, só estragava a cidade.”[GALLO, p.219] O Museu ainda conquistou a doação por parte da prefeitura de um terreno na travessa

Com a vitória de seus adversários políticos, ficou inviável a permanência de Pe. Gallo e d’O Museu em Santa Cruz. Culminando assim, em 14 de julho de 1983, na Assembleia geral dos sócios, com a mudança da razão social do museu, que deixava de se chamar “Nosso Museu de Santa Cruz do Arari”, para agora assumir a denominação de “O Museu do Marajó”, denominação essa mais abrangente e que se justificava pelo crescimento das atividades da associação, que abrange não mais apenas o município de

Benjamin Gaioso, para a instalação do

Santa Cruz do Arari, mas a região do

“Nosso Museu”, que estava antes nas

Marajó. Além de transferir a sede do

dependências do salão paroquial da

museu para o município de Cachoeira

igreja de São Pedro. Mas em 1983, por

do Arari, local de mais fácil acesso

problemas políticos, que defendiam

onde o prefeito se comprometeu

expulsar “...aquele museu que só

em facilitar a instalação do

agasalha bichos fedorentos, poluindo a atmosfera da cidade e tirando o ar da Unidade de Saúde.” Pois, O Museu ficava ao 58 | documentário

museu no município.


Gallo conta em seu livro O homem que implodiu "Precisava de uma morada. Pedi hospedagem na casa paroquial: me foi negada. Passei umas semanas na casa do prefeito, dr. Edir, mas era evidente que esta solução só podia ser provisória. Um ditado italiano diz L'ospite é come il pesce, dopo un poco puzza: O hóspede é como o peixe, depois de certo tempo fede. Não queria ficar incomodando". O prefeito alugou para mim e os meus troços um velho casarão à espera de demolição: era o bastante para sobreviver, com poucas mordomias. Pelejei um bocado para chegar ao banheiro ocupado pelas cabas; só um descuido e podia varar através do assoalho podre."

"O mais trágico: o prédio oferecido não estava disponível, como a gente pensava. Não era da Prefeitura, continuava sendo propriedade da antiga Oleíca, fábrica falida, mas não morta. Gastei quase dois anos para desembrulhar a situação" (Giovanni Gallo)

Cachoeira do Arari


Comunidade ajudando na reforma da fábrica OLEICA S\A por Giovanni Gallo

Em Cachoeira do Arari O Museu do Marajó com o dinheiro arrecadado graças à venda da antiga sede em Santa Cruz do Arari, comprada pelo Governo do Estado, na administração do Gov. Jáder Barbalho. Resgatou a divida que a antiga fábrica de óleo vegetal OLEICA S/A, falida e abandonada à vinte anos, possuía perante o BASA. Ao mesmo tempo indenizou a OLEICA na pessoa do seu Diretor, o Sr. Antônio Pessoa.

O Museu do Marajó


Comunidade cachoeirense nas reformas da fábrica OLEICA S\A • Acervo d'O Museu do Marajó

A fábrica estava em péssimas condições, mas com o apoio e ajuda da população cachoeirense, que recebeu o Museu de braços abertos, as obras de restauração do prédio logo se iniciaram. Outro grande apoio veio da prefeitura de Cachoeira do Arari, na figura do Prefeito Dr. Edir de Souza Neves, que foi quem convidou Pe. Gallo, para transferir o museu para seu município. Como o próprio prefeito nos diz: “O Museu do Marajó está sendo instalado na cidade Cachoeira do Arari, porque fomos nós a convidar pessoalmente Pe. Giovanni Gallo. Foi mesmo uma decisão acertada". O Museu do Marajó chega a Cachoeira do Arari em 1983, mas só em 8 de dezembro de 1984, abre as portas ao público, enquanto os serviços de restauração e instalação continuam sendo feitos. Nessa altura, O Museu possuía apenas 25% da sua capacidade expositiva, e segundo Giovanni Gallo, nunca alcançaria os 100%, pelo simples motivo de tratar da cultura marajoara. Devido essa cultura e região, estarem sempre em transformação e possuir grandes proporções territoriais, sendo impossível expor toda a diversidade cultural apresentada na ilha de Marajó por seu povo. 62 | documentário


Construção dos computadores capirias • Acervo d'O Museu do Marajó

Montagem d'O Museu do Marajó • Acervo d'O Museu do Marajó

arte, educação e cultura | 63


64 | documentário

Entrada para a exposição permanente por Giovanni Gallo


A inauguração oficial de fato só ocorre em 12 de dezembro de 1987, data especial para o município de Cachoeira do Arari, pela realização nesse dia do Círio de Nossa Senhora da Conceição, a padroeira do município.

A festa da inauguração contou com a banda de música da polícia militar e de cavaleiros com bandeiras em um desfile pelas cidades, que festejava a inauguração desse museu. Além da população que se fez presente, e de autoridades locais, estaduais e federais. Os parceiros que contribuíram para a viabilização do projeto d’O Museu do Marajó se fizeram presentes como, a Cooperativa de Indústria Pecuária do Pará (SOCIPE), na pessoa do senhor presidente José Maria Lobato, o representante do governo, deputado Carlos Kayath, do Ministério da Cultura, do Conselho Nacional de Museus entre outros. Em Cachoeira do Arari O Museu aumentou seu acervo, não se limitando apenas a animais embalsamados e cacos arqueológicos. Seu acervo agora mostra lendas, histórias, objetos, imagens e textos que possuem todos, uma coisa em comum, o homem, o caboclo marajoara e tudo o que se refere a ele. Com isso, O Museu do Marajó conquistou fama e admiração por todo o país e fora dele. Seus visitantes, nacionais e estrangeiros, levavam as suas impressões sobre o museu para outros locais, aumentando assim, o prestigio da instituição. arte, educação e cultura | 65


Carta do escritor Jorge Amado a Giovanni Gallo.

66 | documentรกrio


Acervo interativo para ver e tocar

Recebeu também inúmeras declarações de apoio ao projeto desenvolvido, como, de Dom Alberto Gaudêncio Ramos da Arquidiocese de Belém; da prefeitura de Cachoeira do Arari na figura do senhor prefeito Dr. Edir de Souza Neves; Ildo Barbosa Teixeira da Divisão de Museologia do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG); e da Associação Rural da Pecuária do Pará e de seu O Museu do Marajó vira notícia em todos os jornais da região, O Liberal, A Província do Pará, O Estado do Pará, e até fora do país. Sendo matéria de revistas e de trabalhos de monografias, dissertações e teses, de muitos cientistas e admiradores desse projeto cultural.

Computador caipira para ver e tocar

presidente Fernando Acataussú.


Computador caipira "Glossário do Vaqueiro" • Acervo d'O Museu do Marajó

Em Cachoeira do Arari, O Museu do Marajó continua com dificuldades financeiras e muito ainda a ser feito. Mas é inegável, que nesta cidade adquiriu fama e reconhecimentos, chegando a ser disputado por cidades como Soure e Salvaterra, que veem neste Museu um grande meio de atrair turistas e investimento para suas cidades. Mas, o objetivo de atrair para Cachoeira do Arari os investimentos e com eles as infra-estruturas necessárias, faz O Museu permanecer nesta cidade, por vontade de seu fundador. Pois, desenvolver socioeconomicamente através da cultura essa região sempre foi a missão d’O Museu do Marajó e de seu criador. Por isso, A cidade de Cachoeira do Arari, localizada no meio da ilha do Marajó, e de grande potencial para o desenvolvimento, se fez como local ideal para o desenvolvimento socioeconômico através da cultura. 68 | documentário


