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ARTE POLÍTICA E CULTURA - REEDIÇÃO ESPECIAL - NOVEMBRO 2009 - R$ 7,00

Pará Zero Zero

PZZ

O Chão Vermelho de


Matr’culaÊ2010

GÌNCIAÊPARç

FOTO:ĂŠELISEUĂŠDIAS/A

A SEDUC ofertou ano passado 270 mil novas vagas nas escolas estaduais do Par‥, em 2010 aumentaremos para 290 mil. A matr’cula 2010 iniciar‥ dia 30/11 com a prŽ-matr’cula para alunos portadores de GHÀFLrQFLDVHPVHJXLGDSDUDRV novos alunos e posteriormente a rematr’cula de alunos da rede. $ÀPGHIDFLOLWDUDLQGDPDLVD vida dos estudantes paraenses, a SEDUC disponibilizar‥ uma ampla variedade de instrumentos para a Matr’cula 2010:

‡ Portal SEDUC (www.seduc.pa.gov.br) 24h por dia, todos os dias da semana. ‡ Nos 51 infocentros do NAVEGAPARç.

o! N‚o perca o praz ia A matr’cula inic o br m dia 30 de nove

‡ Central de atendimento telef™nica gratuita (0800-280-0078) das 08h ˆs 20h, de segunda a s‥bado (40 operadores para a comodidade da comunidade). ‡ Matr’cula Cidad‚ Ă? Postos itinerantes nos bairros perifĹ˝ricos de BelĹ˝m e no interior do Estado, GDVKjVKGXUDQWHRVĂ€QDLV de semana.

SecretariaÊdeÊEstado deÊEducaç‚o


Editorial É com muito orgulho e satisfa-

pela Revista PZZ contribui para

ção que apresentamos a reedição

a criação de uma consciência de

da Edição Especial “O Chão Ver-

preservação do nosso patrimônio

melho de Dalcídio Jurandir”. A

histórico e artístico.

falta de publicações, debates e re-

“O Chão Vermelho de Dalcídio

ferências sobre Dalcídio Jurandir,

Jurandir” trata-se de uma publi-

considerado o maior romancista

cação destinada à difusão da vida

da Amazônia com 12 romances

e obra do escritor marajoara que

publicados e vários prêmios na-

este ano celebra seu centenário

cionais, determinou o trabalho

de vida, lançada em virtude das

intenso de pesquisa e documen-

comemorações do seu aniversá-

tação realizada pela Revista PZZ

rio em janeiro de 2009. Acredita-

em parceria com pesquisadores,

se que a revista foi e ainda é um

instituições culturais e educacio-

instrumento adequado para criar

nais.

uma memória das ações jornalís-

Por essa edição ganhamos um

ticas e políticas de Dalcídio Ju-

convite para participar do Co-

randir considerado um dos maio-

lóquio “Amazônias Brasileiras:

res escritores da Ámerica Latina.

imaginários e criações contem-

A Revista tem a marca insti-

porâneas” promovido pela Uni-

tucional do Governo do Estado

versidade Paris-Ouest-Nanterre-

do Pará através da Secretaria de

La Defense na França. E no mês

Estado de Educação e da Secre-

de julho de 2009, o Instituto do

taria de Estado de Cultura que

Patrimônio Histórico e Artístico

valoriza as expressões simbóli-

Nacional enviou o certificadod o

cas da CULTURA PARAENSE e

prêmio de menção honrosa pelo

amazônicas, de valor universal,

projeto Vida, Obra e Militância

formadores e informadores de

Política de Dalcídio Jurandir no

conhecimento, cultura e memó-

Prêmio Rodrigo Melo de Franco

ria brasileira através de seus au-

Andrade 2009, com esse Prêmio

tores.

o IPHAN busca incentivar a par-

Boa Leitura!

ticipação Social ampla na proteção dos bens culturais no país.

Carlos Pará

Projetos como o apresentado

Editor da Revista PZZ

Apoio: Casa de Cultura Dalcídio Jurandir

Secretaria de Estado Secretaria de Secretaria de de Justiça e Direitos

Estado

Estado

Humanos

de Educação

de Cultura

Capa: Ediroração eletrônica na foto de Dalcídio Jurandir em 1941 em Belém do Pará que integra o Acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa. Revista Pará Zero Zero - PZZ Arte, Política e Cultura Reedição Especial da nº 6 de 2008 Novembro 2009 Editores: Carlos Pará, Diogenes Brandão, Odir Castro ProjetoGráfico:ArturAriasDutra,FábioRaiol Diagramação Final: Raone Medeiros, Moacir Pereira Produção Executiva: Laura Santana, Elaine Siva, Cezar Barbosa, Odir Castro Editor Responsável: Carlos Pará Publicação: Editora Resistência Conselho Poético: José Roberto Pereira, Margarida Benicasa, Carmem Pereira, André Belfort, José Varella Pereira,GunterPresler,LuisArnaldoCampos, Chico Carneiro, Elza Lima, Benedito Nunes, Acácio Sobral, Ramiro Quaresma, Angelina Costa, Tadeu Gama, Moacir Pereira, Karlo Romulo, Josebel Fares, Paulo Nunes, Rosa Assis, Célia Jacob, Renato Gimenes, Rafael Lima, Célia Maracajá, Abílio Pacheco. Distribuição - Brasil: Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e CentroOeste Impressão: Sagrada Família. Assinatura, números atrasados e Publicidade: (091) 30833793 / 9616-4992 PZZ Av. Duque de Caxias, 160 Loja 14 - MARCO - 66093-400 e-mail: revistapzz@gmail.com site: www.revistapzz.com.br


Documentário

Os Escritores e a Resistência Dalcídio Jurandir

Nestes últimos meses, agravouse a situação política em nosso país e por mas que não queiram os nossos auto-suficientes amigos do abstrato e do apoliticismo, essa situação atinge a todos nós, miúdos escritores semicoloniais. Em todo o país foi desencadeado aquele temor da polícia contra a qual dois congressos de escritores se manifestaram com tanta convicção e alarde. Jornais e distribuidoras de livros foram assaltados, presos jornalistas, um vendedor de livros foi encarcerado e acusado de atividades do Cominform... Diante de nosso espanto e da nossa indignação, do silêncio e do estupor de muitos, a reação, cassando os mandatos de legítimos representantes do povo, chega ao cúmulo de aprisionar um deles e acusá-lo como autor de um remoto incêndio no Nordeste. O aparato e as graves declarações de autoridades responsáveis em torno dessa prisão deixaram a nação atônita. A quanto chegou a irresponsabilidade e a infâmia, a quanto chegou o cinismo e a degradação dos poderes que nos governam! E precisamente isto se deu no cinqüentenário do “J’Accusel”, em que Zola, como escritor, como romancista, como homem, soube fulminar a mentira e salvar um inocente. E é evidente que tudo isso atinge aos escritores brasileiros,

- Arte, política e cultura

cuja consciência não esteja ainda embotada e sinta necessidade de gritar contra a torpeza e ficar ao lado do povo nesta hora sórdida. Logo depois da cassação dos mandatos, a Tribuna Popular foi assaltada de madrugada. Vinte e três trabalhadores espancados e encarcerados e agora submetidos a brutal julgamento. Entre estes um herói da FEB que obteve na campanha da Itália as mais altas condecorações, Salomão Malina. Em compensação, soltam-se traidores e acolhemse nazistas vindos da Alemanha que chegam aqui concedendo entrevistas contra o comunismo e banhados no culto a Hitler. Invertem-se os papéis, os patriotas são postos na cadeia, os traidores, exaltados. O Parlamento transformou-se num morno depósito de capituladores e negocistas, e só um poder manda e desmanda, é o do Catete. Mentese, mente-se de uma maneira descarada. A censura postal, de correspondência, a violação do domicílio, o espancamento e a intimidação reduziram a farrapo a Constituição. E pensar que isto não atinge a tranqüilidade do trabalho intelectual, a dignidade do escritor, o esforço disperso e dramático daqueles que ainda pensam em literatura no Brasil será admitir a ignomínia e entregar-se a ela. E é diretamente que a reação

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Documentário

Orozco

atinge os escritores. Há pouco tempo, Monteiro Lobato escreve um livrinho para adultos e crianças, um livrinho que é um documento de nossa época pela verdade elementar que ele encerra e porque encarna as aspirações de populações inteiras que querem sair da escravidão a que estão condenadas. A polícia de São Paulo não respeitou o nome de um dos maiores escritores brasileiros, apreendeu o livro como apreendeu o livro de Jorge Amado sobre a vida de Luiz Carlos Prestes. Daí para a queima de livros nas ruas, para queimar Dostoievski como escritor bolchevista, para queimar bibliotecas e caçar escritores, mandá-los para a Ilha

Grande e atirar no lixo os seus trabalhos não custa nada. Lembro-me que Graciliano Ramos quase perde os originais de Angústia. Não fosse ter enviado uma cópia do romance para um lugar desconhecido da polícia e hoje a literatura brasileira não contaria com um dos seus maiores livros. Cabe perguntar: que farão os escritores? Reduzir-se ao silêncio, aguardar, ficar naquele pútrido attentisme ou resistir também, acusar e lutar como homens? Alguns respondem-nos que trabalham, que a ação anula a criação literária. Mas voltamos a indagar: onde está essa criação literária? Em nome dela, de concessão a concessão, prestam-se a

todo servilismo, a toda covardia, a toda sordície. Em nome dela, acomodam-se e não criam nada. Dessa rumorosa e colorida teoria de defesa da criação literária saem pílulas poéticas, confeitos de ficção, qualquer coisa tão incolor, tão álgida e “passada” que nem ao menos chega a enganar os leitores. Esses fabricantes de gelatina literária inventam também um ar pessimista e consideram que não há salvação no Brasil e atiram a culpa em cima do povo. Um povo que não reage, um povo carneiro, um povo es-


urdir arabescos em torno de Sartre, de Koestler, chegam até a Kravtchenco... Essa posição não deve ser a da maioria dos nossos escritores que não podem isolar o seu trabalho criador da atividade humana. Nesta encontrarão um mínimo de atividade política no sentido de ter vigilância e saber protestar e lutar contra os velhos e ferozes incendiários de bibliotecas e inimigos da literatura. Essa a lição de Dreizer e agora a lição de Benda que escolheu o seu caminho na luta contra os mesmos banqueiros que pagaram em dólar e libras, antecipadamente, os feitos de Hitler na Euro-

pa. E não podemos desanimar nesta hora quando, no mundo, os caminhos da liberdade estão cada vez mais largos e se multiplicam. Continuemos a trabalhar defendendo porém a porta de nossa casa, protegendo os nossos pobres livros e o nosso humilde trabalho. Porque não é a Rádio-Patrulha que nos protege nem o Sr. Ministro da Justiça. Somos nós mesmos ao lado das massas, esclarecendo-nos na luta de todos os dias, conhecendo o povo na sua miséria e no seu heroísmo subterrâneo e encontrando nele o verdadeiro mistério da criação literária, a força de uma obra que interprete a humanidade brasileira e ajude a conduzi-la também para diante.

Revista Literatura 1947

Texto: Acervo Fundação Casa de Rui Barbosa

túpido. Enganam e traem o povo, tentam uma literatura contra, e quando a reação investe contra o povo é ainda o povo o culpado de tudo. Trêfegos e afoitos quando contra o comunismo, esses escritores preferem recolher-se à “solidão criadora” quando os fatos mostram de onde vem o terror, a violência, a brutalidade policial. Ou passam a


Documentário

O Chão Vermelho de Dalcídio Jurandir. Por Carlos Pará

Dalcídio Jurandir e a Aliança Nacional Liberdadora. Dalcídio Jurandir, participou ativamente do movimento da Aliança Nacional Libertadora - ANL – organização política de âmbito nacional. A Aliança Nacional Libertadora cujo primeiro manifesto público foi lido na Câmara Federal em janeiro de 1935, por Gilberto Gabeira: “As massas populares irão sempre avante na luta pela democracia; as leis de opressão e arrocho vêm estimular a aguçar as lutas pelas liberdades democráticas. A ANL coordenará este vasto movimento, eco de todo o passado revolucionário do Brasil, na conquista dos direitos democráticos”. “A A.N.L teve seu lançamento oficial, em março de 1935, foi o coroamento de um processo de lutas concretas, de organizações parciais, de acumulação de forças por parte dos setores antifascistas da sociedade. Passou pelas lutas grevistas reivindicatórias da classe operária, pelas discussões de programas de ação entre grupos e partidos de esquerda e pelos tenentes inconformados com os rumos que tomara o movimento de

- Arte, política e cultura

1930 - lideranças, grupos e reivindicações que encontraram um denominador comum na luta contra o integralismo e a Lei de Segurança Nacional”. (Marly Vianna, Revolucionários de 1935, sonho e realidade. expressão POPULAR.)Tendo como presidente de honra Luiz Carlos Prestes, lançou um manifesto dizendo que a A.N.L estava aberta a todos os que quisessem lutar pelo seu programa antiimperialista, antifeudal e antifascista, programa que somente um governo popular revolucionário realizaria. A Aliança Nacional Libertadora no Pará ganhava fôlego pelos membros do Partido Comunista que ainda funcionava na ilegalidade. De acordo com as instruções recebidas diretamente do delegado nacional da Aliança, Celso Luiz Azevedo Marques, que veio ao Pará no “Paconé”, marcaram a primeira grande reunião para todos os adeptos da Aliança Nacional Libertadora no Pará. Essa reunião se efetuou na Rua da Municipalidade 1094 em Belém e para ela, ficaram convidados todos os adeptos duma reunião anterior, bem como, indistintamente, todos quantos, sinceramente e lealmente, desejavam

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trabalhar pela libertação do Brasil. A reunião teve por fim, além de outros assuntos, a formação da comissão provisória de organização da A.N.L no Pará . Essa 1ª reunião pública da A. N. L. contou com a presença de elevado número de adeptos, e compareceram além dos associados, pessoas interessadas pela causa que a Aliança se propôs a propagar e defender. Foi eleita a Comissão Organizadora da Aliança no Pará, constituída de onze membros de todas as classes sociais. O jornal “Estado do Pará” ia divulgando pequenas notas, principalmente a partir de junho de 1935 mostrando que ia crescendo dia a dia, entusiasticamente, o movimento em torno da Aliança Nacional Libertadora e que já contava em seu seio numerosos adeptos. Uma comissão da A.N.L chegou a visitar a sede do jornal para agradecer a forma que o jornal noticiava o movimento e para expor alguns pontos da Aliança que nada tinha de extremismo nem de demagogias, mas antes, e isto sim, que era um movimento construtor de sadio nacionalismo, visando libertar o país do capitalismo e do imperialismo internacional. Era uma idéia e visava antes de tudo e acima de tudo, a grandeza, a liberdade do Brasil.


O Diretório local da ANL publicou o seguinte boletim: “ALIANÇA NACIONAL LIBERTADORA – PROGRAMA DE REALIZAÇÕES CONCRETAS”.

Arquivo: Fundação Getúlio Vargas

A Aliança Nacional Libertadora tem um programa claro e definido, ela quer o cancelamento das dívidas imperialistas; a nacionalização das empresas imperialistas; a liberdade em toda a sua plenitude; o direito do povo manifestar-se livremente; a entrega dos latifúndios ao povo laborioso que os cultiva; a libertação de todas as camadas camponesas da exploração

dos tributos feudais pagos pelo aforamento, pelo arrendamento da terra; a anulação total das dívidas agrícolas; a defesa da pequena e média propriedade contra a agiotagem, contra qualquer execução hipotecária. Queremos que a formidável quantia evadida do Brasil para os cofres dos magnatas estrangeiros seja empregada em benefício do próprio povo brasileiro; Explorando nossas riquezas e desenvolvendo nossas forças produtivas; Diminuindo todos os impostos que pesam sobre a nossa população laboriosa e com isto abaixando o custo da vida e desafogando o comércio;

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Aumentando os salários e ordenados de todos os operários, empregados e funcionários; Efetivando e ampliando todas as medidas de amparo e assistência social aos trabalhadores e; Desenvolvendo em enorme escala a instrução, e protegendo realmente a saúde pública. Queremos uma Pátria Livre! Queremos o Brasil emancipado da escravidão imperialista! Queremos a libertação social e nacional do povo brasileiro!

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Documentário

O Diretório Regional Provisório eleito foi constituído por: 29/5/1935 SECRETARIA GERAL • José Ribamar de Moura • (bacharel). • Estevan de Jesus Filho • (operário) • Pedro Pomar (estudante de Medicina) SECRETARIA DE ORGANIZAÇÃO

• João Novaes (médico) • Osvaldo Rodrigues (estudante de Direito) • Henrique Santiago (funcionário da Companhia Inglesa) SECRETARIA DE FINANÇAS • Raimundo Marques • (operário) • José Florêncio Filho • (operário-barbeiro) SECRETARIA DE PROPAGANDA • Moacir Valmont (professor e estudante de Medicina) . • Apolinãrio Almeida (operário mecânico da Panair) • José da França (operário tecelão) Outra reunião ficou marcada para o dia 30 de maio de 1935, na Generalíssimo Deodoro, 472 da qual todos os simpatizantes puderam participar . Essa reu-

- Arte, política e cultura

nião, foi presidida por Pedro Pomar, e teve grande participação popular e vivas a Prestes, e nela ficou marcado o 1° Comício da ANL ao ar livre para o domingo, dia 02 de junho de 35 , na Praça da República em frente a estátua, junto ao pedestal do monumento à República. Foi também tirada uma Comissão para ir a Central de Polícia solicitar autorização para o Comício. Esse ato político teve grande participação popular, lotando a praça. Muito antes da hora efetivada para a efetivação desse “meeting” no qual diversos oradores iriam abrir diante da massa os postulados e normas da agremiação que obedecia à chefia de Luiz Carlos Prestes, adeansava-se nas imediações do lugar grande número de pessoas pertencentes a vários credos políticos e religiosos, todos ansiosos por ouvirem as vozes dos pregoeiros da nova doutrina. A hora aprazada se fez ouvir: O 1º orador foi Ribamar Moura, que era constantemente interrompido pelas ovações populares. O 2º orador foi Apolinário Almeida, mecânico da Panair, que leu perante o público um artigo estampado num jornal britânico, no qual se focalizava a situação econômica do Brasil. O 3º orador foi Dalcídio Jurandir, que era funcionário público.

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Depois falaram o acadêmico de Medicina Lauro Lima, e outros, cujos discursos mereceram quentes aplausos do grande público que literalmente enchia aquele recanto da capital. Várias autoridades policiais observaram a situação e o aglomerado de pessoas de todas as classes sociais. Não houve tumultos e depois a díreção da ANL foi à Central de Polícia agradecer a colaboração. Em sua divulgação de Princípios a A.N.L oferecia uma resistência séria com uma “Frente Única Nacional Libertadora” que se essa soube-se, realmente, mobilizar as mais amplas massas populares, nem o governo reacionário de Vargas, nem nenhuma outra ditadura militar fascista ou nazista poderia oferecer uma resistência. Para isso precisavam, ao mesmo tempo, unificar e congregar na Aliança Nacional Libertadora todas as pessoas, grupos, correntes, organizações e partidos políticos, que quisessem lutar pelo seu programa, quaisquer que sejam os seus programas sob a única condição de que iriam lutar contra a implantação do fascismo no Brasil, contra o imperialismo e o feudalismo, pelos direitos democráticos. Ao criar a Frente Única Libertadora em cada fábrica, empresa, casa comercial, universidades, quartéis, navio mercantil ou de guerra, nos bair-


A um mystico integralista O inteligente Sr. Francisco Sampaio, não quiz, por habilidade muito integralista em dizer a verdade a Alliança Nacional Libertadora. Bateu na velha tecla: o extremismo... É preciso comprehender que a Allinaça não é um jogo de velhas doutrinas e de falsas ideologias mas uma funcção de “necessidade histórica” imposta pela própria evolução política do Brasil. O Sr. Sampaio que é um homem culto não ignora o que é, em sociologia, a noção de “necessidade histórica”. Basta saber os processos de desenvolvimento social para apontar a direcção que o mesmo desenvolvimento deve ter, fatalmente, diante do futuro. Não se poderá dizer que são matemáticas as leis de desenvolvimento da sociedade mas ninguém prescindirá de um methodo de pesquisa para a investigação das causas que produzem os factos históricos e as transformações sociaes. O dr. Sampaio atacando a Alliança, não usa como nós, o mesmo processo de análise. Limita-se a combater sem fundar em bases seguras as razões de seu ataque. Aliás o Sr. Plínio Salgado em seus livros até hoje não formulou, uma crítica nova, séria, definitiva sobre as causas de onde partem os novos rumos sociaes e políticos do Brasil. A Alliança não é pois nem um doutrina, nem um “olho de Moscou”. É uma força que se creou na tragédia econômica do paiz. Vem do povo para as camadas mais altas. Vem das massas proletárias e camponezas para a metidatação dos sociólogos sinceros. Nem se queira insultar um homem como Luiz Carlos prestes que teve a coragem de dizer ante a logomachis fascista e o caos liberal

democrata, qual é na verdade, a ideologia revolucionária. O comunismo ainda está no desconhecido e virá porque é uma sintese histórica de transformações sociaes. Mas a Alliança não é nem comummunista nem extremista. Tomou apenas a direcção do movimento de que depende o futuro do Brasil. Não é por meios artificiaes, não é por uma simples e confusa explanação doutrinária nem com explanações verbaes que se fixa o caminho a tomar nos destinos do paiz. O dr. Sampaio pertence a uma “terrível mística fascista” e não percebe que, sem o contacto direto e permanente, através do “documento colhido no vivo” (“social case history”) com a realidade, não é possível operar qualquer modificação num regime. Adquirir, possuir, ganhar, diz Gilberto Freire, eis o índice de um civilização condemnada. O que ocorre é a recuperação da força creadora e da saúde econômica que o homem perdera dentro do industrialhismo individualista: o equilíbrio entre os seus instintos creadores, sua ânsia abafada pela bellesa e a téchnica superdesenvolvida, a serviço dos instintos de “aquisição” ou de “posse”. (Gilberto Freire, o estudo das sciências sociaes nas universidades norte-americanas). A Alliança veio, pois, como um producto do determinismo econômico. Sem doutrinas porque seu programma é repetidos pelas boccas famintas, pelas multidões expoliadas, pelo proletário illudido, pelo camponez reduzido a extrema miséria como escravo da gleba, embalado pelo grito de ansiedade solto desesperadamente, por quarenta milhões de brasileiros. O Estado do Pará, 04 de junho de 1935.

