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Ano XV • N.º 49 • Trimestral • 22 de dezembro de 2014 a 20 de março de 2016 • Diretor: Nuno Gomes Oliveira 3 euros

Dunas RESERVA NATURAL LOCAL DO ESTUÁRIO DO DOURO Reportagem SERRA DE MONTEMURO Reportagem TEJO INTERNACIONAL: A ROTA DA ÁGUA

IVA incluído

Dunes Local Nature Reserve of Estuário do Douro Report Montemuro Mountain Range Report Tejo Internacional: The Water Route

PARQUES DE GAIA + PORTFOLIO + CONTRA-RELÓGIO + FOTONOTÍCIAS QUINTEIRO + MIGRAÇÕES + BIBLIOTECA + ATUALIDADE + CRÓNICA


EDITORIAL 3

Nuno Gomes Oliveira Diretor da revista “Parques e Vida Selvagem”

Já começou a sexta extinção em massa? Segundo Paul Ehrlich, da Universidade de Stanford, Gerardo Ceballos, da Universidade Autónoma do México, e outros investigadores os animais estão a extinguir-se a um ritmo 100 vezes superior ao do passado e os humanos estão entre as espécies ameaçadas s causas da extinção atual de espécies são, entre outras, alterações climáticas, poluição e desmatamento. De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), cerca de 41% de todos os anfíbios e 26% das espécies de mamíferos estão ameaçadas de extinção. Desde há 65,5 milhões de anos, quando ocorreu a Extinção K-Pg, mais conhecida por extinção dos dinossauros, em que a Terra perdeu 60% da vida, que não se sucediam tantas extinções de espécies como atualmente. Os especialistas falam na “Extinção do Holoceno”, que se distingue das anteriores cinco por ser devida à atividade humana e não a fatores biogeoquímicos ou cósmicos. Os biólogos usaram as estimativas altamente conservadoras para provarem que as espécies estão a desaparecer a um ritmo mais rápido do que em qualquer momento desde a extinção dos dinossauros. Se as tendências atuais continuarem, metade de todas as espécies da Terra estarão extintas em menos de 100 anos1.

A

Quantas árvores há no Mundo? Um estudo da equipa coordenada por Thomas Crowthe, da Universidade de Yale, calcula que no mundo há mais de 3 milhões de milhão de árvores, ou seja, 420 por cada habitante2. A equipa de Yale estima que 15 mil milhões de árvores são removidas por ano, e apenas 5 mil milhões são plantadas. “Estamos a falar de 0,3% de perda global anual”. “A Europa antigamente era coberta por uma floresta gigante e agora consiste praticamente em campos e pastos. O homem controla as densidades arbóreas”, afirma Thomas Crowther.

Desertificação e mini-idade do Gelo O «Diário da República» de 24/12/2014 publicou o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PANCD), na sequência da Resolução do Conselho de Ministros n.º 78/2014, documento que veio substituir e atualizar o publicado em 1999. Este plano corresponde à aplicação ao território nacional da Convenção

das Nações Unidas de Combate à Desertificação nos Países Afetados por Seca Grave e ou Desertificação, particularmente em África (CNUCD). A área de aplicação da CNUCD no território português: Enquanto país afetado, tendo em conta o enquadramento jurídico da CNUCD e as condições climáticas atuais, esta Convenção tem aplicação em Portugal apenas nas áreas com características áridas, semiáridas e sub-húmidas secas, ou seja, em parte significativa do interior raiano do Norte e Centro e da generalidade do Sul do Continente e parte da Região Autónoma da Madeira (Litoral e Este e Sudeste da ilha da Madeira e ilhas do Porto Santo, Desertas e Selvagens), não sendo, agora, pela espacialização das médias do índice de aridez do último meio século, aplicável às restantes áreas do território nacional (Noroeste do Continente e Região Autónoma dos Açores), com condições húmidas e sub-húmidas médias dominantes (cf. PANCD). Em Portugal, 32,6 % do território nacional encontra-se em situação degradada, e 60,3 % estão em condições razoáveis a

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4 EDITORIAL

boas; apenas em 1,5 % da superfície total do Continente se verificam processos com uma tendência regressiva na qualidade das terras. O PANCD aponta uma série de objetivos estratégicos para contrariar e inverter a desertificação em Portugal, que vão da qualificação e valorização do território, passando pelo reconhecimento e valorização dos serviços ambientais prestados pelos espaços e comunidades rurais, até à promoção da mitigação e adaptação às alterações climáticas. Entretanto, a professora de Matemática Valentina Zharkova, da Universidade de Northumbria, no Reino Unido, e os seus colegas de estudo, publicaram no «The Astrophysical Journal» (n.º 1, vol. 795, de 13/10/2014) um artigo em que preveem que a atividade do Sol vai ficar reduzida em cerca de 60% durante a década de 2030 a 2040, dando lugar a uma miniidade do Gelo, como a que começou em 1645 e durou até 1850, a ponto de, em Londres, o ria Tamisa congelar em 1607 e 1814. Mas como se não chegasse a desertificação e o gelo, Steve Nerem, geofísico da Universidade do Colorado, porta-voz do Grupo de Estudos do Nível do Mar, da NASA, anunciou em agosto passado que o nível das águas do mar subiu em média cerca de 8 cm, desde 1992. O culpado é o aquecimento global, que provoca o degelo dos glaciares e a subida da temperatura da água.

publicado na revista «Zootaxa», em junho de 2014, com um título invulgar na literatura científica: “Perdida no meio do mar, encontrada na parte de trás de uma prateleira”. No Brasil foi descrita em 2014 uma ave denominada Gritador-do-nordeste (Cichlocolaptes mazarbarnetti) endémica dos estados de Alagoas e Pernambuco, com base em exemplares colectados na década de 1980. Alguns autores consideram-na extinta, já que os últimos registos foram feitos em 2005 e 2007. Também no Brasil, em 2012, Reginaldo Vasconcelos fotografou e publicou no Facebook uma planta durante um passeio nas montanhas próximas da cidade de Governador Valadares, no estado de Minas Gerais, Brasil. Paulo Gonella, botânico da Universidade de São Paulo, identificou-a como sendo uma nova espécie de planta carnívora, a Orvalhinha (Drosera magnifica). No artigo publicado no jornal «Phytotaxa», o botânico alerta que a planta está em “perigo, segundo os critérios da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza”. Vinda do fundo dos tempos, do Jurássico Superior (entre 163,5 e 145 milhões de anos), a cobra Portugalophis lignites foi identificada, a partir de restos fósseis, por uma equipa de investigadores liderada por Michael W. Caldwell, da Universidade de Alberta, Canadá; viveu perto de Leiria e é a segunda cobra mais antiga do mundo.

Espécies novas para a ciência

Os animais mais perigosos do mundo

Num ilhéu perto da Ilha do Príncipe, em São Tomé e Príncipe, foi descoberta a Lagartixa-adamastor (Trachylepis adamastor); ou melhor, a espécie foi descoberta em Lisboa, nos armários do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), 45 anos depois de 8 exemplares terem sido recolhidos no ilhéu da Tinhosa Grande, mas nunca terem sido estudados. O Luís Ciríaco, curador de répteis e anfíbios do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, que os encontrou, logo viu que se tratava de uma espécie diferente das lagartixas conhecidas em São Tomé e Príncipe. O biólogo apresentou ao mundo uma nova espécie de lagartixa num artigo

Gabriel Reilich publicou no portal http:// magazine.good a lista dos animais mais perigosos do mundo, tendo como critério o número de pessoas mortas por ano. À cabeça da lista vem o mosquito Anopheles que, com 1 mm, mata 725 pessoas por ano com a transmissão da malária. Em segundo lugar o Homem, que mata por ano 475 mil pessoas. Em terceiro lugar um parasita do género Schistosoma que transmite a esquistossomose ou bilharzíase, responsável por 110 mil mortes de seres humanos por ano. Em 4.º lugar vem as Lombrigas, com 60 mil mortes ano e em 5.º as Cobras, com 50 mil pessoas mortas.

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O cão é responsável por 40 mil mortes (quase todas devido à raiva), ocupando o 6.º lugar e deixando o 13.º para o Leão (100 mortes), o 14.º para o Lobo (10 mortes) e o 15.º para o Tubarão (10 mortes). Esta listagem contraria em absoluto alguns dos nossos medos, em particular dos Tubarões que o cinema tratou de classificar como assassino.

O Ozono degrada o cheiro das flores Gerard Farré-Armengol, do Centro de Pesquisa Ecológica e Florestal de Barcelona, Espanha e a sua equipa publicaram no jornal «The Phytologist» de 8/9/2015 um artigo em que demonstram que as moléculas responsáveis pelo cheiro das flores se degradam com níveis elevados de ozono. Ora com os polinizadores, nomeadamente as abelhas, se orientam por esses odores, a polinização diminuirá, diminuindo o sucesso de reprodução das plantas. Uma quebra de produtividade de 15% nos próximos 35 anos, devido ao «smog», é prevista por estes autores.

Noites dos Pirilampos Em junho de 2015 as “Noites dos Pirilampos” foram mais um momento de sucesso do Parque Biológico de Gaia, este ano acompanhadas pelo lançamento do guia bilingue “Pirilampos de Portugal”, de Raphael de Cock, Henrique Nepemuceno Alves, Nuno Gomes Oliveira e Jorge Gomes. Noutras localidades esta iniciativa foi replicada, e ainda bem; em Azeitão, a Quinta de Alcube lançou as “Noites de Estrelas e Pirilampos”.

Projeto Raízes da História Natural de Portugal Este projeto não está parado: depois da edição, em 2011, do livro «José Bonifácio de Andrada e Silva, o primeiro ecologista de Portugal e Brasil, Com uma recensão da «Memória sobre a necessidade e utilidade do plantio de novos bosques em Portugal» (1815), surgiu recentemente «A Flore Portugaise e as viagens em Portugal de Hoffmannsegg e Link (1795 a 1801)», numa edição da Chiado Editora, Lisboa, ambos da autoria de Nuno Gomes Oliveira


(Calidris pusilla), originário do Norte da América; desde 1989 apenas estavam registadas três observações em Portugal, segundo o avesdeportugal.info.

Arborização urbana melhora a saúde das populações

e feitos com base em obras antigas de história natural recolhidas na Biblioteca do Parque Biológico. Também a entrada de novas obras tem prosseguido: recentemente foi oferecido pelo pelo Dr. Manuel Mouta Faria, MédicoVeterinário, a «Helminthologia Portugueza», de Jacques Barbut, traduzida por José Mariano da Conceição Velloso e publicado em 1799. A Helmintologia é o ramo da zoologia que estuda os vermes em geral, especialmente aqueles reunidos sob os filos dos platelmintos ou dos asquelmintos. James Barbut (1776-1791 ou 1799) foi um naturalista e pintor inglês e José Mariano da Conceição Veloso (1742-1811) um franciscano e famoso naturalista nascido no Brasil, cuja obra fundamental é a «Florae Fluminensis».

com base nos registos de observadores e fotógrafos de aves, Gonçalo Elias, responsável pelo portal «Aves de Portugal», fez uma estimativa de 62 a 82 aves em território português. Na Reserva Natural Local do Estuário do Douro a Branta bernicla hrota, originária das regiões árticas da Noruega e Gronelândia, foi observada e fotografada a 27 de setembro de 2015. Outra espécie que este ano, a partir de maio, surgiu em Portugal em número anormalmente elevado foi o Falcão-de-pésvermelhos (Falco vespertinus); durante os últimos 30 anos foi apenas observado uma

Biodiversidade por estas bandas Um censo da Águia-pesqueira (Pandion haliaetus) em Portugal Continental, feito por ornitólogos e fotógrafos de natureza amadores e profissionais, em 24 de janeiro de 2015, revelou a presença de 70 a 76 Águias-pesqueiras em Portugal, nesse dia, desde o Minho ao Algarve, número claramente superior ao que muitos de nós poderíamos imaginar. Posteriormente, continuaram a ser observadas nos mais diversos locais. Em abril, o fotógrafo Rui Lemos confirmou a nidificação de Melro-de-água (Cinclus cinclus) no rio Febros, imediatamente a jusante do Parque Biológico de Gaia; ave característica de rios de montanha, de águas muito límpidas, a sua presença aqui é um bom indicador de qualidade da água. Também o Ganso-de-faces-pretas (Branta bernicla) foi muito observado este inverno;

dúzia de vezes em Portugal, e só numa semana de maio foram registadas mais de 100 observações. Em setembro foi observado e fotografado (Francisco Bernardo, António Oliveira e Bastos) na Reserva Natural Local do Estuário do Douro um bando do 4 Cegonhas-pretas (Ciconia nigra), espécie muito rara por estas paragens. Outra raridade observada em 1/10/2015 na Reserva Natural Local do Estuário do Douro, e fotografada por Francisco Bernardo, foi o Pilrito-semipalmado

Um estudo liderado por Omid Kardan, do Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago, e publicado na revista «Scientific Reports» de 9/7/2015, que teve como alvo a população do centro urbano de Toronto (Canadá), mostra que a arborização urbana reduz o número de doenças de origem cardiovascular e metabólica, como a hipertensão e a obesidade. O estudo demonstra, ainda, que ter em média mais de 10 árvores num quarteirão melhora a perceção da saúde de forma comparável a um aumento de ordenado pessoal anual de 10 mil euros. No entanto, em Portugal, há uma verdadeira “dendrofobia”, como lhe chamou o Professor Joaquim Vieira da Natividade (1899-1968), no seu artigo «A Árvore e a Cidade» (in «Diário Popular», Ano XVIII, n.º 6090, Lisboa, 1959). Os portugueses gostam de plantar árvores no Dia da Árvore), mas não gostam de as ver crescer e dar folhas. No outono caem em catadupa nos municípios as reclamações por causa da queda de folha, que “suja” tudo. Na primavera e verão voltam a cair os pedidos, desta vez para plantar árvores, pois há falta de sombra. É claro que, com o tipo de urbanismo que tivemos nas últimas décadas, a árvore perdeu muito do seu lugar na cidade: as suas raízes não cabem no meio das mais variadas infra-estruturas subterrâneas, a sua copa não cabe nos estreitos passeios e as pequenas caldeiras não recolhem água suficiente. Há, então, que privilegiar os parques urbanos arborizados, recorrendo, como se fez noutros países, a quarteirões e antigas instalações industriais abandonadas. (1)

Gerardo Ceballos, Paul R. Ehrlich, Anthony D. Barnosky, Andrés García, Robert M. Pringle and Todd M. Palmer. Accelerated modern human–induced species losses: Entering the sixth mass extinction. Science Advances, 2015 DOI: 10.1126/sciadv.1400253

(2)

Crowther, T. W. et al. Nature http://dx.doi. org/10.1038/nature14967 (2015).