Alunos aprendem brincando • Acervo d'O Museu do Marajó

arte, educação e cultura | 69


O FIM DE UMA TRAJETÓRIA: MORRE UM MARAJOARA NA ALMA Após 30 anos a frente de um projeto de valorização e preservação da cultura marajoara, padre Giovanni Gallo encerrou suas atividades sociais em prol da comunidade da ilha de Marajó e, também deixou de reger, como um maestro que dita o ritmo da música, o seu sonoro e empolgante projeto, O Museu do Marajó. No dia 7 de março de 2003, no Hospital Porto Dias em Belém, aos 76 anos padre Gallo como era conhecido, ao meio-dia deu seu último suspiro. Internado desde 26 de dezembro de 2002, por causa de uma úlcera perfurada, padre Gallo teve que passar por duas cirurgias em um pequeno espaço de tempo. Tendo seu quadro de saúde agravado por uma septicemia (infecção generalizada). Padre Gallo a um tempo já apresentava uma saúde bastante fragilizada, com dificuldades para dormir, ficando dias acordados, convivia com dores diárias provocadas pela artrose, que muitas vezes impossibilitava seu deslocamento, prendendo-o a cadeira de rodas. Dores essas que só eram aliviadas com injeções, também diárias de Voltaren, muitas vezes por dia. Em seus últimos dias de vida padre Gallo estava em coma induzido, mas em seus poucos momentos de lucidez, a preocupação que sempre demonstrava, era com o destino d’O Museu do Marajó. ele sabia que a tarefa de manter seu projeto vivo não era fácil, e mesmo com a saúde bastante debilitada, não conseguia parar de pensar como seria o futuro d’O Museu. 70 | documentário


Com sua morte seu corpo foi levado para

Gallo. As histórias de ambos se confundem,

Cachoeira do Arari, onde foi levado na capela

algo que muitas vezes personifica O Museu do

de São Pedro, construída outrora por ele com

Marajó, atrelando-o a imagem de Gallo, como se

o apoio da comunidade cachoeirense. Sendo

fossem uma coisa só. Na verdade, agora são, pois

enterrado com vestes de padre como era seu

Gallo literalmente faz parte d’O Museu, do início

desejo, pois em sua concepção, mesmo afastado

ao fim.

das atividades religiosas, nunca havia deixado de

O Museu do Marajó mesmo com dificuldades

ser um padre jesuíta.

financeiras e sem o seu idealizador a frente,

O enterro em uma área continua ao Museu, entre

continua lutando para manter vivo o sonho de

o prédio da exposição permanente e sua antiga

Gallo de desenvolver socioeconomicamente

residência, no bosque. Seu tumulo que lembra

a região do Marajó através da cultura. Com a

um teso marajoara, está adornado com cerâmicas

missão de atrair as infra-estruturas necessárias

marajoaras, uma homenagem a quem sempre

para a cidade de Cachoeira do Arari e, com elas

lutou pela preservação dessa cultura extinta.

melhorar as condições de vida da comunidade.

Agora ele faz parte do acervo d’O Museu do

A missão não é fácil, Giovanni Gallo sabia

Marajó, como mais uma peça a ser contemplada pelo público que o visita.

muito bem disso. Mas O Museu do Marajó, aos trancos e barrancos, segue levando esse sonho,

Como diz uma faixa colocada na entrada

considerado por muitos utópico a frente. Sonho

d’O Museu após sua morte: Gallo Vive!!! É

esse que aos poucos conquistou a admiração e

impossível falar d’O Museu do Marajó sem fazer

o respeito de pessoas e instituições por todo o

referência a figura singular de padre Giovanni

mundo. arte, educação e cultura | 71


Visite O Museu do Marajรณ Padre Giovanni Gallo Fotografias de Diego Braganรงa e Joรฃo Aires


Um meu irmão me perguntou:

"Será que vale a pena sacrificar uma vida sobre o altar do Museu?" Pergunta legítima, que pode ser também formulada assim, numa forma mais geral: o que é este tal de Museu do Marajó, que condicionou a minha vida e, ao mesmo tempo, encanta os turistas que chegam de longe, depois de ter conhecido museus famosos no país e no exterior, ao ponto de deixar depoimentos apaixonados. Só uma pequena amostragem tirada do livro das assinaturas, para demonstrar que não estou sonhando. Para explicar ou justificar este entusiasmo vou dar um apanhado geral sobre as características e a técnica utilizadas na sua apresentação. A ideia básica é apresentar não o objeto e sim o homem que está atrás A técnica de comunicação parte da ideia de que o brasileiro tem os olhos na ponta dos dedos: sempre deve mexer nas coisas

do objeto: daqui se explica a declaração de que o homem é a nossa peça mais importante. Em outras palavras, o nosso Museu começa onde os outros terminam. Uma afirmação bastante hermética que, porém, será de uma evidência cristalina, com poucas linhas de explicação.

que observa. Em lugar de coibilo,

achei

mais

interessante

incentivá-lo a seguir este estilo nacional. Em miúdos, o Museu é um grande brinquedo. Quanto mais o visitante mexe com os painéis, mais novidades ele descobre e isto através de recursos que nós, numa forma não pretensiosa e sim brincalhona, definimos como computadores de marca caipira. Com o recurso de barbantes, tabuinhas, placas móveis, tudo é inspirado nalgum artefato de estilo popular que, quando manipulado, desvenda os seus segredos, exatamente como computador de verdade. 74 | documentário


Só uns exemplos: Entrando no Museu, encontra-se o auditório, com umas carteiras escolares e o mínimo de equipamento de som e áudio, para fazer uma prele-ção aos visitantes. Num canto estão duas caixinhas, com o convite "O Museu começa por aqui!" e duas perguntas intrigantes: "Quantos anos tem a peça mais antiga do Museu?" Surpresa, incerteza e respostas absurdas. Levantando uma tampa, encontra-se a escala geológica da terra, mais em baixo uma peça da era mesozóica, período jurássico: um fóssil, o tataravò da nossa traíra com a certidão de nascimento que espanta, 190 milhões de anos! Bem ao lado, outra pergunta intrigante: "Qual é a peça mais nova?" Embaixo, está um espelho com a escrita: "É você!", porque cada um descobre o seu Museu, seguindo os

A primeira seção é reservada à arqueologia, peças dos

seus interesses, dirigido pela sua própria formação

índios marajoaras, que os entendidos definiriam como

específica, que o estimula à procura, oferecendo a

peças artísticas, porque não foi possível registrar onde

oportunidade de dar seus palpites e sua contribuição.

e como foram encontradas. A maioria são doações de

Quem quiser saber como colaborar, um painel móvel dá

caboclos, que as recolheram nos tesos. Com certeza,

as dicas. As reações do público são um show!

porém, são autênticas: basta analisar a estrutura intrínseca. Aqui chega a oportunidade de explicar por que a peça mais importante do nosso Museu é o homem e não o objeto exposto: este não é nada mais que o elo entre o visitante e a realidade marajoara. As famosas igaçabas são lindas, mas é mais interessante descobrir quem eram os índios que as fabricaram, sobretudo por quê. arte, educação e cultura | 75


Nada melhor que começar pela língua. Então o visitante

Aruã que pertenciam a outra família linguística. A língua

curioso, no painel "Você fala tupi?", levanta as tabuinhas,

geral, o nheengatu, explica o mistério: só vendo!

que são identificadas por uma série de palavras indígenas. Embaixo está a etimologia reveladora: o igarapé é o riacho ou caminho da senhora da água (a canoa), iguaçu é água grande (a cachoeira), Ipanema (pedindo desculpa aos cariocas) é a água que é panema, quer dizer, que não presta, dá azar ao pescador, porque não tem peixe. Uma autêntica delícia intelectual, uma descoberta gostosa. Só mais um exemplo, lacitatá, um nome de mulher: Ia é fruta, Ci é mãe, quer dizer, a

dá as informações sobre o problema dos índios: quantos eram e quantos são; por que agora são uma dor de cabeça; por que as guerras de extermínio; porque a gripe os mata? "O índio é gente?" explica a justificativa que os devotos colonizadores encontraram para massacrálos, sem remorsos de consciência: se na língua deles não tem F, L e R, quer dizer, se eles não têm

Uma autêntica delícia intelectual,

lua que faz germinar as plantas, Tatá é foguinho: o foguinho da lua é a estrela!

fé, nem lei e nem rei, então são bichos: dá

uma descoberta gostosa.