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Texto: Acervo de Obras Raras da Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves

Dalcídio Jurandir

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Documentário

Todo o poder à Aliança ros, nas fazendas, organizando a luta diária de tais massas. A A.N.L pretendia englobar todas as organizações de massas e verdadeiramente representar o povo e saber lutar com ele pelos seus interesses. Ela se expandiu rapidamente, agregando, em poucos meses, cerca de 100 mil filiados no Brasil. Dalcídio Jurandir, um militante de vinte anos, nessa época, que encontramos discursando para as massas na praça, participou inten-

samente não só das manifestações políticas, mas colaborava na imprensa escrevendo artigos contra o Integralismo. Encontramos no “O Estado do Pará” o artigo “A um mystico integralista”, “A Máscara do Integralismo”, de Dalcídio Jurandir, Levi Hall de Moura também escrevia artigos na “Folha do Norte” contra o Integralismo. O jornal “Estado do Pará” abria um espaço para a discussão

sobre a situação política e com isso alguns reagivam ao movimento: Dizendo que o comunismo não era senão uma manobra dos judeus internacionais para se apoderarem universalmente dos “meios de produção” e escravisarem os “gentios”, como já se faz na Rússia e conforme rezam os Protocolos dos Sábios de Sião, achavam oportunos fazer algumas perguntas a Alliança Nacional

Levante comunista no Rio de Janeiro em 1935


Arquivo: Fundação Getúlio Vargas

Nacional Libertadora Libertadora, que se dizia nacionalista e anti-imperialista. 1) Qual será o motivo desta concidência, publica-se a carta de Luiz Carlos Prestes declarando-se comunista e aceitando a chefia da Alliança Nacional Libertadora e, ao mesmo tempo, o cambio brasileiro baixa, alarmando a praça. 2) Desejaríamos saber se o “Imperialismo econômico” que a Alliança Nacional Libertadora diz combater, desejaríamos saber se ele é contra ou a favor do princípio de “propriedade”? 3) Qual a these que sustenta a Alliança Nacional Libertadora a respeito do princípio de propriedade? 4) A Internacional Comunista, pela sua directiva de 1930, publicaria, em quatro páginas, num boletim, em lingua hespanhola determina que na América do Sul se insufle o ódio dos negros contra os brancos, desejaríamos saber qual a orientação que a Alliança Nacional Libertadora, que se diz nacionalista, a este respeito: como encara o problema racial no Brasil? 5) Poderá a Alliança Nacional Libertadora nos informar porque motivo o Soviet mandou o Partido Comunista Francez cessar a Campanha das Ligas Anti-Guerreiras? As Ligas Anti-Guerreiras não são pela paz universal?

6) Poderá a Alliança Nacional Libertadora definir bem claramente os seguintes conceitos, isto é, dizer como se encara: as religiões, a constituição da família, o critério para os salários, aos operários, a propaganda militar no paiz, o governo soviético, a propriedade privada, a iniciativa particular, a educação familiar, o cinema, a questão da moda, o problema do câmbio? São questões importantes cuja definição clara e positiva será muito útil para a Alliança Nacional Libertadora. (Texto com a ortografia original)

Enquanto isso, o tradicional cinema Olympia em Belém exibia o clássico da Paramount, a história de uma menina que viveu horas num mundo de fantasia “Alice no País das Maravilhas”. Um filme no gênero de Peter Pan, com aventuras encantadoras. As reuniões da A.N.L aconteciam semanalmente e em diversos setores da sociedade como a reunião na sede da Bonde, Força e Luz, onde os aliancistas estiveram presentes na grande reunião dos graficos . Outra grande reunião da ANL em 08 de junho na Sede do Norte Brasileiro (Cremação), foi para discutir a instalação de um núcleo local. Em Belém houve a

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Símbolo do Integralismo: Legião da Morte

instalação de vários núcleos, em sindicatos, em casa de operários e adeptos da A.N.L como a do operário Jorge Baptista de Moraes, na trav. Mauritri. A sede da A.N.L ficava na Frutuoso Guimarães, nº. 129 e estava a disposição dos srs. interessados pela doutrinanova das 10 horas da manhã às 12 h e das 4 horas da tarde às 6, com pessoas habiltadas para atender. O movimento da Aliança era até então legal e podia manifestar publicamente suas idéias, seu programa, suas ações. Um Comício monstro foi marcado para o dia 9/6/35, domingo, na Praça Floriano Peixoto frente do Mercado de São Brás (8 da manhã). Outros dois comícios, sendo

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um em frente ao mercado de São Braz e outro na cidade de Santa Isabel na Estrada de Ferro de Bragança, para onde seguiu uma caravana de nacionais libertadores. Os membros do diretório encontravam-se também na Rua Carlos Gomes nº 27. A ANL distribuiu e publicou no jornal “O Estado do Pará” outro boletim colocando objetivos programáticos entre os quais contavam: • Congelamento da dívida externa; • Amplas liberdades para o povo; • Entrega das terras dos latifúndios aos parceiros, arrendatários, etc; • Cancelamento dos tributos feudais pagos pelos camponeses; • Anulação das dívidas agrícolas; • Defesa da pequena e média propriedade.

Implantação de Um Governo Popular Marchamos, assim, rapidamente, à implantação de um governo popular revolucionário, em todo Brasil, um governo do povo contra o imperialismo e o feudalismo e que demonstrará na prática, às grandes massas trabalhadoras do pais, o que é a democracia e a liberdade. O governo popular, executando o programa da Aliança unificará o Brasil e salvará

- Arte, política e cultura

a vida dos milhões de trabalhadores, ameaçados pela fome, perseguido pelas doenças e brutalmente explorado pelo imperialismo e pelos grandes proprietários. A distribuição das terras dos grandes latifúndios aumentará a atividade do comércio interno e abrirá o caminho a uma mais rápida industrialização do país, independentemente de qualquer controle imperialista. O governo popular vai abrir para a juventude brasileira as perspectivas de uma nova vida garantindo-lhe trabalho, saúde e instrução. A força das massas, em que se apoiará um tal governo, será a melhor garantia para a defesa do país contra o imperialismo e a contra-revolução. O exército do povo, o exército nacional revolucionário será capaz de defender a integridade nacional contra a invasão imperialista, liquidando, ao mesmo tempo, todas as forças da contra-revolução. “A idéia do assalto amadurece na consciência das grandes massas.” Cabe aos seus chefes organizá-las e dirigi-las. (Manifesto de Luiz Carlos Prestes). Entre 7 e 19 de Julho, foram instalados núcleos da A.N.L. em diversos lugares. A Aliança Nacional Libertadora protestava contra as afirmações de que era uma organização extremista. Diz que a degradação moral de certos elementos, estipendiados por magnatas estrangeiros, chega ao ponto de tentar lançar na ilegalidade uma associação patriótica,

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cujo crime era lutar pela completa e definitiva emancipação do país. E em comunicações pela imprensa informava que iniciaria uma campanha nacional pelo salário mínimo, utilizando todas as forças úteis do país de modo a garantir pleno êxito. Com uma ampla divulgação da Campanha da A.N.L no boca a boca e nos jornais, várias pessoas aderiram ao movimento, como o saudoso João Amazonas que seria um dos grandes políticos combativos que o Brasil já teve. Ele trabalhava na fábrica Palmeira em Belém que tinha uns 600 operários e operárias e que foi filiado no Partido Comunista por Dalcídio Jurandir. No depoimento de João Amazonas publicado na Revista Princípios podemos conhecer um pouco de suas lembranças: “Cheguei em casa num domingo, em abril de 1935, e como de costume fui me deitar após o almoço, já que era a nossa folga. Levei o jornal, deitei-me na rede e comecei a ler. De repente, vi: “Aliança Nacional Libertadora é comunista” – esse era o título de uma notícia sobre um comício que a ANL tinha feito no Rio de Janeiro sobre o qual havia ocorrido intervenção da polícia. Abaixo uma notinha dizia: “Hoje Comício da ANL no Largo da Pólvora, em Belém”. Desisti de dormir, botei o jornal de lado, vesti-me e fui corren-

Orozco

Documentário


s nossos rapazes integralistas ainda não estão bem ao par do que é, na verdade, o integralismo. Senão teriam dado o fora daquela confusão mística e plinista, bagaço do mussolinismo e hitlerismo. Amanhã, se Plínio, por desgraça, subisse ao poder, decretaria a latinização da raça a maneira dos bestiais processos de Hitler. Por mais que o Roquete Pinto, o Arthur Ramos, um Edson Carneiro, e toda a ciência protestasse, Plínio mandaria esterilizar os nossos negros, os nossos mulatos, os nossos caboclos, e, por um decreto estaria feita a “purificação racial”. A mística brutal de Hitler chegou ao delírio. Nunca se viu na história tamanho regresso a barbárie. Aquela perseguição aos judeus, a esterilização, as investigações ginecológicas, para saber qual o “não-ariano” alemão a fim de ser expulso da Alema-

nha, tudo vem da arbitrária e aterrorizante concepção de Hitler, exposta com um cinismo amarelo, com um tom homicida no “Minha Luta”. O integralismo é esse arianismo mascarado, essa exasperada tábua de salvação de um mundo em que fermentam todas as revoltas, todas as vontades de libertação. De uma humanidade calcada aos pés, até hoje, arrastando-se no excremento dos tugúrios operários, no fundo das minas de carvão e de ouro (se lembrem de uma página de Raul Bopp sobre os trabalhadores das minas inglesas na África). O fascismo é a tal da nova Itália que arrasta toda uma vigorosa italiana para a trágica aventura da Abissínia numa sede de cobiça e conquista. Fascismo é a Alemanha premeditando a nova guerra para a expansão do seu arianismo selvagem. Com as suas tropas de assalto para

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esmagar a cultura latina e a edificação socialista da Rússia. Integralismo é o senhor Plínio imitando o bigode de Hitler que, por sua vez, imitou o de Carlitos (pobre Carlitos, como tem sofrido com sua fama e teu gênio!). A máscara não é dos Aliancistas. A máscara se afivelou foi na cara do chefe nacional, rapazes! Amanhã, Plínio está mandando investigar qual o latino e qual o mestiço, qual o judeu e qual o caboclo. O integralismo como o fascismo coloca sobre todos os fatores o primado racial. A raça é que manda e que cria os complexos econômicos e superestruras que formam uma sociedade... É por isso que toda a ciência larga uma gargalhada em cima desses palhaços e desses carrascos da tão grande e hoje tão humilhada e amordaçada Alemanha. “O Estado do Pará” junho de 1935.

Texto: Acervo de Obras Raras da Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves

A Máscara Integralista O

Dalcídio Jurandir

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Documentário

do para o comício. Devia ser umas quatro horas da tarde (...)No outro dia, saí da fábrica (..). Encontrei o Partido. E ali apareceu o Dalcídio Jurandir, um escritor interessante e um jovem combatente também. Perguntou-me se eu não queria entrar para a juventude comunista. Disse que sim, que estava lá para entrar para o Partido (..). Passei uns quinze dias na juventude, e então eles resolveram que eu deveria entrar para o Partido, pois trabalhava numa fábrica que tinha muitos operários. Já como integrante do Partido convidaram-me para receber uma delegação da ANL que havia chegado ao Pará para fazer agitação (um jornalista e o comandante Roberto Sissom, da Marinha, eram as principais figuras). Porém, não puderam realizar nenhuma atividade, porque quando chegaram já tinham fechado a ANL. Foi assim que eu entrei para o Partido. A Aliança teve papel na divulgação nacional do Partido, porque a própria imprensa a divulgava como uma organização comunista. E esse “comunista” chamava a atenção dos trabalhadores e das pessoas que tinham interesse numa nova vida. Desde aí passei a atuar no Partido Comunista. Até hoje. Entrei de vez, pra valer. Isso foi em abril de 1935. No Partido, logo fui indagado sobre a possibilidade de organizar uma célula no meu local de trabalho. Respondi: “Vamos ver. - Arte, política e cultura

Como é isso?”. (...) Achamos uma companheira e organizamos uma célula do Partido na fábrica com uns seis ou sete membros. Em seguida, avancei para a idéia de criar um sindicato. O Partido dizia que deveria haver organização de massa, etc; e na fábrica não tínhamos um sindicato. “Vamos ver como se organiza um”. Apoiados em nossa célula, fomos trabalhando e acabamos organizando um sindicato da fábrica – uma ação importante. Ao lembrar hoje de minha juventude, vejo que tinha muito arrojo – em tudo o que fazia. O governo começou a repressão sobre a ANL e anunciou, até mesmo, a pena de morte. Na esquina da fábrica, que ocupava quase um quarteirão inteiro, havia uma Caixa D’Água – um edifício de ferro que era o pico mais alto da cidade. Em seu topo havia um mastro em que se colocava uma bandeira brasileira em dia de festa, que era vista de toda a cidade. Falei para os companheiros: “Vamos botar uma bandeira lá” (o governo tinha anunciado que ia pedir a pena de morte para os comunistas). Mas era complicado porque havia vigias. Organizei um plano. Fui até a casa de uma companheira (que depois foi casada com o Jurandir) e pedi para ela fazer uma bandeira imensa de 12 metros, com a palavra de ordem “Viva a ANL! Abaixo a pena de morte!”. Observei a rotina

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do porteiro. Era ele que, no dia da festa do Círio do Nazaré, colocava uma bandeira brasileira naquele pico. A gente a podia ver de toda a cidade. Mas eu pensava: “Se botar a bandeira aí eles retiram logo”. Então, seria preciso bolar uma idéia para eles não conseguirem retirá-la. O negócio seria fazer um arranjo nas pontas onde se colocava a bandeira, com uma espécie de argola no próprio fio de arame grosso, e puxar para ficar apenas uma ponta. Fazendo isso eu puxaria e a bandeira iria lá para cima. Assim, não haveria como baixá-la. Como a companheira não tinha força suficiente para fazer isso, arranjamos um camarada sapateiro, que mexia com alicates e sabia cortar. Ficamos uma noite lá, pulamos o muro alto, com a ajuda da célula do Partido, e passamos para dentro dessa Caixa D’Água. Aí fomos subindo (devia ser umas 2 horas da madrugada), mas como a Caixa D’Água ficava na área da prostituição, a região era muito movimentada. Fomos subindo, subindo, e nunca chegava o fim daquela escada de ferro – e eu com a bandeira amarrada no peito. Quando conseguimos alcançar o topo, olhamos a movimentação da área, fizemos a operação e botamos a bandeira. O companheiro sapateiro fez a argola para ficar numa ponta só e aí nós a suspendemos. Era noite e ninguém estava vendo. Fizemos tudo certo. (...) De manhã, foi um sucesso enorme: toda


João Amazonas

a cidade despertou e foi uma agitação daquelas. Em todo lugar e nas esquinas tinha gente olhando a bandeira vermelha na Caixa D’Água. Todo mundo falava naquilo e foi engrossando aquele movimento. A excitação tomou conta da cidade. Mobilizaram bombeiros e mais o que puderam para tirar a bandeira, e não houve jeito (só conseguiram à tarde; tiveram de chamar um moleque acostumado a subir em açaizeiro). Esse fato teve uma grande repercussão. Comecei assim, fazendo uma onda que não tem tamanho! Essas são algumas passagens dos meus primeiros tempos no Partido. Não é preciso dizer que esse período de 1935 é um período de grandes movimentos revolucionários no mundo. E também com grandes perseguições por toda parte. No Brasil a ANL durou apenas três meses. Teve apenas três meses de legalidade. Depois foi fechada. Os comícios eram gigantescos. Comícios enormes, imensos. Exatamente por isso, o Getulio fechou a ANL. Ela tinha à frente elementos de destaque, como o comandante Sissom, da Marinha, e o prefeito do Distrito Federal, Pedro Ernesto. Em seguida cometeu-se o erro – na minha opinião – de descambar para a ação militar, de quartel, mas ainda não se havia

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enraizado o movimento nas massas citadinas. Depois de uma grande atuação no movimento sindical, passado algum tempo, fui preso. Fiquei quinze dias na prisão em abril de 1935.” Já em novembro, depois de noticiar os levantes de Natal e Pernambuco, o jornal noticia que prendeu algumas pessoas, inclusive um marceneiro que tinha em casa boletins e “agentes de destruição”. Nada mais foi noticiado além dessas prisões e posteriores liberações até o final do mês.

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Documentário

Fascismo

“Tudo está no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado” Mussolini. O nacionalismo fascista era conservador e agressivo, pois ignorava as diferenças entre as categorias de indivíduos, ao mesmo tempo que justificava a agressão contra outras nações e povos. O fascismo foi um autoritarismo. Pregava uma concepção antiigualitária da sociedade. “O fascismo e o nazismo são hostis aos princípios da democracia igualitária e do sufrágio universal.” Mussolini denunciava a lei do número. O fascismo, dizia, não consente que o número, pelo simples fato de ser número, possa dirigir as sociedades humanas. Negava que o número possa governar por meio de uma consulta periódica. Afirmava a desigualdade irremediável, fecunda e benfeitora dos seres humanos. Hitler mantinha uma postura análoga. Tanto os nazistas como os fascistas italianos colocavam em primeiro plano o tema da elite, que na Alemanha se vinculou ao racismo. Isto levou ao mito do Chefe (Duce e Fuhrer) e do Super-Homem, que encarnava o Estado, “instrumento dos fortes e garantia dos fracos, pois o papel do mais forte

- Arte, política e cultura

consiste em dominar, não em fundir-se com o fraco” (Hitler). O Duce, responsável unicamente diante do Rei, governava através de decretos, nomeava os Ministros e era assessorado pelo Grande Conselho Fascista (formado a partir de 1928) ao mesmo tempo, era chefe do Partido Fascista. Cabia ao Grande Conselho Fascista elaborar a lista única dos candidatos às eleições legislativas, confirmadas através de plebiscitos. A Câmara dos Deputados tinha apenas um papel decorativo, sendo substituída, em 1938, pela Câmara dos Fáscios e das Corporações. A greve e o lock-out eram proibidos, sendo os conflitos submetidos à arbitragem do Estado. Em 1934 foi promulgada a lei sobre as corporações, sendo patrões e empregados reunidos em um mesmo conjunto, a Corporação, visando a estreitar ambos os setores sociais em benefício do Estado. Em Portugal, o salaza-

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rismo, implantado por Antonio de Oliveira Salazar, manteve-se no poder por quatro décadas (1932-1974); na Espanha o Franquismo, imposto pelo general Franco, após violenta guerra civil, subjugou o povo espanhol durante 36 anos. No Brasil Getúlio Vargas viria dar um golpe e caçar os comunistas.


Nazismo

Acervo: Vicente Salles - Ângelus Nascimento

A partir da ascensão de Hitler a Chanceler, começou a nazifícação da Alemanha, acelerada em 1934 quando também assumiu o poder presidencial. As mudanças na estrutura

jurídica do Estado foram acompanhadas do fechamento dos demais partidos, adotando-se o monopartidarismo. A polícia secreta do Estado, a Gestapo, começou a enviar milhares de opositores para os campos de concentração, inclusive Olga Benário, judia, companheira de Luiz Carlos Prestes que foi presa no Brasil, grávida e enviada para a Câmara da Morte. Em 1933, a pretexto de que “os comunistas tinham incendiado o Reichstag”, os nazistas promoveram monstruosa “caça às bruxas” e dissolveram o Reichstag (parlamento). Os próprios dissidentes nazistas, liderados por Roehm, capitão das tropas de assalto, as SA, que se opunham à aproximação de Hitler com os setores da grande indústria, constituindo um exército paralelo, foram eliminados em grande massacre: a Noite dos Longos Punhais (l934). Em pouco mais de seis meses de gestão como Führer, Hitler iniciou a organização do Terceiro Reich. Em 1935, pelas leis raciais de Nuremberg, os judeus, considerados pertencentes à “raça infe-

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rior”, foram excluídos do direito de voto, eliminados dos empregos públicos, sendo perseguidos ferozmente. A emigração foi maciça, pois a propaganda oficial, estimulando a histeria popular, atiçou a população contra os judeus, ocorrendo a destruição de suas propriedades, o incêndio de sinagogas e o envio em massa para os campos de concentração. A doutrina era dirigida por Goebbels, que suprimiu a liberdade de imprensa e controlou todos os meios de comunicação, impossibilitando a transmissão daquilo que não se referisse favoravelmente ao nazismo e ao seu chefe. A propaganda oficial dava ênfase aos temas racistas, defendendo a superioridade da raça ariana encarnada pelo povo alemão, ameaçado pelos judeus, eslavos e latinos, “inferiores” e “degenerados”. A juventude e os trabalhadores foram enquadrados em organizações controladas pelos nazistas, ao mesmo tempo que se fundavam corporações de patrões e empregados, sendo a greve proibida. A educação voltou-se basicamente para os esportes e se realizaram grandes obras públicas, visando a dar o “pleno emprego” prometido.

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Documentário

A repressão aos

Orozco

As simpatias do governo Vargas pelo nazifascismo eram notórias. Em setembro de 1934, por exemplo, Simões Lopes, secretário de gabinete do presidente, escrevia a Vargas de Londres, sobre sua viagem à Alemanha: “O que mais me impressionou em Berlim foi a propaganda sistemática, metodizada, do governo e do sistema de governo nacional-socialista. Não há em toda a Alemanha uma só pessoa que não sinta, diariamente, o contato do nazismo ou de Hitler. [...] A organização do ministério de Propaganda fascina tanto, que eu me permito sugerir a criação de uma miniatura dele no Brasil. Os simpatizantes do nazifascismo apoiavam internamente o movimento integralista, “um partido

brasileiro”, cujo “esforço de expansão deve ser respeitado”, dizia o ministro da Guerra. Os pequenos partidos fascistas do Brasil - Partido Fascista Brasileiro, Acão Social Brasileira (Partido Nacional Fascista), Legião Cearense do Trabalho, Legião de Outubro, Partido Nacional Sindicalista, Partido Nacional de São Paulo, Partido Nacional Regenerador iriam todos desaguar na Ação Integralista Brasileira (AIB) de Plínio Salgado. Deve-se bastante ao integralismo a grotesca campanha anticomunista que ganhou corpo a partir de 1934, ampliada e encampada pelo governo. Dizia um folheto integralista da época: “O que o integralismo combate é o regime co-

munista, que pretende: ESCRAVIZAR NOSSA PÁTRIA COMO COLÔNIA DA RÚSSIA SOVIÉTICA; DEGRADAR A MULHER E DESTRUIR A FAMÍLIA PELO AMOR LIVRE; TRANSFORMAR DEUS EM BONECO FANTASIADO. O endereço do Núcleo Central do Integralismo, em Belém era na Assis de Vasconcelos, 165. Houve uma reunião no dia 11/6/35 para comemorar a Batalha de Riachuelo. No dia 13 de junho a ANL declara guerra de morte ao lntegral ismo (telegrama do Rio) e no final de junho a ANL enviou , por navio, uma


comunistas no Pará caravana para o Norte, integrando Hercolino Cascardo (depois foi proibido pelo Ministro da Marinha Protogenes Guimarães); Benjamim Cabello e o Coronel João Cabanas, além da Sra. Mary Martins, representante da União Feminina Brasileira, e outros. No sul anunciavam-se grandes conflitos entre Aliancistas e Integralistas. Felinto Müller colocou inclusive investigadores disfarçados no navio que trouxe a caravana da ANL ao Norte. Ainda em 1934, o aparecimento agressivo do Integralismo na cena política dividiu e radicalizou as cama-

das médias urbanas, acrescentando ao intenso movimento grevista as lutas de rua contra os fascistas nacionais. A movimentação popular serviu de pretexto para o governo pedir a aprovação da Lei de Segurança Nacional e no final do ano, com nova onda de boatos sobre possíveis golpes, desta vez “subversivos”, pretendia-se justificar a aprovação da LSN, chamada pelos setores democráticos de “Lei Monstro”. Foi nesse ambiente político que as forças antifascistas começaram a se organizar. O movimento de oposição, bastante heterogêneo, tinha como grande fator de unidade o sentimento antifascista. A partir desta unidade

básica, que se expressava contra o integralismo, dentro do país, e contra a guerra, no plano internacional, tornouse possível estabelecer um programa de luta, que acabaria por levar à organização da Aliança Nacional Libertadora. Em julho de 1935, o governo Vargas decretou a Lei de Segurança Nacional e, dois meses depois, a ANL foi posta na ilegalidade. Em resposta, agrupados em torno da Aliança Nacional Libertadora organizaram levantes armados em Natal, Recife e Rio de Janeiro. Essas revoltas isoladas foram rapidamente esmagadas, iniciando-se uma fase de violenta perseguição aos comunistas.


