Page 1

Dênis Cavalcante DENIS CAVALCANTE

ENTREVISTAS & PERFIS

1


Dênis Cavalcante

ENTREVISTAS & PERFIS

Editora Resistência 2018


Agradecimentos AntĂ´nio Francisco de AraĂşjo Carlos Xavier


Copyright © 2006 by Dênis Cavalcante Todos os direitos reservados Título original Entrevistas e Perfis de Dênis Cavalcante Capa Flávia Castanheira Preparação Carlos Pará Revisão Carmen S. da Costa Ana Maria Barbosa [2011] Todos os direitos desta edição reservados à editora Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) (Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil) As entrevistas da Título original : Entrevistas e Perfis de Dênis Cavalcante isbn 978-85-359-1814-4 1. Escritores - Entrevista 11-00248 cdd-808.88 Índices para catálogo sistemático: 1. Entrevistas : Escritores : Literatura 808.88


SumĂĄrio

Luis Fernando VerĂ­ssimo. Ziraldo Ruy Castro Benedicto Mello Carlos Heitor Cony


ENTREVISTAS E PERFIS DENIS CAVALCANTE

O LIBERAL – CARTAZ

José Veríssimo Tímido, bom de boca e bom de bola. É Veríssimo.

CHIMARRÃO AO TUCUPI - Pai do "Analista de Bagé" e "Ed Mort" fala de comédias e dramas de sua vida privada

E

ntrevistar Luís Fernando Veríssimo foi um raro prazer. Elegantemente vestido, blaser entreaberto, esparramado no sofá, fala mansa, quase sussurrante, o escritor gaúcho é dono de uma simpatia contagiante. Na sala vip da VI Feira Pan-amazônica do Livro, em Belém, Veríssimo falou de tudo um pouco: do início de sua carreira em 1966, no jorna! "Zero Hora", da timidez que lhe persegue desde a infância, a influência paterna no começo da carreira, da paixão pelo jazz, pelo futebol (é torcedor fanático do Internacional), o lado glutão gourmet, que chega ao ponto de ter amigos exclusivamente em função desse prazer. Falou também acerca de sua admiração

pela nossa Belém, suas diferenças com a modernidade do computador, a admiração pelo inesquecível cronista, jornalista e compositor (dentre outras coisas) Antônio Maria; a "fissura" particular pelos livros confessa que é um comprador compulsivo. Dono de vasta obra, falou também sobre seus livros relançados pela Editora Objetiva, como "O Analista de Bagé" (recorde de vendas) e "Clube dos Anjos", seu mais recente best-seller. Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

8


DENIS CAVALCANTE

# É a primeira vez que você vem a Belém participar da Feira Pan-Amazônica. Qual foi sua primeira impressão? - Me impressionou um evento desse porte em Belém. Os promotores estão de parabéns! Estimular a cultura não é um favor, é uma obrigação! Estou adorando o verde, a cidade...Cheguei ontem (quartafeira) e não vi praticamente nada. Gostei muito da Estação das Docas. Um local no mínimo aprazível.

# Faz parte de seus hábitos visitar bastante livrarias? - Vou muito a livrarias. Toda semana compro livros. Sou um compulsivo, um viciado em livraria.

# Você é um dos autores mais lidos do País. Como consegue conviver com a fama e a "aura" de grande intelectual e humorista? # Muito pelo contrário, não tenho carisma nenhum! Sou um tímido! Dou a entender # Você traz alguma novidade literária com as coisas que escrevo que sou aquilo direto do forno? que não sou. - Na verdade, (livro) novo mesmo, nenhum. Mas a Objetiva está relançando # Com seus textos em periódico ou na toda minha obra. Com destaque para "O linha editorial você já conseguiu formar Analista de Bagé" e "O Clube dos Anjos". um tipo específico de leitor-padrão? # Há de tudo um pouco. Tenho leitores em - Você consegue numa boa ficar sentado todas as faixas etárias. Mas atualmente, horas a fio dando autógrafos? Seria um para minha alegria, os jovens descobriram mal necessário? definitivamente meus livros. Estou - Não, não... Mas é o mínimo que nós, achando ótimo! escritores, podemos fazer para promover o livro - criar o hábito da leitura. Mas que é um sacrifício, ah, isso é.

9


ENTREVISTAS E PERFIS # Como você encontra assunto para a crónica diária? - Não é fácil. Você como cronista deve saber muito bem. Ter que arrumar assunto todo santo dia é dose pra leão! Mas até hoje vou administrando bem. Tem dia que eu escrevo uma, duas, três crônicas, tem dia que não escrevo nenhuma. Tem dado certo até hoje.

França, Inglaterra, Estados Unidos, Grécia, Sérvia por incrível que pareça, agora vai sair na Rússia.

♦ Que opinião você tem sobre o livro eletrônico? Chega a ameaçar o reinado do bom e velho livro convencional? ♦ O veículo não é o mais importante, o importante é o conteúdo. Sempre haverá o texto, o autor. Seja lá onde ele for # Como é sua relação com o computador? divulgado. É claro que nós, que fomos Escreve direto nele? Tem total criados, cercados de livros, custamos um familiaridade? pouco a aceitar essa modernidade. ♦ Eu escrevo em computador há muito tempo, mas continua sendo uma relação ♦ Você é um caso raro de um filho de um meio difícil. Vale ressaltar que eu uso grande escritor que seguiu os passos do computador como uma máquina de pai As cobranças, no seu caso, foram escrever, pouco me aventuro pela internet, muito grandes? essas coisas... me converti ao computador ♦ Teve o lado positivo; criou uma certa mas não tenho intimidade com ele. Por curiosidade nas pessoas a respeito dos via das dúvidas, mantenho uma certa meus escritos, abriu algumas portas. Não distância. tenho a menor ilusão, a menor sombra de dúvida, que o nome do meu pai me ♦ Até que ponto a televisão pode ajudou sobremaneira no começo da minha influenciar para o bem ou para o mal na carreira. formação dos jovens? ♦ Eu acho que o grande mal da TV é que ♦ Passa pela sua cabeça a Academia? ela rouba muito tempo do jovem. Em vez - Não, definitivamente, não! Não é algo dele ler um bom livro, fica pregado na que eu ache importante para mim. TV Em contrapartida, a TV também tem programas de excelente qualidade. E uma ♦ Sabe-se que você tem um lado questão de equilíbrio. hedonista, como o gourmet. É muito forte? ♦ Pergunta imprescindível: que autores o -Eu tenho uma turma de amigos só em influenciaram no começo de carreira? função da comida e da bebida. Não sei nem ♦ Rubem Braga, o grande Antônio Maria ferver água Nos reunimos assiduamente, e teve uma influência marcante, Paulo sai de baixo! Mendes Campos... ♦ Em quantos países você é lido atualmente? ♦ Tem um livro meu que tá correndo o mundo: o "Clube dos Anjos", um romance que já foi traduzido na Alemanha, Espanha,

10


DENIS CAVALCANTE

PINGUE PONGUE ♦ Uma mulher? ♦ {Risos} A minha. ♦ Um ícone? ♦ Não tenho, ou melhor, já tive alguns no passado.

♦ Um gênero musical. ♦ Jazz. ♦ Um "escrete", como diria Nelson Rodrigues. ♦ O de 70 no México.

♦ Pele ou Garrincha? ♦ Pelé.

♦ Uma frase. ♦ Toda vez que me pedem uma frase me vem um branco... Acho que a frase é essa: "Quando pedem uma frase vem a burrice.

♦ Uma comida. ♦ Lagosta.

♦ Uma saudade. ♦ Meu pai.

♦ Um time. ♦ Internacional de Porto Alegre.

♦ Um arrependimento. ♦ Um arrependimento. Tanta coisa que não fiz e que deveria ter feito... e agora já não dá mais. Gostaria de ser mais comunicativo. Quero deixar de lado minha timidez.

♦ O candidato. ♦ Lula. ♦ Cinema, radio ou televisão? ♦ Cinema.

