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Dênis Cavalcante DENIS CAVALCANTE

ENTREVISTAS & PERFIS

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Dênis Cavalcante

ENTREVISTAS & PERFIS

Editora Resistência 2018


Agradecimentos AntĂ´nio Francisco de AraĂşjo Carlos Xavier


Copyright © 2006 by Dênis Cavalcante Todos os direitos reservados Título original Entrevistas e Perfis de Dênis Cavalcante Capa Flávia Castanheira Preparação Carlos Pará Revisão Carmen S. da Costa Ana Maria Barbosa [2011] Todos os direitos desta edição reservados à editora Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) (Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil) As entrevistas da Título original : Entrevistas e Perfis de Dênis Cavalcante isbn 978-85-359-1814-4 1. Escritores - Entrevista 11-00248 cdd-808.88 Índices para catálogo sistemático: 1. Entrevistas : Escritores : Literatura 808.88


SumĂĄrio

Luis Fernando VerĂ­ssimo. Ziraldo Ruy Castro Benedicto Mello Carlos Heitor Cony


ENTREVISTAS E PERFIS DENIS CAVALCANTE

O LIBERAL – CARTAZ

José Veríssimo Tímido, bom de boca e bom de bola. É Veríssimo.

CHIMARRÃO AO TUCUPI - Pai do "Analista de Bagé" e "Ed Mort" fala de comédias e dramas de sua vida privada

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ntrevistar Luís Fernando Veríssimo foi um raro prazer. Elegantemente vestido, blaser entreaberto, esparramado no sofá, fala mansa, quase sussurrante, o escritor gaúcho é dono de uma simpatia contagiante. Na sala vip da VI Feira Pan-amazônica do Livro, em Belém, Veríssimo falou de tudo um pouco: do início de sua carreira em 1966, no jorna! "Zero Hora", da timidez que lhe persegue desde a infância, a influência paterna no começo da carreira, da paixão pelo jazz, pelo futebol (é torcedor fanático do Internacional), o lado glutão gourmet, que chega ao ponto de ter amigos exclusivamente em função desse prazer. Falou também acerca de sua admiração

pela nossa Belém, suas diferenças com a modernidade do computador, a admiração pelo inesquecível cronista, jornalista e compositor (dentre outras coisas) Antônio Maria; a "fissura" particular pelos livros confessa que é um comprador compulsivo. Dono de vasta obra, falou também sobre seus livros relançados pela Editora Objetiva, como "O Analista de Bagé" (recorde de vendas) e "Clube dos Anjos", seu mais recente best-seller. Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

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# É a primeira vez que você vem a Belém participar da Feira Pan-Amazônica. Qual foi sua primeira impressão? - Me impressionou um evento desse porte em Belém. Os promotores estão de parabéns! Estimular a cultura não é um favor, é uma obrigação! Estou adorando o verde, a cidade...Cheguei ontem (quartafeira) e não vi praticamente nada. Gostei muito da Estação das Docas. Um local no mínimo aprazível.

# Faz parte de seus hábitos visitar bastante livrarias? - Vou muito a livrarias. Toda semana compro livros. Sou um compulsivo, um viciado em livraria.

# Você é um dos autores mais lidos do País. Como consegue conviver com a fama e a "aura" de grande intelectual e humorista? # Muito pelo contrário, não tenho carisma nenhum! Sou um tímido! Dou a entender # Você traz alguma novidade literária com as coisas que escrevo que sou aquilo direto do forno? que não sou. - Na verdade, (livro) novo mesmo, nenhum. Mas a Objetiva está relançando # Com seus textos em periódico ou na toda minha obra. Com destaque para "O linha editorial você já conseguiu formar Analista de Bagé" e "O Clube dos Anjos". um tipo específico de leitor-padrão? # Há de tudo um pouco. Tenho leitores em - Você consegue numa boa ficar sentado todas as faixas etárias. Mas atualmente, horas a fio dando autógrafos? Seria um para minha alegria, os jovens descobriram mal necessário? definitivamente meus livros. Estou - Não, não... Mas é o mínimo que nós, achando ótimo! escritores, podemos fazer para promover o livro - criar o hábito da leitura. Mas que é um sacrifício, ah, isso é.

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ENTREVISTAS E PERFIS # Como você encontra assunto para a crónica diária? - Não é fácil. Você como cronista deve saber muito bem. Ter que arrumar assunto todo santo dia é dose pra leão! Mas até hoje vou administrando bem. Tem dia que eu escrevo uma, duas, três crônicas, tem dia que não escrevo nenhuma. Tem dado certo até hoje.

França, Inglaterra, Estados Unidos, Grécia, Sérvia por incrível que pareça, agora vai sair na Rússia.

♦ Que opinião você tem sobre o livro eletrônico? Chega a ameaçar o reinado do bom e velho livro convencional? ♦ O veículo não é o mais importante, o importante é o conteúdo. Sempre haverá o texto, o autor. Seja lá onde ele for # Como é sua relação com o computador? divulgado. É claro que nós, que fomos Escreve direto nele? Tem total criados, cercados de livros, custamos um familiaridade? pouco a aceitar essa modernidade. ♦ Eu escrevo em computador há muito tempo, mas continua sendo uma relação ♦ Você é um caso raro de um filho de um meio difícil. Vale ressaltar que eu uso grande escritor que seguiu os passos do computador como uma máquina de pai As cobranças, no seu caso, foram escrever, pouco me aventuro pela internet, muito grandes? essas coisas... me converti ao computador ♦ Teve o lado positivo; criou uma certa mas não tenho intimidade com ele. Por curiosidade nas pessoas a respeito dos via das dúvidas, mantenho uma certa meus escritos, abriu algumas portas. Não distância. tenho a menor ilusão, a menor sombra de dúvida, que o nome do meu pai me ♦ Até que ponto a televisão pode ajudou sobremaneira no começo da minha influenciar para o bem ou para o mal na carreira. formação dos jovens? ♦ Eu acho que o grande mal da TV é que ♦ Passa pela sua cabeça a Academia? ela rouba muito tempo do jovem. Em vez - Não, definitivamente, não! Não é algo dele ler um bom livro, fica pregado na que eu ache importante para mim. TV Em contrapartida, a TV também tem programas de excelente qualidade. E uma ♦ Sabe-se que você tem um lado questão de equilíbrio. hedonista, como o gourmet. É muito forte? ♦ Pergunta imprescindível: que autores o -Eu tenho uma turma de amigos só em influenciaram no começo de carreira? função da comida e da bebida. Não sei nem ♦ Rubem Braga, o grande Antônio Maria ferver água Nos reunimos assiduamente, e teve uma influência marcante, Paulo sai de baixo! Mendes Campos... ♦ Em quantos países você é lido atualmente? ♦ Tem um livro meu que tá correndo o mundo: o "Clube dos Anjos", um romance que já foi traduzido na Alemanha, Espanha,

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PINGUE PONGUE ♦ Uma mulher? ♦ {Risos} A minha. ♦ Um ícone? ♦ Não tenho, ou melhor, já tive alguns no passado.

♦ Um gênero musical. ♦ Jazz. ♦ Um "escrete", como diria Nelson Rodrigues. ♦ O de 70 no México.

♦ Pele ou Garrincha? ♦ Pelé.

♦ Uma frase. ♦ Toda vez que me pedem uma frase me vem um branco... Acho que a frase é essa: "Quando pedem uma frase vem a burrice.

♦ Uma comida. ♦ Lagosta.

♦ Uma saudade. ♦ Meu pai.

♦ Um time. ♦ Internacional de Porto Alegre.

♦ Um arrependimento. ♦ Um arrependimento. Tanta coisa que não fiz e que deveria ter feito... e agora já não dá mais. Gostaria de ser mais comunicativo. Quero deixar de lado minha timidez.

♦ O candidato. ♦ Lula. ♦ Cinema, radio ou televisão? ♦ Cinema.

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Ziraldo CARTUNISTA PERDIDO ENTRE COMUNISTAS EM BELÉM ENTREVISTA – Ziraldo lança seu novo trabalho na Bienal e lembra de antiga viagem a cidade das mangueiras

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ão foi das mais fáceis a tarefa de entrevistar o cartunista e escritor Ziraldo. Muito pelo contrário. Avesso a entrevistas, o tempo contado no relógio, cansado após exaustivas entrevistas para rádios e TVs, tive que fazer um verdadeiro périplo, das tripas coração, além de contar como uma grande dose de sorte. Depois de dias de tocaia, já tendo falado com seu editor, seu assessor de imprensa, consegui, finalmente, durante a encenação de uma peça (Bonequinha de Pano) baseada em um dos seus mais de cem livros infantis já publicados, "roubar", na marra, a tão esperada entrevista. Vestido com seu inefável e inseparável colete de retalhos, um dos preferidos, dentre os mais de 150 de sua coleção, Ziraldo abriu o verbo. Falou de tudo um pouco: sobre os tempos da ditadura, a luta diária para escapar da censura e obviamente, sobre o Pasquim. Sua relação com a vida e a morte. A perda recente da

companheira Vilma, de quase cinquenta anos. O lançamento de Menina Nina, um livro emocionante e encantador, em homenagem à neta e à mulher. Os planos para o futuro; o encontro inesquecível com o "último comunista", o velho Jinkings, em Belém. O sucessor retumbante do Menino Maluquinho, a continuação em A Professora Maluquinha, inspirada na primeira professora, Catarina, ainda em Caratinga, o ressurgimento das cinzas do Pasquim 21, os remanescentes companheiros que acompanham nessa empreitada, alguns daquela época: Fausto Woolf, Miguel Paiva, Nani... Iconoclasta como ele só, ainda gozou o neófito "repórter", quando este, desavisado, lhe perguntou se havia ficado surpreso com a fila quilométrica e interminável de horas e centenas de autógrafos dados para seu fidelíssimo público mirim. Foi um prazer conversar com o cartunista Ziraldo. Abaixo, na íntegra, a entrevista.

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♦ Que lembrança você guarda de Belém? ♦ Muitas, já fazem muitos anos... um dia eu estava jantando em Belém e chegou o Jinkings, dono de uma livraria e ferrenho comunista: - Ziraldo o pessoal está te esperando. E eu: - Opa! Que pessoal? Achei que era para ir para uma boate, dançar, tomar umas, essas coisas: Que nada! Era para ir para um jantar, não me lembro mais do local, onde só tinha comunista. maravilhosa; mas todo mundo pensava que eu era comunista. Aí um deles se levantou solene e disse: - Companheiro... E eu: Peraí gente! Vocês estão

me confundindo... Sou só massa de manobra (risos). Adoro Belém. ♦ Como estão suas obras no exterior; em quantos países você já foi editado? ♦ Vão muito bem, obrigado. Tenho livros traduzidos para o espanhol em toda a América do Sul. Tenho livros editados também na França Itália, Inglaterra, Espanha. Ao todo 23 países, sete idiomas. Para um cartunista que se tornou escritor infantil praticamente por acaso, tá bom demais. Se melhorar, piora. ♦ Como surgiu a ideia do menino maluquinho? ♦ Foi numa palestra que eu estava fazendo para pais e

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mestres, numa faculdade do Rio de Janeiro. Eu falava sobre criação de filhos. Essa história de deixar os filhos crescerem sem nós, pais, ficarmos enchendo o saco, sem muita repressão, patrulhando em criada sem grilos na cuca, livre, vai se tornar no futuro, na grande maioria das vezes, um adolescente sem traumas, feliz. ♦ Passa pela tua cabeça a Academia Brasileira de Letras? ♦ Não, em hipótese alguma, não. Pelo menos por enquanto.


ENTREVISTAS E PERFIS ♦ Você procura responder na medida do possível os milhares de e-maús dos seus fãs? ♦ Não, na maioria das vezes não dá.... São centenas de e-mails, cartas, fax.. Quando eu posso até que eu tento, fica por conta da assessoria de imprensa, mas na maioria das vezes é impossível. ♦ Você esperava aquela enxurrada de crianças na fila esperando ansiosa pelo seu autógrafo (quase um milhar) aqui na feira? ♦ Tô vendo que você não está acostumado a vir à Bienal aqui em São Paulo, né? Todo o ano a fila cresce. Aqui já é a famosa feira do Ziraldo, não tem pra ninguém. ♦ Você comunga da mesma filosofia de vida em relação a morte que me alegra. Se eu achasse que a vida continuasse eu me alegraria mais ainda, a Vilma tá me esperando, quando eu morrer vou me encontrar com ela. A segunda hipótese é bem melhor, mas eu não creio. Como falei no início: morreu, acabou. Como está sendo para você a primeira Bienal sem a Vilma, companheira

inseparável por quase 50 anos? E, rapaz, (pensativo) sabe que eu ainda não tinha parado para pensar nisso... é penoso para mim, ela me seguiu por todos esses anos. Ela estava sempre ao meu lado sentadinha, me fazendo companhia, 50 anos são 50 anos. Fala sobre um dos teus livros lançados na Bienal, "Menina Nina". E um livro sem segundas intenções, quando eu tenho uma ideia que eu acho que vale à pena, eu faço um livro. Aí está coisa da morte que você me perguntou antes, essa coisa ficou me atordoando muito, com a ausência da Vilma. A Vilma tinha virado uma avó maravilhosa, ela se foi... visceralmente com a avó, era a paixão da Vilma. Eu fiquei casado quase 50 anos com ela, você não deixa a pessoa ir embora assim, sem mais nem menos. Eu te dou um exemplo contando uma história: um malabarista de Nossa Senhora, que era um frade saltimbanco, quando chegou o dia da Ladroeira, cada um foi fazer sua homenagem; uns fizeram poemas para ela; mas o que ele sabia fazer era malabarismo e foi o que ele fez, em frente da imagem da Virgem. Eu sei fazer livro

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para criança, foi o jeito que eu encontrei de perpetuar a memória da Vilma. Por isso fiz esse livro pensando na minha neta Nina. Ele fala sobre as razões que uma criança tem para não chorar, quando perde um ente querido. ♦ Como surgiu a Tuca, a professora maluquinha dos seus livros? ♦ Fui num colégio em Tatuapé, ela era a bibliotecária do colégio, me lembrava muito a minha antiga professora, nos tempos de menino ainda em Caratinga, eu sugeri a minha editora que a contratasse para ♦ Como você se sentiu sendo homenageado na Feira Internacional do Livro em Bolonha? ♦ Foi uma honra, depois de você fica velho se acostuma. ♦ E o Pasquim 21? ♦ Ah, isso é importante! Foi a pergunta mais importante que você fez até agora, muita gente acreditou que não ia dar certo. Mas eu acho que hoje, você tem todo um público segmentado. Antigamente você tinha 50 títulos nas bancas, no tempo do Pasquim antigo; hoje você tem 1000 títulos.


DENIS CAVALCANTE Tem revista para quem skate, para quem anda de patins, para quem compra chapéu, revista para grunge, para clubber... E para quem não quer nada disso que tá por aí? Para quem pensar e refletir, tem revista. Não tem. Não é uma revista alternativa. É uma revista que vai ocupar um segmento. Naquela época, no tempo da ditadura, da censura, a imprensa era toda dominada pelos militares e você procurava sem capital, sem recursos, um jornal para dizer a verdade. Você não vai comprar revista para clubber, de sexo explícito, sacanagem, você vai comprar Pasquim 21, você vai ficar sabendo das coisas. Se não, você vai comprar o quê? A "Trip", uma revista americana produzida no Brasil. Pasquim 21 é mais um nicho de mercado, que falta a sociedade descobrir Por exemplo: Pasquim 21 é uma revista semanal, que o Congresso todo lê, senadores, deputados, se vacilar até o presidente da República, para saber o quê o Brasil está pensando.

o humor. Pasquim 21 voltou a dar ênfase, realce ao humor. Os cartunistas brasileiros são os melhores do mundo hoje. Não tinham onde publicar, hoje já têm no Pasquim. O Pasquim de antigamente não tinha chip, Internet, impressão em cores, a laser, distribuição regular.. Edições inteiras foram censuradas, tiradas literalmente de circulação, já nas bancas o que é pior. O ser humano continua o mesmo, mas o mundo em volta mudou muito. ♦ Daquela turma do Pasquim antigo, quem sobrou? OBSERVAÇÃO: FALTOU A PARTE DEBAIXO DA ENTREVISTA. NÃO VEIO. FICOU TRUNCADA A MATÉRIA.

♦ Faça uma comparação do Pasquim de hoje para o de amanhã? ♦ O Pasquim de hoje e o de antes só têm em comum

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Ruy Castro SIRVAM A CASTRO

MANIÇOBA

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RUY

ENTREVISTA – O jornalista que se consagrou com as biografias de Nelson Rodrigues e Garrincha diz que vem a Belém se lhe prepararem a maniva

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escritor, jornalista e biógrafo Ruy Castro não pára. Após concluir a trabalhosa e gratificante biografia "Carmen" baseada na vida de Carmen Miranda, que consumiu dois longos anos de sua vida, teve fôlego para lançar mais um livro, ainda neste semestre. É uma coletânea de artigos sobre cinema que saíram em diversos periódicos ao longo dos últimos 20 anos, organizada pela mulher, a também escritora Heloísa Seixas. Ruy fez essas e outras revelações, em meio à correria, no último dia da Bienal do Livro de São Paulo, onde, juntamente com o escritor Fernando Morais, participou de concorrido debate. O tema do encontro ele domina como poucos: biografias. Objetivo e conciso, Ruy deu conselhos para aqueles que se aventuram pelo universo mágico da leitura Falou dos próximos projetos literários; de sua paixão pelos livros antigos; da ojeriza, quase náusea pelo quadro político atual. E, por fim, ao ser indagado sobre quando voltaria a Belém, declarou, peremptório; "Se me convidarem e me prometerem

uma maniçoba no capricho, irei com muito prazer" Abaixo, os melhores momentos de Ruy Castro. ■ Qual é sua expectativa, o que esperar de mais uma Bienal? □ Rever os amigos, conhecer pessoas e divulgar o produto do meu, do nosso trabalho, que é o livro. ■ Você faz parte de uma seleta confraria: a dos apaixonados por sebos, por livros. Livros que já passaram por muitas mãos. Que mistérios, que encantos secretos se escondem por trás das estantes bolorentas? □ Livros que já pertenceram a alguém e que são dignos de continuar circulando que ainda não cumpriram todo o seu ciclo. ■ Você vem se especializando - pode-se dizer - em escrever biografias: Garrincha, Chega de Saudade, Carmen Miranda... E por aí vai. Por quê? □ Porque tenho curiosidade para saber como foi a vida de muitas pessoas que admiro.

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■ Que conselhos você daria para aqueles que se aventuram pelo mundo mágico da leitura? □ Ler tudo que lhes cair às mãos - da Enciclopédia Britânica às bulas de remédio. ■ Qual são seus próximos projetos literários? □ No meio do ano teremos um livro com os meus artigos sobre cinema, publicados em jornais nos últimos 20 anos, organizados pela Heloísa Seixas. Vai sair pela Companhia das Letras e se chamará "Um filme é para sempre" ■ Você é um jornalista de mão cheia. Por que parou de escrever em revistas e jornais? □ Por falta de tempo e de

excesso de amor à Carmen. ia enfrentar o outro paulista No tempo em que trabalhei arrogante. O que eu e o no livro sobre ela, não tinha Brasil temos com isso? paciência para mais nada. ■ Você veio à nossa cidade ■ Dentre os seus inúmeras vezes. Quando biografados, qual deu pretende retornar? Que mais trabalho, a pesquisa tal lançar "Carmen", em Belém, numa concorrida mais difícil? □ Carmen, sem dúvida. e inesquecível tarde-noite Foi muito difícil localizar de autógrafos ? pessoas que a conheceram □ Se me convidarem e na juventude e ainda em me prometerem uma condições de falar -pessoas maniçoba no capricho, hoje entre 85 e 95 anos. Por irei com muito prazer. Se depender de mim, Belém, sorte, achei dezenas. o Brasil inteiro voltará a ■ Você ousaria um palpite, conhecer e ouvir Carmen ou até mesmo uma Miranda. Ela é o máximo! opinião, sobre o quadro político vigente. Sobre as próximas eleições? □ Não tomo conhecimento, nem me diz respeito. Até outro dia, eram dois paulistas arrogantes disputando para ver quem

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ENTREVISTAS E PERFIS O LIBERAL - BELÉM, DOMINGO, 5 DE OUTUBRO DE 2003 - VARIEDADES

Carlos Cony CARLOS CONY, UM ESCRITOR À PROCURA DA FELICIDADE ENTREVISTA – Durante sua passagem por Belém na ocasião da Feira Pan-Amazônica do Livro, Cony fez surpreendentes revelações

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ntrevistar Carlos Heitor Cony, antes de tudo me deu um enorme prazer Elegantemente trajado com seu tradicional suspensório, paletó displicentemente jogado nos ombros o escritor me recebeu sorridente no lobby do hotel em que estava hospedado. Cony foi, como jornalista, testemunha de fatos marcantes no cenário político dos últimos 50 anos. Em Belém, onde participou da VII Feira Pan-Amazônica do Livro ele fez revelações surpreendentes. Seu último encontro com Mário Faustino, horas antes de sua morte. Sua admiração por Eneida e Delcídio Jurandir (segundo ele um grande injustiçado). Revelou também detalhes de seu último livro ainda no prelo - "O Beijo da Morte". Um livro investigativo que vai dar muito

o que falar. Falou dos bastidores da Academia Brasileira de Letras e de como Juscelino perdeu uma eleição por um voto. Declarou seu amor por Belém e se disse admirado com nossos casarões, igrejas e monumentos magnificamente restaurados. ♦ Você esteve há dois anos em Belém, qual a sua impressão sobre a cidade? ♦Da última vez que vim a Belém, passei antes por São Luís onde o senador José Sarney me deu tratamento VIP Mandou me buscar no aeroporto, me ciceroneou pela cidade... Mas que me perdoe o Sarney: Belém dá de dez, dá, de mil, em todas as capitais do Norte e Nordeste que conheço. Belém, panoramicamente, não é tão bonita, como São Luís por exemplo. Mas nos detalhes, na riqueza dos casarões antigos, no seu patrimônio histórico, em

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termos de estética, Belém é muito mais importante. Me encantou sobremaneira o Museu de Arte Sacra, a Igreja da Sé, o Theatro da Paz, a Estação das Docas, que por sinal, deixa pra trás inclusive Porto Maderas, em Buenos Aires. O Museu Goeldi com suas árvores frondosas e seculares, o peixe-boi, o pirarucu... Fiquei surpreendido, foi uma grata surpresa, esse reencontro com a cidade de Belém.

♦ Você passou mais de duas décadas sem escrever um romance; qual o motivo desse longo interregno? ♦ Primeiro eu escrevi um livro ("Pilatos") que me satisfez bastante. É o único livro que eu considero feito por mim. Os outros foram feitos por um rapaz que buscava algo na vida. Eu acredito que os meus livros anteriores eram livros que não representavam exatamente aquilo que eu queria dizer. Então, esta satisfação que eu tive ao escrever Pilatos, me tirou a vontade de escrever

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outros livros. Além disso entrei num ritmo profissional frenético. Fiz inúmeras viagens para o exterior, muito jornalismo, reportagens de campo. O tempo foi passando e eu fui me desinteressando da Literatura. ♦ Ainda sobre o assunto. Após a publicação de "Quase Memória em 95", você voltou a escrever desesperadamente numa produção que surpreendeu a todos. Qual sua explicação para esse fato? ♦ Desesperadamente não!


ENTREVISTAS E PERFIS (risos) Impulsivamente. Eu sempre fui muito impulsivo. E é bom que se note que antes da minha primeira fase, entre 58 e 72, eu escrevi e publiquei nove romances, além de livros de contos, um ensaio sobre Chaplin e outro sobre Vargas... Eu tive uma produção considerável. Fora as adaptações de grandes clássicos que (quase 80). E aí apareceu o computador. O meu texto sempre foi muito sujo porque eu escrevo muito rápido. Então como advento do computador ficou muito mais fácil, agora posso cortar páginas, fazer cirurgias plásticas nos meus textos, aí facilitou a minha vida e comecei a escrever como eu disse antes, compulsivamente.

pessoa que visualizasse a imagem de seu pai sem ressentimentos, apenas usando o sentimento, poderia escrever um romance desse. Um pouco melhor ou um pouco pior... Agora, "Pilatos" não! "Pilatos" é um gênero diferente e modéstia à parte só eu ousei fazer isso até agora. Uma das coisas que mais me irritam até hoje é que tem pessoas que acham que o livro é erótico. Muito pelo contrário o livro é broxante! Quem lê "Pilatos" passa três, quatro meses sem nenhum desejo sexual (risos). É um livro pornográfico, no bom sentido. Talvez ele só tenha paralelos na literatura de Rabelais e Swuift. Sem contar que o livro foi escrito no tempo da ditadura e por isso tem também ♦ Para muitos seu melhor uma leitura metafórica do romance é "Pilatos", homem brasileiro naqueles alguns preferem "Antes o tempos difíceis. Verão", já outros, "Quase Memória". E para você? ♦ Quais as influências ♦ É o seguinte, vou ser até mais marcantes na sua um pouco cabotino. Todos formação literária? os meus livros a exceção ♦ Lima Barreto, Eça de de "Pilatos", podiam ser Queirós, Jean Paul Sartre e escritos por qualquer um. Machado de Assis. Qualquer pessoa que se debruçasse em si mesma, ♦ Quem são seus buscasse fatos relevantes interlocutores no meio bem no fundo de sua literário? memória poderia escrever ♦ No tempo do seminário, "Antes o Verão" ou "Quase o inesquecível Padre Memória", qualquer Tapajós, que foi o homem

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que descobriu em mim uma leve tendência, uma propensão a carreira literária. Depois disso, um amigo do CPOR que nunca escreveu nada e uma das principais influências, se não a maior, já no jornal Correio da Manhã, Otto Maria Carpeaux, meu colega, meu amigo, um dos mais caros amigos que já tive. E hoje o Rui Castro. Mas o homem que abriu mesmo a minha cabeça, foi o Otto Maria Carpeaux. ♦ Como funciona a inspiração para Cony. Você tem hora, dia para escrever? ♦ Nunca tive hora para escrever. Se tiver hora para escrever eu não escrevo. É algo que flui naturalmente, ou melhor, é uma coisa fisiológica. Por exemplo, se você me pedir para falar sobre Guerras Púnicas, eu falo. Afinal, um jornalista como eu, com a minha idade, com a minha experiência tem condições de falar sobre qualquer assunto, com um porém: no máximo, em três minutos. Filosofia quântica, buraco negro... Depois de três minutos já se começa a dizer besteira. ♦ Você tem lido alguma coisa sobre a nova geração de escritores no Brasil?


DENIS CAVALCANTE ♦Desde que comecei a escrever, lá se vão quase 50 anos, surgiram muitos escritores, eu penso que nunca se escreveu tanto no Brasil, em todos os géneros, romances, crónicas, ensaios, biografias... Surgiram inúmeras editoras. Hoje talvez, tenham mais editoras do que livrarias, hoje é bem mais fácil um escritor lançar um livro. Com 10 mil reais você consegue editar um livro, o problema é a distribuição, a exposição, a divulgação... Mas por uma questão de cansaço, eu prefiro reler os clássicos, eu tenho pouco tempo, tenho no máximo 15 ou 20 anos de vida. Ou posso morrer daqui a pouco, por isso não tenho mais aquela curiosidade de ler novos valores, como estou me despedindo, prefiro reler os clássicos. Azar o meu, porque se agora aparecer no Brasil, um novo Shakespeare, um novo Rabelais, um novo Balzac, um novo Dante, eu não saberei. ♦ Qual a importância de um evento como VII Feira Pan-Amazônica do livro? ♦ No meu tempo não haviam eventos desse porte. As Bienais e feiras de livros atualmente rivalizam com as feiras de moda,

informática... Colocam o produto livro à disposição do leitor, isso só vem a beneficiar o produto final, o livro e o leitor. Além de abrir caminhos para a produção literária. Agora falando especificamente sobre a feira Pan-Amazônica, eu diria que ela é um divisor de águas, é como se o Brasil fosse um triângulo, com Belém na ponta, Porto Alegre na base, e no centro Rio e São Paulo. Curiosamente são nos dois extremos que estão sendo feitos os grandes trabalhos, em Porto Alegre, no Sul e em Belém, na região Norte. São nesses dois lugares, que eu sinto pujança, uma vida a vegetativa, uma vida orgânica. Os movimentos intelectuais Porto Alegre e Belém. ♦ Você é membro da Academia Brasileira de Letras. Na sua opinião qual o melhor critério de escolha de um imortal. O de amizade, o político, ou o valor da obra? ♦ O três juntos. É uma coisa muito variada, não há uma regra, apenas discordo de você, quando você fala sobre o político. Para mim o político é o social, expressão não no sentido sociológico da palavra, mas sim no sentido de expressão no mundo

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social. Por exemplo, os políticos que entram na Academia, não entram por serem grandes políticos, entram por serem vedetes, por representarem uma parcela na sociedade, como Roberto Marinho, Sarney, Carlos Chagas, no passado Santos Dumont, Osvaldo Cruz, que entraram pelo prestígio e no caso de Santos Dumont por seu prestígio mundial. Nesse ponto a Academia Brasileira de Letras é apolítica, tanto ela é apolítica que cito o exemplo da eleição do presidente Juscelino, que perdeu por um voto para um desconhecido; uma figura sem nenhuma expressão literária, um escritor goiano chamado Guimarães, que foi eleito por um voto; e assim mesmo macetado. É bom que se explique, que na Academia haviam pessoas que nutriam um ódio visceral pelo Juscelino, porque na época de seu governo não foram nomeados embaixadores, ministros do Supremo... Teve até um diplomata que queria ir para Washington e acabou indo parar em Taipe, na China. Foi justamente esse voto que derrubou a candidatura do Juscelino. Acho que o mais importante para entrar para a Academia além da obra, são as


ENTREVISTAS E PERFIS amizades. Afinal de contas, a Academia é um lugar de convívio, fraternidade. Então como eleger alguém antipático, alguém que não gostamos? Veja o caso de Joel Silveira, meu amigo pessoal, candidatou-se á vaga de Jorge Amado, e tascou a falar mal de sua concorrente, a Zélia Gatai, dizendo que ela era uma escritora medíocre, que ele já estava eleito, essas coisas. Criou uma antipatia nos académicos e deu no que deu! ♦ Por falar em Joel Silveira, você tem alguma história curiosa dele? ♦ Várias. Fomos presos quatro vezes e ficamos juntos na mesma cela. O Joel é um sergipano que tem muito orgulho da cidade em que nasceu, Lagarto. Ele diz inclusive que Lampião não entrou na sua cidade natal por medo dos lagartenses. Mas na verdade Lampião não entrou na cidade porque lá não tinha nada que valesse a pena roubar! Tem também uma coisa que o Rubem Braga vivia dizendo para o Joel Silveira: "Quando eu morrer você pode mentir à vontade, pois eu sou a única testemunha viva, fora você, dos acontecimentos (os dois foram correspondentes de

guerra na Itália) e tinham muitas histórias para contar. ♦ Você está escrevendo um livro guardado a sete chaves sobre a possível conspiração e morte de três grandes políticos nacionais: João Goulart, Carlos Lacerda e Juscelino. Fale um pouco sobre esse livro. ♦ Eu jamais teria escrito esse livro se não fosse a Ana Lee, uma amiga e excelente jornalista, ela começou a fuçar em antigos exemplares da Revista Manchete, e me veio com a novidade: "Porque você não escreve um livro com essa temática?" Eu respondi-lhe que não tinha mais idade para escrever um livro desse fôlego. E ela retrucou: "E se eu fizesse o trabalho pesado?" Foi aí que apareceu a editora Objetiva, que financiou a pesquisa, as viagens para a Argentina, o Uruguai, o Chile... O livro deverá sair no final do ano, o título: "O Beijo da Morte". Esse livro fala sobre as mortes suspeitas em menos de nove meses, de três homens que em dado momento da vida política brasileira detinham 100% do eleitorado. Lacerda à direita, Juscelino no centro e Goulart à esquerda. No

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caso de Juscelino, teve o inquérito já concluído; no caso de Goulart está em aberto; e no caso do Lacerda nem aberto foi ainda. Todas mortes muito suspeitas e interligadas entre si. Sem contar que na época, Salvador Allende, então presidente chileno, enviou uma carta para Goulart, dizendo que ele seria assassinado e o chileno acabou sendo assassinado também. ♦ Muitos leitores quando começam a ler "Quase Memória", entram num frenesi para saber o que existe dentro daquele pacote tão bem feito... Aquele episódio realmente aconteceu? ♦ Na verdade aquilo foi um sonho. Eu estava há 23 anos sem escrever um romance, e um belo dia acordei com a nítida impressão que meu pai tinha deixado aquele pacote na portaria do Hotel em que estava hospedado. O porteiro me disse: "Um homem esteve aqui e deixou este embrulho para o senhor. Eu o peguei, e identifiquei imediatamente a letra do meu pai. Aquilo me deu uma angústia muito grande. Aí corri para casa e fiquei olhando intrigado para o embrulho. Não me lembro sinceramente se no sonho eu abri o embrulho.