Documentário

Dalcídio Jurandir, no alto à direita, no antigo Presídio São José com seus outros camaradas.

- Arte, política e cultura

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Foto: Acervo Dalcidio Jurandir - Fundação Casa de Ruy Barbosa

O governo decretou estado de sítio e anunciou a instauração da pena de morte. Era o prelúdio da ditadura que viria. Vencido o movimento pelas tropas do governo e pela repressão, as atividades dos comunistas não cessaram em Belém. No início de 1936, a polícia realizou novas prisões. Dalcídio Jurandir dessa vez não escapou. Atrás das grades, reencontrou seus camaradas, Pedro Pomar, João Amazonas, Henrique Santiago, seus principais líderes, entre os quais Luís Carlos Prestes, foram presos. Prestes permaneceu preso durante todo o período do Estado Novo (1937-1945), confinado a uma solitária e submetido a um tratamento desumano pelas forças da ditadura. A notícia da eclosão do movimento armado pegou os comunistas paraenses de surpresa. Amazonas entrou em contato com os militares vinculados à ANL e conferiu as possibilidades de um levante em Belém. As condições eram extremamente desfavoráveis, não havia preparação suficiente. Mais tarde, após o golpe que instaurou o Estado Novo - em 27 de novembro de 1937 - no Brasil, Vargas se aproximava perigosamente das potências nazifascistas. A repressão novamente se abateu sobre os comunistas. A polícia política prendeu quase todos os membros da direção central do Partido Comunista do Brasil, que praticamente deixou de existir como organização nacional, restando apenas pequenos núcleos regionais atuando na mais dura clandestinidade

O pretexto para o golpe foram os comunistas, que, apesar de quase todos presos, viram-se acusados de estarem preparando uma nova revolução. Chegou-se a elaborar um plano falso, o Plano Cohen, que previa a instalação de um governo comunista e o assassinato de centenas de políticos brasileiros. A autoria desse plano foi atribuída aos comunistas. Diante das falsas ameaças, Getúlio Vargas decretou o estado de guerra, que permitia prender qualquer pessoa sem ordem judicial, e procurou o apoio das Forças Armadas e dos governadores dos Estados para o golpe. Frente ao fantasma do comunismo, não foi difícil conseguir a união de todos, Getúlio Vargas tinha tanta certeza do êxito do golpe que seu ministro da Justiça, Francisco Campos, já estava redigindo sigilosamente a nova Constituição. Em outubro de 1937 , o general Góes Monteiro, chefe do Estado-Maior do Exército, montou o Plano Cohen. No Pará, nesse ano, foram novamente presos Dalcídio Jurandir e Ritacínio Pereira (irmão de Dalcídio), Henrique Santiago, no Presídio São José, enquanto Pomar e outros viram-se na contingência de passar à clandestinidade. Alfredina, irmã de Dalcídio, também participava, embora disfarçadamente, da vida política, levando bilhetes de Dalcídio e Ritacínio a ativistas políticos de esquerda, e chega a ser apresentada a Luís Carlos Prestes em Belém, pelas mãos do irmão. Em 1937 também, aos onze meses de idade, morre Alfredo, seu primeiro filho. E o golpe, com o apoio das Forças Armadas foi dado a 10 de novembro de 1937, sem maiores dificuldades e sem

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resistência. Fecharam-se os edifícios da Câmara e do Senado. Já às dez horas do mesmo dia, Getúlio Vargas, agora ditador, apresentava aos seus ministros a nova Constituição, instaurando o Estado Novo, com a total centralização do poder nas mãos do presidente. Era a “polaca”, pois se baseava na Constituição polonesa. A quarta Constituição brasileira e a terceira da República, imposta por Getúlio Vargas no 10 de novembro de 1937, estabeleceu a ditadura, na teoria e na prática, tantos foram os poderes concentrados nas mãos do presidente: “autoridade suprema do Estado, que coordena os órgãos representativos de graus superiores, dirige a política interna e externa, promove ou orienta a política legislativa de interesse nacional e superintende a administração do país”. As principais modificações introduzidas pela nova Constituição foram as seguintes: • O presidente podia dissolver o Congresso e expedir decretos leis • Os partidos políticos foram extintos; • Aboliu-se a liberdade de imprensa, com a instituição da censura prévia; • Os Estados passaram a ser governados por interventores; • Instituiu-se a pena de morte; • O mandato presidencial foi prorrogado “até a realização de um plebiscito”, que, é claro, nunca se concretizou. Para exercer a censura à imprensa, orientar a opinião pública e fazer a propaganda do regime, foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).

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Dalcídio Jurandir e outros camaradas presos no Presídio São José em Belém 1937.

- Arte, política e cultura

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Cartas de Dalcídio, da prisão (1937):

Foto e Texto: Acervo Dalcidio Jurandir - Fundação Casa de Ruy Barbosa

Guiomarina É preciso não perder nunca o entusiasmo de viver. Você deve saber que é moça e sabendo qual hoje é o caminho da vida a seguir, deve ante o sacrifício e a desgraça, a brutalidade da reação sanguinária e famacenta, ser perseverante e alegre como uma lutadora. Não desespere. Lembre-se de milhares de mulheres que têm maridos, irmãos, noivos, namorados e fiíhos presos, torturados, assassinados. Lembre-se da heróica Geni Gleizer que foi violentada nas masmorras paulistas e da Olga Prestes encarcerada nas hediondas prisões de Hitler. Lembre-se que as mulheres na Espanha estão na vanguarda da luta pela libertação do povo, peia defesa da democracia e da cultura, pelo futuro de seus filhos e do mundo, Portanto deixe de desanimes e de preocupação pequeno-burguesa de ser feliz porque tem um cantinho sossegado etc. Não. Encare tudo isto com serenidade. Já passamos dias piores aqui. Agora é canja pra nós. [...] Não receie de nada. Confie em si. O desalento é um mal que esgota todas as forças morais. Confie em si própria e venha sempre pronta a enfrentar todas as dificuldades e as brutalidades. Tudo passará. O lodo da reação os confundirá. Você deve se orgulhar de pertencer a esta época. Você teve os olhos abertos, tem sofrido e lutado. Agora sabe qual a direção a tomar na confusão geral. E basta saber para ter fé em si própria, não desesperar e não se abater. “Só os fracos se abatem.” Não estou eu aqui com tanta coisa a fazer e preso? Eu me rio deles porque são mais dignos de lástima que de ódios. A estupidez é tanta que eles se devoram a si próprios... [...] Mandei chamá-la pra ler isto e ter fé em si própria! Fé! Nunca perder a fé! A mocidade quando chega a ter consciência do futuro e do papel a representar nesta época deve se encher de uma alegria tão forte e bela como o mais belo dos heroísmos. Guiomarina - Os livros que recebi um é de Nicolau Gogol - e outro do nosso Dostoiewsky. Deste já lemos na A novela - as etapas da loucura - no livro tem o título Nietótchka - o nome da filha do músico louco. Quando te mandar creio que deves ler. A gente sempre se deixa empolgar pela paixão que é sem limites em Dostoiewsky , Acabei de ler a novela de Gogol que achei magnífica. Gogol é da mesma linhagem dos Tolstoi, Gorkí, Dostoiewsky. Inteligência mandarei domingo com os artigos assinalados, muitos bons para você ler. Creio que você, apesar de todos os tropeços aí, deve aumentar sua curiosidade pelas questões que se debatem na Inteligência, assuntos relativos a nutrição, alimentação, ciência em geral. Você agora com a idade deve enriquecer mais o espírito e não ficar parada, As cartas que lhe escrevo não são mais que continuação das conversas e discussões que temos, [.,.] Do Dalcídio

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Documentário

Imagens: Fundação Getúlio Vargas

Departamento de Impre O DIP foi criado por decreto presidencial em dezembro de 1939, com o objetivo de difundir a ideologia do Estado Novo junto às camadas populares. Mas sua origem remontava a um período anterior. Em 1931 foi criado o Departamento Oficial de Publicidade, e em 1934 o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC). Já no Estado Novo, no início de 1938, o DPDC transformou-se no Departamento Nacional de Propaganda (DNP), que finalmente deu lugar ao DIP. O DIP possuía os setores de divulgação, radiodifusão, teatro, cinema, turismo e imprensa. Cabia-lhe coordenar, orientar e centralizar a propaganda interna e externa, fazer censura ao teatro, cinema e funções esportivas e recreativas, organizar manifestações cívicas, festas patrióticas, exposições, concertos, conferências, e dirigir o programa de radiodifusão oficial do governo. Vários estados possuíam órgãos filiados ao DIP, os chamados “Deips”. Essa estrutura altamente centralizada permitia ao governo exercer

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o controle da informação, assegurando-lhe o domínio da vida cultural do país. Na imprensa, a uniformização das notícias era garantida pela Agência Nacional. O DIP as distribuía gratuitamente ou como matéria subvencionada, dificultando assim o trabalho das empresas particulares. Contando com uma equipe numerosa e altamente qualificada, a Agência Nacional praticamente monopolizava o noticiário. Quanto ao rádio, buscou-se difundir seu uso nas escolas e nos estabelecimentos agrícolas e industriais, de modo a promover a cooperação entre a União, os Estados, os municípios e particulares. O programa oficial “Hora do Brasil” era transmitido para todo o território nacional. Outra realização do DIP foi o “Cinejornal Brasileiro”, série de documentários de curta metragem de exibição obrigatória antes das sessões de cinema. No “Cinejornal” fazia-se a crônica cotidiana da política nacional, recorrendo-se ao forte impacto dos recursos audiovisuais. Alguns filmes eram exportados para países


ensa e Propaganda (DIP) como a Argentina, o Uruguai e o Paraguai. Um dos reflexos da guerra no Brasil foi uma campanha de penetração cultural do governo norte-americano destinada a barrar a influência alemã no país. O DIP colaborou nessa campanha, que marcou a presença do Tio Sam no Brasil, apoiando e desenvolvendo projetos conjuntos com a agência norte-americana criada para esse fim. Foi nesse contexto que vieram ao Brasil artistas famosos como o cineasta Orson Welles, Walt Disney e Nelson Rockefeller. Também foi instituída no DIP uma sessão de intercâmbio cultural luso-brasileiro. Um dos frutos desse intercâmbio foi a revista Brasília, publicada pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de Coimbra. O DIP costumava realizar concursos de monografias e reportagens sobre temas nacionais. Foi através de seu setor de divulgação que se editaram várias coleções como a Coleção Brasil, Vultos, datas e realizações e O Brasil na guerra. Para divulgar essas obras foi criada uma rede de bibliotecas em

escolas, quartéis, hospitais e sindicatos. A centralização informativa era apresentada como fator de modernidade e justificada pelos princípios de agilidade,eficiência e racionalidade. Devido à importância de suas funções, o DIP acabou se transformando numa espécie de “superministério”. Cabia-lhe exercer a censura às diversões públicas, antes de responsabilidade da Polícia Civil do Distrito Federal. Também os serviços de publicidade e propaganda dos ministérios, departamentos e órgãos da administração pública passaram à responsabilidade do DIP que atuou até maio de 1945. (Texto da Fundação Getúlio Vargas) Mesmo sendo extinto em 1945 (junto com a deposição de Vargas) não é difícil perceber a eficácia do projeto do qual o DIP fez parte. Até hoje, na memória coletiva, trata-se Vargas como “Pai dos Pobres”, mesmo sabendo-se que nos anos em que governou com mão de ferro muita gente foi presa, torturada e assassinada. Para combater os comunistas, Vargas utili-

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zou serviços dos Integralistas, ferrenhos anticomunistas, filiados ao fascismo e ao nazismo. Foram, até mesmo alguns elementos integralistas, entre os quais o jovem oficial Olímpio Mourão Filho, que ajudaram a forjar o Plano Cohen. En-

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tretanto, após a instauração do Estado Novo, os integralistas, chefiados por Plínio Salgado, começaram a se tornar incômodos ao poder, e o ditador passou a deixá-los de lado, pois já não precisava de sua ajuda. Seu partido, a Ação Integralista

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Brasileira, foi extinto juntamente com os outros. Inconformados; os integralistas tentaram apoderar-se do governo através de um ataque ao Palácio Guanabara, desfechado a 11 de maio de 1938. Porém, foram rapidamente dominados pelas forças do governo. Alguns membros da Ação Integralista acabaram na cadeia e seu chefe Plínio Salgado, foi exilado. Após o período das perseguições que o levaram à prisão, Dalcídio Jurandir reassume, em 1938, suas funções na Diretoria Geral de Educação e Ensino em Belém e intensifica suas atividades jornalísticas. Os artigos exemplificam como Dalcídio conseguia em suas matérias conjugar a referencialidade do fato jornalístico com a observação aguda, crítica e sensível do jovem poeta e romancista. Em 1939, Dalcídio vai para Oeiras e depois Salvaterra, na Ilha do Marajó, exercendo em comissão o cargo de Inspetor Escolar, mas continua colaborando para revistas e jornais de Belém. Em Salvaterra, Dalcídio termina a segunda versão de Chove nos campos de Cachoeira, a definitiva, e também seu segundo romance, inicialmente chamado Missunga, depois Marínatambalo (nome indígena de sua ilha natal)


imprensa carioca que se transformou em jornal diário em 1943 onde é o redator do jornal político, para o qual escreve artigos importantes, colaborando com textos críticos sobre a realidade brasileira e o combate ao fascismo, onde chegou a assumir uma Coluna “Inteligência contra o Fascismo”. Em 1944, Diretrizes é fechado e Dalcídio passa a trabalhar no SESP, Serviço Especial de Saúde Pública, redigindo textos de programas de educação sanitária, junto a Moacir Werneck de Castro, Rubem Braga e Armênio Guedes. Nesse Dalcídio vence o concurso promovido pela editora ano colabora no Vecchi e pelo jornal literário Dom Casmurro Diário de Notícias, no Correio da Maentre os redatores da resolução do nhã e na revista Leitura. Congresso, a começar por Alberto Nessa época o PCB vai ganhando Passos Guimarães e Caio Prado Júprestígio junto às forças da cultura, nior. Os congressistas exigem uma no bojo da luta antifascista e pela ampla campanha de alfabetização no anistia. Oscar Niemeyer, por exem- Brasil. Surgem a União Nacional de plo, ingressa no Partido já em 1942. Estudantes (UNE) e a Associação O poeta Manoel de Barros também Brasileira de Escritores, entidades entra no PCB, ou mais exatamente apoiadas pelos comunistas. na Juventude Comunista. Por essa Muitos representantes da área mesma época, Jorge Amado escrecultural filiam-se ao PCB na redeve o seu “Cavaleiro da Esperança”, mocratização de 1945. Jorge Amado relato romanceado da vida de Luiz é eleito deputado federal. Mário Carlos Prestes, então na prisão. Schoemberg, Graciliano Ramos, Rompendo cada vez mais com o Dalcídio Jurandir, Arnaldo Estrela, seu isolamento, o Partido marca Quirino Campofiorito, Aníbal Maforte presença no Congresso dos chado, Bruno Giorgi, José Pancetti, Escritores, presidido pelo comunista Eugênia Moreyra, Moisés Vinhas, Aníbal Machado. Há comunistas Rui Santos, Portinari, Di Cavalcante,

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Foto: Acervo Dalcidio Jurandir - Fundação Casa de Ruy Barbosa

e só mais tarde publicado com o título de Marajó. Depois no começo da década nasce seu terceiro filho, José Roberto Freire Pereira, em 1940, e o seu aparecimento na literatura nacional através do concurso de romances promovido pela editora Vecchi e pelo jornal literário Dom Casmurro que foi fundado por José Lins do Rego, Gilberto freyre. Em 1941, é lançado no Rio de Janeiro o romance Chove nos campos de Cachoeira. Dalcídio recebe da Casa Editora Vecchi Ltda, por ordem de pagamento, a quantia de cinco contos de réis. O interventor José Malcher concede-lhe um “segundo prêmio”: passagens e ajuda de custo para se demorar uns dois meses no Rio de Janeiro. Vai sozinho para o Rio, na primeira classe do paquete Itapage (da Companhia Nacional de Navegação Costeira). No Rio, encontra dificuldades para se estabelecer profissionalmente. Guiomarina, sua esposa que ficara grávida e com os dois filhos em Belém, segue grávida, com os dois filhos para o Rio de Janeiro, ao encontro do marido. Dalcídio jamais voltou a residir em Belém, fixou-se definitivamente no Rio e nela desenvolveu a maior parte da sua obra jornalística, ensaística e de ficção. Para sobreviver, Dalcídio trabalha intensamente como jornalista. Ele que exercia sua atividade de escritor e jornalista desde os seus 16 anos, isso em 1925, quando foi um dos diretores da revista “Nova Aurora”, mensal, artesanalmente produzida (toda a bico de pena), cujo redator era seu irmão Flaviano Ramos Pereira (que depois viria a ser grande jornalista em Belém). Em 1942, trabalha na redação do jornal “O Radical” e depois atua na “Revista Diretrizes” editada por Samuel Wainer órgão inovador na

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Orígenes Lessa, Darcy Ribeiro, Dionélio Machado, Pedro Mota Lima, Procópio Ferreira, João Saldanha, Aline Paim, Mário Lago e outros nomes expressivos da cultura nacional assumem oficialmente sua condição de comunistas. Agora podem fazêlo. O poeta Carlos Drummond de Andrade chega a dirigir um jornal do Partido no Rio de Janeiro, o mesmo ocorrendo com Jorge Amado, em São Paulo. Em algumas capitais, o PCB organiza os chamados Comitês Culturais, para apoiar as atividades artísticas progressistas. No Rio de Janeiro, compositores populares como

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Paulo da Portela, Ataulfo Alves e Silas de Oliveira mantêm ligações com o PCB. O hino da campanha de Luiz Carlos Prestes ao Senado foi composto por Dorival Caymmi. Um nome respeitado como Monteiro Lobato fazia campanha para Prestes, votando nos candidatos comunistas e publicando o folheto Zé do Brasil, ou seja, o próprio Prestes. A área musical contribuiria ainda com o cantor Jararaca, nascido em Alagoas, e a jornalista e crítica Eneida de Morais, oriunda do Pará. Além disso, a Editoria Vitória, do Partido, cumpre importante função ao divulgar os clássicos do marxismo

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no Brasil. E o PCB tenta montar ainda uma produtora de cinema, a Liberdade Filmes. Atraídos pela resistência da União Soviética aos nazistas, muitos intelectuais de origem ou formação judaica também aderem então ao Partido Comunista no Brasil. Em novembro de 1943, o governo finalmente tomara a decisão pública de organizar a Força Expedicionária Brasileira, a FEB. Ao mesmo tempo, Vargas acelerou suas manobras visando isolar, cercear e reprimir as atividades comunistas. Ainda em 1943, ele havia tomado uma série de medidas no campo trabalhis-


ta, que tiveram como ápice a publicação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), numa clara intenção de impedir que os trabalhadores caíssem sob a influência comunista. E ordenara ao Ministério do Trabalho que intensificasse o controle sobre os sindicatos e reforçasse a posição dos pelegos, de modo a realizar uma sindicalização de acordo com seus próprios interesses. Em agosto de 1943 realiza-se, na clandestinidade, a Conferência da Mantiqueira : II Conferência Nacional do Partido Comunista. Os comunistas brasileiros estavam divididos, sobretudo, em relação ao apoio a Vargas. No entanto, a orientação adotada foi a de apoio incondicional ao presidente que anteriormente era o grande carrasco dos comunista, fascista, nazista e agora era preciso aliar-se com ele na guerra contra o fascismo e pelo trabalho persistente para a reestruturação do Partido. A conferência elege Luís Carlos Prestes - ainda no cárcere - secretário geral do Partido. A II Conferência Nacional do PCB aprovou a política de união nacional em torno do governo para o esforço de guerra e a luta contra o nazifascismo e pela anistia aos presos políticos. A luta para derrubar Vargas e o Estado Novo foi colocada de lado e considerada nefasta no combate ao inimigo

principal. Em abril de 1945, foi decretada a anistia e Vargas passou a conduzir pessoalmente o processo de democratização, sinalizando para a construção de um modelo político e social mais avançado que o de antes, de 1937. O próprio Partido Comunista pôde, finalmente, sair da clandestinidade e realizar gigantescos comícios. Naquela conjuntura, desenvolvia-se o chamado movimento “queremista”, que apregoava a convocação de uma Constituinte, com a continuidade de Vargas no poder, proposta encampada pelos comunistas. As classes dominantes se apavoraram com a possibilidade de uma aliança entre comunistas e trabalhistas e organizaram um golpe de Estado. Em outubro, Vargas foi destituído. No entanto, isso não deteve o processo de democratização em curso. No mês seguinte, o TSE aceitou o pedido de registro do Partido Comunista. Faltavam poucos dias para a eleição presidencial e para a Constituinte. Os comunistas realizaram, então, a mais empolgante campanha eleitoral já vista pelo país e conseguiram eleger 14 deputados federais e um senador, Prestes. O seu candidato à presidência, Yedo Fiúza, praticamente um desconhecido, alcançou 10% dos votos. Em 1945, quando o Partido

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Comunista entrava na legalidade, Dalcídio participava da direção do jornal TribunaPopular e colaborava na revista O Cruzeiro. Em junho de 1945, o PCB, legalizado, espraiava seus comitês por todo o território do país, aparecendo no cenário político como um partido de massas, enraizado entre os operários industriais e as camadas populares e com grande prestígio entre a população. O partido estava crescendo rápido demais - de algumas centenas de células e alguns poucos milhares de militantes, antes da legalidade, passava a ter milhares de células e os números da secretaria de organização já falavam em quase 200 mil militantes. O partido se transformara num partido de massa e era preciso tornar todo esse contingente em militantes e dirigentes ativos, utilizando-se de diferentes meios de educação e propaganda. Montar jornais diários para difundir as políticas do partido; possuir semanários e revistas para fornecer elementos de educação teórica para os quadros e militantes; instituir sistemas de palestras e cursos para dar maior consistência a esse processo de educação política e ideológica tudo isso era uma tarefa nova e