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Conheça as edições do Parque Desejo adquirir os seguintes títulos nas quantidades indicadas:

IVA incluído à taxa em vigor

Livro “Guia das Camélias do Parque do Conde das Devesas” de Nuno Gomes Oliveira .................................................................................. € 9,00

Livro “Ensaio sobre as Camélias e o Parque da Quinta do Conde das Devesas” de Nuno Gomes Oliveira ................................................................................ € 8.00

Livro de Nuno Gomes Oliveira ................................................................................. € 15,00

Livro “Cobras de Portugal” de Jorge Gomes .............................................................................................. € 3,00

Livro “Pirilampos de Portugal” de vários autores”............................................................................................. € 5,00

Livro “Uma Escola Sem Muros: Diário de Um Professor” de Paulo Gandra.............................................................................................. € 0,50

Livro “Guia da Reserva Natural Local do Estuário do Douro”de vários autores... € 2,00

Livro “Parque Biológico de Gaia - 1983/2013” ................................................... € 5,00

Livro “José Bonifácio de Andrada e Silva: Um Ecologista no Séc. XVIII” de Nuno Gomes Oliveira ................................................................................ € 3,50

Livro “Borboletas dos Parques de Gaia” de Jorge Gomes ............................................................................................. € 10,00

Livro “Ecoturismo e Conservação da Natureza” de Nuno Gomes Oliveira ................................................................................. € 3,50

Livro “Mauro e Emília: os nossos cágados estão em perigo, vamos ajudá-los” .................... € 5,00

Livro “Áreas de Importância Natural da Região do Porto” de Nuno Gomes Oliveira ................................................................................ € 5,00

Livro infantil “Galvino e Galvão, a Galinha-de-água e o Galeirão” de Manuel Mouta Faria .......................................................................€ 5,00

Livro “Manual da Confecção do Linho” de Domingos Quintas Moreira ......................................................................... € 0,50

Livro “A Origem das Espécies” de Charles Darwin ....................................................................... € 5,00

Enviar este cupão preenchido em letra legível para: Parque Biológico de Gaia t Loja t Rua da Cunha t 4430-681 ou por e-mail para sandra@parquebiologico.pt

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OPINIÃO 7

Maria Mercês Duarte Ramos Ferreira Vereadora do Pelouro de Ambiente Urbano e Espaço Público da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia

Chegou o sol Depois de um frio algo prolongado, sobe a temperatura e o sol promete brilhar mais frequentemente – está dado o mote para que os cidadãos de Vila Nova de Gaia não consigam resistir ao apelo das atividades de ar livre om uma brisa agradável no rosto, os gaienses estão habituados a contar com os passadiços suspensos sobre as dunas e por ali passeiam com a família já de olho no mar onde fazem questão de pôr o pé no verão que se aproxima. Dia após dia, em período de tempos livres que rejubilam com a proximidade da benesse das férias, não faltam espaços verdes à escolha no nosso concelho de Vila Nova de Gaia, para uma visita com direito a piquenique, onde este seja adequado. É o caso, por exemplo, do Parque Botânico do Castelo, em Crestuma, que nesta altura do ano transforma muito do verde das suas plantas em pétalas coloridas, umas brancas ou azuis, outras rosadas e amarelas. Além do cariz botânico, bem pode ter a certeza de que ali andou e deixou muitos vestígios a cultura herdada do velho Império Romano, como atestam arqueólogos com a sua investigação. Outros parques existem, mas merece especial referência o mais antigo e de características peculiares – o Parque Biológico. Quando estas linhas se encaminham para a gráfica, onde serão impressas a tinta, nascem ali três cegonhas

Jorge Gomes

C

S Nasceram cegonhas no Parque Biológico de Gaia, 2016-5-3

selvagens, com o condão de serem, pelo que se sabe, o primeiro registo no concelho gaiense e o segundo para o distrito do Porto. Deixamos os leitores com estas palavras

e com o gosto de saber que qualidade de vida passa muito pelo usufruto das paisagens de natureza. Vamos ser ativos nos desafios globais protegendo os nossos recursos naturais.

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Na produção desta revista, ao utilizar um papel com 60% de fibras recicladas (Satimat Green) em vez de um papel não reciclado, o impacto ambiental foi reduzido em:

Primavera 2016

1762 kg de aterro

159

litros de água

1590

kg de CO2 (gases de efeito de estufa)

38170

kWh de energia

3804

kg de madeira

2863

km de viagem num automóvel europeu de consumo médio

FICHA TÉCNICA Revista “Parques e Vida Selvagem” Editor Parque Biológico de Gaia Rua da Cunha, 4430-681 Avintes Tel. 227878120 Diretor Nuno Gomes Oliveira Coordenador da Redação Jorge Pereira Gomes Sede da Redação Parque Biológico de Gaia Proprietário Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia Rua Álvares Cabral – V. N. Gaia Pessoa coletiva 505335018 Periodicidade trimestral Tiragem 2000 exemplares N.º de registo na ERC 123937 ISSN 1645-2607 Dep. Legal 170787/01 Tipografia Orgal Impressores Rua do Godim, 272 – 4300-236 Porto Colaboradores Ana Severino, A. M. Galopim de Carvalho, Cristiana Vieira, Helena Hespanhol, Fernando Correia, Jorge Paiva, Maria Mercês Duarte Ramos Ferreira, Carlos Coutinho, Maria Manuela Costa, David Guimarães, Henrique N. Alves, Jorge Gomes, Filipe Vieira, João Teixeira, Samuel Buton, Anabela Pereira, Assunção Santos, Mike Weber, Paulo Paes de Faria, Rui Lemos, Paulo Monteiro, Luís Lopes, Joaquim Aurélio, Ernesto Brochado, Maria Silva, Jorge Araújo Silva. O estatuto editorial da revista “Parques e Vida Selvagem” encontra-se publicado no site www.parquebiologico.pt, indo à secção Recursos e à subsecção Revista.

www.facebook.com/parquesevidaselvagem

Capa: foto de Jorge Gomes

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15 75

38

24 SECÇÕES

34 RESERVA NATURAL LOCAL DO ESTUÁRIO DO DOURO

7

Opinião

12

Fotonotícias

15

Portfolio

22

Contra-relógio

53 CERVUNAIS E TOJAIS-URZAIS

24

Quinteiro

DA SERRA DE MONTEMURO

31

Dunas

37

Espaços verdes

48

Recuperar

50

O voo das aves

66

Migrações

70

Atualidade

reportagem

74

Biblioteca

Paredes-meias com Espanha, este Parque Natural traz consigo a figura de uma ave ameaçada de extinção, a cegonha-negra. Ao longo do leito de rios fronteiriços, esta área protegida compreende mais de 26484 hectares, em território pertencente aos concelhos de Castelo Branco, Idanha-a-Nova e Vila Velha de Ródão.

75

Crónica

82

Coletivismo

João L. Teixeira

dunas Em junho já muitas aves estão em pleno período reprodutor. Muitas crias adquiriram entretanto alguma independência e realizam os primeiros voos, estando os progenitores atarefados alimentar e proteger, daí que muitas aves não se deixem observar com tanta facilidade como noutras alturas do ano…

Com vista a promover o restauro e a conservação ativa de habitats prioritários de montanha – urzais-tojais higrófilos e cervunais – surgiu em setembro de 2010 o projeto LIFE-Higro. Terminado em junho do ano passado, está agora em curso o plano de conservação pósLIFE. Sob sua alçada há “apenas” 162 hectares distribuídos por três serras, concretamente Montemuro, Alvão e Arga, todos eles sítios de importância comunitária, ao abrigo da Rede Natura 2000.

Paulo Monteiro

reportagem

58 PARQUE NATURAL João L. Teixeira

DO TEJO INTERNACIONAL

Parques e Vida Selvagem primavera 2016 • 9


10 VER E FALAR

A voz dos

leitores As mensagens chegam à redação pouco a pouco, à medida que a revista vai chegando a quem a lê

Jorge Gomes

Revistas anteriores

Pedro Cardoso pergunta em 17 de abril: «Boa noite. Poderiam dizer-me quantas crias o ganso-patola pode ter de uma só vez? E quais são os seus rituais de acasalamento e em que época acasalam?». Vanessa Soeiro, veterinária do Parque Biológico de Gaia, responde: «As aves desta espécie só nidificam no Norte da Europa, a maioria das vezes em grandes penhascos e em colónias. A época reprodutiva é de março a setembro. As fêmeas costumam pôr apenas um ovo. Para informação adicional recomendo o link a seguir: http://animaldiversity.org/accounts/Morus_ bassanus».

Biblioteca da Escola Dia 4 de dezembro do ano passado, a professora Celina Alves também apelou em correio eletrónico: «Enquanto Professora Bibliotecária da Escola Secundária de Vila Real de Santo António, venho, por este meio, solicitar a oferta, em formato papel, da revista trimestral “Parques e Vida Selvagem” para o acervo da nossa biblioteca, uma

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vez que as questões ambientais são uma preocupação a ter em consideração no Mundo atual. O nosso objetivo é criar um cantinho permanente sobre o Ambiente, na Biblioteca Escolar, onde a Revista poderá ter um especial destaque pela sua relevância pedagógica. É, também, importante referir que a Biblioteca não possui nenhum exemplar desta ou de outra revista sobre esta temática e que o nosso acervo documental, na sua globalidade, é muito restrito sobre este assunto. Na hipótese de poderem vir a satisfazer o nosso pedido, ficarei desde já muito grata pelos motivos acima referidos. Grata pela atenção dispensada».

Parque Biológico de Gaia, respondeu: «O consumo de bolotas por parte de povos da Antiguidade é conhecido em praticamente todos os locais em que estas ocorrem, persistindo ainda alguns casos de consumo até aos nossos dias, em vários continentes. No caso da Península Ibérica é conhecido o consumo das bolotas deste carvalho, embora não sejam tão doces e tão comummente consumidas como a de outras espécies mais palatáveis. No entanto, o consumo por parte dos nossos antepassados é difícil de provar, mas dada a disponibilidade destes frutos seria um grande desperdício os nossos antepassados não os utilizarem».

Bolotas de Carrasco André diz por e-mail em 6 de janeiro: «Boa noite, venho por este meio perguntar se sabem se os povos antigos comiam bolotas de Carrasco (Quercus coccifera) e se existe algum registo disso na história». Henrique Alves, botânico e técnico do

Jorge Gomes

Ganso-patola

Os pedidos de leitores no sentido de conseguirem adquirir também revistas mais antigas continuam a chegar. Como entretanto já não há exemplares em armazém para atender a essas solicitações, a alternativa de reunir uma coleção completa recai na internet: basta ir ao site www.parquebiologico.pt, procurar Recursos e depois Revistas – todas as anteriores edições da revista «Parques e Vida Selvagem» estão aí disponíveis.


Eclipse Ocorreu em Portugal um eclipse solar no passado 20 de março de 2015, por volta das 8h30/9h00. O fenómeno resulta da interposição da Lua entre a Terra e o Sol, inibindo a intensidade solar. Apesar das nuvens que nessa manhã pareciam fazer questão de tapar a abóbada celeste, houve algumas tímidas abertas que permitiram registar algumas imagens. Nas Ilhas Faroé, Svalbard e região Ártica o eclipse pôde ser observado com total cobertura da superfície solar. O próximo eclipse, que será total no nosso país, concretamente na zona de Miranda, só terá lugar em 12 de agosto de 2026.

Henrique N. Alves

Faixa litoral

Jorge Gomes

Subordinados ao tema “A faixa litoral de São Paio à Granja, ocupação humana e processos geomorfológicos”, os Encontros de Maio decorreram em 28 e 29 desse mesmo mês no auditório do Parque Biológico de Gaia. Diversos oradores deram corpo ao programa do certame, cuja organização esteve a cargo de Sérgio Monteiro-Rodrigues, Maria de Jesus Sanches, Maria Assunção Araújo, Cláudia Manuel, Alberto Gomes e José Teixeira. Site do evento - http://encontrodemaio.weebly.com Conferência da Estação Litoral da Aguda, representada por Jaime Prata

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12 FOTONOTÍCIAS

O calor é como o sal

Ninho aquático

Aqui no Noroeste da Península Ibérica esta espécie de sardanisca é abundante. Já o foi mais, é verdade, quando a paisagem agrícola era frequente. Hoje, apesar da fragmentação de habitats, ainda se veem num muro ou a restolhar as folhas quando fogem na berma de um caminho. Esse facto banaliza-as diante do olhar de um cidadão comum, o que para a lagartixa-de-bocage, Podarcis bocagei (Seoane, 1884), é indiferente desde que as moscas e aranhas, lagartas e quejandos não deixem de lhes aparecer na proximidade, assim como o esconderijo para onde correm rapidamente assim que sobrevém receio. Se a compararmos com outras espécies do resto do Globo, ela ganha galões e bem pode resgatar a sua importância, pois em todo o Mundo este animal apenas existe no Noroeste da nossa bela península, o que equivale a dizer que é um endemismo ibérico. Como réptil que é gosta de se aquecer ao sol, mas assim que a temperatura corporal atinge os níveis adequados, despacha-se a reduzir a exposição para exprimir dominância territorial, namoriscar ou alimentar-se como verdadeiro dragão rupícola sem asas que é! Esta coisa do calor tem que se lhe diga: se for a menos traz letargia, se for a mais pode matar.

Pato? Não! Mergulhão. Melhor: mergulhão-anão. Não são a mesma coisa, embora ambos gostem muito de água. Se o visse andar a seco, o que não é frequente, ia perceber que há ali algo diferente. As patas encontram-se situadas pela evolução das espécies um pouco mais para trás. Esse facto dá-lhes outra velocidade quando imergem em busca de alimento. No final da primavera fazem o ninho assente em vegetação aquática, rodeado de água. Passado o verão deixam as cores garridas da fotografia. É que penas predominantemente cinzentas no inverno ficam mais a condizer...

Jorge Gomes

Ano dos solos

12 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016

O sol demora-se no convite: há que pôr o pé caminho fora nalgum trilho marcado por maresia, bosques ou campos. Bailam aromas na brisa e percebe-se que no Ano Internacional dos Solos o chão em que assenta o trajeto deve vestir-se a condizer. Solo despido de plantas perde-se. Incêndios frequentes, mais ainda em vertentes inclinadas, levam a camada fértil ribeiro fora e deixam à vista a pedra que aflora, que de tudo se quer desprender. Irá distante o tempo em que a sucessão ecológica a vestiu de líquenes e musgos. Chegaram logo que possível ervas e arbustos, e por fim árvores generosas. Sempre que se pensa nisto, é incontornável


Samuel Buton

Ana Severino

deixar de perceber o esforço persistente das plantas: solo acumulado pouco a pouco, mais devagar que grão a grão quando a galinha enche o papo. As plantas fazem do solo uma esponja viva. Sempre que chove o suficiente, a água encharca e desprende-se gota a gota, a instalar fontes e ribeiras. Quer a água quer a terra fértil criada pelos ecossistemas naturais são fundamentais para a subsistência da agricultura, que enche os celeiros do ser humano. Pisado por todos e mais alguns, poucos ponderam que os solos podem não durar para sempre, nem tão pouco que são eles um dos elementos básicos geradores de vida. Da nossa vida.