11


ENTREVISTAS E PERFIS

Ziraldo CARTUNISTA PERDIDO ENTRE COMUNISTAS EM BELÉM ENTREVISTA – Ziraldo lança seu novo trabalho na Bienal e lembra de antiga viagem a cidade das mangueiras

N

ão foi das mais fáceis a tarefa de entrevistar o cartunista e escritor Ziraldo. Muito pelo contrário. Avesso a entrevistas, o tempo contado no relógio, cansado após exaustivas entrevistas para rádios e TVs, tive que fazer um verdadeiro périplo, das tripas coração, além de contar como uma grande dose de sorte. Depois de dias de tocaia, já tendo falado com seu editor, seu assessor de imprensa, consegui, finalmente, durante a encenação de uma peça (Bonequinha de Pano) baseada em um dos seus mais de cem livros infantis já publicados, "roubar", na marra, a tão esperada entrevista. Vestido com seu inefável e inseparável colete de retalhos, um dos preferidos, dentre os mais de 150 de sua coleção, Ziraldo abriu o verbo. Falou de tudo um pouco: sobre os tempos da ditadura, a luta diária para escapar da censura e obviamente, sobre o Pasquim. Sua relação com a vida e a morte. A perda recente da

companheira Vilma, de quase cinquenta anos. O lançamento de Menina Nina, um livro emocionante e encantador, em homenagem à neta e à mulher. Os planos para o futuro; o encontro inesquecível com o "último comunista", o velho Jinkings, em Belém. O sucessor retumbante do Menino Maluquinho, a continuação em A Professora Maluquinha, inspirada na primeira professora, Catarina, ainda em Caratinga, o ressurgimento das cinzas do Pasquim 21, os remanescentes companheiros que acompanham nessa empreitada, alguns daquela época: Fausto Woolf, Miguel Paiva, Nani... Iconoclasta como ele só, ainda gozou o neófito "repórter", quando este, desavisado, lhe perguntou se havia ficado surpreso com a fila quilométrica e interminável de horas e centenas de autógrafos dados para seu fidelíssimo público mirim. Foi um prazer conversar com o cartunista Ziraldo. Abaixo, na íntegra, a entrevista.

12


DENIS CAVALCANTE

♦ Que lembrança você guarda de Belém? ♦ Muitas, já fazem muitos anos... um dia eu estava jantando em Belém e chegou o Jinkings, dono de uma livraria e ferrenho comunista: - Ziraldo o pessoal está te esperando. E eu: - Opa! Que pessoal? Achei que era para ir para uma boate, dançar, tomar umas, essas coisas: Que nada! Era para ir para um jantar, não me lembro mais do local, onde só tinha comunista. maravilhosa; mas todo mundo pensava que eu era comunista. Aí um deles se levantou solene e disse: - Companheiro... E eu: Peraí gente! Vocês estão

me confundindo... Sou só massa de manobra (risos). Adoro Belém. ♦ Como estão suas obras no exterior; em quantos países você já foi editado? ♦ Vão muito bem, obrigado. Tenho livros traduzidos para o espanhol em toda a América do Sul. Tenho livros editados também na França Itália, Inglaterra, Espanha. Ao todo 23 países, sete idiomas. Para um cartunista que se tornou escritor infantil praticamente por acaso, tá bom demais. Se melhorar, piora. ♦ Como surgiu a ideia do menino maluquinho? ♦ Foi numa palestra que eu estava fazendo para pais e

13

mestres, numa faculdade do Rio de Janeiro. Eu falava sobre criação de filhos. Essa história de deixar os filhos crescerem sem nós, pais, ficarmos enchendo o saco, sem muita repressão, patrulhando em criada sem grilos na cuca, livre, vai se tornar no futuro, na grande maioria das vezes, um adolescente sem traumas, feliz. ♦ Passa pela tua cabeça a Academia Brasileira de Letras? ♦ Não, em hipótese alguma, não. Pelo menos por enquanto.


ENTREVISTAS E PERFIS ♦ Você procura responder na medida do possível os milhares de e-maús dos seus fãs? ♦ Não, na maioria das vezes não dá.... São centenas de e-mails, cartas, fax.. Quando eu posso até que eu tento, fica por conta da assessoria de imprensa, mas na maioria das vezes é impossível. ♦ Você esperava aquela enxurrada de crianças na fila esperando ansiosa pelo seu autógrafo (quase um milhar) aqui na feira? ♦ Tô vendo que você não está acostumado a vir à Bienal aqui em São Paulo, né? Todo o ano a fila cresce. Aqui já é a famosa feira do Ziraldo, não tem pra ninguém. ♦ Você comunga da mesma filosofia de vida em relação a morte que me alegra. Se eu achasse que a vida continuasse eu me alegraria mais ainda, a Vilma tá me esperando, quando eu morrer vou me encontrar com ela. A segunda hipótese é bem melhor, mas eu não creio. Como falei no início: morreu, acabou. Como está sendo para você a primeira Bienal sem a Vilma, companheira

inseparável por quase 50 anos? E, rapaz, (pensativo) sabe que eu ainda não tinha parado para pensar nisso... é penoso para mim, ela me seguiu por todos esses anos. Ela estava sempre ao meu lado sentadinha, me fazendo companhia, 50 anos são 50 anos. Fala sobre um dos teus livros lançados na Bienal, "Menina Nina". E um livro sem segundas intenções, quando eu tenho uma ideia que eu acho que vale à pena, eu faço um livro. Aí está coisa da morte que você me perguntou antes, essa coisa ficou me atordoando muito, com a ausência da Vilma. A Vilma tinha virado uma avó maravilhosa, ela se foi... visceralmente com a avó, era a paixão da Vilma. Eu fiquei casado quase 50 anos com ela, você não deixa a pessoa ir embora assim, sem mais nem menos. Eu te dou um exemplo contando uma história: um malabarista de Nossa Senhora, que era um frade saltimbanco, quando chegou o dia da Ladroeira, cada um foi fazer sua homenagem; uns fizeram poemas para ela; mas o que ele sabia fazer era malabarismo e foi o que ele fez, em frente da imagem da Virgem. Eu sei fazer livro

14

para criança, foi o jeito que eu encontrei de perpetuar a memória da Vilma. Por isso fiz esse livro pensando na minha neta Nina. Ele fala sobre as razões que uma criança tem para não chorar, quando perde um ente querido. ♦ Como surgiu a Tuca, a professora maluquinha dos seus livros? ♦ Fui num colégio em Tatuapé, ela era a bibliotecária do colégio, me lembrava muito a minha antiga professora, nos tempos de menino ainda em Caratinga, eu sugeri a minha editora que a contratasse para ♦ Como você se sentiu sendo homenageado na Feira Internacional do Livro em Bolonha? ♦ Foi uma honra, depois de você fica velho se acostuma. ♦ E o Pasquim 21? ♦ Ah, isso é importante! Foi a pergunta mais importante que você fez até agora, muita gente acreditou que não ia dar certo. Mas eu acho que hoje, você tem todo um público segmentado. Antigamente você tinha 50 títulos nas bancas, no tempo do Pasquim antigo; hoje você tem 1000 títulos.


DENIS CAVALCANTE

Tem revista para quem skate, para quem anda de patins, para quem compra chapéu, revista para grunge, para clubber... E para quem não quer nada disso que tá por aí? Para quem pensar e refletir, tem revista. Não tem. Não é uma revista alternativa. É uma revista que vai ocupar um segmento. Naquela época, no tempo da ditadura, da censura, a imprensa era toda dominada pelos militares e você procurava sem capital, sem recursos, um jornal para dizer a verdade. Você não vai comprar revista para clubber, de sexo explícito, sacanagem, você vai comprar Pasquim 21, você vai ficar sabendo

das coisas. Se não, você vai comprar o quê? A "Trip", uma revista americana produzida no Brasil. Pasquim 21 é mais um nicho de mercado, que falta a sociedade descobrir Por exemplo: Pasquim 21 é uma revista semanal, que o Congresso todo lê, senadores, deputados, se vacilar até o presidente da República, para saber o quê o Brasil está pensando. ♦ Faça uma comparação do Pasquim de hoje para o de amanhã? ♦ O Pasquim de hoje e o de antes só têm em comum o humor. Pasquim 21 voltou a dar ênfase, realce ao humor. Os cartunistas brasileiros são os melhores

15

do mundo hoje. Não tinham onde publicar, hoje já têm no Pasquim. O Pasquim de antigamente não tinha chip, Internet, impressão em cores, a laser, distribuição regular.. Edições inteiras foram censuradas, tiradas literalmente de circulação, já nas bancas o que é pior. O ser humano continua o mesmo, mas o mundo em volta mudou muito. ♦ Daquela turma do Pasquim antigo, quem sobrou? OBSERVAÇÃO: FALTOU A PARTE DEBAIXO DA ENTREVISTA. NÃO VEIO. FICOU TRUNCADA A MATÉRIA.