Um croqui, pintado na parede, mostra a área de expansão dos diversos povos, junto com o diagrama que indica a escala do tempo. Os nomes não revelam muita coisa, então rodando a manivela de outro computador descobre-se quem eram os Ananatuba, os Mangueira, os Formiga, os Marajoara, os Aruã, onde e como moravam, quais as atividades que praticavam: são as conclusões dos especialistas nesta área. Bem ao lado, com o mesmo truque, é revelado o mistério da língua deles, a formação dos neologismos (fotografia: a pele que foi tirada), e como se explica o fato que encontramos no Marajó tantas palavras tupi, se os últimos moradores eram 76 | documentário

Outro computador, formado por um cubo com tampas móveis,

para baixar o pau! Você sabia? O caboclo está convencido de que

os índios cortavam os mortos, pelo fato de que encontra os ossos num vaso pequeno que está dentro de outro maior, a igaçaba ou urna funerária. Um cartaz explica que esta era a sepultura secundária: os índios (como também agora em muitas tribos) os enterravam no chão, para exumá-los mais tarde numa cerimônia ritual, acondicionando-os na igaçaba depois de tê-los pintado com urucum, junto com uns apetrechos característicos da pessoa, que podia ser uma boneca (criança), tanga (mulher) ou machado (homem). Em qualquer museu deste mundo, o urubu será apresentado por um exemplar vivo ou empalhado, identificado pelo nome científico e popular. E tudo acaba aí. Para nós é só o começo,


o bicho é uma desculpa para descobrir a cultura local. Um

Esta pesquisa nos oferece, evidentemente, a possibilidade de

painel com a silhueta de um prédio, no caso um tribunal,

fazer comparações com outras culturas. Criança empelicada

com a indispensável balança feita com duas tampinhas de

é aquela que nasceu junto com as companheiras (a placenta),

Coca-Cola, apresenta a ficha do réu, na ciência e na tradição

por isso será homem de sorte. Então compreendi o sentido

cabocla; outras apresentam a acusação (não presta porque dá

da expressão italiana Nato con Ia camicia, (nasceu com a

azar, espalha doença... ), a defesa (o azar não passa de uma

camisa), que indica não o homem afortunado que nasceu

abusão popular, o ácido gástrico destrói as toxinas), e por fim

com a roupa no corpo, como eu acreditava, e sim porque ele

a sentença (deixamos ele em paz!). Ao lado, um grande painel

com

muitas

tabuinhas e o convite

o raio é uma pedra que cai do céu

veio ao mundo com a Camicia delia Madonna (a placenta): só que, no

enterra-se 7 metros e aos poucos sobe a superfícice

a descobrir qual é a relação entre a figura e o bicho. Mulher barriguda? Quando ela está de parto, o urubu já sabe se vai

folclore italiano, é o indivíduo com o dom de ser curandeiro.

Os alemães concordam com os caboclos, quando falam de Glúckshaube, o gorro da sorte!

nascer homem ou mulher. Fica alegre? Será homem, que

O caboclo sente-se cercado de inimigos naturais (barata, cobra,

é caçador e sempre arruma bóia para ele. Está triste se vai

can-diru, piolho e bicho-do-pé...). Um novo computador, do

nascer mulher, porque esta só lhe oferece casca de batata e de

tipo levanta-e-vê, nos revela como é que ele se defende com

banana. Espingarda? Quando uma arma atira no urubu, fica

recursos naturais não poluentes. A jibóia é a melhor defesa

panema, não presta mais. Porque, quando um urubu acha uma

contra os ratos, só deixá-la no teto da casa: ela, que é lerda,

carniça, não pode saboreá-la em paz porque logo se ajunta

espicha a língua e o rato vem direto para a boca dela!

um montão de pretendentes? Durante muitos anos perguntei aos caboclos, sem sucesso. A resposta veio de um livro suíço. Mas não revelo o segredo, senão ninguém vem mais aqui para descobri-lo. A casa do jacaré valoriza a cultura cabocla. E bicho valente, mas fraco na cabeça, cheio de complexos, como de inferioridade, com onça e urubu, e sobretudo com o medo paradoxal dos olhos fechados, a arma mais poderosa do caboclo para capturá-lo. Como a gente vê, o objeto é o ponto de partida para desvendar o mistério da cultura local. O caboclo criou a sua cosmologia, que acredita no involucionísmo (o macaco já foi gente), a geração espontânea (a mosca nasce do lixo, os peixes morrem estorricados nos poções secos para depois nascer do limo, a caturra é gerada pelo caroço de tucumã), o transformismo (o boto vira gente, o jandiá vira sapo e a caba é filha da aranha), o raio é uma pedra que cai do céu, enterra-se sete metros (número mágico) e aos poucos sobe à superfície, para depois voltar ao céu. Nada de novo: os antigos italianos chamavam Pietra di fulmine os achados arqueológicos etruscos, seguindo as informações recebidas dos latinos.

Mais perigosos são os inimigos não-naturais, o olho grande, a inveja, a


espinhela caída, a matinta

do marido, que fica sacudindo, para

pereira... O mal de lua

fazer um lanche! Quem voa melhor, o

aparece quando a criança

homem ou o bicho? Será que o homem

faz o coco verde: foi descuido

inventa ou somente está copiando

da mãe, que deixou a criança

dos bichos? Os segredos do radar

ou os cueiros dela expostos ao

e do sonar que descobrimos com

luar. O médico não pode curar, é

o morce¬go e as mensagens da

doença de pajé: precisa mostrar o

mariposa, a orientação pelo sol e as

bumbum do doente à lua, fazendo a

estrelas, os estragos da droga no reino

reza apropriada: "Lua luar, leva teu mal,

das formigas, a vaca sapatão e o inseto travesti que engana

deixa meu filho criar!"

o namorado na procura da noiva...

O pajé naturalmente merece papel de destaque: uma série

Tudo o que é vida do Marajó tem um lugar no nosso Museu:

de computadores nos ensina como funciona um "trabalho",

as embarcações, a fazenda, o vaqueiro à moda antiga e o

quais são os atores, os convidados, o mestre-guia, qual é a

vaqueiro de hoje, que mudou para o pior trocando a baeta pela

técnica do fogo, do doente carregado nas costas, dos vidros

napa e o chapéu de carnaúba pelo capacete de plástico, a pesca

quebrados sobre os quais o pajé atuado dança, o diagnóstico,

(com a maquete para explicar como é realizada no mato), o

as causas e os remédios de cada doença não-natural. É o

boto, o peixe-boi. As histórias etiológicas nos revelam como

resultado da pesquisa de um especialista, R. H. Maués, com a

o caboclo explica certos fenómenos estranhos: o japiim que

colaboração da minha experiência pessoal.

convive com as cabas, a solha que tem a boca torta, o jabuti

As lendas amazônicas evidenciam como o Museu prevê várias categorias de visitantes: o apressado que se contenta em ler o nome e uma figura estilizada (vitória-régia), o mais

com a carapaça emendada. Só um exemplo: por que o filho do bem-te-vi tem uma ura na cabeça? Castigo: dedurou Nossa Senhora aos soldados de Herodes.

curioso que levanta a tampa e contempla a representação

Outro computador bem buchudo conta tudo, ou quase, sobre

plástica e, por fim, o pesquisador que lê a história.

as cobras: será verdade que a cobra, quando vai beber água,

Um supercomputador com 128 fichas faz a comparação Homem x Bicho. Os bichos são pais amorosos? O pirarucu é pai exemplar e carrega os filhotes na boca, em caso de

esconde o veneno debaixo da pedra? Que gosta de leite de mulher e tem o vício de puxar a criança que mama, colocando na boquinha dela a ponta do rabo, para que não chore?.,.

perigo. A barata dágua não tanto: a mãe bota os ovos e os

A história dos escravos ganha a nossa atenção com

pai os devora. No desespero a mãe gruda os ovos na costa

documentos autênticos, como a carta de alforria com a qual

78 | documentário


João Manoel da Cunha Mello recebe, na presença do tabelião de Soure, em 7 de junho de 1847, a quantia de duzentos e cinquenta mil réis em moeda corrente do país e doa a liberdade à cafusa Francisca Maria de Nazaré com "a condição, porém, dela não poder se retirar da minha companhia em quanto eu for vivo". A história que poucos conhecem, a história do sofrimento negro e da vergonha branca, nos desvendam o que geralmente não aparece nos livros de História: o remédio certo para curar a sífilis dos donos de engenho era uma negrinha virgem, os horrores dos tumbeiros, dos capitães de mato, o banzo, a saudade de Luanda, os tubarões famintos que resolviam as epidemias de conjuntivite purulenta. Passando ao presente, aí está uma denúncia inteligente para gente inteligente, apresentada por tabuinhas penduradas numa grade de taboca: o racismo bem brasileiro revelado pela gíria de hoje. Gíria refinada "Eu não gosto de duas coisas: do racismo e dos pretos", e popular: "Qual a diferença entre preto e câncer? o câncer evolui, o preto nunca!", mais muitas outras expressões