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14 FOTONOTÍCIAS

S Uma fêmea de cabra-loura é o pomo da discórdia entre dois machos que, mais acima, querem copular com ela

Jorge Gomes

14 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016

Para voar, este macho X de cabra-loura tem de levantar os élitros: só depois as asas podem agitar-se energicamente erguendo-o pelo ar, em busca de fêmeas

Jorge Gomes

Quando a primavera se vai transformando em estio traz consigo a eclosão no estado adulto de muitos insetos do grupo dos coleópteros, como é o caso dos fascinantes pirilampos e de um outro ser vivo muito especial, o maior da Europa neste grupo, a que os cientistas chamam Lucanus cervus. Os usos populares, contudo, dão à espécie nomes vulgares de uso fácil: vaca ou cabra-loura. Animal aparentemente preto ou castanho-escuro, quer na fêmea quer no macho, distinguem-se sobretudo estes pelo tamanho exagerado das mandíbulas. Sendo assim, cabra-loura porquê? Decerto pelo risco amarelo que uma observação cuidada evidencia na cabeça. Mais robustos, os machos podem atingir um comprimento de sete ou oito centímetros e, pelo aspeto, aparentam não voar... Não é assim, nem para eles nem para elas, pois conseguem mesmo fazê-lo, sem perder obviamente o condão de serem verdadeiros pesos-pesados. Associados aos carvalhais, portanto, outrora mais frequentes, são a fase adulta de larvas que se alimentam de madeira em avançado estado de decomposição, pouco nutritiva, o que faz com que demorem à volta de quatro anos a chegar à fase de pupa. No outono, enquanto vai num dos seus passeios pelo Parque Biológico de Gaia, ocultas no respetivo habitat estarão umas tantas a formar-se para, na próxima primavera, aparecerem em formato adulto, talvez para uma breve existência de 15 a 20 dias, a fim de transmitirem os genes a uma nova geração.

Jorge Gomes

Pesos-pesados do carvalhal


PORTFOLIO 15

S Paulo Ferreira recebe o 1.º Prémio Terra e Espaço

Espaço profundo

Por vezes basta manusear de modo sagaz a máquina fotográfica; outras vezes o projeto pede mais, tudo para que as constelações, num formato fotográfico de imensa qualidade, fiquem mais próximas da Terra merge esta ideia ao visitar a exposição do terceiro Concurso Nacional de Fotografia do Observatório Astronómico do Parque Biológico de Gaia que abriu sábado, 6 de junho, pelas 15h00, com a entrega dos prémios atribuídos pelo júri, no caso formado por Luís Lopes, Pedro Ré e Paulo Casquinha. As fotografias distinguidas foram as seguintes: Vencedor Geral e 1.º Prémio Espaço Profundo, Paulo Lobão, “NGC 6888 + PNG 75.5 + 1.7 – Nebulosa do Crescente + Nebulosa Bolha de Sabão”; 2.º Prémio Espaço Profundo, Nuno Pina Cabral, “1. Nc3”, Nebulosa da Cabeça do Cavalo, IC 434 e Nebulosa da Chama NGC 2024; 1500 ly; 1.º Prémio Terra e Espaço, Paulo Ferreira, “Pôr-do-sol nas Pedras Amarelas”; 2.º Prémio Terra e Espaço, Mário Luís Rocha, “Floresta”; 1.º Prémio Sistema Solar, João C. Vieira, “Cometa Lovejoy 2015 Q2”; 2.º Prémio Sistema Solar, Miguel Claro com “Moon Earthshine – The Leonardo Da Vinci phenomenon”. Foi possível visitar até ao final do verão de 2015 a exposição de fotografia composta por estes e muitos outros trabalhos no salão de fotografia da natureza do Parque Biológico de Gaia, entre as 10h00 e as 18h00.

S A Paulo Lobão o júri atribuiu o Prémio de Vencedor Geral

E

Deep space Sometimes, all it takes is to operate the camera, while in other instances it requires a bit more effort, so that the Constellations, in the shape of high-quality photos, seem closer to Earth. This feeling is evoked when visiting the Third National Photography Contest, organized by the Observatório Astronómico of Parque Biológico de Gaia, which began on the 6th of June, at 15h00, when the Jury, composed of Luís Lopes, Pedro Ré and Paulo Casquinha, awarded the winning photographs.

Parques e Vida Selvagem primavera 2016 • 15


16 PORTFOLIO

16 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016


S 1.º Prémio categoria Espaço Profundo e Vencedor Geral – Paulo Alexandre Lourenço Lobão, “NGC 6888 + PNG 75.5 + 1.7 – Nebulosa do Crescente + Nebulosa Bolha de Sabão"

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18 PORTFOLIO

S 2.º Prémio categoria Terra e Espaço – Mário Luís Domingues Rocha, “Floresta”

18 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016


S 2.º Prémio, categoria Espaço Profundo — Nuno Manuel Tavares de Pina Cabral, “1. Nc3”, Nebulosa da Cabeça do Cavalo, IC 434 e Nebulosa da Chama NGC 2024; 1500 ly"

S 1.º Prémio categoria Terra e Espaço – Paulo Manuel Sousa Pereira Ferreira, “Pôr-do-sol nas Pedras Amarelas”

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20 PORTFOLIO

S 2.º Prémio categoria Sistema Solar – Carlos Miguel Garcia Claro, “Moon Earthshine – The Leonardo Da Vinci phenomenon”

S "Reino Estrelado", de André Borges

S "Polaris", de João Carlos Gomes

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S "Epicentro", de Jorge Manuel

S "IC 410", de Nuno Miguel Carregueira


S 1.º Prémio categoria Sistema Solar – João Casimiro C. Vieira, “Cometa Lovejoy 2015 Q2”

S "Nebulosa Orionte", de Paulo Mesquita

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22 CONTRA-RELÓGIO

Estratégia mundial para a conservação das

espécies vegetais As plantas são uma parte vital da diversidade biológica: além do número relativamente pequeno de plantas de cultivo de que dependemos para obter alimentos e fibras, existem milhares e milhares de plantas selvagens que têm grande importância económica e cultural, pois proporcionam alimento, produtos medicinais, combustível, roupa e proteção para todos os seres humanos

uitas espécies vegetais estão em perigo de extinção, ameaçadas pela transformação do seu habitat, pela sobreexploração, pelas espécies exóticas invasoras, pela contaminação e pelas alterações climáticas. O desaparecimento destes componentes vitais da diversidade biológica é um dos maiores riscos que enfrentam os seres humanos. O objetivo da Estratégia Mundial para a Conservação das Espécies Vegetais consiste em suster a perda de diversidade de espécies vegetais, contribuir para a redução da pobreza e aumento do desenvolvimento sustentável, e promover a

M

22 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016

participação nos benefícios derivados da utilização dos recursos fitogenéticos. A Estratégia Mundial para a Conservação das Espécies Vegetais facilita a cooperação a todos os níveis – local, nacional, regional e mundial – para alcançar a compreensão, conservação e utilização sustentável da imensa riqueza mundial de diversidade vegetal, gerando por sua vez consciência e criando as ferramentas necessárias para a sua aplicação. A aplicação plena da Estratégia Mundial para a Conservação das Espécies Vegetais terá muitas consequências positivas. As sociedades de todo o mundo compreenderão um dia bem


factos &números mais de 300 mil •Existem espécies vegetais conhecidas na Terra. As plantas são a base de toda a • cadeia alimentar. compostos procedentes • deOsespécies vegetais constituem a base de 50% dos medicamentos modernos que se receitam nos consultórios médicos. Muitas plantas contêm • elementos que podem curar enfermidades humanas, mas muitos destes componentes estão ainda por descobrir. Oitenta por cento da população • mundial depende da medicina

Global Strategy for Plant Conservation Plants are a vital part of Biodiversity. In addition to the relatively small number of crop plants that we rely on for food and fibres, many thousands of wild plant species have great economic and cultural importance – providing food, medicine, fuel, clothing and shelter for all human beings. Threatened by habitat transformation, overexploitation, invasive alien species, pollution and climate change, many plant species are in danger of extinction. The disappearance of such vital components of Biodiversity is one of the greatest threats facing humanity.

David Guimarães

melhor a importância das plantas e usá-las-ão de maneira mais sustentável. Logo, todas as pessoas poderão continuar a depender das plantas para obter alimento, água potável, artigos medicinais e outros serviços vitais gerados pelos ecossistemas, como a própria regulação do clima. Serão partilhados os benefícios derivados da utilização das plantas, aumentando por sua vez o bem-estar humano e ajudando a preservar os conhecimentos e tradições das comunidades indígenas ou que se localizem nas regiões em causa. Fonte: www.cbd.int

tradicional baseada em plantas. vegetais e os solos • dosAs espécies ecossistemas húmidos e aquáticos, como os bosques e pântanos, desempenham um papel crucial na retenção e purificação da água. Cerca de 34 mil espécies • vegetais estão atualmente em perigo de extinção. As plantas medicinais são • utilizadas em elevada escala em todo o Mundo em desenvolvimento, como por exemplo no Gana, onde 60% das febres infantis causadas por malária são tratadas em primeira instância pela medicina tradicional baseada em plantas. Para atenuar a fome e a • sede, o povo San utiliza um supressor de apetite derivado e desenvolvido a partir de espécies de plantas suculentas de África Meridional (Hoodia spp.).

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24 QUINTEIRO

Aprender

mais

Quando tem o prazer de observar aves selvagens no seu jardim já se perguntou se está a tirar todo o partido possível desse Jorge Gomes passatempo? É que pode não Coordenador da revista Parques e Vida Selvagem estar a ter em conta uma série de dicas que ajudarão a aproveitar melhor a presença da vida selvagem no seu quinteiro

V

24 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016

pela evolução para que qualquer predador, ao agredir o pequeno lagarto, se distraia com a parte quebrada da cauda a agitar-se energicamente enquanto o pequeno réptil se põe na alheta. Depois, a cauda volta a crescer. Ora bem, e não é que já foram observados chapins desta espécie a aproveitar as caudas? Na altura de criar prole, as aves do seu

S Um jardim com água atrai mais vida selvagem

Jorge Gomes

egetação e água, caixa-ninho e alimentador de jardim são nucleares para atrair mais vida selvagem para perto de si. Nem todos dão maior relevância às aves, mas como estas se revelam normalmente as mais estudadas, levam a fatia de leão no que respeita a interessados. A verdade é que tudo se liga, inclusive a répteis. O bonito chapim-real que se conta entre aves cavernícolas, as que gostam de nidificar em buracos de árvores ou de muros, foi objeto de registo interessante: embora seja visto como espécie granívora, dada a frequência com que se vê nos alimentadores de jardim, aprendeu a utilizar recursos sustentáveis. Queremos com isto dizer que as sardaniscas que tenha o júbilo de contar no seu quinteiro, como sabe, evoluíram de modo a quebrar com facilidade a cauda. As vértebras estão assim gizadas

jardim trocam de bom grado o grão pelos invertebrados que encontram no seu jardim, sejam eles insetos ou minhocas. É por isso que em devido sítio uma pilha de pedras e de pequenos troncos são alfobres capazes de enriquecer a biodiversidade do seu jardim. Entretanto, fica o alvitre...

Atualize o seu caderno de notas Pode estruturá-lo como se de um diário se tratasse. Há observações que com o tempo facilmente vai esquecer e que, ligadas a outras, podem revelar padrões que aumentam o seu conhecimento de campo. Além disso, ao longo do ano são sempre as mesmas espécies, na mesma quantidade, que visitam o seu jardim?


Jorge Gomes

Fotolia © Dmytro Smaglov

Jorge Gomes

S Quando os juvenis de chapim-real estão prestes a sair do ninho comem mais

S Nesta altura os progenitores apressam-se a retirar as fezes para que o cheiro não atraia predadores

O clima afeta a vida selvagem à porta de sua casa Tenha em conta a temperatura dos dias das observações, se há vento, sol ou chuva, e procure localizar padrões, bem como a relação que estes têm com a presença de vida no seu jardim. Tente detetar as rotinas das aves selvagens Quais são, dia a dia, as primeiras a visitar o seu jardim? E em que quantidade? Analise a aves que são dominantes e as características corporais que apresentam. Têm uma plumagem mais vistosa? São mais bem constituídas? E existem as que apresentam uma plumagem que foge do habitual? Pode haver albinismo…

Câmaras fotográficas e de vídeo Nas caixas-ninho, ou em locais estratégicos, ao instalar uma câmara pode vir a ter surpresas, seja em espécies mais furtivas que visitem o seu comedouro de jardim seja na atividade de predadores.

Estabeleça os seus próprios recordes Seja pela diversidade de espécies observadas seja pela quantidade que anota, faça os seus registos e tente encontrar quem procede da mesma maneira. A possibilidade de registar e comparar factos, a longo prazo, pode fornecer informações úteis à compreensão da mudança do tempo e dar nota de como a vida selvagem se consegue adaptar.

Os britânicos são muito ativos neste setor de ocupação de tempos livres. Por exemplo, a RSPB – Royal Society for Protection of Birds – é uma das instituições que o faz através de uma iniciativa chamada Big Garden Birdwatch – grande observação de aves selvagens. Também a BTO – British Trust for Ornithology – interage com os interessados através de uma atividade conhecida por Garden BirdWatch – Observação de aves selvagens no jardim. Há também a Garden Wildlife Health a agregar observações que reportam casos de aves doentes. Com estes elementos, há que meter mãos à obra!

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26 QUINTEIRO

Trioza erytreae, Del Guercio

Psila africana dos citrinos Carlos Coutinho Divisão de Apoio ao Setor Agroalimentar, DRAPN

A psila africana dos citrinos (Trioza erytreae) é um inseto picador-sugador, originário da África subsariana, tendo como hospedeiros exclusivamente plantas da família das Rutáceas, espontâneas e cultivadas, entre as quais os citrinos

mbora pareça ter preferência por limoeiros (Citrus limon) e limeiras (Citrus aurantiifolia), encontrase também nas outras espécies (laranjeira doce e azeda, tangerineira, torangeira e cumquates (Fortunella spp.)). É vetor da bactéria causadora da forma africana da doença conhecida como citrus greening disease (Candidatus Liberibacter africanus), que leva ao declínio e morte prematura dos citrinos. Esta praga exótica de quarentena foi observada pela primeira vez na Europa em 1994, na Ilha de Porto Santo (Madeira) e mais tarde, em 2002, nas Ilhas Canárias. Em 2014 foi identificada pela primeira vez na província de Pontevedra, na Galiza e em Portugal Continental em quintais do Porto e de Matosinhos. Temperaturas amenas e humidades do ar elevadas, em terrenos situados até 500 ou 600 metros de altitude, em que os citrinos têm diversas épocas de rebentação no ano, são ótimas para o desenvolvimento desta praga. Assim, a Região de Entre Douro e Minho reúne condições para que a praga aí se expanda sem dificuldade, a não serem tomadas medidas de controlo adequadas e efetivas.