ENTREVISTAS E PERFIS

Ruy Castro SIRVAM A CASTRO

MANIÇOBA

-

RUY

ENTREVISTA – O jornalista que se consagrou com as biografias de Nelson Rodrigues e Garrincha diz que vem a Belém se lhe prepararem a maniva

O

escritor, jornalista e biógrafo Ruy Castro não pára. Após concluir a trabalhosa e gratificante biografia "Carmen" baseada na vida de Carmen Miranda, que consumiu dois longos anos de sua vida, teve fôlego para lançar mais um livro, ainda neste semestre. É uma coletânea de artigos sobre cinema que saíram em diversos periódicos ao longo dos últimos 20 anos, organizada pela mulher, a também escritora Heloísa Seixas. Ruy fez essas e outras revelações, em meio à correria, no último dia da Bienal do Livro de São Paulo, onde, juntamente com o escritor Fernando Morais, participou de concorrido debate. O tema do encontro ele domina como poucos: biografias. Objetivo e conciso, Ruy deu conselhos para aqueles que se aventuram pelo universo mágico da leitura Falou dos próximos projetos literários; de sua paixão pelos livros antigos; da ojeriza, quase náusea pelo quadro político atual. E, por fim, ao ser indagado sobre quando voltaria a Belém, declarou, peremptório; "Se me convidarem e me prometerem

uma maniçoba no capricho, irei com muito prazer" Abaixo, os melhores momentos de Ruy Castro. ■ Qual é sua expectativa, o que esperar de mais uma Bienal? □ Rever os amigos, conhecer pessoas e divulgar o produto do meu, do nosso trabalho, que é o livro. ■ Você faz parte de uma seleta confraria: a dos apaixonados por sebos, por livros. Livros que já passaram por muitas mãos. Que mistérios, que encantos secretos se escondem por trás das estantes bolorentas? □ Livros que já pertenceram a alguém e que são dignos de continuar circulando que ainda não cumpriram todo o seu ciclo. ■ Você vem se especializando - pode-se dizer - em escrever biografias: Garrincha, Chega de Saudade, Carmen Miranda... E por aí vai. Por quê? □ Porque tenho curiosidade para saber como foi a vida de muitas pessoas que admiro.

16


DENIS CAVALCANTE

■ Que conselhos você daria para aqueles que se aventuram pelo mundo mágico da leitura? □ Ler tudo que lhes cair às mãos - da Enciclopédia Britânica às bulas de remédio. ■ Qual são seus próximos projetos literários? □ No meio do ano teremos um livro com os meus artigos sobre cinema, publicados em jornais nos últimos 20 anos, organizados pela Heloísa Seixas. Vai sair pela Companhia das Letras e se chamará "Um filme é para sempre" ■ Você é um jornalista de mão cheia. Por que parou de escrever em revistas e jornais? □ Por falta de tempo e de

excesso de amor à Carmen. ia enfrentar o outro paulista No tempo em que trabalhei arrogante. O que eu e o no livro sobre ela, não tinha Brasil temos com isso? paciência para mais nada. ■ Você veio à nossa cidade ■ Dentre os seus inúmeras vezes. Quando biografados, qual deu pretende retornar? Que mais trabalho, a pesquisa tal lançar "Carmen", em Belém, numa concorrida mais difícil? □ Carmen, sem dúvida. e inesquecível tarde-noite Foi muito difícil localizar de autógrafos ? pessoas que a conheceram □ Se me convidarem e na juventude e ainda em me prometerem uma condições de falar -pessoas maniçoba no capricho, hoje entre 85 e 95 anos. Por irei com muito prazer. Se depender de mim, Belém, sorte, achei dezenas. o Brasil inteiro voltará a ■ Você ousaria um palpite, conhecer e ouvir Carmen ou até mesmo uma Miranda. Ela é o máximo! opinião, sobre o quadro político vigente. Sobre as próximas eleições? □ Não tomo conhecimento, nem me diz respeito. Até outro dia, eram dois paulistas arrogantes disputando para ver quem

17


ENTREVISTAS E PERFIS O LIBERAL - BELÉM, DOMINGO, 5 DE OUTUBRO DE 2003 - VARIEDADES

Carlos Cony CARLOS CONY, UM ESCRITOR À PROCURA DA FELICIDADE ENTREVISTA – Durante sua passagem por Belém na ocasião da Feira Pan-Amazônica do Livro, Cony fez surpreendentes revelações

E

ntrevistar Carlos Heitor Cony, antes de tudo me deu um enorme prazer Elegantemente trajado com seu tradicional suspensório, paletó displicentemente jogado nos ombros o escritor me recebeu sorridente no lobby do hotel em que estava hospedado. Cony foi, como jornalista, testemunha de fatos marcantes no cenário político dos últimos 50 anos. Em Belém, onde participou da VII Feira Pan-Amazônica do Livro ele fez revelações surpreendentes. Seu último encontro com Mário Faustino, horas antes de sua morte. Sua admiração por Eneida e Delcídio Jurandir (segundo ele um grande injustiçado). Revelou também detalhes de seu último livro ainda no prelo - "O Beijo da Morte". Um livro investigativo que vai dar muito

o que falar. Falou dos bastidores da Academia Brasileira de Letras e de como Juscelino perdeu uma eleição por um voto. Declarou seu amor por Belém e se disse admirado com nossos casarões, igrejas e monumentos magnificamente restaurados. ♦ Você esteve há dois anos em Belém, qual a sua impressão sobre a cidade? ♦Da última vez que vim a Belém, passei antes por São Luís onde o senador José Sarney me deu tratamento VIP Mandou me buscar no aeroporto, me ciceroneou pela cidade... Mas que me perdoe o Sarney: Belém dá de dez, dá, de mil, em todas as capitais do Norte e Nordeste que conheço. Belém, panoramicamente, não é tão bonita, como São Luís por exemplo. Mas nos detalhes, na riqueza dos casarões antigos, no seu patrimônio histórico, em

18


DENIS CAVALCANTE

termos de estética, Belém é muito mais importante. Me encantou sobremaneira o Museu de Arte Sacra, a Igreja da Sé, o Theatro da Paz, a Estação das Docas, que por sinal, deixa pra trás inclusive Porto Maderas, em Buenos Aires. O Museu Goeldi com suas árvores frondosas e seculares, o peixe-boi, o pirarucu... Fiquei surpreendido, foi uma grata surpresa, esse reencontro com a cidade de Belém.

♦ Você passou mais de duas décadas sem escrever um romance; qual o motivo desse longo interregno? ♦ Primeiro eu escrevi um livro ("Pilatos") que me satisfez bastante. É o único livro que eu considero feito por mim. Os outros foram feitos por um rapaz que buscava algo na vida. Eu acredito que os meus livros anteriores eram livros que não representavam exatamente aquilo que eu queria dizer. Então, esta satisfação que eu tive ao escrever Pilatos, me tirou a vontade de escrever

19

outros livros. Além disso entrei num ritmo profissional frenético. Fiz inúmeras viagens para o exterior, muito jornalismo, reportagens de campo. O tempo foi passando e eu fui me desinteressando da Literatura. ♦ Ainda sobre o assunto. Após a publicação de "Quase Memória em 95", você voltou a escrever desesperadamente numa produção que surpreendeu a todos. Qual sua explicação para esse fato? ♦ Desesperadamente não!


ENTREVISTAS E PERFIS (risos) Impulsivamente. Eu sempre fui muito impulsivo. E é bom que se note que antes da minha primeira fase, entre 58 e 72, eu escrevi e publiquei nove romances, além de livros de contos, um ensaio sobre Chaplin e outro sobre Vargas... Eu tive uma produção considerável. Fora as adaptações de grandes clássicos que (quase 80). E aí apareceu o computador. O meu texto sempre foi muito sujo porque eu escrevo muito rápido. Então como advento do computador ficou muito mais fácil, agora posso cortar páginas, fazer cirurgias plásticas nos meus textos, aí facilitou a minha vida e comecei a escrever como eu disse antes, compulsivamente.

pessoa que visualizasse a imagem de seu pai sem ressentimentos, apenas usando o sentimento, poderia escrever um romance desse. Um pouco melhor ou um pouco pior... Agora, "Pilatos" não! "Pilatos" é um gênero diferente e modéstia à parte só eu ousei fazer isso até agora. Uma das coisas que mais me irritam até hoje é que tem pessoas que acham que o livro é erótico. Muito pelo contrário o livro é broxante! Quem lê "Pilatos" passa três, quatro meses sem nenhum desejo sexual (risos). É um livro pornográfico, no bom sentido. Talvez ele só tenha paralelos na literatura de Rabelais e Swuift. Sem contar que o livro foi escrito no tempo da ditadura e por isso tem também ♦ Para muitos seu melhor uma leitura metafórica do romance é "Pilatos", homem brasileiro naqueles alguns preferem "Antes o tempos difíceis. Verão", já outros, "Quase Memória". E para você? ♦ Quais as influências ♦ É o seguinte, vou ser até mais marcantes na sua um pouco cabotino. Todos formação literária? os meus livros a exceção ♦ Lima Barreto, Eça de de "Pilatos", podiam ser Queirós, Jean Paul Sartre e escritos por qualquer um. Machado de Assis. Qualquer pessoa que se debruçasse em si mesma, ♦ Quem são seus buscasse fatos relevantes interlocutores no meio bem no fundo de sua literário? memória poderia escrever ♦ No tempo do seminário, "Antes o Verão" ou "Quase o inesquecível Padre Memória", qualquer Tapajós, que foi o homem