DENIS CAVALCANTE Eu fiquei tão chocado, tão impressionado ao saber que apesar de têlo enterrado há dez anos, ele de repente reaparece em minha vida. Fiquei pensando... Ele esteve aqui, porque que ele não subiu, não falou comigo? Aí eu resolvi escrever uma crónica. Você sabe tanto quanto eu, que nós temos um espaço determinado no jornal, a crónica acabou se estendendo e virando artigo, de artigo se transformou em romance: "Quase Memória". Nunca abri embrulho, muitos me cobram, achei melhor assim. ♦ E aqui no Pará quem são os intelectuais e escritores com os quais você conviveu, que você conhece? ♦ Fui amigo de Dalcidio Jurandir, um escritor fantástico que foi massacrado por ser comunista. Talvez se o Partidão não tivesse investido todas as suas fichas em Jorge Amado e Graciliano Ramos, se não o tivessem deixado abandonado a própria sorte, hoje, Dalcidio estivesse entre os quatro maiores romancistas regionalistas do Brasil. Conheci muito bem a Eneida de Morais. Dancei

muito com a Eneida, aliás ela sempre me tirara para dançar apesar da nossa diferença de idade. Não é uma mulher bonita, já a conheci matronada, mas ela era portadora de uma grande fúria vital, passional... Uma pessoa dulcíssima e dona de um par de estonteantes olhos verdes. Sem falar de Mário Faustino. Poucos sabem desse episódio. Mas na véspera e no dia de sua viagem nós conversamos. Nos estávamos trabalhando um projeto comum. Ele trabalhava no Jornal do Brasil e eu no Correio da Manhã. E uma vez na véspera de sua viagem, na casa de amigos, depois de tomar umas e outras, o Mário começou a recitar Fernando Pessoa. Tudo foi gravado num daqueles velhos gravadores de rolo. Nesse dia eu descobri a grandeza de Fernando Pessoa através dos versos de Mário Faustino e vice versa. Foi um dia inesquecível em minha vida. Ainda bem que eu tive oportunidade de dizer isso para ele em vida. No outro dia ele viajou, seu avião caiu... Conheci pessoalmente da última vez que estive em Belém, o Benedicto Monteiro, O Benedito Nunes, um homem reconhecido pela

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sua obra no Brasil e no mundo. Reencontrei Alcyr Meira, João de Jesus Paes Loureiro... ♦ Você é jornalista, cronista, escritor reconhecido, imortal da Academia Brasileira de Letras, o que falta ao currículo de Carlos Heitor Cony? ♦Não tenho queixas da vida. Se colocar lado a lado, o dever e havei; eu tenho a impressão que não dou goleada, mas acho que tenho haver. Na verdade o que falta na minha biografia, é ser um homem feliz! Um homem feliz não escreve. Um homem feliz não pinta um afresco de cabeça para baixo na Capela Sistina, um homem feliz não compõe a nona sinfonia, um homem feliz não escreve. Enfim... Me falta ser feliz.


ENTREVISTAS E PERFIS

Benedicto Monteiro UM ESCRITOR COM SETE VIDAS E FÔLEGO DE GATO ENTREVISTA – Depois de 14 livros, Benedicto Monteiro manda para o prelo A Terceira Dimensão da Mulher que em breve chega às livrarias

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escritor Benedicto Monteiro já escreveu 14 livros e parte agora para mais um - "A Terceira Dimensão da Mulher", a ser lançado brevemente pela editora Cabanagem. É uma continuação do romance - Maria de Todos os Rios. Nesta entrevista ele falou de tudo um pouco. Sobre as dificuldades que o escritor enfrenta no mercado editorial brasileiro, tendo que pagar do próprio bolso ou submetendo-se às leoninas e ferozes leis de mercado. Falou também sobre a "crendice" do interior que falava que a mulher grávida que comesse carne de macaco (sua mãe adorava a iguaria) seria inquebrável. A prova cabal disso é sua saúde invejável, mesmo beirando os oitenta anos; nove capotagens de carro e um sem número em voadeiras,

felizmente sem nenhum osso quebrado. Narra emocionado sua prisão, a tortura num cubículo de dois metros quadrados, onde passou semanas jogado "às baratas". E por mais incrível que pareça não guarda rancor de seus algozes. Revela também sua paixão por uma iguaria da mocidade tambaqui assado na brasa - e sua relação com Deus, ora racional ora emocional. ♦ Qual é seu próximo projeto de livro? ♦ Tenho muitos projetos em andamento. Na ficção tenho "O Diário de Eduardo Angelim", "Miguel dos Santos Prazeres em Belém", e devo fazer o lançamento de "A Terceira Dimensão da Mulher" ainda em novembro. Este romance é a continuação de "Maria de Todos os Rios". Além da ficção, estou trabalhando em ensaios sobre o pensar e a alfabetização ecológica,

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DENIS CAVALCANTE

♦ Apesar de todos os meus livros já estarem ultrapassando a quarta edição e o "Carro dos Milagres" já estar na 11ª edição, acho que o mercado editorial no Brasil ainda precisa se adaptar aos tempos da globalização. O pobre do escritor ou é obrigado a pagar a edição do seu livro ou quando a editora tem interesse na publicação, é obrigado a assinar um contrato leonino. Nesse contrato, que é padrão em todas as editoras, o escritor deveria receber 10% sobre o preço da capa dos

livros vendidos. Mas essa venda é impossível de ser controlada. ♦ Você é membro da Academia Paraense de Letras. Qual a sua opinião sobre escritores renomados que se negam a fazer parte dela? ♦ Não conheço esses renomados escritores que tenham se negado a fazer parte da Academia Paraense de Letras. E não sei a que atribuir essa negativa. Pois, em todas as academias do mundo e até na nossa Academia Brasileira de Letras, existem escritores de

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méritos discutíveis. Aliás, todas as organizações da sociedade civil devem ser representativas de seus membros. E podem ter a sua composição correspondendo aos méritos e deméritos dos cidadãos que a formam. Este fato se dá em todas as organizações representativas das classes sociais, das corporações e das profissões. ♦ Você foi preso, cassado e torturado durante a contra-revolução de 1964. Quase quarenta anos depois ainda guarda


ENTREVISTAS E PERFIS algum sentimento sobre teus algozes? ♦ Para falar a verdade, não sei nem o nome dos civis e militares que participaram das minhas prisões e das torturas das quais fui vítima. Quanto à cassação do meu mandato de deputado estadual, foi feita pelos meus próprios colegas da Assembleia Legislativa, inclusive dos meus liderados do PTB. Creio que foi uma atitude de covardia dos meus colegas deputados da época, pois me negaram o meu sagrado direito de defesa, naturalmente pressionados pelas forças militares que assumiram o poder no Brasil e no Pará. No Projeto de Resolução que aprovaram açodadamente, numa única sessão, não consta qualquer motivo que justificasse esse ato abusivo. Creio que é a essas pessoas a quem deve ser dirigido esta pergunta. Eles devem guardar, algum sentimento, depois que testemunharam a minha vida até hoje, tanto como escritor como homem público, exercendo atividade política. Acho que fui escolhido arbitrariamente para ser o mais cassado e caçado, o mais preso, o mais torturado, o mais marginalizado. Eu mesmo

reconheço que não tinha tanta importância política para merecer essa condição de "boi de piranha". ♦ O poeta Thiago de Melo conta que quando foi preso teve que inventar mil e uma maneiras para não enlouquecer: e você, o que fez? ♦ O poeta Thiago de Melo deve ter se valido da sua imensa poesia para poder inventar mil e uma maneiras para não enlouquecer. Naturalmente ele deve ter sido tratado como ser humano. Mas eu que fui encarcerado numa cela solitária de apenas dois metros quadrados, só de calção, dormindo no chão e absolutamente incomunicável, tive que me fortalecer por dentro. Não só para resistir ao vexame de fazer as minhas necessidades fisiológicas com a porta da privada aberta e uma metralhadora nas costas o no peito. É verdade, que mesmo nessas condições, recebi solidariedade dos meus colegas que estavam presos na cela coletiva ao lado. Aparecia de vez em quando, cocaína, maconha e cachaça, que me eram ofertados por baixo da porta de ferro maciça, que fechava a minha prisão. Aliás, quando meus

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cunhados médicos Osvaldo Pereira e Salomão Athias, "conseguiram" ordem para me visitar, sua preocupação era com a minha saúde física e minha situação mental. Por isso me levaram tranquilizantes, que eu recusei, dizendo que tinha recusado as ofertas dos meus colegas presos, porque queria reagir com as minhas próprias forças a todas as privações. ♦ Você tem uma vastíssima obra, qual dos seus livros que mais gosta? ♦ Costumo dizer que os meus livros são como os meus filhos: gosto de todos igualmente. Porém, cada um tem o seu talento e a sua afinidade. Assim são os meus livros. O romance "A Terceira Margem", porque discute a linguagem acadêmica e a linguagem popular, já utilizando a ilusão da oralidade, é o meu preferido. ♦ Na sua opinião o que está faltando em Belém na área cultural? ♦ Em primeiro lugar, um entrosamento entre os governos federal, estadual e municipal, nessa área de cultura. Nós temos aqui várias organizações culturais, como o Museu Paraense Emílio Goeldi, o Instituto


DENIS CAVALCANTE Evandro Chagas, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, a Academia Paraense de Letras, e as Universidades, que não se relacionam culturalmente. Programam os seus eventos, sem atentar para as organizações similares. Os próprios Governos, não têm um plano cultural, embora do ponto de vista da restauração e do aproveitamento dos prédios e espaços históricos, o secretário de Cultura, Paulo Chaves, tenha feito um belo e excelente trabalho. ♦ Qual é o seu processo de criação? ♦ O meu processo de criação é o exercício da minha própria vida. Embora a maior parte da minha obra seja de ficção, eu escrevo, para praticar o meu mais íntimo exercício da liberdade. Antes eu escrevia como aprendi na escola, à mão. Mas depois que descobri o computador, só escrevo no computador, e, na minha rede, é claro Tenho a felicidade de escrever correntemente. Pelos meus originais manuscritos dos livros já publicados, você pode ver, que não há quase emendas ou correções. Perguntar a um escritor, como ele cria as suas obras é o mesmo

que perguntar a um jogador de futebol como ele faz os seus gols, ou a um artista plástico como ele concebe os seus quadros. ♦ Nessa altura do campeonato como está e qual é a sua relação com Deus? ♦ Quando penso racionalmente, minha relação com Deus é muito respeitosa, mas quando penso emocionalmente, sou crente e religioso. Aliás, quando me perguntam qual é a minha religião, eu costumo responder: cristão e franciscano. Cristo, pelas sua doutrina que não foi alcançada até hoje e São Francisco porque foi o precursor da ecologia, a única ciência que ensina a convivência com a natureza. Perante Deus, eu já tenho a minha mãe e o meu pai que, pelas suas generosidades, devem estar no céu. E ainda tenho uma irmã, a Irmã Maria Ignês, que abandonou a medicina pra ser freira enclausurada e descalça. Ela vive rezando por mim no Carmelo de Divinópolis em Minas Gerais. ♦ Fala pra gente como foi tua mocidade no interior? ♦ Minha mãe quando nasci disse aos quatro ventos que eu era "inquebrável" talvez por um blusão, uma

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crendice da época que dizia que a mulher grávida que comesse carne de macaco (minha mãe adorava a iguaria) seu filho nasceria como o gato, com sete vidas. Acabei por acreditar nisso. A prova foram nove capotagens e um sem número de quedas de voadeira sem nenhum arranhão. ♦ A frase que você gostaria de ser lembrado. ♦ Se a frase for da minha obra, deixo ao critério do leitor escolher, entre as frases de Maria, do romance Maria de Todos os Rios ou de Miguel dos Santos Prazeres, o personagem-elo da Tetralogia Amazônica. Garanto que qualquer um desses meus personagens teve ideias, disse coisas e arrumou palavras que me representarão mesmo depois da minha morte. serão publicados. ♦ Você é um escritor experiente, qual é sua relação com o mercado editorial?


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Thiago de Mello UM ESCRITOR QUE PREFERIU A UTOPIA ENTREVISTA – Só a cultura pode integrar a América Latina, acredita o bardo traduzido para 30 idiomas e que aposta na simplicidade

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o contrário de outros poetas que procuram escrever para poucos, hermeticamente, os escritos de Thiago de Mello tornam-se poesia universal, acessível a todos. Para ele, a função do poeta é atingir o maior número de pessoas, e isso não é fácil. "Fácil é escrever difícil e rebuscado; difícil é você atingir a simplicidade", diz, definitivo. Dono de uma vastíssima obra, que faz questão de dizer que "tem o cheiro, o perfume de floresta, o cheiro de chuva" - cheiros que vêm inspirando sua obra num todo e por toda uma vida, esse bardo caboclo, que canta os valores mais importantes do homem, da humanidade, falou nesta entrevista, sem meias-palavras, o que pensa, o que sente, o que sonha. No encontro, estava impecavelmente vestido

de linho branco, e praticamente "poetou" em forma de colóquio: simples e fácil... Ficou conhecido o episódio segundo o qual recebeu uma crítica favorável do "New York Times" a respeito.de seu livro "Os Estatutos do Homem" (traduzido pelo próprio autor para o inglês). O articulista, apesar do elogio, pecou ao fazer uma ressalva: "O livro é muito bom, muito lírico, porém utópico". Insatisfeito com a equivocada interpretação do "gringo", Thiago de Mello escreveu uma carta do próprio punho para o jornal, ironizando a falta de sensibilidade poética do crítico: "Há tempos, tive que escolher entre a barbárie e a utopia", começou. "Escolhi a utopia. Ser chamado de utópico, longe de ser uma crítica, foi um dos maiores elogios que recebi em toda minha vida." "Thanks a lot", foi a primorosa resposta, dada pelo

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poeta. Traduzido em mais de 30 países, venerado por muitos autores famosos, amigo pessoal do poeta Pablo Neruda, Thiago de Mello foi durante o breve governo de Jânio Quadros e depois da renúncia, no de João Goulart, adido cultural do Brasil no Chile. Seu livro "Os Estatutos do Homem" foi traduzido uma semana depois de avidamente devorado pelo próprio Neruda, que se encantou com o poema. Tomou-se uma edição primorosa, bilíngue, em espanhol e português, editada recentemente pela Vergara & Riba. Esse poema teve um percurso mundial. Virou música, peça de teatro, balé... É um paralelo poético da Declaração dos Direitos Universais do Homem.

Neste bate-papo, o poeta fala nhecido talvez como o calculista predileto de Oscar Niemeyer. Thiago narra ainda, de forma pungente, a surpresa de encontrar nas paredes de uma fria cela que o acolheu, durante a ditadura, um poema seu, deixado escrito por outro preso. Defensor ferrenho da integração cultural latino-americana, há anos vem pregando a manutenção da Amazônia como um todo. Aqui fala um pouco de sua luta, por vezes inglória, em manter e resgatar a dignidade do Homem Considerado por alguns críticos insensíveis como um poeta ultrapassado, mesmo assim continuou fiel a seus princípios.

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♦ Qual é a síntese de "Os Estatutos do Homem"? ♦ Ele foi escrito em 1964. Foi a resposta que dei como um poeta brasileiro ao primeiro ato institucional da ditadura. O ato constava de 14 artigos e eu respondi com 14 estrofes desse poema que não me pertence mais. Já foi traduzido para mais de 30 idiomas. Foi transformado em balé, teatro, e em três

tudo que a gente pensa hoje, nesse mundo feroz e globalizado em que vivemos, sobretudo tudo que a gente faz, consciente ou inconscientemente, estamos na verdade fazendo uma opção entre o apocalipse e a utopia. Não é o apocalipse do Evangelho; é esse planeta Terra, esse lugar tão lindo em que a gente vive, tão degradado pela insensatez... Onde existe um bilhão de seres Thiago de Mello: sem a huintegração cultural entre os países da América Latina, não haverá integração Ou você aceita isso ou se econômica rebela. E a única forma de rebelião para enfrentar o grande compositor Cláudio apocalipse é a utopia. Santoro, caboclo como ♦ Como o senhor se sente eu, que viveu durante sendo uma espécie de "o muitos anos na Europa e último dos moicanos" da transformou os estatutos poesia brasileira? em peça sinfônica para ♦ (Risos) Eu acho que eu orquestra e grande coral sou o primeiro. Na verdade, e que foi executada pela somos três "moicanos": primeira vez no Teatro Ferreira Gullar, Moacir Municipal do Rio de Janeiro. Teles e eu. Somos, na Logo em seguida foi a peça verdade, os primeiros a que abriu a solenidade levantar uma nova bandeira inaugural da Constituinte dentro da poesia brasileira. na praça dos Três Poderes ♦ Fiquei sabendo que em Brasília. E agora, na o senhor gosta muito Bienal, foi lançada uma da poesia do Joaquim edição argentina, da Cardoso. Fale um pouco tradução que Pablo Neruda dessa admiração, já que fez desse poema. tão poucos conhecem esse ♦ Por que o senhor classifica autor. sua poesia de utópica? ♦ Minha admiração vem ♦ Porque eu acho que de muito tempo. Antes

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mesmo de publicar meu primeiro livro, tive a sorte de ser apresentado a ele por meio do Lúcio Costa. O Cardoso era o engenheiro calculista dos projetos dele (Lúcio Costa) e do Niemeyer. Verifiquei, após estreita convivência, que o Cardoso era um ser excepcional e um poeta de mão cheia, que minha predileção, muito embora desconhecido para a maioria das pessoas. ♦ E a relação de amizade com o poeta Pablo Neruda? ♦ Muitos pensam que conheci Neruda quando fui adido cultural no Chile. Mas, a bem da verdade, é bom que se diga que conheci Neruda em meados de 1960 na livraria São José, no Rio de Janeiro, no dia do lançamento do meu primeiro livro, "Vento Geral", editado pela José Olympio. Me lembro que ele chegou meio tímido com o Jorge Amado, depois saímos para jantar. Aí se iniciou uma amizade que continuou e se solidificou quando fui adido cultural no Chile. Tive a sorte e o raro prazer de morar durante cerca de cinco anos na casa de poeta e amigo Neruda, onde hoje funciona a sede da Fundação Pablo Neruda. Essa amizade perdurou até


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o dia em que ele nos deixou. ♦ Como o senhor acha que se deve fazer uma melhor integração quais eu consagro e devoto a minha vida, pela qual eu trabalho dia e noite com a minha palavra escrita, com a minha palavra falada. Falei sobre esse assunto num congresso realizado em novembro de 2000, e que reuniu cerca de 50 poetas latino-americanos. Eu apenas afirmo a você que só superando o desconhecimento que existe entre as culturas dos nossos países é que a gente pode, devagarinho, ir construindo o caminho para a integração económica. A base da integração económica na América Latina está na integração cultural. Eu sirvo a essa causa participando de congressos, simpósios, encontros... Faço com que os brasileiros sejam conhecidos por intermédio da literatura. Porque a alma de um povo é conhecida por sua arte popular, de seus artistas, de seus eruditos. Eu procuro trazer ao brasileiro o conhecimento da literatura hispanoamericana. Já traduzi 12 livros, dentre eles autores como Neruda, Benedetti e Cardenal. Ainda cometi

a suprema audácia de traduzir a obra completa do genial poeta peruano que é César Vallejo. ♦ Sua poesia é "aberta", compreensível. O senhor acharia, por assim dizer, mais difícil escrever fácil? ♦ Tenho dito, falado e escrito sobre isso durante toda minha vida. Escrever difícil é cada dia mais fácil. Porque o hermetismo esconde a incompetência para conquistar o que há de mais difícil na arte literária, que é a simplicidade, a clareza, a metáfora aberta, a metáfora que se entrega, que generosamente se abre. E sobretudo porque ela se faz acessível ao leitor comum. Eu não escrevo para iniciados, para universitários que fazem curso de Letras, in-telectualóides... Na verdade eu escrevo para o leitor comum, o servidor público, o funcionário, o comerciário, gente simples, gente do povo. Uma passagem curiosa ocorreu comigo quando estive preso numa cela durante a ditadura. (Emocionado) Quando cheguei lá havia dois versos meus escritos na parede, por outro preso que havia ocupado a mesma cela! Aquilo me deu forças, me deu ânimo para continuar

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minha luta. Anos após, vim a saber que foi escrito por um humilde metalúrgico. Estava escrito. "Faz escuro, interpretação ao gringo, Thiago de Mello escreveu uma carta do próprio punho para o jornal, ironizando a falta de sensibilidade poética do crítico: "Há tempos, tive que escolher entre a barbárie e a utopia", começou. "Escolhi a utopia. Ser chamado de utópico, longe de ser uma crítica, foi um dos maiores elogios que recebi em toda minha vida." "Thanks a lot", foi a primorosa resposta, dada pelo poeta. Traduzido em mais de 30 países, venerado por muitos autores famosos, amigo pessoal do poeta Pablo Neruda, Thiago de Mello foi durante o breve governo de Jânio Quadros e depois da renúncia, no de João Goulart, adido cultural do Brasil no Chile. Seu livro "Os Estatutos do Homem" foi traduzido uma semana depois de avidamente devorado pelo próprio Neruda, que se encantou com o poema. Tornou-se uma edição primorosa, bilíngue, em espanhol e português, editada recentemente pela Vergara & Riba. Esse poema teve um percurso


ENTREVISTAS E PERFIS mundial. Virou música, peça de teatro, balé... É um paralelo poético da Declaração dos Direitos Universais do Homem. Neste bate-papo, o poeta fala com saudade e admiração do poeta Joaquim Cardoso, pouco conhecido do grande público, mais conhecido talvez como o calculista predileto de Oscar Niemeyer. Thiago narra ainda, de forma pungente, a surpresa de encontrar nas paredes de uma fria cela que o acolheu, durante a ditadura, um poema seu, deixado escrito por outro preso. Defensor ferrenho da integração cultural latinoamericana, há anos vem pregando a manutenção da Amazónia como um todo. Aqui fala um pouco de sua luta, por vezes inglória, em manter e resgatar a dignidade do Homem. Considerado por alguns críticos insensíveis como um poeta ultrapassado, mesmo assim continuou fiel a seus princípios. ♦ Qual é a síntese de "Os Estatutos do Homem"? ♦ Ele foi escrito em 1964. Foi a resposta que dei como um poeta brasileiro ao primeiro ato institucional da ditadura. O ato constava de 14 artigos e eu respondi com 14 estrofes

desse poema que não me pertence mais. Já foi traduzido para mais de 30 idiomas. Foi transformado em balé, teatro e em três obras sinfónicas. Uma delas, para mim a melhor, foi a do grande compositor Cláudio Santoro, caboclo como eu, que viveu durante muitos anos na Europa e transformou os estatutos em peça sinfónica para orquestra e grande coral e que foi executada pela primeira vez no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Logo em seguida foi a peça que abriu a solenidade inaugural da Constituinte na praça dos Três Poderes em Brasília. E agora, na Bienal, foi lançada uma edição argentina, da tradução que Pablo Neruda fez desse poema. ♦ Por que o senhor classifica sua poesia de utópica? ♦ Porque eu acho que tudo que a gente pensa hoje, nesse mundo feroz e globalizado em que vivemos, sobretudo tudo que a gente faz, consciente ou inconscientemente, estamos na verdade fazendo uma opção entre o apocalipse e a utopia. Não é o apocalipse do Evangelho; é esse planeta Terra, esse lugar tão lindo em que a gente vive, tão degradado pela insensatez... Onde existe um bilhão de seres

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humanos famintos, onde a criminalidade aumenta a cada dia. Ou você aceita isso ou se rebela. E a única forma de rebelião para enfrentar o apocalipse é a utopia. ♦ Como o senhor se sente sendo uma espécie de "o último dos moicanos" da poesia brasileira? ♦ (Risos) Eu acho que eu sou o primeiro. Na verdade, somos três "moicanos": Ferreira Gullar, Moacir Teles e eu. Somos, na verdade, os primeiros a levantar uma nova bandeira dentro da poesia brasileira. ♦ Fiquei sabendo que o senhor gosta muito da poesia do Joaquim Cardoso. Fale um pouco dessa admiração, já que tão poucos conhecem esse autor. ♦ Minha admiração vem de muito tempo. Antes mesmo de publicar meu primeiro livro, tive a sorte de ser apresentado a ele por meio do Lúcio Costa. O Cardoso era o engenheiro calculista dos projetos dele (Lúcio Costa) e do Niemeyer. Verifiquei, após estreita convivência, que o Cardoso era um ser excepcional e um poeta de mão cheia, que ficou sendo desde aqueles tempos até hoje um do poetas da minha predileção, muito embora desconhecido para


DENIS CAVALCANTE a maioria das pessoas. ♦ E a relação de amizade com o poeta Pablo Neruda? ♦ Muitos pensam que conheci Neruda quando fui adido cultural no Chile. Mas, a bem da verdade, é bom que se diga que conheci Neruda em meados de 1960 na livraria São José, no Rio de Janeiro, no dia do lançamento do meu primeiro livro, "Vento Geral", editado pela José Olympio. Me lembro que ele chegou meio tímido com o Jorge Amado, depois saímos para jantar. Aí se iniciou uma amizade que continuou e se solidificou quando fui adido cultural no Chile. Tive a sorte e o raro prazer de morar durante cerca de cinco anos na casa de poeta e amigo Neruda, onde hoje funciona a sede da Fundação Pablo Neruda. Essa amizade perdurou até o dia em que ele nos deixou. ♦ Como o senhor acha que se deve fazer uma melhor integração latinoamericana? ♦ Essa é uma das causas pelas por assim dizer, mais difícil escrever fácil? ♦ Tenho dito, falado e escrito sobre isso durante toda minha vida. Escrever difícil é cada dia mais fácil. Porque o hermetismo esconde a incompetência para conquistar o que há de

mais difícil na arte literária, que é a simplicidade, a clareza, a metáfora aberta, a metáfora que se entrega, que generosamente se abre. E sobretudo porque ela se faz acessível ao leitor comum Eu não escrevo para iniciados, para universitários que fazem curso de Letras, in-telectualóides... Na verdade eu escrevo para o leitor comum, o servidor público, o funcionário, o comerciário, gente simples, gente do povo. Uma passagem curiosa ocorreu comigo quando estive preso numa cela durante a ditadura. (Emocionado) Quando cheguei lá havia dois versos meus escritos na parede, por outro preso que havia ocupado a mesma cela! Aquilo me deu forças, me deu ânimo para continuar minha luta. Anos após, vim a saber que foi escrito por um humilde metalúrgico. Estava escrito: "Faz escuro, mais eu canto; porque amanhã vai chegar".

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ENTREVISTAS E PERFIS O LIBERAL - BELÉM, DOMINGO, 20 DE OUTUBRO DE 2002 VARIEDADES Zuenir Ventura Então não viu nada Depois de quase 30 anos, voltei a Belém para a VIII Feira Pan-Amazônica do Livro, e encontrei outra cidade, como me haviam dito amigos como Luís Fernando Veríssimo e Lula Vieira. Nem a chuva cai mais às 2 horas em ponto diariamente; chega mais tarde. Levei coisa pra ler porque achava que ia ter tempo ocioso. Engano. Em três dias, não dei conta do que tinha para fazer, ver, visitar. Saio em débito e com uma baita vontade de voltar, não em 30 anos, mas em 30 dias. Deixei de ver muito mais do que vi. A própria Feira foi uma surpresa: quase 300 mil visitantes, 200 expositores, 125 estandes, 480 mil exemplares vendidos, mais de R$ 7 milhões faturados. É hoje um dos três mais importantes eventos do Brasil no género. Orientado pela professora e jornalista Regina Alves e guiado pelo cronista Denis Cavalcante, recebi um curso prático e intensivo de história, geografia, cultura e, sobretudo, dos encantos dessa apitai da hospitalidade, como constatou uma pesquisa junto aos turistas. De ia parte, tive um tratamento privilegiado, sendo até parado na rua; o que me deixou todo prosa - até descobrir que isso só acontecia porque as colunas do Nominimo são publicadas em O LIBERAL, o jornal que todo mundo lê. Daí há popularidade. Cumpri um programa exaustivo. Como minha mulher gosta de mercados populares, Regina e Denis nos levaram logo cedo ao Ver-o-Peso, onde passamos parte da manhã admirando aquela bela estrutura meio art-nouveau de ferro trazido da Inglaterra e sentindo os cheiros, sons e o burburinho de mercadores e compradores. Me deliciei nas barracas de banhos de cheiro lendo os rótulos: "Pega não me larga" "Amansa corno" "Afasta espírito" "Chora nos meus pés" Com destaque para o patchuli, que a vendedora me diz ser o odor de Belém. Regina me ensina toda a tradição dessa liturgia da água cheirosa que ela conhece de sua família, desse culto da limpeza e do perfume (não digo nada, mas penso: "um povo tão limpo e uma cidade tão suja"). Numa barraca de ervas medicinais, comprei para dar de presente ao Tutty Vasques um vidro de "Viagra da Amazônia" que tem fama de ser milagroso. É feito com catuaba, ginseng, marapuama, guaraná, pau ferro, nós-moscada, cravinho e moleque seco. Passo na porta em que um cartaz anuncia "banho: 1,00; vaso, 0,50; urinar: 0,20" Os preços são convidativos, mas como não estou precisado de nenhum dos três, vou para a área de peixes. Denis é recebido como freguês cativo. Todo mundo o conhece e ele conhece todo mundo: gente e peixes. "Esse aqui é a piramutaba; aquele é o mapará; olha o tamanho desse filhote" E vai me mostrando douradas, sardas, tucunarés, enxovas, Piranhas, caráaçus. Saio daqui especialista em peixes amazônicos. O que mais deixa minha mulher feliz é saber que os supermercados não mataram o Ver-o-Peso. Aliás, uma das sensações mais estimulantes é perceber que Belém gosta de seu passado e é hoje um exemplo de como preservá-lo e restaurá-lo. A intervenção no cais,

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DENIS CAVALCANTE transformando três galpões na monumental Estação das Docas, é uma obra que não deve nada ao que foi feito em Nova York, Buenos Aires e Barcelona (vou sugerir que o próximo prefeito do Rio dê uma chegada aqui antes de tomar posse). Se eu só tivesse estado nesse complexo de lazer, já teria valido a viagem. Mas houve muito mais. Passamos algumas horas nos extasiando no núcleo cultural Feliz Luzitânia, em especial no Museu de Arte Sacra. Certamente, há acervos barrocos mais valiosos na Bahia ou em Minas, mas não acredito que haja um museu tão bem tratado, desenhado, iluminado, climatizado. Me encantei com algumas imagens: a Pietá toda em madeira, o São Sebastião de cabelos ondulados e a famosa Nossa Senhora do Leite, com o seio esquerdo à mostra dando de mamar (uma das duas únicas que se salvaram da destruição, acusadas de profanas). Cansado de perguntar - "de quem é essa obra?" - e de ouvir - "é do Paulo Chaves" - "e essa outra?" -"também" - fiquei na dúvida quanto à autoria de um delicioso filhote que acabara de comer no restaurante da Casa das Onze Janelas e brinquei: "Esse peixe, já sei, deve ser obra do Paulo Chaves" (arquiteto e secretário estadual de Cultura). Não tenho espaço para falar do Museu de Gemas do Pará, do Museu do Encontro, do almoço na ilha do Mosqueiro, nem a ida antes a Icoaraci, onde minha mulher comprou lindas peças de cerâmica marajoara, tapajônica e rupestre. Nem vou falar dos 48 sabores de sorvete Cairu (não tomei todos, mas acho que provei a metade). Também não vou revelar o que deixei de ver com medo de que algum chato estragaprazer diga: "Mas você não viu isso?! Ah, então não viu nada"