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jornalístico e literário.

urgente, que tinha que colocar em primeiro plano. Nesse meio tempo, o PCB voltara a editar, semanalmente, A Classe Operária como seu órgão central; tinha jornais diários em oito Estados, possuía editoras em vários deles, publicando livros, opúsculos e folhetos, e organizava uma razoável quantidade de palestras e cursos para a militância. Ao todo, o partido contava com 25 jornais de diferentes tipos, tinha influência em várias revistas e contava com a participação militante ou amiga de inúmeros intelectuais e profissionais do jornalismo. Sob sua responsabilidade direta estavam A Classe Operária e A Tribuna Popular, ambas editadas no Rio. Em 1946, a Tribuna Popular - Arte, política e cultura

é fechada. Nesse ano, Dalcídio colabora no semanário A Classe Operária, Tribuna do Pará, e outros. A vida jornalística mantinha o escritor no Rio e servia para desenvolver sua habilidade com a palavra e com a leitura política da realidade, paralelo a isso, alimentava seu plano de escrever uma série de romances, que iriam compor o Ciclo do Extremo Norte. O segundo romance, Marajó, “pronto” desde 1939, é passado a limpo entre 1945 e 1946 e editado em 1947, pela José Olympio, no Rio, Três Casa e um Rio e editado em 1958. Depois dele, mais oito romances foram publicados: A produção intelectual de Dalcídio Jurandir é impressionante no nível

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(1978)

(1976)

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(1963)

(1971)

(1947)

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(1960)

(1967)

(1959) www.revistapzz.com.br


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Anistia

Dalcídio Jurandir

NÃO basta para a anistia a agitação tocante e mobilizadora da rua, da praça pública, dos jornais e dos comícios. E’ necessário que essa agitação se transforme em organização e que esta organização seja a base de outras organizações democráticas para novas e imediatas reivindicações de que tanto precisa o povo brasileiro. Devemos clamar pela anistia organizadamente e, com ela, clamar simultaneamente por outras reivindicações com a liberdade sindical, a extinção do Tribunal da Segurança, a revogação do Ato Adicional, eleições livres, concreta liberdade para a imprensa nos Estados, o direito amplo, legitimamente garantido, de reunião e de associação, discussão popular a respeito da alarmante carestia da vida e a respeito de tremendas especulações que se fazem á sombra da guerra. Dentro da ordem e da tranquilidade a organização da anistia ampla, serena mas firme, múltipla, ardente mas prática, deve aprofundar-se cada vez mais nas multidões. Não somente nas multidões em comício mas em suascasas, oficinas, fábricas, em todos os seus locais de trabalho até casas de diversões, como cinemas, teatros, campos de futebol e turf. Não só nas cidades como no interior. As nossas populações rurais estão ansiosas de esclarecimento e ainda não sabem bem o que significa democracia. Devemos levar-lhes uma “palavra democrática inicial, a palavra anistia. É claro que não irá isolada, outras palavras se derramarão e assim poderemos levar, de maneira simples e construtiva, a ideia da democracia aos

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nossos irmãos do campo tão batidos pelo analfabetismo, pela miséria e pela doença. Aquele poderoso “slogan” de Eugenia Álvaro Moreyra lançado no comício, sob esplêndida aclamação popular, deve ser repetido e cantado por milhões de vozes do povo do Brasil. Repetido em cartazes, legendas, folhetos, versos populares, marchas, sambas, e nos muros, nos estádios, nas manchetes, nos cabeçalhos, nos trens, navios, estradas e estações de estradas de ferro. Não poderei esquecer o instante supremo do comício ao ouvir de Eugenia Álvaro Moreyra o “slogan” reivindicador: “Nós queremos Anistia! Liberdade para Prestes!”. Nunca se ouvira isto nas praças públicas do Brasil, o nome proibido e “maldito” ressoava no coração do comício como a ressurreição de nossa própria confiança, de nossa inabalável certeza da vitória democrática. Não se tratava de simples apologia de Prestes como militante de vanguarda, como notável teórico de uma ideologia mas da identificação objetiva de seu nome com o povo, a integração de sua vida e de sua liberdade em nossa vida e em nossa liberdade, o direito que ele deve ter, como marxista e como cidadão de exprimir livremente as suas idéias dentro da ordem e da tranquilidade como tem, pode e deve ter o sr. Tristão de Ataíde, como católico e cidadão, de exprimir a sua fé. Estou certo de que as correntes católicas estão conosco também pela anistia. O artigo do sr. Tristão de Ataíde, por exemplo, sobre essa admirável pessoa humana que é Sobral Pinto, vale, subjetivamente,

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como :um apoio à anistia, vale como o sinal do esquecimento de ódios e equívocos e a compreensão pacífica de que se podem incorporar também á jovem cultura brasileira; as idéias socialistas. Isto provocará debate mas imprime, organicamente, a elevação de nosso nível político, definição do nosso nível cultural, conhecimento mais lúcido e mais vigilante dos nossso problemas, o respeito mútuo, o amor do Brasil em seus diferentes sentimentos e em todos os aspectos da opinião e do pensamento que ajudem a libertar o nosso povo. O “slogan” não significa apenas a liberdade de um homem, tão preciosa numa pessoa humana, como dizem os católicos, mas a liberdade de um princípio. Não somente a liberdade de um princípio como a liberdade de pessoas e de outros princípios na volta do sr. Armando Sales de Oliveira e do sr. Otávio Mangabeira, liberais que, pela experiência de seu exílio e da madura apreciação dos fatos brasileiros, muito poderão fazer pelo Brasil. Com a liberdade desses líderes políticos, poderemos contar com a presença também de Agliberto, Costa Leite. Agildo e todos os prisioneiros da Ilha Grande. Terei, particularmente, a alegria de abraçar amigos paraenses, queridos amigos da juventude de ontem, estonteada ainda pelas idéias e posta à prova pelas primeiras lutas, esse Pedro Pomar e esse João Pedroso, anônimos na longa e difícil luta pela libertação nacional, homens do povo, fiéis ao povo. A intensificação do nosso esforço de guerra, com todo o apoio ao nosso Exér-


popular contra a quinta-coluna, contra todas as restrições perigosas e ataques reacionários que se fazem em nosso país ás resoluções de Yalta. Abre condições para uma, maior participação do povo em defesa dos acordos de Yalta contra a influência, tão grata a Hitler desse foco de reação internacional que é o “governo exilado polonês” de Londres. A anistia é, assim, uma frente para a recuperação de liberdades públicas como também dará experiência, preparo e vigor para o curso da luta democrática, à altura das circunstâncias em que se acha o nosso país, diante das últimas batalhas da F.E.B. na Itália, diante do fim da guerra, diante da Conferência de S. Francisco. Será assim a anistia uma frente da ordem pública, um dos muitos andaimes, daqueles andaimes a que aludia um gênio político, para a construção do edifício democrático. “A ordem política e social” está passando das mãos de blocos antidemocráticos, minorias fascistas e semi-fascistas para as mãos dos povos que se libertaram pela guerra. Logo devemos ganhá-la dentro do processo da democratização pelo qual estamos em guerra contra o nazismo, com toda a vigilância dos nossos melhores métodos políticos, com todo um nobre espírito de denúncia contra a provocação, o golpismo, a demagogia. Exigindo anistia, estamos percorrendo o caminho aberto pelas nossas forças expedicionárias na sua campanha da Itália. Saímos de uma noite de sete anos mas saímos prevenidos e apoiados para não consentir em outro colapso das nossas ainda débeis e dispersas forças políticas,

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para não permitir que o trabalho e o sacrifício dos nossos soldados : sejam inúteis. Estamos com a rãzão e com a vitória e como é profundamente simples dizer isto, depois de uma guerra como esta guerra de tanto sangue e tanta ruína e ao mesmo tempo de tanta justeza e de tanta esperança! O essencial é organizar o movimento de anistia, como de todas as correntes de opinião livre. Devemos organizá-lo em comitês políticos, nas formações trabalhistas, nas associações culturais, religiosas, esportivas, organizar, dar corpo ao clamante pensamento da anistia. E o problema , não é só de organizar mas o de criar, também, uma vigorosa unidade de ação. O mundo, como num relâmpago, mudou e foram os povos lutando que determinaram tão rápida mudança. A imensa e oprimida humanidade está avançando sobre o futuro, com que desespero as forças obscurantistas teimam resistir! Aqui no Brasil estamos chegando ao fim de uma ditadura, a nascente, democracia brasileira, em sua forma capitalista, não mais depende do azar, do acaso, de fatos em que o jogo do fascismo se tornava tão claro e tão vil. Depende já de crescentes condições favoráveis no plano internacional e nacional e depende, sobretudo, da nossa capacidade organizativa, de nossa educação política, e da leal aplicação da tática historicamente justa que é a de conquistarmos a liberdade dentro da tranquilidade e da ordem. 01/04/1945 O JORNAL.

Texto: Acervo Dalcidio Jurandir - Fundação Casa de Ruy Barbosa

Desenho: Oscar Niemeyer

cito, cujo conteúdo histórico democrático se tornou gloriosamente maior e mundialmente conhecido na sua participação da guerra contra o nazi-fascismo, daria um passo gigantesco com o movimento organizado da anistia. A anistia é um dos fatos que tanto necessitamos, uma das condições, podemos dizer práticas e patéticas, da união nacional e impulsiona a mobilização psicológica do povo para, o fim da guerra, para a arrancada final sobre e covil de Hitler, para o completo aniquilamento dos exércitos nazistas e a preparação da arrancanda política e esmagadora contra Franco e todos os bolsões ao nazismo cercados pelo mundo. A missão da F.E.B. ainda não acabou. Morrem os nossos irmãos, surgem os primeiros feridos e mutilados, há famílias no Brasil que sentiram em sua carne o peso da guerra, a significação terrivelmente exata do fascismo, morrem nossos pracinhas ao lado dos “jovens soviéticos, britânicos e norte-americanos nas frentes de batalha. Não devemos perder de vista a perspectiva da guerra e com ela a perspectiva da vitória e na perspectiva da vitória aquela que, com a libertação dos povos, nos assegura a derrota política do fascismo. Entre esses povos se encontra o nosso povo que já tomou o caminho da restauração das suas antigas e mínimas liberdades perdidas e está a caminho das profundas e reais liberdades que nunca teve. A anistia é uma frente de combate pela paz interna mas indiscutivelmente corresponde a mais uma frente nacional de guerra contra o nazi-fascismo, criando uma nova forma de mobilização

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Legalidade do Partido Comunista no Pará Em outubro de 45, o pedido de registro do PCB entrou em julgamento, no Tribunal Superior Eleitoral. O relator do processo, professor Sampaio Dória, da Faculdade de Direito de São Paulo, votou por seu deferimento, ao que parece, convencido de que, no Brasil, os comunistas lutavam pelo fortalecimento do capitalismo nacional e não pelo socialismo. Chegou mesmo a ironizá-los, ao referir, que constituíam um partido marxista sui-generis posto que sem marxismo. Em consequência, o PCB obteve, legalmente, o direito à luz do dia. Antes disso, em Belém, a exemplo de outros lugares, o Partido havia feito uma concorrida aparição pública, que de certo causou incômodo aos setores menos liberais, assustados com o crescimento de suas hostes. Ocorreu em pleno Teatro da Paz cedido por ordem de Magalhães Barata, para a instalação do comitê estadual do PCB, no dia 21 de agosto. Jornais da época descreveram o acontecimento e estamparam fotos. O teatro ficou completamente lotado por milhares de pessoas, que compareceram para assistir a posse do organismo liderado pelo sapateiro Henrique Santiago. Na abertura da sessão, uma banda tocou o Hino Nacional entoado pelos presentes. Depois da posse dos dirigentes — um sapateiro (Henrique Santiago), um estivador (Raimundo Manito), um médico (Ritacínio Pereira), um gráfico (António Santos), um jornalista (Diogo Costa), um telegrafista (Djalma Hartery), uma operária (Antonia Cordeiro), um encanador (Edgard Pantoja), um transviário (Argemíro Nascimento), um marítimo (Otaviano Santos), um motorista (Santílio Figueiredo), um pedreiro Raimundo Gomes), e um estudante (Gilberto Vasconcelos) — leu-se uma extensa carta enviada por Dalcídio Jurandir (Cartas aos Amigos do Pará), e, em seguida, João Amazonas, paraense de nascimento e nome nacional do Partido, dissertou sobre sua linha política. Numa foto da imprensa vê-se o palco do Teatro da Paz ocupado pela mesa enfeitada de flores e ostentando, ao centro, o emblema da excomungada união operário-camponesa: a foice e o martelo. À direita, observa-se uma bandeira das Nações Unidas, à esquerda, uma óleo-gravura de Prestes, e ao fundo, o pavilhão brasileiro. O Theatro da Paz era um local reservado na época e ainda é em certo sentido. A Bandeira Vermelha com a foice e o martelo era o máximo do contraste. Nessa época em 1945 o Getúlio Vargas estava tentando limpar a barra dele e tentando dar uma atmosfera de redemocratização política ao país, ele anistiou presos políticos, o Prestes foi solto e nessa atmosfera, o Barata mandou ceder o Theatro da Paz para o os comunistas tomarem posse publicamente. A Direção Estadual do Comitê Estadual do Partido Comunista fez parte da atmosfera de redemocratização após a Segunda Guerra Mundial ficando na legalidade até 1948. (Alfredo Oliveira) Belém, Belém - Editora Falangola - pag. 55

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Carta Aos Meus Amigos Do Pará (Por Motivo Da Instalação do Comitê Estadual do P.C.B em Belém do Pará) Meus velhos e jovens amigos e amigas: Dirijo-me a todos vocês meus velhos e jovens amigos e amigas de Belém do Pará, de Ponta de Pedras, de Cachoeira do Arari, de Gurupá, de Santarém, de Cametá, Bragança, Soure, Salvaterra, Vigia, Abaetetuba, Monte Alegre, Óbidos, sítios, barracões e povoados de minha terra onde deixei velhas e inesquecíveis camaradagens. Não me era possível escrever a vocês de outra maneira senão assim nesta carta pública de escrita com a maior emoção e a qual peço a atenção e o carinho de vocês. No dia 19 de agosto próximo será instalado , em nossa Belém do Pará, o Comitê Estadual do Partido Comunista do Brasil. Pela primeira vez em nosso Estado funcionará legalmente o Partido da classe operária e dos camponeses do Brasil. Mas a história do Partido comunista, vanguarda democrática do nosso povo, no Pará, não começa nestes dias. Sua história está ligada a história do Partido em nosso país. Não esqueçamos a esse respeito, estas grandes palavras de Prestes: “Sim, companheiros, porque apesar das terríveis conseqüências que teve para o nosso Partido a derrota de 1935, apesar da brutalidade infame contra nós emprega-

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da pela polícia fascistizante de Filinto Müller e de seus asseclas nos Estados, apesar dos golpes sucessivos sofridos durante anos seguidos pela nossa organização, apesar da campanha sistemática de difamação e calúnias que contra nós foi movida, apesar de tudo quanto foi feito naqueles anos de reação visando o esmagamento de nosso Partido, ele sempre consentiu sobreviver a todos os golpes e, vencendo dificuldades mil, jamais deixou de atuar junto ao povo, organizando-o e esclarecendo-o na luta contra o fascismo de maneira a impedir que se consumasse a entrega do país a Gestapo”. Nestas palavras está um resumo da história e da vida do Partido Comunista nestes últimos dez anos. O que, há dez anos o Partido indicava como certo e justo, orientando e esclarecendo o povo, foi agora comprovado. O que, há dez anos, era apontado como inimigo do povo, tirou todas as máscaras e surgiu como o mostro tal qual é, esse monstro que é o fascismo, que gerou contra o Brasil, esse monstrengo que é o integralismo. Pelo integralismo, os comunistas foram acusados como inimigos da religião, da Pátria, da família, da sociedade. Mas os

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fascistas que acusavam os comunistas foram precisamente aqueles que na Europa destruíram as igrejas com bombas e granadas, mataram sacerdotes de todos os credos, instituíram as câmaras de morte lenta. Os verdadeiros inimigos da Pátria foram os que conspiraram contra o Brasil confabulando com alemães e italianos nazistas, fornecendo combustível aos submarinos, servindo a quinta coluna. Queriam ver a nossa Pátria dividida, ensangüentada, ocupada pela Alemanha nazista. Esses culpados, cúmplices diretos ou indiretos, conscientes e inconscientes, eram aqueles que vestiam camisa verde, diziam-se patriotas, com vinhos e salsichas na geladeira, prontos para festejar a entrada de Hitler em Moscou, a capitulação da Inglaterra e a chegada de um gauleiter nazista ao rio para ocupar o poder. Os que falavam na defesa da família banqueteavam-se ao saber que milhares de mulheres e crianças eram bombardeados pelos aviões nazistas, morriam de torturas e fome nos terríveis campos de concentração e no trabalho escravo, ao saber que submarinos fuzilavam fascistas metralhavam famílias inteiras de náufragos dos nossos navios torpedeados nas costas do Nordeste.


Não quero me referir á massa de jovens e sinceros homens que vestiram enganados, a camisa verde, confiando que o integralismo era um movimento patriótico. Acredito que, no Pará, a maioria dos antigos integralistas compreendeu há tempo o seu erro, o seu engano. O engano foi razoável e, de certo modo, inevitável diante da capacidade dos líderes liberais nas lutas políticas do país que não resolviam os problemas mais imediatos do povo e da nação nem consentiam que os verdadeiros amigos do povo e da nação, os aliancistas libertadores, os comunistas, e alguns liberais honestos e conscientes falassem abertamente e mostrassem o perigo integralista crescendo com a ascensão do fascismo no mundo. De qualquer maneira eles tomaram uma posição que consideravam acertadas ansiosos por uma saída na crise política brasileira. Os fatos vieram porém mostrar que o integralismo nada mais era do que uma mentira, uma armadilha, uma agência do fascismo, o destacamento organizado da quinta coluna em nosso país. Os fatos provam que os mais conseqüentes e mais valentes anti-fascistas da primeira hora foram os comunistas. O Partido Comunista do Brasil que há vinte e três anos

pode-se dizer luta na mais dura ilegalidade, sem nenhum apoio senão o do povo, tinha razão no seu combate ao integralismo. Meus amigos e minhas amigas, a 19 de agosto próximo será instalado o Comitê Estadual do Partido Comunista, mostrará a sua placa, à luz do dia, na rua Manoel Barata número 761, abrirá as suas portas. Haverá por certo muitas flores e também muitas lágrimas. Velhos militantes, velhos trabalhadores chorarão acariciando a cabeça de seus netos e compreenderão melhor o poder da esperança. As mulheres estão compreendendo que o Partido comunista é o seu Partido porque é o Partido que melhor defende os direitos do lar, da maternidade, da infância, da invalidez, da velhice, os direitos da mulher na família, no trabalho, na política, na sociedade, enfim. Uma democracia sem a participação ativa da mulher não pode ser uma democracia. Amigos e amigas, o Partido abre suas portas para todos vocês. Não pretendo convertê-los ao Partido, não. Quero apenas que compreendam o Partido, acompanhem sua vida e procurem ver o que é o Partido Comunista. O Partido Comunista, declarou Prestes, numa reunião entre

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trabalhadores, tem os defeitos e as qualidades da classe operária. Os defeitos são humanos, diminuem no processo de organização e crescimento do Partido. As qualidades são as dominantes e crescentes. Como um homem, o Partido tem seus erros, na base dos próprios erros ele cria experiência e descobre o caminho certo. Assim tem sido o Partido Comunista. A medida que ele se torna mais forte, mais profundamente apoiado no povo, melhor será a sua qualidade, maior o seu trabalho. Meus queridos amigos, muitos de vocês não sabem ler nem escrever, muitos de vocês não lêem jornais, sei bem disto e vocês sabem bem porque, são barqueiros, pescadores, seringueiros, lavradores, madeireiros, foliões, marítimos, operários. Muitas de vocês foram minhas amigas do interior, lavadeiras, capinadoras de ruas e cemitérios, apanhadoras de sementes oleaginosas no rio, cozinheiras, zeladoras de igreja, receiras, companheiras de festas e procissões, da escola primária, da infância e da adolescência. Muitas são velhas mães de família que me contavam histórias sobre a pobreza e seus trabalhos, velhas e queridas amigas que não sabem ler nem escrever, que sempre

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conversaram comigo e sempre me quiseram bem e isto sempre foi um motivo de coragem e orgulho para minha vida. Aos amigos do interior que sabem ler e lêem jornais, peço que leiam esta carta aos amigos analfabetos. A instalação do Comitê Estadual do Partido Comunista, em Belém do Pará, é o resultado de muitos anos de trabalho constantes e difíceis realizados por dezenas de paraenses que sustentarão com bravura e paciência, sem interrupção, a atividade do Partido em nossa terra quando todas as forças reacionárias se lançavam contra os comunistas. Os tempos mudaram. A guerra veio demonstrar que os comunistas são os mais dedicados amigos da liberdade, do povo e sempre mais próximos do futuro. Tudo sacrificaram pela honra do Partido que é a honra do povo e o mais rico legado das lutas populares para as gerações de amanhã. Amigos e amigas, católicos, protestantes, espíritas, maçons, teósofos, judeus, peço a vocês um pensamento de homenagem aos comunistas sacrificados e mortos pelo amor ao povo. Nas ladainhas, nas novenas e missas, nas sessões e reuniões religiosas, nas rezas sempre amadas do nosso interior, defronte dos oratórios,

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das bíblias, dos catecismos, das cerimônias e nas meditações, pensem um pouco também nos que tombaram e padeceram pelo povo, pensem nos comunistas que não estão conosco, que estão ausentes para sempre. Quando alguém lhes disser que os comunistas são maus, são sem alma, querem destruir as igrejas, querem tomar as filhas ou esposas alheias, tomar as roças, as fazendas, as canoas, o gado, a criação e a rede de pesca, tomar, afinal, a propriedade que a maioria de vocês nunca teve, riam na cara do velho intrigante, chamem-no de mentiroso e infame, digam que agora os tempos mudaram. A mentira foi descoberta e esmagada, a infâmia foi devolvida e queima a língua do próprio difamador. Hoje vocês já sabem que a intriga e a mentira eram lançadas para dividir o povo, evitar que o povo se organizasse e compreendesse que a miséria tem remédio, afastar os comunistas do povo. Os velhos e infames intrigantes sabem já que onde houver povo, há comunistas. Onde houver classe operária, há Partido Comunista. Inútil querer afastar os comunistas do povo, seria o mesmo que tirar os olhos, o coração do corpo de um homem. Seria o mesmo que arrancar do