20

que descobriu em mim uma leve tendência, uma propensão a carreira literária. Depois disso, um amigo do CPOR que nunca escreveu nada e uma das principais influências, se não a maior, já no jornal Correio da Manhã, Otto Maria Carpeaux, meu colega, meu amigo, um dos mais caros amigos que já tive. E hoje o Rui Castro. Mas o homem que abriu mesmo a minha cabeça, foi o Otto Maria Carpeaux. ♦ Como funciona a inspiração para Cony. Você tem hora, dia para escrever? ♦ Nunca tive hora para escrever. Se tiver hora para escrever eu não escrevo. É algo que flui naturalmente, ou melhor, é uma coisa fisiológica. Por exemplo, se você me pedir para falar sobre Guerras Púnicas, eu falo. Afinal, um jornalista como eu, com a minha idade, com a minha experiência tem condições de falar sobre qualquer assunto, com um porém: no máximo, em três minutos. Filosofia quântica, buraco negro... Depois de três minutos já se começa a dizer besteira. ♦ Você tem lido alguma coisa sobre a nova geração de escritores no Brasil?


DENIS CAVALCANTE ♦Desde que comecei a escrever, lá se vão quase 50 anos, surgiram muitos escritores, eu penso que nunca se escreveu tanto no Brasil, em todos os géneros, romances, crónicas, ensaios, biografias... Surgiram inúmeras editoras. Hoje talvez, tenham mais editoras do que livrarias, hoje é bem mais fácil um escritor lançar um livro. Com 10 mil reais você consegue editar um livro, o problema é a distribuição, a exposição, a divulgação... Mas por uma questão de cansaço, eu prefiro reler os clássicos, eu tenho pouco tempo, tenho no máximo 15 ou 20 anos de vida. Ou posso morrer daqui a pouco, por isso não tenho mais aquela curiosidade de ler novos valores, como estou me despedindo, prefiro reler os clássicos. Azar o meu, porque se agora aparecer no Brasil, um novo Shakespeare, um novo Rabelais, um novo Balzac, um novo Dante, eu não saberei. ♦ Qual a importância de um evento como VII Feira Pan-Amazônica do livro? ♦ No meu tempo não haviam eventos desse porte. As Bienais e feiras de livros atualmente rivalizam com as feiras de moda,

informática... Colocam o produto livro à disposição do leitor, isso só vem a beneficiar o produto final, o livro e o leitor. Além de abrir caminhos para a produção literária. Agora falando especificamente sobre a feira Pan-Amazônica, eu diria que ela é um divisor de águas, é como se o Brasil fosse um triângulo, com Belém na ponta, Porto Alegre na base, e no centro Rio e São Paulo. Curiosamente são nos dois extremos que estão sendo feitos os grandes trabalhos, em Porto Alegre, no Sul e em Belém, na região Norte. São nesses dois lugares, que eu sinto pujança, uma vida a vegetativa, uma vida orgânica. Os movimentos intelectuais Porto Alegre e Belém. ♦ Você é membro da Academia Brasileira de Letras. Na sua opinião qual o melhor critério de escolha de um imortal. O de amizade, o político, ou o valor da obra? ♦ O três juntos. É uma coisa muito variada, não há uma regra, apenas discordo de você, quando você fala sobre o político. Para mim o político é o social, expressão não no sentido sociológico da palavra, mas sim no sentido de expressão no mundo

21

social. Por exemplo, os políticos que entram na Academia, não entram por serem grandes políticos, entram por serem vedetes, por representarem uma parcela na sociedade, como Roberto Marinho, Sarney, Carlos Chagas, no passado Santos Dumont, Osvaldo Cruz, que entraram pelo prestígio e no caso de Santos Dumont por seu prestígio mundial. Nesse ponto a Academia Brasileira de Letras é apolítica, tanto ela é apolítica que cito o exemplo da eleição do presidente Juscelino, que perdeu por um voto para um desconhecido; uma figura sem nenhuma expressão literária, um escritor goiano chamado Guimarães, que foi eleito por um voto; e assim mesmo macetado. É bom que se explique, que na Academia haviam pessoas que nutriam um ódio visceral pelo Juscelino, porque na época de seu governo não foram nomeados embaixadores, ministros do Supremo... Teve até um diplomata que queria ir para Washington e acabou indo parar em Taipe, na China. Foi justamente esse voto que derrubou a candidatura do Juscelino. Acho que o mais importante para entrar para a Academia além da obra, são as


ENTREVISTAS E PERFIS amizades. Afinal de contas, a Academia é um lugar de convívio, fraternidade. Então como eleger alguém antipático, alguém que não gostamos? Veja o caso de Joel Silveira, meu amigo pessoal, candidatou-se á vaga de Jorge Amado, e tascou a falar mal de sua concorrente, a Zélia Gatai, dizendo que ela era uma escritora medíocre, que ele já estava eleito, essas coisas. Criou uma antipatia nos académicos e deu no que deu! ♦ Por falar em Joel Silveira, você tem alguma história curiosa dele? ♦ Várias. Fomos presos quatro vezes e ficamos juntos na mesma cela. O Joel é um sergipano que tem muito orgulho da cidade em que nasceu, Lagarto. Ele diz inclusive que Lampião não entrou na sua cidade natal por medo dos lagartenses. Mas na verdade Lampião não entrou na cidade porque lá não tinha nada que valesse a pena roubar! Tem também uma coisa que o Rubem Braga vivia dizendo para o Joel Silveira: "Quando eu morrer você pode mentir à vontade, pois eu sou a única testemunha viva, fora você, dos acontecimentos (os dois foram correspondentes de

guerra na Itália) e tinham muitas histórias para contar. ♦ Você está escrevendo um livro guardado a sete chaves sobre a possível conspiração e morte de três grandes políticos nacionais: João Goulart, Carlos Lacerda e Juscelino. Fale um pouco sobre esse livro. ♦ Eu jamais teria escrito esse livro se não fosse a Ana Lee, uma amiga e excelente jornalista, ela começou a fuçar em antigos exemplares da Revista Manchete, e me veio com a novidade: "Porque você não escreve um livro com essa temática?" Eu respondi-lhe que não tinha mais idade para escrever um livro desse fôlego. E ela retrucou: "E se eu fizesse o trabalho pesado?" Foi aí que apareceu a editora Objetiva, que financiou a pesquisa, as viagens para a Argentina, o Uruguai, o Chile... O livro deverá sair no final do ano, o título: "O Beijo da Morte". Esse livro fala sobre as mortes suspeitas em menos de nove meses, de três homens que em dado momento da vida política brasileira detinham 100% do eleitorado. Lacerda à direita, Juscelino no centro e Goulart à esquerda. No

22

caso de Juscelino, teve o inquérito já concluído; no caso de Goulart está em aberto; e no caso do Lacerda nem aberto foi ainda. Todas mortes muito suspeitas e interligadas entre si. Sem contar que na época, Salvador Allende, então presidente chileno, enviou uma carta para Goulart, dizendo que ele seria assassinado e o chileno acabou sendo assassinado também. ♦ Muitos leitores quando começam a ler "Quase Memória", entram num frenesi para saber o que existe dentro daquele pacote tão bem feito... Aquele episódio realmente aconteceu? ♦ Na verdade aquilo foi um sonho. Eu estava há 23 anos sem escrever um romance, e um belo dia acordei com a nítida impressão que meu pai tinha deixado aquele pacote na portaria do Hotel em que estava hospedado. O porteiro me disse: "Um homem esteve aqui e deixou este embrulho para o senhor. Eu o peguei, e identifiquei imediatamente a letra do meu pai. Aquilo me deu uma angústia muito grande. Aí corri para casa e fiquei olhando intrigado para o embrulho. Não me lembro sinceramente se no sonho eu abri o embrulho.