"... mas, com certeza, também se dará conta de que esta descrição não consegue dar a ideia do que está guardado nos 900m da Exposição Permanente." engraçadas e sutis mas sempre perversas. "Quando nasce um preto, a mãe o joga para cima: se engatar, é macaco; se avoar é urubu, se cair, é merda!" Só para chegar à conclusão: o racismo é anticonstítucional, tem que acabar! Não dá para contar mais, senão quem chegar até aqui já sabe tudo, mas, com certeza, também se dará conta de que esta descrição não consegue dar a ideia do que está guardado nos 900 m da Exposição Permanente. O bezerro de duas cabeças, o homem que a piranha comeu são pontos de referência para todos os caboclos. Vou ainda citar a "Pescaria da Saúde", inspirada naquela brincadeira de arraial, quando o moleque puxa o fio para ganhar o prémio ou a decepção. Na beira do computador está a relação das doenças. Puxando a cordinha, sobe o remédio (esta é pesquisa, não prontuário!). Fastio? Amarrar no pescoço da criança um colar feito com dentes de piranhas. São as simpatias por analogia ou transferência, a medicina empírica, mágica e religiosa, com todas as variedades de pírótica, excretoterapia (jasmim de cachorro, remédio infalível contra o sarampo) mais as outras opções alternativas: não é só o pajé que procura caminhos diferentes da farmacopeia oficial. Depois encontramos o painel "Marajó de ontem e de hoje" com uma série de objetos que é preciso identificar e acoplar: qual era a pasta de dentes da avó? (o pó de carvão), a bacia? (o croata da palmeira), o espanador? (a espiga de milho), o famoso capitão? Para os mais curiosos está à disposição a explicação completa.


Antes de sair, uma sabatina para avaliar o proveito realizado na visita, a pergunta com a resposta oculta: tinga quer dizer pequeno, mergulhador ou branco? O que é a caiçara para o índio, o marajoara e o paulista? Piracuí é um bicho, uma planta ou uma comida? Na área externa encontra-se o arboreto, com centenas de plantas amazônicas sobre as quais estamos fazendo a pesquisa, a casa do caboclo coberta de palha, a casa da farinha, as estivas típicas do Marajó, mais outras peças características da terra. Como qualquer Museu moderno que se respeite, o Museu do Marajó dá ênfase à atividade comunitária. Temos a casa do artesanato, com o trabalho das bordadeiras que reproduzem os motivos arqueológicos: eram oitenta e duas que assim ganhavam o peixe de cada dia. Atividade agora encalhada por falta de capital de giro, porque a artesã recebe na hora, mas o produto é comercializado devagarinho. A escola-oficina, a Fazendola Ecológica, construída com a ajuda dos fazendeiros, quer dizer, uma maloca sobre a qual estou curtindo o projeto de transformá-la numa escola alternativa, com arte, teatro e folclore: por enquanto se reduz a atividades embrionárias, sempre pela falta de recursos. Outro sonho é o arquivo cultural para coletar nas comunidades as lembranças do passado, as estórias, as lendas, as parlendas, as toadas. Enquanto eu estou esperando a maré boa, os velhinhos que são os últimos depositários desta cultura vão para o céu. Mas o meu sonho nasceu vinte anos atrás! Só para ter uma ideia da nossa miséria, ainda O Museu do Marajó, sob o ponto de vista históríco-geográfico, nasceu no lugar certo, bem no centro da ilha, onde se cruzaram todas as nações de índios, o lugar mais rico de tesos arqueológicos, que os americanos identificaram como mounds. Sob o ponto de vista logístico, a escolha foi a

A

não consegui montar as estantes da biblioteca.

quem

desenvolvimento. Eu sempre quis ser

perguntou se vale a pena sacrificar uma vida sobre o altar do Museu respondo que sim: é uma forma de salvar uma cultura e ao mesmo tempo, através

mais errada possível:

da cultura, promover o progresso.

um museu precisa de estruturas que nós não temos. Foi, porém, uma decisão proposital: eu sempre recusei as muitas ofertas de lugares mais privilegiados, porque 80 | documentário

queria que o Museu provocasse este

me

um santo, pena que pifei. Se o Museu está num beco sem saída, por falta de comunicação que permita o acesso dos visitantes, por que não perenizar o acesso à baía, com a estrada para Soure e Salvaterra,

abrindo assim o caminho do progresso a todas as populações da bacia do Arari? O Museu do Marajó não nasceu para ser pólo de desenvolvimento?


Os nossos recursos são raros, imprevisíveis e sempre insuficientes, o sonhado patrocinador ainda não apareceu. Será que sou um idealista ou simplesmente um visionário com a obsessão de uma façanha irrealizável? Neste momento me sinto como aquela mulher sertaneja, com o filhínho no colo que está morrendo por definhamento e, no desespero, diz ao gringo: "Você quer meu filho? Eu lhe dou! Só quero que ele viva!" Estamos transformando a nossa Associação em Fundação, com mai¬or possibilidade de recursos oficiais e estrangeiros. Dá para sonhar de olhos abertos, enquanto estamos curtindo a grande esperança de encontrar algum patrocinador que tope com o nosso programa: venha e confira se o Museu do Marajó é, como eu acredito, um instrumento com potencíalidades extra¬ordinárias para promover a cultura e, com a cultura, o desenvolvimento total do homem marajoara. A porta está aberta: temos registro no Cadastro Nacional de pessoas jurídicas, de natureza cultural, do Ministério da Cultura, sob o n. 15.000222/84-11, podendo receber patrocínio e doação.

arte, educação e cultura | 81


poética

Giovanni Gallo, DA II GUERRA MUNDIAL A UMA GUERRILHA NO FIM DO MUNDO

\\\ Por José Varella Pereira. Imagens cedidas pelo Acervo d'O Museu do Marajó


Giovanni Gallo nasceu em Turim (Itália), no dia 27 de

monge-soldado juramentado como todo e qualquer jesuíta.

abril de 1927 e faleceu em Belém do Pará, em 7 de março

O qual, enfim, perde a violência de uma tragédia grega na

de 2003. Gallo estava com onze anos de idade, em sua terra

Amazônia depauperada e devastada para se converter em luta

natal, quando o vigário da paróquia lhe perguntou se queria

continuada para sobrevivência do Museu do Marajó, onde

ser padre e o menino respondeu que sim. Até aí sua vida

criatura e criador se confundem.

infantil se resumia à família, escola e igreja. A Itália estava sob o fascismo de Benito Mussolini e a Europa entregue à fúria insana da II Guerra Mundial. O seminarista não parecia interessado na política do país e a derrota italiana junto com a Alemanha nazista não faz parte de suas principais recordações.

Na ilha do Marajó, desde 1973, inventou o museu: estranha criatura de um lugar no fim do mundo que acabou sendo alter ego de seu criador e sobrevida no naufrágio de sua existência no terceiro mundo. Todavia, para a espoliada gente marajoara a inesperada obra de Santa Cruz do Arari transformou-se, verdadeiramente, em alavanca social para empoderamento

Com 6 anos de idade o aluno Giovanni Gallo para ser

popular da Cultura Marajoara. Até então de uso privado da

matriculado na escola primária fora inscrito no partido

oligarquia regional e objeto de pesquisa acadêmica da elite

fascista por sua mãe. O ano de seu nascimento era o Ano VII

do País e exterior, sem retorno à população dos municípios

da Era Fascista... Entretanto, tomou a decisão de ser padre,

de IDH miserável.

por vontade própria, aos 29 anos de idade. Como seminarista percorreu cidades como Paris, Estocolmo e outras.

O célebre museu do homem marajoara que fora causa daquela tragédia, também se converteu em epifania do marajoara que

Esta opção radical o levou a Sardenha a fim de trabalhar com

veio de longe. No marco final de uma vivência excepcional, o

a população rural. Vem daí seu conhecimento do abigeato

drama de Giovanni Gallo se avizinha de um rito antropofágico

como costume social; que não o escandalizou no Marajó

sublimado pela; a ilha canibalesca que o herói tentou salvar

levando-o a tomar a defesa de pescadores do Jenipapo sempre

termina por devorar seu salvador. Há uma aura eucarística na

acusados, em geral, como ladrões de gado por fazendeiros e

tragédia. Gallo abandona todos os truques, como diz, para dar

explorados de suas carências sociais por notórios “patrões”.

a volta por cima no último capítulo. “Nem tudo está perdido”.