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povo o direito que ele tem de saber o que quer e o grande futuro que o aguarda. Os comunistas são a carne da carne do povo. Botem para fora de seus lares e de seus locais de trabalho os velhos e os infames intrigantes, inimigos do povo, a sua infâmia e a sua intriga não pegam mais. Aberto para o povo o Partido Comunista só poderá trabalhar e crescer no meio do povo. Bem sabemos as dificuldades enormes a enfrentar no nosso Estado. O Pará tem sofrido muito, Belém foi, no Brasil, a cidade mais atingida pela guerra mas foi também uma das bases cedidas aos nossos aliados para as operações da invasão da África, da Europa e da guerra do Pacífico. A miséria do povo é muito grande, seu mercado interno, sua indústria, sua agricultura, trazem ainda o peso do atraso colonial. Fazendeiros e criadores, os queridos vaqueiros do Marajó e do Baixo Amazonas sofrem as conseqüências da crise da pecuária, como a população de Belém se encontra sob a opressão dessa crise e de toda a crise geral de nossa economia. Os castanheiros e seringueiros, os plantadores de cacau, os roceiros da varzea e da terra firme, lenheiros, garimpeiros, comerciantes, motoristas, plantadores de fumo,

Foto: Acervo Dalcidio Jurandir - Fundação Casa de Ruy Barbosa

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Portinari

mestres de oficinas, funcionários municipais e professores querem uma vida melhor. Os lavradores da margens da Estrada de Ferro de Bragança, os ferroviários, os pescadores do Salgado, do Lago Arari e da Contra-Costa, necessitam de orientação para estudar e resolver os seus problemas mais imediatos. As pequenas colônias agrícolas de Santarém, de Monte Alegre e de Bragança reclamam ferramentas, crédito, transportes, cooperativas que sejam realmente suas. Todos os trabalhadores rurais querem uma existência digna, querem saúde, instrução, condições de trabalho que possam comprar roupas, calçados, morar melhor, ver seus filhos nascerem e viverem, afinal. A classe média do Pará, médicos, professores, advogados, magistrados, dentistas, agrônomos, farmacêuticos, químicos, industriais, pequenos comerciantes, construtores, despachantes, donos de estaleiros fluviais, pequenos empreiteiros de obras, donos de moendas e de trapiches de lenha, de empresas de ônibus e oficinas, enfermeiros, funcionários públicos, comerciantes, estudantes, necessitam unir-se para debater seus difíceis problemas, péssimos negócios, os magros rendimentos e ordenados,

as dívidas para pagar, os encargos de família em face do encarecimento ilimitado da vida. A essa classe média, o Partido Comunista estende a mão e quer com ela estudar e ajudar a solução de seus problemas mais urgentes. Aos operários e trabalhadores em geral, aos transviarios, condutores e motorneiros de Belém do Pará o P.C., é o seu Partido. É também o Partido da União Nacional porque trabalha ao lado de todos os patriotas que querem resolver, pacificamente, a crise política e econômica do país. Através de eleições livres e honestas, de medidas claras e concretas como as seis medidas apontadas por Prestes, cuja discussão se inicia nos comitês democráticos que se espalham em todo o país caminhe para a organização do povo, para o parlamento, para a autonomia dos municípios, para o governo democrático e progressista que o povo reclama. A data de dezenove de agosto, meus amigos, marca assim um acontecimento histórico na vida política paraense. Os melhores filhos do operariado e do povo estão formando o Partido Comunista na inabalável determinação de lutar pela ordem e tranqüilidade interna, pela União nacional, pela organização

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pacifica do povo, pela democracia e progresso do Brasil. Os comunistas do Pará , durante a guerra da nossa Pátria, contra o fascismo, como os seus companheiros de todo o Brasil, estiveram sempre na vanguarda do esforço patriótico em favor da Força Expedicionária, em favor da União Nacional, base do fortalecimento da frente interna. Os caboclos paraenses também foram a Itália contribuir para o aniquilamento dos bandos sanguinários do fascismo. Isto quer dizer que o Pará se glorificou enviando para a frente de guerra seus queridos filhos, homens da capital, homens do interior, que em breve voltarão contando o que foi o fascismo e conscientes de que, no Brasil para evitar a sobrevivência do fasci-integralismo é necessário que o povo se organize para a construção de uma República democrática e progressista, com um grande parlamento escolhido pelo povo, onde o povo possa ditar as suas leis e impor a sua ordem por uma vida mais feliz. A história paraense está cheia de lutas do povo pela liberdade. Desde os tempos da Colônia, o caboclo paraense foi um lutador em defesa da terra, de sua independência, de

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melhores condições de vida. Os índios contra os seus escravizadores, os heróicos e caluniados cabanos contra os fidalgotes, negociantes mandões, o governo dominante de então que oprimia os nativos, em todos os movimentos populares contra as oligarquias, os mandões estaduais, contra o capital colonizador, contra o fascismo, o atraso e a miséria, o povo paraense sempre ocupou uma posição destacada. Hoje, herdando as tradições dessa historia que ainda não foi bem contada pelos nossos historiadores, história do povo do Pará, o Partido Comunista, depois desta guerra, dentro das novas condições históricas do país e do mundo, apresenta um novo tipo de luta pela qual conduz o povo, ao lado de outras forças democráticas e progressistas, para melhores dias. Por que é uma luta de novo tipo? Porque ela se trava dentro da tranqüilidade e da ordem determinada pela vitória das democracias nesta guerra, abrindo assim “uma época de desenvolvimento pacífico”. Em breve serão instalados os comitês do P.C.B. em todos os municípios. Isto significa

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um incalculável avanço no nível político e social do nosso Estado. O Partido Comunista é o esteio da ordem e da tranqüilidade, afirmou Prestes. Onde estiver um comitê, uma célula, um militante do Partido podemos ver não somente uma contribuição para a garantia de ordem e tranqüilidade como também a do esclarecimento político, da orientação paciente, constante e honesta, no sentido de serem examinados os problemas locais e conduzidos a uma solução que a todos os democratas satisfaça. A palavra de Prestes não deixa mais dúvidas. O Partido não tem compromissos com ninguém senão com o povo. Os comunistas colocam os problemas econômicos e sociais do Pará dentro da solução nacional dos problemas do país e ligados ás condições internacionais abertas pela vitória das Nações Unidas, condições de unidade, de paz, de democracia, de progresso na base da aliança cada vez mais poderosa das três Grandes Potências, a Inglaterra, os Estados Unidos e a União Soviética. Não podemos atirar a culpa total da imensa crise do nosso Estado nos governos ou administrações. Não se trata somente

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dos fracassos, erros e desmandos administrativos, mas de uma crise de sistema, cujas causas estão ligadas as causas gerais do atraso que domina o país, de que fala magistralmente Luis Carlos Prestes nos seus dois discursos de 23 de maio e de 15 de julho. Eis porque o Partido Comunista propõe a união nacional dos brasileiros para combater a crise geral e crear as bases para um governo do povo pelo povo. No Pará a união de todos os homens e mulheres sem distinção de credos e cor política é fundamental para um programa concreto e popular em defesa dos interesses da nossa terra e na estrutura da união nacional. Por isto luta o Partido Comunista e aceita a maior responsabilidade dessa luta. Dirijo-me, em particular, aos meus prezados amigos intelectuais de Belém do Pará, da velha e boa amizade provinciana, a vocês dirijo meu apelo de amigo, de companheiro, de cuja sinceridade vocês já deram provas de que não duvidam. Confiem no Partido, não vejam nele uma seita, uma organização fechada e dogmática, alheia á cultura, á literatura, ao folk-lore, ás


de prática. Por sua vez o partido lutará por melhores condições, na província, em que os intelectuais possam desenvolver amplamente a sua cultura, realizar livremente a sua obra, fazer a sua carreira, criando assim uma vida cultural no Estado, não somente na Capital como nos municípios, renovadora e creadora, liberta da rotina, das limitações e de todos os complexos comuns a um estreito e apático ambiente provinciano. O Partido, na sua organização do Pará, como em todo o Brasil, tem á sua direção homens fortalecidos na experiência e no sofrimento, como Henrique Santiago, líder operário. O povo aprendeu a confiar nesses homens, conhece a sua lealdade de há muitos anos. Entre esses dois homens, dois líderes se forjaram no então ilegal comitê do P.C. no Pará e que hoje são uma honra para o nosso Estado: João Amazonas Pedroso e Pedro Pomar, dirigentes nacionais do Partido Comunista do Brasil. Alguns amigos meus a quem dirijo essa carta conhecem Pedro Pomar e João Amazonas Pedroso e sabem o que fizeram, no Pará, pela democracia, contra o fascismo, pelo esclarecimento e organização

da classe operária, sob as mais duras circunstâncias, esclarecidos na sua luta. Em breve contarei ao povo do Pará e do Brasil a história desses admiráveis militantes. Aos meus amigos do sempre amado Pará, peço pois, que se aproximem do Partido, para melhor compreendê-lo, para chegar mesmo a amá-lo e segui-lo. Acredito que muitos de vocês poderão ingressar nas gloriosas e fraternais fileiras do Partido da classe operária, do Partido de Luiz Carlos Prestes. Será uma honra para vocês, uma vitória para o nosso Partido e uma demonstração de que nosso povo poderá ter novos orientadores honestos e firmes. Saúdo meus amigos e amigas, companheiros da vida que vivi no interior da pobre e provinciana vila intelectual de Belém, da vida de todos os dias, principalmente em 1935, 36 e 37 no subúrbio. Amigos, congratulo-me com vocês pela festa do povo, há quanto tempo sonhada e esperada, a festa da instalação do Comitê Estadual do Partido Comunista do Brasil, em Belém do Pará.

Rio, 24 de junho de 1945. Dalcídio Jurandir

Texto: Acervo Dalcidio Jurandir - Fundação Casa de Ruy Barbosa

artes. O Partido abre oportunidades a todos os escritores, poetas, intelectuais da província para saírem da solidão e do isolamento em que se encontram , do injusto anonimato e da falta de estímulo em que vivem, para dedicar o seu talento e a sua cultura a serviço de nossa terra, sem nenhuma restrição ao temperamento e a vocação de cada um. Queremos que todos os talentos e todas as inteligências tenham essa oportunidade. Queremos o aproveitamento e desenvolvimento de todas as vocações. Quantos talentos e inteligências não se perdem, ignorados e sufocados no interior? Fazer com que os jovens de vocação, seja artística, técnica ou política, apareçam, estudem e sirvam ao povo pelo seu trabalho e pela sua cultura, eis uma das tarefas do Partido Comunista. Meus amigos, escritores, professores, poetas, jornalistas, pintores, intelectuais da velha e da nova geração, ajudem e estimulem os militantes do Partido porque assim vocês estão trabalhando pelo povo, por vocês mesmos. Compreendam o sentido da legalidade do P.C.B. de sua declaração de Princípios, de seus estatutos, de sua atividaMemorial da América Latina - Oscar Niemeyer

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As Leis que os gringos querem Nos seus relatórios, Mr. Abbink afir- sangrento dos que espancam e torturam na rua da Relação. Essa código de “solima que o Brasil não tem recursos para tária” é o que foi lembrado para deter a explorar o petróleo sem a “ajuda” da campanha do petróleo, para evitar que Standard Oil. Mas existe uma objecão os trabalhadores lutem contra o imposincomoda a Mr. Abbink: as luta populares em defesa do petróleo. A Standard to sindical, para impedir “a circulação Oil, que tão piedosamente se solidariza de protestos, palavras e idéias que não serão jamais contaminada porque são com as manifestações da reação em favor do cardeal húngaro, necessita afastar nascidas do peito do povo. todo e qualquer obstáculo ao seu avanço Com essa lei, Hitler matou às nossas jazidas de petróleo. Qual a milhões de criaturas, com essa lei, melhor maneira de evitar o obstáculo? Mussolini tratou os seus presos a Uma lei. Que lei, afinal, se neste país manganelo e a tiros de fusil, com essa há milhares de leis em lei se ergueu á ditaplena e feroz execudura Japoneza, cujo “A lei é ção menos aquelas símbolo foi o bandido que foram feitas com Tojo. Com essa lei, apenas código intenção de beneficiar Trujilo instalou a sua instituído nos o povo? fazenda na América países onde Central. Com essa lei, A lei é apenas se tornou mata-se no Paraguai. código instituído nos necessário Com essa lei, Franco países onde se torfazer calar o pode fusilar comunisnou necessário fazer povo com toda tas e católicos indiscalar o povo com toda urgência e tintamente, com as urgência e brutalidade. bençãos do Vaticano. Uma lei que não tem brutalidade.” Com essa lei, Salazar idade, quase não sofre elege Carmona. Com alteração nas palavras, essa lei, institui-se a repartição dos lei troglodita, desenterrada por um Sr. fusilamentos na Grécia onde matar Lameira, infelizmente lá do meu Pará, e concertada e agravada e “constitucio- inocentes é rotina burocrática e nisto não há nada que possa ofender a dignalizada” pela farandula dos represennidade humana, segundo o silêncio tantes do latifúndio e do imperialismo do Vaticano. Com essa lei, desceu instalados na rua da Relação. Esse uma cortina de lama e de maior código pode ser chamada lei Abbink, lei Rockefeller, lei da “democracia, res- miséria na Venezuela, no Chile, no taurada”, que é bem o espelho sinistro e Peru, nas Filipinas, na Birmânia, na

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IndoChina. A mesma lei, as variantes são raras, a finalidade é igual a estabelecer a senzala onde o povo possa ser arrolhado, ainda “mais” esfomeado, no circulo de ignomínia e de violência da ditadura. Com essa lei, se fez o Estado Novo, correu sangue de trabalhadores, atrasou-se o Brasil por uns trinta anos mais, batendo o record de velocidade no seu fulminante atraso progressivo. Com essa lei quer Mr. Abbink por a mão no petróleo, Mr. Rockefeller conseguir latifúndios e negociar como um capitão-mor, com essa lei, quer a Copa e Cozinha estender o cordão em torno de suas negociatas e de sua politicagem e assim todos os que necessitam de imunidade e de silêncio para roubar e aproveitar enquato Braz é tesoureiro. Lei de Segurança do Estado... Que Estado? O do Sr. Vitorino, o da Light, de Mr. Abbink, do Sr. Acúrcio e Barreto Pinto, da Sidapar e do Calixto? Esse Estado das girafas é o que nunca interessou ao povo e a sua segurança com lei ou sem lei, não existe, como sabemos que a lei lameira vem em cima da cabeça do povo e como sabemos também, que não há o que possa esmagar essa cabeça, a obrigação de todos é lutar. Lutar contra esse código infame, lutar contra esse instrumento de tortura e de opróbrio, lutar porque na luta está a chave da vitória contra os inventores da lei, a lei que os gringos impõem. Orozco

Texto: Acervo Dalcidio Jurandir - Fundação Casa de Ruy Barbosa

Dalcídio Jurandir


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Anos Vermelhos No dia 23 de maio de 1946 uma manifestação realizada no Largo da Carioca, em comemoração à legalidade do PCB, foi duramente reprimida. Centenas de pessoas ficaram feridas e cerca de cinquenta foram presas e foram se ampliando as provocações policiais. A legalidade do PCB, porém, não duraria muito. Em abril de 1947, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cancelou seu registro argumentando que o partido era um instrumento da intervenção soviética no país. No ano seguinte, os parlamentares eleitos pela legenda do PCB perderam seus mandatos. Começava assim um novo e longo período na clandestinidade. Depois da limitada fase de legalidade, quando tiveram direito à luz do dia, os comunistas foram forçados a voltar para a vida clandestina, agravada pela repercussão da guerra fria desencadeada pelas potências ocidentais contra os países socialistas. Embora tendo de enfrentar o preconceito da sociedade e a repressão policial, emergiam das sombras para campanhas memoráveis como, por exemplo, em favor da Paz. Aliás de tanto se empenharem nessa cruzada, chegou o momento em que defender a Paz dava cadeia: era coisa de

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comunista. Em 1948, com o partido atuando na ilegalidade, encontramos artigos de Dalcídio no jornal “Folha do Povo” sobre a luta dos mineiros de Lafaiete, também no mesmo ano escrevia para a Revista Problemas, cujo primeiro aniversário marcou uma nova fase na cultura brasileira e lançou a primeira ofensiva pela elevação

do nível teórico de milhares e milhares de combatentes antiimperialistas. “O nosso atraso, a nossa ignorância, os nossos milhões de analfabetos produzidos pelo latifúndio e pelo imperialismo, esse ópio intelectual que constitui a educação ministrada pelas classes dominantes contribuem para que não tenhamos hábitos de leitura. Mal podemos distinguir ainda

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do pensamento científico o pensamento metafísico que orientou todo o nosso passado e dirige até hoje a ação das classes dominantes contra o povo. Mal sabemos raciocinar. Ainda apalpamos o terreno e milhões de brasileiros não podem seguir ainda uma filosofia e um sistema de vida que levam à verdadeira liberdade. Temos ainda de lutar contra o inimigo que tenta separar esses milhões de brasileiros da ideologia que os conduzirá para uma vida melhor. É a própria ideologia que nos fornece as armas dessa luta. Ela não é estática, não espera no fim do caminho como uma terra de promissão. Sendo dinâmica, sempre em movimento, ela vem em busca dos caminhantes e orienta-os na remoção dos obstáculos e dos imprevistos da viagem. É claro que a reação sustenta a ignorância do povo na qual se apóia para dominar e manter o nosso país no atraso secular e progressivo. A reação obriga o povo a ficar cada vez mais ignorante, e tudo faz contra os que conseguem sair do analfabetismo, negando-lhes livros, bibliotecas e honestas oportunidades. Para que cultura? perguntam os grandes proprietários de terras. Para que os camponeses nos venham tomar a terra? Para que seus filhos instruídos ocupem lugares nos parlamentos, nas prefeituras, nos ministérios, nas universidades, nos negócios públicos? Para que cultura? Resmungam os banqueiros. Para que


“Ler e pensar livremente é caminho da cadeia e da fome.”

multidões de “pés raspados”, venham acabar com as nossas negociatas e impedir que façamos o que queremos com os nossos amigos e patrões estrangeiros? Num ambiente assim não há condições para a cultura em nosso país. O nosso mercado editorial se acha numa crise gravíssima. Os livros tornaram-se cada vez mais objetos de luxo. As atividades intelectuais na ciência, na literatura, nos estudos históricos, nas pesquisas sociológicas, no campo universitário estão praticamente estagnadas. Não há estímulo para isso, não só nos Estados como no Rio. Não há oportunidades para dezenas e dezenas de escritores, cientistas, professores, estudantes, sociólogos desenvolverem livre e honestamente os seus trabalhos, seguirem a sua vocação. E a situação se agrava em face do terrorismo policial, e das aperturas econômicas em que o intelectual é quase sempre obrigado a vender-se ou sufocar-se no ganha-pão, reduzindo os seus trabalhos a mercadorias a baixo preço. Ler e pensar livremente é caminho da cadeia e da fome. Ter um livro na mão pode causar suspeita. Não é o que ameaça a chamada “lei lameira”, já apresentada no Parlamento? A “lei lameira” pretende fichar todos os que têm uma certa quantidade de livros, pretende contar o número de livros nas bibliotecas particulares,

nas raras estantes que existem em nosso país. A quantidade dos livros suspeitos aumentará à medida que a polícia for considerando o “perigo” dos volumes científicos, de sociologia, de todo o volume que falar em questão social. É claro que os livros, cujos autores possam ser considerados como russos ou tchecos, serão imediatamente lançados ao forno crematório. Esta é a lei desejada pela ditadura Dutra, a lei necessária para que o imperialismo possa mais rapidamente ocupar o nosso país, saquear as nossas riquezas e fazer do nosso povo um rebanho de escravos. (...)As velhas superestruturas do capitalismo estão ruindo. E com elas se afundam os teóricos ou “mestres” das classes dominantes como o Sr. Afonso Arinos e o Sr. Gilberto Freyre que passam a colaborar na fatura de leis especiais de repressão e a louvadinheiros de ditadores tipo Natalício Gonçalez. Resta a máquina brutal da publicidade e da violência. As idéias vivas, o pensamento vivo do homem encontram-se no outro campo. O campo em que se movimentam as grandes massas, o campo em que Marx apontou para os povos o caminho do socialismo, que continua e revoluciona a cultura para engrandecê-la. E bem sabemos que não há rádios patrulhas, não há publicidades sustentadas por milhões de dólares, não há bombas atômicas nem muros

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de fuzilamentos nem postes de forca que possam deter a marcha das idéias, a marcha do homem. Foi sempre assim a lição da história. O homem, que há milhões de anos, numa primitiva caverna, guardava o fogo para guiá-lo, cozer os alimentos, defendê-lo contra as feras, tem hoje uma tocha contra as feras de agora e o conduz para os largos caminhos. O fogo da inteligência humana não se apaga. Por isso é que “Problemas”, em nossa terra, obteve um triunfo evidente. Contra os restos da ideologia condenada que se arrasta na lama das negociatas, da chantagem guerreira, da corrupção sistemática, no bojo dos carros policiais, “Problemas” apresenta a ideologia revolucionária que guia milhões de homens e mulheres, trazendo em suas páginas o espírito daquela revolução nas idéias, de que falava Zhdánov. Em doze números de “Problemas”, confirma-se mais uma vez que o marxismo-leninismo não é um receituário, não é catecismo. Não é uma espécie de tábua sagrada com dez ou doze mandamentos. Trata-se de uma ciência cada vez mais profunda e humana no seu dinamismo e cuja profundidade é simples e clara. Nessa revista também escrevia Carlos Mariguela, Luiz Carlos Prestes, G. Gak, L. Vatolina, B. P. Pozen e muitos outros intelectuais vermelhos.

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“Frente Democrática de Libertação Nacional” Imagem Em agosto de 1950, Prestes lançou um novo manifesto, no qual propunha a formação imediata de uma “Frente Democrática de Libertação Nacional”. Para os comunistas, a grande burguesia havia se passado completamente para o lado do imperialismo e não representava mais qualquer interesse nacional. Por isso mesmo, não poderia haver conciliação com ela. A visão justa sobre o papel dessa camada da burguesia no processo revolucionário foi acompanhada pelo agravamento do sectarismo político em relação às demais organizações do campo democrático e popular, que foram colocadas indistintamente no campo do imperialismo e da reação.