DENIS CAVALCANTE Eu fiquei tão chocado, tão impressionado ao saber que apesar de têlo enterrado há dez anos, ele de repente reaparece em minha vida. Fiquei pensando... Ele esteve aqui, porque que ele não subiu, não falou comigo? Aí eu resolvi escrever uma crónica. Você sabe tanto quanto eu, que nós temos um espaço determinado no jornal, a crónica acabou se estendendo e virando artigo, de artigo se transformou em romance: "Quase Memória". Nunca abri embrulho, muitos me cobram, achei melhor assim. ♦ E aqui no Pará quem são os intelectuais e escritores com os quais você conviveu, que você conhece? ♦ Fui amigo de Dalcidio Jurandir, um escritor fantástico que foi massacrado por ser comunista. Talvez se o Partidão não tivesse investido todas as suas fichas em Jorge Amado e Graciliano Ramos, se não o tivessem deixado abandonado a própria sorte, hoje, Dalcidio estivesse entre os quatro maiores romancistas regionalistas do Brasil. Conheci muito bem a Eneida de Morais. Dancei

muito com a Eneida, aliás ela sempre me tirara para dançar apesar da nossa diferença de idade. Não é uma mulher bonita, já a conheci matronada, mas ela era portadora de uma grande fúria vital, passional... Uma pessoa dulcíssima e dona de um par de estonteantes olhos verdes. Sem falar de Mário Faustino. Poucos sabem desse episódio. Mas na véspera e no dia de sua viagem nós conversamos. Nos estávamos trabalhando um projeto comum. Ele trabalhava no Jornal do Brasil e eu no Correio da Manhã. E uma vez na véspera de sua viagem, na casa de amigos, depois de tomar umas e outras, o Mário começou a recitar Fernando Pessoa. Tudo foi gravado num daqueles velhos gravadores de rolo. Nesse dia eu descobri a grandeza de Fernando Pessoa através dos versos de Mário Faustino e vice versa. Foi um dia inesquecível em minha vida. Ainda bem que eu tive oportunidade de dizer isso para ele em vida. No outro dia ele viajou, seu avião caiu... Conheci pessoalmente da última vez que estive em Belém, o Benedicto Monteiro, O Benedito Nunes, um homem reconhecido pela

23

sua obra no Brasil e no mundo. Reencontrei Alcyr Meira, João de Jesus Paes Loureiro... ♦ Você é jornalista, cronista, escritor reconhecido, imortal da Academia Brasileira de Letras, o que falta ao currículo de Carlos Heitor Cony? ♦Não tenho queixas da vida. Se colocar lado a lado, o dever e havei; eu tenho a impressão que não dou goleada, mas acho que tenho haver. Na verdade o que falta na minha biografia, é ser um homem feliz! Um homem feliz não escreve. Um homem feliz não pinta um afresco de cabeça para baixo na Capela Sistina, um homem feliz não compõe a nona sinfonia, um homem feliz não escreve. Enfim... Me falta ser feliz.


ENTREVISTAS E PERFIS

Benedicto Monteiro UM ESCRITOR COM SETE VIDAS E FÔLEGO DE GATO ENTREVISTA – Depois de 14 livros, Benedicto Monteiro manda para o prelo A Terceira Dimensão da Mulher que em breve chega às livrarias

O

escritor Benedicto Monteiro já escreveu 14 livros e parte agora para mais um - "A Terceira Dimensão da Mulher", a ser lançado brevemente pela editora Cabanagem. É uma continuação do romance - Maria de Todos os Rios. Nesta entrevista ele falou de tudo um pouco. Sobre as dificuldades que o escritor enfrenta no mercado editorial brasileiro, tendo que pagar do próprio bolso ou submetendo-se às leoninas e ferozes leis de mercado. Falou também sobre a "crendice" do interior que falava que a mulher grávida que comesse carne de macaco (sua mãe adorava a iguaria) seria inquebrável. A prova cabal disso é sua saúde invejável, mesmo beirando os oitenta anos; nove capotagens de carro e um sem número em voadeiras,

felizmente sem nenhum osso quebrado. Narra emocionado sua prisão, a tortura num cubículo de dois metros quadrados, onde passou semanas jogado "às baratas". E por mais incrível que pareça não guarda rancor de seus algozes. Revela também sua paixão por uma iguaria da mocidade tambaqui assado na brasa - e sua relação com Deus, ora racional ora emocional. ♦ Qual é seu próximo projeto de livro? ♦ Tenho muitos projetos em andamento. Na ficção tenho "O Diário de Eduardo Angelim", "Miguel dos Santos Prazeres em Belém", e devo fazer o lançamento de "A Terceira Dimensão da Mulher" ainda em novembro. Este romance é a continuação de "Maria de Todos os Rios". Além da ficção, estou trabalhando em ensaios sobre o pensar e a alfabetização ecológica,

24


DENIS CAVALCANTE

♦ Apesar de todos os meus livros já estarem ultrapassando a quarta edição e o "Carro dos Milagres" já estar na 11ª edição, acho que o mercado editorial no Brasil ainda precisa se adaptar aos tempos da globalização. O pobre do escritor ou é obrigado a pagar a edição do seu livro ou quando a editora tem interesse na publicação, é obrigado a assinar um contrato leonino. Nesse contrato, que é padrão em todas as editoras, o escritor deveria receber 10% sobre o preço da capa dos

livros vendidos. Mas essa venda é impossível de ser controlada. ♦ Você é membro da Academia Paraense de Letras. Qual a sua opinião sobre escritores renomados que se negam a fazer parte dela? ♦ Não conheço esses renomados escritores que tenham se negado a fazer parte da Academia Paraense de Letras. E não sei a que atribuir essa negativa. Pois, em todas as academias do mundo e até na nossa Academia Brasileira de Letras, existem escritores de

25

méritos discutíveis. Aliás, todas as organizações da sociedade civil devem ser representativas de seus membros. E podem ter a sua composição correspondendo aos méritos e deméritos dos cidadãos que a formam. Este fato se dá em todas as organizações representativas das classes sociais, das corporações e das profissões. ♦ Você foi preso, cassado e torturado durante a contra-revolução de 1964. Quase quarenta anos depois ainda guarda


ENTREVISTAS E PERFIS algum sentimento sobre teus algozes? ♦ Para falar a verdade, não sei nem o nome dos civis e militares que participaram das minhas prisões e das torturas das quais fui vítima. Quanto à cassação do meu mandato de deputado estadual, foi feita pelos meus próprios colegas da Assembleia Legislativa, inclusive dos meus liderados do PTB. Creio que foi uma atitude de covardia dos meus colegas deputados da época, pois me negaram o meu sagrado direito de defesa, naturalmente pressionados pelas forças militares que assumiram o poder no Brasil e no Pará. No Projeto de Resolução que aprovaram açodadamente, numa única sessão, não consta qualquer motivo que justificasse esse ato abusivo. Creio que é a essas pessoas a quem deve ser dirigido esta pergunta. Eles devem guardar, algum sentimento, depois que testemunharam a minha vida até hoje, tanto como escritor como homem público, exercendo atividade política. Acho que fui escolhido arbitrariamente para ser o mais cassado e caçado, o mais preso, o mais torturado, o mais marginalizado. Eu mesmo

reconheço que não tinha tanta importância política para merecer essa condição de "boi de piranha". ♦ O poeta Thiago de Melo conta que quando foi preso teve que inventar mil e uma maneiras para não enlouquecer: e você, o que fez? ♦ O poeta Thiago de Melo deve ter se valido da sua imensa poesia para poder inventar mil e uma maneiras para não enlouquecer. Naturalmente ele deve ter sido tratado como ser humano. Mas eu que fui encarcerado numa cela solitária de apenas dois metros quadrados, só de calção, dormindo no chão e absolutamente incomunicável, tive que me fortalecer por dentro. Não só para resistir ao vexame de fazer as minhas necessidades fisiológicas com a porta da privada aberta e uma metralhadora nas costas o no peito. É verdade, que mesmo nessas condições, recebi solidariedade dos meus colegas que estavam presos na cela coletiva ao lado. Aparecia de vez em quando, cocaína, maconha e cachaça, que me eram ofertados por baixo da porta de ferro maciça, que fechava a minha prisão. Aliás, quando meus

26

cunhados médicos Osvaldo Pereira e Salomão Athias, "conseguiram" ordem para me visitar, sua preocupação era com a minha saúde física e minha situação mental. Por isso me levaram tranquilizantes, que eu recusei, dizendo que tinha recusado as ofertas dos meus colegas presos, porque queria reagir com as minhas próprias forças a todas as privações. ♦ Você tem uma vastíssima obra, qual dos seus livros que mais gosta? ♦ Costumo dizer que os meus livros são como os meus filhos: gosto de todos igualmente. Porém, cada um tem o seu talento e a sua afinidade. Assim são os meus livros. O romance "A Terceira Margem", porque discute a linguagem acadêmica e a linguagem popular, já utilizando a ilusão da oralidade, é o meu preferido. ♦ Na sua opinião o que está faltando em Belém na área cultural? ♦ Em primeiro lugar, um entrosamento entre os governos federal, estadual e municipal, nessa área de cultura. Nós temos aqui várias organizações culturais, como o Museu Paraense Emílio Goeldi, o Instituto