Depois ele foi trabalhar com imigrantes na Suiça, antes de

Ele compreende que morre o homem e fica a fama. O museu

vir a ser missionário no Maranhão e Pará (Marajó). Ao cabo

da discórdia é, de fato, a sobrevivência do criador através

da vida, já na velhice, doente e tendo passado por cirurgias

da criatura. Desde ali o “ex-padre” aculturado à moda dos

em Brasília; resumiu tudo na explosiva autobiografia “O

caboclos não diria nunca mais a magoada expressão: “quando

homem que implodiu”, escrita em Cachoeira do Arari sob

eu era gente”... Ele não se considerava mais o ressentido

peso do drama que o consumia. Crônica de um suicídio

“homem que virou bosta” ou “homem-bosta”. E sentencia

anunciado: suprema confissão de fracasso para um padre

como um novo homem ressuscitado pela chuva dos campos

que aspirava a ser santificado, ainda mais se esse padre é

de Cachoeira.

arte, educação e cultura | 83


"Ainda vale a pena viver, olhar para o futuro, quase como antigamente. Pena que o padre morreu!" (O homem que implodiu, página 293)

Apesar das enormes diferenças de tempo e caso, há diversos

sob argumento de claudicar no engajamento perime cadáver

pontos de contato entre o padre dos pescadores e vaqueiros do

(sobre a disciplina absoluta), pode ser. No que lhe parecia

Arari e o padre grande dos índios, Antônio Vieira: este último

erro de comando este soldado de Cristo parece sem defesa

adotou por princípio salvar-se salvando os outros. Giovanni

na sua irremediável insubmissão. Já pensou a anarquia se

Gallo, por um percurso incerto, terminou por se salvar

cada recruta discutisse com seu general a melhor tática de

salvando a memória de um povo desmemoriado através de

batalha? O problema, neste caso, é que o soldado sentia-se

um museu engendrado nas piores condições de sobrevivência.

mais qualificado do que o comandante.

O herói devorado pelo curso da história, lutando para nascer de novo; provoca a renascença de uma cultura “morta” e despedaçada no altar da Civilização.

Insubmisso ao aparelho missionário talvez, mas nunca será correto o considerar renegado da causa ad majorem gloria Dei (sobre o juramento do miliciano de Cristo): por tal princípio,

Chamá-lo simplesmente de “ex-padre” é atirá-lo à vala comum

ele advogava com incrível insistência o erro da autoridade

dos arrependidos e dispensados dos votos de sacerdote. Ele

diocesana. Aqui fica difícil deslindar se o padre defendia os

foi um peão grudado à sela do touro. Combatente tenaz, um

cabocos, ou se ao contrário eram estes o escudo do rebelado

condutor de contramão no sentido de que foi preciso desligá-

para não aceitar a rendição. Pelo que, no mesmo cenário

lo da diocese e suspender seu ofício na Sociedade de Jesus,

amazônico, Gallo lembra a desigual luta que o jesuíta Antônio

respectivamente, mas o João teimoso não jogou a toalha.

Vieira travou há três séculos e meio em favor dos índios e

Nem quando esteve à beira do suicídio. Teve que ser excluído

sofreu condenação do Santo Ofício por heresia judaizante.

84 | poética


"Até que enfim da

r gente

s meus irmãos, quis se

rimentar a vida do quis ver de perto, expe

nde não todos vão."

, e me empurrei lá, ao

o somente na teoria gente na prática e nã

Gallo poderia também, no limite, recordar o evolucionista Teillard de Chardin, que por amor à disciplina formal sem trair a Ciência aceitou silenciar em vida, mas sem remorso arquitetou liberar seu pensamento após a morte, pregando uma peça à censura. Giovanni Gallo não podia aceitar a retirada do campo de batalha sem dano à causa humanitária (a correspondência de Maria de Belém Menezes e Dalcídio Jurandir demonstram bem isto, do mesmo modo com as cooperativas do bispo Angelo Rivatto eram saudadas com entusiasmo): a ilha do Marajó foi palco e mortalha do padre. Ele fez uma aposta sabendo que seria esmagado, comido e digerido pelo sistema até “implodir”. arte, educação e cultura | 85


nar. A pé, no casco, i caçar, lancear, lanter

Fu

nas fora de casa,

montado. Fiquei sema

uinha, de prisioneiro de um barq

Sua autobiografia é a crônica de um suicídio que se converte em metáfora do contrário à vitória de Pirro de seus inimigos. Pois o derrotado – à exemplo do povo que ele escolheu para recuperar a memória – sabia, antecipadamente, que no fim da história seria considerado um grande homem. Como de fato acaba sendo, na medida que os marajoaras se empoderam do tempo e do espaço natal e o Museu do Marajó passa a ser conhecido no País e no mundo ainda que, no final, volte ao barro de que foi feito. O que Giovanni Gallo não contava era ser santificado pelo povo como um padre Cicero dos ribeirinhos, nem que um viajante estranho viesse de longe sentenciar diante de quem o ouvia no museu que o padre dos marajoaras foi em vidas pregressas, naturalmente, um “grande cacique marajoara”. Si non è vero è bene trovatto... Vico explica a transformação de gente em lenda. E Gramsci ensina a não tourear contra a cultura de um povo. No Marajó, o catolicismo popular antes de ser religião é cultura mestiça com crenças e ritos nativos e africanos. Isto que faz da literatura do comunista agnóstico Dalcídio Jurandir uma mina inesgotável. 86 | poética

um congá na beira do

rio.

O “homem do Pacoval” tributário do museu do Gallo Marajó é universidade aberta, celeiro de diletantes que abrem os olhos de eruditos fossilizados pelo cânone. Raymundo Morais foi um destes autodidatas, autor de “O homem do Pacoval”, que fez

de seu navio singrando águas do

Amazonas, entre Belém e Manaus, escola de altos cursos de cultura regional. Dalcídio transportou na bagagem a bordo do “Ita do Norte” a “criaturada grande” para o auto exílio no Rio de Janeiro. Já o marajoara que veio da Itália se naturalizou brasileiro nas águas sagradas do lago Arari debaixo de chuvas do dilúvio amazônico, entre piranhas e caruanas de peixes encantados... Pouca gente ilustrada percebe que, “sem querer querendo”, o jesuíta insubmisso criou, em forma de Museu para “ver com a ponta dos dedos”, a concretude de uma metáfora da marginalidade neocolonial face à centralidade da gloriosa Civilização. O museu do Gallo fala desta gente remanescente de índios, descendente de escravos e deportados. Gente sem eira nem beira, herdeira de um tesouro perdido, produtora incansável de cultura regional cuja resiliência está


na cara e o centro de convergência deste mundo é ou deveria ser “o nosso Museu do Marajó”. Cujo cerne e princípio, necessariamente, é tempo arqueológico, malgré a sociologia do romance de Dalcídio e a etnografia prática de Giovanni Gallo. Em Marajó, sem a antiguidade da Cultura Marajoara por emblema não tem futuro nenhum projeto social, cultural ou ambiental separadamente. No começo do drama, sem saber direito onde pisava; o padre dos pobres pescadores do Arari acertou em cheio no barro dos começos deste vasto mundo das águas grandes! Daltônico, confundia as cores básicas do arco-íris. Açodado por temperamento, ele mal agasalhou a bagagem num canto e já entrou de cabeça na velha peleja entre fazendeiros e pescadores. Briga feia começada, em 1680, com o primeiro curral de gado de Cabo Verde importado no rio Arari e levantado face ao perigo dos “índios bravios, desertores e escravos fugidos” que existiam nos centros da ilha. Gallo entrou na paróquia de pé esquerdo como cego em meio ao tiroteio... Assim, fragmentos de cerâmica marajoara – famosos “cacos de índio” remanescentes de sítios arqueológicos – deram origem ao incrível museu e aos oportuníssimos “Motivos Ornamentais” que são, muito provavelmente, sobras do saque de tesos recolhidas com vagar e risco por descendentes de índios geralmente acusados de ser “ladrões de gado”... Não por acaso a vila Jenipapo, onde até poucos anos fazendeiro não pisava sem risco de morte por vingança de acumuladas violências sofridas pela comunidade, fica fronteira – no tempo e no espaço – ao teso do emblemático Pacoval, que já deveria ter sido declarado monumento ancestral. Para quem não sabe, pacova é espécie de banana antigamente cultivada pelos índios da região. Pacoval, portanto, é bananal indígena. O teso do Pacoval em apreço é o primeiro sítio arquelógico que se tem notícia na ilha do Marajó, descoberto na metade do século VIII pelo autor anônimo da “Notícia da Ilha Grande de Joanes” (provavelmente, o fundador da freguesia de N.S. da Conceição da Cachoeira do rio Arari (1747), Florentino Frade; guia de viagem do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira). A colonização sufocou e estraçalhou a cultura indígena, mas por acaso “cacos de índios” deram remendo à memória perdida... A astúcia do padre (como seus predecessores das Missões) foi em saber escutar a voz do povo e, socraticamente, aprender com os ignorantes. Nesta difícil arte ele foi mestre, sem a menor dúvida.