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ENTREVISTAS E PERFIS

O LIBERAL – CARTAZ – 16/2/2003 Livros, os melhores amigos do filósofo Benedito Monteiro O futuro incerto da vasta biblioteca é uma das preocupações do pensador que se queixa do barulho da cidade e dos carapanãs ■ DENIS CAVALCANTE Especial para O LIBERAL Eu pensei que entrevistar um filósofo fosse um "bicho de sete cabeças", mas não foi. Sorte minha. Afinal o entrevistado desse domingo é que o filósofo e ensaísta Benedito Nunes. Ele me recebeu solícito em sua aconchegante residência para essa prazerosa entrevista. Aliás, a casa é um capítulo à parte. Todos os cómodos têm uma janela voltada para o bucólico jardim que circunda toda a propriedade. Jardim cuidado com esmero e carinho pela companheira há mais de 50 anos, a professora de teatro Maria Sylvia Nunes. Lá, cercado de livros, na verdade milhares deles, cerâmicas de Ruy Meira, uma invejável pinacoteca com obras de artistas locais, entre eles, meio que perdido, um solitário Fancetti; árvores frutíferas, perfumados jasminzeiros, inúmeros bonsais, onde se sobressai um inacreditável pé de romã, (dizem que dá sorte) carregado de minúsculos frutos. O filósofo, barba grisalha, fala mansa, respondeu com vagar, porém sem hesitar, todas as perguntas por mim formuladas. Em alguns momentos seus olhos brilharam... Um deles, quando abriu o coração e falou do seu trabalho, seus amigos, seus livros, suas viagens, ao lado da inseparável Maria Sylvia. Conversamos sobre praticamente tudo. Sua paixão pelos livros, além de filósofo, escritor e ensaísta, (???) do, com quem já se entretém relações. Mas quantas faces tem isso que Clarice Lispector chamava de o Deus, substantivado no máximo grau? A face do seu, pressuposto pela indagação que você fez, está impressa nos dois grandes livros, a Bíblia e o Corão, da tradição semito-hebraica cristã. Não é a mesma que perpassa os Veda, os livros de Lao Tseu e de Confúcio. O que posso dizer-lhe como agnóstico é que não sou capaz de adentrar-me na matéria, com os sentidos e a razão da espécie humana. Deus abscônditos (está escondido ou oculto). ♦ Qual a sua opinião dos rumos da cultura paraense nos últimos anos? ♦ São rumos saudáveis de crescimento e mudança: ficcionistas em ebulição, poetas novos, ótimos pintores, excelentes fotógrafos, teatro em abundância e promissora cinematografia. ♦ Quais sãos suas expectativas para o governo Lula? ♦ Como eleitor dele sem partido, espero que afaste da campanha da fome os transitórios movimentos de simples beneficência e que continue sendo o não-sectário que está parecendo ser. ♦ O poeta Mário Faustino foi recentemente reeditado. Na sua opinião o que ele tem a dizer para a nova geração de poetas

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DENIS CAVALCANTE

Benedicto Monteiro lança obra e quer vaga na ABL Escritor paraense agenda viagem para fazer corpo a corpo junto aos acadêmicos do Rio de Janeiro e São Paulo ♦ DENIS CAVALCANTE Para Editoria de Cartaz Benedicto Monteiro enfrenta este ano uma verdadeira maratona. Além da árdua e espinhosa tarefa de trabalhar sua candidatura à Academia Brasileira de Letras na vaga da escritora Rachel de Queiroz, recentemente falecida, ainda conseguiu fôlego para relançar grande parte de sua numerosa obra. Para a campanha da Academia, Benedito pretende montar seu QG em pleno território inimigo-, a cidade do Rio de janeiro. Afinal, teme ser boicotado como foi recentemente o time do Paissandu no Campeonato Brasileiro. Também por isso vai de malas e bagagens passar uma temporada na "Maravilhosa'', fazendo o corpo a corpo, visitando um a um os académicos. Como se vê, um verdadeiro caminho de pedras a ser percorrido. Como trunfo, leva na manga sua vasta obra, o apoio imprescindível de alguns imortais, e sua conhecida disposição em enfrentar desafios. Na entrevista abaixo, ele relata alguns fatos curiosos acontecidos durante sua vida. Fala sobre sua profícua produção 'literária (30 livros escritos e 16 publicados), o pedido de Nélida Pinon implorando que não matasse seu personagem Miguel do Santos Prazeres. Por fim, fala da enorme satisfação de conseguir realizar seu grande sonho: relançar de uma só tacada quase todos os livros de sua vasta obra literária. ♦ Quando se fala como um escritor, a primeira pergunta é sempre a mesma: como vai a sua produção literária? ♦ Hoje em dia consagro todo o meu tempo à minha produção literária. Acabei de escrever dois livros: um ensaio sobre a alfabetização ecológica e um romance em que eu trago Miguel dos Santos Prazeres, o personagem-elo da Tetralogia Amazônica, para viver em Belém. Como tu sabes, quando publiquei o Verde Vagomundo, há mais de 20 anos, a grande escritora Nélida Pinon me pediu em carta, pelo amor de Deus, que eu não matasse Miguel dos Santos Prazeres. Não matei, e ele está hoje em Belém. ♦ Por falar em produção literária, quantos livros você já escreveu e quantos já publicou? ♦ Já escrevi mais de 30 livros dos quais já publiquei 16. Aliás, os meus primeiros livros foram publicados por editoras do Rio e de São Paulo. Depois, a pedido do Gêngis Freire, para prestigiar uma editora paraense, eu passei a publicar meus livros através de uma editora paraense. Mas a principal condição era ele não perder o mercado que eu já tinha conseguido no eixo Rio-São Paulo. ♦ Desses publicados quais ainda estão no mercado? ♦ Quase todos. Verde Vagomundo, O Minossauro, A Terceira Margem, Aquele Um, O Carro dos Milagres, Transtempo, Maria de Todos os Rios, A Terceira Dimensão da Mulher, Como se faz um Guerrilheiro, O Discurso sobre a Corda e a Poesia do Texto. Os quatros primeiros já passaram da 4a edição. Os outros já estão na 2ª e o Carro dos Milagres já está na 1ª edição. ♦ Já li que os seus livros foram publicados e estudados em vários Estados do Brasil e até no exterior. Como vai a repercussão da sua obra, no Brasil e no exterior.

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ENTREVISTAS E PERFIS ♦ Não tenho do que me queixar. Meus livros já foram publicados e estão sendo estudados em vários países da Europa e também na América do Norte. Aqui no Brasil, eles têm servido de matéria para centenas de trabalhos de estudantes e de dezenas de teses de mestrado e doutorado nas universidades daqui do Pará e do Brasil. ♦ Agora eu é que estou curioso para saber quais dos seus livros publicados que não estão no mercado... ♦ O primeiro, Bandeira Branca, que foi publicado no Rio de Janeiro, em 1945, com prefácio de Dalcídio Jurandir, o Cancioneiro do Dalcídio que foi incorporado no A Poesia do Texto e o Direito Agrário e o Processo Fundiário que, apesar ter sido solicitado por várias universidades, et não quis publicar, porque de pende ainda de incorporar nele o Direito Ambiental. ♦ Tenho sabido que você é um dos mais assíduos participante da Academia Paraense de Letras. O que você me diz sobre a suas atividades no nosso mais importante silogeu? ♦ É verdade. Além de participar de quase todas as sessões, tenho contribuído com todas as comi; soes que dão parecer nos trabalhos de ficção, dos candidato que se inscrevem em concurso literários. Mas numa das últimas sessões do ano, fui surpreendido com um apelo do imortal Ivanildo Alves, escrito votado pela maioria da Casa, pedindo-me que me candidatasse a uma das vagas abertas na Academia Brasileira de Letras. ♦ E qual foi a resposta? ♦ Disse aos meus confrades que uma eleição na Academia Brasileira de Letras é muito complexa, pois envolve interesses nacionais, políticos, sociais, literários e jornalísticos de pessoas importantes das sociedades do Centro-Sul do Brasil. Mas aproveitando esse interesse dos meus pares, pedi que a própria Academia remetesse toda a minha obra para conhecimento dos académicos da ABLÉ o primeiro passo para uma campanha, árdua e difícil que eu tenho, que se realizará no Rio de Janeiro, onde se encontra a maioria dos eleitores. ♦ Mas nós sabemos que você tem alguns trunfos para enfrentar esses candidatos de prestígio. Principalmente pela repercussão da sua obra nas universidades e no exterior... ♦ Não sei se são trunfos, como você diz, pois apesar de eu sentir a felicidade de ter a minha obra sendo estudada nas universidades brasileiras, americanas e europeias, na hora de uma eleição na Academia Brasileira de Letras, entram interesses regionais, sociais, econômicos e políticos. E aí eu, como paraense, na hora do voto, posso sofrer o boicote que o Paysandu vem sofrendo ultimamente. ♦ Mas por que você diz que essa campanha para a Academia Brasileira de Letras é árdua e difícil? ♦ Primeiro, porque a campanha tem que ser realizada no Rio de Janeiro; depois, porque é praxe que os candidatos visitem pessoalmente os acadêmicos que vão votar. Mas o que me entusiasmou recentemente foi a entrevista do meu amigo Carlos Sclar, que está sugerindo que as inscrições dos próximos candidatos sejam avalizadas por entidades de prestigio intelectual dos lugares onde residem. No meu caso, já conto com a indicação da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e da Academia de Jornalismo, dos quais sou sócio vitalício. ♦ Você pretende levar os trabalhos que já foram publicados aqui no Brasil e no exterior sobre a sua obra?

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DENIS CAVALCANTE ♦ Não sei se será necessário. Como já disse, existem muitas teses de mestrado e doutorado publicadas aqui e no exterior. Agora mesmo, o nosso grande escritor conterrâneo Vicente Ceci me chamou a atenção para um livro publicado, já na 2a edição, da Civilização Brasileira, em que o professor Malcolm Siverman, da Universidade de San Diego, tece considerações sobre toda a minha obra e inclui ela como uma das mais importantes entre as obras de protesto, no novo romance brasileiro. ♦ Mas esta tua grande atividade literária não te impede de atender convites para palestras e conferências nas escolas e universidades? ♦ Claro que não. Agora mesmo fui convidado pelo governador de Roraima e pelo professor Alcyr Miranda para fazer uma conferência no Congresso Internacional de Direito Amazônico, que é realizado em Boa Vista, pela Associação Brasileira de Letras Agrárias, pelos Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário, Ministério Público, Ordem dos Advogados e pela intelectualidade de todo o Estado. Estou sendo convidado também para lançar, em janeiro de 2004, o conjunto da minha obra na sede campestre da Assembleia Paraense. ♦ E que você acha desse convite da Assembleia Paraense? ♦ Fiquei muito feliz em ser convidado pela Diretoria Cultural da Assembleia Paraense para lançar toda a minha obra na boate da sede campestre. Felizmente, que ainda estão à venda 13 livros dos que eu já publiquei. E assim, eu posso atender este honroso convite do mais importante clube social da minha terra. Portanto, dia 21 de janeiro, a partir das 20 horas, estarei na boate para atender este convite que me faz entrar o ano de 2004 com o pé direito. ♦ E o que representa para você este lançamento? ♦ A maior e a melhor oportunidade de ver a minha obra quase toda reunida para oferecer a um público de elite. Estou ansioso para saber como essa importante parte da sociedade vai encarar esse trabalho que levei mais de meio século para construir. Tenho encontrado muitas pessoas que se queixam de não ter todos os meus livros nas suas bibliotecas. Para mim, é uma grande felicidade oferecer quase todos os meus livros já publicados aos meus conterrâneos do Pará e às pessoas que não sendo paraenses escolheram a nossa terra para trabalhar e para viver. Lutfala Bitar ainda não inventariou seu acervo, mas possui centenas de obras de arte no escritório de sua construtora O LIBERAL – CARTAZ – BELÉM, DOMINGO, 23 DE FEVEREIRO DE 2003 Lutfala, um empresário apaixonado por arte Dar obras de artistas paraenses de presente aos amigos virou rotina na vida do empreiteiro, colecionador e mecenas ■ DENIS CAVALCANTE Especial paro O LIBERAL O entrevistado desse domingo é o "doublé" de empreiteiro e amante das artes, o mecenas Lutfala Bitar. Dono de uma simplicidade espartana, ele me recebeu em sua empresa, para essa entrevista. Logo na entrada, o primeiro susto: fui recepcionado

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ENTREVISTAS E PERFIS por uma "overdose" de obras do genial Ruy Meira. Nas paredes dos corredores, salas, salões, enfim por todo o prédio, centenas, talvez milhares de obras de arte, de todos os estilos, e para todos os gostos, em sua grande maioria de autores regionais. A empresa é uma pinacoteca pulsante e em constante ebulição. Lá convivem, em perfeita harmonia, obras de artistas renomados como Emanuel Nassar, Benedito Melo, Dina de Oliveira, Marinaldo Santos, Paulo Andrade, Klinger, Jocastos, Tarsila do Amaral, Jorge Eiró, Cláudio Tozzi, Waldir Sarubbi, Eliene Tenório... Como também artistas anónimos, esses últimos, ainda à procura de um lugar ao sol. Encontrei até em meio ao acervo, um surpreendente desenho do prefeito Edmílson Rodrigues. No colóquio improvisado até meu fiel gravador resolveu me deixar na mão e fazer "forfait". Paciência. Lutfala falou além de sua paixão pelas artes, sobre alguns hábitos de sua rotina diária, que se inicia obrigatoriamente pela salutar caminhada, às 5 da manhã, acompanhado pela "gang da Doca" (palavras ta com uma gozação para os amigos intelectuais: "Na próxima encarnação vocês voltam empreiteiros, porque eu, tratarei de voltar artista!" aprimoramento do desenho e pelo figurativo. 0 abstrato ou conceituai, se for o caso, poderia vir depois como uma opção consciente. É importante não convivo são do meio artístico, pintores, arquitetos, fotógrafos, jornalistas, marcharias, curadores, Incluindo toda uma gama de apreciadores de arte, de música e da pergunta não tenho como quantificar mas, com certeza, faço isso o mais frequentemente possível, até porque presenteando amigos com obras de artistas seduz "Stalingrado - O Cerco Fatal" de Antony Beevot Como você vê sou "merecendente" do título de eclético, que o Oliveira me nominou. ♦ Recentemente você editou um livro de autoria de sua filha, por sinal uma edição primorosa sobre o altista plástico Valdir Surubbi, qual é o seu próximo projeto? ♦ A Rosana com a publicação dos trabalhos sobre o Ruy Meira e recentemente sobre o Valdir Sarubbi está resgatando e preservando a memória e a obra de nossos artistas. Ela tem a Intenção de realizar um trabalho sobre os nossos aquarelistas, o que poderia se transformar em um projeto nosso também. ♦ Ainda sobre o assunto, dos escritores regionais cite alguns que mais lhe agradam. ♦ Eu tenho lido com muito agrado a Maria Lúcia Medeiros, Haroldo Maranhão, Benedito Monteiro e li, no final do ano, "O Homem e sua Hora" do poeta Mário Faustino (que me foi presenteado pela Maria Sylvia Nunes), os poemas do Paes Loureiro, Bruno de Menezes, do Max Martins e do Simão Bitar, com destaque para "O Outro Lado da Lua" e também a Antologia de Ruy Barata, são outras referências a citar. ♦ O que ficou (e se incorporou ao ■

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DENIS CAVALCANTE Algo que o fascina, e como ele mesmo diz: "Tenho o péssimo hábito de ler vários livros concomitantemente". Se diz frustrado por não ter conseguido ler a obra completa de Proust, mas, resignado, comenta: "O senador Jarbas Passarinho uma vez me confidenciou que também não conseguiu". Cita também em tom de blague, uma frase do empresário e bibliógrafo José Midlin, que certa vez declarou que precisaria viver no mínimo 300 anos, para ler todos os livros que lhe interessavam. Modesto, Lutfala declara que para ele bastariam trinta. Na entrevista arrisca ainda alguns conselhos para os artistas iniciantes. Se emociona ao olhar uma foto em preto e branco na parede, com os colegas da antiga redação da "Província cio Pará": Oswaldo Mendes, Sá Leal, Linomar Bahia, Moacir Calandrini, dentre outros. E arrema♦ Não lembro, mas certamente comecei a formar o acervo com trabalhos presenteados pelo Ruy Meira quando, como estudante, realizava o estágio profissional em seu escritório, que se misturava com o ateliê e nós, ali, con-vivíamos num ambiente de aprendizado da engenharia, usufruindo da experiência do artista que realizava trabalhos de cerâmica, escultura e óleos sobre tela. A mais recente aquisição foi um trabalho da Eliene Tenório, exposto na venissage do último dia 8, na Galeria Elf, do amigo Gileno Chaves. ♦ Que conselho você daria para o artista que está dando os primeiros passos? ♦ Aconselharia que os primeiros passos devem começar pelo aprendizado sobre história da arte importante, assim como a convivência com os artistas frequentando suas exposições e ateliês o que sempre gera informação e educação do olhar. Estudar e observar os trabalhos dos grandes mestres e, enfim, descobrir o próprio talento. ♦ O seu acervo é considerado um dos melhores do Pará, qual o futuro dessas obras? ♦ Na empresa ainda não pensamos sobre isso. ♦ Aos amigos da área artística, em tom de graça, você tem proposto trocar de lugar: passar a ser artista em lugar de empresário. Mas você tem tentado conciliar essas duas condições. Acha que tem sido bem-sucedido? ♦ Não. Não é bem assim, acontece é que os amigos com quem mais em sua grande maioria. Pelas minhas atividades de empresário e empreiteiro às vezes me "discriminam" carinhosamente, e eu revido dizendo que na próxima encarnação voltarei intelectual e eles empreiteiros. Alguns falam que preferem uma troca imediata, não precisa esperar tanto. De certo modo acabo conciliando várias situações e tenho certeza que sou muito querido no meio de todos. ♦ Você tem Inventariada toda a sua pinacoteca? Por onde da está espalhada? De quantos trabalhos já se desfez para presentear os amigos? ♦ Não há inventário atualizado e os trabalhos estão na sede da empresa em Belém, em algumas filiais como Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Macapá, Manaus e Brasília. Sobre a segunda parte compartilhando o prazer e a missão de estimular o mercado dos

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ENTREVISTAS E PERFIS produtores de arte. ♦ Quais os artistas paraenses pelos quais tem mais empatia? ♦ Muitos, mas eu falaria de todos citando apenas um, o Ruy Meira, como poeta, escultor ceramista e pintor, desde as suas fases figurativa, cubista, ao impressionista à abstrata, como sendo o nosso artista maior e a síntese de todos os outros produtores da arte paraense. ♦ Quais os melhores livros que já leu? E os mais recentes? ♦ Embora sem tempo, de maneira desordenada, e com o péssimo hábito de ler simultaneamente vários livros e com leituras absolutamente ecléticas, como dizia meu amigo coronel Oliveira, sou um leitor compulsivo, já li muita coisa do ítalo Calvino com destaque para as "Cidades Invisíveis" e "Amores Difíceis", quase tudo do Stefan Zwelg que junto com a mulher se suicidou, no início da guerra, em Petrópolis, na rua Gonçalves Dias n° 21, local que fiz questão de visitar Li muito de Antônio Tabucchi, do Jorge Luiz Borges, alguns clássicos da nossa língua, dos franceses, alemães, dos russos de antes da revolução e do dramaturgo inglês, Incluindo seus sonetos. A "Soror Juana lnêz de La Cruz - As Armadilhas da Fé", do Otávio Paz, assim como "Tempo da Memória" de Norberto Bobbio e o "Manuscrito de Mediavilla" do Isaias Pes-soti, são boas leituras. Sem esquecer "Napoleão", de Stendhal (o mesmo de "vermelho e o Negro") que foi contemporâneo do Imperador, e seu auxiliar no Palácio das Tulhertas, e não poderia deixar de falar também dos chilenos Neruda e Gabriela Mistral. Quando goste muito de um livro Aço presenteando aos amigos, com forte recomendações para ♦ O que de melhor acha que fez nessa época? • Eu não cheguei a ser propriamente um jornalista, era um repórter-setor, como me classificava o Cláudio Sá Leal. Foi uma época muito rica, pela convivência m grandes figuras do jornalismo! terra e lembro que perdi um pouco da minha timidez, mas hoje quando falo aos amigos que fui tímido ou que ainda sou, não sei porque, eles ficam rindo. ♦ Você é considerado o melhor relações-públlcas dos seus negócios. Comparece a quase tudo para que é convidado. Alguns juram tê-lo visto em dois lugares ao mesmo tempo. Como se você tivesse o dom divino da ubiquidade. Como consegue realizar essa façanha? Como organiza sua agenda para ter essa presença tão constante? ♦ Essa ubiquidade de que me acusam ou festejam é sempre motivo de muita alegria e diversão, e por esse motivo resolvi não desmentir dizendo que isso é próprio dos santos canonizados, como a história que se refere a Santo Antônio de Pádua e aí o pessoal acha que cheguei aos extremos da provocação. Na verdade, o que ocorre é que todos esses lugares, como casas de amigos, galerias de arte, entidades de classe, festas, quermesses (que estão acabando, mas ainda restam as de San Genaro e a da Trindade), bares, me deixam sempre muito alegre e me desviam das durezas do dia a dia. ♦ Fora da empresa, qual o grande projeto que ainda não realizou? ♦ São muitos, mas vou citar dois, o primeiro é o projeto dos Meninos de Rua, a partir de uma semente lançada pelo Paulo Barroso, e que hoje com a participação do setor privado, do Estado, da Prefeitura, da Câmara Setorial de Responsabilidade Social da ACP, tendo à frente o entusiasmo e dedicação da Rosângela Maiorana Kzan e cuja coordenação entregamos ao padre Bruno Secchi, que é uma referência de trabalho

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DENIS CAVALCANTE e credibilidade nesse setor O segundo, certamente nunca realizarei, seria morar seis meses entre Roma e Florença. ♦ Essa fama de "mecenas" paraense já lhe deu muitas alegrias, conte algum fato curioso a esse respeito? ♦ Como você falou, é mais fama e alegrias. Como os recursos próprios são sempre muitos escassos, as leis de renúncia fiscal é que possibilitam as grandes ações do mecenato. A Lei Rouanet, federal, só se viabiliza para empresas de alta rentabilidade, a Semear, estadual, para os contribuintes de ICMS, a Lei municipal Tó Teixeira, para os de ISS e IPTU. Nós temos procurado nos enquadrar na última. ♦ Filho de peixe, peixinho é. Quem na família herdou do senhor esse gosto Incomensurável petas artes? ♦ Nas artes, minha filha Rosana. E na música, meu filho Eduardo.

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Benedito Nunes, um "bibliomaníaco", pensa em fundação como um bom destino para as obras acumuladas durante o ano lano escritório-mezanino. Acabaram por aumentar num crescente tal, que hoje, além da biblioteca propriamente dita, já existem as "Bicom" (bibliotecas complementares) sigla que ele criou para denominar novas estantes repletas de livros, distribuídas pela sala de estar, no quarto, no corredor, no quartinho da empregada que se foi, e por último, ufa!, num anexo da lavanderia. Fala com preocupação do futuro incerto de sua biblioteca e com indisfarçável orgulho, dos livros escritos ao longo da vida, cerca de quinze. O primeiro publicado em 1965, e o penúltimo em 2002. Volta no tempo e nos conta sobre a importância da obra do poeta Mário Faustino, e como conheceu a escritora Clarice Lispector. Reclama (e como!), da poluição sonora que assola a nossa outrora pacata cidade, e a longeva vida dos seus virulentos carapanãs. Abaixo, os melhores momentos da entrevista.

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DENIS CAVALCANTE ♦ O senhor é um escritor e ensaísta reconhecido nacional e internacionalmente. Porque nunca aceitou fazer parte de alguma Academia de Letras? ♦ Por uma questão de fidelidade ao meu título de membro da Academia dos Novos, sócio fundador que fui desse instituto (para não dizer sodalício) aos 13 anos de idade. Já sou, portanto, imortal. E uma vez imortal, sempre imortal. A imortalidade, como se sabe, é indivisível. ♦ Quem são seus principais interlocutores no melo intelectual aqui e lá fora? ♦ Em primeiro lugar são interlocutores os meus amigos, aqui e lá fora. Os melhores, porém aqui e lá fora são os inúmeros amigos silenciosos: brochados uns, encadernados outros, em língua nacional ou em idiomas estrangeiros, com os quais, não obstante, converso o tempo todo. ♦ Seu campo de interesse intelectual compreende com grande intensidade a filosofia, a literatura, a estética, a crítica, o ensaias-me. Mas se expande para outras áreas como a música. Como o senhor conseguiu abarcar campos tão vastos e com tal profundidade? Como é seu método de estudo e de produção? ♦ Consegui porque sou bibliomaníaco e ouvinte, desde cedo, de música clássica (funeral na terminologia local). Uma questão genética talvez. Meu método é cotidiano e obsessivo. Não tenho armários cheios de pão de ló, segundo consta na conhecida história do louco, e sim armários cheios de cadernos, em formato grande e em formato pequeno, nos quais anoto e comento os livros que vou lendo. ♦ Quantos livros o senhor já escreveu? Lembra todos os títulos? Qual lhe deu maior satisfação ao escrever? Qual considera o melhor? ♦ Individualmente, 15, entre 65 e 2002 (O Mundo de Clarice Lispector, Introdução à filosofia da Arte, Filosofia Contemporânea, O Dorso do Tigre, João Cabral de Melo Neto, Passagem para o poético - filosofia e literatura em Martin Heidegger, Farias Brito, O drama da linguagem, No tempo do niilismo e outros ensaios, Oswald Canibal, O Tempo na narrativa, Crivo de papel, Dois ensaios e duas lembranças, Hermenêutica e Poesia, Heidegger e Ser e Tempo). Conte mais quatro ou cinco com outros autores, tais como O Romantismo, O Modernismo. Ideias Estéticas no Brasil e A História da História da Literatura Brasileira (vol. IV da Latin American Literature, de Cambridge) e terá um total de quase vinte. Gostei muito de escrever O Tempo na narrativa. Uma boa diversão porque fui descobrindo coisas enquanto escrevia. Quanto ao meu melhor, que o digam os leitores. Mas para mim os meus melhores são os mais chatos, isto é, os de Filosofia, sempre elogiados por serem bonitos mas difíceis. ♦ O senhor foi amicíssimo do poeta Mário Faustino. Depois se tornou um dos maiores Intérpretes do poeta. Hoje, 40 anos depois, o senhor acha que foi reconhecido na proporção do seu valor? ♦ O reconhecimento de Mário Faustino como poeta é unanime de Norte a Sul. Quarenta anos depois, sai a quarta edição de "O Homem e sua Hora", seu único livro publicado em vida. ♦ O senhor é considerado um especialista em Clarice Lispector, corno foi que a conheceu? O que ♦ O senhor foi amicíssimo do poeta Mário Faustino. Depois se tornou um dos maiores intérpretes do poeta. Hoje, 40 anos depois, o senhor acha que ele foi reconhecido na

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ENTREVISTAS E PERFIS proporção do seu valor? ♦ O reconhecimento de Mário Faustino como poeta é unânime de Norte a Sul. Quarenta anos depois, sai a quarta edição de "O Homem e sua Hora", seu único livro publicado em vida. ♦ O senhor é considerado um especialista em Clarice Lispector, como foi que a conheceu? O que mais o atraiu nela? ♦ Não me considere assim! Em literatura, são especialistas quase sempre os que não gostam de literatura. Escrevo sobre aquilo que se entranhou à minha experiência. Assim a obra de Clarice. Ouvi falar na autora antes de conhecê-la. Já contei isso no escrito Dona Clarice, incluído em Dois Ensaios e Duas lembranças. Conheci-a no Rio, em visita à casa dela, promovida pelo nosso saudoso amigo Aloisio Magalhães, que era compadre da escritora. Quando Clarice passou por Belém na época da Segunda Guerra Mundial, em 1942, eu tinha doze anos e não ouvia falar desta senhora, então amiga do professor Francisco Paulo Mendes. ♦ A maioria dos filósofos é agnóstica. Qual é sua relação com Deus? ♦ Como agnóstico, sou perguntador. O que é que você entende por Deus? Assim perguntado. Deus parece um sujeito conhecido. ♦ A minha biblioteca se divide em quatro secções: filosofia, estética e crítica, a primeira. Poesia, ficção nacional e estrangeira, a segunda, Literatura portuguesa e brasiliana (livros brasileiros em geral), a terceira. Livros regionais, revistas, teses, a quarta, Quantos livros? Não sei dizer-lhe. Nunca os contei nem cataloguei. Mas continuam entrando. E o futuro dessa biblioteca é uma incógnita. Quem sabe um dia uma fundação. ♦ Qual a importância da Maria Sylvia na tua vida? ♦ É minha companheira e minha melhor amiga. Como companheira, eu a tenho como aliada. Sem a Maria Sylvia eu não teria escrito tudo que escrevi. Ela tem aguentado com infinita paciência há mais de cinquenta anos, isso que eu chamo da parte "prática" da vida. Nós nos conhecemos ainda bem jovens quando estudávamos no Colégio Moderno, mas só começamos a namorar na Faculdade de Direito, e estamos juntos até hoje. ♦ Com que frase o senhor gostaria de ser lembrado? ♦ Frase? Deus me livre e guarde! A frase vira lugar-comum. E disso Flaubert fez um singular dicionário. ♦ Fazendo um balanço de sua vida e sua obra, o senhor se ressente de ter ficado em Belém? Podia ter crescido mais ou produzido mais se tivesse se instalado em outra cidade, mais desenvolvida? ♦ Nunca. Daqui só lamento a falta de grandes bibliotecas, a poluição sonora começando às 7 da manhã e a longa vida dos carapanãs. Lutfala Bitar ainda não inventariou seu acervo, mas possui centenas de obras de arte no escritório de sua construtora O LIBERAL – CARTAZ – BELÉM, DOMINGO, 23 DE FEVEREIRO DE 2003 Lutfala, um empresário apaixonado por arte

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DENIS CAVALCANTE Dar obras de artistas paraenses de presente aos amigos virou rotina na vida do empreiteiro, colecionador e mecenas ■ DENIS CAVALCANTE Especial paro O LIBERAL O entrevistado desse domingo é o "doublé" de empreiteiro e amante das artes, o mecenas Lutfala Bitar. Dono de uma simplicidade espartana, ele me recebeu em sua empresa, para essa entrevista. Logo na entrada, o primeiro susto: fui recepcionado por uma "overdose" de obras do genial Ruy Meira. Nas paredes dos corredores, salas, salões, enfim por todo o prédio, centenas, talvez milhares de obras de arte, de todos os estilos, e para todos os gostos, em sua grande maioria de autores regionais. A empresa é uma pinacoteca pulsante e em constante ebulição. Lá convivem, em perfeita harmonia, obras de artistas renomados como Emanuel Nassar, Benedito Melo, Dina de Oliveira, Marinaldo Santos, Paulo Andrade, Klinger, Jocastos, Tarsila do Amaral, Jorge Eiró, Cláudio Tozzi, Waldir Sarubbi, Eliene Tenório... Como também artistas anónimos, esses últimos, ainda à procura de um lugar ao sol. Encontrei até em meio ao acervo, um surpreendente desenho do prefeito Edmílson Rodrigues. No colóquio improvisado até meu fiel gravador resolveu me deixar na mão e fazer "forfait". Paciência. Lutfala falou além de sua paixão pelas artes, sobre alguns hábitos de sua rotina diária, que se inicia obrigatoriamente pela salutar caminhada, às 5 da manhã, acompanhado pela "gang da Doca" (palavras ta com uma gozação para os amigos intelectuais: "Na próxima encarnação vocês voltam empreiteiros, porque eu, tratarei de voltar artista!" aprimoramento do desenho e pelo figurativo. 0 abstrato ou conceituai, se for o caso, poderia vir depois como uma opção consciente. É importante não convivo são do meio artístico, pintores, arquitetos, fotógrafos, jornalistas, marcharias, curadores, Incluindo toda uma gama de apreciadores de arte, de música e da pergunta não tenho como quantificar mas, com certeza, faço isso o mais frequentemente possível, até porque presenteando amigos com obras de artistas seduz "Stalingrado - O Cerco Fatal" de Antony Beevot Como você vê sou "merecendente" do título de eclético, que o Oliveira me nominou. ♦ Recentemente você editou um livro de autoria de sua filha, por sinal uma edição primorosa sobre o altista plástico Valdir Surubbi, qual é o seu próximo projeto? ♦ A Rosana com a publicação dos trabalhos sobre o Ruy Meira e recentemente sobre o Valdir Sarubbi está resgatando e preservando a memória e a obra de nossos artistas. Ela tem a Intenção de realizar um trabalho sobre os nossos aquarelistas, o que poderia se transformar em um projeto nosso também. ♦ Ainda sobre o assunto, dos escritores regionais cite alguns que mais lhe agradam. ♦ Eu tenho lido com muito agrado a Maria Lúcia Medeiros, Haroldo Maranhão, Benedito Monteiro e li, no final do ano, "O Homem e sua Hora" do poeta Mário Faustino (que