DENIS CAVALCANTE Evandro Chagas, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, a Academia Paraense de Letras, e as Universidades, que não se relacionam culturalmente. Programam os seus eventos, sem atentar para as organizações similares. Os próprios Governos, não têm um plano cultural, embora do ponto de vista da restauração e do aproveitamento dos prédios e espaços históricos, o secretário de Cultura, Paulo Chaves, tenha feito um belo e excelente trabalho. ♦ Qual é o seu processo de criação? ♦ O meu processo de criação é o exercício da minha própria vida. Embora a maior parte da minha obra seja de ficção, eu escrevo, para praticar o meu mais íntimo exercício da liberdade. Antes eu escrevia como aprendi na escola, à mão. Mas depois que descobri o computador, só escrevo no computador, e, na minha rede, é claro Tenho a felicidade de escrever correntemente. Pelos meus originais manuscritos dos livros já publicados, você pode ver, que não há quase emendas ou correções. Perguntar a um escritor, como ele cria as suas obras é o mesmo

que perguntar a um jogador de futebol como ele faz os seus gols, ou a um artista plástico como ele concebe os seus quadros. ♦ Nessa altura do campeonato como está e qual é a sua relação com Deus? ♦ Quando penso racionalmente, minha relação com Deus é muito respeitosa, mas quando penso emocionalmente, sou crente e religioso. Aliás, quando me perguntam qual é a minha religião, eu costumo responder: cristão e franciscano. Cristo, pelas sua doutrina que não foi alcançada até hoje e São Francisco porque foi o precursor da ecologia, a única ciência que ensina a convivência com a natureza. Perante Deus, eu já tenho a minha mãe e o meu pai que, pelas suas generosidades, devem estar no céu. E ainda tenho uma irmã, a Irmã Maria Ignês, que abandonou a medicina pra ser freira enclausurada e descalça. Ela vive rezando por mim no Carmelo de Divinópolis em Minas Gerais. ♦ Fala pra gente como foi tua mocidade no interior? ♦ Minha mãe quando nasci disse aos quatro ventos que eu era "inquebrável" talvez por um blusão, uma

27

crendice da época que dizia que a mulher grávida que comesse carne de macaco (minha mãe adorava a iguaria) seu filho nasceria como o gato, com sete vidas. Acabei por acreditar nisso. A prova foram nove capotagens e um sem número de quedas de voadeira sem nenhum arranhão. ♦ A frase que você gostaria de ser lembrado. ♦ Se a frase for da minha obra, deixo ao critério do leitor escolher, entre as frases de Maria, do romance Maria de Todos os Rios ou de Miguel dos Santos Prazeres, o personagem-elo da Tetralogia Amazônica. Garanto que qualquer um desses meus personagens teve ideias, disse coisas e arrumou palavras que me representarão mesmo depois da minha morte. serão publicados. ♦ Você é um escritor experiente, qual é sua relação com o mercado editorial?


ENTREVISTAS E PERFIS

Thiago de Mello UM ESCRITOR QUE PREFERIU A UTOPIA ENTREVISTA – Só a cultura pode integrar a América Latina, acredita o bardo traduzido para 30 idiomas e que aposta na simplicidade

A

o contrário de outros poetas que procuram escrever para poucos, hermeticamente, os escritos de Thiago de Mello tornam-se poesia universal, acessível a todos. Para ele, a função do poeta é atingir o maior número de pessoas, e isso não é fácil. "Fácil é escrever difícil e rebuscado; difícil é você atingir a simplicidade", diz, definitivo. Dono de uma vastíssima obra, que faz questão de dizer que "tem o cheiro, o perfume de floresta, o cheiro de chuva" - cheiros que vêm inspirando sua obra num todo e por toda uma vida, esse bardo caboclo, que canta os valores mais importantes do homem, da humanidade, falou nesta entrevista, sem meias-palavras, o que pensa, o que sente, o que sonha. No encontro, estava impecavelmente vestido

de linho branco, e praticamente "poetou" em forma de colóquio: simples e fácil... Ficou conhecido o episódio segundo o qual recebeu uma crítica favorável do "New York Times" a respeito.de seu livro "Os Estatutos do Homem" (traduzido pelo próprio autor para o inglês). O articulista, apesar do elogio, pecou ao fazer uma ressalva: "O livro é muito bom, muito lírico, porém utópico". Insatisfeito com a equivocada interpretação do "gringo", Thiago de Mello escreveu uma carta do próprio punho para o jornal, ironizando a falta de sensibilidade poética do crítico: "Há tempos, tive que escolher entre a barbárie e a utopia", começou. "Escolhi a utopia. Ser chamado de utópico, longe de ser uma crítica, foi um dos maiores elogios que recebi em toda minha vida." "Thanks a lot", foi a primorosa resposta, dada pelo

28


DENIS CAVALCANTE

poeta. Traduzido em mais de 30 países, venerado por muitos autores famosos, amigo pessoal do poeta Pablo Neruda, Thiago de Mello foi durante o breve governo de Jânio Quadros e depois da renúncia, no de João Goulart, adido cultural do Brasil no Chile. Seu livro "Os Estatutos do Homem" foi traduzido uma semana depois de avidamente devorado pelo próprio Neruda, que se encantou com o poema. Tomou-se uma edição primorosa, bilíngue, em espanhol e português, editada recentemente pela Vergara & Riba. Esse poema teve um percurso mundial. Virou música, peça de teatro, balé... É um paralelo poético da Declaração dos Direitos Universais do Homem.

Neste bate-papo, o poeta fala nhecido talvez como o calculista predileto de Oscar Niemeyer. Thiago narra ainda, de forma pungente, a surpresa de encontrar nas paredes de uma fria cela que o acolheu, durante a ditadura, um poema seu, deixado escrito por outro preso. Defensor ferrenho da integração cultural latino-americana, há anos vem pregando a manutenção da Amazônia como um todo. Aqui fala um pouco de sua luta, por vezes inglória, em manter e resgatar a dignidade do Homem Considerado por alguns críticos insensíveis como um poeta ultrapassado, mesmo assim continuou fiel a seus princípios.

29


ENTREVISTAS E PERFIS

♦ Qual é a síntese de "Os Estatutos do Homem"? ♦ Ele foi escrito em 1964. Foi a resposta que dei como um poeta brasileiro ao primeiro ato institucional da ditadura. O ato constava de 14 artigos e eu respondi com 14 estrofes desse poema que não me pertence mais. Já foi traduzido para mais de 30 idiomas. Foi transformado em balé, teatro, e em três

tudo que a gente pensa hoje, nesse mundo feroz e globalizado em que vivemos, sobretudo tudo que a gente faz, consciente ou inconscientemente, estamos na verdade fazendo uma opção entre o apocalipse e a utopia. Não é o apocalipse do Evangelho; é esse planeta Terra, esse lugar tão lindo em que a gente vive, tão degradado pela insensatez... Onde existe um bilhão de seres Thiago de Mello: sem a huintegração cultural entre os países da América Latina, não haverá integração Ou você aceita isso ou se econômica rebela. E a única forma de rebelião para enfrentar o grande compositor Cláudio apocalipse é a utopia. Santoro, caboclo como ♦ Como o senhor se sente eu, que viveu durante sendo uma espécie de "o muitos anos na Europa e último dos moicanos" da transformou os estatutos poesia brasileira? em peça sinfônica para ♦ (Risos) Eu acho que eu orquestra e grande coral sou o primeiro. Na verdade, e que foi executada pela somos três "moicanos": primeira vez no Teatro Ferreira Gullar, Moacir Municipal do Rio de Janeiro. Teles e eu. Somos, na Logo em seguida foi a peça verdade, os primeiros a que abriu a solenidade levantar uma nova bandeira inaugural da Constituinte dentro da poesia brasileira. na praça dos Três Poderes ♦ Fiquei sabendo que em Brasília. E agora, na o senhor gosta muito Bienal, foi lançada uma da poesia do Joaquim edição argentina, da Cardoso. Fale um pouco tradução que Pablo Neruda dessa admiração, já que fez desse poema. tão poucos conhecem esse ♦ Por que o senhor classifica autor. sua poesia de utópica? ♦ Minha admiração vem ♦ Porque eu acho que de muito tempo. Antes

30

mesmo de publicar meu primeiro livro, tive a sorte de ser apresentado a ele por meio do Lúcio Costa. O Cardoso era o engenheiro calculista dos projetos dele (Lúcio Costa) e do Niemeyer. Verifiquei, após estreita convivência, que o Cardoso era um ser excepcional e um poeta de mão cheia, que minha predileção, muito embora desconhecido para a maioria das pessoas. ♦ E a relação de amizade com o poeta Pablo Neruda? ♦ Muitos pensam que conheci Neruda quando fui adido cultural no Chile. Mas, a bem da verdade, é bom que se diga que conheci Neruda em meados de 1960 na livraria São José, no Rio de Janeiro, no dia do lançamento do meu primeiro livro, "Vento Geral", editado pela José Olympio. Me lembro que ele chegou meio tímido com o Jorge Amado, depois saímos para jantar. Aí se iniciou uma amizade que continuou e se solidificou quando fui adido cultural no Chile. Tive a sorte e o raro prazer de morar durante cerca de cinco anos na casa de poeta e amigo Neruda, onde hoje funciona a sede da Fundação Pablo Neruda. Essa amizade perdurou até