PARA A VITÓRIA, PARTIDO! Dalcídio Jurandir (Rio, 10-3-1951 VOZ OPERÁRIA) A 23 de março, comemora mais um aniversário de luta o nosso Partido. Os que se encontram presos erguerão os pulsos como num comício e conversarão depois longamente sobre o aniversário. E adormecerão mais

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convictos desta verdade: Não há homens mais livres que os comunistas. Que imensa liberdade, indomável e criadora é o Partido! Perseguidos, ausentes, separados, todos os militantes sentirse-ão reunidos. Não há família mais unida do que esta família, que é o Partido. Na solidão ou no meio dos trabalhadores, atuando sempre, todos saberão saudar, com seu melhor trabalho, o seu melhor exemplo, a mais maravilhosa razão de viver que é este Partido, este nosso Partido. Por toda a parte, um traço no muro, na parede, na árvore ou na montanha, aponta o Partido. Num encontro, numa conversa, mesmo atacado e caluniado, está o Partido. A mão de alguém, ardente e firme, fez algo que anuncia a luta, diz a palavra de ordem, mobiliza consciências e dá o rebate pela revolução. Nos postes, nos mastros, nos fios, na esquina, na fábrica, uma bandeira, uma faixa, uma fita, um gesto, um olhar, são relâmpagos que se converterão em incêndios de luta. Assim nasce o Partido, cresce o Partido. As casas se abrem para ele, como os corações. Em plena escuridão da rua ou do túnel, ali numa praça sitiado, adiante num prédio cercado, o Partido rompe o sitio, destrói o cerco, rasga a escuridão. Quando o acreditam destruído,

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levanta-se mais poderoso. Quando o pensam derrotado, assombramse ao vê-lo obtendo, com rapidez, novos triunfos. Quando o supõe isolado, surpreendem-se com desespero que, à frente do povo, em plena ação, está o Partido. O Partido não é apenas um nome no bolso, um retrato na parede, é o retrato do que há de mais puro e indestrutível em nossa consciência e é a consciência do mundo. Sem esse partido, que seria de nós, sem a sua estrela, sem a certeza que espalha em nossa vida, as idéias que nos dá, os sentimentos que nos oferece, a firmeza que nos ensina, o futuro que nos faz ver? Faz anos o nosso Partido. A ti, camarada Prestes, o nosso brinde. Como soubeste encarnar o Partido, com a tua coragem, a tua inteligência, o teu caráter, a tua convicção! Se recordamos o teu rosto banhado de sangue no infame tribunal, vemos nele o Partido. Nos anos de cárcere, como uma chama inapagável, eras o Partido atuando e velando. Eras a sentinela mais avançada. Eras o Capitão da Coluna e do Partido. E agora, em pleno combate, comandas o Partido, capitão da esperança. Hoje, neste aniversário, repetirás, com a mesma alegria, as mesmas palavras de confiança, a tua invencível confiança na vitória.


e estradas de ferro, construindo a pátria em que não houver mais explorados nem exploradores. O Partido quer sempre a sua melhor ajuda, mães e esposas, noivas e jovens combatentes. Faz anos o nosso Partido. Pensemos agora nos combatentes mortos. Curvemo-nos sobre a sepultura de nossos irmãos tombados na luta. Que o nosso ódio aumente contra os assassinos. Que a nossa vontade de luta faça tudo para derrubar a infâmia sangrenta que é este regime feudal-burguês. Os companheiros tombaram confiando em nós. Suas bandeiras estão em nossas mãos. Em seu lugar ergueram-se outros novos militantes. Não há lugar vazio nas fileiras do Partido. Diante dos nossos irmãos mortos, juremos combater mais, desempenhar com mais responsabilidade as nossas tarefas, estudar a grande teoria do proletariado, com a certeza de que não recuare-

mos mais nem nunca mais seremos batidos. Com a certeza de que este Partido é uma torrente que vai derrubar e varrer coisa tão monstruosa e caduca, coisa tão infame que é esse governo de grandes fazendeiros e capitalistas, governo de guerra, de assassinos e exploradores. Adiante, Partido! Eis a nossa força e a nossa glória, a nossa honra, a nossa juventude. Para as lutas pela paz e pela vida, pelo pão, pela terra, pela liberdade. Para as lutas pela conquista de nossa legalidade! Para a vitória, Partido!

Texto: Acervo Dalcidio Jurandir - Fundação Casa de Ruy Barbosa

A ti camarada desconhecido, camarada de Partido, modesto e constante, que atuas em plena ilegalidade, o nosso brinde. Quantos riscos atravessas, quanta perseguição e quanta calúnia! Mas o Partido te mostrou que o caminho não é mais longo e que há mais perigos, muito mais perigos mortais para ti perseguido do que para nós. Diante de nós, os caminhos se abrem, o mundo se amplia, o século “o século do comunismo”, entrega-se à ação e ao triunfo inevitável do Partido. A ti camarada desconhecido da classe operária, militante camponês herói brasileiro, a ti, que estás construindo um Partido, seguindo Prestes, ligando os fios do Partido às grandes massas exploradas e oprimidas, a ti camarada anônimo, o nosso abraço. Que seria o Partido se não tivesse em sua família, a mãe, a jovem operária, a companheira, as admiráveis meninas que, em todo o país, andam lutando? Ó queridas mães cuidai sempre do vosso Partido, abri as vossas casas para o Partido. Ele é a educação, a segurança, é a vida de vossos filhos. Por vossos filhos, é que o Partido combate. Combate pela revolução para a paz. Combate para vê-los construindo em nosso país fábricas, fazendas, escolas, centrais elétricas, navios


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Demagogia e Estupidez Dalcídio Jurandir | 13.6.1950 Os homens de governo nos Estados Unidos falam todo dia, a todos os instantes e sob qualquer pretexto. E isto, naturalmente,faz lembrar o que ocorria na Alemanha na época de Hitler e de Mussolini. Os chefes nazistas não podiam estar calados na histórica propaganda da guerra e no delírio da febre de querer dominar o mundo. Hoje, podemos comparar os inúmeros discursos proferidos em Berlim e Nurenburg, nas sacadas do Palácio Veneza pelos criminosos de guerra daquele tempo com os discursos de Truman e Acheson e outros responsáveis pelo governo norte-americano. A linguagem, o cinismo, o desespero, a arrogância, a provocação, a mentira, a demagogia, a estupidez fazem parte do mesmo arsenal onde Hitler se abasteceu para cometer os seus crimes e agora Truman se abastece para lançar uma nova guerra contra os povos. Na U.R.S.S. os chefes soviéticos, tendo Stalin á frente, mantêm com dignidade sua conduta politica, com equilíbrio e retidão nas palavras e nos atos. São claros e serenou nas suas declarações de paz e a favor de uma cooperação entre as grandes potências para evitar uma nova hecatombe. Nos Estados Unidos se multi-

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plicam as mais sórdidas provocações guerrreiras, sucedem-se discursos ocos e estúpidos, cujo sentido é o de tentar convencer o povo norte americano a aceitar a guerra que lhe querem impor os banqueiros e industriais de armamentos. Truman é o portavoz desses banqueiros e industriais, fala pelos canhões e bombas atômicas que eles fabricam e querem vender para aumentar os bilhões de dólares amontoados nos seus cofres. E isso a proporção que a crise norte americana se declara e, com ela, aumenta o desemprego, se eleva o custo de vida, diminuem as economias do povo, baixam os salários, multiplicam-se as greves, os estoques da produção crescem sem vender porque a capacidade aquisitiva das massas desce progressivamente. Enfim, uma situação que faz desesperar os magnatas e governantes norte americanos. Qual a saída para esse diminuto número de homens de negócios que exploram e oprimem cento e cinquenta milhões de americanos e querem sustentar um sistema de exploração colonial e de expansão imperialista no mundo? A única saída é a guerra, dizem eles. Trumam tenta esconder os seus objetivos com um dilúvio

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de discursos nos quais, como Hitler, se resume a lançar as mesmas calúnias contra o União Soviética, a repetir as mesmas infâmias, contra o comunismo e o falar em democracia e paz, tal qual como os chefes fascistas falavam. A paz para Truman significa destruir o socialismo, as democracias populares, entregar a China novamente a Chiang Kai Shek, manter as ditaduras na América Latina, fortalecer Franco e Salazar, aumentar o regime de terrror na Grécia e na Turquia, ocupar os mercados mundiais nas colônias e semi-colonias para a mais larga e feroz exploração por parte dos usurários e negociantes do imperialismo. A democracia é aquela quê ele impôs ao Chile com o traidor Videla, a que fez na Venezuela, a que sustenta aqui com Dutra onde se matam operários e se perseguem líderes populares, se perpetram monstruosos processos contra o maior líder do continente que é Luiz Carlos Prestes. É a democracia ao dolo que protege criminosos de guerra como Hirohito, que ameaça lançar bombas atômicas sobre populações civis, que lincha negros e mantém na miséria milhões de homens de cor, no sul do país, que encarcera escritores e conduz a juventude norte-ame-


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ricana paro a corrupção sistemática, para o culto ao policialismo para a morte, se a hecatombe que provocam, com tanto cinismo, for desencadeada. Compreende-se o furor e o exaspero desses discursos ante o crescimento das forças democráticas e progresssistas no mundo, o desenvolvimento prodigioso da produção socialista que espalha bem estar e progresso entre os povos soviéticos e o fortalecimento das democracias populares, libertas do imperialismo, dando um vigoroso exemplo a todos os povos na luta pela libertação social e por sua independência. Isso causa pavor aos imperialistas que pretendem destruir essa realidade nova no mundo. Mas essa realidade é que os destrói e fará eliminar para sempre as causas da guerra, eliminando o imperialismo. As forças da paz aumentam, sem cessar. A luta contra a guerra está conquistando novas posições. E se aquelas forças souberem lutar com maior unidade e firmeza, respondendo aos discursos de Truman com atos concretos de grandes massas contra a guerra e pela interdição da bomba atômica, os imperialistas não terão outra saída senão a derrota e a vitória da paz.


DalcĂ­dio Jurandir na U.R.S.S.

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Aeroporto de Moscou - 27 de abril de 1952


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alcídio continua sua atividade como jornalista e, em 1950,

enquanto repórter da Imprensa Popular, viaja para o Rio Grande do Sul e lá faz pesquisas sobre o movimento operário do porto do Rio Grande, que servirão como fonte de pesquisa para seu futuro livro “Linha do Parque”, escrito entre 1951 e 1955 e traduzido para o Russo em 1962 a pedido do Partido Comunista. Em 1952, viaja à União das Repúblicas Socialistas Soviética - URSS, junto a uma delegação brasileira com escritores e partidários do comunismo, entre eles Graciliano Ramos, para conhecer de perto a realidade do mundo socialista. Lá Foto: www.dalcidiojurandir.com.br

escreve um diário da viagem, registrando suas impressões sobre Amsterdam, Praga, Varsóvia, Minsk e Moscou.

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O Diário de Moscou

1952 Moscou Cheguei hoje, vinte e sete, às cinco e meia da tarde. Viagem de Praga. Minsk. Antes Varsóvia. Em Praga, entre os pioneiros e soldados do Exército tcheco. Um programa de cantos e recitativos, números humorísticos e a presença de meninas búlgaras que cantavam. Um par delas cantava muito bem. Praga é uma cidade sábia e antiga. Vimos de relance

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agora que vamos para Moscou. Era um sábado. Estávamos cansados de dois dias de avião. Tínhamos passado por Londres, atravessado as perguntas britânicas, a polidez hostil dos opressores do Egito e da Malásia. Vimos em Londres o velho regime cheio de túmulos e deputados saindo com suas maletas e debaixo de vaias surdas da fila a que engrossava sob as arcadas do parlamento. Depois, fiamos para ouvir o Big Ben que ainda [marcava] as

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últimas horas do velho sistema capitalista e descemos para o metrô. Não vimos os trabalhadores ingleses. De Amsterdam para Praga, e nesta estávamos no mundo novo. Hotel: seu caráter. As pessoas. E o vôo para Moscou. Atravessar a Polônia e descer em Varsóvia e logo subir para descer em Minsk. Já sobre a vasta área sobrevoada, sentimos algo de semelhante às minhas terras marajoaras, embora sem o verde


intenso da Amazônia e a cultura soviética. Descemos e depois dos vistos entramos no restaurante do aeroporto. Antes vimos nas vizinhanças algo tão familiar para todos naquele primeiro domingo soviético. Jovens jogavam futebol; apenas um tinha calção. Vestiam roupas de várias cores e falavam nos vários lances. Como no Brasil. Os jovens eram rápidos e jogavam com agilidade e sem violência. Um guarda do aeroporto assistia placidamente.

Noutro lado da cerca, duas pessoas acompanhavam o jogo. Sob um pequeno pavilhão, dois guardas conversam sossegadamente. Havia em tudo um ar de família, de paz, de sabor dominical. No restaurante, comemos caviar e cognac. A moça que nos servia era gorducha e loira, muito clara. Os guardas da Alfândega tinham um aprumo e uma correção cordiais. Chegavam alguns aviôes civis. Lembro-me de um casal, que iam e vinham, não sei se à es-

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pera do embarcar ou se gostavam de caminhar ali como qualquer casal do mundo naturalmente falando de seus interesses que, creio eu, eram coisas do coração. Era um domingo claro e tépido. E a primavera estava chegando. Não sei porque naquele aeroporto de uma cidade na fronteira da U.R.S.S, eu me senti em família, em meio verdadeiramente do povo. Minsk foi uma cidade terrivelmente mutilada pelos alemães. Sofre até hoje as conseqüências

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da infame invasão. Mas havia em tudo, naquele domingo, uma sensação de paz e um desejo de paz. Naquele sorriso da moça que me deu caviar e cognac, no aperto de mão do homem do restaurante, naquele olhar límpido do soldado soviético que conversava tranqüilamente com a sua amada senti que me falavam de paz e de que esperavam do velho mundo capitalista juízo e amizade porque neste mundo os povos também querem e a União Soviética é um chão de trigo e centeio, agora chão de primavera de onde o povo pode lançar flores sobre a terra inteira e não como as feras que pretendem lançar bombas atômicas e agora lançam bombas bacteriológicas sobre a Coréia. Dia 27 de abril

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Visita à galeria. As delegações camponesas. As aulas. As meninas. Preparativos na rua para as festas de Primeiro de Maio: Pintando o globo luminoso do Hotel Davoie, um velho pintor falava sem cessar. Vimos o filme Mussorgksi. Na sala de projeções da Vox. Dançam em torno de um chafariz do velho Hotel Davole, ao gosto europeu. A orquestra toca tango, fox, valsa, naturalmente e dançam. Um e outro operário que ali aparece dança e quando fica um pouco alto fala em paz e quer a amizade com todos os povos. A cidade possui uma humanidade fácil e acolhedora. As pessoas falam com as outras com naturalidade na rua, sem afetação ou fria cerimônia. Parecem uma grande família que se espalha e

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circula pelas ruas. A mistura do velho e novo na fisionomia de Moscou mostra que o governo não se preocupou em fazer uma vitrina desta cidade nem enchê-la de alçapões e gás neon e vitrines de luxo. Suas lojas, suas livrarias, seus cinemas não têm luxo, pertencem ao povo e este trabalha primeiro para que as bases do edifício soviético fiquem sólidas definitivamente sem fazer de sua Moscou uma cidade artificial, dominada pelo delírio do decorativo em que nas grandes cidades se opera o trágico contraste entre o faustoso e o miserável, entre os bairros chiques e os bairros da maioria da população, enormes de sofrimento e miséria. Aqui se sente perfeitamente o desaparecimento desses contrastes, aqui circula povo. As roupas são


variadas, as profissões também, as moças na maioria sem pintura andam sadias e fortes. Eu me lembro de Marajó, de Gurupá, de pessoas do Brasil como Rio Grande. A simplicidade, a naturalidade, a doçura, o amor ao trabalho que encontro no nosso povo predominam na cidade de Moscou porque o povo russo está no poder, de verdade. Aqui as mães e seus filhos tomam conta da cidade. Em meio do velho casario feudal e de antes da guerra, irrompe uma humanidade nova que coloca o trabalho em primeiro lugar. Não necessitam de artifícios para Moscou, eles apresentam a sua cidade dizendo “aqui se trabalha, se tem confiança na vida, aqui, como agora a primavera, floresce a felicidade.” Para quem deseja o socialismo, para quem compreende o destino do proletariado, para quem compreende o povo, para quem procura olhar nas faces, nos olhares, na alegria desse povo se sente à vontade em Moscou, compreende que esta cidade é realmente a nova luz do mundo, o coração dos grandes sonhos e das grandes realidades novas do homem. Fomos ao circo. Cheio. Lotado. Não é instalado como nos circos comuns. Tem o seu palácio, a sua casa. A pista. Os números. Descrever a cena da paz. A ucraniana. O cômico.

Esse admirável cômico exprime muito do humor moscovita, o sadio espírito, a consciência política. Sobre o palco uma legenda russa: “A paz para o mundo.” Aparece um boneco Truman e a lição de quem quer invadir Moscou. O cômico [se] faz de Hitler e entra num tanque e grita ‘Moscou”. O Livro Linha do Parque de Dalcídio Jurandir No meio do caé traduzido para o Russo em 1962. minho o tanque explode e desfaztra os burocratas, os diretores de se em pedaços. produção, os charlatães, contra Desaparece Truman diante da lição. A bailarina ucraniana, a dan- a moda ridícula, as cenas típicas ça do saber, os animais ensinados, sucedem-se. O cômico domina nessas cenas, intérprete da sátira tudo isso não me fez esquecer o e da crítica. Antes o porta-voz (?) circo soviético. Recordei Margafalou sobre Primeiro de Maio, a rida e José, esses, meninos, mas paz, a amizade entre os povos. Os eu, menino, vi o circo, a minha infância foi largamente presente- espectadores eram numerosos e ada pela alegria e a graça do circo lotavam. Que variedade de rostos soviético e tudo que deixei de ver e de trajes. Vi chineses, mongóis, vi tártaros. As mulheres, desde na minha infância contemplativa as velhas gordas com seus panos e cheia de sonho em Cachoeira nos rostos, singelas e familiares ficou maravilhada com a pancomo se vissem o circo em sua tomima, a dança acrobática, a própria casa. Vi soldados e oficiais marcha do cavalo. do Exército e da Marinha, louHá no circo uma crítica conras e morenas com seus vestidos

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primavera.

contrário. E o que se acentua mais é a sua profunda humanidade. Dia 29 de abril Não como costumávamos ver nos Exposição de máquinas Manhã romances russos, mas uma humaAs máquinas e as plaquetes do nidade contente, clara, com uma comunismo energia esplêndida. O teatro onde se represenA Universidade e as plantações tava uma peça para meninos e que farão desaparecer a estepe, as meninas. Tinham doze a quinze secas, o mau clima, os restos da velha Rússia que lembrava tristeza anos. Na maioria meninas. A e dificuldades. A máquina de aber- peça tinha por tema o konsomol tura de canais e rios. Substitui trin- composto de alunos da escola ta e cinco mil homens. A invenção secundária. O espetáculo era magnífico. A de uma máquina para extração intérprete nos dava a noção geral de carvão que substitui o velho e dos lances e dos diálogos. O espeáspero trabalho dos mineiros. táculo maior para nós era a mulTráfego. Com o metrô fitidão de jovens. Era a beleza e a cou descongestionado. Mas há pureza daquela juventude que ali sempre transeuntes distraídos estava. Os meninos quase todos e os carros buzinam. As ruas de cabeça pelada e as meninas de no centro mais movimentadas consentem que os transeuntes, os tranças. Estavam ali sem formalidade, nem rigores de colégio ou pedestres passem uns correndo de quartel. Tinham a naturalidade pelos outros apressados, cortane a graça de meninas criadas com do a passagem dos carros. Ruas muito carinho, espontâneas, atencentrais com muita gente. tas. Quando uma delas, morena, Vi duas engraxates, sentindoperguntou como era o teatro no se que esse gênero de trabalho Brasil e dissemos que não havia desaparece. Assim como as garis teatro desse tipo para os meninos são mulheres que varrem as ruas brasileiros, logo se sentiu chocada como as frentes de sua casa com e tomada de uma triste surpresa. tranqüilidade e rotina. Estes vestígios de Moscou desaparecem. O Durante as cenas mais dramáticas, algumas meninas se emociovelho vai aos poucos dando lugar navam e choravam. Trata-se de ao novo. As construções novas um jovem que não se portando surgem com os novos hábitos e métodos de trabalho. As velhas são bem no konsomol foi expulso e o substituídas sem que a fisionomia conflito se deu porque foi conside Moscou perca o seu caráter, ao derada demasiada severa a expul-

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simples, suas capas, com essa admirável simplicidade de traje e maneiras, atentos e calorosos ao espetáculo. A entrada no circo, apesar do acúmulo de gente, fazse sem atropelo, sem tumulto. Não há nada de desordem nem tampouco de uma multidão militar, anda, entra e sai naturalmente, sem formalidade e rigor de ordem. Das velhas ruas de velhos prédios surgem moças, homens e velhas, esta traz um balde, aquela uma bolsa, este com uma mochila às costas, tudo numa combinação variada e colorida de vida humana, enquanto na praça defronte jovens se preparam para Primeiro de Maio e divertemse sem precauções. No bulevar, saber o nome, as famílias levam as crianças. E me recordo do que repetem cuspindo sobre a boa fé dos que ainda acreditam: “o comunismo dissolve a família, a pátria, a natureza humana”. Pobre gente. Nunca maior senso de família, maior consciência de pátria, maior poder de natureza humana do que agora nesta humanidade tranqüila e poderosa de Moscou. Aqui embaixo da janela do hotel há um pátio qualquer onde trabalhadores aparecem e moças também. Pela manhã conversam alegremente e não posso esquecer o riso claro das moças. Entra pela janela como um riso próprio da


são se bem que o jovem houvesse merecido a desaprovação de sua conduta de auto-suficiente e alheio aos deveres da vida social do konsomol. Por fim, a situação se ajusta e a meninada aplaude. Não havia ali a brutalização dos sentimentos infanto-juvenis, não havia ali socos, revólver, sadismo dos filmes e dos quadrinhos americanos. Depois do espetáculo, as meninas avançaram para junto do palco e aplaudiram longamente os atores, com uma vibração inesquecível. Durante os intervalos, as crianças ficavam nas salas de espera, fazendo filas para os sorvetes, doces e pães. Estes eram excelentes. Ali estava uma juventude liberta das atribulações do

perdidos. De 45 o trabalho maior foi o da restauração das áreas destruídas, o reajustamento das populações desabrigadas, torturadas, dos órfãos, mutilados, escravas do nazismo, etc. Reconstruir milhões de habitações, escolas, fábricas, fazendas, carros, locomotivas, etc foi um trabalho gigantesco em tão poucos anos e um novo plano qüinqüenal aparece e executa-se. Citar o que disse Stálin no seu discurso aos eleitores. Na exposição de máquinas, o que vimos foi o sentimento de paz presidindo a tudo. O que pode ferir a observação do viajante desavisado é ainda alvelho mundo, caminhando para o guns aspectos ainda sobrevivencomunismo. tes de Moscou. Mas esquece o O cerco capitalista de mais de conteúdo novo que se avoluma e trinta anos. A guerra civil e a indetermina a forma de uma cidade vasão fascista que durante quatro nova. Se ainda pode se observar anos destruiu dezessete milhões as duas engraxates, as garis, não de vidas e dois a três milhões de esquecer que os elementos clásjovens e de militantes do Partido. sicos da velha cidade capitalista, Foram destruídos na de Stalingra- os elementos representativos de do e Leningrado quatro anos de uma sociedade baseada na exploplano qüinqüenal sendo em priração do homem pelo homem, meiro lugar os milhões de vidas. desapareceram: o meretrício, as Mil e quinhentas aldeias, quinze boites da elite, os grupos explomil aldeias, etc. Durante a guerra, radores e esbanjadores de luxo, a o país produziu para a resistência requintada camada do desperdíem sua maior parte paralisando cio e do parasitismo, a imprensa a maioria de seus trabalhos e não sensacionalista e corrompida, os podendo executar um novo plano bancos e os escritórios da especuqüinqüenal. Foram um total lação, a loteria, os sem-trabalho, de dez anos de trabalho criador os analfabetos, a ausência de