E

Biologia No início da primavera, os adultos emergem, acasalam e as fêmeas iniciam de seguida as

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posturas. Os adultos, com cerca de 4 mm, são voadores eficazes e fogem rapidamente quando são incomodados. Cada fêmea pode produzir 2000 ovos ao longo dos seus 30 dias de vida, depositando-os durante o dia nas extremidades dos ramos mais expostos à luz, nos rebentos novos em desenvolvimento. Ao fim da tarde, os insetos adultos procuram refúgio no interior da copa das árvores, onde passam a noite abrigados. Dos ovos nascem as ninfas, que se fixam na página inferior das folhas, produzindo depressões (galhas abertas), sintoma caraterístico do ataque deste inseto. Os ovos e os primeiros estados ninfais, são muito sensíveis a condições de tempo quente e seco, que originam elevada mortalidade. Cada geração, do ovo à eclosão do inseto adulto, pode durar de 40 a 100 dias, aproximadamente, dependendo da temperatura ambiente. A psila africana não tem diapausa (período de hibernação), mas com temperaturas inferiores a 10o C, as ninfas não se desenvolvem.

Dispersão A dispersão natural de Tryoza erytreae não vai além de 1,5 km de distância. Pelo contrário, material vegetal procedente de zonas infetadas pode transportar ovos e/ou ninfas a milhares de quilómetros. O transporte da praga em frutos é muito pouco frequente.

Do mesmo modo, a bactéria causadora do citrus greening disease pode ser transmitida pelo inseto vetor até um máximo de 1,5 km. No entanto, esta bactéria pode também ser transmitida por enxertia de material infetado e por plantação de árvores infetadas, o que possibilita a transmissão da doença a longas distâncias.

Sintomas e prejuízos As ninfas, fixadas no verso das folhas dos rebentos, alimentam-se de grandes quantidades de seiva, injetando ao mesmo tempo toxinas na planta. Por vezes, aparecem juntas nos mesmos ramos e folhas psila africana, larva mineira (Phylocnistis citrella), mosca branca, fumagina, etc.. As picadas de alimentação das ninfas dão origem a galhas e deformações nas folhas, que se apresentam atrofiadas, encarquilhadas, enroladas e amareladas, originando o enfraquecimento da árvore e a diminuição da quantidade e qualidade da produção. No entanto, o problema principal é o facto de este inseto, na forma ninfal e adulta, ser vetor da bactéria Candidatus Liberibacter africanus, causadora da forma africana da doença denominada citrus greening disease. Esta doença grave tem como sintomas o amarelecimento irregular das folhas, ficando as nervuras salientes e amarelas. Os frutos crescem pouco, apresentam-se


Carlos Coutinho

Carlos Coutinho

S Início da infestação de jovens rebentos de limoeiro. As ninfas nascidas dos ovos fixam-se na página inferior das folhas, formando depressões (galhas) que vão crescendo à medida que as folhas se desenvolvem.

Carlos Coutinho

S As ninfas de Tryoza eritreae invadem os rebentos novos das árvores. Fixam-se na página inferior das folhas, provocando a formação de galhas abertas nas quais se fixam e vivem sugando a seiva da folha. Causam graves deformações dos rebentos e o atrofiamento, enrolamento e clorose das folhas.

deformados (assimétricos) e descoloridos, no todo ou em parte, não amadurecem e têm sabor amargo. As árvores atingidas por citrus greening apresentam uma copa pouco densa, ramos esparsos e pouco desenvolvidos, secando a partir das extremidades e folhagem esparsa e amarelada. Dá-se uma severa queda dos frutos e o declínio progressivo da árvore. De acordo com as informações disponíveis, o citrus greening não foi até ao momento despistado na Europa.

Medidas de controlo

Carlos Coutinho

S Página inferior de folha mostrando as galhas formadas pela fixação das ninfas de Tryoza eritreae.

S Lançamentos novos de limoeiro fortemente infestados. As folhas acabam por enrolar acentuadamente para o interior.

Como medidas de combate a esta praga de quarentena, salienta-se a proibição da entrada no país de material de propagação de citrinos (plantas inteiras, porta-enxertos e garfos e borbulhas para enxertia), provenientes de países onde seja conhecida a existência de Tryoza eritreae. • Cortar e queimar de imediato os ramos com sintomas da praga. • Aplicar de seguida um tratamento contra as formas hibernantes de insetos e ácaros à base de óleo de verão, tendo o cuidado de atingir completamente toda a copa da árvore. • As árvores afetadas devem ser sujeitas a monitorização durante o ano, colocando nas árvores placas adesivas amarelas, para captura destes insetos. Desta forma,

poder-se-á confirmar a eliminação ou não da praga e dar continuidade, se necessário, à aplicação de medidas para o seu combate. No final da primavera – início do verão ou aquando da rebentação de outono, pode ser aplicado um inseticida apropriado, apenas nas plantas afetadas e nas circundantes, em pomares e árvores dispersas em produção e com particular cuidado em viveiros. A aplicação de óleo de verão contra as cochonilhas tem também efeito no combate à psila africana.

Fontes Data Sheets on Quarantine Pests Trioza erytreae ( https://www.eppo.int/ QUARANTINE/insects/Trioza_erytreae/ TRIZER_ds.pdf); Situación de Trioza erytreae en Canarias (http://www.ivia.es/nuevaweb/jornadas/ hbl/3_F.Siverio%20Liberobacter%20 2007%20-%20Canarias.pdf ) Citrus Greening (Huanglongbing) (http:// www.crec.ifas.ufl.edu/extension/greening/ index.shtml )

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28 QUINTEIRO

Biofumigação – Uma técnica ecológica de tratamento do solo A horticultura intensiva associada a práticas agrícolas desadequadas (adubações desequilibradas, ausência de rotações culturais, tratamentos fitossanitários abusivos, etc.), tem conduzido ao desequilíbrio das populações de organismos úteis do solo, daí resultando uma maior incidência de problemas fitossanitários do solo difíceis de controlar utilização sistemática de fitofármacos (nematodicidas e herbicidas) conduz à poluição do ambiente e à entrada de contaminantes na cadeia alimentar. A biofumigação é uma técnica de tratamento do solo, que permite não só inativar os agentes fitopatogénicos nele presentes, como também melhorar a fertilidade física (estrutura e porosidade), química (disponibilidade de nutrientes para as culturas) e biótica do solo (atividade dos microrganismos úteis e antagonistas).

A

O que é a biofumigação A biofumigação permite reduzir a população de microrganismos patogénicos e de plantas infestantes, através da ação tóxica de compostos orgânicos voláteis resultantes da decomposição anaeróbica de resíduos orgânicos frescos. Esta técnica de tratamento do solo, é eficaz em profundidade, por difusão dos gases tóxicos, tem um tempo de actuação entre 1,5 a 2 meses e pode ser realizada em qual quer época do ano, pois é independente das condições meteorológicas. Como resíduos orgânicos podem usarse estrumes da atividade pecuária, sub-produtos agro-industriais (bagaço de azeitona e de uva, casca de arroz), resíduos de brássicas (couves, nabos, colza), ou resíduos provenientes do

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enterramento de espécies biocidas, semeadas para o efeito (Quadro 1). A utilização de brássicas semeadas ou dos seus resíduos revela-se especialmente eficaz na biofumigação, porque contém glucosinolatos, que por degradação no solo são transformados em isotiocianatos com ação tóxica sobre patogéneos e propágulos (sementes, bolbos, bolbilhos, rizomas) de infestantes.

Como proceder Distribuir os resíduos de brássicas, de preferência triturados, sobre a parcela a tratar, numa dose de 5 kg/m2, e proceder à sua incorporação imediata a uma profundidade de 15 a 20 cm. Após a incorporação regar o solo à capacidade de campo (até encharcar), de modo a garantir as condições de anaerobiose e a retenção T Incorporação dos resíduos

Maria Manuela Costa Divisão de Apoio ao Setor Agroalimentar, DRAPN

de gases tóxicos. Cobrir o solo com um plástico, preferencialmente de polietileno transparente de 100 mm, mas pode usar-se plástico de cobertura das estufas. Enterrar o plástico lateralmente. Dever-se-á garantir que os plásticos não apresentam rasgões de modo a evitar a perda de gases com ação tóxica. O solo deverá permanecer coberto durante aproximadamente 70 dias. Quando a área a tratar é grande a cobertura com plástico pode não ser uma prática economicamente viável. Nessa situação, se o solo apresentar uma textura média ou fina, pode optar pela rolagem do solo, seguida de rega por aspersão. Esta operação conduzirá á formação de uma “crosta” de solo superficial, impermeável à fuga dos gases, que beneficiará a ação biofumigante.

Quanto tempo é necessário aguardar entre a biofumigação e a plantação Após a retirada dos plásticos, mobilizar o solo superficialmente. Pode proceder-se à sementeira ou plantação passados alguns dias.

Biofumigação com espécies biocidas Em alternativa à incorporação de resíduos de brássicas pode procederse à sementeira de espécies biocidas nomeadamente de Brassica carinata (Couve-africana), Brassica juncea (Mostarda-das-índias), Brassica napus (Colza), Brassica rapa (Nabo-ordinário),


S Aspeto dos resíduos de brássicas triturados

S Pesagem dos resíduos (5 kg)

Bibliografia consultada Barrau, C., Porras, M., Romero, E., Zurera, C, Ramos, N., Soares, C, Neto, E., Marreiros, A., Entrudo, J. & Romero, F. 2009. Brassica carinata for control of Phytophthora spp. in strawberry field crops. Revista das Ciências Agrárias 32: 135-138. Bello, A., Lopez-Perez, j.A. & Alvarez G. A. Biofumigación en Agricultura Extensiva de Regadio. Production Integrada de Hortícolas. Fundacion Rural Caja Alicante e Ediciones S Pormenor da colocação do plástico, com enterramento marginal para fixação

S Aspeto do plástico colocado sobre o solo

Mundi-Prensa Ferreira, J.C. 1988. Solarização. p. 303-306.

Rhaphanus sativus (Rábano), Sinapsis alba (Mostarda-branca) e Solanum sisymbrifolium (Mata-cavalos). A sementeira realiza-se com uma densidade média de 2 g/m2, à profundidade de 1-2 cm, no período de março-setembro, sendo a incorporação da biomassa realizada no

início da floração (tempo médio desde a sementeira até à incorporação de 40 a 50 dias). No quadro, referem-se alguns exemplos de espécies biocidas e os organismos patogénicos sobre os quais actuam.

In: Ferreira, J. (coord.), Manual de Agricultura Biológica. Agrobio. Lisboa. Karavina, C & Mandumbu, R. 2012. Biofumigation for crop protection: potencial for adoption in Zimbabwe. Journal of animal & PLant Sciences, Vol.14, Issue 3:1996-2005. http://www.m.elewa.org/JAPS:ISSN 20717024

Quadro 1 – Espécies biocidas que podem ser usadas no controlo de organismos fitopatogénicos

Costa, M. Miranda, F., Guerra. P. & Veloso. A. 2011. Efeito da solarização e biofumigação

Espécie

Organismos fitoparasitas sobre os quais têm ação biocida Nemátodes

Fungos

Brassica carinata

Meloidogyne javanica

Sclerotinia, Pytium, Rhizoctonia, Phytophthora

Brassica juncea

Globodera pallida

Sclerotinia, Pytium, Rhizoctonia

no desenvolvimento de infestantes e na produtividade de uma consociação (alface x rabanete) em estufa Actas do 3º Colóquio Nacional de Horticultura Biológica, 1ª Colóquio Nacional de Produção Animal Biológica, 22 a 24 de Setembro de 2011, Auditório Vita, Braga

Brassica napus

Sclerotinia, Pytium, Rhizoctonia, Phytophthora

Brassica rapa

Globodera pallida

Rhaphanus sativus

Heterodera e Meloidogyne

Mourão, I., Carvalho, N., Brito, L. M., Moura, L. 2008. Efeito da solarização e da biofumigação do solo no controlo de infestantes e na

Sinapsis alba

Heterodera

Solanum sisymbrifolium

Globodera rostochiensis, G pallida & G. tabacum

produtividade da cultura de nabo. Proc. I

Sclerotinia, Pytium, Rhizoctonia

Congresso Nacional de Produção Integrada / VIII Encontro Nacional de Protecção Integrada, Ponte de Lima. p. 389-398.