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ENTREVISTAS E PERFIS me foi presenteado pela Maria Sylvia Nunes), os poemas do Paes Loureiro, Bruno de Menezes, do Max Martins e do Simão Bitar, com destaque para "O Outro Lado da Lua" e também a Antologia de Ruy Barata, são outras referências a citar. ♦ O que ficou (e se incorporou ao ■ Algo que o fascina, e como ele mesmo diz: "Tenho o péssimo hábito de ler vários livros concomitantemente". Se diz frustrado por não ter conseguido ler a obra completa de Proust, mas, resignado, comenta: "O senador Jarbas Passarinho uma vez me confidenciou que também não conseguiu". Cita também em tom de blague, uma frase do empresário e bibliógrafo José Midlin, que certa vez declarou que precisaria viver no mínimo 300 anos, para ler todos os livros que lhe interessavam. Modesto, Lutfala declara que para ele bastariam trinta. Na entrevista arrisca ainda alguns conselhos para os artistas iniciantes. Se emociona ao olhar uma foto em preto e branco na parede, com os colegas da antiga redação da "Província cio Pará": Oswaldo Mendes, Sá Leal, Linomar Bahia, Moacir Calandrini, dentre outros. E arrema♦ Não lembro, mas certamente comecei a formar o acervo com trabalhos presenteados pelo Ruy Meira quando, como estudante, realizava o estágio profissional em seu escritório, que se misturava com o ateliê e nós, ali, con-vivíamos num ambiente de aprendizado da engenharia, usufruindo da experiência do artista que realizava trabalhos de cerâmica, escultura e óleos sobre tela. A mais recente aquisição foi um trabalho da Eliene Tenório, exposto na venissage do último dia 8, na Galeria Elf, do amigo Gileno Chaves. ♦ Que conselho você daria para o artista que está dando os primeiros passos? ♦ Aconselharia que os primeiros passos devem começar pelo aprendizado sobre história da arte importante, assim como a convivência com os artistas frequentando suas exposições e ateliês o que sempre gera informação e educação do olhar. Estudar e observar os trabalhos dos grandes mestres e, enfim, descobrir o próprio talento. ♦ O seu acervo é considerado um dos melhores do Pará, qual o futuro dessas obras? ♦ Na empresa ainda não pensamos sobre isso. ♦ Aos amigos da área artística, em tom de graça, você tem proposto trocar de lugar: passar a ser artista em lugar de empresário. Mas você tem tentado conciliar essas duas condições. Acha que tem sido bem-sucedido? ♦ Não. Não é bem assim, acontece é que os amigos com quem mais em sua grande maioria. Pelas minhas atividades de empresário e empreiteiro às vezes me "discriminam" carinhosamente, e eu revido dizendo que na próxima encarnação voltarei intelectual e eles empreiteiros. Alguns falam que preferem uma

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DENIS CAVALCANTE troca imediata, não precisa esperar tanto. De certo modo acabo conciliando várias situações e tenho certeza que sou muito querido no meio de todos. ♦ Você tem Inventariada toda a sua pinacoteca? Por onde da está espalhada? De quantos trabalhos já se desfez para presentear os amigos? ♦ Não há inventário atualizado e os trabalhos estão na sede da empresa em Belém, em algumas filiais como Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Macapá, Manaus e Brasília. Sobre a segunda parte compartilhando o prazer e a missão de estimular o mercado dos produtores de arte. ♦ Quais os artistas paraenses pelos quais tem mais empatia? ♦ Muitos, mas eu falaria de todos citando apenas um, o Ruy Meira, como poeta, escultor ceramista e pintor, desde as suas fases figurativa, cubista, ao impressionista à abstrata, como sendo o nosso artista maior e a síntese de todos os outros produtores da arte paraense. ♦ Quais os melhores livros que já leu? E os mais recentes? ♦ Embora sem tempo, de maneira desordenada, e com o péssimo hábito de ler simultaneamente vários livros e com leituras absolutamente ecléticas, como dizia meu amigo coronel Oliveira, sou um leitor compulsivo, já li muita coisa do ítalo Calvino com destaque para as "Cidades Invisíveis" e "Amores Difíceis", quase tudo do Stefan Zwelg que junto com a mulher se suicidou, no início da guerra, em Petrópolis, na rua Gonçalves Dias n° 21, local que fiz questão de visitar Li muito de Antônio Tabucchi, do Jorge Luiz Borges, alguns clássicos da nossa língua, dos franceses, alemães, dos russos de antes da revolução e do dramaturgo inglês, Incluindo seus sonetos. A "Soror Juana lnêz de La Cruz - As Armadilhas da Fé", do Otávio Paz, assim como "Tempo da Memória" de Norberto Bobbio e o "Manuscrito de Mediavilla" do Isaias Pes-soti, são boas leituras. Sem esquecer "Napoleão", de Stendhal (o mesmo de "vermelho e o Negro") que foi contemporâneo do Imperador, e seu auxiliar no Palácio das Tulhertas, e não poderia deixar de falar também dos chilenos Neruda e Gabriela Mistral. Quando goste muito de um livro Aço presenteando aos amigos, com forte recomendações para ♦ O que de melhor acha que fez nessa época? • Eu não cheguei a ser propriamente um jornalista, era um repórter-setor, como me classificava o Cláudio Sá Leal. Foi uma época muito rica, pela convivência m grandes figuras do jornalismo! terra e lembro que perdi um pouco da minha timidez, mas hoje quando falo aos amigos que fui tímido ou que ainda sou, não sei porque, eles ficam rindo. ♦ Você é considerado o melhor relações-públlcas dos seus negócios. Comparece a quase tudo para que é convidado. Alguns juram tê-lo visto em dois lugares ao mesmo tempo. Como se você tivesse o dom divino da ubiquidade. Como consegue realizar essa façanha? Como organiza sua agenda para ter essa presença tão constante? ♦ Essa ubiquidade de que me acusam ou festejam é sempre motivo de muita alegria e diversão, e por esse motivo resolvi não desmentir dizendo que isso é próprio dos santos canonizados, como a história que se refere a Santo Antônio de Pádua e aí o pessoal acha que cheguei aos extremos da provocação. Na verdade, o que ocorre é que todos esses lugares, como casas de amigos, galerias de arte, entidades de classe, festas, quermesses (que estão acabando, mas ainda restam as de San Genaro e a da Trindade), bares, me

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ENTREVISTAS E PERFIS deixam sempre muito alegre e me desviam das durezas do dia a dia. ♦ Fora da empresa, qual o grande projeto que ainda não realizou? ♦ São muitos, mas vou citar dois, o primeiro é o projeto dos Meninos de Rua, a partir de uma semente lançada pelo Paulo Barroso, e que hoje com a participação do setor privado, do Estado, da Prefeitura, da Câmara Setorial de Responsabilidade Social da ACP, tendo à frente o entusiasmo e dedicação da Rosângela Maiorana Kzan e cuja coordenação entregamos ao padre Bruno Secchi, que é uma referência de trabalho e credibilidade nesse setor O segundo, certamente nunca realizarei, seria morar seis meses entre Roma e Florença. ♦ Essa fama de "mecenas" paraense já lhe deu muitas alegrias, conte algum fato curioso a esse respeito? ♦ Como você falou, é mais fama e alegrias. Como os recursos próprios são sempre muitos escassos, as leis de renúncia fiscal é que possibilitam as grandes ações do mecenato. A Lei Rouanet, federal, só se viabiliza para empresas de alta rentabilidade, a Semear, estadual, para os contribuintes de ICMS, a Lei municipal Tó Teixeira, para os de ISS e IPTU. Nós temos procurado nos enquadrar na última. ♦ Filho de peixe, peixinho é. Quem na família herdou do senhor esse gosto Incomensurável petas artes? ♦ Nas artes, minha filha Rosana. E na música, meu filho Eduardo. Benedito Nunes, um "bibliomaníaco", pensa em fundação como um bom destino para as obras acumuladas durante o ano lano escritório-mezanino. Acabaram por aumentar num crescente tal, que hoje, além da biblioteca propriamente dita, já existem as "Bicom" (bibliotecas complementares) sigla que ele criou para denominar novas estantes repletas de livros, distribuídas pela sala de estar, no quarto, no corredor, no quartinho da empregada que se foi, e por último, ufa!, num anexo da lavanderia. Fala com preocupação do futuro incerto de sua biblioteca e com indisfarçável orgulho, dos livros escritos ao longo da vida, cerca de quinze. O primeiro publicado em 1965, e o penúltimo em 2002. Volta no tempo e nos conta sobre a importância da obra do poeta Mário Faustino, e como conheceu a escritora Clarice Lispector. Reclama (e como!), da poluição sonora que assola a nossa outrora pacata cidade, e a longeva vida dos seus virulentos carapanãs. Abaixo, os melhores momentos da entrevista. ♦ O senhor é um escritor e ensaísta reconhecido nacional e internacionalmente. Porque nunca aceitou fazer parte de alguma Academia de Letras? ♦ Por uma questão de fidelidade ao meu título de membro da Academia dos Novos, sócio fundador que fui desse instituto (para não dizer sodalício) aos 13 anos de idade. Já sou, portanto, imortal. E uma vez imortal, sempre imortal. A imortalidade, como se sabe, é indivisível. ♦ Quem são seus principais interlocutores no melo intelectual aqui e lá fora? ♦ Em primeiro lugar são interlocutores os meus amigos, aqui e lá fora. Os melhores, porém aqui e lá fora são os inúmeros amigos silenciosos: brochados uns, encadernados outros, em língua nacional ou em idiomas estrangeiros, com os quais, não obstante,

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DENIS CAVALCANTE converso o tempo todo. ♦ Seu campo de interesse intelectual compreende com grande intensidade a filosofia, a literatura, a estética, a crítica, o ensaias-me. Mas se expande para outras áreas como a música. Como o senhor conseguiu abarcar campos tão vastos e com tal profundidade? Como é seu método de estudo e de produção? ♦ Consegui porque sou bibliomaníaco e ouvinte, desde cedo, de música clássica (funeral na terminologia local). Uma questão genética talvez. Meu método é cotidiano e obsessivo. Não tenho armários cheios de pão de ló, segundo consta na conhecida história do louco, e sim armários cheios de cadernos, em formato grande e em formato pequeno, nos quais anoto e comento os livros que vou lendo. ♦ Quantos livros o senhor já escreveu? Lembra todos os títulos? Qual lhe deu maior satisfação ao escrever? Qual considera o melhor? ♦ Individualmente, 15, entre 65 e 2002 (O Mundo de Clarice Lispector, Introdução à filosofia da Arte, Filosofia Contemporânea, O Dorso do Tigre, João Cabral de Melo Neto, Passagem para o poético - filosofia e literatura em Martin Heidegger, Farias Brito, O drama da linguagem, No tempo do niilismo e outros ensaios, Oswald Canibal, O Tempo na narrativa, Crivo de papel, Dois ensaios e duas lembranças, Hermenêutica e Poesia, Heidegger e Ser e Tempo). Conte mais quatro ou cinco com outros autores, tais como O Romantismo, O Modernismo. Ideias Estéticas no Brasil e A História da História da Literatura Brasileira (vol. IV da Latin American Literature, de Cambridge) e terá um total de quase vinte. Gostei muito de escrever O Tempo na narrativa. Uma boa diversão porque fui descobrindo coisas enquanto escrevia. Quanto ao meu melhor, que o digam os leitores. Mas para mim os meus melhores são os mais chatos, isto é, os de Filosofia, sempre elogiados por serem bonitos mas difíceis. ♦ O senhor foi amicíssimo do poeta Mário Faustino. Depois se tornou um dos maiores Intérpretes do poeta. Hoje, 40 anos depois, o senhor acha que foi reconhecido na proporção do seu valor? ♦ O reconhecimento de Mário Faustino como poeta é unanime de Norte a Sul. Quarenta anos depois, sai a quarta edição de "O Homem e sua Hora", seu único livro publicado em vida. ♦ O senhor é considerado um especialista em Clarice Lispector, corno foi que a conheceu? O que ♦ O senhor foi amicíssimo do poeta Mário Faustino. Depois se tornou um dos maiores intérpretes do poeta. Hoje, 40 anos depois, o senhor acha que ele foi reconhecido na proporção do seu valor? ♦ O reconhecimento de Mário Faustino como poeta é unânime de Norte a Sul. Quarenta anos depois, sai a quarta edição de "O Homem e sua Hora", seu único livro publicado em vida. ♦ O senhor é considerado um especialista em Clarice Lispector, como foi que a conheceu? O que mais o atraiu nela? ♦ Não me considere assim! Em literatura, são especialistas quase sempre os que não gostam de literatura. Escrevo sobre aquilo que se entranhou à minha experiência. Assim a obra de Clarice. Ouvi falar na autora antes de conhecê-la. Já contei isso no escrito Dona Clarice, incluído em Dois Ensaios e Duas lembranças. Conheci-a no Rio, em visita

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ENTREVISTAS E PERFIS à casa dela, promovida pelo nosso saudoso amigo Aloisio Magalhães, que era compadre da escritora. Quando Clarice passou por Belém na época da Segunda Guerra Mundial, em 1942, eu tinha doze anos e não ouvia falar desta senhora, então amiga do professor Francisco Paulo Mendes. ♦ A maioria dos filósofos é agnóstica. Qual é sua relação com Deus? ♦ Como agnóstico, sou perguntador. O que é que você entende por Deus? Assim perguntado. Deus parece um sujeito conhecido. ♦ A minha biblioteca se divide em quatro secções: filosofia, estética e crítica, a primeira. Poesia, ficção nacional e estrangeira, a segunda, Literatura portuguesa e brasiliana (livros brasileiros em geral), a terceira. Livros regionais, revistas, teses, a quarta, Quantos livros? Não sei dizer-lhe. Nunca os contei nem cataloguei. Mas continuam entrando. E o futuro dessa biblioteca é uma incógnita. Quem sabe um dia uma fundação. ♦ Qual a importância da Maria Sylvia na tua vida? ♦ É minha companheira e minha melhor amiga. Como companheira, eu a tenho como aliada. Sem a Maria Sylvia eu não teria escrito tudo que escrevi. Ela tem aguentado com infinita paciência há mais de cinquenta anos, isso que eu chamo da parte "prática" da vida. Nós nos conhecemos ainda bem jovens quando estudávamos no Colégio Moderno, mas só começamos a namorar na Faculdade de Direito, e estamos juntos até hoje. ♦ Com que frase o senhor gostaria de ser lembrado? ♦ Frase? Deus me livre e guarde! A frase vira lugar-comum. E disso Flaubert fez um singular dicionário. ♦ Fazendo um balanço de sua vida e sua obra, o senhor se ressente de ter ficado em Belém? Podia ter crescido mais ou produzido mais se tivesse se instalado em outra cidade, mais desenvolvida? ♦ Nunca. Daqui só lamento a falta de grandes bibliotecas, a poluição sonora começando às 7 da manhã e a longa vida dos carapanãs.

Mimos são o máximo para os leitores de Heloisa A carioca que começou escrever aos 40 anos credita a Edgar Allan Poe e a sua avó o tempero na medida certa de seus textos DENIS CAVALCANTE - Especial para O Liberal A carioca Heloísa Seixas procura deixar sempre que possível em seus textos uma marca indelével de mistério. Passeia com a graça e a leveza de um beija-flor, entre o romance, o conto e a crônica. Mas é principalmente em seus "Contos Mínimos", publicados todo domingo no "Jornal do Brasil", que os leitores podem se deliciar com seu estilo delicado e a visão feminina do quotidiano da dura vida urbana. Nesta entrevista, Heloísa fala da influência marcante que teve em sua infância do escritor inglês Edgard Allan Poe, através das histórias que seu pai lhe contava. Histórias que a avó Maria também narrava com

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DENIS CAVALCANTE maestria - ora aumentando, muitas vezes inventando, mas principalmente atingindo sempre seu objetivo: deixar as crianças apavoradas, "mortas de medo". Ela também fala sobre o convívio sereno e sem conflitos com o marido, o também escritor Ruy Castro, ele escrevendo não-ficção e ela ficção. Minimiza humilde os prémios que recebeu recentemente da Academia Brasileira de Letras, pelos livros "Através do vidro" e "Contos Mínimos": "... Às vezes um encontro fortuito com um leitor, enxergar o brilho em seu olhar ao falar de um livro seu, marca mais..." justifica. Narra ainda porque começou a escrever tão tarde (somente aos quarenta), talvez esse o motivo de contos tão bem elaborados. Afinal, os contos amadureceram (como os bons vinhos) durante longo tempo. Como ela mesmo disse: "...0 fato é que em mim as histórias parece que transbordam". Contrastando com o que ela escreve, Heloísa não é nem um pouco tímida, muito pelo contrário: é alegre, descontraída... Conversar com ela foi um incomensurável prazer. ♦ Seus contos têm um "que" de mistério. De onde veio essa influência? ♦ Meus contos, assim como tudo o mais que escrevo, têm de fato uma certa aura de mistério. Sempre desde muito jovem, a literatura de horror e terror me fascinou, embora meu interesse tenha sido sempre o de buscar, nessa área, uma literatura de boa qualidade. É claro que estou falando, acima de tudo, de Edgard Allan Poe um autor que fez parte da minha vida desde muito jovem. Meu pai lia para mim, quando eu era criança, as histórias de Poe, não exatamente as de terror, mas mais as de aventura, como "O escaravelho de ouro", que era uma de suas prediletas. Por acaso, agora mesmo estou lendo "A narrativa de Arthur Gordon Pynn", que acaba de sair em português, e tendo um delicioso contato comesse tipo de narrativa de aventura, que Poe faz muito bem. Mas, voltando à questão do mistério, outra influência muito importante para mim foi a de minha avó, que também gostava de contar histórias. Só que nem sempre lia dos livros, como meu pai. Gostava mais de contar suas próprias histórias, na maioria assombradas (muitas inventadas por ela, creio, ou pelo menos parcialmente inventadas). Nós, os netos, ficávamos em volta dela sem piscar os olhos, hipnotizados. Minha avó tinha uma capacidade fantástica de contar história, de fazer suspense, de provocar medo. Essa capacidade, esse dom do conto, foi algo que me fascinou sempre. Não é à toa que eu dediquei meu primeiro livro, o livro de contos "Pente de Vénus", a ela, Maria. ♦ Por que você escolheu escrever crónicas em vez de contos e romances? ♦ Não escolhi crónicas. Escrevo contos, romances e crónicas também, embora neste último caso elas estejam sempre num meio caminho entre a crónica e o conto (estou, é claro, falando dos "Contos mínimos", que publico na revista Domingo do Jornal do Brasil). Até hoje, publiquei três romances (A porta", 'Diário de Perséfone" e Através do vidro') e um livro de contos, que já citei, "Pente de Vénus". Além de uma compilação de 50 "contos mínimos" que saíram no ano passado em livro. Ainda sobre o assunto, você já se sentiu discriminada por escrever crónicas, já que alguns críticos e escritores as rotulam como uma "literatura menor"? ♦ Nenhum género é literatura menor. Não creio que as pessoas sérias, que se interessam verdadeiramente por literatura, possam achar isso. Quem seria capaz de dizer que a crônica é um género menor depois de ler Rubem Braga? Ou Elsie Lessa? Ou Paulo

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ENTREVISTAS E PERFIS Mendes Campos? ♦ Como você recebeu a premiação dos livros "Através do vidro" e "Contos Mínimos" pela UEB, ligada direta e visceralmente à Academia Brasileira de Letras? ♦ Fiquei feliz, claro. Qualquer prémio é uma forma de reconhecimento. Mas há outras formas que às vezes até marcam mais, como por exemplo um encontro com um leitor, um brilho que você vê num olhar ao falar de um livro seu. ♦ Você se considera uma escritora têmpora? Por que levou tanto tempo para começar a escrever? ♦ É, eu comecei a escrever com quase 40 anos. Não foi uma escolha. Foi assim porque foi assim. Aconteceu e pronto. Não parei mais. ♦ Algumas vezes lhe falta inspiração para escrever todo domingo no JB? ♦ Nunca. Ando pelas ruas enxergando "contos mínimos" por toda parte. Ou sonho com eles. Não sei se é porque esperei tempo demais para começar a escrever, mas o fato é que, em mim, as histórias parece que transbordam. ♦ As pessoas que leem você têm uma imagem distorcida. Você vende a imagem de uma pessoa tímida, retraída... Por que esse contraste entre o que escreve e o que é? ♦ Não sei. É um mistério. Eu tenho consciência de que crio uma espécie de "persona" quando escrevo e que, muitas vezes, ao me conhecerem, as pessoas dizem: "Puxa, mas você é tão diferente na vida real". Não sei por que é assim. Na verdade, eu sou também aquela que escreve. Tenho esse lado solitário e sombrio, que aflui, digamos assim, quando eu me sento para escrever. Tudo isso faz parte do mistério da literatura. ♦ Você é casada com o escritor Ruy Castro. Como vocês convivem escrevendo coisas tão diferentes, assuntos totalmente diversos? ♦ É ótimo. Talvez se escrevêssemos coisas parecidas, pudéssemos ter algum tipo de conflito, mas, do jeito que é perfeito. Ele escreve não ficção, eu escrevo ficção. A marca dele é o humor, a minha é o mistério. É uma troca interessante, que só nos faz bem. ♦ Qual é a sua opinião sobre o engajamento de intelectuais, artistas na política partidária; na sua opinião Regina Duarte "errou" ao expor seus "medos". ♦ Acho que liberdade de expressão é isso: todo mundo tem o direito de dizer o que pensa. E todo mundo tem o direito de concordar ou discordar. Aqueles que dizem, também têm de arcar com as pressões. Acho tudo natural. Faz parte da democracia. De bem com a vida, Ubaldo diz que este é seu ano O autor de Diário do Farol é indicado pela terceira vez ao Jabuti e tem filmes e peças produzidos baseados em sua obra ■ DENIS CAVALCANTE Especial paro O LIBERAL A voz é grave, gutural, pausada e como não podia deixar de ser, mansa, incrivelmente mansa. Algumas vezes, falou tão baixo que foi necessário repetir as respostas. Bem humorado, porém lacónico, o escritor respondeu com objetividade tudo que lhe foi perguntado. João Ubaldo Ribeiro anda de bem com a vida. Embora "ligeiramente" preocupado com duas pequenas intervenções cirúrgicas marcadas para o final do mês

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DENIS CAVALCANTE de março (uma na vesícula e outra nas pálpebras), o escritor saboreia o sucesso do filme dirigido pelo diretor e amigo Cacá Diegues, "Deus é Brasileiro," lançado no começo de fevereiro e que já alcançou em apenas um mês de exibição a incrível marca de 1 milhão de espectadores, um recorde. O filme é baseado em um dos seus contos, "O santo que não acreditava em Deus", que conta a história da visita de Deus ao Nordeste, à procura de um homem a ser santificado. João Ubaldo até participou do primeira versão do roteiro, mas como ele mesmo disse, "eu não tenho muita paciência pra roteiro. Ainda mais que Cacá fez 13 tratamentos no roteiro. Eu não tenho paciência nem pra um". "Viva o povo brasileiro" um dos seus maiores sucessos literários, vai para a tela sob a tutela do diretor André Luiz de Oliveira, o mesmo de "Louco por cinema" e "Meteorango Kid". 'A casa dos budas ditosos" virou peça e está em fase de montagem sob a direção do cineasta Domingos de Oliveira, tendo no papel principal a brilhante Fernandinha Torres. Completando a overdose de João Ubaldo ainda teremos esse ano um monólogo, ainda em fase de negociação, em cima do último livro do escritor, "Diário do Farol", levado ao palco pelo exímio ator e diretor Raul Cortez. "Foi uma surpresa o sucesso do livro", diz, arrematando, que "jamais pensei que a história de um psicopata pudesse dar certo". E se não bastasse, o escritor acaba de ser indicado para o terceiro prémio Jabuti 2003. Que ele já ganhou duas outras vezes. Por conta de tudo isso o bom baiano não tem tido um momento de sossego. Agora toda vez que coloca sua indefectível bermuda, a camiseta, e o par de chinelos, e sai a caminhar como um simples mortal pelas ruas do Leblon, bairro em que reside no Rio, recebe elogios e também alguns poucos puxões de orelha de fãs e leitores mais afoitos. "Normalmente as pessoas são muito simpáticas, muito carinhosas comigo. De vez em quando aparece um chato ou outro, e aí alguns até extrapolam", conta. "Outro dia um sujeito depois de tomar umas e outras, entrou no bar em que vou aos sábados e domingos, tomou da minha mão o copo duplo com gelo em que eu bebericava inocentemente meu guaraná diet, meteu literalmente o nariz dentro do copo, deu uma cheirada e justificouse dizendo: queria ver para crer se o conteúdo era mesmo guaraná e não uísque" (risos). Ele arremata a história deixando bem claro que está momentaneamente abstêmio, mas só por causa das cirurgias; depois, são outros quinhentos... Violência - O escritor anda meio mofino e diz por quê. Além das cirurgias, vive preocupado, e muito, com a violência que assola a cidade. "Hoje o cidadão carioca está sitiado pelo crime, pelo tráfico organizado. Às vezes chego até a pensar que perdemos a guerra contra o banditismo", lamenta. Na sua opinião colocar o Exército nas ruas não é a solução. "Militar não é polícia e não foi treinado para tal". Outra grande preocupação sua é com a iminente guerra entre EUA e Iraque. "É horrível saber que um país pode ser arrasado num simples apertar de um botão. Que uma bomba pode arrasar quarteirões. A maioria das pessoas está mais preocupada com o aumento dos preços, essas coisas. Nós deveríamos estar preocupados é com a tragédia humana que se abaterá sobre o Iraque. Com os milhares de mortos, consequentemente a miséria, as crianças desabrigadas, as doenças, a fome...". Perguntado sobre suas idas cada vez mais escassas à Academia Brasileira de Letras, ele responde "baianamente", saindo pela tangente. "Tá muito calor aqui no Rio. Sem contar que do Leblon até o Centro, percorre-se uma distância respeitável, além do mais tem a

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ENTREVISTAS E PERFIS indumentária... Paletó, calça, meias, sapatos". Mas prometeu que em abril, assim que a temperatura amainar um pouco, e ele se recuperar das cirurgias, irá mais amiúde para o famoso chá das cinco da Academia. Será? Quando lhe perguntei sobre o próximo livro (estava previsto um livro sobre o Leblon), contando o dia a dia do bairro que escolheu para morar depois que deixou Itaparica, ele desconversa. O livro inclusive já tinha, ou já tem, até nome escolhido: "Leblonianas". Ele justifica o adiamento dizendo que ainda não está preparado para escrever sobre o bairro. "Quem sabe mais tarde... Quando inicio um projeto de livro, vou em frente, escrevo todo dia. Livro é que nem bolo, se parar de mexer, desanda". Relaxado, depois de merecedora férias em Itaparica, sua ilha natal, o escritor confessa que é lá que recarrega suas baterias. "Aliás fui um dos poucos escritores da minha geração que não saí da minha terra, a Bahia, lá fiquei até meus quarenta e tantos anos. Fui para o exterior fazer mestrado em fevereiro de 64 e quando voltei, em meados de 65, não encontrei ninguém mais da minha turma. Antigamente era comum o artista, o escritor migrar para o Sul, à procura de melhores oportunidades, mais espaço. Era aquela história de pegar o "Ita" no Norte" (risos). Lá é minha terra, meu canto, quando posso fico quinze dias, se possível até um mês. Minha mulher também gosta muito de lá. Sem contar que revejo e mato as saudades dos amigos, afinal foi lá que vivi grande parte de minha vida. Ignacio de Loyola esteve em Belém para lançar "Anónimo Célebre", seu mais recente livro Um escritor que vive entre a solitude e a solidão Autor de "Veia Bailarina", Ignacio de Loyola Brandão diz que nunca foi um pessimista, e por isso, escreve ■ DENIS CAVALCANTE Especial para O LIBERAL Pernas cruzadas, descontraído, os óculos repousando ora na ponta do nariz, ora passeando distraído entre os dedos, o escritor estava completamente à vontade, mesmo com a insinuante lente da fotógrafa à procura de seu melhor ângulo. A calma interior que demonstra com regularidade é uma conquista forçada. Por ironia do destino, foi a descoberta de uma grave doença -um aneurisma cerebral - que mudou radicalmente a vida do escritor paulista Ignacio de Loyola Brandão. Antes estressado, a ponto de partir em desabalada carreira para atravessar uma rua com o sinal prestes a fechar, ele hoje é um homem sereno, que fala com tranquilidade sobre a crítica a cada livro seu lançado: "Não dou muita bola para a crítica", afirmou. "No momento que a crítica critica, o livro já está pronto", arrematou, violentando o muro dos incomodados. Neste encontro, Brandão fala também sobre a doença que o pegou de surpresa, acerca do prazer de estar vivo e consequentemente da redescoberta do sentido amplo da palavra "viver". Escrevendo crónicas, artigos, ensaios, romances, ele procura instigar o leitor a descobrir por trás do óbvio aquele "algo mais" que costuma esconder sutilmente em seus elaborados textos. Quando esteve em Belém lançando seu 24° livro, "Anónimo

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DENIS CAVALCANTE Célebre", na VI Feira Pan-Amazônica do Livro, ele falou também de suas amizades no meio literário, como o recentemente falecido Roberto Drummond, Moacyr Scliar e Dionísio da Silva, entre outros. Revela também a necessidade visceral de escrever sua crónica publicada semanalmente no "Estado de São Paulo". Define-se também como um sonhador em busca da solitude, jamais da solidão. Veja abaixo os melhores momentos da entrevista exclusiva. ♦ Você passou um tempão sem escrever em jornais, por quê? ♦ Não é bem assim... Abandonei o jornal diário, mas continuei em revistas ("Claudia", "Planeta" e finalmente a "Vogue"). O que eu fiz nesse interregno de 11 anos (entre 79 e 90) abandonei sim, a imprensa num todo, não fiz mais nada nesse período. Tinha sido demitido da Três (revista) e decidi que era uma tentativa de viver do que eu escrevia. Meu livro "Zero" tinha sido liberado, estava vendendo bem recebia muitos convites para fazer palestras, oficinas literárias, crónicas eventuais em jornais e assim sobrevivi muito bem até que o Collor me fez voltai; e assumi a direção da "Vogue", onde estou até hoje. O Você já fez de tudo, escreveu crónicas em jornais, revistas, publicou inúmeros livros. Atei o que você mais gosta de fazer? ♦ Adoro uma coisa: meus livros é claro, estão em primeiro lugar Adoro fazer minha crónica semanal no "Estado de Sã Paulo" toda sexta-feira. É um lugar que faço às vezes um laboratório de textos em que algumas crónicas se transformam em contos. Alguns desses contos foram pro "Homem que odiava a Segunda-feira". É a minha visão de São Paulo, meu protesto, meu desabafo, minha brincadeira, enfim: é o meu diálogo com o leitor Essa crónica é uma necessidade, é uma coisa vital pra mim. O Em quantos países teus livros foram editados? ♦ Outro dia fiz as contas. Acho que em 11. Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Cuba, Coreia do Sul, Noruega... ♦ Sua obra é vasta... como consegue conviver com a crítica a cada livro lançado? ♦ Da mesma forma que a gente convive com a necessidade de educar os filhos. Quando você publica um livro, com certeza vai ganhar uma crítica. Essa crítica tanto pode ser positiva ou negativa. Se é positiva, eu me alegro, mas eu procuro saber se ela "pegou" o rumo certo do livro. Tem também uma coisa: no momento que a "crítica" critica, o livro já está publicado, já está pronto! ♦ O Pedro Nava, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Rezende formavam uma confraria. Você tem alguém da tua geração que seja seu interlocutor particular, de sua intimidade? ♦ Diria que tenho. Tive durante muitos anos um contato muito estreito, éramos muito unidos o Antônio Torres, o João Antônio e eu. O João infelizmente morreu. Também aí se ligam nessa espécie de troca o Roberto Drumond (morto recentemente), o Márcio Souza, o Moacyr Scliar, que esteve também aqui em Belém, e finalmente o Dionísio da Silva escritor e professor. Esse eu tenho tanta ligação que é o primeiro que lê meus livros, antes no manuscrito. ♦ Depois que você pulou a fogueira do aneurisma, o que mudou em sua vida? ♦ Descobri que esse instante que vivo, não sei quanto vai durar. Não sei se chego naquela porta, não sei se termino esta entrevista, não sei se esta vai ser minha última foto… Agora isso me dá uma intensidade de prazer tão grande, prazer de estar vivo, que acabou

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ENTREVISTAS E PERFIS sendo uma conquista. Antes eu não valorizava tanto o sentido do "viver". Com o tempo cheguei à conclusão de que preocupações são necessárias, problemas existem, agora pequenos problemas são pequenos, os grandes são grandes. Se não são resolvíveis, tchau! Não tem solução. Por que eu vou me preocupar com uma coisa que não tem solução? Antigamente eu era tão ansioso que vinha andando pela rua e quando via que o farol ia mudar pro vermelho, corria. Corria pra quê? Isso foi minha maior conquista. ♦ Que livro você está lançando na feira? ♦ Estou lançando meu 24° quarto livro, "Anónimo Célebre" que saiu em São Paulo dia 13 de agosto último. Belém é a segunda grande capital em que ele é lançado, e eu me alegro muito, pelas relações que eu tenho com o pessoal de Belém. Tenho muitas amizades aqui na terra. Não conheço tão bem, porém conheço as pessoas; as pessoas é que são importantes. O livro fala sobre a busca insensata da fama, por um grupo de pessoas muito grande, que procura a fama a qualquer preço, e esse preço significa perder os escrúpulos, o pudor... Acreditar que a fama é que traz a felicidade, segurança, o paraíso... Porque eles veem só um lado, o lado que sai nas revistas, o lado produzido, maquiado; tento neste livro responder a essa questão, se é que alguém responde: pra quê fama? Cada um vai ler o livro e tirar sua conclusão, eu não respondo nada pra ninguém, o escritor não tem que responder nada ♦ Na sua opinião qual a função primordial do escritor? ♦ Escrever... Você escreve, pode até influenciar algumas pessoas que leem teu livro, mas não é com teu livro que você faz a revolução. Claro, exceto talvez "O Capital" de Marx etc... Não é caso da nossa literatura que é pra arte, o entretenimento, ou pelo prazer que eventualmente você pode proporcionar às pessoas. Em suma, mostrar o mundo que a gente vive é mostrar a vida como ela é. ♦ Da nova geração de escritores você pode destacar alguns? ♦ Destaco de São Paulo dois: Luiz Ruffato e o Nelson de Oliveira, os dois na casa dos 30,40. São da jovem geração inquieta. Agora tem muita gente escrevendo em fanzines e na internet. Na internet tem dezenas ou centenas de sites com contos que, se você tiver tempo, acaba encontrando alguma coisa boa. ♦ Você prefere o livro eletrônico ou o velho e bom livro convencional? ♦ Não, não gosto do livro eletrônico, livro pra mim é o livro que eu me acostumei. Pode ser até que algum dia eu venha a publicar. Mas me cansa a vista, enche o saco, dá sono...O livro eletrônico não me tocou ainda; quem sabe um dia? ♦ A solidão está muito presente em sua obra, isso é um retrato do autor? ♦ O autor está no livro em variadas proporções. É difícil dizer, mas a solidão também faz parte da minha vida, tem momentos que eu sou profundamente solitário, mesmo tendo uma família, muitos amigos mesmo dentro de uma multidão, é uma coisa minha, interna, eu diria mais que seria "solitude" e não solidão, não é uma coisa que eu vá me matar por causa disso. Eu vivi sempre muito tempo solitário. Em Berlim eu vivi um ano e oito meses praticamente só, convivo com isso numa boa, não me assusta. A solidão... convivo bem com ela, claro que às vezes é meio chato, entristece, angustia, mas porra!, tanta coisa me entristece! ♦ Você se considera um sonhador, um pessimista ou um observador do cotidiano? ♦ Pessimista eu diria que não sou. Se eu fosse pessimista eu não escrevia. Na verdade o

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DENIS CAVALCANTE pessimista é um otimista com experiência. Agora eu não acho que o mundo está legal, que o Brasil vai bem, que o homem tá legal... E sei muito bem que isso não vai acabar com o mundo, o Brasil, a raça humana. Mas o homem tem essa loucura dentro dele, tem a insensatez dentro dele, tem essa quase inclinação à autodestruição, só que num momento ele se vira, pega um ventinho e volta. Então o homem não é um suicida, acredito, ele é uma coisa muito louca; eu sou um sonhador; sem um sonho a vida não vai pra frente, você caminha e vai em busca de um sonho, e se houver desafios, você continua!