s o d a c i f i n g i s e s Origen

Cultura

a r a o j a r Ma da

\\\ por Denise Pahl Schaan

Era lá pelo ano de 500 depois de Cristo. A Amazônia era habitada por centenas de nações indígenas, formando comunidades que falavam um sem número de línguas diferentes. Em diversas áreas ecologicamente distintas, essas populações exploravam recursos silvestres e desenvolviam uma agricultura de pequena escala, para a sobrevivência de suas pequenas comunidades. Apesar desta vida aparentemente simples, estas populações mantinham constante contato, pois realizavam trocas e buscavam abastecer-se de produtos não disponíveis localmente. Provavelmente algumas pessoas dedicavam-se a uma espécie de comércio, viajando e conectando comunidades distantes em uma rede de trocas que envolvia também intercâmbio de ideias, crenças religiosas e estórias. Foi nesse momento de grande regionalização de idéias, de aumento populacional, de crescente conhecimento sobre o meio ambiente e as melhores formas de explorá-lo, que uma grande transformação ocorreu no modo de vida de muitas das populações amazônicas. E essa transformação ocorreu primeiro na Ilha de Marajó.

arte, educação e cultura | 93


Por que Marajó? Porque em Marajó combinaram-se condições e oportunidade. Para que se entenda como tudo aconteceu é necessário conhecer um pouco sobre o regime de chuvas em Marajó e, especialmente, como o clima afeta a pesca em algumas áreas, principalmente nos pequenos igarapés e cabeceiras dos rios. No Marajó chove mais do que o normal para a floresta tropical. As chuvas caem intensamente em um período que vai de janeiro a maio, que é chamado localmente de inverno. Uma vez que a Ilha fica ao nível do mar, tem elevações discretas e um solo muito argiloso, a terra não tem como absorver toda aquela água, provocando enchentes. As águas sobem muito, e o


campo torna-se um grande lago raso. E justamente neste período do inverno que vai até maio que acontece a piracema, ou a subida dos peixes até as cabeceiras dos rios para se reproduzirem. Os peixes, então, espalham-se pelos campos alagados. Quando as chuvas param e as águas começam a abaixar, é hora de voltar e descer os rios. No entanto, como as águas baixam rápido, diversos lagos e pequenos cursos d'água que estavam conectados durante o inverno de repente são separados, cortando vias de escape para milhares de animais aquáticos que ficam presos em áreas mais profundas. Os antigos habitantes de Marajó conheciam bem aquele fenômeno. Pensa-se que eles frequentemente realizavam expedições de pesca para as áreas em que podiam coletar facilmente uma grande quantidade de alimento. É provável que tenham arte, educação e cultura | 95


também construído pequenas barragens, formando currais

provável que os primeiros a chegar ao lugar tenham reclamado

onde podiam manter os peixes vivos por um indeterminado

seus direitos logo que os conflitos surgiram, e que os chefes

período de tempo. Mas logo se deram conta de que podiam

de famílias mais importantes tenham passado a ser também

fazer ainda melhor.

chefes de comunidade. Em vários lugares na Ilha de Marajó

Nunca saberemos quem teve a ideia primeiro ou como as coisas realmente aconteceram. O que sabemos é que as cabeceiras dos rios passaram a ser colonizadas por populações que começaram a manejar os recursos aquáticos conscientemente. Fizeram isso por meio de grandes escavações próximas aos leitos dos rios, nas cabeceiras, para onde desviavam os peixes no final do inverno com a ajuda de barragens. Desta forma, mantinham um suprimento de alimento e água também durante o verão, quando tudo ficava muito seco. Todo esse manejo possibilitou o agregamento de populações maiores, que agora tinham uma fonte confiável de proteína e podiam também dedicar-se a outras tarefas que não as necessariamente ligadas à sobrevivência.

estabeleceram-se então poderosos cacicados, ou grupos de aldeias que estavam subordinados a um mesmo cacique. Esta unidade política e religiosa permitia-lhes assegurar também por meio de guerras, se necessário, seus direitos sobre a terra e sobre a água, assim como sobre todos os recursos naturais que estas envolviam. Havia-se aberto um importante capítulo do desenvolvimento cultural dos povos amazônicos. A partir daí, sociedades regionais e complexas começaram a desenvolverse também em outras partes da Amazónia, iniciando um florescimento cultural como não se havia visto antes.

Do Alto dos seus Tesos Os cacicados eram governados por famílias nobres, que passavam o poder de urna geração para a outra. Por causa da

Mas o que fariam com a terra que tiravam das escavações?

grande importância de imagens femininas na arte Marajoara,

Resolveram que seria interessante construir plataformas

pensa-se que a sucessão se dava pela linha materna. Neste

altas de terra próximas aos viveiros de peixes, em cima das

sentido, mesmo que o chefe em determinado momento fosse

quais colocariam suas casas e nas quais enterrariam seus

um homem, ele teria recebido o direito à sucessão no poder

mortos. Foi assim que surgiram os cemitérios indígenas, tão

por parte da família de sua mãe, não de seu pai. Quando uma

peculiares à região.

pessoa da família dos chefes morria, fosse ela mulher, homem

Os aterros (ou tesos, como são chamados localmente) se tornaram símbolo de prosperidade e abundância, e logo estabeleceu-se um certo direito de uso sobre esses locais. E

ou criança, seu corpo era colocado dentro de um grande vaso de cerâmica juntamente com seus objetos pessoais. Algumas mulheres eram enterradas com tangas de cerâmica. Algumas


pessoas ainda com colares e machados feitos de pedras raras na região, obtidas através de trocas com sociedades distantes. As urnas funerárias eram adornadas com desenhos pintados ou inscritos na argila, ou ainda com relevos extremamente elaborados, tudo nas cores branco, vermelho e preto. Muitas dessas urnas funerárias foram desenhadas como se fossem um corpo feminino, com olhos e boca na parte superior, e o bojo redondo sendo o corpo, onde braços eram desenhados acompanhando a curvatura do vasilhame, com mãos que seguram um círculo vermelho: o ventre. Em algumas urnas pintadas pode-se ver uma pequena figura humana que está em posição de quem está para dar à luz. É como se a urna representasse renascimento, volta às origens, ou a passagem para uma outra vida. Observando as representações na cerâmica podemos aprender muita coisa sobre as antigas crenças, rituais religiosos, cerimónias e festas que faziam parte da vida nos tesos. O fato de que as urnas eram enterradas (mas às vezes mantidas dentro das casas) no mesmo lugar onde moravam, nos indica que havia uma relação estreita entre a vida e a morte, entre os vivos e seus antepassados. Manter os antepassados por perto era uma maneira de assegurar continuidade na sucessão e garantir o poder. Com cacicados espalhados pela ilha, havia muita competição e conflitos, por isso a necessidade de mostrar poder e prestígio. Do alto de seus tesos, o Marajoara sentia-se em controle do seu território e das riquezas que a terra e as águas lhe proporcionavam.