Parques e Vida Selvagem primavera 2016 • 29


30 LITORAL

Anfíbios das Ribeiras de Gaia S Salamandra-de-pintas-amarelas

Na zona costeira de Gaia são inúmeros os rios e ribeiras que enriquecem a paisagem e, desvendam segredos da sua história e do seu património natural ocalizado nas proximidades de uma destas ribeiras, a ribeira Espírito Santo, podemos encontrar o Centro de Educação Ambiental das Ribeiras de Gaia – CEAR, não muito longe da zona balnear de Miramar. Neste centro podemos conhecer mais de perto a fauna e flora características das ribeiras do Norte de Portugal, desde a nascente até à foz. Um destes grupos de animais são os característicos anfíbios, tão úteis e necessários nestes ambientes, mas, não raras vezes, pouco compreendidos e valorizados pela comunidade. No CEAR estão patentes ao público seis espécies de anfíbios, todas elas representadas na maior parte do território português. Destes, o exemplar mais surpreendente da exposição é a Salamandra-de-pintas-amarelas, que cativa não só pela coloração característica da espécie, com manchas amarelas em fundo preto, mas também, pelo seu comprimento de 22 cm, conseguindo superar em vários centímetros o tamanho médio da espécie, entre 14 cm e 17 cm. É de notar igualmente,

L

30 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016

pontuações vermelhas na região da cabeça, como acontece nalguns indivíduos, entre a cabeça e o corpo. Têm como principal mecanismo de defesa a secreção de substâncias tóxicas, através de glândulas cutâneas que se concentram em cada lado da linha média vertebral e, nas regiões laterais da cabeça com as suas grandes glândulas parótidas, onde são bem visíveis pequenos poros pretos. A associação com cores chamativas sinaliza aos predadores a sua elevada toxicidade. Também conhecida como Salamandra-de-fogo, Saramaganta, Salamandra-comum ou Saramela, é a espécie de anfíbio português a que estão associados mais mitos, nomeadamente

S Centro de Educação Ambiental das Ribeiras de Gaia - CEAR

o facto de serem imunes ao fogo, por serem vistas a sair das fogueiras, devido ao seu refúgio na lenha destinada a esse fim, ou o facto de serem os primeiros animais a comerem os mortos. No entanto, estes animais, tal como os restantes anfíbios, desempenham um papel muito importante nos ecossistemas pela sua predação e controlo dos insetos vetores de doenças e, outros invertebrados, que tantas vezes infernizam as produções hortícolas. A criação de pequenos charcos pode ser uma excelente iniciativa para reparar os danos ecológicos do assoreamento das áreas naturais alagadas, que pontuavam largamente as paisagens do litoral e do interior. Uma outra curiosidade, também pouco conhecida das Salamandras-depintas-amarelas, é o facto de terem uma longevidade considerável, alcançando a maturidade sexual ao fim de 3-4 anos e perdurando na natureza até cerca de 20 anos. Em cativeiro podem atingir cerca de 50 anos, três vezes mais do que um cão ou um gato. Sobre a anfitriã do CEAR confirma-se que terá pelo menos 17 anos de idade, tendo ingressado no centro, já adulta, no ano de 2002. Nada nos surpreenderia pois se já tivesse os seus 30 ou 40 anos de idade! Por Anabela Pereira


DUNAS 31

Cordão

dunar

s passadiços que protegem o cordão dunar do pisoteio que o desagregaria, proporcionam-lhe passeios surpreendentes. Estes habitat são protegidos por lei. A forte componente de diversidade da vida que sustentam, a biodiversidade, e a capacidade natural de suster a força do mar fazem com que sejam olhadas pelo ser humano com apreço e respeito. O Parque de Dunas situado na Aguda possui um centro de interpretação que foca múltiplos aspetos da dinâmica do litoral e ajuda quem o visita a compreender os ritmos da vida que se move sob a batuta do clima ao longo do tempo. Agora, quando largas dezenas de espécies de plantas dunares acordam para florir, percebe-se que a cooperação é uma das traves-mestras da natureza. Exemplo disso são os insetos polinizadores – abelhas, moscas, borboletas, etc. – que colhem um pouco de néctar junto de cada corola e levam pólen de flor em flor, ajudando a produzir mais e mais sementes. Além das aves que fazem ninho nas dunas, como os borrelhos, este ambiente natural serve de apoio nas migrações de seres vivos que ali descansam e se alimentam, recobrando energia para dar continuidade ao ciclo de vida de cada espécie. Para si fica a fatia de leão: o prazer de caminhar ao longo de cerca de 14 quilómetros e observar pouco a pouco as surpresas que se escondem por razões de sobrevivência nesta fímbria do litoral, ora feita de rochas ora de areia, mas sempre coroadas de vida.

O

João L. Teixeira

Henrique N. Alves

S Parque de Dunas da Aguda: bem observadas, as dunas são um mundo

S Silene-das-dunas

T Borboleta Pontia daplidice, em Jasione maritima: um dos insetos que nesta época se vê nas flores das plantas dunares – muitos deles são migradores...

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32 LITORAL

O cultivo do

Burrié

Um novo projeto científico na ELA

Littorina littorea é um dos gastrópodes marinhos mais comuns nas costas europeias do Atlântico Burrié é consumido pelo Homem vários grupos de reprodutores as melhores desde a idade da pedra lascada condições de vida, com vista à obtenção de e existe atualmente uma grande desovas significativas para o prosseguimento procura na França, Espanha das fases previstas e respeitantes ao e Portugal, sendo o Reino desenvolvimento larvar. Unido e a Irlanda os principais Na ELA foram instalados três fornecedores do mercado. sistemas iguais de recirculação A espécie é conhecida pelo de água salgada, incluindo nome de Burrié em português, cada um 15 aquários de 15 l, “Common Periwinkle” em dispostos em três níveis de inglês, e “Bigorneau” em cinco aquários cada (Fig. 1). Por francês. A sua apanha constitui Assunção Santos ajustamento da altura do tubo e Mike Weber uma atividade complementar de escoamento da água, o Estação Litoral da Aguda à pesca e é muitas vezes volume em cada aquário era a principal captura dos de 10 l, de modo a deixar uma pescadores apeados. A época margem “seca” de alta do consumo em Portugal é no verão e, 5 a 6 cm de altura à disposição dos animais (Fig. 2) como a produção local é insuficiente, torna. Uma bomba elevatória assegurou um se necessário recorrer a importações para fluxo de 1,2 l/min. em cada aquário. Os satisfazer a procura do mercado. filtros biológicos, instalados em aquários O projeto «Viabilidade técnica e económica de 140 l no nível inferior de cada sistema, da produção do Burrié (Littorina littorea)» combinaram peças cerâmicas, areia coralina PROBUR foi preparado pela empresa CONe, posteriormente, cascas de ostra para o AQUA Lda. de Aveiro, em colaboração com equilíbrio do pH. a Estação Litoral da Aguda ELA, o Instituto Os lotes de animais foram, sobretudo, de Ciências Biomédicas Abel Salazar ICBAS capturados na ria de Aveiro e um foi da Universidade do Porto, e o Centro importado da Escócia. Foram alimentados Interdisciplinar de Investigação Marinha com alface-do-mar (Ulva spp.), fornecida e Ambiental CIIMAR. O financiamento foi conforme consumo e substituída quando assegurado pelo Programa Operacional apresentava sinais de deterioração (Fig. 3). As tarefas diárias envolveram limpeza dos Pesca 2007-2013, contando nos últimos sistemas, alimentação dos animais, avaliação três meses com o apoio da empresa da qualidade da água e contabilização da municipal Águas e Parque Biológico de Gaia. mortalidade. A temperatura, pH e salinidade O projeto durou 20 meses e contribuiu para foram medidos diariamente e os nitritos, o enriquecimento dos conhecimentos sobre nitratos e amónia semanalmente, não tendo o ciclo biológico do Burrié e o processo do sido registadas diferenças significativas entre seu cultivo em sistema fechado. os três sistemas. A substituição de alguma O objetivo principal era proporcionar a

O

32 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016

S 1. Sistemas de cultivo dos burriés

S 5. Sistemas com fotoperíodo manipulado


S 2. Aquário com animais

S 3. Alimentação com alface-do-mar

S 4. Recolha de ovos num crivo de 550 μm

água foi regular, tendo em conta o volume relativamente pequeno em circulação. O crescimento dos diferentes lotes de animais foi acompanhado pela medição mensal da altura da carapaça e pela pesagem. O crescimento dos animais foi débil durante o período experimental e ocorreram mortalidades elevadas, provavelmente devido às mudanças fisiológicas durante o período de desova, eventuais carências nutricionais, e subida

da temperatura da água nos meses mais quentes. A desova natural começou no início do mês de março com o aparecimento de ovos à saída do tubo que conduz a água dos aquários ao filtro de cada sistema (Fig. 4). Também foram detetadas posturas fora da água, aderentes às margens superiores secas dos aquários. Todos os lotes se reproduziram no mesmo período de três meses, tendo-se efetuado recolhas de ovos e larvas em março, abril e maio, diariamente, para um tanque com 130 l de água, arejada e enriquecida com microalgas para alimento. Aí permaneceram até ao transporte para o CIIMAR, onde se efetuou o cultivo dos primeiros estados de vida. No outono de 2014 começou-se a indução artificial de uma época antecipada de reprodução pela manipulação do fotoperíodo, iluminando os aquários por períodos progressivamente maiores, à razão de três a quatro minutos por dia de aumento

(Fig. 5)

. A alimentação foi enriquecida e as culturas de microalgas para as larvas foram preparadas antecipadamente. A obtenção de uma época de reprodução antecipada, graças à manipulação do fotoperíodo, constituiu um sucesso assinalável desta experiência. Com efeito, as desovas em 2015 iniciaram-se logo no início de janeiro e prolongaram-se por sensivelmente três meses, tal como a desova em 2014. Este resultado é bastante promissor, porque abre a possibilidade de obter larvas por um período muito mais longo.

ESTAÇÃO LITORAL DA AGUDA Rua Alfredo Dias, Praia da Aguda 4410-475 Arcozelo Vila Nova de Gaia Tel.: 227 536 360 fax: 227 535 155 ela.aguda@mail.telepac.pt www.fundação-ela.pt

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34 DUNAS

João L. Teixeira

Estuário do Douro S Uma visita à Reserva Natural Local do Estuário do Douro traz sempre surpresas

Em junho já muitas aves estão em pleno período reprodutor. Muitas crias adquiriram entretanto alguma independência e realizam os primeiros voos, estando os progenitores atarefados a alimentar e proteger: daí que muitas aves não se deixem observar com tanta facilidade como noutras alturas do ano…

34 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016

interessante observar com atenção as andorinhas. A zona do sapal e envolvência torna-se um espaço importante para estas espécies que não só procuram insetos concentrados nesta zona húmida como procuram as “bolinhas de lama” fundamentais para os seus ninhos e sua manutenção. Podem ser observadas quatro espécies diferentes de andorinhas: andorinhadas-chaminés (Hirundo rustica), andorinha-dos-beirais (Delichon urbicum), andorinha-das-barreiras (Riparia riparia) e andorinha-dáurica (Cercopis daurica). Sobrevoando o sapal observam-se também os andorinhões (Apus apus). Nesta altura é uma presença certa a lavandisca-amarela (Motacilla flava). Não será difícil deparar com uma boa oportunidade de observar adultos e juvenis desta pequena ave migratória transariana. A sua presença no nosso país ocorre só durante a estação de reprodução, depois regressam a África. A pequena fuinhados-juncos (Cisticola juncidis) também

É

se encontra a criar na zona do sapal, mais pequena e discreta que a lavandiscaamarela, contudo o seu canto normalmente denuncia-a. Na zona do estuário, este mês permanecem algumas limícolas entre as quais o ostraceiro (Haemantopus ostralegus) e o maçaricogalego (Numenius phaeopus). Pode também haver a oportunidade de observar o perna-vermelha (Tringa totanus) ou a tarambola-prateada (Pluvialis squatarola). Tanto o maçarico-galego como a tarambola são espécies circumpolares que se reproduzem na Tundra, tanto na região siberiana como na da Gronelândia. A presença de algumas destas aves pode representar indivíduos que estão a caminho de locais no Ártico, realizando uma paragem neste local. As limícolas migratórias que se reproduzem nos locais mais a norte podem por vezes nesta altura ainda estar a caminho. O mesmo acontece com uma eventual observação de algum fuselo que, neste mês, é quase certo serem aves da população afro-siberiana (Limosa lapponica taymyrensis) a caminho da Sibéria, com


João L. Teixeira João L. Teixeira

Francisco Bernardo

S Garça-branca-pequena

S A Reserva Natural Local dispõe de vários observatórios

destino às suas áreas de reprodução na Península de Taymir. É provável observar duas aves de presa que procuram nesta altura o espaço da reserva para se alimentarem: o peneireiro (Falco tinnunculus) e o milhafre-negro (Milvus migrans). Apesar de em pouco número, se comparado com a época invernal, podem observar-se as garças-cinzentas (Ardea cinerea), e as garças-pequenas (Egretta garzetta).

S De vez em quando há novidades: cuco-rabilongo, em 2015-5-25

Alguns grupos de gaivotas procuram este espaço, sendo a presença de gaivotas não reprodutoras evidente. Entre o grupo de gaivotas designadas “gaivotas-de-cabeçabranca” destaca-se a gaivota-de-asa-escura (Larus fuscus graellsii) e a gaivota-argêntea (Larus michahellis). Olhando com atenção podem ainda ser observadas pelo menos duas espécies de gaivotas representantes do grupo das “gaivotas-de-capuz”, concretamente o guincho (Chroicocephalus

ridibundus) e a gaivota-de-cabeça-escura (Ichthyaetus melanocephalus). Mas algumas observações podem-nos surpreender. Junho é sempre um mês de “imprevistos” e algumas espécies menos comuns estivais podem surgir, tais como a águia-sapeira (Circus aeruginosus), a garçavermelha (Ardea purpurea) ou mesmo uma poupa (Upupa epops), entre outros. Texto Paulo Paes de Faria

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36 MUSEU

Interpretar a Afurada O Centro Interpretativo do Património da Afurada (CIPA) acolheu até agosto a exposição "Janela de Identidades", de Cátia Oliveira. Coincidindo com as festas de S. Pedro da Afurada, esta mostra fotográfica «convidava o visitante a debruçar-se sobre os aspetos de continuidade e rutura que a festividade tem enfrentado ao longo dos anos» e pretendia «honrar o compromisso feito com a comunidade local, enaltecendo todos aqueles que ao longo de nove meses colaboraram e acreditaram neste projeto». Além de exposições temporárias, como a que referimos, há uma exposição permanente onde as características desta vila piscatória de identidade tão específica se refletem. Além disso, o CIPA disponibiliza ao público um espaço polivalente para diversas atividades, designadamente de natureza educativa, e um centro de documentação em suporte digital sobre a Afurada. Se ainda não visitou, fique com esta nota: o CIPA fica na Rua António dos Santos, n.º 10, em São Pedro da Afurada, Vila Nova de Gaia.

Direitos Reservados

João L. Teixeira

Centro Interpretativo do X Património da Afurada: exposição permanente

S O CIPA disponibiliza um espaço polivalente designadamente de natureza educativa: 28 de abril, uma "Hora do Conto", com a presença da autora Adelina Andrês

36 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016


ESPAÇOS VERDES 37

S Na margem sul do rio Douro, este parque possui uma dupla vertente, a botânica e a arqueológica

João L. Teixeira

T Endemismo ibérico, Omphalodes nitida Hoffmanns. & Link

João L. Teixeira

T Urze-branca, Erica arborea L.

T Sedum arenarium Brot., endémica da Península Ibérica

João L. Teixeira

O clima e o solo são coordenadas determinantes na vegetação e no Parque Botânico do Castelo esse facto não passa ao lado da visita que ali fizer. O morro xistoso cavado pelo rio Douro, que corre lá em baixo, foi noutros séculos aproveitado para a agricultura. Uma forma engenhosa de transformar vertentes inclinadas, de difícil acesso, era escavá-las em patamares horizontais, a lembrarem uma escada de gigante, de modo a reter solo cultivável, e fazer a água de rega circular por ali, em caminho certo. É por essa razão que hoje a vegetação espontânea reconquistou em sucessão ecológica esse espaço, com algum pendor de transição entre atlântico e mediterrâneo. À sombra de carvalho-alvarinho e de freixos, muitas outras plantas ganham presença. É o caso dos medronheiros que na época quente condizem com o voo da maior borboleta diurna da Europa, que lhe leva o nome na designação vulgar: borboleta-do-medronheiro. Outras plantas quase rastejam pelo xisto, como um certo arroz-dos-telhados que não é gramínea, Sedum arenarium Brot., espécie botânica endémica da Península Ibérica. Nesse condão não está sozinha, pois também as pequenas flores azuis, parecidas com miosótis, da Omphalodes nitida Hoffmanns. & Link radicam numa espécie que também só existe em algumas regiões de Portugal e Espanha. No verão floresce a cebola-albarrã, que não se pode deglutir, Urginea maritima (L.) Baker, tipicamente mediterrânica. Ao calor, costumam ano a ano decorrer escavações arqueológicas, e os achados sucedem-se, centrados na ocupação romana e pós-romana. Numa nova campanha, mais novidades irão decerto emergir...