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"A Leitura tem que ser um vício" MERGULHO Para Zuenir, o melhor conselho a se dar para os jovens é ler muito - DENIS CAVALCANTE - Especial para O LIBERAL Entrevistar mestre Zu é um raro prazer. Mesmo agora, quando finalmente conseguiu ser avô, Zuenir continua dando palestras por todo o Brasil. Difícil encontrá-lo em casa. Assim que chegou a Belém - para participar da XIII Feira Pan-Amazônica do Livre - (antes mesmo de ir para o hotel), fez questão de almoçar um filhote na chapa com arroz de jambu. Depois, uma passadinha no Ver-o-Peso, onde filou um gole de caldo de cana, comprou camarão seco e castanha-do-pará - suas iguarias prediletas. Na entrevista, Zuenir conta um pouco de tudo. A diferença entre o público e o privado, o prazer de ser avô, sua opinião sobre a Amazónia, a obrigatoriedade do diploma para exercer o jornalismo, sua paixão por Belém, seus livros de cabeceira... Isso e muito mais vocês podem conferir agora:

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DENIS CAVALCANTE ■ Queria que, com sua vasta experiência, você demarcasse dois limites que são difíceis de estabelecer. O primeiro é onde acaba a esfera privada e onde começa o interesse público. Até onde vai o direito da pessoa à privacidade e começa o direito de expô-la ao público? □ A demarcação é fácil quando se trata de dirigentes ou políticos. Isto é, homens públicos para os quais a vida privada é política. Para os demais cidadãos, porém, o direito à privacidade é sagrado. ■ O outro Limite é o que há entre o literário e o jornalístico. Você, que faz as duas coisas, como avalia o valor do que produz? O que é jornalístico e por isso, de certo modo, efémero, e o que é mais persistente ou mesmo imortal, por seu valor Literário? □ Há pelo menos duas maneiras de distinguir o "literário" e o "jornalístico". Uma delas, através do uso livre das figuras de linguagem: metáforas, metonímias, pleonasmos... E pelo cotidiano. A matéria prima do jornalismo é a realidade. A da literatura é a imaginação. Plagiando o mestre Manoel de Barros: "Na literatura só 10% é mentira; o resto é invenção". No jornalismo nem uma coisa nem outra. ■ Depois de ter escrito um livro sobre Chico Mendes e vários artigos sobre a Amazónia, você se considera habilitado como um amazonólogo? O que pensa sobre o presente e o futuro da região? "A Amazónia é um patrimônio da humanidade, mas é um bem nosso" □ Infelizmente continuo sem conhecer a Amazônia, mas cada vez me sinto afetado por ela. Acho que a Amazônia é um patrimônio da humanidade, mas é um bem nosso, do qual precisamos cuidar, coisa que até hoje nunca soubemos fazer direito. ■ Você é um jornalista oriundo das ruas, das redações. Qual sua opinião a respeito dessa celeuma criada pela obrigatoriedade de diploma para ser jornalista? □ Acho uma discussão chaníssima. Como você bem o disse, minha geração aprendeu jornalismo no dia a dia, nas ruas e nas redações. Resumo minha posição assim. Sou contra o diploma, mas a favor das escolas. O canudo é dispensável, mas o ensino do jornalismo, não. ■ Recentemente você tornou-se avô. Como é isso? □ Olha Denis, para falar a verdade, eu assim como o Luís Fernando Veríssimo - já tinha perdido a esperança de ser avô. Mas podem crer: é uma experiência maravilhosa. Na minha idade, eu já estou mais pra bisavô do que avô. ■ Após um período de baixa, a crónica renasceu das cinzas. Em sua opinião, a que se deve o ressurgimento da crónica nos jornais e revistas em todo o País? □ Nesse mundo em que vivemos, dominado pela tecnologia, TV, e-mails, twitter, Orkut... A crónica escrita em jornal oferece um olhar pessoal, subjetivo, original até. A crónica é uma janela aberta pelo cronista para leitor. A matéria prima da crônica é tecida de fantasia e realidade. Esse é motivo da sua proliferação e permanência. ■ Diga lá Zuenir: algum livro no prelo? □ Tenho um, senão no prelo, pelo menos a caminho. Trata-se de uma ficção. Uma história de amor que se passa nos anos quarenta, onde fui criado - Nova Friburgo. ■ Por ultimo-as não menos importante - Que mensagem você daria as jovens que iniciam a difícil tarefa da leitura e da escrita?

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ENTREVISTAS E PERFIS □ Leiam, leiam, leiam tudo que puderem. Mas só escrevam quando não puderem fazer outra coisa. A leitura deve, tem que ser vício; escrever é obrigação. ■ Nas suas idas e vindas a Belém, o que mais te marcou, te agradou na cidade? □ O que mais me agrada em Belém é seu povo. Quando o Rio não me quiser mais, vou pra Belém do Pará. CONFIDENCIAL "Felicidade é... uma mulher que te ame, família e amigos fiéis" Alo, Denis. Minhas homenagens, extensivas a memória de seu "pai herói". Os leitores perguntarão, por que pai herói. Esclareço. O jovem paraense Eliel Cavalcante, com sentimento de brasilidade, estava no auge da sua juventude e sofrendo as agruras da segunda guerra mundial. O Brasil tendo os seus navios torpedeados e brasileiros sendo sepultados, nas águas do Atlântico, e a cidadania daquele jovem brasileiro estava sendo ultrajada. Eliel não pensou duas vezes. O Brasil já tinha declarado guerra ao nazifacismo e ele foi se alistar, como voluntário, da Forca Expedicionária Brasileira (FEB), enquanto muitos atrofiaram suas mãos para não serem convocados para a guerra. Eliel foi defender a democracia nos campos de guerra da Europa. Voltou para a felicidade e alegria dos seus familiares, e resolveu fixar domicílio no Rio de Janeiro, onde ficou por 30 anos. O filho do herói Eliel é o meu entrevistado para o Amazônia Hoje. Denis Cavalcanti homem de bem, cronista admirado semanalmente em O LIBERAL, é membro da Academia Paraense de Letras e empresário. Casado com a médica Rejane, tem dois filhos jovens. Eu o considero um bom amigo, mas vocês precisam saber das suas confidências, feitas durante o "tête-à-tête" que mantive com ele. Leiam. ■ Como surgiu sua vocação literária? □ Desde que me entendo por gente vivo cercado por Iivros. Meus pais me iniciaram na arte da leitura. Em momento algum passou pela minha cabeça ser escritor. Sempre li e leio muito. Por ironia do destino, uma fatalidade, a morte de um amigo-irmão, Luís Roberto Meira levou-me a isso. Quando ele se foi, escrevi um texto despretensioso, porém cheio de emoção e saudade s, texto esse publicado em O Liberal. Gostaram, e estou escrevendo até hoje. ■ O sr. escreve suas crônicas a noite ou de dia? □ Geralmente a mão e à tardinha, na sacada de meu apartamento Mas pode ser em qualquer lugar. No avião, no hotel, na mesa de um bar. Como um carioca veio morar em Belém? □ É uma longa história. Meu pai era paraense. Um belo dia resolveu ir para a II Guerra Mundial e alistou-se como voluntário na FEB – Força Expedicionária Brasileira. Assim como eu, era um doidivanas. Quando a guerra acabou desembarcou no Rio. Ficou por lá 30 anos. Mas seu coração sempre esteve no Pará. Quando pôde pegou o Ita ao contrário e voltou para o Norte. E eu com ele. Imaginem a aventura? Anos 60, a bordo de uma Vemaguete carregada, e seguir desbravando a Belém-Brasília recém inaugurada... Lá se vão quarenta e tantos anos. Estou aqui até hoje. ■ O sr se julga um homem feliz?

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DENIS CAVALCANTE □ Qual o verdadeiro conceito de felicidade? Dinheiro, poder, fama? Se for isso, não. Para mim, felicidade é bem mais simples. Uma mulher que te ame, família, amigos fiéis... Se for isso, sou feliz. E como! ■ Porque desejou ingressar na APL? □ Quem te disse que desejei? Jamais sonhei ser imortal. Um belo dia o Hilmo Moreira adentrou na minha livraria e, sutil me sondou. Pensei, pensei e pensei: porque não? Comecei com dois votos. No dia da eleição obtive 27 votos. Resultado: hoje sou imortal. ■ É verdade que o senhor está formando uma nova geração atuante no silogeu? □ Depende do que quer dizer nova geração. Ousaria dizer que nos últimos três anos houve uma renovação significativa nos quadros da APL. De aproximadamente 20%. O confrade Bernardino Santos cunhou com propriedade essa renovação cunhando-a de Bossa Nova! ■ Quantos livros já escreveu? □ Desde a primeira crônica, em meados de 1999, três. Junto com o amigo e confrade João Carlos Pereira, mais dois. E no papel, um interminável romance – que espero fique para a posteridade. ■ É verdade que na APL não é necessário, para ser admitido, ter escrito algum livro. Quais os critérios? □ São vários os critérios para a escolha de um acadêmico. Um deles é o de obras publicadas. Um outro, o do notório saber. É sabido que muitos imortais entraram na ABL e na APL sem terem escrito uma linha. Porém, existe também o outro lado. A escrever uma penca de livros sem conteúdo, melhor - e bem melhor – é eleger um candidato de notório saber. ■ Como o sr explica o súbito interesse em ingressar na APL? □ Boa pergunta Quando me candidatei havia cinco cadeiras vagas. Ninguém queria. A mídia foi em parte responsável por essa – digamos assim - caça ao tesouro. Procurei fazer a minha parte. Fui à luta, fiz uma campanha sui generis. Visitei todos os acadêmicos. Inclusive os que moravam em outros estados. Dou um boi para não entrar numa disputa; mas depois que entro... ■ É fato que existe uma igrejinha, isto é, um grupo de imortais que dá as cartas na APL? □ No Brasil na política, sempre alguém dá as cartas. Na Academia não deveria ser diferente. Estou lá há algum tempo e nunca vi isso ocorrer. Alguém tem que tomar as decisões. Lá quem as toma é a diretoria, à frente nosso presidente Édson Franco. ■ É verdade que o sr é um eficiente mestre-cuca? Quais são suas especialidades? □ Qual nada! Diria que cozinho direitinho. Emulsifico, misturo temperos. A verdade é que passei a morar só muito cedo. Por uma questão de sobrevivência fui obrigado a cozinhar. Senão, morria de fome. Tomei gosto, gosto este herdado de meu pai, que passou para mim e eu para o seu neto. Faço de tudo: do trivial ao sofisticado. Depende da ocasião. Uma carne assada. Com as sobras, uma roupa velha. Uma caldeirada de filhote, uma galinha cabidela À noite, um risoto, uma paella e o prato que a maioria gosta: escalopinho com arroz à piermontesa. A receita preferida das sobrinhas-filhas: Nicolle, Lívia, Bianca, Camila e Carolina. ■ Qual sua comida preferida? □ Arroz, feijão, bife, farofa de ovo e batata frita. Para adoçar a boca banana comprida

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ENTREVISTAS E PERFIS frita na manteiga açúcar e canela. ■ O sr deve ser um leitor voraz. O que está lendo no memento? □ Leio em média quatro a cinco livros simultaneamente, um costume que adquiri há tempos. Atualmente, leio ''Carmen'', de Ruy Castro; releio os poemas de Erza Pound, e ''Suave é a noite'', F.S. Fitzgerald. Aguardando a vez, ''O retrato de Florian Gray" e a inigualável ''Montanha mágica', de Thomas Marm. ■ O sr é proprietário de uma livraria. Que espécie de literatura é mais procurada? □ De tudo um pouco. Auto-ajuda, poesia, história, biografias... Quando menos se espera aparece alguém pedindo um Bilac, um João Carlos, um Hilmo, um Barata, um Benê... Uma livraria reserva muitas surpresas; é uma caixa de pandora. ■ Em sua opinião, quem é o melhor escritor da atualidade? □ São tantos, prefiro não nominar e esquecer de alguém. ■ Qual sua maior extravagância? □ Desconheço o real significado dessa palavra. Contento-me com pouco. A caminhada matinal, um pastel, uma unha de caranguejo, um caldo de cana, o convívio da família uma rede, um bom livro, boa música uma dose de uísque ao cair da tarde, e, o melhor: o chamego, aconchego, carinho e a compreensão da mulher que - apesar de tudo –está comigo até hoje, Rejane. ■ Que é notável no Pará? □ Na política, Almir Gabriel. Na literatura, os dois Benés. Monteiro e o Nunes. ■ O que Belém e o Pará necessitam com urgência? □ Mais investimentos em saneamento básico, educação e saúde. E homens públicos que deixem de lado picuinhas, ambições pessoais e vaidade e dediquem todos seus esforços em prol do bem estar do povo paraense. É pedir muito? ■ Contra ou a favor da reeleição? □ Visceralmente contra. ■ Qual o perfil do presidente ideal? □ É uma quimera. Se possível fosse, seria uma improvável alquimia entre Getúlio, Juscelino, Castelo, Lacerda e Brizola. Todos mortos. Estamos carentes de políticos carismáticos. ■ Como é sua vida familiar? □ Tão simplória que nem vate a pena faiar. Porém, não a troco por nada nesse nem em outro mundo. ■ Uma música inesquecível? □ São tantas... "Molambo", "As time goes by", "Your song". E "Detalhes", sempre. ■ Uma frase. □ Que tal duas? "Essa vida é uma viagem; pena que eu estou só de passagem", de Paulo Leminski. "Se chorei ou se sofri o importante é que emoções eu vivi", de Roberto Carlos. ■ Uma saudade? □ Meu pai, minha tia Rosa e meu amigo Babalu. ■ Fale um pouco sobre seu trabalho à frente da diretoria Cultural da AP. □ O trabalho que a Diretoria cultural vem realizando na Assembleia Paraense só é possível graças ao apoio irrestrito da diretoria comandada pelo presidente Gilberto Guimarães.

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DENIS CAVALCANTE Hoje, a AP é uma máquina bem azeitada, um time que funciona quase que por telepatia. Todos se conhecem, se respeitam trabalhando em prol do engrandecimento do clube. Não tem como dar errado. ■ O que lhe faz perder a paciência? □ Gente que atrapalha a passagem batendo papo furado em rua estreita. Pessoas que quando estão por cima, pisam nas outras. A vida é uma gangorra: sobe e desce. E aí, quando estiverem por baixo, irão colher o que plantaram. Tempestades. ■ Existe amor à primeira vista? □ Claro. Acontece comigo. Quando botei o olho na Rejane – minha mulher - sabia que estava diante da mulher da minha vida ■ Qual é sua mania, que os americanos chamam de hobby? □ Viajar, comer bem, colecionar livros e fazer artigos. ■ Qual seu clube de coração? □ Em Belém, o mais querido. Clube do Remo. No Rio, Botafogo, se Deus quiser, o campeão carioca desse ano. ■ Qual outro país em que viveria? □ Nenhum. Adoro o Brasil. ■ Valeu comparecer a Bienal do Livro em São Paulo? □ Com toda certeza. Não perco uma desde 1989. Fico feliz como pinto no lixo. Costumo dizer que a Bienal é o natal dos livreiros, escritores e amantes da leitura.

Cronistas lançam obras em parceria hoje Denis Cavalcante e João Carlos Pereira, colaboradores do jornal O LIBERAL, autografam obras na Feira Pan-Amazônica do Livro A amizade que aproxima Denis Cavalcante de João Carlos Pereira não é tão antiga como possa parecer. Denis é, como dizia o colunista Edwaldo Martins, "pouquinha coisa mais velho" que João Carlos e poderiam ter sido amigos de infância. Acontece que eles só se conheceram há alguns poucos anos e logo se descobriram amigos. Tão amigos que podem se dar ao luxo de fazer o que pouca gente ousou: vão lançar, hoje, a partir das 19 horas, no estande das ORM, numa mesma sessão de autógrafos, seus mais recentes livros de crónicas. Denis autografará "A Felicidade é Azul" e "Sobre o Amor e Outras Coisas" e João Carlos, "Maria, a Cheia de Graça" "O Denis me propôs esse lançamento conjunto e eu topei na hora. Afinal, somos companheiros de Academia Paraense de Letras, cronistas de O LIBERAL e pertencemos ao seleto clube dos safenados. Mas, principalmente, somos amigos" conta João Carlos. Denis Cavalcante começou a escrever crônicas movido pela dor da perda de seu amigo e sócio Luís Roberto Meira. Elaborou um texto e levou, com a cara e com a coragem ao diretor-redator-chefe de O LIBERAL, jornalista Walmir Botelho. Walmir gostou e publicou. A partir de então, nunca mais parou de escrever. Com as crônicas do Jornal, preparou dois volumes e já parte paia o terceiro. "Eu fico muito feliz porque até então não escrevia e acabou dando certo" diz Denis, que tem coluna cativa, às sextas-feiras, há

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ENTREVISTAS E PERFIS quase cinco anos, no primeiro caderno do Jornal. "É um espaço nobre, eu sei, por isso a minha responsabilidade aumenta, cada vez que alguém diz que lê a coluna e que gosta" João Carlos foi repórter, editor de O LIBERAL e assessor especial da Fundação "Rómulo Maiorana" Há mais de 15 anos faz crónicas para os cadernos "Cartaz" (quando ainda nem tinha este nome) e "Mulher" Os textos de "Maria, a Cheia de Graça" têm como tema a devoção mariana que o autor cultiva, desde que se converteu ao catolicismo. Esse livro, editado pela Secult, foi dado como lembrança às pessoas que prestigiaram sua posse, na APL, em 4 de outubro do ano passado. Cerca de 70% da edição foram ao Instituto Criança Vida e, toda vez que houver lançamento dessa obra, a renda será revertida para o Projeto. "Com esse livro, presto uma homenagem à minha querida amiga Rosângela Maiorana Kzan, que idealizou o projeto e, com ele, está salvando muitas vidas" Na Academia Paraense de Letras, os dois cronistas dividem a mesma bancada e estão trabalhando juntos na organização deu uma antologia sobre o tema Natal, que será lançada em dezembro. Também participam de outros projetos que devem ser anunciados em 2005. Antes de se estreitarem os laços de amizade, as famílias de Denis e de João Carlos já se conheciam, mas não sabia quem era quem. A esposa de Denis foi a pediatra neonatal de Beatriz, a filha mais nova de João Carlos e Emília. "Nem ele sabia que a Rejane, a médica, era minha esposa, nem ela sabia que o João Carlos era meu amigo" lembra Denis. "A formalidade era tanta, que nós a tratávamos de 'doutora' Hoje, é nossa amiga Rejane" diz João Carlos. SERVIÇO O lançamento conjunto de Denis Cavalcante e João Carlos Pereira acontece hoje, às 19 horas, no estande das ORM, na Feira Pan-Amazônica do Livro.

Histórias de um quatipuru literário Denis Cavalcante reúne em livro mais de 60 crônicas publicadas em O Liberal LANÇAMENTO * ALBERTO SILVA NETO Especial para o Cartaz O menino travesso chegara àquela livraria acompanhando o pai. Nem bem entrou, pôsse a vasculhar tudo. Por onde passava ia deixando um rastro melado do sorvete que derretia por entre os dedos. Preocupado com a integridade física de seus livros raros, o dono do recinto resolveu tomar uma atitude. Aproximou-se do pirralho e chamou-lhe à atenção. Ouviu um desaforo. Mas não se deu por rogado: tascou uma baita lambida no sorvete da criança, que o olhou, assustada, certamente estranhando tal atitude de um adulto. No meio da confusão, vários livros foram ao chão; entre eles, um de Monteiro Lobato. Minutos depois, ambos estavam sentados num sofá. O menino parecia outro enquanto

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DENIS CAVALCANTE ouvia, bem quietinho, o livreiro ler para ele uma das estórias mais conhecidas do genial escritor: "A chave do tamanho", deliciosa invenção sobre uma chave mágica que dá ao dono o poder de ser criança enquanto quiser. Na hora de ir embora, o menino virou-se para o livreiro e disse: "Quando o senhor encontrar o Monteiro Lobato, pede pra ele me dar essa chave". O dono da livraria nunca mais esqueceu essa história. Seu nome? Denis Cavalcante, que, além de livreiro, é o autor das crônica s publicadas todas as sextas-feiras em O LIBERAL, há mais de dois anos. A maioria delas, inspiradas em fatos quase banais do cotidiano, como esse encontro inesperado com o menino do sorvete. Agora, essa e outras jantas crônica s estão reunidas no livro Sobre o amor e outras coisas, que o escritor lança nesta sexta-feira, 7, a partir das oito da noite, no teatro Estação Gasômetro, no Parque da Residência. Saudade - Talvez essa facilidade para se comunicar com as crianças venha da alma eternamente jovem de Denis, hoje com 47 anos, casado, dois filhos. Carioca, ele vinha sempre a Belém na infância, e passou a morar aqui definitivamente aos 14 anos, quando seu pai, o ourives Farias Gomes Cavalcante (morto em 1989) decidiu voltar à terra natal. Da infância e adolescência, lembra com carinho: "Eu adorava jogar bola na rua, brincar de peteca na terra e empinar papagaio em cima do telhado da nossa casa, na (rua) João Balby". E são justamente essas reminiscências o motivo de inspiração para a maioria das crônica s do livro. Saudosista, Denis sempre lembra em suas escrituras de personagens reais que povoaram sua vida, como é o caso do avô, homenageado no texto "A barba do meu avô", que também integra a publicação. Nele, o escritor descreve com raro lirismo a essência de um homem que, com mais de 90 anos, se esforçava para manter os antigos hábitos, a despeito da modernidade que irremediavelmente se impunha. Outro tema recorrente na obra de Denis é a lembrança da cidade. Na crônica "Belém que se foi"..., o escritor lamenta o fim de um punhado de costumes típicos dos paraenses, como sentar em cadeiras de palhinha à beira da calçada para conversar com os vizinhos. Também lembra quando o peixe e o camarão eram produtos vendidos bem fresquinhos, de porta em porta; ou ainda do tempo "dos quintais onde, quando a noite linha, sentiase o odor inigualável dos jasmins em flor". Também não poderia faltar o mais nobre de todos os temas, o amor - já bem explícito no próprio título do livro. Observador sempre atento do dia-a-dia, Denis narra na crônica 'A semente do amor" o encontro apaixonado de um casal em plena imensidão da praia do Atalaia, em Salinas: "Os corpos vibram, os olhos brilham, um arrepio percorre os dois, a paz se instala, um beijo tímido então se deu. Assim como chegaram, partiram. Só que com uma diferença: chegaram como dois e voltaram como um". Amigo - Mas, afinal, o que teria levado esse homem que nunca concluiu um tal curso de Medicina, "ex-dono de marcenaria sem ser marceneiro" (como diz seu amigo Oswaldo Mendes num dos prefácios do livro) e hoje dono de livraria, a se tornar escritor? Bem, essa é a parte um pouco triste dessa história. Tudo começou com a crônica "Meu amigo de fé, meu irmão camarada", que Denis escreveu em homenagem ao seu grande amigo de infância, Luís Roberto Meira, que morrera vítima de um infarto fulminante, na própria livraria de Denis. A data é inesquecível: uma segunda-feira, 11 de outubro de 1999, um

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ENTREVISTAS E PERFIS dia após o Círio de Nazaré. A morte é indissociável da vida, sabemos todos nós, e a dor dessa perda irreparável transformou-se no maior incentivo para que Denis colocasse pra fora seu talento como escritor e, sobretudo, como cronista do cotidiano - e não parasse mais. O olhar sempre atento a tudo o que acontece ao seu redor (seja um velhinho cego que atravessa a rua, ou seu próprio filho que descobre o prazer de comer com os olhos fechados) valeram ao autor o carinho e reconhecimento de inúmeros leitores de O LIBERAL. Quase sempre, Denis é aquele que mais recebe cartas e e-mails de admiradores. Sua crônica "Namorar é preciso," apenas para citar um exemplo, chegou a receber nada menos que 227 correspondências. Outras tantas tiveram retorno semelhante. E não são apenas os leitores anónimos que fazem questão de ressaltar a habilidade de Denis para transformar em literatura aquilo que poderia passar despercebido para qualquer um. Além do publicitário Oswaldo Mendes, também assinam os prefácios de "Sobre o amor e outras coisas" dois ilustres Beneditos: o Monteiro e o Nunes. Esse último, generosamente aproxima Denis Cavalcante de Rubem Braga, Haroldo Maranhão e Mário Faustino, e termina por comparar as características de sua escrita às do quatipuru, um animal típico da Amazônia, tema de uma crônica que particularmente o encantou: "O quatipuru é um bicho pequeno e irrequieto. A crônica do nosso autor, irrequieta, sensível e fugidia, e que se pode ler fluentemente, é um quatipuru literário". Nada mais apropriado para homenagear um escritor que se dedica, em cada palavra, em cada crônica , a uma busca incansável de compreender a essência de seus amores, de seus familiares, de seus amigos, de sua cidade, de sua identidade cultural – da vida, enfim.

"Rancor faz mal à saúde" CONFICENCIAL CLÉA CHADY FARAH LA é uma das acionistas da Fábrica de Celulose do Pará-FACEPA, ao lado do marido, industrial Antônio Farah, presidente daquela indústria, uma das mais importantes produtoras de papel do Brasil e da América do Sul. No próximo dia 30, a bonita e elegante Cléa estará aniversariando, nas estará no Rio de Janeiro, por isso, dias atrás, ela foi homenageada por amigas. Ela é casada há 51 anos e, hoje, relembrarei algumas confidências que ele me fez. Leiam: Guarda rancor? Não vale a pena, faz mal à saúde. O que gosta de receber como presente? Tudo o que é dado com simplicidade e carinho, não importa o valor.

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DENIS CAVALCANTE Quantos filhos e netos? Um casal de filhos e cinco netos. Sua opinião sobre o casamento? É base da constituição de uma família. A rotina pode acabar com o casamento? Como seguiu manter o seu lar feliz há 51 anos? A vida é muito sábia. Sabemos dominar a rotina. Com o nascimento e a criação dos filhos, e, depois, a chegada dos netos, os bons momentos suplantaram os inevitáveis maus momentos. Eu e o Antônio mantemos o nosso lar feliz, porque nos amamos e nos compreendemos com lealdade e sinceridade. ■ Qual o conselho que transmite aos novos casais? Amor, renúncia e muita compreensão. ■ Monumentos de Belém? Forte do Castelo, Catedral e Praça da República. ■ Uma verdade que deve ser dita? Todas com coerência, desde que não ofenda ninguém. ■ Seus planos para o futuro? Continuar a vidinha de sempre e viajar mais. ■ O que lhe faz perder a paciência? ■ Sou muito tranquila, serena e tolerante para perder a paciência. Sua comida preferida? ■ Além da corrida árabe, quando é bem feito, um pato no tucupi. Das artes qual prefere? ■ Balé clássico. Uma saudade? ■ Da minha mãe. Uma tristeza? ■ A perda de ente querido. Uma alegria? // # JJ Rancor faz mal à saúde (LXÉACHADY FARAH Industrial ■ Estar casada há 51 com o Antônio, feliz e com saúde. Existe amor à primeira vista? ■ Existe sim, o meu e o do Antônio. Qual o seu passatempo preferido? ■ Ouvir músicas. * ■ *

Por que a mulher moderna é exigente? Porque são mais preparadas e independentes. Sua opinião sobre o homem brasileiro?

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ENTREVISTAS E PERFIS ■ Não existe homem, existem homens, cada um no seu estilo. Porque vale a pena viver? ■ Por que é uma dádiva que Deus nos deu. Dedica-se a alguma campanha filantrópica? ■ Sim, faço o bem e não digo a quem. Acredita em reencarnação? ■ Como católica acredito na vida eterna, que são os ensinamentos da minha religião. ■ Quais os seus traje preferidos? Cada ocasião tem o seu traje certo. ■ Alguma frustração oi decepção? Não, sou feliz com tudo que Deus me deu. ■ Por que se julga feliz? Porque tenho uma família maravilhosa, todos com saúde e uma vida econômica estável. ■ Uma lembrança de sua juventude? A minha festa de 15 anos. ■ Sua opinião sobre a sociedade de Belém? É uma sociedade de bom nível e tranquila, apesar dos agitos. ■ Como combate o estresse? Por ser uma pessoa muito tranquila, esta palavra não consta em meu vocabulário. ■ A felicidade existe, ou o que existe são apenas momentos felizes? Existem os dois. ■ Do que se orgulha? De tudo o que fiz de bom. ■ A senhora é exigente? Não, porque estou bem com a vida. ■ Tem medo da inveja? No fundo tenho, mas acredito na proteção divina. ■ A senhora já fez mil e uma viagens ao exterior. Em qual pais gostaria de viver? Passar temporada no exterior é bom, especialmente no Líbano, mas a minha preferência é morar no Brasil juntos aos familiares. ■ Sobre o divórcio? Apesar de que desagrega a família, em muitos casos é necessário e inevitável. ■ O que Belém precisa urgente? Segurança. Não só Belém e sim em todo o Pará, além de outras necessidades. ■ É radical nos seus pontos de vista? Não. Radicalismo é incapacidade de resolver problemas. É autoritarismo e falta de sensatez. ■ Do que jamais se esquecerá? Da primeira vez em que vi o Antônio, meu amado marido!