Os Marajoaras tinham uma profunda crença, temor e respeito pelas forças da natureza. As chuvas e a seca lhes podiam trazer fartura ou miséria. Eles acreditavam

A Mãe de Todos os Peixes "O índio mergulhou no rio e achou a escama de uma cobra. Ele estava vivendo

que as forças da natureza, personalizadas na forma de animais e seres sobrenaturais, deviam ser respeitadas e veneradas. Dos animais mitológicos, o mais importante era uma grande cobra ancestral, que em alguns mitos amazônicos é considerada a mãe de

nas cabeceiras de um pequeno igarapé,

todos os peixes ou a cobra-canoa que trouxe

e resolveu guardar a escama junto com

Seja qual for o mito em que os Marajoaras

suas coisas, sem dar muita importância. Então muitas cobras, de diferentes tipos,

os primeiros humanos para habitar a terra. acreditavam, sabe-se que a cobra tinha uma importância fundamental nas suas vidas, provavelmente por causa de sua ligação com a procriação dos peixes e a origem

apareceram, cobras que ele nunca tinha

da vida. Em diversas urnas funerárias

visto. O pajé lhe disse que as cobras vieram

cobras, cujas cabeças apontam para o

atrás de alguma coisa que ele tinha, que pertencia a uma cobra, e que ele tinha que se livrar daquilo. O homem então jogou a escama no rio, mas a água estava muito rasa, na vazante. A noite o igarapé encheu

femininas, há braços representados por ventre. Os desenhos no corpo desses répteis são triângulos, losangos e linhas sinuosas, que encontramos também em quase todos os objetos de cerâmica Marajoara. Muitas das vasilhas de cerâmica, como pratos e tigelas, eram usados para servir comida em festas e rituais. Era preciso agradecer aos espíritos dos antepassados a boa sorte com a pesca e reprodução

e muitas cobras vieram, seguidas pelos

de peixes, tartarugas e outros animais

peixes. O lugar onde ele tinha atirado a

mas outros animais como lagartos, jacarés,

escama virou uma lagoa tão cheia de peixes que se tornou o melhor lugar para pescar".

aquáticos para alimentação. Não só a cobra, tartarugas, morcegos, urubus-rei, corujas, macacos e escorpiões, eram representados na cerâmica. A intenção não era a de simplesmente retratar seres da natureza, mas principalmente relembrar estórias importantes, que falavam sobre crenças e proibições, sobre a origem da vida e sobre a ordem que regulava o delicado equilíbrio entre os seres da natureza.


Os Motivos Ornamentais da Cêramica Marajoara Os Marajoaras produziam cerâmica simples, para cozinhar e preparar alimentos, e também uma cerâmica mais decorada e elaborada para servir alimentos e bebidas em festas. Além disso, produziam toda uma variedade de objetos rituais tais como banquinhos para os pajés e chefes, estatuetas usadas em rituais de cura, pingentes, tortuais de fuso, ornamentos para lábios e orelhas, assim como frascos e uma espécie de concha com um canudo para ingestão de drogas alucinógenas. Os objetos produzidos para festas e rituais eram cuidadosamente decorados com desenhos geométricos, linhas sinuosas, círculos e espirais combinados de maneira harmoniosa, impressionando pela simplicidade e força comunicativa. Uma das características dessas representações é a simplificação de formas naturais de animais e humanos através do emprego de figuras geométricas, utilizando uma simetria que na maior parte dos casos é apenas aparente. As figuras são frequentemente dualistas ou híbridas, representando mais de um animal ao mesmo tempo, dependendo de como se interpreta o desenho. A inspiração em seres humanos ou animais é livre, combinando partes do corpo (olhos, bocas,


patas, rabos) e desrespeitando proporções, posições de membros e características anatômicas. A arte Marajoara era sem dúvida uma arte religiosa e sagrada, no sentido em que buscava transmitir ideias transcendentes ou cosmológicas, realizando a ponte entre o mundo dos vivos e o sobrenatural. Com a utilização de um número limitado de símbolos gráficos, combinados com figuras modeladas de humanos e animais, o povo Marajoara criou uma verdadeira forma de comunicação de suas idéias e crenças, que através da cerâmica tornaram-se visíveis e permanentes. OsMarajoaras influenciaram e foram também influenciados culturalmente por outras sociedades amazônicas. Por isso são tantas as semelhanças entre as cerâmicas arqueológicas da região. As mudanças econômicas, sociais e políticas que operaram-se na Ilha de Marajó também influenciaram outras sociedades ao longo do rio Amazonas. Em torno do ano 1.000 depois de Cristo, diversos cacicados estavam estabelecidos na Amazônia, controlando áreas ecológicas importantes, congregando populações densas e produzindo uma cultura material rica e elaborada. Guerras e alianças eram frequentes, e trocas de produtos e intercâmbios culturais ligavam as terras baixas amazônicas a outras sociedades do noroeste da América do Sul, América Central e Caribe.


O Começo do Fim Durante sua trajetória, as sociedades Marajoara passaram por fases de crescimento e expansão e, por volta de 1100 depois de Cristo, já dominavam toda a área dos campos da Ilha, com aldeias também ao longo dos rios na floresta próxima. Depois deste período, no entanto, começa o declínio, por motivos ainda não totalmente conhecidos. É possível que o aumento populacional tenha levado à exaustão de recursos, quando as áreas mais produtivas já estavam ocupadas, gerando então conflitos mais frequentes. Alguns tesos são abandonados nesta época, talvez por causa de guerras. Mas foi o período em torno de 1300 depois de Cristo que parece ter marcado o começo do fim para os cacicados. Há indicações de que mudanças climáticas importantes tenham acontecido neste momento, o que pode ter afetado a produtividade dos viveiros de peixes e outros recursos usados, tais como açaí, amido de palmeira, mandioca e frutos silvestres. Como muito do poder dos líderes estava relacionado à sua habilidade de controlar recursos naturais por causa de seu contato com os deuses e antepassados, uma crise de abastecimento pode ter levado à perda da confiança das populações nos seus pajés e chefes. Além disso, falta de recursos causa fome, doenças e obriga as pessoas a migrarem. Uma outra hipótese é a de que índios Aruak que chegam à costa Norte de Marajó por volta de 1300 depois de Cristo, vindos do Amapá, tenham entrado em guerra com os Marajoara.


Apesar de os cacicados terem perdido poder e controle, a cultura Marajoara não desapareceu totalmente. As populações que restaram dos cacicados Marajoara ainda viviam na Ilha quando os Portugueses aqui chegaram. Apesar das transformações ocorridas, que se refletem também em seus costumes, a cerâmica Marajoara ainda era produzida, mesmo em comunidades localizadas longe dos tesos, e vários dos rituais ainda eram realizados. Os enterramentos em grandes urnas parecem ter sido abandonados, assim como as grandes festas, mas a cultura permaneceu entre as populações sobreviventes. Durante os séculos XVII e XVIII, no entanto, as guerras com os portugueses, a missionização e a colonização levaram ao desaparecimento ou deslocamento das populações indígenas de Marajó.


As sociedades que tinham conseguido vencer as limitações do meio natural, encontrando maneiras originais de maximizar a exploração de recursos e promover o sustento das populações, não estavam preparadas, no entanto, para vencer o homem branco que, com suas armas, invade e toma posse dos territórios indígenas em todas as Américas. O conhecimento gerado pelas sociedades amazônicas não foi registrado em livros, e muita coisa foi então perdida para sempre. A cerâmica Marajoara, por isso, é um dos poucos registros de uma cultura vibrante e original, que em sua precocidade e complexidade caracterizou uma das mais importantes sociedades pré-colombianas das Américas.


arte, educação e cultura | 105


Inventário Nacional de Referências Culturais do Marajó – INRC-Marajó \\\ Por Vanda Pantoja. Imagens cedidas por IPHAN.


O Inventário Nacional de Referências Culturais do Marajó – INRC-Marajó, realizado pela Superintendência do Iphan no Pará, constitui uma das pesquisas mais completas em termos de levantamento cultural realizado nessa região da Amazônia Brasileira. A pesquisa abrangeu as três microrregiões que compõe a Mesorregião Marajó com seus 16 municípios. Cachoeira do Arari, Santa Cruz do Arari, Muaná, Ponta de Pedras, Chaves, Afuá, Anajás, Salvaterra, Soure, Breves, Curralinho, São Sebastião da Boa Vista, Portel, Bagre, Melgaço e Gurupá. A pesquisa envolve uma equipe de 10 pesquisadores das mais variadas áreas do conhecimento. A primeira fase realizada no período de 2004 a 2006 realizou o levantamento dos 12 municípios das microrregiões do Arari e do Furo de Breves. O resultado dessa fase do trabalho encontra-se condensado no Relatório Final de Atividades, no Caderno de Fichas volumes I e II, no CD-rom Marajó: Conhecer e preservar e no livro Marajó: cultura e paisagem, em fase de finalização. A segunda fase, realizada no ano de 2009, tratou da microrregião de Portel e seus quatros municípios: Portel, Bagre, Gurupá e Melgaço. Os resultados dessa pesquisa encontram-se em fase de finalização no Relatório Final de Atividades, Caderno de Fichas volumes I e II e numa publicação em formato de cartilha que está sendo feita com o objetivo de divulgar os resultados do Levantamento. Todo material produzido está sendo disponibilizado nas escolas e instituições públicas da mesorregião. O quadro geral nos dá cerca de 750 bens catalogados, 700 contatos além de um grande acervo fotográfico com belas imagens do cotidiano marajoara.