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escolas, hospitais, os bairros da miséria e da fome, o contraste vergonhoso entre a riqueza e a miséria, o artifício das vitrinas capitalistas sobre as chagas da necessidade e da luta pela vida de milhões, os anúncios da Standard e da General Eletric que não só anunciam os seus produtos mas o domínio dos trustes e dos monopólios, a criminalidade, a corrupção, o vício, a propaganda de guerra, enfim todo o tumulto e a imundície da vida de selva que é uma cidade capitalista ou uma capital de um país semicolonial e semifeudal, oprimido e atrasado. Estas coisas perderam toda razão de ser em Moscou, não existem, ninguém vê. Visitamos um hospital em Moscou. Não vou lhes falar como médico que não sou. Falolhes como um cidadão que tem visto hospitais brasileiros e sabe como uma pessoa humilde, um operário, um camponês, é tratado quando enfermo em meu país. Ao visitar esse hospital, tivemos um ligeiro conhecimento do que é a luta pela saúde pública na União Soviética. Todo cidadão soviético recebe assistência médica inteiramente gratuita. Se está doente, vai para o hospital onde encontra cama confortável, médico, remédio, exames, sejam os mais difíceis. E, de graça em seus quartos há

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um rádio, muito espaço, tapetes, luz, e o carinho das enfermeiras. Nas salas de estar, para os convalescentes, revistas e livros. Há uma biblioteca para os enfermos que recebem instruções sobre a sua doença, ouvem conferências, lêem folhetos de educação sanitária, fazem um verdadeiro curso de como evitar novas enfermidades. Ao mesmo tempo que aprendem, saem do hospital como verdadeiros propagandistas de educação sanitária, contribuindo assim para elevar o nível de consciência do povo no que se refere à saúde pública. A direção principal da medicina soviética é dada ao trabalho profilático. Prevenir o homem contra as doenças é o fundamental. Para isso, o governo soviético organiza um crescente trabalho prático e teórico. Não basta curar o doente, prevenilo, é preciso criar todas as condições sociais para que se possa lutar, com êxito, contra as enfermidades. Ora, na União Soviética, o trabalho e o bem-estar do povo encontram oportunidades sem limites. De ano a ano, cresce a quantidade e a qualidade da alimentação, diminui o esforço físico nas tarefas pesadas, aumenta segurança e a alegria da vida; os problemas do cidadão, tão complicados e insolúveis, no mundo capitalista, desaparecem num regime onde o espírito do lucro deixa de existir e a luta pela vida

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perdeu a sua fisionomia monstruosa que se verifica em nossos países. Com tais condições, o homem soviético fica menos predisposto às enfermidades. A medicina, pelo seu trabalho preventivo, ajuda-o constantemente. Os médicos, que não trabalham mais por espírito do lucro, tudo fazem para que haja menos enfermos, o que não acontece nos países capitalistas onde o médico precisa ter mais doentes para ganhar mais. Aqui, na União Soviética, não existe a exploração comercial dos médicos, dos remédios, dos instrumentos hospitalares. A farmácia deixou de [ser] meio de negócio, de enriquecimento e de especulação. Os laboratórios servem unicamente ao interesse do povo. Se a pessoa adoece em sua casa, tem direito de chamar imediatamente o médico, que lhe presta assistência gratuita. Se for necessário o hospital, vai para o hospital. O Estado gasta quarenta e dois rublos por cada hospitalizado. Não mais essa história de pensionistas e indigentes. De acordo com as palavras de Stalin, a preocupação principal é servir ao homem, o “capital mais precioso”, Por isso, esteja onde estiver um doente, lá pelos confins da União Soviética, parte um avião para buscá-lo. E quando se trata de crianças, nem se fala, A mortalidade infantil é duas vezes menor que em 1940. A morte de uma criança provoca inquérito, tão extraordi-


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nário é o caso da morte de uma criança na U.R.S.S. As mães recebem prêmios por terem mais filhos. Mãe de dez filhos em diante é considerada Mãe heróica da União Soviética. As mães que baixam hospital e têm filhos de peito, podem deixar as crianças em uma seção do hospital onde recebem todos os cuidados inclusive aleitamento. O hospital que visitamos em Moscou foi bombardeado pelos nazistas. Agora está cuidando de aumentar suas instalações. Possui quatrocentos médicos e seu pessoal auxiliar atinge a três mil, Tem duas mil e trezentas camas, quarenta e nove diferentes departamentos, sua escola de enfermagem e de auxiliares de laboratório. O orçamento do hospital é de cinqüenta milhões de rublos. O enfermo recebe roupa, quatro refeições por dia, dispõe de correio e telégrafo, tudo gratuitamente. Não é considerado como uma pessoa isolada da sociedade. Não é suficiente o cuidado médico, mas também o cuidado moral. Sente-se como em sua casa, integrado no meio social, tendo possibilidades de aproveitar durante a sua doença todas as vantagens que o serviço cultural do hospital lhe apresenta. Quando sai do hospital, o cidadão necessita voltar por algum tempo, para dizer se está realmente curado, se reagiu bem no trabalho, o que ocorreu, enfim, com o reinício de sua atividade normal. Para descrever o que vimos neste hospital, seriam necessárias três crônicas. E aqui termino dando uma pálida idéia do que é um hospital soviético.

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Totem, o meu gato burguês Dalcídio Jurandir

Totem, o meu gato burguês Inimigo de CarI Marx Mas, à noite, cheio de arcaicas aspirações à lord Byron Muito vadio, serenatista e que sabia de cor todas as modinhas tristes do Brasil Totem, quando me mudei de casa Ficou alarmado com a mudança Vendo a velha casa vazia, enorme Enchendo o seu espanto Veio dentro de um saco para a casa nova. Soltaram-no [no] quarto Mas, aflito e selvagem, Olhou desvairado a casa nova Sem aquela feição familiar an an seus hábitos burgueses de dia e românticos, à noite. Miou, miou, pulou. Saltou pela janela E fugiu, aos miados, Como um filho de onça Agora deves ser um pobre gato proletário Velho e faminto, sem teto, sem o afago de ninguém Leitor de Lênin e Máximo Gorki à luz dos lampiões Por que não fazes agora, com a tua fome Com a tua miséria proletária Uma revolução socialista no teu mundo? Vamos! Reúne os teus irmãos de rua e de sarjeta Fala a esse povo vagabundo e sarnento que mia lugubremente de fome pelos telhados Pelas latas de lixo, no fundo dos quintais Roubando e Corrido a pedradas e a chicote das cozinhas alheias Não quiseste, estranhaste, meu velho A vida continua, aí mal dividida, meu amigo Há uma classe de gatos parasitas e malandros Que ressonam burguesamente nos divãs e nos tapetes E olham pra vocês como a uma canalha infecta e perigosa

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Vivem como rajás Aparentam gostar dos livros Não sabem o que é fome, meu amigo Não sabem que é não ter um pano sujo para deitar no tempo do inverno Quando todos enxotam o vagabundo dos batentes, das calçadas e dos telhados. Reúne a multidão faminta e trôpega E mostra aos homens O exemplo da tua humanidade E a lição de tua vergonha e da tua coragem. Totem, meu velho Deves estar com fome, frio e saudade Do teu cantinho em minha casa Mas o meu pão não acabará a tua fome, a fome coletiva que há nas ruas Mas o teu teto não agasalhará os teus irmãos que roubam, esfaimados / e sarnentos, as cozinhas burguesas e pobres E é por isto que o meu remédio não curará a tua chaga sempre aberta / que sangra pela boca de todas as misérias do mundo!

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Crítica Literária

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Linha do Parque, de Dalcídio Jurandir: Romance Histórico, Social e Proletário Por Carlos Roberto Perez NAQUELES anos, na cidade, do porto e da via férrea, das duas fábricas de tecidos e do frigorífico novo, da fábrica de conservas, pequenas oficinas metalúrgias, padarias, carreteiros, construção civil, entre pequenas greves, escaramuças e fundação de associações e sindicatos, nascia o primeiro, espontâneo, ainda frágil impulso revolucionário. E a confusão das idéias e algumas vezes a direção das lutas continuavam a agitar a União e a velha sala de jantar de dona Eulália. Também uma casa de porta e janela, com bordados na vidraça, dentro de um pequeno jardim, cheio de violetas e rosas, era, como dizia o Saldanha, um doce ninho da guerra social. Marcela, com o filho nos braços, sabia acolher tanto os amigos quanto as idéias e o gosto pelas violetas de seu marido. Entretanto, falava Iglezias, «lá em cima», pela Intendência, Fórum, cafés, redação dos jornais, no Politeama, no Grande Hotel, ex-Manuel Português, nas escolas, brigas eleitorais e solenidades cívicas, missas, banquetes e bailes da sociedade, no círculo, enfim, dos senhores da indústria, do comércio e do poder, tudo aquilo parecia quase invisível, ou quase irrisório, contanto, que «a canalha», antes de tudo, continuasse a trabalhar. E «aqui em baixo», a vida aumentava, áspera, sem brilho mas incessante. Vindos da campanha, principalmente de Bagé, atrás de trabalho, camponeses fundavam novos portões. A companhia francesa concluía o cais. Os navios, no porto, se multiplicavam. Depois de longos debates na assembleia da Beneficiente dos Ferroviários e na

União, a adesão à greve, que principiaria na manhã seguinte, em alguns ramais da Viação Férrea foi, afinal, decidida. Pela madrugada, os pi queteiros, já combinados com os vigias e um chefe de trem, ocuparam silenciosamente a estação. Entre os vigias destacou-se José Inácio, recém-entrado na Viação Férrea, já passante dos trinta anos, viajado, que comba-tera em Canudos. Foi ele que acompanhou Iglezias à oficina e juntos voltaram para conversar com os piqueteiros na plataforma de um vagão. Os piqueteiros, reunindo-se aos que estavam espalhados ao redor, seguiram para o depósito e o pátio de manobras. Iglezias e José Inácio caminharam para a frente da estação, circulando O olhar pela praça fronteira. Havia uma cerração pela cidade. Ouvia-se para as bandas da linha do Parque um som de concertina, violão e cavaquinho. Era um aniversário, informou o vigia. Iglezias fechou as abas do capote preto. José Inácio, num velho casaco de couro, não parava de conversar. Aproximou-se um rodar lento de carroça. Era o Luís Pinheiro que logo se queixou da falta que fazia a falecida «Estrela». — E o filho da finada Maria Emília, melhorou? Luís acenou com a mão, como a dizer: assim-assim e sem esperança. Ferroviários e operários da oficina ficavam vigiando a praça. O mestre e o vigia escutavam os piqueteiros que haviam recolhido as máquinas ao depósito e ao pátio de manobras e começavam a retirar os cabos das mangueiras, contrapinos, válvulas de esgotamento, apertando os

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colares dos excêntricos, etc. Colocavam também nas mangueiras de alimentação, sabão e óleo. Evitavam assim que fura-greves pudessem movimentar os trens. Nas últimas brazas de uma última caldeira fumegante, piqueteiros aqueciam as mãos. Um velho maquinista advertia: — Que não me percam um parafuso. No pátio, José Inácio, a mão na alavanca e no regulador da máquina fria, falava calorosamente de Canudos. Riu curto, olhando para um piqueteiro que empunhava uma chave de fenda. — Fui no 12º Batalhão de Infantaria. De volta saltei na ponta de Calabouço. Queria, Iglezias, Luís, vocês que me escutam, que nos vissem como chegamos, com que glória nós chegamos de Canudos. Todos maltrapilhos, outros de cabeça amarrada, aqueles de braços na tipóia. Quem tinha cinturão não possuía cartucheira. Os que levavam carabina traziam sabre sem bainha e nem sombra de mochila. Sujos, lambudos, cabeludos. Alguém interrompeu a conversa para interpelar um piqueteiro que chegava: — E o injetor? Tiraste os contrapinos e as válvulas? De repente uns tiros de revólver, lá fora, para as bandas da linha do Parque. Correram Iglezias, Luís, o vigia e uns muitos para o meia da praça. Era no baile, informava alguém que vinha cançado ainda da carreira. Estavam na quadrilha, um sujeito atirou na dama, errou, atirou de novo, desta vez em cima da orquestra. Minutos depois, passavam os músicos, falando. O de concertina, de vez em quando, dava uns acordes e o de violão repetia, com voz alterada: — Urubú não mata cavalo gordo.

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Crítica Literária

O Crime em Rio Grande Dalcídio Jurandir

Foto do enterro dos operários que morreram no “conflito da Linha do Parque”. O Rio Grande, cidade de algumas fábricas, centenas de trabalhadores festejavam o 1º de Maio. Houve um churrasco. Depois sairam em passeata em, direção de uma sede proletária. Não levavam armas. Falavam em paz. As mulheres recordavam o que havia Acontecido em Nagasaki e Hiroshima. As bandeiras e os cartazes, as faixas e os corações clamavam pela paz. A passeata marchando era como uma primavera humana ao sol, em que a confiança no futuro e o sentimento da luta faziam cobrir de rosas vermelhas a rua cheia. Entre os operários, a frente, seguia uma operária que se chamava

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Angelina. De repente, as primeiras balas. Os bandidos atacavam, de surpresa, a frio, assaltando a massa surpreendida e cercada. Mas se os policiais tinham armas, é a vantagem da surpresa, do outro lado, havia o heroísmo, filho da razão e da cólera revolucionaria. Os operários souberam, resistir. O sangue jorrou na rua, Angelina caiu, abraçada á bandeira nacional. Quatro operários tombaram. Era a safra de mortos obtida naquele dia pelo sr. Dutra no Rio Grande. Já trinta cadáveres se extendem á frente do Catete, nestes anos, para mostrar que o sr. Dutra e sua classe,

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não podem mais lavar das mãos o sangue de suas vítimas. O assassínio é uma das preocupações do governo atual. Trinta cadáveres, para que o sr. Dutra governe, o sr. Gois diga palavrões, e os americanos nos roubem. Operários, camponeses, mulheres e jovens, 30 mortos. Morta, na praça: publica, tombou Zelia Magalhães. Abraçada a bandeira, foi fusilada Angelina Gonçalves. Ninguém melhor do que ela, operária, para proteger a nossa bandeira contra m ã ò s inimigas, mãos de Dutra, e mãos americarias. A bandeira no qual se envolveu Angelina, já ferida ensanguentada, era a de seu povo traído e tiroteado.


Texto: Publicado no Jornal TRIBUNA POPULAR em 20.5.50

Estava cheia daqueles rostos que Angelina via na fábrica, nos lares, no campo, rosto de um povo, cujo sofrimento e cólera hão de esmagar para sempre o covarde è bestial inimigo. Na fotografia vemos Angelina, estendida, envolta num lençol branco, o rosto de guerrilheira de uma energia tal que parece ainda vivo. A morte a surpreendeu, nesse esforço supremo. O de não entregar a bandeira e o de mostrar ao povo o seu exemplo. Humilde e brava Angelina. A bandeira te enxugou o suor e o sangue e sentiu quando parou teu coração. Essa bandeira deve estar ainda úmída de sangue, o sangue da heroína, cheia ainda daquela pulsação da agonizante, puIsação que nâo parou porque se acelera em muitos e muitos corações operários. Quem foi, de onde veio, que fazia Angelina? Vinha de uma fábrica, onde trabalhava. Era simples e sem temor. Quero viver dignamente. Por isso lutava e por Isso foi morta. E por, isso mesmo outras mulheres ocupam agora o seu lugar. Sua história vai correr mundo. Todo o pampa há de ouvi-la. O vento minuano saberá. Repetir nas estancias, nos rodeios, do sul, entre as velhas contadoras de história (..)O povo do Sul está jurando qua há de julgar os assassinos. A história, então terá este acréscimo. Era uma vez uma operária e três companheiros que foram mortos por um governo muito cruel . Pouco tempo depois o povo se vingava e botava abaixo esse governo.

Publicado pela primeira vez pela Editora Vitória, em 1959, Linha do Parque é o romance mais extenso que Dalcídio Jurandir escreveu. Dividida em sete partes ou capítulos que perfazem 549 páginas, a narrativa obedece a uma determinação cronológica e a um andamento diegético linear. Para atender ao seu projeto literário, o autor recompõe o ambiente histórico e contextualiza o desenvolvimento da organização operária rio-grandina, além de revelar os segredos da alma e do caráter de personagens fictícios e reais que viveram naquela época. É assim que Linha do Parque vem demonstrar, completar ou mesmo ampliar de forma distinta a história de luta dos trabalhadores e trabalhadoras das indústrias dessa localidade durante toda a primeira metade do século XX. Nossa motivação em realizar esta pesquisa, à luz das relações existentes entre a narrativa literária e histórica, viés por onde passa a construção do texto dalcidiano, decorre, em primeiro lugar, da premente necessidade que há de ampliar a divulgação desse romance, repleto de informações e acontecimentos históricos, que confirmam: além de ser uma manifestação estético-literária de inegável qualidade, Linha do Parque é também um verdadeiro manancial de memórias do importante movimento operário riograndino. Em segundo lugar, decorre do fato de que a maioria dos acontecimentos e ambientes presentes na obra realmente existiram naquela época, tornando-a uma rica fonte de pesquisa e de estudos para professores ou alunos interessados na origem urbano-industrial desta cidade, ainda hoje pouco conhecida. Embora reconhecidos e admirados na sua região de origem, os romances de Dalcídio Jurandir nunca obtiveram um lugar de destaque dentro da tradicional historiografia literária brasileira. Não que sejam indignos desse merecimento, pelo contrário, trata-se de um dos mais importantes acervos literários do país, especializado nas peculiaridades do povo amazonense, em seu modo de pensar, agir e sentir, pautado por um combinado narrativo que envolve ricos e marcantes personagens, viventes daquela região. Dalcídio Jurandir escreveu onze romances. Desses, dez volumes pertencem ao “Ciclo Extremo-Norte” – como alguns críticos costumam classificá-los –, em que são abordados os temas e as paisagens da Amazônia, do povo e vilarejos da Ilha de Marajó, espaços e cenários de origem do escritor, que cresceu em meio à floresta e aos rebanhos de búfalos do Pará. Somente um livro destoa desse ciclo e nos apresenta uma outra realidade nacional: Linha do Parque – da chamada série “Extremo-Sul”, embora

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Crítica Literária

composta de um único livro – em que está registrada a história do movimento operário do município do Rio Grande/RS, entre os anos de 1895 e 1952. Com este trabalho também procuramos ressaltar alguns elementos relevantes de ordem político-social externos ao romance, pois a ficção de Jurandir é cercada por questões provocativas que estavam na pauta das discussões no momento em que Linha do Parque foi escrito e editado. Em 1950 havia uma atmosfera de reconstrução e renovação nos países que participaram da Segunda Guerra Mundial, influenciados e envolvidos pelo

clima agressivo da Guerra Fria e pela revolução que já estava a muitos anos em curso no leste da Europa. Tudo isso faz com que esse romance seja visto como um chamamento aos operários e operárias do Brasil em geral e do Rio Grande do Sul em particular, a se integrarem nesse movimento global e, indiretamente, nessa luta. Na tentativa de aproximação aos conceitos levantados pela “história nova” a respeito da possibilidade da narrativa ficcional servir como fonte de estudo ou de registro à história, procuramos fazer a leitura do romance Linha do Parque norteados pelos postulados do historiador francês Jacques Le Goff, que admite ter surgido nos últimos anos uma “história das representações” que, entre outras formulações e objetivos, possibilitou a manifestação da “história das produções do espírito ligadas (...) à imagem, ou história do imaginário, que permite tratar os documentos literários e artísticos como plenamente históricos, sob condição de ser respeitada sua especificidade”.2 Muitos críticos consideram que tanto a ficção quanto a história podem ser vistas como participantes do mesmo ato de representação, uma vez que partem de um mesmo tronco genérico: a linguagem escrita. Dessa forma, tendem a se somar e prosperar, firmando-se por meio de um constante diálogo.

São os historiadores que seguem o modelo da “história nova”, que se tornaram cada vez mais influenciados pela crítica literária, aquela que, conforme Kramer, tem “ensinado os historiadores a reconhecer o papel ativo da linguagem, dos textos e das estruturas narrativas na criação e descrição da realidade histórica”.3 Quando um autor aproxima a ficção com o discurso da história, faz surgir um novo texto, que mantém vivo o passado e busca promover cada vez mais, junto aos leitores, o interesse pela narrativa. Ao empreender essa recuperação contando e descrevendo os fatos e os lugares de outra maneira, diferente do que foi relatado pela “história oficial”, a ficção dalcidiana abre espaço para outras imagens e vozes sociais que, sem a interferência do ficcionista, continuariam desconhecidas do público. A história da cidade surge pouco a pouco, primeiro uma rua, depois uma praça, em seguida uma fábrica, traduzindo-se na fusão do documentário com a narrativa ficcional, sem que esta, sendo densamente histórica, perca sua característica romanesca, construída numa espécie de círculos em intercurso, precisamente os da caracterização psicológica dos personagens e de toda sua humanidade, cujos conflitos se refletem nos problemas sociais do cotidiano, em uma representação que resulta da fusão de dois círculos que se entrecru-

2. ALVES, Francisco das Neves; TORRES, L. Henrique (org.). A cidade do Rio Grande: estudos históricos. Rio Grande: FURG; SMEC, 1995. 3. BRASIL, Luiz Antonio de A. História e literatura. In: MASINA, Lea; APPEL, Mirna (org.). A geração de 30 no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ed. da Universidade, 2000.