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ENTREVISTAS E PERFIS Um escritor apaixonado por sebos e maniçoba Em Belém para autógrafos na Feira Pan-Amazonica, Ruy Castro relembra sabor da iguaria que comeu há 20 anos ■ DENIS CAVALCANTE Especial para O LIBERAL Um repórter tem que ter em primeiro lugar sorte. Em segundo estar no lugar e na hora certa. O escritor e jornalista Ruy Castro apareceu no Baú, à cata de livros para o laboratório de sua próxima obra, um livro que faia sobre a cidade do Rio de Janeiro. "À cote" sua consorte, a também escritora Heloísa Seixas. Do encontro casual resultou a entrevista abaixo. Voz de barítono, um cigarro atrás do outro, brincalhão, e bemhumorado como todo carioca, Ruy é literalmente um livro aberto. Falou sobre as dificuldades que enfrenta (apesar do grande prazer) para escrever biografias, como as de Nelson Rodrigues, Bossa Nova, Garrincha.. Declarou também suas impressões sobre a Feira Pan-Ama-zônica do Livro, onde autografou um semnúmero de exemplares, e revela sua compulsão irrefreável por sebos: "A primeira coisa que faço quando chego numa cidade é procurar um sebo." Enumerou os livros que está lançando na feira VI Pan-Amazônica. "O vermelho e o negro - Pequena grande história do Flamengo", e "A onda que se ergueu no mar". Botou para fora sua paixão pelo Flamengo, peto Rio e confessou também a "fissura" por uma rara iguaria comida há mais de vinte anos aqui em nossa Belém: uma suculenta e inesquecível maniçoba, que até hoje lhe deixa saudades. Com vocês: Ruy Castro. Você é um especialista em biografias. É mais difícil do que escrever romance? ♦ Não, acho mais fácil. Apesar da enorme dificuldade que é fazer biografia, temos que fazer um levantamento enorme, de ter um trabalho gigantesco de localizar as pessoas que vão te dar as informações, afinal, você está à procura de coisas que aconteceram 40, 50 anos atrás. E o biografado, de preferência, tem que estar morto (risos). Esse trabalho monumental de pesquisa, como você mesmo falou, é feito sozinho? ♦ (Enfático) Sozinho. A melhor, parte do trabalho, que é a apuração dos fatos, a coleta das informações depois que você localizou a rua fonte, que você vai - conversar com da, faz milhões de perguntas, toma nota de tudo, fica até amigo do sujeito, essa parte é mais gostosa. Você acha que eu vou 'delegar esse prazer pra outro? Qual foi o livro que voei escreveu que deu mais trabalho? ♦ Sem dúvida alguma "Ela é Carioca", a enciclopédia de Ipanema. Foram 231 personagens, todos interligados. E por incrível que pareça, a mais fácil foi a biografia de Nelson Rodrigues ("O Anjo Pornográfico"). Quais foram teus livros mais vendidos? ♦ "A Estrela Solitária", "O Anjo Pornográfico", "Chega de Saudade" e "Ela é Carioca". E qual o teu próximo projeto de livro? ♦ Estou soltando no final do mês de outubro um livro chamado "Mau Humor". É uma coletânea de frases mal-humoradas, lançadas há dez anos em três livros já esgotados. Fizeram na época um enorme sucesso. Resolvi então pegar os três livros, que têm 4.500 frases, e dar uma enxugada para 2.000 frases. E acrescentei mais 400 frases inéditas.

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DENIS CAVALCANTE Estou trabalhando também, furiosamente, num livro para sair no ano que vem por uma editora inglesa e pela Companhia das Letras no Brasil, que fala sobre o Rio de Janeiro. Ainda ralando em livro: "O Vermelho e o Negro" teve em seu título alguma inspiração no homônimo de Stendhal? ♦ Evidentemente foi proposital. Tanto que, no final do livro, eu faço um paralelo sobre "O Vermelho e o Negro" do Stendhal. Comparando as vitórias épicas de Napoleão com os feitos gloriosos do Flamengo. Você é casado com uma escritora. Como vocês trabalham? Cada um para um lado ou juntos? ♦ Cada um pro seu lado, literalmente. Tanto que nem moramos juntos (gargalhada). Mais a grande diferença é que ela faz ficção e eu escrevo não-ficção. O método de trabalho é completamente diferente. Na não-ficção eu dependo de todo mundo. Eu dependo das fontes, das informações, dependo de uma quantidade enorme de gente que me ajuda a localizar as fontes. Num livro como o do Garrincha, eu entrevistei cerca de 200 pessoas várias vezes cada uma, num total de SOO a 1.000 entrevistas durante dois, três anos. Eu aporrinhona verdade 500 pessoas. Sem contar que eu necessito discutir a história, converso o tempo todo sobre a pessoa que estou biografando. Principalmente com a Heloísa. Qualquer palpite é bem-vindo. Em contrapartida, o trabalho de ficção, que é o dela, é exatamente o oposto. Ela lida com personagens fictícios que tirou da cabeça dela e que ela própria não sabe o que vai acontecer com eles. Ninguém pode dar palpite no destino de personagens que só existem na cabeça dela. Então ela trabalha totalmente em segredo e não me fala nem o título do livro que está fazendo. Só vou saber quando está no prelo. Como foi tua Iniciação na leitura? ♦ Comecei a ler muito cedo. Na casa dos meus pais não tinha livros. Tinha muito jornal. Meu pai assinava dois jornais, e comprava mais dois. Então tinha quatro jornais, pelo menos, por dia lá em casa: "Correio da Manhã", "O Jornal", "Última Hora", por causa da minha mãe, que era fã do Nelson Rodrigues, e 7Í Tribuna da Imprensa", porque meu pai era lacerdista. Então eu cresci cercado pelo jornal. Minha grande influência foi o jornal. Não foi o autor, foi o veículo. Eu sempre quis ser jornalista. Jornalista do "Correio da Manhã". Você tem o costume de garimpar sebos? ♦ Em toda cidade que vou eu procuro sebos. Agora, entrevista em sebo, essa é a primeira. Os sebos são um dos lugares mais maravilhosos que existem. Porque nada de ruim pode te acontecer num sebo. Só coisas boas. Eu já disse para Heloísa isto: qualquer livro que tenha sido escrito, publicado por mais idiotia que seja, exigiu uma carga de amor pra ser feito. Forque se você não tiver" um pouco de amor pelo ato de escrever, você não escreve. Há outras coisas mais interessantes pra se fazer na vida. O livro usado mais ainda, porque já foi manuseado por várias pessoas que gostaram desse livro. Você está cercado de objetos de amor. O sebo tem um astral bom. Eu costumo dizer uma frase quando eu gosto particularmente de um sebo, do dono... Na hora de me despedir, eu costumo dizer o seguinte: "quando eu morrei; eu não quero ir pro céu, quero ir pro seu sebo..." Você chegou a conhecer o Carlos Heitor Cony? Leu o livro "Quase Memória", que ele

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ENTREVISTAS E PERFIS escreveu depois de longo jejum? ♦ Você está brincando, né? (Dirige-se à mulher, que concorda a seguir) Helô, eu devo contar pra ele? Fui o primeiro a ler "Quase Memória". Li o manuscrito original, fui eu que levei para a Companhia das Letras, e o Cony exigiu que escrevesse a quarta capa e assinasse. Um dia ele me ligou e disse: "Rui, comecei um romance". Daí a um mês ele mandou o livro Quais são suas impressões sobre a Feira do Livro? ♦ Eu acho formidável qualquer evento desse tipo, porque você precisa expor os jovens à existência física do livro. O jovem já é exposto a tanta coisa que não é livro. Essa mídia fascinante e ao mesmo tempo esmagadora, que acaba fazendo com que ele não tenha nenhuma obrigação de saber que, entre essas capas e livros, pode ter um mundo novo a ser descoberto. É como eu digo: livro é que nem droga: se ficarmos expostos a de, podemos ficar "benignamente dependentes". BATE-REBATE Uma cidade ♦ Rio de Janeiro. Uma mulher ♦ A minha, Heloísa Seixas. Um ícone ♦ (Rebatendo) O que é um ícone? Admiro tanta gente... Seria injustiça ditar apenas um nome: Pelé ou Garrincha? ♦ Garrincha, principalmente pelo lado humano. Uma comida ♦ (Rindo) Isso pode parecer demagogia, mas até hoje eu tenho saudade de um prato de maniçoba que eu comi há 21 anos aqui em Belém (e quase gritando) na rua, num prato de plástico! Inesquecível! Um time ♦ Flamengo. O candidato ♦ Qualquer um menos o Serra. Cinema, rádio ou televisão? ♦ Cinema, desde que eu não tenha de sair de casa. Eu tenho cerca de 2.800 filmes em laser ou em DVD, todos de 1968 para trás. Um género musical ♦ Sou muito eclético. Todos que contenham melodia, harmonia, ritmo e letra. Isso vai desde a música brasileira praticamente em todas as suas épocas, o jazz até os anos 60, bolero, tango, música cubana, valsa vienense. Não havia essa "pasteurização roqueira" que passou a haver dos anos 70 pra cá. Um time inesquecível ♦ A resposta óbvia seria o de 58 e o de 70. Mas o time do Telê, de 82, foi o melhor, mesmo sem ganhar. Uma frase

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DENIS CAVALCANTE ♦ A frase não é minha, é do Ivan Lessa: "O brasileiro é um povo com os pés no chão; e as mãos também". Tá no livro que vai sair agora, "Mau Humor". Uma saudade ♦ Uma saudade? Pó! (Gozador) Você tá parecendo a Marília Gabriela. Eu falei isso hoje de manhã para a Helô. Eu não tenho saudade de nada! Eu trago o passado comigo permanentemente, eu não sei o que é presente nem o que é passado. Não tenho saudade, vivo entre o passado e o presente; as recordações sempre à mão.

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ENTREVISTAS E PERFIS Benedicto Mello, "o último dos moicanos" DENIS CAVALCANTE Especial para O LIBERAL O entrevistado desse domingo é o festejado pintor, escultor e restaurador, ceramista... ufa!, Benedicto Mello. Não sei quem foi que disse que os olhos são o espelho da alma. Me surpreendo ao chegar para a entrevista, com o olhar azul anil que há 76 anos acompanha o mestre. Se o corpo envelhece, o olhar desmente. O apartamento é espartano. Nas paredes obras escolhidas a dedo, dele e do amigo Rui Meira. Na estante frontal, livros selecionados; 'livros que ele aleatoriamente consulta quando lhe dá na telha. O artista revela que sua cor preferida é o vermelho. Vermelho também é a cor da vistosa camisa que ele veste. Mas entre a cor preferida e os tons das tintas usadas em sua obra há uma pequena contradição: "... A profundidade reveladora dos verdes e azuis, pela intensidade grave dos tons ocres, aqui e ali, pelo uso despudorado de um branco impossível..." palavras pinçadas, de um texto escrito por um de seus admiradores cativos - O arquiteto Paulo Chaves. Durante a conversa uma das netas passeia pela sala soltando gritinhos de prazer. Mas uma vez seus olhos demonstram sinais indescritíveis de felicidade. No breve colóquio que mantivemos, pela primeira vez o gravador, o bloco de notas, a caneta, se tornaram desnecessários. Guardei na memória cada palavra dita Falou da sua saudade e admiração pelo amigo Rui Meira. Sua paixão inconteste pela família (em todos os tempos sempre em primeiro lugar) As saudades dos tempos de infante. O papel preponderante da companheira inseparável nesses 50 anos, Maria Helena. Flagrei-o até numa pequena mentira, ao ver no canto da sala, em meio a tintas, espátulas e pincéis, um cavalete a "la Oscar Wilde", com uma tela coberta e adormecida. "Mas mestre, você não tinha aposentado os pincéis? Seu olhar matreiro disse mais que mil palavras. Mas o que mais me impressionou foi sua marcante fase impressionista. Não ficando nada a dever aos grandes mestres que o influenciaram como Monet, Manet, Gaughin, Van Gogh. Quando o senhor pintou seu primeiro quadro? ♦ Ah, faz tanto tempo... Foi há mais ou menos sessenta anos. Contínua sendo difícil a vida do artista no Brasil? ♦ A vida de artista sempre é difícil né? Porque ele está sempre adiante, um passo à frente. Nem todo mundo compreende essa posição. É mais fácil contestar o artista do que dar o valor que ele de direito merece. Como foi a sua emoção na primeira exposição? ♦ Minha primeira exposição me deu uma grande emoção, principalmente porque meu pai ainda era vivo. Me lembro como se fosse hoje, foi no consulado americano. Me lembro até do nome do cônsul, Mr. Colman, era um sujeito simpático. Qual é sua principal fonte inspiradora? ♦ Sem dúvida alguma a paisagem, a natureza. Onde quer que eu esteja, em qualquer canto, em qualquer lugar eu estou sempre atento observando a natureza. O senhor continua pintando ou já pendurou os pincéis? ♦ Estou literalmente aposentado de tudo. Da profissão de pintor, de funcionário

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DENIS CAVALCANTE público, sou bacharel em Direito, apesar de nunca ter exercido a profissão de advogado, mas tenho esse registro no meu currículo. Mas... Estou por aí, estou na estrada. E possível um artista viver somente do seu trabalho? ♦ É, eu vivi durante muito tempo, quase toda minha vida do meu trabalho. Com uma família grande, ao todo sete filhos. Consegui educá-los em colégio particular. Os filhos homens foram estudantes no Instituto Nazaré, hoje Colégio Nazaré. Não foi fácil, às vezes tinha que ter um certo jogo de cintura, todo mês eu tinha que fazer uma composição com a diretoria (risos) pra poder pagar a despesa. > Quem foram os principais artistas que o influenciaram no começo da carreira? ♦ Todos os impressionistas me influenciaram: Manet, Monet, Gaguin, sobretudo Van Gogh. > Ainda sobre o assunto: você tem uma fase impressionista extraordinária, a série Caminhos. Como conseguiu passar para a tela a incrível sensação de leveza e profundidade? O Não é fácil. Isso é uma questão de hábito, perspectiva aérea. Não me preocupo muito com a técnica. Em vez de usar o pincel, uso a espátula, que me dá a oportunidade de manchar as cenas; e aí a profundidade aparece justamente nesse jogo de cores, entre o escuro e o claro, uma cor mais intensa no primeiro plano e tudo que fica pro último plano vai ficando azulado. Que conselho o senhor daria para quem quer começar agora? ♦ Muito cuidado com as pichações, né. Hoje está havendo até um abuso enorme e os críticos de arte devem ter uma dificuldade muito grande porque é preciso muita coragem pra contestar isso. Porque é tão generalizado o hábito dos grafiteiros. Na maioria das exposições é só o que dá. Considero o grafite uma apelação. A pessoa que está querendo realmente pintar não precisa apelar para o grafite, a pichação. Você já fez de tudo: pintura, cerâmica restauro, murais, esculturas... Tá faltando algo ainda? ♦ Não. Eu acho que privilégio nesses meus 76 anos, muito bem vividos, diga-se de passagem, de ter praticado todas essas fases. Fui escultor, fui ceramista, fiz curso de restauração. Criei em Belém o primeiro laboratório de restauração. Fiz muita cerâmica, onde vira e mexe vem sempre a lembrança do Ruy Meira, com quem eu convivi muito tempo. Se você der uma olhada vai ver que (apontando para as paredes) aqui em casa eu tenho muitas coisas do Ruy. Agora indubitavelmente é na pintura que eu me realizo, com a qual eu me identifico mais. O senhor, não acha que Belém deveria tratar melhor suas obras, seus artistas? ♦ Eu acho que essa parte de memória está sendo muito descuidada em Belém. A gente só lembra das coisas que marcaram a nossa memória, quando elas são agredidas ou então, o que é pior, quando já estão destruídas. Aí quando já é tarde todo mundo reclama, não é? Mas ninguém se dá ao trabalho de evitar que isso aconteça. Preservar, eis a questão. Você se considera o último dos moicanos? ♦ (Risos) Eu acho que eu sou um dos mais antigos, talvez vivo e último. Pelo menos da minha geração não tem mais ninguém. Quem morreu recentemente foi o La Roque, leem também o Paulo Ricci, mas esse é contemporâneo.

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ENTREVISTAS E PERFIS Fale sobre sua amizade com o Ruy Meira... ♦ O Ruy Meira foi aquela criatura com quem eu mais me identifiquei em toda minha vida. Nós fomos amigos desde sempre. Naquela época íamos com frequência para a Avenida São Brás. Lá tinha uma esquina que se chamava "Canto da viração", onde a gente se encontrava frequentemente, esperávamos ansiosos a chegada das chuvas torrenciais que caíam na cidade pontualmente às duas horas. Agora você pode reparar que ela não tem mais hora pra cair. E durante essas chuvadas nós saiamos para recolher as mangas que o temporal derrubava. Senti muito a sua morte, foi uma notícia extremamente desagradável quando me telefonaram dizendo que ele tinha morrido. Eu tinha muita afinidade com o Ruy. A minha pintura tem influência marcante do Ruy, como teve também do Armando Balloni (pintor italiano já falecido). Com ele aprendi muito, sobretudo a fazer painéis, obras gigantescas. Inclusive fizemos juntos um mural para o então outrora Grande Hotel. Se eu não me engano esse mural está hoje no Museu da Cidade, na Prefeitura. Qual o papel da Maria Helena, sua companheira de toda uma vida? ♦ Olha Denis, quando eu me refiro a Maria Helena eu sempre costumo dizer que o meu casamento é um verdadeiro milagre. Eu sendo artista, boémio, estou casado com a mesma mulher há mais de cinquenta anos. Eu me identifico muito com ela, ela tem bastante sensibilidade... E ultimamente tem tido extraordinária competência para me administrar. Eu me considero uma pessoa "gerenciada" pela Maria Helena. Aproveitei bem todas as fases da minha vida. Se eu morrer amanhã, parto tranquilo, não deixo nenhum deficit.

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Escritor da terra deve ser mais prestigiado Começou, no último dia 5, a sétima Feira Pan-americana do Livro. Organizadores e empresários, envolvidos no evento, esperam a visita de mais de quatrocentas mil pessoas e um faturamento perto de três milhões de reais. A feira contará com a participação de grandes nomes da literatura brasileira, como os imortais, Carlos Heitor Cony e Zélia Gaitai, além de Fernando Moraes, autor de Olga e Chato e outros. Dentro desse universo, encontra-se também o mercado de livros usados e, certamente para os apaixonados por literatura, é nos sebos que podem ser encontradas verdadeiras raridades, com baixo custo. O jornalista e livreiro Denis Cavalcante, proprietário do Baú, sebo tradicional cidade, expõe pela terceira vez. O mercado de usados, os bastidores da feira, além das últimas publicações estão entre os temas discutidos com a jornalista Carla Vianna, da editoria do caderno Mercado. Qual a importância desta feira para fomentar o hábito da leitura? ♦ A feira cria oportunidade às pessoas, os livreiros e leitores, de um convívio. Os jovens também se interessam pois é um evento único, anual, além de que a cada ano, aumenta o número do público. É sinal de que a coisa funciona. A que se deve o sucesso da feira, visto que hoje ela figura entre um dos três eventos de maior destaque no mercado de livros do País? ♦ Aí tem que se falar um pouco do trabalho do secretário Paulo Chaves, porque ele teve uma importância fundamental. Quando ele fez a primeira feira, eu me lembro que não foram sequer dez mil pessoas. Era no Centur, tinham não mais que quarenta stands e hoje, a sétima, já é cinco vezes maior que a última e não somente em espaço físico e sim em número de editoras e livrarias participantes, somado a isso o fato de hoje o evento ser num lugar como os galpões da CDP, ao lado da Estação das Docas, com os atrativos todos que estão lá, o rio, ambiente todo refrigerado, fácil estacionamento, com certeza agora vai ser ainda melhor. Neste ano então, a participação de livrarias e editores de fora será ainda maior? ♦ Muito maior, por exemplo este ano era a participação de três editoras de Portugal, duas da França, editoras que nunca estiveram, estarão marcando presença, inclusive editoras locais como a Paka Tatu, que fará sua estreia, a própria Cejup e outras. O que você acha dessas novas publicações dos clássicos? Essas obras chegam ao consumidor perto de 12 reais, isso atrai o novo leitor, qual a importância disso? ♦ Sempre será importante a reedição dos clássicos, ainda mais como agora, com encadernação primorosa, capa dura. Além de fomentar às pessoas que já tenham lido os clássicos a vontade de lê-los novamente vai possibilitar a edição de títulos que há tempos não vinham sendo reeditados. Por exemplo, está de volta agora "O velho e o mar", de Hemingway. Então o que acontece? Você compra por um preço, que eu considero até abaixo do mercado, um livro que custaria em média trinta, quarenta reais. E isso atrapalha de alguma forma o mercado de usados? ♦ Não, porque a nossa fatia é uma quantidade ínfima comparada ao mercado editorial como um todo, portanto serve de estímulo para o leitor e o chama para as livrarias para que compre outros livros também. O paraense e o brasileiro em geral gostam de ler?

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DENIS CAVALCANTE ♦ Comparando com os americanos e europeus, infelizmente, no Brasil o hábito da leitura é muito pequeno, haja vista a quantidade de pessoas que sequer têm dinheiro para comprar um livro por serem caríssimos. Os livros são lançados por vinte e cinco reais e as pessoas, ainda que queiram, não têm condição de comprar, o que gera um fato curioso. Uma pessoa que compra um título, acaba por emprestar aos amigos. Você concorda que a leitura é um hábito e não se tem o costume nas escolas em se estimular às crianças e os adolescentes a paixão que os livros podem causar? ♦ Concordo com você. No meu tempo a gente tinha Machado de Assis, Alice no País das Maravilhas, Monteiro Lobato, e hoje é Harry Potter que é de autoria de uma escritora de fora e que tira o espaço dos escritores nacionais infantis, como por exemplo o Maurício de Sousa, que é fantástico, e outros tantos. Na verdade eu acho que falta os professores estimularem os alunos a lerem os escritores brasileiros e paraenses. Nós temos vários, só falta serem valorizados. Qual o perfil do leitor que frequenta os "sebos" de Belém? ♦ Pessoas de todos os setores. Intelectuais, jornalistas, escritores e principalmente a classe média baixa, que precisa de livros para sua formação e os novos estão fora da realidade. Quais os cuidados que devem ser tomados para evitar a deteriorização dos livros? ♦ Nos livros antigos, com mais de 30 anos, se deve ter cuidado com o manuseio, por conta do tempo e o fato do papel ser perecível. Uma dica importante para quem quer afastar as traças dos livros, inimigas número um dos antigos, é espalhar pimentado-reino, elas detestam. Dá para viver da venda de livros usados no Brasil? Por que os livros são tão caros? ♦ Um pouco de cada coisa. Às vezes eu compro livro pensando em mim, trocar uma edição mais bem cuidada, por uma antiga, mas todo o negócio visa também lucro. Como livreiro e leitor, para o senhor, existe algum tipo de incentivo fiscal? ♦ Nós não pagamos impostos, se não o mercado seria inviável. O senhor tem alguma sugestão para a próxima edição da feira? ♦ Nas bienais de Rio e São Paulo, os organizadores priorizam os autores de lá, já em Belém se dá uma importância muito grande aos autores que vêm de fora, não acho errado, mas acho que o escritor da terra deveria ser mais prestigiado.

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Mimos são o máximo para os leitores de Heloisa A carioca que começou escrever aos 40 anos credita a Edgar Allan Poe e a sua avó o tempero na medida certa de seus textos DENIS CAVALCANTE - Especial para O Liberal A carioca Heloísa Seixas procura deixar sempre que possível em seus textos uma marca indelével de mistério. Passeia com a graça e a leveza de um beija-flor, entre o romance, o conto e a crônica. Mas é principalmente em seus "Contos Mínimos", publicados todo domingo no "Jornal do Brasil", que os leitores podem se deliciar com seu estilo delicado e a visão feminina do quotidiano da dura vida urbana. Nesta entrevista, Heloísa fala da influência marcante que teve em sua infância do escritor inglês Edgard Allan Poe, através das histórias que seu pai lhe contava. Histórias que a avó Maria também narrava com maestria - ora aumentando, muitas vezes inventando, mas principalmente atingindo sempre seu objetivo: deixar as crianças apavoradas, "mortas de medo". Ela também fala sobre o convívio sereno e sem conflitos com o marido, o também escritor Ruy Castro, ele escrevendo não-ficção e ela ficção. Minimiza humilde os prémios que recebeu recentemente da Academia Brasileira de Letras, pelos livros "Através do vidro" e "Contos Mínimos": "... Às vezes um encontro fortuito com um leitor, enxergar o brilho em seu olhar ao falar de um livro seu, marca mais..." justifica. Narra ainda porque começou a escrever tão tarde (somente aos quarenta), talvez esse o motivo de contos tão bem elaborados. Afinal, os contos amadureceram (como os bons vinhos) durante longo tempo. Como ela mesmo disse: "...0 fato é que em mim as histórias parece que transbordam". Contrastando com o que ela escreve, Heloísa não é nem um pouco tímida, muito pelo contrário: é alegre, descontraída... Conversar com ela foi um incomensurável prazer. ♦ Seus contos têm um "que" de mistério. De onde veio essa influência? ♦ Meus contos, assim como tudo o mais que escrevo, têm de fato uma certa aura de mistério. Sempre desde muito jovem, a literatura de horror e terror me fascinou, embora meu interesse tenha sido sempre o de buscar, nessa área, uma literatura de boa qualidade. É claro que estou falando, acima de tudo, de Edgard Allan Poe um autor que fez parte da minha vida desde muito jovem. Meu pai lia para mim, quando eu era criança, as histórias de Poe, não exatamente as de terror, mas mais as de aventura, como "O escaravelho de ouro", que era uma de suas prediletas. Por acaso, agora mesmo estou lendo "A narrativa de Arthur Gordon Pynn", que acaba de sair em português, e tendo um delicioso contato comesse tipo de narrativa de aventura, que Poe faz muito bem. Mas, voltando à questão do mistério, outra influência muito importante para mim foi a de minha avó, que também gostava de contar histórias. Só que nem sempre lia dos livros, como meu pai. Gostava mais de contar suas próprias histórias, na maioria assombradas (muitas inventadas por ela, creio, ou pelo menos parcialmente inventadas). Nós, os netos, ficávamos em volta dela sem piscar os olhos, hipnotizados. Minha avó tinha uma capacidade fantástica de contar história, de fazer suspense, de provocar medo. Essa

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DENIS CAVALCANTE capacidade, esse dom do conto, foi algo que me fascinou sempre. Não é à toa que eu dediquei meu primeiro livro, o livro de contos "Pente de Vénus", a ela, Maria. ♦ Por que você escolheu escrever crónicas em vez de contos e romances? ♦ Não escolhi crónicas. Escrevo contos, romances e crónicas também, embora neste último caso elas estejam sempre num meio caminho entre a crónica e o conto (estou, é claro, falando dos "Contos mínimos", que publico na revista Domingo do Jornal do Brasil). Até hoje, publiquei três romances (A porta", 'Diário de Perséfone" e Através do vidro') e um livro de contos, que já citei, "Pente de Vénus". Além de uma compilação de 50 "contos mínimos" que saíram no ano passado em livro. Ainda sobre o assunto, você já se sentiu discriminada por escrever crónicas, já que alguns críticos e escritores as rotulam como uma "literatura menor"? ♦ Nenhum género é literatura menor. Não creio que as pessoas sérias, que se interessam verdadeiramente por literatura, possam achar isso. Quem seria capaz de dizer que a crônica é um género menor depois de ler Rubem Braga? Ou Elsie Lessa? Ou Paulo Mendes Campos? ♦ Como você recebeu a premiação dos livros "Através do vidro" e "Contos Mínimos" pela UEB, ligada direta e visceralmente à Academia Brasileira de Letras? ♦ Fiquei feliz, claro. Qualquer prémio é uma forma de reconhecimento. Mas há outras formas que às vezes até marcam mais, como por exemplo um encontro com um leitor, um brilho que você vê num olhar ao falar de um livro seu. ♦ Você se considera uma escritora têmpora? Por que levou tanto tempo para começar a escrever? ♦ É, eu comecei a escrever com quase 40 anos. Não foi uma escolha. Foi assim porque foi assim. Aconteceu e pronto. Não parei mais. ♦ Algumas vezes lhe falta inspiração para escrever todo domingo no JB? ♦ Nunca. Ando pelas ruas enxergando "contos mínimos" por toda parte. Ou sonho com eles. Não sei se é porque esperei tempo demais para começar a escrever, mas o fato é que, em mim, as histórias parece que transbordam. ♦ As pessoas que leem você têm uma imagem distorcida. Você vende a imagem de uma pessoa tímida, retraída... Por que esse contraste entre o que escreve e o que é? ♦ Não sei. É um mistério. Eu tenho consciência de que crio uma espécie de "persona" quando escrevo e que, muitas vezes, ao me conhecerem, as pessoas dizem: "Puxa, mas você é tão diferente na vida real". Não sei por que é assim. Na verdade, eu sou também aquela que escreve. Tenho esse lado solitário e sombrio, que aflui, digamos assim, quando eu me sento para escrever. Tudo isso faz parte do mistério da literatura. ♦ Você é casada com o escritor Ruy Castro. Como vocês convivem escrevendo coisas tão diferentes, assuntos totalmente diversos? ♦ É ótimo. Talvez se escrevêssemos coisas parecidas, pudéssemos ter algum tipo de conflito, mas, do jeito que é perfeito. Ele escreve não ficção, eu escrevo ficção. A marca dele é o humor, a minha é o mistério. É uma troca interessante, que só nos faz bem. ♦ Qual é a sua opinião sobre o engajamento de intelectuais, artistas na política partidária; na sua opinião Regina Duarte "errou" ao expor seus "medos". ♦ Acho que liberdade de expressão é isso: todo mundo tem o direito de dizer o que pensa.