Jorge Gomes

Parque Botânico do Castelo

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38 ESPAÇOS VERDES

Parque da

Jorge Gomes

Quinta do Conde das Devesas

“Guia das Camélias do Parque do Conde das Devesas" é o título do novo livro de Nuno Gomes Oliveira, prefaciado por Eduardo Vítor Rodrigues, presidente do Município de Vila Nova de Gaia, com fotografias de António Assunção 38 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016

Jorge Gomes

Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Gaia, apresentou o livro na companhia de individualidades da Autarquia, nomeadamente a vereadora Mercês Ferreira e Tiago Braga, da administração da empresa municipal Águas e Parque Biológico de Gaia

A apresentação da obra teve lugar no parque a que a mesma se reporta no passado dia 21 de março de 2015, sábado, quando se comemorava o Dia da Árvore e a chegada da primavera. Depois de breves palavras do autor do livro, Eduardo Vítor Rodrigues referiu que “para além da dimensão ligada às camélias, temos aqui uma simultânea tentativa de dar visibilidade a este espaço magnífico que foi escolhido para este lançamento numa expectativa que todos também temos de, estando aqui presentes, sentirmos a necessidade de agilizar o nosso pensamento para aquilo que tem de ser a requalificação desta infraestrutura envolvente num equipamento que possa ser importante para o Município”. O livro inclui as fichas identificativas das


Jorge Gomes Jorge Gomes

Na parte final da apresentação do livro Nuno Gomes Oliveira ficou ao dispor dos presentes para rubricar cada exemplar que lhe foi apresentado 104 variedades de camélias em quatro línguas: português, inglês, francês e espanhol. Próximo do Cais de Gaia, na Rua D. Leonor de Freitas, em Vila Nova de Gaia, este parque aguarda a sua visita.

Parques P e Vid Vida SSelvagem l primavera i 2016 6 • 39


João L. Teixeira

40 ESPAÇOS VERDES

Parque da Lavandeira Todos os caminhos vão dar ao lago, ali no Parque. Os passos de quem palmilha esses percursos imitam a vontade da água que, vinda do céu, flui a seu favor. Mesmo assim, certo é que o espelho de água do Parque da Lavandeira toma vulto graças à linha de água que o alimenta. Onde corre o precioso líquido da vida e algum calor se faz sentir a vegetação que aprecia solos húmidos cresce, exuberante. Quem visita este parque passa os olhos pelo fluxo da água, ouve-o, e descansa a mente na vegetação de salguerinha e tabua, de mentrastos e salgueiros que dominam as margens. Com locais próprios para merendar, entre as árvores, o percurso conta com uma cafetaria. Quem desejar tomar uma bebida fresca naquele especial momento de sossego dos passeios que ali levam pode tê-la como certa. Sob o sol, o percurso proporciona sombra abundante e uma paisagem tranquilizante. Este espaço verde, que se situa em Oliveira do Douro, oferece aos visitantes percursos pedestres, jardins temáticos e animação. Um parque com estas características tornase um local de eleição para que nele ocorram múltiplas atividades. Não é assim de admirar que novas iniciativas sejam alinhadas à medida das semanas mais próximas. Uma forma de as seguir consiste em acompanhar a respetiva agenda de vez em quando.

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Agenda Yoga A orientação é da responsabilidade da Dr.ª Luísa Bernardo, que proporciona a atividade em regime de voluntariado. Quartas e sextas-feiras às 9h45.

Tai Chi Às terças e às quintas-feiras, aulas às 9h30. Entrada grátis.

Pode seguir o Parque da Lavandeira no Facebook, no site www.parquebiologico.pt (botão Parque da Lavandeira), ou telefonar para 227 878 138


Jorge Gomes

Edições

Mais luz sobre os pirilampos de Portugal S Da direita para a esquerda, Nuno Gomes Oliveira, vereadora Mercês Ferreira, Alexandra Duque e José Manuel Couto Viana

O livro PIRILAMPOS DE PORTUGAL, de Raphael De Cock, Henrique Nepomuceno Alves, Nuno Gomes Oliveira e Jorge Gomes, foi apresentado no passado dia 5 de junho de 2015, pelas 18h30, no Parque Biológico de Gaia, com a participação da vereadora Mercês Ferreira, em representação de Eduardo Vítor Rodrigues, presidente do Município de Vila Nova de Gaia. Trata-se de um trabalho que «ao longo das suas 82 páginas evidencia e atualiza

informação científica com uma bivalência singular: serve tanto o leitor comum como cientistas da área dos coleópteros, grupo em que se inserem as várias espécies de pirilampos». Uma particularidade: a obra inclui textos em português e em inglês. Foi também nessa oportunidade apresentado um livro infantil de José Manuel Couto Viana, com ilustrações de Alexandra Abreu, intitulado "A revolta dos pirilampos".

Sábado, dia 23 de maio de 2015, pelas 17h30, decorreu o lançamento do livro A FLORE PORTUGAISE E AS VIAGENS EM PORTUGAL DE HOFFMANNSEGG E LINK (1795 a 1801) de Nuno Gomes Oliveira. O livro foi apresentado por Fernando Clara, Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, por Jorge Paiva, do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, e por Pedro Mendonça, representante da Chiado Editora. Contando com numerosa afluência de pessoas interessadas, estiveram em exposição originais da FLORE PORTUGAISE e dos livros das viagens em Portugal de HOFFMANNSEGG E LINK.

Jorge Gomes

Flore Portugaise

S Da direita para a esquerda, Jorge Paiva, Fernando Clara, Nuno Gomes Oliveira e Pedro Mendonça

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42 ESPAÇOS VERDES Agenda

Noites dos

Pirilampos

Nalgumas das noites de junho o Parque orienta visitas guiadas para observação de pirilampos e outros animais noturnos. No final, pode ainda realizar observações de astronomia. Para participar deve contactar o Gabinete de Atendimento: telefones 227878137/8 atendimento@parquebiologico.pt

Dia 1 de junho calhou numa segunda-feira, data que marca o Dia Mundial da Criança. A associação cultural Ilha Mágica soltou magos e elfos ao longo do percurso de descoberta da natureza do Parque Biológico de Gaia, numa parceria que data de há muitos anos. Da Árvore dos Sonhos brotaram histórias para crianças lidas por um simpático ancião, devidamente trajado, que, para além de ler, interagiu com o auditório. Na quinta de Santo Tusso surgiram dois elfos que falaram às numerosas crianças ali presentes de alguns habitantes selvagens do Parque. Da parte da tarde, técnicos de educação ambiental do próprio Parque recriaram no auditório o teatro de fantoches alusivo ao livro de Ana Mafalda “Mauro e Emília - os nossos cágados estão em perigo, vamos ajudá-los”, um conto para crianças ilustrado por Ernesto Brochado e Delfina Sordo.

42 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016

Jorge Gomes

Dia Mundial da Criança

ra eira Teixei João L. Teix

Em 2016 estas noites decorrem dias 3 e 4, entre 6 e 11, entre 13 e 18, entre 20 e 22 e ainda dia 25 de junho: começam com luzes naturais da Terra e terminam com o brilho das constelações


Veja as iniciativas a curto prazo que o Parque Biológico de Gaia lhe propõe... Oficinas de Verão Em altura de férias grandes, o Parque Biológico abre as suas Oficinas de Verão pensadas para crianças de jovens. São entre 4 e 8 de julho, 11 e 15, 18 e 22, 25 e 29 do mesmo mês e de 1 a 5, de 8 a 12, de 16 a 19, de 22 a 26 e de 29 de agosto a 2 de setembro. Encontra mais informações no site do Parque ou através do Gabinete de Atendimento, pelo e-mail atendimento@ parquebiologico.pt, telefone 227878138.

Sábado no Parque

Monitorização de borboletas noturnas Na noite de 22 de maio, Dia Internacional da Biodiversidade, houve uma sessão de monitorização de borboletas noturnas no Parque Biológico de Gaia. Com base em registos fotográficos, este trabalho contou com a colaboração de João Nunes, Carlos Silva e Edmundo Manuel, tendo sido identificadas mais de 60 espécies de borboletas entre o pôr-do-sol e a 1h30 da manhã, sendo pelo três novas na listagem do Parque. Estes dados são informação útil, sobretudo se acumulados ao longo dos anos, pois possibilitam verificar a evolução das populações desta fasquia de vida selvagem.

Nos primeiros sábados de cada mês, com excepção de agosto, o Parque prepara algumas atividades especiais para os seus visitantes. Com início às 11h00, há um atelier e, depois do almoço, às 15h00 há uma visita guiada por técnicos do Parque e percurso ornitológico. Nestes dias, às 22h00 há observações astronómicas, se as condições meteorológicas o permitirem. Em cada um dos primeiros sábados há uma nova Ave, uma nova Planta e um novo Livro do mês.

Anilhagem científica de aves selvagens Nos primeiros e terceiros sábados de cada mês, das dez ao meio-dia, os visitantes do Parque podem assistir a esta atividade na Quinta do Chasco de passagem pelo percurso de descoberta da natureza, se não chover. Está em causa o bem-estar animal. Orientada por anilhadores credenciados, há uma dúzia de formandos que prosseguem

no objetivo de aprenderem sempre mais nesta iniciativa útil para um melhor conhecimento da população de aves da região. O Parque Biológico de Gaia colabora com a Central Nacional de Anilhagem, coordenada pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, num projeto europeu de Estações de Esforço Constante, para monitorização das aves selvagens.

Observação de aves selvagens Nos primeiros domingos de cada mês, entre as dez e o meio-dia, leve, se tiver, um guia de campo de aves europeias e binóculos à Reserva Natural Local do Estuário do Douro. Com telescópio, estará um técnico do Parque para ajudar os presentes a identificar as aves do litoral a partir dos observatórios ali instalados.

Receba notícias por e-mail Para os leitores saberem das suas atividades a curto prazo, o Parque Biológico sugere uma visita semanal a www.parquebiologico.pt A alternativa será receber os destaques, sempre que oportunos, por e-mail. Para isso, deve pedi-los a newsletter@parquebiologico.pt

Mais informações Gabinete de Atendimento atendimento@parquebiologico.pt Telefone direto: 227 878 138 4430-861 Avintes - Portugal www.parquebiologico.pt

Parques e Vida Selvagem primavera 2016 • 43


44 ESPAÇOS VERDES Novidades de Fauna

Melro-de-água no rio Febros O fotógrafo da vida selvagem Rui Lemos publicou no passado dia 29 de março de 2015 na internet uma foto de um Melro-d´água (Cinclus cinclus) no rio Febros, mais informando que já está a nidificar e tem crias. É uma excelente notícia para o ambiente em Gaia e a primeira vez que esta espécie, típica de cursos de água interiores com muito boa qualidade, é observada. Os bioindicadores de topo da qualidade da água do rio Febros estão de novo, presentes. Parabéns ao Rui Lemos e obrigado por autorizar o uso da foto.

Jorge Gomes

Por Nuno Gomes Oliveira

Clostera curtula (Linnaeus, 1758), uma borboleta noturna rara

44 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016


Flora

Conocephalum conicum (L.) Dumort.

Borboleta rara A borboleta noturna que leva o nome de Clostera curtula (Linnaeus, 1758) foi fotografada em 9 de abril de 2015 no Parque Biológico de Gaia e depois identificada por Eduardo Marabuto, biólogo e conhecido investigador deste grupo de insetos, que afirmou ser apenas o 2.º registo para o nosso país. O registo anterior teve lugar no Parque Natural de Montesinho. Mede 27 a 35 mm de envergadura. Esta espécie de borboleta terá duas gerações por ano. Enquanto lagarta alimenta-se das folhas de salgueiros e choupos. Com mais alguns anos, há também um outro 2.º registo para Portugal de uma espécie diferente de borboleta fotografada no Parque Biológico de Gaia em 2007-7-13, pelo mesmo observador, identificada depois por Martin Corley, investigador inglês com muito trabalho científico realizado, que se chama Bembecia ichneumoniformis (Denis & Schiffermüller, 1775).

Plantas de cor verde-vivo, com margens púrpura, muito brilhantes em estado húmido, compostas por talos grandes, coriáceos e largos (alguns com mais de 15 mm de largura), regularmente bifurcados. Formam manchas extensas fortemente agarradas a superfícies verticais por rizóides (órgãos semelhantes a raízes) brancos. Na superfície dos Cristiana Vieira talos é possível observar, mesmo a olho nu, linhas e Helena Hespanhol que formam um puzzle hexagonal e lembram CIBIO-InBIO escamas de cobra, daí o nome comum desta hepática. Em cada uma dessas divisões superficiais do talo surge um ponto esbranquiçado bastante saliente que corresponde a um poro que permite à planta as trocas gasosas. Como é uma espécie dióica tem plantas masculinas e outras plantas femininas e, por isso, órgãos reprodutores masculinos e femininos em plantas diferentes. Os órgãos reprodutores masculinos são sésseis, ou seja, rentes aos talos, globosos e negros e encontram-se na superfície ventral do talo. Com a separação dos órgãos sexuais, a reprodução desta espécie depende do percurso que os anterozóides flagelados (gâmetas masculinos) fazem até aos arquegónios (órgãos femininos), geralmente a nadar. Mas esta espécie desenvolveu uma estratégia única de projeção dos anterozóides para o ar (até 15 centímetros de altura), aumentando assim a distância de dispersão e a probabilidade destes gâmetas encontrarem os órgãos femininos que estão elevados por um pequeno pé, semelhante a um guarda-chuva cónico que dá o nome em latim à espécie. Espécie cosmopolita que se encontra na Europa em paredes e superfícies rochosas geralmente verticais, muitas vezes próximo de fontes, tanques de água límpida, levadas ou paredes com escorrência e pingos superficiais de água. Nos seus tufos escondem-se muitas vezes lesmas que se alimentam desta espécie e beneficiam do refúgio que proporciona. No Parque Biológico encontra-se facilmente em muros frescos e húmidos e paredes de cimento dos tanques. Esta espécie pertence ao grupo das hepáticas que são muito aromáticas, devido à presença de compostos químicos atualmente estudados por terem propriedades antibacterianas, anticancerígenas, diuréticas e de cura para a diabetes. O seu aroma a cedro apimentado é bastante distinto e forte e compõe o perfume dos jardins do nosso país, especialmente nos dias de chuva!...