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Segundo Homero Homem, Linha do Parque é o único romance proletário [no Brasil] digno desse nome

zam: um, representado pelo povo, e outro, pela cidade. A abordagem escolhida para esta pesquisa se dá partir de um contexto mais amplo para, assim, compreender melhor as questões suscitadas pelo romance. Neste sentido, são de extrema importância às condições sociopolíticas do Brasil daquele período, como também as discussões a respeito da “arte proletária” proposta por alguns artistas da antiga União Soviética após a revolução de 1917, levando-se em consideração suas influências na realização da literatura dalcidiana. Segundo Homero Homem, Linha do Parque é o “único romance proletário [no Brasil] digno desse nome”, ainda que seus componentes narrativos mais visíveis o caracterizem de imediato como um autêntico romance histórico. Com base na crítica literária, consideramos que o “romance histórico tradicional”, dentro de uma perspectiva ampla, é o texto narrativo em que: o autor abdica de seu tempo e tenta reconstruir, através da ficção, o episódio histórico, detalhe por detalhe, batalha por batalha, feito heróico por feito heróico. Falase, aqui, de um Walter Scott, de Alexandre Herculano ou ainda de Paulo Setúbal. O autor abdica de seu tempo, isto é, torna-se apenas uma testemunha dos fatos, procura

pensar e agir como as personagens históricas pensariam ou agiriam. O papel do escritor, nesse caso, é absolutamente passivo, pois à luz do documento – tal como faria o historiador – pretende reconstruir a história, preenchendo cautelosamente as lacunas, criando supostos diálogos, descrevendo cenários e levantando hábitos e práticas culturais.4 Por outro lado, encontramos também em Linha do Parque a realização de uma narrativa ficcional intensamente engajada na luta política de sua época, expressando alguns princípios do “realismo socialista”. A literatura dos escritores soviéticos pós-1917 não pode deixar de estar, em parte, relacionada ao pensamento marxista. A “estética marxista”, conforme afirma Sánchez Vázquez, passa necessariamente por questões relacionadas à causa operária: o desenvolvimento intelectual desigual entre as classes sociais, a exploração dos trabalhadores, a subversão à sociedade capitalista, a esperança revolucionária, arte e trabalho, entre outros fatores. Dentro do entendimento

materialista dialético apresentado por Sánchez Vázquez, a estética marxista compreende a arte como uma “esfera essencial do homem”, não-alienada e dentro de uma visão filosófica de “cotidianidade”, estabelecendo uma concepção do trabalho artístico e de sua função social: “graças à arte, esta realidade formada através do trabalho, de um mundo de objetos humanos ou humanizados, se amplia e se enriquece sem cessar. E, por sua vez, graças à arte, enriquece-se e aprofunda-se nossa relação com a realidade”5. Seus fundamentos, portanto, consideram a atividade artística como um campo essencial para a existência do homem, como ser criador, histórico e social.

4. BURKE, Peter (org.). A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Ed. da Unesp, 1992. 5. CHIAPPINI, Ligia; AGUIAR, Flávio Wolf de (org.). Literatura e história na América Latina. São Paulo: EDUSP, 1993.

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Crítica Literária

Imagem aérea da Cidade de Rio Grande - RS Os romances de “cunho proletário”, comprometidos com as idéias revolucionárias das classes populares, segundo Fábio Lucas, deveriam também servir de veículo de transformação da sociedade e foram constituídos por dois elementos fundamentais: pela evidência do “ponto de vista do trabalhador nas relações sociais, quer na ação, quer na reflexão”, e “pela presença capital da luta de classes como ponta-de-lança dos valores que a obra pretende expor”.6 Conforme esse mesmo autor, ainda outros dois tipos de romances se enquadram nessa perspectiva da literatura socializante, com algumas características específicas que os diferenciam. O primeiro e mais

conhecido é o “romance social”, em que o componente coletivo ocupa o primeiro plano da história; o segundo é o “romance político”, no qual o componente individual é predominante no enredo. “O romance social enfoca uma tragédia coletiva, não se apóia em personagens principais, enquanto o romance político registra grupos da coletividade e privilegia poucas personagens ou mesmo uma só”.7 Tendo em mente os elementos históricos que compõem o romance eleito como corpus do nosso estudo e as características apresentadas por Fábio Lucas a respeito da composição dessas variantes literárias, consideramos que Linha do Parque pertence ao subgênero

“histórico-social-proletário”, pois apresenta ao mesmo tempo em sua temática os traços fundamentais que caracterizam esses três gêneros literários: a descrição histórica de uma incipiente sociedade capitalista, a apresentação e crítica das contradições dessa sociedade e a projeção de uma sociedade utópica baseada nos preceitos do ideário socialista para a classe operária. Enquanto na grande maioria dos registros históricos ou mesmo nos nossos melhores romances a chamada classe operária quase nunca fala ou consegue manifestar plenamente suas idéias e desejos, ou, quando o faz, é pela interpretação do redator oficial da história ou pela voz de um escritor, na

6. HOBSBAWM, J. Eric (org.). História do marxismo IX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. - 7. KRAMER, Lloyd S. Literatura, crítica e imaginação histórica: o desafio literário de hayden White e Dominick La Capra. In: HUNT, Lynn (org). A nova história cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

- Arte, política e cultura

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narrativa dalcidiana verifica-se que há preocupação em subverter essa situação, pois nela os trabalhadores, além de fazerem ouvir sua voz, expõem seus pensamentos e angústias, discutindo e procurando dessa forma entender o processo político em que estão envolvidos, para, assim, conseguir transformá-lo. É nessa perspectiva que encontramos em Linha do Parque uma acentuada consciência histórica. A inserção do conflito de classes no universo ficcional não se deve ao único propósito de fornecer subsídios à trama ou verossimilhança à história, mas traz principalmente em seu arranjo a intenção de presentificar o passado, preservar a memória social e conferir historicidade a fatos de uma época importante no desenvolvimento desta região. Já nas primeiras páginas do romance, o narrador nos apresenta Luiz Iglezias, um viajante que chegara como clandestino ao porto do Rio Grande, em uma noite de maio de 1895. Natural da cidade de Lorenzo (Espanha), Iglezias tinha como “missão” divulgar na América as idéias anarquistas que trazia da Europa. Traz em sua bagagem um outro ideário político e uma nova postura frente à luta de classes. Personagem de primeiro plano, com consciência e ideais repletos de idéias transformadoras aprendidas na Europa. Passando por dados e detalhes da arquitetura de prédios e praças da cidade, Jurandir recupera

a importância que detinham as peças teatrais para a divulgação dos propósitos políticos junto à classe operária; apresenta o nascimento da “Associação União Operária”, os incipientes movimentos de greve que começavam a surgir no interior das fábricas, e finaliza com o “conflito da Linha do Parque” (como ficou popularmente conhecido este episódio na cidade), que é narrado de forma significativa no romance, com cenas intensas desenvolvidas num suceder de frases curtas e imagens rápidas, que mais parecem tomadas cinematográficas constituídas de vários flashes, revelando a ação dos policiais e a reação dos operários. Assim, ao reproduzir uma relação viva entre a história do município e sua classe operária, o autor, além de descrever o estado subumano em que viviam esses indivíduos, assinala a razão da miséria, da desigualdade e da opressão em que eles se encontravam, quando denuncia situações que, em grande parte, eram desconhecidas ou foram ocultadas da população local. Linha do Parque constitui-se em oportuna fonte documental, indispensável à manutenção da memória desta comunidade, já que expressa de forma intensa e realisticamente as concepções, preocupações e anseios de um grupo de moradores cujas vidas, representadas na ficção, trazem lembranças de um período de efervescência política, social e econômica. Linha do Parque passa ao leitor

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a idéia de uma narrativa inacabada. A trama chega ao final numa condição em que sugere que certas questões de ordem política e social não puderam ser resolvidas plenamente. Isso porque a matéria natural e social inscrita na ficção está intimamente ligada à realidade empírica, com luz, com cor, com a intensidade dos sentidos e com a vida simples dos personagens. Porém, uma realidade não estática, em eterna evolução, é o encontro da ficção com vida, com os sentidos e com a história, que muda, transita e pode ser observada e testemunhada no interior de cada personagem. Um romance sem muito refinamento ou preocupação formal, que segue numa trajetória de mão dupla: de fora para dentro e do particular para o geral, em que enredo e personagens se entrecruzam com dramas pessoais e coletivos, buscando arquitetar uma saída para a trágica condição em que estavam vivendo. Contudo, não percebem que caminham para um acirramento cada vez maior das tensões sociais, que culminam ao final com o fatídico “conflito da Linha do Parque”, episódio real que acarretou na morte de cinco pessoas, entre as quais a tecelã Angelina Gonçalves (que na ficção é representada pela personagem Maria), morta com um tiro na cabeça. Esta é, significativamente, a última cena de confrontação do romance, que demonstra assim a veemência da repressão policial sobre a classe operária naquele período.

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Crítica Literária

A Chacina de Rio Grande Dalcídio Jurandir

ANTONIO RECCHIA olha para a janela do hospital. Mais branco e mais próximo de nós, descia o azul do céu portoalegrense. Recchia, porém, não via o céu. Via a passeata de Primeiro de Maio, no Rio Grande, cheia de mulheres e crianças cantando, cheia de tecelões, portuários, trabalhadores de frigoríficos, ferroviários, pescadores, artezãos. Os estandartes à frente, acenavam festivos. Os cartazes e as faixas palpitavam sobre as cabeças com seus dizeres de combate. Erguendo mais alto a bandeira tacava com seus cabelos muito ruivos. E sal-auri-verde que empenhava. Angelina se destacando nos galhos das árvores, pelas calçadas como um menino, falando ao megafone. Euclides Pinto chamava a todos para a passeata, dirigia o desfile, dava maior calor às vozes, aos passos que conquistavam a avenida. Euclides dizia que era o aniversário do proletariado. As gaitas tocavam e o desfile aumentava. Quando se aproximou do Campo Osório, onde jogavam

- Arte, política e cultura

futebol e, na sede do clube, se dansava, a passeata parou. (...) A massa atravessou a rua e engrossou à frente do clube. Recchia pediu aos dansarinos uma pequena pausa. E as gaitas, os cantos, os estandartes, as faixas, os punhos dos trabalhadores, as mçaosinhas das crianças, as flores que as mulheres traziam, tudo foi uma saudação ao baile popular. O Primeiro de Maio encheu como uma música o salão. As moças, nas janelas, batiam palmas. E logo a passeata, como um rio que enche, ergueu a cabeça para a frente e avançou para a sede da União Operária. Já no trecho do cemitério, próximo á fábrica de tecidos, entricheirados na esquina, estavam os brigadinos e paisanos policiais. Era como um bando de facínoras que espreitasse. A sede de sangue fervia naquelas feras. A massa continuou a avançar. Foi então que, do meio do bando, surgiu e veio aproximando o delegado de polícia. Recchia apressou o passo e foi ao seu encontro. O delegado

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rosnou, surdamente? - Para onde vai? Recchia ergueu a voz como se falasse para a massa, para a cidade, para o mundo: - Vamos à União Operária. Estamos festejando o Primeiro de Maio. Angelina avançou com a bandeira. Os estandartes avançaram. As faixas e os cartazes caminharam. Todos principiaram a cantar o hino nacional. Houve uma troca de palavras entre Recchia e o beleguim e foi quando os policiais puxaram as armas. Numa onda só, os trabalhadores investiram sobre o bando, para tirar-lhe as armas. Travou-se a luta corpo a corpo. Sem respeitar mulheres e crianças, os policiais atiraram a queima roupa. Recchia viu ainda Angelina já ensangüentada mas abraçada a bandeira e quando quis acudi-la caiu com a bala na nuca. Não pode levantarse e principiou a gritar: - VIVA PRESTRES! Viva a Classe Operária! Protejam as crianças, companheiros. Um brigadiano apontou para


a cabeça do ferido, mas duas mulheres. Iria e Doralice, saltaram como duas mães e o protegeram. Recchia. Entre a confusão e o tiroteio, arrastaram-no para um portão próximo. Enquanto isso, Selma, a companheira de Euclides, acudia Angelina. Esta, em luta com um policial, que lhe roubara a bandeira, como se fosse um filho. Selma correu e o rpimeiro movimento foi recompor-lhe o vestido que se levantara com a queda. Vendo-a a botar sangue pelo ouvido e pela boca, com balas também nas coxas e nas pernas. Sulma tentou erguêla e a cabeça estreitando-a ao colo, no inútil esforço de impedir que, com aquela posição. Angelina perdesse tanto sangue. Mas a operária, com seus cabelos ruivos em desalinho, arquejava, ferida de morte. A cabeça da morta deslisou pelo colo de Sulma que a deixou para acudir outros feridos. E foi assim que encontrou o companheiro adiate, estendido na rua, com o tiro no coração. (...) O hospital se transformou naquela noite num covil de assassinos. Ninguém podia ver os feridos. Recchia passou a noite toda sem ser ter sido operado. A mulher: proibia de vê-lo. Mas o portuário dizia aos seus carrascos: -Estão com medo? No quarto com fusil nas coxas, um brigadiano tremia. Tinham medo e faziam terror. Outros abriam os ferrolhos da

arma e deixavam cair as balas nos corredores. As freiras se refugiaram na capela. Os doentes trancados nos quartos, sofreram horas de agonia. Lá fora, com a massa protestando, os brigadianos crecavam o hospital. Recchia, com a bala na coluna, esperava a operação. Queriam liquidá-lo de uma vez. Rasgaram-me a costa na operação e procuraram me enganar, diz ele. Sete dias depois com a vida por um fio, os companheiros puderam tirá-lo de Rio Grande e mandá-lo de avião para Porto Alegre para ser operado novamente. E não fosse a dedicação de (...) e seus assistentes (...). Recchia não teria resistido. A bala que lhe acertaram tinha a mesma

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missão das outras que atingiram Euclides, Honório e Angelina. Hei de caminhar, exclama Antonio Recchia. E sorri, o olhar de águia, magnífico de confiança e de entusiasmo. Agora, no Rio Grande, para onde foi, Antonio Recchia, em sua cadeira de rodas, é o mesmo dirigente. Foi inútil o terror armado na tarde em que desembarcou de avião. Os trabalhadores foram visitá-los e continuam em sua casa, ouvindo-o e sabendo que Antonio Recchia é mais forte do que o terror. Porque a sua força invencível vem de sua classe, a classe operária. Ao despedir-nos, falou sorridente: -Até a vista, companheiros!..

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Crítica Literária

SUBSÍDIO PARA A HISTÓRIA DO MOVIMENTO OPERÁRIO DO RIO GRANDE DO SUL

Sede da Associação União Operária em Rio Grande - RS

O Movimento Operário de Porto Alegre começou a organizar-se em 1895 quando surgiu a Sociedade União Operária, orientada pelos trabalhadores TÁCITO PIRES, professor primário; FRANCISCO XAVIER DA COSTA, operário litógrafo; FRANCISCO FERRUGÊNCIO, sapateiro, e outros. Mantinham eles a orientação da Segunda Internacional, inscrevendo na capa de seus estatutos o slogan reformista — oito horas de trabalho, oito horas de estudo, e Oito horas de repouso —, encimados pelo retrato de CARLOS MARX. Essá orientação durou até 1906 ou 1909.Nesse intermédio surgiram as organizações de caráter profissional - Arte, política e cultura

com a mesma orientação, entre elas destacaram-se a União dos Pedreiros, a União Padeiral e a Lira Operária Musical (para melhor detalhe consultar o camarada Manoel Otero que militou na primeira organização). De 1 909 em diante começaram a tomar parte ativa no Movimento Operário os ANARCO-COMUNISTAS que fundaram a União Operária Internacional e a Escola Moderna Eliseu Reclus. Em 1 911, com a greve da União dos Pedreiros, sob a presidência de Luiz Derive (o qual poderá dar esclarecimentos detalhados sobre este movimento), que foi geral da classe, já com a orientação da ação direta e orientada pela União Internacional 76

Operária. Surgindo desse movimento outros congêneres no interior do Estado, nas cidades de Pelotas, Rio Grande, Bagé, Santa Maria e Livramento.- Nesse mesmo ano fundou-se a Federação Operária do Rio Grande do Sul a princípio com representações da União de Pedreiros, que passou a denominar-se Sindicato dos Pedreiros, União Padeiral, depois Sindicato dos Padeiros, Sindicato dos Pintores, União Metalúrgica, União Tipográfica e União Operária Internacional, todas de Porto Alegre, e adesão da Liga Operária de Pelotas.Em 1917, em agosto, foi levada a efeito a primeira greve geral em Porto Alegre, com forte repercussão em Pelotas e Rio Grande, orientada e


dirigida pela Liga de Defesa Popular, composta de elementos da U,O,I. e patrocinada pela F,O,R,G.S, Greve essa que conseguiu fazer paralisar a Indústria e a Construção, os trabalhos portuários, o tráfego urbano e a Viação Férrea do Estado.A greve de 191 7 foi mais bem no movimento de massa do que uma greve propriamente dita, pois não existia uma organização eficiente para levar a bom termo um movimento de tal envergadura, estando, portanto, destinada ao fracasso como de fato aconteceu? a FORGS estava desorganizada, com lutas internas entre os anarquistas e os capangas do Capital, capitaneados por Francisco Xavier da Costa (oculto), sendo seus agentes principais os gráficos Plínio José de Freitas e Antônio Macedo e o alfaiate Vigo Tompes CoIlin, contumazes asseclas da burguesia reacionária. Ao irromper o movimento quase espontâneo e com o beneplácito do Governo do Estado, que estava em vésperas de eleições, os anarquistas organizaram a Liga de Defesa Popular, incluindo nelas alguns agentes — Xavier da Costa e elementos sem orientação alguma e completamente desconhecedores da organização operária —, com um grupo heterogêneo destas condições a primeira dificuldade foi o suficiente para o seu fracasso.As classes profissionais acorriam em massas a FOROS. A LDP organizou um programa de reivindicações que substanciavam as necessidades mais urgentes, como sejam aumento de salários, barateamento do custo foi geral pelo espaço de 3 dias, A LDP destacou comissões para entender-se com os governos Municipal e Estadual, os quais imediatamente concederam exigências dos trabalhadores, aumentando os

salários dos operários que trabalhavam em suas obras, assim como a criação de sete feiras livres. A primeira dificuldade surgiu com a Cia. Força e Luz Porto Alegrense (hoje Carris Porto Alegrense), que se negava a qualquer entendimento com a LDP, declarando que só negociaria com os seus próprios empregados, só entrando em negociações com a comissão por pressão do Governo do Estado, que foram morosas pois a Cia. só assinaria o aumento com a condição da volta ao trabalho de seus empregados. A comissão da LDP, porque sabia que a volta do tráfego urbano seria a completa desorientação do movimento, que não tinha uma coesão suficiente para continuar em movimentos parciais, não acedeu de momento, indo consultar a assembléia da Liga, composta de 42 membros e completamente heterogênea como disse antes [.] Foi uma sessão agitadíssima em que os anarco-comunistas ficaram em minoria e tiveram que ceder, os agentes provocadores começaram a campanha derrotista e assim terminou a greve com um fracasso quase completo. O governo municipal instalou 4 feiras livres, uma na

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praça Garibaidi, uma na rua Benjamim Constant esquina Cel. Bordini, que tiveram vida efêmera, uma na entrada do caminho do meio, que teve longa vida, só terminando com a construção do atual mercado, e outra na av. Ceará, que também durou pouco tempo. Propõs a Prefeitura que a LDP indicasse dois de seus membros para inspecionar as ditas feiras, pagando a mesma os vencimentos para ambos. Depois de algumas combinações, foram indicados dois anarco-comunistas (eis aí o golpe assestado pelos eternos vendilhões do operário, pois esta atitude dos anarco-comunistas foi o pretexto de uma campanha para combatê-los). Prontificou-se também a Prefeitura a construir um edifício para funcionara sede da FORGS. Protestaram os revolucionários e conseguiram que não fosse aceita a dita proposta não só por travar o desenvolvimento da organização livre, como também ficava todo o Movimento Operário na dependência do Governo (segundo golpe), Acirrou a campanha contra os movimentos ativos e conseguiram os falsos pastores assumir novamente o controle da FORGS sobre a presidência de Vigo Tompes CoIlin.

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“Somos nós mesmos ao lado das massas, esclarecendo-nos na luta de todos os dias, conhecendo o povo na sua miséria e no seu heroísmo subterrâneo e encontrando nele o verdadeiro mistério da criação literária, a força de uma obra que interprete a humanidade brasileira e ajude a conduzi-la também para diante”. Dalcídio Jurandir - Arte, política e cultura

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IIÊConferênciaÊ EstadualÊdeÊ Educaç‚oÊdoÊ Par‥ FOTO:ÊAGÌNCIAÊPAR ç

20ÊaÊ22ÊdeÊnovembroÊdeÊ2009. HangarÊ-ÊCentroÊdeÊConvenç›es eÊFeirasÊdaÊAmaz™nia.Ê Inscriç›esÊeÊinformaç›es: www.seduc.pa.gov.br/intranet/conae

$,,&RQIHUrQFLD(VWDGXDOGH Educaç‚o do Par‥ ser‥ realizada de 20 a 22/11/2009, no HangarCentro de Convenç›es e Feiras da Amaz™nia, como fase preparat—ria ˆ &RQIHUrQFLD1DFLRQDOGH(GXFDomR CONAE/2010. O evento ser‥ um espaço de debate e construç‚o, com participaç‚o da sociedade civil organizada, poderes executivo, legislativo e judici‥rio, setor empresarial, agentes pœblicos, sindicatos, sistemas de ensino, —rg‚os educacionais, trabalhadores da educaç‚o, estudantes, pais e respons‥veis por estudantes, delegados eleitos por segmentos e

categorias envolvendo a Educaç‚o %iVLFD(QVLQR3URÀVVLRQDOH Educaç‚o Superior, convidados e observadores de diversos segmentos organizados da sociedade paraense. Todos participaram das 12 &RQIHUrQFLDV5HJLRQDLVRQGH À]HUDPDGLVFXVVmRGRWHPD central: ÒConstruindo o Sistema Nacional Articulado de Educaç‚o: o Plano Nacional de Educaç‚o, suas diretrizes e estratŽgias de aç‚oÓ, visando a construç‚o de uma pol’tica nacional articulada, em defesa de uma educaç‚o pœblica de qualidade para todos.

SecretariaÊdeÊEstado deÊEducaç‚o


MAQUETE NOVA AV. INDEPENDÊ NCIA

JÚLIO CÉSAR

AÇÃO METRÓPOLE

Fotos: Cláudio Santos

O Governo do Pará faz a maior obra viária de Belém.

DEPOIS DE 20 ANOS DE ESPERA O GOVERNO DO PARÁ TRANSFORMA EM REALIDADE O MAIOR PROGRAMA DE INFRAESTRUTURA VIÁRIA DA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM. Solução para problemas históricos do trânsito na capital. Implementação de novo modelo de gestão para o sistema de transporte interligado da Região Metropolitana. Trânsito ágil, seguro e organizado. Benefício para mais de 2 milhões de pessoas. PRIMEIRA ETAPA Obras em andamento: abertura da avenida Independência, no trecho entre a rodovia Augusto

Montenegro e avenida Júlio César; construção de elevado e trevo de quatro pétalas entre a Júlio César e a Pedro Álvares Cabral; revitalização da rodovia Arthur Bernardes. Obras planejadas: construção da passagem subterrânea na avenida Dr. Freitas com a avenida Almirante Barroso; duplicação da avenida Perimetral; prolongamento da avenida João Paulo II até o elevado do Coqueiro e a duplicação da Transmangueirão. SEGUNDA ETAPA Implantação do sistema integrado de transporte metropolitano, com corredores estruturados, bilhete único e terminais de integração. Governo do Estado. Trabalhando por todo o Pará.

vanguarda

O DA AV. MAQUETE ELEVAD

O CHÃO VERMELHO DE DALCÍDIO JURANDIR  

REEDIÇÃO DA REVISTA O CHÃO VERMELHO DE DALCÍDIO JURANDIR

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