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ENTREVISTAS E PERFIS E todo mundo tem o direito de concordar ou discordar. Aqueles que dizem, também têm de arcar com as pressões. Acho tudo natural. Faz parte da democracia. De bem com a vida, Ubaldo diz que este é seu ano O autor de Diário do Farol é indicado pela terceira vez ao Jabuti e tem filmes e peças produzidos baseados em sua obra ■ DENIS CAVALCANTE Especial paro O LIBERAL A voz é grave, gutural, pausada e como não podia deixar de ser, mansa, incrivelmente mansa. Algumas vezes, falou tão baixo que foi necessário repetir as respostas. Bem humorado, porém lacónico, o escritor respondeu com objetividade tudo que lhe foi perguntado. João Ubaldo Ribeiro anda de bem com a vida. Embora "ligeiramente" preocupado com duas pequenas intervenções cirúrgicas marcadas para o final do mês de março (uma na vesícula e outra nas pálpebras), o escritor saboreia o sucesso do filme dirigido pelo diretor e amigo Cacá Diegues, "Deus é Brasileiro," lançado no começo de fevereiro e que já alcançou em apenas um mês de exibição a incrível marca de 1 milhão de espectadores, um recorde. O filme é baseado em um dos seus contos, "O santo que não acreditava em Deus", que conta a história da visita de Deus ao Nordeste, à procura de um homem a ser santificado. João Ubaldo até participou do primeira versão do roteiro, mas como ele mesmo disse, "eu não tenho muita paciência pra roteiro. Ainda mais que Cacá fez 13 tratamentos no roteiro. Eu não tenho paciência nem pra um". "Viva o povo brasileiro" um dos seus maiores sucessos literários, vai para a tela sob a tutela do diretor André Luiz de Oliveira, o mesmo de "Louco por cinema" e "Meteorango Kid". 'A casa dos budas ditosos" virou peça e está em fase de montagem sob a direção do cineasta Domingos de Oliveira, tendo no papel principal a brilhante Fernandinha Torres. Completando a overdose de João Ubaldo ainda teremos esse ano um monólogo, ainda em fase de negociação, em cima do último livro do escritor, "Diário do Farol", levado ao palco pelo exímio ator e diretor Raul Cortez. "Foi uma surpresa o sucesso do livro", diz, arrematando, que "jamais pensei que a história de um psicopata pudesse dar certo". E se não bastasse, o escritor acaba de ser indicado para o terceiro prémio Jabuti 2003. Que ele já ganhou duas outras vezes. Por conta de tudo isso o bom baiano não tem tido um momento de sossego. Agora toda vez que coloca sua indefectível bermuda, a camiseta, e o par de chinelos, e sai a caminhar como um simples mortal pelas ruas do Leblon, bairro em que reside no Rio, recebe elogios e também alguns poucos puxões de orelha de fãs e leitores mais afoitos. "Normalmente as pessoas são muito simpáticas, muito carinhosas comigo. De vez em quando aparece um chato ou outro, e aí alguns até extrapolam", conta. "Outro dia um sujeito depois de tomar umas e outras, entrou no bar em que vou aos sábados e domingos, tomou da minha mão o copo duplo com gelo em que eu bebericava inocentemente meu guaraná diet, meteu literalmente o nariz dentro do copo, deu uma cheirada e justificouse dizendo: queria ver para crer se o conteúdo era mesmo guaraná e não uísque" (risos). Ele arremata a história deixando bem claro que está momentaneamente abstêmio, mas

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DENIS CAVALCANTE só por causa das cirurgias; depois, são outros quinhentos... Violência - O escritor anda meio mofino e diz por quê. Além das cirurgias, vive preocupado, e muito, com a violência que assola a cidade. "Hoje o cidadão carioca está sitiado pelo crime, pelo tráfico organizado. Às vezes chego até a pensar que perdemos a guerra contra o banditismo", lamenta. Na sua opinião colocar o Exército nas ruas não é a solução. "Militar não é polícia e não foi treinado para tal". Outra grande preocupação sua é com a iminente guerra entre EUA e Iraque. "É horrível saber que um país pode ser arrasado num simples apertar de um botão. Que uma bomba pode arrasar quarteirões. A maioria das pessoas está mais preocupada com o aumento dos preços, essas coisas. Nós deveríamos estar preocupados é com a tragédia humana que se abaterá sobre o Iraque. Com os milhares de mortos, consequentemente a miséria, as crianças desabrigadas, as doenças, a fome...". Perguntado sobre suas idas cada vez mais escassas à Academia Brasileira de Letras, ele responde "baianamente", saindo pela tangente. "Tá muito calor aqui no Rio. Sem contar que do Leblon até o Centro, percorre-se uma distância respeitável, além do mais tem a indumentária... Paletó, calça, meias, sapatos". Mas prometeu que em abril, assim que a temperatura amainar um pouco, e ele se recuperar das cirurgias, irá mais amiúde para o famoso chá das cinco da Academia. Será? Quando lhe perguntei sobre o próximo livro (estava previsto um livro sobre o Leblon), contando o dia a dia do bairro que escolheu para morar depois que deixou Itaparica, ele desconversa. O livro inclusive já tinha, ou já tem, até nome escolhido: "Leblonianas". Ele justifica o adiamento dizendo que ainda não está preparado para escrever sobre o bairro. "Quem sabe mais tarde... Quando inicio um projeto de livro, vou em frente, escrevo todo dia. Livro é que nem bolo, se parar de mexer, desanda". Relaxado, depois de merecedora férias em Itaparica, sua ilha natal, o escritor confessa que é lá que recarrega suas baterias. "Aliás fui um dos poucos escritores da minha geração que não saí da minha terra, a Bahia, lá fiquei até meus quarenta e tantos anos. Fui para o exterior fazer mestrado em fevereiro de 64 e quando voltei, em meados de 65, não encontrei ninguém mais da minha turma. Antigamente era comum o artista, o escritor migrar para o Sul, à procura de melhores oportunidades, mais espaço. Era aquela história de pegar o "Ita" no Norte" (risos). Lá é minha terra, meu canto, quando posso fico quinze dias, se possível até um mês. Minha mulher também gosta muito de lá. Sem contar que revejo e mato as saudades dos amigos, afinal foi lá que vivi grande parte de minha vida. Ignacio de Loyola esteve em Belém para lançar "Anónimo Célebre", seu mais recente livro Um escritor que vive entre a solitude e a solidão Autor de "Veia Bailarina", Ignacio de Loyola Brandão diz que nunca foi um pessimista, e por isso, escreve

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■ DENIS CAVALCANTE Especial para O LIBERAL Pernas cruzadas, descontraído, os óculos repousando ora na ponta do nariz, ora passeando distraído entre os dedos, o escritor estava completamente à vontade, mesmo com a insinuante lente da fotógrafa à procura de seu melhor ângulo. A calma interior que demonstra com regularidade é uma conquista forçada. Por ironia do destino, foi a descoberta de uma grave doença -um aneurisma cerebral - que mudou radicalmente a vida do escritor paulista Ignacio de Loyola Brandão. Antes estressado, a ponto de partir em desabalada carreira para atravessar uma rua com o sinal prestes a fechar, ele hoje é um homem sereno, que fala com tranquilidade sobre a crítica a cada livro seu lançado: "Não dou muita bola para a crítica", afirmou. "No momento que a crítica critica, o livro já está pronto", arrematou, violentando o muro dos incomodados. Neste encontro, Brandão fala também sobre a doença que o pegou de surpresa, acerca do prazer de estar vivo e consequentemente da redescoberta do sentido amplo da palavra "viver". Escrevendo crónicas, artigos, ensaios, romances, ele procura instigar o leitor a descobrir por trás do óbvio aquele "algo mais" que costuma esconder sutilmente em seus elaborados textos. Quando esteve em Belém lançando seu 24° livro, "Anónimo Célebre", na VI Feira Pan-Amazônica do Livro, ele falou também de suas amizades no meio literário, como o recentemente falecido Roberto Drummond, Moacyr Scliar e Dionísio da Silva, entre outros. Revela também a necessidade visceral de escrever sua crónica publicada semanalmente no "Estado de São Paulo". Define-se também como um sonhador em busca da solitude, jamais da solidão. Veja abaixo os melhores momentos da entrevista exclusiva. ♦ Você passou um tempão sem escrever em jornais, por quê? ♦ Não é bem assim... Abandonei o jornal diário, mas continuei em revistas ("Claudia", "Planeta" e finalmente a "Vogue"). O que eu fiz nesse interregno de 11 anos (entre 79 e 90) abandonei sim, a imprensa num todo, não fiz mais nada nesse período. Tinha sido demitido da Três (revista) e decidi que era uma tentativa de viver do que eu escrevia. Meu livro "Zero" tinha sido liberado, estava vendendo bem recebia muitos convites para fazer palestras, oficinas literárias, crónicas eventuais em jornais e assim sobrevivi muito bem até que o Collor me fez voltai; e assumi a direção da "Vogue", onde estou até hoje. O Você já fez de tudo, escreveu crónicas em jornais, revistas, publicou inúmeros livros. Atei o que você mais gosta de fazer? ♦ Adoro uma coisa: meus livros é claro, estão em primeiro lugar Adoro fazer minha crónica semanal no "Estado de Sã Paulo" toda sexta-feira. É um lugar que faço às vezes um laboratório de textos em que algumas crónicas se transformam em contos. Alguns desses contos foram pro "Homem que odiava a Segunda-feira". É a minha visão de São Paulo, meu protesto, meu desabafo, minha brincadeira, enfim: é o meu diálogo com o leitor Essa crónica é uma necessidade, é uma coisa vital pra mim. O Em quantos países teus livros foram editados? ♦ Outro dia fiz as contas. Acho que em 11. Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Cuba, Coreia do Sul, Noruega...

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DENIS CAVALCANTE ♦ Sua obra é vasta... como consegue conviver com a crítica a cada livro lançado? ♦ Da mesma forma que a gente convive com a necessidade de educar os filhos. Quando você publica um livro, com certeza vai ganhar uma crítica. Essa crítica tanto pode ser positiva ou negativa. Se é positiva, eu me alegro, mas eu procuro saber se ela "pegou" o rumo certo do livro. Tem também uma coisa: no momento que a "crítica" critica, o livro já está publicado, já está pronto! ♦ O Pedro Nava, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Rezende formavam uma confraria. Você tem alguém da tua geração que seja seu interlocutor particular, de sua intimidade? ♦ Diria que tenho. Tive durante muitos anos um contato muito estreito, éramos muito unidos o Antônio Torres, o João Antônio e eu. O João infelizmente morreu. Também aí se ligam nessa espécie de troca o Roberto Drumond (morto recentemente), o Márcio Souza, o Moacyr Scliar, que esteve também aqui em Belém, e finalmente o Dionísio da Silva escritor e professor. Esse eu tenho tanta ligação que é o primeiro que lê meus livros, antes no manuscrito. ♦ Depois que você pulou a fogueira do aneurisma, o que mudou em sua vida? ♦ Descobri que esse instante que vivo, não sei quanto vai durar. Não sei se chego naquela porta, não sei se termino esta entrevista, não sei se esta vai ser minha última foto… Agora isso me dá uma intensidade de prazer tão grande, prazer de estar vivo, que acabou sendo uma conquista. Antes eu não valorizava tanto o sentido do "viver". Com o tempo cheguei à conclusão de que preocupações são necessárias, problemas existem, agora pequenos problemas são pequenos, os grandes são grandes. Se não são resolvíveis, tchau! Não tem solução. Por que eu vou me preocupar com uma coisa que não tem solução? Antigamente eu era tão ansioso que vinha andando pela rua e quando via que o farol ia mudar pro vermelho, corria. Corria pra quê? Isso foi minha maior conquista. ♦ Que livro você está lançando na feira? ♦ Estou lançando meu 24° quarto livro, "Anónimo Célebre" que saiu em São Paulo dia 13 de agosto último. Belém é a segunda grande capital em que ele é lançado, e eu me alegro muito, pelas relações que eu tenho com o pessoal de Belém. Tenho muitas amizades aqui na terra. Não conheço tão bem, porém conheço as pessoas; as pessoas é que são importantes. O livro fala sobre a busca insensata da fama, por um grupo de pessoas muito grande, que procura a fama a qualquer preço, e esse preço significa perder os escrúpulos, o pudor... Acreditar que a fama é que traz a felicidade, segurança, o paraíso... Porque eles veem só um lado, o lado que sai nas revistas, o lado produzido, maquiado; tento neste livro responder a essa questão, se é que alguém responde: pra quê fama? Cada um vai ler o livro e tirar sua conclusão, eu não respondo nada pra ninguém, o escritor não tem que responder nada ♦ Na sua opinião qual a função primordial do escritor? ♦ Escrever... Você escreve, pode até influenciar algumas pessoas que leem teu livro, mas não é com teu livro que você faz a revolução. Claro, exceto talvez "O Capital" de Marx etc... Não é caso da nossa literatura que é pra arte, o entretenimento, ou pelo prazer que eventualmente você pode proporcionar às pessoas. Em suma, mostrar o mundo que a gente vive é mostrar a vida como ela é. ♦ Da nova geração de escritores você pode destacar alguns?

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ENTREVISTAS E PERFIS ♦ Destaco de São Paulo dois: Luiz Ruffato e o Nelson de Oliveira, os dois na casa dos 30,40. São da jovem geração inquieta. Agora tem muita gente escrevendo em fanzines e na internet. Na internet tem dezenas ou centenas de sites com contos que, se você tiver tempo, acaba encontrando alguma coisa boa. ♦ Você prefere o livro eletrônico ou o velho e bom livro convencional? ♦ Não, não gosto do livro eletrônico, livro pra mim é o livro que eu me acostumei. Pode ser até que algum dia eu venha a publicar. Mas me cansa a vista, enche o saco, dá sono...O livro eletrônico não me tocou ainda; quem sabe um dia? ♦ A solidão está muito presente em sua obra, isso é um retrato do autor? ♦ O autor está no livro em variadas proporções. É difícil dizer, mas a solidão também faz parte da minha vida, tem momentos que eu sou profundamente solitário, mesmo tendo uma família, muitos amigos mesmo dentro de uma multidão, é uma coisa minha, interna, eu diria mais que seria "solitude" e não solidão, não é uma coisa que eu vá me matar por causa disso. Eu vivi sempre muito tempo solitário. Em Berlim eu vivi um ano e oito meses praticamente só, convivo com isso numa boa, não me assusta. A solidão... convivo bem com ela, claro que às vezes é meio chato, entristece, angustia, mas porra!, tanta coisa me entristece! ♦ Você se considera um sonhador, um pessimista ou um observador do cotidiano? ♦ Pessimista eu diria que não sou. Se eu fosse pessimista eu não escrevia. Na verdade o pessimista é um otimista com experiência. Agora eu não acho que o mundo está legal, que o Brasil vai bem, que o homem tá legal... E sei muito bem que isso não vai acabar com o mundo, o Brasil, a raça humana. Mas o homem tem essa loucura dentro dele, tem a insensatez dentro dele, tem essa quase inclinação à autodestruição, só que num momento ele se vira, pega um ventinho e volta. Então o homem não é um suicida, acredito, ele é uma coisa muito louca; eu sou um sonhador; sem um sonho a vida não vai pra frente, você caminha e vai em busca de um sonho, e se houver desafios, você continua!

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"A Leitura tem que ser um vício" MERGULHO Para Zuenir, o melhor conselho a se dar para os jovens é ler muito - DENIS CAVALCANTE - Especial para O LIBERAL Entrevistar mestre Zu é um raro prazer. Mesmo agora, quando finalmente conseguiu ser avô, Zuenir continua dando palestras por todo o Brasil. Difícil encontrá-lo em casa. Assim que chegou a Belém - para participar da XIII Feira Pan-Amazônica do Livre - (antes mesmo de ir para o hotel), fez questão de almoçar um filhote na chapa com arroz de jambu. Depois, uma passadinha no Ver-o-Peso, onde filou um gole de caldo de cana, comprou camarão seco e castanha-do-pará - suas iguarias prediletas. Na entrevista, Zuenir conta um pouco de tudo. A diferença entre o público e o privado, o prazer de ser avô, sua opinião sobre a Amazónia, a obrigatoriedade do diploma para exercer o jornalismo, sua paixão por Belém, seus livros de cabeceira... Isso e muito mais vocês podem conferir agora: ■ Queria que, com sua vasta experiência, você demarcasse dois limites que são difíceis de estabelecer. O primeiro é onde acaba a esfera privada e onde começa o interesse público. Até onde vai o direito da pessoa à privacidade e começa o direito de expô-la ao público? □ A demarcação é fácil quando se trata de dirigentes ou políticos. Isto é, homens públicos para os quais a vida privada é política. Para os demais cidadãos, porém, o direito à privacidade é sagrado. ■ O outro Limite é o que há entre o literário e o jornalístico. Você, que faz as duas coisas, como avalia o valor do que produz? O que é jornalístico e por isso, de certo modo, efémero, e o que é mais persistente ou mesmo imortal, por seu valor Literário? □ Há pelo menos duas maneiras de distinguir o "literário" e o "jornalístico". Uma delas, através do uso livre das figuras de linguagem: metáforas, metonímias, pleonasmos... E pelo cotidiano. A matéria prima do jornalismo é a realidade. A da literatura é a imaginação. Plagiando o mestre Manoel de Barros: "Na literatura só 10% é mentira; o resto é invenção". No jornalismo nem uma coisa nem outra. ■ Depois de ter escrito um livro sobre Chico Mendes e vários artigos sobre a Amazónia, você se considera habilitado como um amazonólogo? O que pensa sobre o presente e o futuro da região? "A Amazónia é um patrimônio da humanidade, mas é um bem nosso" □ Infelizmente continuo sem conhecer a Amazônia, mas cada vez me sinto afetado por ela. Acho que a Amazônia é um patrimônio da humanidade, mas é um bem nosso, do qual precisamos cuidar, coisa que até hoje nunca soubemos fazer direito. ■ Você é um jornalista oriundo das ruas, das redações. Qual sua opinião a respeito dessa celeuma criada pela obrigatoriedade de diploma para ser jornalista? □ Acho uma discussão chaníssima. Como você bem o disse, minha geração aprendeu jornalismo no dia a dia, nas ruas e nas redações. Resumo minha posição assim. Sou contra o diploma, mas a favor das escolas. O canudo é dispensável, mas o ensino do jornalismo, não.

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DENIS CAVALCANTE ■ Recentemente você tornou-se avô. Como é isso? □ Olha Denis, para falar a verdade, eu assim como o Luís Fernando Veríssimo - já tinha perdido a esperança de ser avô. Mas podem crer: é uma experiência maravilhosa. Na minha idade, eu já estou mais pra bisavô do que avô. ■ Após um período de baixa, a crónica renasceu das cinzas. Em sua opinião, a que se deve o ressurgimento da crónica nos jornais e revistas em todo o País? □ Nesse mundo em que vivemos, dominado pela tecnologia, TV, e-mails, twitter, Orkut... A crónica escrita em jornal oferece um olhar pessoal, subjetivo, original até. A crónica é uma janela aberta pelo cronista para leitor. A matéria prima da crônica é tecida de fantasia e realidade. Esse é motivo da sua proliferação e permanência. ■ Diga lá Zuenir: algum livro no prelo? □ Tenho um, senão no prelo, pelo menos a caminho. Trata-se de uma ficção. Uma história de amor que se passa nos anos quarenta, onde fui criado - Nova Friburgo. ■ Por ultimo-as não menos importante - Que mensagem você daria as jovens que iniciam a difícil tarefa da leitura e da escrita? □ Leiam, leiam, leiam tudo que puderem. Mas só escrevam quando não puderem fazer outra coisa. A leitura deve, tem que ser vício; escrever é obrigação. ■ Nas suas idas e vindas a Belém, o que mais te marcou, te agradou na cidade? □ O que mais me agrada em Belém é seu povo. Quando o Rio não me quiser mais, vou pra Belém do Pará.

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CONFIDENCIAL "Felicidade é... uma mulher que te ame, família e amigos fiéis" Alo, Denis. Minhas homenagens, extensivas a memória de seu "pai herói". Os leitores perguntarão, por que pai herói. Esclareço. O jovem paraense Eliel Cavalcante, com sentimento de brasilidade, estava no auge da sua juventude e sofrendo as agruras da segunda guerra mundial. O Brasil tendo os seus navios torpedeados e brasileiros sendo sepultados, nas águas do Atlântico, e a cidadania daquele jovem brasileiro estava sendo ultrajada. Eliel não pensou duas vezes. O Brasil já tinha declarado guerra ao nazifacismo e ele foi se alistar, como voluntário, da Forca Expedicionária Brasileira (FEB), enquanto muitos atrofiaram suas mãos para não serem convocados para a guerra. Eliel foi defender a democracia nos campos de guerra da Europa. Voltou para a felicidade e alegria dos seus familiares, e resolveu fixar domicílio no Rio de Janeiro, onde ficou por 30 anos. O filho do herói Eliel é o meu entrevistado para o Amazônia Hoje. Denis Cavalcanti homem de bem, cronista admirado semanalmente em O LIBERAL, é membro da Academia Paraense de Letras e empresário. Casado com a médica Rejane, tem dois filhos jovens. Eu o considero um bom amigo, mas vocês precisam saber das suas confidências, feitas durante o "tête-à-tête" que mantive com ele. Leiam. ■ Como surgiu sua vocação literária? □ Desde que me entendo por gente vivo cercado por Iivros. Meus pais me iniciaram na arte da leitura. Em momento algum passou pela minha cabeça ser escritor. Sempre li e leio muito. Por ironia do destino, uma fatalidade, a morte de um amigo-irmão, Luís Roberto Meira levou-me a isso. Quando ele se foi, escrevi um texto despretensioso, porém cheio de emoção e saudade s, texto esse publicado em O Liberal. Gostaram, e estou escrevendo até hoje. ■ O sr. escreve suas crônicas a noite ou de dia? □ Geralmente a mão e à tardinha, na sacada de meu apartamento Mas pode ser em qualquer lugar. No avião, no hotel, na mesa de um bar. Como um carioca veio morar em Belém? □ É uma longa história. Meu pai era paraense. Um belo dia resolveu ir para a II Guerra Mundial e alistou-se como voluntário na FEB – Força Expedicionária Brasileira. Assim como eu, era um doidivanas. Quando a guerra acabou desembarcou no Rio. Ficou por lá 30 anos. Mas seu coração sempre esteve no Pará. Quando pôde pegou o Ita ao contrário e voltou para o Norte. E eu com ele. Imaginem a aventura? Anos 60, a bordo de uma Vemaguete carregada, e seguir desbravando a Belém-Brasília recém inaugurada... Lá se vão quarenta e tantos anos. Estou aqui até hoje. ■ O sr se julga um homem feliz? □ Qual o verdadeiro conceito de felicidade? Dinheiro, poder, fama? Se for isso, não. Para mim, felicidade é bem mais simples. Uma mulher que te ame, família, amigos fiéis... Se for isso, sou feliz. E como! ■ Porque desejou ingressar na APL? □ Quem te disse que desejei? Jamais sonhei ser imortal. Um belo dia o Hilmo Moreira

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DENIS CAVALCANTE adentrou na minha livraria e, sutil me sondou. Pensei, pensei e pensei: porque não? Comecei com dois votos. No dia da eleição obtive 27 votos. Resultado: hoje sou imortal. ■ É verdade que o senhor está formando uma nova geração atuante no silogeu? □ Depende do que quer dizer nova geração. Ousaria dizer que nos últimos três anos houve uma renovação significativa nos quadros da APL. De aproximadamente 20%. O confrade Bernardino Santos cunhou com propriedade essa renovação cunhando-a de Bossa Nova! ■ Quantos livros já escreveu? □ Desde a primeira crônica, em meados de 1999, três. Junto com o amigo e confrade João Carlos Pereira, mais dois. E no papel, um interminável romance – que espero fique para a posteridade. ■ É verdade que na APL não é necessário, para ser admitido, ter escrito algum livro. Quais os critérios? □ São vários os critérios para a escolha de um acadêmico. Um deles é o de obras publicadas. Um outro, o do notório saber. É sabido que muitos imortais entraram na ABL e na APL sem terem escrito uma linha. Porém, existe também o outro lado. A escrever uma penca de livros sem conteúdo, melhor - e bem melhor – é eleger um candidato de notório saber. ■ Como o sr explica o súbito interesse em ingressar na APL? □ Boa pergunta Quando me candidatei havia cinco cadeiras vagas. Ninguém queria. A mídia foi em parte responsável por essa – digamos assim - caça ao tesouro. Procurei fazer a minha parte. Fui à luta, fiz uma campanha sui generis. Visitei todos os acadêmicos. Inclusive os que moravam em outros estados. Dou um boi para não entrar numa disputa; mas depois que entro... ■ É fato que existe uma igrejinha, isto é, um grupo de imortais que dá as cartas na APL? □ No Brasil na política, sempre alguém dá as cartas. Na Academia não deveria ser diferente. Estou lá há algum tempo e nunca vi isso ocorrer. Alguém tem que tomar as decisões. Lá quem as toma é a diretoria, à frente nosso presidente Édson Franco. ■ É verdade que o sr é um eficiente mestre-cuca? Quais são suas especialidades? □ Qual nada! Diria que cozinho direitinho. Emulsifico, misturo temperos. A verdade é que passei a morar só muito cedo. Por uma questão de sobrevivência fui obrigado a cozinhar. Senão, morria de fome. Tomei gosto, gosto este herdado de meu pai, que passou para mim e eu para o seu neto. Faço de tudo: do trivial ao sofisticado. Depende da ocasião. Uma carne assada. Com as sobras, uma roupa velha. Uma caldeirada de filhote, uma galinha cabidela À noite, um risoto, uma paella e o prato que a maioria gosta: escalopinho com arroz à piermontesa. A receita preferida das sobrinhas-filhas: Nicolle, Lívia, Bianca, Camila e Carolina. ■ Qual sua comida preferida? □ Arroz, feijão, bife, farofa de ovo e batata frita. Para adoçar a boca banana comprida frita na manteiga açúcar e canela. ■ O sr deve ser um leitor voraz. O que está lendo no memento? □ Leio em média quatro a cinco livros simultaneamente, um costume que adquiri há tempos. Atualmente, leio ''Carmen'', de Ruy Castro; releio os poemas de Erza Pound,

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ENTREVISTAS E PERFIS e ''Suave é a noite'', F.S. Fitzgerald. Aguardando a vez, ''O retrato de Florian Gray" e a inigualável ''Montanha mágica', de Thomas Marm. ■ O sr é proprietário de uma livraria. Que espécie de literatura é mais procurada? □ De tudo um pouco. Auto-ajuda, poesia, história, biografias... Quando menos se espera aparece alguém pedindo um Bilac, um João Carlos, um Hilmo, um Barata, um Benê... Uma livraria reserva muitas surpresas; é uma caixa de pandora. ■ Em sua opinião, quem é o melhor escritor da atualidade? □ São tantos, prefiro não nominar e esquecer de alguém. ■ Qual sua maior extravagância? □ Desconheço o real significado dessa palavra. Contento-me com pouco. A caminhada matinal, um pastel, uma unha de caranguejo, um caldo de cana, o convívio da família uma rede, um bom livro, boa música uma dose de uísque ao cair da tarde, e, o melhor: o chamego, aconchego, carinho e a compreensão da mulher que - apesar de tudo –está comigo até hoje, Rejane. ■ Que é notável no Pará? □ Na política, Almir Gabriel. Na literatura, os dois Benés. Monteiro e o Nunes. ■ O que Belém e o Pará necessitam com urgência? □ Mais investimentos em saneamento básico, educação e saúde. E homens públicos que deixem de lado picuinhas, ambições pessoais e vaidade e dediquem todos seus esforços em prol do bem estar do povo paraense. É pedir muito? ■ Contra ou a favor da reeleição? □ Visceralmente contra. ■ Qual o perfil do presidente ideal? □ É uma quimera. Se possível fosse, seria uma improvável alquimia entre Getúlio, Juscelino, Castelo, Lacerda e Brizola. Todos mortos. Estamos carentes de políticos carismáticos. ■ Como é sua vida familiar? □ Tão simplória que nem vate a pena faiar. Porém, não a troco por nada nesse nem em outro mundo. ■ Uma música inesquecível? □ São tantas... "Molambo", "As time goes by", "Your song". E "Detalhes", sempre. ■ Uma frase. □ Que tal duas? "Essa vida é uma viagem; pena que eu estou só de passagem", de Paulo Leminski. "Se chorei ou se sofri o importante é que emoções eu vivi", de Roberto Carlos. ■ Uma saudade? □ Meu pai, minha tia Rosa e meu amigo Babalu. ■ Fale um pouco sobre seu trabalho à frente da diretoria Cultural da AP. □ O trabalho que a Diretoria cultural vem realizando na Assembleia Paraense só é possível graças ao apoio irrestrito da diretoria comandada pelo presidente Gilberto Guimarães. Hoje, a AP é uma máquina bem azeitada, um time que funciona quase que por telepatia. Todos se conhecem, se respeitam trabalhando em prol do engrandecimento do clube. Não tem como dar errado. ■ O que lhe faz perder a paciência? □ Gente que atrapalha a passagem batendo papo furado em rua estreita. Pessoas que

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DENIS CAVALCANTE quando estão por cima, pisam nas outras. A vida é uma gangorra: sobe e desce. E aí, quando estiverem por baixo, irão colher o que plantaram. Tempestades. ■ Existe amor à primeira vista? □ Claro. Acontece comigo. Quando botei o olho na Rejane – minha mulher - sabia que estava diante da mulher da minha vida ■ Qual é sua mania, que os americanos chamam de hobby? □ Viajar, comer bem, colecionar livros e fazer artigos. ■ Qual seu clube de coração? □ Em Belém, o mais querido. Clube do Remo. No Rio, Botafogo, se Deus quiser, o campeão carioca desse ano. ■ Qual outro país em que viveria? □ Nenhum. Adoro o Brasil. ■ Valeu comparecer a Bienal do Livro em São Paulo? □ Com toda certeza. Não perco uma desde 1989. Fico feliz como pinto no lixo. Costumo dizer que a Bienal é o natal dos livreiros, escritores e amantes da leitura.

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Cronistas lançam obras em parceria hoje Denis Cavalcante e João Carlos Pereira, colaboradores do jornal O LIBERAL, autografam obras na Feira Pan-Amazônica do Livro A amizade que aproxima Denis Cavalcante de João Carlos Pereira não é tão antiga como possa parecer. Denis é, como dizia o colunista Edwaldo Martins, "pouquinha coisa mais velho" que João Carlos e poderiam ter sido amigos de infância. Acontece que eles só se conheceram há alguns poucos anos e logo se descobriram amigos. Tão amigos que podem se dar ao luxo de fazer o que pouca gente ousou: vão lançar, hoje, a partir das 19 horas, no estande das ORM, numa mesma sessão de autógrafos, seus mais recentes livros de crónicas. Denis autografará "A Felicidade é Azul" e "Sobre o Amor e Outras Coisas" e João Carlos, "Maria, a Cheia de Graça" "O Denis me propôs esse lançamento conjunto e eu topei na hora. Afinal, somos companheiros de Academia Paraense de Letras, cronistas de O LIBERAL e pertencemos ao seleto clube dos safenados. Mas, principalmente, somos amigos" conta João Carlos. Denis Cavalcante começou a escrever crônicas movido pela dor da perda de seu amigo e sócio Luís Roberto Meira. Elaborou um texto e levou, com a cara e com a coragem ao diretor-redator-chefe de O LIBERAL, jornalista Walmir Botelho. Walmir gostou e publicou. A partir de então, nunca mais parou de escrever. Com as crônicas do Jornal, preparou dois volumes e já parte paia o terceiro. "Eu fico muito feliz porque até então não escrevia e acabou dando certo" diz Denis, que tem coluna cativa, às sextas-feiras, há quase cinco anos, no primeiro caderno do Jornal. "É um espaço nobre, eu sei, por isso a minha responsabilidade aumenta, cada vez que alguém diz que lê a coluna e que gosta" João Carlos foi repórter, editor de O LIBERAL e assessor especial da Fundação "Rómulo Maiorana" Há mais de 15 anos faz crónicas para os cadernos "Cartaz" (quando ainda nem tinha este nome) e "Mulher" Os textos de "Maria, a Cheia de Graça" têm como tema a devoção mariana que o autor cultiva, desde que se converteu ao catolicismo. Esse livro, editado pela Secult, foi dado como lembrança às pessoas que prestigiaram sua posse, na APL, em 4 de outubro do ano passado. Cerca de 70% da edição foram ao Instituto Criança Vida e, toda vez que houver lançamento dessa obra, a renda será revertida para o Projeto. "Com esse livro, presto uma homenagem à minha querida amiga Rosângela Maiorana Kzan, que idealizou o projeto e, com ele, está salvando muitas vidas" Na Academia Paraense de Letras, os dois cronistas dividem a mesma bancada e estão trabalhando juntos na organização deu uma antologia sobre o tema Natal, que será lançada em dezembro. Também participam de outros projetos que devem ser anunciados em 2005. Antes de se estreitarem os laços de amizade, as famílias de Denis e de João Carlos já se conheciam, mas não sabia quem era quem. A esposa de Denis foi a pediatra neonatal de Beatriz, a filha mais nova de João Carlos e Emília. "Nem ele sabia que a Rejane, a médica, era minha esposa, nem ela sabia que o João Carlos era meu amigo" lembra Denis. "A formalidade era tanta, que nós a tratávamos de 'doutora' Hoje, é nossa amiga Rejane" diz João Carlos.