Cristiana Vieira

Rui Lemos

Hepática pele-de-cobra

PParques arquess e Vida Selvage Selvagem em primavera prim mavera 2 2016 016 • 4 45 5


46 ESPAÇOS VERDES

Consegue dizer mais que a Adora insetos! Rui, ao contrário de muitos, enuncia uma mão-cheia de espécies que fazem romper a palavra beleza pelas costuras. Atirou: Há insetos que conseguem ser mais bonitos que as borboletas! 46 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016

Não é fácil dar-lhe razão... Quem viu de perto uma poligónia ou uma aurínia, uma almirantevermelho ou uma borboleta-limão vai achar um despropósito. Mas a luz de que se fazem as fotografias tem destas coisas: no visor da máquina fotográfica digital iam passando as Lytta vesicatoria, entre as flores amarelas de giestas e tojo… Não é caso único: quem não consegue também apreciar o

aspeto de uma joaninha de élitros rubros e pintas pretas? E, de noite, que fascínio exercem sobre o homem os pirilampos! O fenómeno é espontâneo, corre sobre carris. Noutro tempo, o gosto transbordava numa “coleção de bichinhos” com morte anunciada, quer para integrarem o mostruário quer pelo desaparecimento causado por fungos e outros microorganismos. Hoje, a fotografia digital fez


Henrique N. Alves

Filipe Vieira

Encontro marcado Como outros elementos da biodiversidade, este inseto, Lytta vesicatoria, é bonito, mas mais importantes são as funções que desempenha na natureza

sua fotografia? esquecer as revelações dos rolos fotográficos e o seu peso na carteira, e regista quase tudo o que mexe. Uma máquina compacta em posição de macrofotografia – para os seres pequenos – ou de zoom estendido – para os mais distantes – faz registos por vezes únicos, com direito a escrita automática da data, um dado importante. No século passado isso só ocorria quando se o autor o referenciava, ao analisar o negativo ou o diapositivo.

Está visto: a maior parte fiava-se na memória, que se dissipava. Por isso, dê o gosto ao dedo sempre que tiver vontade: clic… clic! Depois, envie-nos uma das suas fotos com um comentário que informe sobre aquelas partes que não se veem na imagem – quem sabe não vem a partilhar aqui (Revista PARQUES E VIDA SELVAGEM, Parque Biológico de Gaia – 4430-886 AVINTES) uma história muito interessante?

Quando a pressão do calendário dá um ar de sua graça, eles reaparecem no prelúdio da primavera. Estamos a referir-nos aos milhafres que escolheram o Parque Biológico de Gaia para nidificar desde há uns anos a esta parte. Em 2015 foram vistos pela primeira vez a esticar as asas por aqui em março, como é hábito, mais precisamente no dia 6, curiosamente uma sexta-feira. Terão feito questão de começar a estadia desta temporada quente a aproveitar logo o fim de semana? Decerto que não foi essa a sua preocupação. Bem maior, a princípio terá sido o sumiço do eucalipto que lhes suportava o ninho em anos anteriores e que com uma derrocada de inverno descaiu, tendo de ser dali retirado. Não passou muito tempo e ali a poucos metros um choupo de porte significativo agradou. Mais longe da curiosidade de quem passa no percurso de descoberta da natureza, serviu-lhes de bom grado. Terão tirado dali crias como tem acontecido noutros anos? Provavelmente... Parques e Vida Selvagem primavera 2016 • 47


48 ESPAÇOS VERDES o Centro de Recuperaçã

Numa das zonas de acesso ao estádio do Dragão, na Rua do Conde Castelo Melhor, no Porto, em 28 de maio, quintafeira, esta águia de cor acastanhada corria o risco de ser esmagada pelo trânsito. Depois de assistir ao resgate feito pelos Bombeiros Sapadores de São Roque, e morador no local, Ricardo Pereira comentou com ironia: «Até nem somos más pessoas! Estamos a salvar uma águia no coração do Dragão...». Chegada ao Centro de Recuperação de Fauna Selvagem do Parque Biológico de Gaia, a águia-calçada, Hieraaetus pennatus, estabilizou e entrou no

Filipe Vieira

Águia resgatada no estádio do Dragão

processo de recuperação gizado pelo Setor Veterinário. A rapina apresentava pododermatite bilateral, uma moléstia comum em aves de cativeiro, e ferimentos nas asas.

Estando em curso a avaliação da sua reabilitação, quando revelar boa condição física e capacidade de sobrevivência em liberdade, deverá ser devolvida à sua origem, a vida selvagem.

Os últimos cágados

48 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016

direitos reservados

O cágado-de-carapaça-estriada, que tem por nome científico Emys orbicularis, é hoje uma espécie considerada Em Perigo de extinção em Portugal. Com vista a travar essa perda, esteve em curso um projeto LIFE+Trachemys, que se iniciou em 2011 e foi concluído em dezembro de 2013. Tendo por principal objetivo a reprodução em cativeiro desta espécie, foi concretizado por uma parceria, em Portugal, entre o CIBIO da Universidade do Porto, o Parque Biológico de Gaia e a Associação ALDEIA/RIAS, e a Generalidade Valenciana, e a empresa Vaersa em Espanha. Durante os três anos da ação nasceram 95 crias de diferentes posturas desta espécie nas instalações do RIASOlhão (Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens) e 50 no Parque Biológico de Gaia. A reprodução em cativeiro teve como meta compensar a reduzida taxa de sobrevivência dos animais nos primeiros anos de vida e reforçar as populações selvagens desta espécie. Em 4 de Junho de 2015 foram devolvidas à natureza as últimas crias na Quinta do Lago e na Lagoa de São Lourenço, no Algarve. Note que a libertação de tartarugas exóticas invasoras na natureza é ilegal e causa péssimo impacto ambiental.


Anilhagem

A trepadeira mais velha

Esta ave é habitual todo o ano no Parque Biológico. Até nidifica dentro desta pequena reserva de vida selvagem, nalgum buraco de muro ou num tronco velho. Quando David Santos a processava na mesa de anilhagem, colhendo o peso e demais dados biométricos, estaria longe de saber que era apenas a primeira vez que estava a ser recapturada pelo grupo e que a vez anterior datava de 2008... Pois é: o que distingue esta trepadeiracomum, Certhia brachydactyla, de muitas outras controladas ao longo dos anos é que esta foi anilhada pela primeira vez em 5 de abril de 2008, por Malcolm Millais, em formação nessa altura. Levou a anilha n.º 069687. Pelos dados então recolhidos esta ave terá nascido antes de 2008. Assim sendo, terá pelo menos oito anos, o que a transforma no recorde de longevidade registado para a Europa para esta espécie, a trepadeiracomum. A lista europeira de longevidade — Longevity List of Birds Ringed in Europe (Staav 1996) — apresenta uma estimativa de pelo menos 4 anos e 8 meses para a longevidade de uma ave controlada na Suíça e a mais recente lista da Euring (Fransson et al 2010) apresenta duas estimativas de pelo menos 5 anos e 8 meses, e 5 anos e 9 meses, para aves controladas na Espanha e República Checa respetivamente. Além disso, nesse dia, o primeiro da primavera, ocorreu também pela primeira vez a captura de uma poupa, o que aumentou para 43 o número de espécies controladas em sessões de anilhagem científica de aves selvagens no Parque Biológico de Gaia.

Jorge Gomes

O destaque das mais recentes sessões de anilhagem científica de aves selvagens no Parque Biológico de Gaia vai para a recaptura de uma ave especial em 21 de março de 2015

Trepadeira-comum, Certhia brachydactyla

The oldest short-toed Treecreeper The highlight of the more recent bird-ringing sessions at the Parque Biológico de Gaia was the recapture of a very special bird on the 31st of March of this year. According to the data gathered then, this bird was supposedly born before 2008. That being the case, it is at least 8 years old, making it the record-holder for the greatest longevity for the whole of Europe for this species, the Short-toed Treecreeper.

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50 BATER DE ASA

O voo das aves As zonas húmidas são habitats tão específicos que é normal verificar que as deslocações migratórias praticamente afunilam ali em determinadas alturas do ano – estando por lá, até uma mera fotografia da ave pode servir para dar nota de uma anilha, e, para tal, nem será precisa uma sorte por aí além... Por exemplo, em 25 de setembro foi observado um colhereiro, Platalea leucorodia, com a anilha

n.º NLA 8059279 e anilha de cor RBa/YfBR na Reserva Natural Local do Estuário do Douro. O Parque Biológico de Gaia apurou entretanto que esta ave tinha sido anilhada na Holanda, em Oosterkwelder, Friesland, no dia 7 de julho do mesmo ano. O colhereiro em causa percorreu entre ambos os locais 1767 quilómetros durante 80 dias.

Colhereiro, Platalea leucorodia

On September 25th 2014, a bird of the species Platalea leucorodia was sighted with the ring n.º NLA 8059279 and the colour ring RBa/YfBR on the Estuário do Douro. In the meantime, the record of this ringing was discovered to have been made in the Netherlands, at Oosterkwelder in Friesland, on July 7th of the same year. Between both countries, this bird had travelled 1,767 km in 80 days.

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João L. Teixeira

The flight of birds


OBSERVATÓRIO 51

Finalmente

Plutão! Luís Lopes

Com a recente passagem da sonda New Horizons por Plutão, dia 14 de julho, será talvez um exercício interessante tentar resumir o que sabemos sobre este corpo longínquo do Sistema Solar

espromovido do título de “planeta” num processo controverso, Plutão é hoje reconhecido como o primeiro objeto descoberto na Cintura de Edgeworth-Kuiper (CEK). Observar objetos tão distantes é difícil, mesmo com grandes telescópios, mas a evolução tecnológica permitiu a descoberta de várias centenas a partir da última década do século XX. Os objetos na CEK formaram-se no disco protoplanetário que deu origem também aos planetas do Sistema Solar, há 4.5 mil milhões de anos. Ao contrário dos planetas, formaram-se tão longe do Sol que provavelmente constituem fósseis quase perfeitos do material do disco. O seu estudo detalhado pode assim responder a muitas questões relativas às condições físicas prevalentes durante a formação do Sistema Solar. Plutão foi descoberto em 1930 pelo jovem astrónomo norte-americano Clyde Tombaugh, enquanto trabalhava no Observatório de Lowell, no Arizona. A descoberta foi o culminar de anos e anos de buscas por um putativo planeta que, para além da órbita de Neptuno, perturbaria gravitacionalmente as trajetórias deste último e de Urano. Sabe-se hoje que tais perturbações não eram reais mas sim produto de imprecisões nas observações e incertezas relativas às massas de

D

S Clyde Tombaugh, astrónomo norte-americano que descobriu Plutão em 1930

então, uma série de coincidências felizes e avanços tecnológicos permitiram um estudo mais detalhado do sistema. Plutão e Caronte orbitam um centro de gravidade comum com uma periodicidade de 6.4 dias. O cálculo da órbita dos dois corpos, possível devido a uma série de eclipses mútuos entre Plutão e Caronte durante os anos 80, permitiu a determinação da massa de Plutão (apenas 0.2% da massa da Terra) e de Caronte (1/8 da massa de Plutão). A grande proximidade e massas comparáveis dos dois corpos resultam em intensas forças de maré que, ao longo de milhões de anos, sincronizaram as suas rotações com os períodos orbitais. Plutão e Caronte apresentam assim sempre a mesma face voltada um para o outro. Em termos práticos isto quer dizer que Caronte nunca é visível a partir da face oposta (que não está virada para ela) de Plutão! Compare-se esta situação com a do sistema Terra-Lua. Aqui, também, milhões de anos de forças de maré forçaram a Lua a apresentar sempre a mesma face voltada para a Terra, mas o recíproco já não é verdade. A rotação da Terra não está sincronizada com o movimento orbital da Lua e é por isso que a Lua é visível a partir de qualquer ponto da Terra. Sabemos hoje também que a superfície de Plutão é dominada por gelos de nitrogénio (azoto), monóxido de carbono e metano, que refletem muito eficientemente a luz do Sol (diz-se que têm um albedo elevado). Quando está mais próximo do Sol, a superfície aquece o suficiente para se formar uma ténue mas extensa atmosfera de nitrogénio. Quando se afasta do Sol, a atmosfera congela e cai sobre a superfície. Sabe-se também que a superfície tem um mosaico complexo de zonas brilhantes,

Urano e Neptuno. Aliás, desde muito cedo se tornou evidente que Plutão era bem mais pequeno do que seria de esperar. Nenhum telescópio era capaz de resolver o seu disco diminuto e a sua luz débil exigia telescópios de grande dimensão para decifrar os seus segredos. Durante décadas a nossa ignorância sobre Nix Plutão foi quase total, mas 57x27 km a partir da década de 70 do século passado o véu começou a levantar-se. Em 1978, James Christy, outro astrónomo norteStyx Diametro = 7 km? americano, descobriu Caronte, a maior das luas de Plutão e, desde

Kerberos Diametro = 30 km

Hydra 59x35 km

Charon Diametro = 1207 km


NASA / JHUAPL / SWRI

52 OBSERVATÓRIO

S Plutão e Caronte poucos dias antes da passagem da sonda New Horizons

provavelmente ricas em gelo fresco, e regiões mais escuras cobertas com um tipo de material mais escuro ou por gelo exposto antigo que, por reação com a radiação ultravioleta do Sol e com os raios cósmicos, forma hidrocarbonetos complexos pouco refletores. As regiões brilhantes e escuras na superfície variam com o movimento orbital de Plutão, o que indica que existe uma atividade geológica importante correlacionada com a quantidade de radiação que recebe do Sol. Caronte, por seu lado, parece ser bem mais pacata. A análise do seu espetro demonstra que a sua superfície é maioritariamente composta por gelo de água. Existe alguma evidência para depósitos recentes de gelo de água e de hidratos de amoníaco em parte da superfície, mas Caronte parece ser geologicamente menos dinâmica do que Plutão. Em 2005, astrónomos da missão New Horizons efetuavam imagens de Plutão e Caronte com o Telescópio Espacial Hubble quando descobriram duas novas luas, Nix e Hidra, seguidas de mais duas, Cérbero e Estige, seis anos depois. A maioria das luas no Sistema Solar têm um período de rotação igual ao seu período orbital. Por esse motivo mantêm sempre a mesma face voltada

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para o planeta. Como referi, isto acontece devido à ação de milhões de anos de forças de maré do planeta sobre a Lua que sincronizam os dois períodos. Vimos que a Lua e Caronte são bons exemplos deste efeito. No entanto, Nix e Hidra, e provavelmente Estige e Cérbero também, têm uma rotação caótica, isto é, sem um período bem definido. Para um hipotético habitante de Nix ou de Hidra todos os dias teriam durações diferentes; vistas de Plutão, as duas luas apresentariam faces diferentes de noite para noite. A rotação caótica de Nix e Hidra é devida à influência gravitacional do sistema binário Plutão-Caronte. O movimento orbital destes dois corpos provoca variações constantes no campo gravitacional que afeta as luas exteriores. Tal não aconteceria tão facilmente se existisse apenas um corpo central dominante. O facto das luas serem pequenas, e provavelmente terem formas irregulares, potencia ainda mais o efeito do campo gravitacional variável. Cérbero, constatou-se através de observações realizadas pelo telescópio Hubble, é também uma lua enigmática. A sua superfície é tão escura como o carvão, contrastando fortemente com as superfícies de Nix, Hidra e Caronte. Pensa-se que as luas de Plutão se

formaram numa colisão deste com um corpo de dimensão semelhante. As luas que hoje vemos ter-se-iam formado a partir dos estilhaços dessa colisão. É difícil, neste cenário, explicar porque é Cérbero tão diferente das outras luas. Mais, um sistema com cinco luas formadas nessas circunstâncias seria eminentemente instável. Porque é, então, que Plutão consegue manter esta família numerosa, num verdadeiro número de equilibrismo cósmico? Os cientistas, também aqui, fizeram progressos. Recentemente descobriu-se que as luas Nix, Estige e Hidra partilham uma ressonância orbital. Isto quer dizer que os períodos orbitais destas luas estão relacionados por múltiplos inteiros. Estas configurações são normalmente muito estáveis e provavelmente explicam, pelo menos em parte, o mistério da vida prolongada da família de Plutão. No momento em que escrevo, a New Horizons aproxima-se a 50 mil km/h de Plutão. Nas próximas semanas teremos o privilégio de observar Plutão e as suas luas como nunca antes os seres humanos puderam fazê-lo, através da câmara e seis instrumentos científicos da sonda. Que outras surpresas nos reserva o deus romano do inframundo? Que outras perguntas levaremos na bagagem?