DENIS CAVALCANTE

o dia em que ele nos deixou. ♦ Como o senhor acha que se deve fazer uma melhor integração quais eu consagro e devoto a minha vida, pela qual eu trabalho dia e noite com a minha palavra escrita, com a minha palavra falada. Falei sobre esse assunto num congresso realizado em novembro de 2000, e que reuniu cerca de 50 poetas latino-americanos. Eu apenas afirmo a você que só superando o desconhecimento que existe entre as culturas dos nossos países é que a gente pode, devagarinho, ir construindo o caminho para a integração económica. A base da integração económica na América Latina está na integração cultural. Eu sirvo a essa causa participando de congressos, simpósios, encontros... Faço com que os brasileiros sejam conhecidos por intermédio da literatura. Porque a alma de um povo é conhecida por sua arte popular, de seus artistas, de seus eruditos. Eu procuro trazer ao brasileiro o conhecimento da literatura hispanoamericana. Já traduzi 12 livros, dentre eles autores como Neruda, Benedetti e Cardenal. Ainda cometi

a suprema audácia de traduzir a obra completa do genial poeta peruano que é César Vallejo. ♦ Sua poesia é "aberta", compreensível. O senhor acharia, por assim dizer, mais difícil escrever fácil? ♦ Tenho dito, falado e escrito sobre isso durante toda minha vida. Escrever difícil é cada dia mais fácil. Porque o hermetismo esconde a incompetência para conquistar o que há de mais difícil na arte literária, que é a simplicidade, a clareza, a metáfora aberta, a metáfora que se entrega, que generosamente se abre. E sobretudo porque ela se faz acessível ao leitor comum. Eu não escrevo para iniciados, para universitários que fazem curso de Letras, in-telectualóides... Na verdade eu escrevo para o leitor comum, o servidor público, o funcionário, o comerciário, gente simples, gente do povo. Uma passagem curiosa ocorreu comigo quando estive preso numa cela durante a ditadura. (Emocionado) Quando cheguei lá havia dois versos meus escritos na parede, por outro preso que havia ocupado a mesma cela! Aquilo me deu forças, me deu ânimo para continuar

31

minha luta. Anos após, vim a saber que foi escrito por um humilde metalúrgico. Estava escrito. "Faz escuro, interpretação ao gringo, Thiago de Mello escreveu uma carta do próprio punho para o jornal, ironizando a falta de sensibilidade poética do crítico: "Há tempos, tive que escolher entre a barbárie e a utopia", começou. "Escolhi a utopia. Ser chamado de utópico, longe de ser uma crítica, foi um dos maiores elogios que recebi em toda minha vida." "Thanks a lot", foi a primorosa resposta, dada pelo poeta. Traduzido em mais de 30 países, venerado por muitos autores famosos, amigo pessoal do poeta Pablo Neruda, Thiago de Mello foi durante o breve governo de Jânio Quadros e depois da renúncia, no de João Goulart, adido cultural do Brasil no Chile. Seu livro "Os Estatutos do Homem" foi traduzido uma semana depois de avidamente devorado pelo próprio Neruda, que se encantou com o poema. Tornou-se uma edição primorosa, bilíngue, em espanhol e português, editada recentemente pela Vergara & Riba. Esse poema teve um percurso


ENTREVISTAS E PERFIS mundial. Virou música, peça de teatro, balé... É um paralelo poético da Declaração dos Direitos Universais do Homem. Neste bate-papo, o poeta fala com saudade e admiração do poeta Joaquim Cardoso, pouco conhecido do grande público, mais conhecido talvez como o calculista predileto de Oscar Niemeyer. Thiago narra ainda, de forma pungente, a surpresa de encontrar nas paredes de uma fria cela que o acolheu, durante a ditadura, um poema seu, deixado escrito por outro preso. Defensor ferrenho da integração cultural latinoamericana, há anos vem pregando a manutenção da Amazónia como um todo. Aqui fala um pouco de sua luta, por vezes inglória, em manter e resgatar a dignidade do Homem. Considerado por alguns críticos insensíveis como um poeta ultrapassado, mesmo assim continuou fiel a seus princípios. ♦ Qual é a síntese de "Os Estatutos do Homem"? ♦ Ele foi escrito em 1964. Foi a resposta que dei como um poeta brasileiro ao primeiro ato institucional da ditadura. O ato constava de 14 artigos e eu respondi com 14 estrofes

desse poema que não me pertence mais. Já foi traduzido para mais de 30 idiomas. Foi transformado em balé, teatro e em três obras sinfónicas. Uma delas, para mim a melhor, foi a do grande compositor Cláudio Santoro, caboclo como eu, que viveu durante muitos anos na Europa e transformou os estatutos em peça sinfónica para orquestra e grande coral e que foi executada pela primeira vez no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Logo em seguida foi a peça que abriu a solenidade inaugural da Constituinte na praça dos Três Poderes em Brasília. E agora, na Bienal, foi lançada uma edição argentina, da tradução que Pablo Neruda fez desse poema. ♦ Por que o senhor classifica sua poesia de utópica? ♦ Porque eu acho que tudo que a gente pensa hoje, nesse mundo feroz e globalizado em que vivemos, sobretudo tudo que a gente faz, consciente ou inconscientemente, estamos na verdade fazendo uma opção entre o apocalipse e a utopia. Não é o apocalipse do Evangelho; é esse planeta Terra, esse lugar tão lindo em que a gente vive, tão degradado pela insensatez... Onde existe um bilhão de seres

32

humanos famintos, onde a criminalidade aumenta a cada dia. Ou você aceita isso ou se rebela. E a única forma de rebelião para enfrentar o apocalipse é a utopia. ♦ Como o senhor se sente sendo uma espécie de "o último dos moicanos" da poesia brasileira? ♦ (Risos) Eu acho que eu sou o primeiro. Na verdade, somos três "moicanos": Ferreira Gullar, Moacir Teles e eu. Somos, na verdade, os primeiros a levantar uma nova bandeira dentro da poesia brasileira. ♦ Fiquei sabendo que o senhor gosta muito da poesia do Joaquim Cardoso. Fale um pouco dessa admiração, já que tão poucos conhecem esse autor. ♦ Minha admiração vem de muito tempo. Antes mesmo de publicar meu primeiro livro, tive a sorte de ser apresentado a ele por meio do Lúcio Costa. O Cardoso era o engenheiro calculista dos projetos dele (Lúcio Costa) e do Niemeyer. Verifiquei, após estreita convivência, que o Cardoso era um ser excepcional e um poeta de mão cheia, que ficou sendo desde aqueles tempos até hoje um do poetas da minha predileção, muito embora desconhecido para


DENIS CAVALCANTE

a maioria das pessoas. ♦ E a relação de amizade com o poeta Pablo Neruda? ♦ Muitos pensam que conheci Neruda quando fui adido cultural no Chile. Mas, a bem da verdade, é bom que se diga que conheci Neruda em meados de 1960 na livraria São José, no Rio de Janeiro, no dia do lançamento do meu primeiro livro, "Vento Geral", editado pela José Olympio. Me lembro que ele chegou meio tímido com o Jorge Amado, depois saímos para jantar. Aí se iniciou uma amizade que continuou e se solidificou quando fui adido cultural no Chile. Tive a sorte e o raro prazer de morar durante cerca de cinco anos na casa de poeta e amigo Neruda, onde hoje funciona a sede

da Fundação Pablo Neruda. Essa amizade perdurou até o dia em que ele nos deixou. ♦ Como o senhor acha que se deve fazer uma melhor integração latinoamericana? ♦ Essa é uma das causas pelas por assim dizer, mais difícil escrever fácil? ♦ Tenho dito, falado e escrito sobre isso durante toda minha vida. Escrever difícil é cada dia mais fácil. Porque o hermetismo esconde a incompetência para conquistar o que há de mais difícil na arte literária, que é a simplicidade, a clareza, a metáfora aberta, a metáfora que se entrega, que generosamente se abre. E sobretudo porque ela se faz acessível ao leitor comum Eu não

33

escrevo para iniciados, para universitários que fazem curso de Letras, in-telectualóides... Na verdade eu escrevo para o leitor comum, o servidor público, o funcionário, o comerciário, gente simples, gente do povo. Uma passagem curiosa ocorreu comigo quando estive preso numa cela durante a ditadura. (Emocionado) Quando cheguei lá havia dois versos meus escritos na parede, por outro preso que havia ocupado a mesma cela! Aquilo me deu forças, me deu ânimo para continuar minha luta. Anos após, vim a saber que foi escrito por um humilde metalúrgico. Estava escrito: "Faz escuro, mais eu canto; porque amanhã vai chegar".