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DENIS CAVALCANTE SERVIÇO O lançamento conjunto de Denis Cavalcante e João Carlos Pereira acontece hoje, às 19 horas, no estande das ORM, na Feira Pan-Amazônica do Livro. Histórias de um quatipuru literário Denis Cavalcante reúne em livro mais de 60 crônicas publicadas em O Liberal LANÇAMENTO * ALBERTO SILVA NETO Especial para o Cartaz O menino travesso chegara àquela livraria acompanhando o pai. Nem bem entrou, pôsse a vasculhar tudo. Por onde passava ia deixando um rastro melado do sorvete que derretia por entre os dedos. Preocupado com a integridade física de seus livros raros, o dono do recinto resolveu tomar uma atitude. Aproximou-se do pirralho e chamou-lhe à atenção. Ouviu um desaforo. Mas não se deu por rogado: tascou uma baita lambida no sorvete da criança, que o olhou, assustada, certamente estranhando tal atitude de um adulto. No meio da confusão, vários livros foram ao chão; entre eles, um de Monteiro Lobato. Minutos depois, ambos estavam sentados num sofá. O menino parecia outro enquanto ouvia, bem quietinho, o livreiro ler para ele uma das estórias mais conhecidas do genial escritor: "A chave do tamanho", deliciosa invenção sobre uma chave mágica que dá ao dono o poder de ser criança enquanto quiser. Na hora de ir embora, o menino virou-se para o livreiro e disse: "Quando o senhor encontrar o Monteiro Lobato, pede pra ele me dar essa chave". O dono da livraria nunca mais esqueceu essa história. Seu nome? Denis Cavalcante, que, além de livreiro, é o autor das crônica s publicadas todas as sextas-feiras em O LIBERAL, há mais de dois anos. A maioria delas, inspiradas em fatos quase banais do cotidiano, como esse encontro inesperado com o menino do sorvete. Agora, essa e outras jantas crônica s estão reunidas no livro Sobre o amor e outras coisas, que o escritor lança nesta sexta-feira, 7, a partir das oito da noite, no teatro Estação Gasômetro, no Parque da Residência. Saudade - Talvez essa facilidade para se comunicar com as crianças venha da alma eternamente jovem de Denis, hoje com 47 anos, casado, dois filhos. Carioca, ele vinha sempre a Belém na infância, e passou a morar aqui definitivamente aos 14 anos, quando seu pai, o ourives Farias Gomes Cavalcante (morto em 1989) decidiu voltar à terra natal. Da infância e adolescência, lembra com carinho: "Eu adorava jogar bola na rua, brincar de peteca na terra e empinar papagaio em cima do telhado da nossa casa, na (rua) João Balby". E são justamente essas reminiscências o motivo de inspiração para a maioria das crônica s do livro. Saudosista, Denis sempre lembra em suas escrituras de personagens reais que povoaram sua vida, como é o caso do avô, homenageado no texto "A barba do meu avô", que também integra a publicação. Nele, o escritor descreve com raro lirismo a essência de um homem que, com mais de 90 anos, se esforçava para manter os antigos

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ENTREVISTAS E PERFIS hábitos, a despeito da modernidade que irremediavelmente se impunha. Outro tema recorrente na obra de Denis é a lembrança da cidade. Na crônica "Belém que se foi"..., o escritor lamenta o fim de um punhado de costumes típicos dos paraenses, como sentar em cadeiras de palhinha à beira da calçada para conversar com os vizinhos. Também lembra quando o peixe e o camarão eram produtos vendidos bem fresquinhos, de porta em porta; ou ainda do tempo "dos quintais onde, quando a noite linha, sentiase o odor inigualável dos jasmins em flor". Também não poderia faltar o mais nobre de todos os temas, o amor - já bem explícito no próprio título do livro. Observador sempre atento do dia-a-dia, Denis narra na crônica 'A semente do amor" o encontro apaixonado de um casal em plena imensidão da praia do Atalaia, em Salinas: "Os corpos vibram, os olhos brilham, um arrepio percorre os dois, a paz se instala, um beijo tímido então se deu. Assim como chegaram, partiram. Só que com uma diferença: chegaram como dois e voltaram como um". Amigo - Mas, afinal, o que teria levado esse homem que nunca concluiu um tal curso de Medicina, "ex-dono de marcenaria sem ser marceneiro" (como diz seu amigo Oswaldo Mendes num dos prefácios do livro) e hoje dono de livraria, a se tornar escritor? Bem, essa é a parte um pouco triste dessa história. Tudo começou com a crônica "Meu amigo de fé, meu irmão camarada", que Denis escreveu em homenagem ao seu grande amigo de infância, Luís Roberto Meira, que morrera vítima de um infarto fulminante, na própria livraria de Denis. A data é inesquecível: uma segunda-feira, 11 de outubro de 1999, um dia após o Círio de Nazaré. A morte é indissociável da vida, sabemos todos nós, e a dor dessa perda irreparável transformou-se no maior incentivo para que Denis colocasse pra fora seu talento como escritor e, sobretudo, como cronista do cotidiano - e não parasse mais. O olhar sempre atento a tudo o que acontece ao seu redor (seja um velhinho cego que atravessa a rua, ou seu próprio filho que descobre o prazer de comer com os olhos fechados) valeram ao autor o carinho e reconhecimento de inúmeros leitores de O LIBERAL. Quase sempre, Denis é aquele que mais recebe cartas e e-mails de admiradores. Sua crônica "Namorar é preciso," apenas para citar um exemplo, chegou a receber nada menos que 227 correspondências. Outras tantas tiveram retorno semelhante. E não são apenas os leitores anónimos que fazem questão de ressaltar a habilidade de Denis para transformar em literatura aquilo que poderia passar despercebido para qualquer um. Além do publicitário Oswaldo Mendes, também assinam os prefácios de "Sobre o amor e outras coisas" dois ilustres Beneditos: o Monteiro e o Nunes. Esse último, generosamente aproxima Denis Cavalcante de Rubem Braga, Haroldo Maranhão e Mário Faustino, e termina por comparar as características de sua escrita às do quatipuru, um animal típico da Amazônia, tema de uma crônica que particularmente o encantou: "O quatipuru é um bicho pequeno e irrequieto. A crônica do nosso autor, irrequieta, sensível e fugidia, e que se pode ler fluentemente, é um quatipuru literário". Nada mais apropriado para homenagear um escritor que se dedica, em cada palavra, em cada crônica , a uma busca incansável de compreender a essência de seus amores, de seus familiares, de seus amigos, de sua cidade, de sua identidade cultural – da vida, enfim.

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"Rancor faz mal à saúde" CONFICENCIAL CLÉA CHADY FARAH LA é uma das acionistas da Fábrica de Celulose do Pará-FACEPA, ao lado do marido, industrial Antônio Farah, presidente daquela indústria, uma das mais importantes produtoras de papel do Brasil e da América do Sul. No próximo dia 30, a bonita e elegante Cléa estará aniversariando, nas estará no Rio de Janeiro, por isso, dias atrás, ela foi homenageada por amigas. Ela é casada há 51 anos e, hoje, relembrarei algumas confidências que ele me fez. Leiam: Guarda rancor? Não vale a pena, faz mal à saúde. O que gosta de receber como presente? Tudo o que é dado com simplicidade e carinho, não importa o valor. Quantos filhos e netos? Um casal de filhos e cinco netos. Sua opinião sobre o casamento? É base da constituição de uma família. A rotina pode acabar com o casamento? Como seguiu manter o seu lar feliz há 51 anos? A vida é muito sábia. Sabemos dominar a rotina. Com o nascimento e a criação dos filhos, e, depois, a chegada dos netos, os bons momentos suplantaram os inevitáveis maus momentos. Eu e o Antônio mantemos o nosso lar feliz, porque nos amamos e nos compreendemos com lealdade e sinceridade. ■ Qual o conselho que transmite aos novos casais? Amor, renúncia e muita compreensão. ■ Monumentos de Belém? Forte do Castelo, Catedral e Praça da República. ■ Uma verdade que deve ser dita? Todas com coerência, desde que não ofenda ninguém. ■ Seus planos para o futuro? Continuar a vidinha de sempre e viajar mais. ■ O que lhe faz perder a paciência? ■ Sou muito tranquila, serena e tolerante para perder a paciência. Sua comida preferida? ■ Além da corrida árabe, quando é bem feito, um pato no tucupi. Das artes qual prefere? ■ Balé clássico. Uma saudade? ■ Da minha mãe.

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ENTREVISTAS E PERFIS Uma tristeza? ■ A perda de ente querido. Uma alegria? // # JJ Rancor faz mal à saúde (LXÉACHADY FARAH Industrial ■ Estar casada há 51 com o Antônio, feliz e com saúde. Existe amor à primeira vista? ■ Existe sim, o meu e o do Antônio. Qual o seu passatempo preferido? ■ Ouvir músicas. * Por que a mulher moderna é exigente? ■ Porque são mais preparadas e independentes. * Sua opinião sobre o homem brasileiro? ■ Não existe homem, existem homens, cada um no seu estilo. Porque vale a pena viver? ■ Por que é uma dádiva que Deus nos deu. Dedica-se a alguma campanha filantrópica? ■ Sim, faço o bem e não digo a quem. Acredita em reencarnação? ■ Como católica acredito na vida eterna, que são os ensinamentos da minha religião. ■ Quais os seus traje preferidos? Cada ocasião tem o seu traje certo. ■ Alguma frustração oi decepção? Não, sou feliz com tudo que Deus me deu. ■ Por que se julga feliz? Porque tenho uma família maravilhosa, todos com saúde e uma vida econômica estável. ■ Uma lembrança de sua juventude? A minha festa de 15 anos. ■ Sua opinião sobre a sociedade de Belém? É uma sociedade de bom nível e tranquila, apesar dos agitos. ■ Como combate o estresse? Por ser uma pessoa muito tranquila, esta palavra não consta em meu vocabulário. ■ A felicidade existe, ou o que existe são apenas momentos felizes? Existem os dois. ■ Do que se orgulha? De tudo o que fiz de bom. ■ A senhora é exigente? Não, porque estou bem com a vida.

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DENIS CAVALCANTE ■ Tem medo da inveja? No fundo tenho, mas acredito na proteção divina. ■ A senhora já fez mil e uma viagens ao exterior. Em qual pais gostaria de viver? Passar temporada no exterior é bom, especialmente no Líbano, mas a minha preferência é morar no Brasil juntos aos familiares. ■ Sobre o divórcio? Apesar de que desagrega a família, em muitos casos é necessário e inevitável. ■ O que Belém precisa urgente? Segurança. Não só Belém e sim em todo o Pará, além de outras necessidades. ■ É radical nos seus pontos de vista? Não. Radicalismo é incapacidade de resolver problemas. É autoritarismo e falta de sensatez. ■ Do que jamais se esquecerá? Da primeira vez em que vi o Antônio, meu amado marido! Um escritor apaixonado por sebos e maniçoba Em Belém para autógrafos na Feira Pan-Amazonica, Ruy Castro relembra sabor da iguaria que comeu há 20 anos ■ DENIS CAVALCANTE Especial para O LIBERAL Um repórter tem que ter em primeiro lugar sorte. Em segundo estar no lugar e na hora certa. O escritor e jornalista Ruy Castro apareceu no Baú, à cata de livros para o laboratório de sua próxima obra, um livro que faia sobre a cidade do Rio de Janeiro. "À cote" sua consorte, a também escritora Heloísa Seixas. Do encontro casual resultou a entrevista abaixo. Voz de barítono, um cigarro atrás do outro, brincalhão, e bemhumorado como todo carioca, Ruy é literalmente um livro aberto. Falou sobre as dificuldades que enfrenta (apesar do grande prazer) para escrever biografias, como as de Nelson Rodrigues, Bossa Nova, Garrincha.. Declarou também suas impressões sobre a Feira Pan-Ama-zônica do Livro, onde autografou um semnúmero de exemplares, e revela sua compulsão irrefreável por sebos: "A primeira coisa que faço quando chego numa cidade é procurar um sebo." Enumerou os livros que está lançando na feira VI Pan-Amazônica. "O vermelho e o negro - Pequena grande história do Flamengo", e "A onda que se ergueu no mar". Botou para fora sua paixão pelo Flamengo, peto Rio e confessou também a "fissura" por uma rara iguaria comida há mais de vinte anos aqui em nossa Belém: uma suculenta e inesquecível maniçoba, que até hoje lhe deixa saudades. Com vocês: Ruy Castro. Você é um especialista em biografias. É mais difícil do que escrever romance? ♦ Não, acho mais fácil. Apesar da enorme dificuldade que é fazer biografia, temos que fazer um levantamento enorme, de ter um trabalho gigantesco de localizar as pessoas que vão te dar as informações, afinal, você está à procura de coisas que aconteceram 40, 50 anos atrás. E o biografado, de preferência, tem que estar morto (risos). Esse trabalho monumental de pesquisa, como você mesmo falou, é feito sozinho? ♦ (Enfático) Sozinho. A melhor, parte do trabalho, que é a apuração dos fatos, a

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ENTREVISTAS E PERFIS coleta das informações depois que você localizou a rua fonte, que você vai - conversar com da, faz milhões de perguntas, toma nota de tudo, fica até amigo do sujeito, essa parte é mais gostosa. Você acha que eu vou 'delegar esse prazer pra outro? Qual foi o livro que voei escreveu que deu mais trabalho? ♦ Sem dúvida alguma "Ela é Carioca", a enciclopédia de Ipanema. Foram 231 personagens, todos interligados. E por incrível que pareça, a mais fácil foi a biografia de Nelson Rodrigues ("O Anjo Pornográfico"). Quais foram teus livros mais vendidos? ♦ "A Estrela Solitária", "O Anjo Pornográfico", "Chega de Saudade" e "Ela é Carioca". E qual o teu próximo projeto de livro? ♦ Estou soltando no final do mês de outubro um livro chamado "Mau Humor". É uma coletânea de frases mal-humoradas, lançadas há dez anos em três livros já esgotados. Fizeram na época um enorme sucesso. Resolvi então pegar os três livros, que têm 4.500 frases, e dar uma enxugada para 2.000 frases. E acrescentei mais 400 frases inéditas. Estou trabalhando também, furiosamente, num livro para sair no ano que vem por uma editora inglesa e pela Companhia das Letras no Brasil, que fala sobre o Rio de Janeiro. Ainda ralando em livro: "O Vermelho e o Negro" teve em seu título alguma inspiração no homônimo de Stendhal? ♦ Evidentemente foi proposital. Tanto que, no final do livro, eu faço um paralelo sobre "O Vermelho e o Negro" do Stendhal. Comparando as vitórias épicas de Napoleão com os feitos gloriosos do Flamengo. Você é casado com uma escritora. Como vocês trabalham? Cada um para um lado ou juntos? ♦ Cada um pro seu lado, literalmente. Tanto que nem moramos juntos (gargalhada). Mais a grande diferença é que ela faz ficção e eu escrevo não-ficção. O método de trabalho é completamente diferente. Na não-ficção eu dependo de todo mundo. Eu dependo das fontes, das informações, dependo de uma quantidade enorme de gente que me ajuda a localizar as fontes. Num livro como o do Garrincha, eu entrevistei cerca de 200 pessoas várias vezes cada uma, num total de SOO a 1.000 entrevistas durante dois, três anos. Eu aporrinhona verdade 500 pessoas. Sem contar que eu necessito discutir a história, converso o tempo todo sobre a pessoa que estou biografando. Principalmente com a Heloísa. Qualquer palpite é bem-vindo. Em contrapartida, o trabalho de ficção, que é o dela, é exatamente o oposto. Ela lida com personagens fictícios que tirou da cabeça dela e que ela própria não sabe o que vai acontecer com eles. Ninguém pode dar palpite no destino de personagens que só existem na cabeça dela. Então ela trabalha totalmente em segredo e não me fala nem o título do livro que está fazendo. Só vou saber quando está no prelo. Como foi tua Iniciação na leitura? ♦ Comecei a ler muito cedo. Na casa dos meus pais não tinha livros. Tinha muito jornal. Meu pai assinava dois jornais, e comprava mais dois. Então tinha quatro jornais, pelo menos, por dia lá em casa: "Correio da Manhã", "O Jornal", "Última Hora", por causa da minha mãe, que era fã do Nelson Rodrigues, e 7Í Tribuna da Imprensa", porque meu pai era lacerdista. Então eu cresci cercado pelo jornal. Minha grande influência foi o

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DENIS CAVALCANTE jornal. Não foi o autor, foi o veículo. Eu sempre quis ser jornalista. Jornalista do "Correio da Manhã". Você tem o costume de garimpar sebos? ♦ Em toda cidade que vou eu procuro sebos. Agora, entrevista em sebo, essa é a primeira. Os sebos são um dos lugares mais maravilhosos que existem. Porque nada de ruim pode te acontecer num sebo. Só coisas boas. Eu já disse para Heloísa isto: qualquer livro que tenha sido escrito, publicado por mais idiotia que seja, exigiu uma carga de amor pra ser feito. Forque se você não tiver" um pouco de amor pelo ato de escrever, você não escreve. Há outras coisas mais interessantes pra se fazer na vida. O livro usado mais ainda, porque já foi manuseado por várias pessoas que gostaram desse livro. Você está cercado de objetos de amor. O sebo tem um astral bom. Eu costumo dizer uma frase quando eu gosto particularmente de um sebo, do dono... Na hora de me despedir, eu costumo dizer o seguinte: "quando eu morrei; eu não quero ir pro céu, quero ir pro seu sebo..." Você chegou a conhecer o Carlos Heitor Cony? Leu o livro "Quase Memória", que ele escreveu depois de longo jejum? ♦ Você está brincando, né? (Dirige-se à mulher, que concorda a seguir) Helô, eu devo contar pra ele? Fui o primeiro a ler "Quase Memória". Li o manuscrito original, fui eu que levei para a Companhia das Letras, e o Cony exigiu que escrevesse a quarta capa e assinasse. Um dia ele me ligou e disse: "Rui, comecei um romance". Daí a um mês ele mandou o livro Quais são suas impressões sobre a Feira do Livro? ♦ Eu acho formidável qualquer evento desse tipo, porque você precisa expor os jovens à existência física do livro. O jovem já é exposto a tanta coisa que não é livro. Essa mídia fascinante e ao mesmo tempo esmagadora, que acaba fazendo com que ele não tenha nenhuma obrigação de saber que, entre essas capas e livros, pode ter um mundo novo a ser descoberto. É como eu digo: livro é que nem droga: se ficarmos expostos a de, podemos ficar "benignamente dependentes". BATE-REBATE Uma cidade ♦ Rio de Janeiro. Uma mulher ♦ A minha, Heloísa Seixas. Um ícone ♦ (Rebatendo) O que é um ícone? Admiro tanta gente... Seria injustiça ditar apenas um nome: Pelé ou Garrincha? ♦ Garrincha, principalmente pelo lado humano. Uma comida ♦ (Rindo) Isso pode parecer demagogia, mas até hoje eu tenho saudade de um prato de maniçoba que eu comi há 21 anos aqui em Belém (e quase gritando) na rua, num prato de plástico! Inesquecível! Um time

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ENTREVISTAS E PERFIS ♦ Flamengo. O candidato ♦ Qualquer um menos o Serra. Cinema, rádio ou televisão? ♦ Cinema, desde que eu não tenha de sair de casa. Eu tenho cerca de 2.800 filmes em laser ou em DVD, todos de 1968 para trás. Um género musical ♦ Sou muito eclético. Todos que contenham melodia, harmonia, ritmo e letra. Isso vai desde a música brasileira praticamente em todas as suas épocas, o jazz até os anos 60, bolero, tango, música cubana, valsa vienense. Não havia essa "pasteurização roqueira" que passou a haver dos anos 70 pra cá. Um time inesquecível ♦ A resposta óbvia seria o de 58 e o de 70. Mas o time do Telê, de 82, foi o melhor, mesmo sem ganhar. Uma frase ♦ A frase não é minha, é do Ivan Lessa: "O brasileiro é um povo com os pés no chão; e as mãos também". Tá no livro que vai sair agora, "Mau Humor". Uma saudade ♦ Uma saudade? Pó! (Gozador) Você tá parecendo a Marília Gabriela. Eu falei isso hoje de manhã para a Helô. Eu não tenho saudade de nada! Eu trago o passado comigo permanentemente, eu não sei o que é presente nem o que é passado. Não tenho saudade, vivo entre o passado e o presente; as recordações sempre à mão. Benedicto Mello, "o último dos moicanos" DENIS CAVALCANTE Especial para O LIBERAL O entrevistado desse domingo é o festejado pintor, escultor e restaurador, ceramista... ufa!, Benedicto Mello. Não sei quem foi que disse que os olhos são o espelho da alma. Me surpreendo ao chegar para a entrevista, com o olhar azul anil que há 76 anos acompanha o mestre. Se o corpo envelhece, o olhar desmente. O apartamento é espartano. Nas paredes obras escolhidas a dedo, dele e do amigo Rui Meira. Na estante frontal, livros selecionados; 'livros que ele aleatoriamente consulta quando lhe dá na telha. O artista revela que sua cor preferida é o vermelho. Vermelho também é a cor da vistosa camisa que ele veste. Mas entre a cor preferida e os tons das tintas usadas em sua obra há uma pequena contradição: "... A profundidade reveladora dos verdes e azuis, pela intensidade grave dos tons ocres, aqui e ali, pelo uso despudorado de um branco impossível..." palavras pinçadas, de um texto escrito por um de seus admiradores cativos - O arquiteto Paulo Chaves. Durante a conversa uma das netas passeia pela sala soltando gritinhos de prazer. Mas uma vez seus olhos demonstram sinais indescritíveis de felicidade. No breve colóquio que mantivemos, pela primeira vez o gravador, o bloco de notas, a caneta, se tornaram desnecessários. Guardei na memória cada palavra dita Falou da sua saudade e admiração pelo amigo Rui Meira. Sua paixão inconteste pela família (em todos os tempos sempre em primeiro lugar) As saudades dos tempos de infante. O papel preponderante da

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DENIS CAVALCANTE companheira inseparável nesses 50 anos, Maria Helena. Flagrei-o até numa pequena mentira, ao ver no canto da sala, em meio a tintas, espátulas e pincéis, um cavalete a "la Oscar Wilde", com uma tela coberta e adormecida. "Mas mestre, você não tinha aposentado os pincéis? Seu olhar matreiro disse mais que mil palavras. Mas o que mais me impressionou foi sua marcante fase impressionista. Não ficando nada a dever aos grandes mestres que o influenciaram como Monet, Manet, Gaughin, Van Gogh. Quando o senhor pintou seu primeiro quadro? ♦ Ah, faz tanto tempo... Foi há mais ou menos sessenta anos. Contínua sendo difícil a vida do artista no Brasil? ♦ A vida de artista sempre é difícil né? Porque ele está sempre adiante, um passo à frente. Nem todo mundo compreende essa posição. É mais fácil contestar o artista do que dar o valor que ele de direito merece. Como foi a sua emoção na primeira exposição? ♦ Minha primeira exposição me deu uma grande emoção, principalmente porque meu pai ainda era vivo. Me lembro como se fosse hoje, foi no consulado americano. Me lembro até do nome do cônsul, Mr. Colman, era um sujeito simpático. Qual é sua principal fonte inspiradora? ♦ Sem dúvida alguma a paisagem, a natureza. Onde quer que eu esteja, em qualquer canto, em qualquer lugar eu estou sempre atento observando a natureza. O senhor continua pintando ou já pendurou os pincéis? ♦ Estou literalmente aposentado de tudo. Da profissão de pintor, de funcionário público, sou bacharel em Direito, apesar de nunca ter exercido a profissão de advogado, mas tenho esse registro no meu currículo. Mas... Estou por aí, estou na estrada. E possível um artista viver somente do seu trabalho? ♦ É, eu vivi durante muito tempo, quase toda minha vida do meu trabalho. Com uma família grande, ao todo sete filhos. Consegui educá-los em colégio particular. Os filhos homens foram estudantes no Instituto Nazaré, hoje Colégio Nazaré. Não foi fácil, às vezes tinha que ter um certo jogo de cintura, todo mês eu tinha que fazer uma composição com a diretoria (risos) pra poder pagar a despesa. > Quem foram os principais artistas que o influenciaram no começo da carreira? ♦ Todos os impressionistas me influenciaram: Manet, Monet, Gaguin, sobretudo Van Gogh. > Ainda sobre o assunto: você tem uma fase impressionista extraordinária, a série Caminhos. Como conseguiu passar para a tela a incrível sensação de leveza e profundidade? O Não é fácil. Isso é uma questão de hábito, perspectiva aérea. Não me preocupo muito com a técnica. Em vez de usar o pincel, uso a espátula, que me dá a oportunidade de manchar as cenas; e aí a profundidade aparece justamente nesse jogo de cores, entre o escuro e o claro, uma cor mais intensa no primeiro plano e tudo que fica pro último plano vai ficando azulado. Que conselho o senhor daria para quem quer começar agora? ♦ Muito cuidado com as pichações, né. Hoje está havendo até um abuso enorme

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ENTREVISTAS E PERFIS e os críticos de arte devem ter uma dificuldade muito grande porque é preciso muita coragem pra contestar isso. Porque é tão generalizado o hábito dos grafiteiros. Na maioria das exposições é só o que dá. Considero o grafite uma apelação. A pessoa que está querendo realmente pintar não precisa apelar para o grafite, a pichação. Você já fez de tudo: pintura, cerâmica restauro, murais, esculturas... Tá faltando algo ainda? ♦ Não. Eu acho que privilégio nesses meus 76 anos, muito bem vividos, diga-se de passagem, de ter praticado todas essas fases. Fui escultor, fui ceramista, fiz curso de restauração. Criei em Belém o primeiro laboratório de restauração. Fiz muita cerâmica, onde vira e mexe vem sempre a lembrança do Ruy Meira, com quem eu convivi muito tempo. Se você der uma olhada vai ver que (apontando para as paredes) aqui em casa eu tenho muitas coisas do Ruy. Agora indubitavelmente é na pintura que eu me realizo, com a qual eu me identifico mais. O senhor, não acha que Belém deveria tratar melhor suas obras, seus artistas? ♦ Eu acho que essa parte de memória está sendo muito descuidada em Belém. A gente só lembra das coisas que marcaram a nossa memória, quando elas são agredidas ou então, o que é pior, quando já estão destruídas. Aí quando já é tarde todo mundo reclama, não é? Mas ninguém se dá ao trabalho de evitar que isso aconteça. Preservar, eis a questão. Você se considera o último dos moicanos? ♦ (Risos) Eu acho que eu sou um dos mais antigos, talvez vivo e último. Pelo menos da minha geração não tem mais ninguém. Quem morreu recentemente foi o La Roque, leem também o Paulo Ricci, mas esse é contemporâneo. Fale sobre sua amizade com o Ruy Meira... ♦ O Ruy Meira foi aquela criatura com quem eu mais me identifiquei em toda minha vida. Nós fomos amigos desde sempre. Naquela época íamos com frequência para a Avenida São Brás. Lá tinha uma esquina que se chamava "Canto da viração", onde a gente se encontrava frequentemente, esperávamos ansiosos a chegada das chuvas torrenciais que caíam na cidade pontualmente às duas horas. Agora você pode reparar que ela não tem mais hora pra cair. E durante essas chuvadas nós saiamos para recolher as mangas que o temporal derrubava. Senti muito a sua morte, foi uma notícia extremamente desagradável quando me telefonaram dizendo que ele tinha morrido. Eu tinha muita afinidade com o Ruy. A minha pintura tem influência marcante do Ruy, como teve também do Armando Balloni (pintor italiano já falecido). Com ele aprendi muito, sobretudo a fazer painéis, obras gigantescas. Inclusive fizemos juntos um mural para o então outrora Grande Hotel. Se eu não me engano esse mural está hoje no Museu da Cidade, na Prefeitura. Qual o papel da Maria Helena, sua companheira de toda uma vida? ♦ Olha Denis, quando eu me refiro a Maria Helena eu sempre costumo dizer que o meu casamento é um verdadeiro milagre. Eu sendo artista, boémio, estou casado com a mesma mulher há mais de cinquenta anos. Eu me identifico muito com ela, ela tem bastante sensibilidade... E ultimamente tem tido extraordinária competência para me administrar. Eu me considero uma pessoa "gerenciada" pela Maria Helena. Aproveitei bem todas as fases da minha vida. Se eu morrer amanhã, parto tranquilo, não deixo

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DENIS CAVALCANTE nenhum deficit. Escritor da terra deve ser mais prestigiado Começou, no último dia 5, a sétima Feira Pan-americana do Livro. Organizadores e empresários, envolvidos no evento, esperam a visita de mais de quatrocentas mil pessoas e um faturamento perto de três milhões de reais. A feira contará com a participação de grandes nomes da literatura brasileira, como os imortais, Carlos Heitor Cony e Zélia Gaitai, além de Fernando Moraes, autor de Olga e Chato e outros. Dentro desse universo, encontra-se também o mercado de livros usados e, certamente para os apaixonados por literatura, é nos sebos que podem ser encontradas verdadeiras raridades, com baixo custo. O jornalista e livreiro Denis Cavalcante, proprietário do Baú, sebo tradicional cidade, expõe pela terceira vez. O mercado de usados, os bastidores da feira, além das últimas publicações estão entre os temas discutidos com a jornalista Carla Vianna, da editoria do caderno Mercado. Qual a importância desta feira para fomentar o hábito da leitura? ♦ A feira cria oportunidade às pessoas, os livreiros e leitores, de um convívio. Os jovens também se interessam pois é um evento único, anual, além de que a cada ano, aumenta o número do público. É sinal de que a coisa funciona. A que se deve o sucesso da feira, visto que hoje ela figura entre um dos três eventos de maior destaque no mercado de livros do País? ♦ Aí tem que se falar um pouco do trabalho do secretário Paulo Chaves, porque ele teve uma importância fundamental. Quando ele fez a primeira feira, eu me lembro que não foram sequer dez mil pessoas. Era no Centur, tinham não mais que quarenta stands e hoje, a sétima, já é cinco vezes maior que a última e não somente em espaço físico e sim em número de editoras e livrarias participantes, somado a isso o fato de hoje o evento ser num lugar como os galpões da CDP, ao lado da Estação das Docas, com os atrativos todos que estão lá, o rio, ambiente todo refrigerado, fácil estacionamento, com certeza agora vai ser ainda melhor. Neste ano então, a participação de livrarias e editores de fora será ainda maior? ♦ Muito maior, por exemplo este ano era a participação de três editoras de Portugal, duas da França, editoras que nunca estiveram, estarão marcando presença, inclusive editoras locais como a Paka Tatu, que fará sua estreia, a própria Cejup e outras. O que você acha dessas novas publicações dos clássicos? Essas obras chegam ao consumidor perto de 12 reais, isso atrai o novo leitor, qual a importância disso? ♦ Sempre será importante a reedição dos clássicos, ainda mais como agora, com encadernação primorosa, capa dura. Além de fomentar às pessoas que já tenham lido os clássicos a vontade de lê-los novamente vai possibilitar a edição de títulos que há tempos não vinham sendo reeditados. Por exemplo, está de volta agora "O velho e o mar", de Hemingway. Então o que acontece? Você compra por um preço, que eu considero até abaixo do mercado, um livro que custaria em média trinta, quarenta reais. E isso atrapalha de alguma forma o mercado de usados? ♦ Não, porque a nossa fatia é uma quantidade ínfima comparada ao mercado editorial como um todo, portanto serve de estímulo para o leitor e o chama para as livrarias para que compre outros livros também.

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ENTREVISTAS E PERFIS O paraense e o brasileiro em geral gostam de ler? ♦ Comparando com os americanos e europeus, infelizmente, no Brasil o hábito da leitura é muito pequeno, haja vista a quantidade de pessoas que sequer têm dinheiro para comprar um livro por serem caríssimos. Os livros são lançados por vinte e cinco reais e as pessoas, ainda que queiram, não têm condição de comprar, o que gera um fato curioso. Uma pessoa que compra um título, acaba por emprestar aos amigos. Você concorda que a leitura é um hábito e não se tem o costume nas escolas em se estimular às crianças e os adolescentes a paixão que os livros podem causar? ♦ Concordo com você. No meu tempo a gente tinha Machado de Assis, Alice no País das Maravilhas, Monteiro Lobato, e hoje é Harry Potter que é de autoria de uma escritora de fora e que tira o espaço dos escritores nacionais infantis, como por exemplo o Maurício de Sousa, que é fantástico, e outros tantos. Na verdade eu acho que falta os professores estimularem os alunos a lerem os escritores brasileiros e paraenses. Nós temos vários, só falta serem valorizados. Qual o perfil do leitor que frequenta os "sebos" de Belém? ♦ Pessoas de todos os setores. Intelectuais, jornalistas, escritores e principalmente a classe média baixa, que precisa de livros para sua formação e os novos estão fora da realidade. Quais os cuidados que devem ser tomados para evitar a deteriorização dos livros? ♦ Nos livros antigos, com mais de 30 anos, se deve ter cuidado com o manuseio, por conta do tempo e o fato do papel ser perecível. Uma dica importante para quem quer afastar as traças dos livros, inimigas número um dos antigos, é espalhar pimentado-reino, elas detestam. Dá para viver da venda de livros usados no Brasil? Por que os livros são tão caros? ♦ Um pouco de cada coisa. Às vezes eu compro livro pensando em mim, trocar uma edição mais bem cuidada, por uma antiga, mas todo o negócio visa também lucro. Como livreiro e leitor, para o senhor, existe algum tipo de incentivo fiscal? ♦ Nós não pagamos impostos, se não o mercado seria inviável. O senhor tem alguma sugestão para a próxima edição da feira? ♦ Nas bienais de Rio e São Paulo, os organizadores priorizam os autores de lá, já em Belém se dá uma importância muito grande aos autores que vêm de fora, não acho errado, mas acho que o escritor da terra deveria ser mais prestigiado.

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Entrevistas e Perfis por Denis Cavalcante  

Layout teste do Livro Entrevistas e Perfis por Denis Cavalcante

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