A pesquisa obedeceu a metodologia proposta pela

que constitui a primeira ação de um INRC, tem

política do Inventário Nacional de Referencia

importante contribuição no conhecimento e

Cultura – INRC, que prevê a classificação das

reconhecimento de formas de manifestações

manifestações culturais em cinco categorias:

culturais pouco conhecidas ou pouco valorizadas

Celebrações, Formas de Expressão, Ofícios e

pelas pessoas de fora do lugar em questão, mas,

Modos de Fazer, Edificações e Lugares, não me

sobretudo, como forma de potencializar a auto-

estendo aqui acerca dessas classificações pois

estima de artistas locais que, quase sempre

a mesma encontra-se descrita no Manual de

preteridos em relação à cultura estrangeira, se

Aplicação de INRC disponível nas bibliotecas das

sentem desvalorizados no seu saber fazer de

Superintendências Regionais

forma geral.

A técnica de pesquisa utilizada na coleta de dados

O Levantamento Preliminar na Mesorregião

privilegiou o contato direto com os moradores

Marajó constitui um diagnóstico que possibilita

locais através de idas a campo por duas vezes

um conhecimento mais pormenorizado das

em cada um dos 16 municípios; através da

formas de produção cultural dos municípios dessa

História Oral, com ênfase na história de vida,

região, o que poderia auxiliar instituições públicas

foi possível traçar um quadro não apenas de

e civis na feitura de políticas públicas voltadas

quais manifestações culturais acontecem na

para a área da cultura, o principal respaldo dessa

mesorregião, mas também informações sobre sua

pesquisa é que ela levanta dados de primeira mão,

importância para a comunidade, suas formas de

isto é, ouviu relatos, sugestões e reclamações

transmissão para as novas gerações, problemas

das pessoas diretamente envolvidas no processo

em seu processo de (re)produção, assim como

de produção cultural. De fato, os marajoaras

as transformações pelas quais os mesmos vem

têm muito a dizer sobre seus problemas e sabem

passando ao longo do tempo.

apontar soluções quando indagados.

Com o objetivo de reconhecer os bens culturais

Dentre várias questões importantes verificadas

importantes para um determinado grupo social

pelo

a partir da fala daqueles que produzem essas

Mesorregião Marajó, destaco alguns pontos que

manifestações,

considero de grande relevância:

o

Levantamento

Preliminar,

Levantamento

Preliminar

do

INRC-


1 – O não desatrelamento entre Cultura (ou sociedade ) e Natureza. Seja na arte, isto é, música, literatura, dança, poesia, seja na confecção de apetrechos de pesca, caça ou coleta, ou mesmo na confecção de barcos e residências a natureza aparece como matéria prima tanto para objetos naturais (madeira, fibras, sementes entre outros) quanto para a elaboração de um conjunto de significados que cada grupo atribui e essa natureza; sendo esta mesma natureza fonte de inspiração para (re) composição de lendas, causos e muitas outras construções míticas que fazem parte do repertório dessas populações. No entanto, essas construções, míticas ou materiais, não se realizam decoladas de um fundo social que é produzido a partir de uma realidade econômica, política e religiosa, que é ao mesmo tempo condição e produto do continuum cultura–natureza. Isso nos autoriza dizer que não se pode pretender uma cultura eficiente e emancipadora sem condições materiais também eficientes e emancipadoras. O vice-versa também procede.


2- O Levantamento também amplia a possibilidade de se pensar o Marajó como Marajós. Bem à maneira como Fares (2003) havia pensado quando propõe que pensemos o Marajó como um conjunto de diversidades que se sobrepõe e, diria eu, se recompõe infinitamente entre campos, rios e florestas. Essa diversidade de domínio ecológico termina por possibilitar uma diversidade de existências material e simbólica que corresponde à diversidade dessa natureza. Formas de trabalhos, meios de transporte, arquitetura, economia e repertório de crenças e mitos, além de possuírem uma relação direta com o ambiente natural adquirem significados singulares nos variados lugares em que ocorrem. Temos por um lado o Marajó dos Campos com sua economia voltada para a pecuária, com praias de rio e de mar, presença de fazendas, búfalos e vaqueiros, com imagem que chegam a nós pelos meios de comunicações mais variados e nos confundem geograficamente, pois que estamos educados a relacionar imagens de chão rachado e gado morto pela seca com a região Nordeste do Brasil; onde montaria significa cavalo selado para montar e viajar pelos campos e fazendas. Essa é a realidade de alguns municípios da microrregião do Arari, ou dos Campos como é mais conhecida. Já nos Marajós dos Furos e de Portel nos perdemos num labirinto de rios e floresta densa, onde montaria (casco ou canoa como é localmente conhecido) é o meio de transporte fluvial mais comum, onde apesar da existência de grandes fazendas de gado, não se cultiva uma cultura de vaqueiros, e onde o rio e a floresta são a base da economia. Seringueiros, extrativistas, pescadores... Enfim, homens e mulheres do rio e da floresta.


Mas não só de diferenças se tece os Marajós, em ambos

sociabilidade, servem para (re)visitar aquele parente ou

os domínios ecológicos o marajoara se coloca, para além

amigo do município próximo, ou mesmo para aqueles moram

das diferenças, como uma personagem, alegre, criativa,

nos distritos e localidades se deslocarem até a sede para fazer

batalhadora e acima de tudo confiante no futuro.

compras, batizar os filhos, ir ao médico...enfim, acessar

Há poetas, escritores, cantores, compositores, pintores e

serviços somente existentes nas sedes municipais.

escultores em toda mesorregião. Pajés, curadores, puxadores,

Quando se trata de acessos a serviços, sobretudo aqueles

parteiras, artesãos, cozinheiras, bordadeiras, fazedores

ligados à saúde, mas não apenas, pode-se dizer que o Marajó

de barcos e de casas - uma das artes mais belas da região

constitui de fato uma ilha com todo significado que a palavra

– pescadores, vaqueiros e rezadores de ladainhas estão

comporta: algo isolado, cercado de água, sem comunicação

espalhados entre rios, campos e florestas tecendo com seu

com seu exterior, exatamente como aprendemos nas séries

dia-a-dia os Marajós que conhecemos e desconhecemos.

inicias na aula de geografia. Os marajoaras encontram-se

Se digo que desconhecemos é porque nossa visão acerca dos Marajós peca pelo desvio da homogeneidade. Costumamos pensar o Marajó literalmente como uma ilha, com todas as implicações que a palavra suscita: algo isolado e homogêneo. Mas não se trata disso, o marajó é diverso, é uma ilha apenas em sua acepção geográfica; e os marajoaras não estão

em situação bastante delicada, com quase inexistência de serviços não apenas especializado, mas básicos de saúde. Infelizmente esta não é uma constatação apressada verificada por pesquisadores que não passavam mais que uma semana em cada município, tem sido rotineira a veiculação dessas denúncias por variados meios de comunicação.

isolados. Entre os municípios mais próximos geograficamente

Para não encerrar este ensaio com uma noticia não muito

há uma rede de comunicação possibilitada por um intenso

agradável o que poderia causar no leitor a sensação de que

vai-e-vem de pessoas e de informação entre os municípios,

os Marajós são lugares quase inóspitos, habitados por povos

um dos motivos desse intenso transito entre as pessoas são

sem um mínimo de cidadania finalizo dizendo que, como uma

as variadas formas de celebrações que acontecem na Ilha,

marajoara que cedo migrou para a capital, o INRC-Marajó

sobretudo, as festa de santos e santas do Catolicismo Popular,

me permitiu redescobrir os marajós como lugares habitados

em especial os padroeiros das sedes municipais. Os momentos

por pessoas anônimas, mas de uma importância que não se

de festa religiosa são também momentos privilegiados de

mede, corajosas, gentis, solidárias e capazes de ensinar e aprender muitas coisas.


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