ENTREVISTAS E PERFIS

Aurélio do Carmo PERFIL – Escrevo essa saudosa crónica com o intuito de homenagear e agradecer ao Doutor Aurélio por me dar a oportunidade de lembrar meu amado pai.

H

oje quase vinte anos após sua partida, é que tomei conhecimento de minha orfandade. Parece mentira, mas, infelizmente, é a mais pura e cristalina verdade. O fato que desencadeou minha nostalgia aconteceu às vésperas do carnaval, no aniversário do Aurélio do Carmo - nosso mais discreto e elegante governador. Até então, lembrava com saudade e carinho de nossas viagens, dos ensinamentos, das rusgas, das conversas prazerosas, da vida em comum. Conversando com o Hilmo Moreira, (seu colega e amigo do "Paes de Carvalho") me que­dei, pensando há quantos anos o velho se foi. 10, 20 anos...? Como não lembrar, com precisão, a data da partida daquele que foi, é e será, o maior ícone de minha existência? Mas voltemos ao aniversário do Aurélio. Políticos, amigos, conhecidos, admiradores, puxa-sacos, oportunistas, arrivistas, uma babel à volta do festejado aniversariante. Após discursos,

homenagens, presentes, abraços, arroubos, consegui me aproximar do aniversariante. Tímido, parabenizei-o pelo natalício, ofertando-lhe uma garrafa de vinho do Porto. Em meio a tantas figuras importantes do cenário paraense, puxoume pelo braço e disse: - Denis, tu não deves saber. Eu brinquei peteca, bati bola, empinei papagaio na "João Balbi", com teu pai, o Eliel. Ele foi embora pra Recife e voltou pra Belém em 45, como herói, quando a guerra acabou. Graças ao Aurélio, um caleidoscópio de recordações tomou conta de mim. Senti (como há tempos não sentia) sua presença, sua força. Como a mitológica Fênix, meu amado pai ressurgiu das cinzas. Senti seu hálito, o calor de suas mãos, o cheiro da água de barba... Por um breve momento ouvi sua voz grave, os conselhos que esqueci... Sem querer, meus olhos se encheram de lágrimas. Ao contrário da maioria de nós, o velho foi criado pela Tia Eunice - irmã de sua mãe (minha avó morreu, quando ele tinha

34


DENIS CAVALCANTE

dois anos). Meu avô Antônio já tinha nove filhos de outros casamentos. Meu pai era apenas mais um herdeiro, mais uma boca para alimentar. No auge de sua rebeldia, deportou-o pra o Colégio "Americano Batista", de Recife. Apesar do aparente desprezo, ufanou-se, encheu-se de orgulho quando ele retornou da guerra, coberto de glórias. Um simulacro do filho pródigo. Faz tanto tempo... Escrevo essa saudosa crónica com o intuito de homenagear e agradecer ao Doutor Aurélio por me dar a oportunidade de lembrar meu amado pai. Tenho absoluta certeza de que, se hoje estivesse vivo, eu não teria cometido tantos desatinos, percorrido caminhos tortuosos. Não consigo entender como um paraense que sequer completou o ginásio detinha tanta sabedoria. Como um paraplégico compensou a falta das pernas, (a fuga dos estudos), lendo à exaustão tudo que lhe caia as mãos. Quando prevaricava, meus castigos eram exemplares. Musica clássica e livros. Quando

não surtia efeito, bordoada sem direito à janta, e compressa de água boricada, antes de dormir. Ainda assim, era, sou alucinado pelo velho. Quando ele chegava em casa, tal qual um cão, abanava o rabo feliz da vida. Desatava os cadarços dos sapatos, acendia o cigarro, esperando ansioso um agrado, um sorriso. E o suprassumo: a oração, a bênção, antes de dormir. Hoje tudo é diferente. Não espancamos filhos, não temos coragem de dar-lhes corretivos... Chegamos a casa, e ninguém nos espera. Longe de mim fazer drama. É o que é. Órfão perdido no tempo, só me resta recordar - ou, quem sabe - ser adotado por aqueles que, como eu, vivenciaram essas experiênci­as e que ainda teimam em ficar por aqui. Vida longa, Aurélio!

35


ENTREVISTAS E PERFIS

José Mindlin

UMA VIDA ENTRE LIVROS "Si c'était à refaire, je referais ce chemin" ("Se fosse recomeçar; o percurso seria o mesmo") - Aragon.

N

ão conheci, muito menos presenciei as primeiras aquisições que José Mindlin fez para montar sua formidável biblioteca. Até porque, em meados dos anos trinta, eu sequer havia nascido. Até que a vida ou a mão do destino nos aproximou. Nosso primeiro encontro aconteceu no Baú. Quem nos apresentou foi o mestre Benedito Nunes - outro apaixonado por livros. E logo na primeira vez, ele já aprontou. Passou a tarde garimpando em meio às prateleiras abarrotadas de livros. Separou uma dezena e iniciou a pechincha. Pra resumir, acabou levando-os pela metade do preço sugerido. Não bastasse isso, ainda pagou no cartão. Depois disso, nos encontramos várias e várias vezes. Podia ser na abertura de uma Bienal do Livro, na premiação do "Jabuti", ou, mais amiúde, nas livrarias e sebos desse mundão de meu Deus. Uma coisa é certa: eu tinha uma inveja danada do velho Mindlin. Inveja que se

tornou imensurável, no dia em que conheci sua famosa biblioteca. Inveja de sua intimidade com Guimarães Rosa, Pedro Nava, Drumond, Carrière, Saramago... Tantas foram as vezes ele insistiu que, um belo dia, bati com os costados por lá. Vocês não têm noção... Sabem o que é percorrer salas, corredores abarrotados de raridades? Sabem lá o que é ter nas mãos manuscritos, partituras, gravuras de primeiras edições como Os Lusíadas, Marília de Dirceu (restaurada por sua esposa, Guita) ou obras de Machado de Assis com dedicatórias feitas na capa do livro? Ou manuscritos portugueses grafados em latim, datados de 1526, e, mesmo assim, em razoável estado de conservação? Vez em quando éramos interrompidos pela chegada providencial de dona Guita, trazendo um suco de maracujá, um sanduíche de presunto, um cafezinho coado na hora... Mas o melhor foi desfrutar do papo agradável, do conhecimento, da sabedoria que faz bem. Por uma manhã inteira, sorvi com avidez

36


DENIS CAVALCANTE

tudo que pude. Talvez porque no fundo soubesse que seria a primeira e última vez que entraria naquele paraíso literário. Lá se vão dez anos. Ao contrário da maioria dos ratos de livraria, Mindlin jamais entrou em casa com livros escondidos da família. Segundo ele: "Só me arrependo daqueles que não consegui comprar. A vida passa e os livros ficam". Da última vez que nos vimos, ele já não era o mesmo. Estava soturno, abatido pela perda de sua companheira Guita. Ainda assim, arranjou forças para contar velhas estórias. Como a garimpagem e posterior aquisição de sua obra mais rara: "O Guarany" - de José de Alencar. Durante quinze anos, como um sabujo, seguiu o rastro do raro exemplar. Até que conseguiu encontrálo. Adquiro-o sem pechinchar e tratou de voltar pra casa. Preocupado, viajou com o livro dentro de uma pasta junto ao corpo. Quando desembarcou, verificou que o livro tão almejado tinha se perdido. Para sua surpresa, três dias depois, o livro retornou às suas mãos. Só então entendi uma de suas

premissas: "os livros têm vida própria - e ao contrário do que todos pensam - são eles que nos escolhem". Estava escrito. Apesar de egoísmo próprio dos colecionadores, foi dele a iniciativa altruísta de dividir sua biblioteca, seu acervo respeitável, amealhado com denodo, prazer e sacrifício, com todo aquele que se dispuser a ir até a Biblioteca do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), um imponente prédio especialmente construído dentro da USP. A doação saiu do papel e só se concretizou em meados de 2009. José Mindlin esperava viver 100 anos - E olha que ele quase chegou lá!

37

LIVRO DENIS CAVALCANTE  

LIVRO DENIS CAVALCANTE EM EDIÇÃO

LIVRO DENIS CAVALCANTE  

LIVRO DENIS CAVALCANTE EM EDIÇÃO

Advertisement