REPORTAGEM 53

Paulo Monteiro

S Erica ciliaris ou lameirinha, amiga da água

Montemuro Portas de biodiversidade disputa entre os pneus e a gravilha silencia assim que a carrinha pára no estradão de terra batida. A conversa toma rumo: como encara a população local este trabalho? «O envolvimento das populações destas áreas foi um dos pressupostos do projeto», diz Paulo Monteiro, coordenador do projeto LIFE-Higro, desenvolvido sob a égide da Quercus, Associação Nacional de Conservação da Natureza, que nos acompanha. Estamos junto de um leitor de paisagem com desenhos de tartaranhões e da borboleta-das-turfeiras, Phengaris alcon, da genciana que lhe está associada e da

A

Com vista a promover o restauro e a conservação ativa de habitats prioritários de montanha – urzais-tojais higrófilos e cervunais – surgiu em setembro de 2010 o projeto LIFE-Higro. Terminado em junho do ano passado, está agora em curso o plano de conservação pós-LIFE. Sob sua alçada há “apenas” 162 hectares distribuídos por três serras, concretamente Montemuro, Alvão e Arga, todos eles sítios de importância comunitária, ao abrigo da Rede Natura 2000 Parques e Vida Selvagem primavera 2016 • 53


Jorge Gomes

Jorge Gomes

54 REPORTAGEM

Paulo Monteiro

S Nardus stricta ou cervum, ex-líbris do cervunal

S Os musgos do género Sphagnum são referência fundamental das turfeiras

S Serratula tinctoria subsp. seoanei

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disseram Não quero receber nada. Pode fazer lá o que quiser, até agradeço, mas não quero compromissos de 20 anos». O trabalho avançou. Passado um tempo, recorda Paulo Monteiro, «em cada serra convidámos as populações locais a visitar as áreas para verem o que se tinha feito. Realizou-se nessa altura um convívio com almoço para as pessoas conversarem de forma mais descontraída». Paulo Monteiro sublinha: «Se estão cá os valores, esta biodiversidade, é porque os locais conseguiram gerir isto de alguma forma bem, e podemos aprender com o que eles fizeram...». T Paulo Monteiro, da Quercus, coordenador do projeto LIFE-Higro Jorge Gomes

planta ex-líbris dos cervunais, Nardus stricta, que encabeçam um texto telegráfico. Na leitura destes dados o visitante enquadra o património natural do sítio de importância comunitária. Os hectares abrangidos pelo projeto LIFEHigro distribuem-se por baldios e terrenos de particulares. Como era necessário vincular durante duas décadas as intervenções no terreno, era impossível agradar a todos: «Não conseguimos contratualizar tudo, por vezes por razões que não faziam sentido – alguns tinham receio que as empresas dos parques eólicos quisessem instalar nas áreas do Higro mais parques e depois não o pudessem fazer: perderiam dinheiro com isso». Mas «conseguimos contactar algumas empresas e estas explicaram que esta intervenção não era incompatível, mais ainda quando essas empresas preferem zonas elevadas e aqui temos zonas depressionárias de montanha». De um modo geral, «a população aceitou bem, até porque houve algumas contrapartidas. Estava previsto dar um contributo para autorizarem a utilização dos terrenos». Porém, como os contratos eram de 20 anos, aconteceram situações em que as pessoas

Essa proximidade foi dando resultado: «Conseguimos que as populações locais, no caso os pastores, começassem a olhar para as plantas de outra maneira. Quem descobriu um núcleo de lameirinha, Erica ciliaris, foi Afonso, um pastor que disse Ali em cima há uma urze diferente das outras, e trouxe uns pés». Neste momento, tendo terminado o financiamento a 75% pela União Europeia em junho do ano passado, o relatório final teve avaliação positiva. Agora, vem a pergunta: não deverão projetos deste teor ter continuidade? Resposta afirmativa. Existe um plano de conservação pós-LIFE que está em execução até junho de 2019 e que carece de angariação de apoios para a sua execução. O mais pesado está feito. Além disso, ao longo de todo o processo LIFE-Higro acabaram por descobrir e localizar valores de flora e fauna cujo resultado foi entregue ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e ao poder local.

Nuvens nada meigas Está quase a chover. O céu plúmbeo de 12 de junho não ilude, mais ainda a 1300 metros de altitude.


Paulo Monteiro

Montemuro mountain range With the goal of promoting the restoration and conservation of important mountain habitats, the currently ongoing project “LIFE-Higro” was created in September 2010. Under its scope are hundreds of hectares belonging to three mountain ranges, more specifically Montemuro, Alvão and Arga, all of which are areas of great importance to the Community.

Jorge Gomes

Jorge Gomes

S Gentiana pneumonanthe, ou genciana-das-turfeiras, planta associada a uma borboleta rara, Phengaris alcon

Paulo Monteiro

S Armeria beirana, endemismo da Península Ibérica

S Arnica

W Orquídea selvagem, Dactylorhiza maculata

Se o sol abrisse vinha o calor e não faltariam voos campo fora. Mesmo assim, enquanto andamos sobre o cervunal, a luz rosada das pétalas de orquídeas selvagens, Dactylorhiza maculata, agarra a vista, entre o meio metro de altura das muitas flores discretas dos juncos, Juncus squarrosus, planta própria de solos húmidos. Passo a passo, vem a sensação de se andar em cima de um tapete fofo, de uma esponja que boa parte do ano estará encharcada. Não é difícil perceber que quer cervunais quer turfeiras são autênticos depósitos de água cristalina que das alturas das serras vão soltando fios do precioso líquido encosta abaixo, gerando nascentes e alimentando a biodiversidade de que o ser humano depende. Quando se estica o olhar, na direção da crista da serra há estacaria: aquelas vedações são para quê? «Têm funções diversas – uma delas», explica Paulo Monteiro, «consistiu em criar condições experimentais: fez-se um ensaio para avaliar o efeito das diferentes intervenções nos habitats. Estes ensaios foram constituídos por dez transetos perpendiculares à linha de água. Três deles serviram de controlo, dois foram vedados para se estudar o efeito da ausência de

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S Juncos: Juncus squarrosus

Paulo Monteiro

uso – esse é que é o problema destes habitats», assinala, e «criaram-se ainda mais dois transetos que foram roçados e foram criados, a montante de onde se fez o restauro da hidrologia, três transetos, um a cinco metros, outro a 12,5 metros e outro a 20 metros, para se ver qual o efeito que poderia ter a elevação do nível freático na vegetação a montante». A destoar com as outras áreas sob o cuidado do projecto LIFE-Higro, aqui o habitat prioritário urzal-tojal está mal representado faltando algumas das principais espécies que o caracterizam. Terá sido resultado de queimadas recorrentes? Certo é que a menos de um quilómetro essas espécies existem. Diante da evidência, transplantaram alguns pés de tojo-arnal, Genista ancistrocarpa, a título experimental, e verificaram uma taxa de sobrevivência de 57%: «Noutro local de Montemuro testamos ainda a melhor forma de criar núcleos de lameirinha e urze-dosbrejos». Após a exposição do solo «por decapagem dos primeiros 5 cm, fez-se o espalhamento de terra com sementes colhida debaixo de plantas dessas espécies». Por outro lado, «aqui em Montemuro, foi o local em que fizemos menos restauro da hidrologia natural», uma vez que «não houve ao longo dos séculos tantos trabalhos de drenagem», ao contrário das outras áreas, em que «houve mais necessidade de intervir a esse nível».

Jorge Gomes

Jorge Gomes

56 REPORTAGEM

A flor, a formiga e a lagarta Quer na Europa quer em Portugal a borboleta-das-turfeiras, pelo habitat específico em que realiza o seu ciclo de vida, está ameaçada. A serra de Montemuro será o seu ponto de distribuição conhecido mais a sul e nas imediações do local em que agora estamos haverá crisálidas desta espécie a preparar os voos estivais desta borboleta. Tudo começa com pequenos ovos brancos que a fêmea põe nas flores de gencianadas-turfeiras. Quando eclodem, a pequena lagarta procura o ovário da flor e é ali que se alimenta, até que procura o exterior e deixa-se literalmente cair no solo. Como emite um odor muito próprio, as feromonas,

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S A borboleta-das-turfeiras, Phengaris alcon, depende de certas espécies de formigas e desta genciana para poder completar o ciclo de vida

afim ao das formigas do género Myrmica, estas levam-na para dentro do seu formigueiro. Aí alimentam-na e protegemna. Transforma-se depois em crisálida, até que, no final desta fase, sai do formigueiro como borboleta adulta, a fim de esticar lentamente as asas e voar, para se reproduzir.

Noutras eras O sinuoso e matemático percurso entre a planta e os dois insetos acima referidos

é resultado de um equilíbrio subtil conseguido ao longo de muito tempo nestes ecossistemas que, aliás, prestam serviços valiosos para toda a vida, e em especial para o ser humano, como a regulação do ciclo da água. Hoje sofrem ameaças que podem ser fatais. Incêndios recorrentes e sobrepastoreio, eutrofização e drenagem são alguns dos fatores degradantes. Mesmo assim, é certo que tanto os cervunais como as turfeiras precisam de algum nível de regressão na sucessão ecológica, caso contrário com o tempo surgem arbustos e depois árvores que alteram o habitat. Paulo Monteiro põe o dedo na ferida: «Esta vegetação evoluiu ao longo de milénios em consonância com manadas de grandes herbívoros, entre outros, auroques», os ascendentes extintos dos bois que conhecemos, pelo que «a vegetação precisa de perturbação para se manter em bom estado. São plantas adaptadas ao corte e pisoteio frequente provocado por esses animais». Como as manadas desses herbívoros desapareceram, «temos de mimetizar esse trabalho. Fez-se isso sobretudo com bovinos, embora o ideal seja usar diferentes espécies zootécnicas (preferencialmente de raças autóctones) porque têm diferentes herbivorias que


Jorge Gomes

S Área experimental na serra de Montemuro

receberam apoios «para trazerem o gado onde muitas vezes já não ia».

Sentinelas Nos limites da área em que estamos a comunidade de espécies vegetais que aqui vive só é limitada por pequenas rochas graníticas que se erguem na periferia. Parecem sentinelas estáticas, poderosas, capazes de se rir dos homens que pensam precisar a natureza de proteção. No silêncio que domina, sabem que todo

Jorge Gomes

podem favorecer mais umas plantas do que outras. As ovelhas são muito seletivas e evitam algumas espécies (por exemplo, o cervum). Ao invés, as vacas consomem grandes feixes de forragem que arrancam de uma só vez». O pastoreio, contudo, tem de ser equilibrado: nem excessivo, nem escasso. Esta derradeira palavra acentua o agravamento do caso quando se percebe o abandono do interior do país: «Cada vez há menos gado!». Os pastores até

o resguardo que o homem dedicar à mãe de toda a vida é a si próprio que retorna. O avistamento limítrofe dos afloramentos rochosos leva também a imaginar estes terrenos como uma imensa bacia natural onde se deposita água, e essa tendência para o encharcamento criou estes habitats prioritários, em forma de mosaico em equilíbrio, ora urzal-tojal ora cervunal. Na bordadura, até de longe se veem armérias em flor agitadas pelo vento e, mais para cima, uma formação vegetal amarela lembra uma almofada gigante, mas não é decerto tojo. Vista de perto, trata-se de um endemismo ibérico de montanha, a caldoneira, Echinospartum ibericum, linda se ver, fácil de picar. Com vista a dar a conhecer o vasto património natural e humano destas regiões, o projeto LIFE-Higro publicou folhetos desdobráveis com toda a informação útil para quem quiser palmilhar percursos pedestres por estas bandas o possa fazer. Ao todo são nove trilhos interpretativos com as indicações necessárias para tomar rumo e encontrar nesta e noutras serras um país real onde os valores da biodiversidade e da interação do ser humano com ela lhe darão todos os motivos para ali regressar. Texto Jorge Gomes

Projeto LIFE-Higro Serras de Montemuro, Alvão e Arga* Rua Tenente Valadim, n.º 19 6000-284 Castelo Branco

939 992 188 higro@quercus.pt www.higro.org

* Projeto cofinanciado a 75% pelo instrumento financeiro LIFE+ da União Europeia

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58 REPORTAGEM

Tejo internacional: the water route Located next door to Spain, the Parque Natural do Tejo Internacional is closely associated with the Black Stork, an endangered bird species, which lives along the frontier riverbeds. This protected area comprises over 26,484 hectares around the cities of Castelo Branco, Idanha-a-Nova and Vila Velha de Ródão and protects some plateaus and the rocky cliffs which harbour the nests of many endangered birds.

S O canhão granítico do rio Erges fica junto à aldeia fronteiriça de Segura

Tejo Internacional

na rota da água Paredes-meias com Espanha, o Parque Natural do Tejo Internacional traz consigo a figura de uma ave em risco de extinção, a cegonha-negra: ao longo do leito de rios fronteiriços, esta área protegida compreende mais de 26484 hectares, em território pertencente aos concelhos de Castelo Branco, Idanha-a-Nova e Vila Velha de Ródão, e defende alguns planaltos e as arribas rochosas que acolhem ninhos de muitas aves ameaçadas, como o grifo e a águia-de bonelli, a águia-real e a águia-imperial, o britango e o chasco-preto 58 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016 2014


S Miradouro de Alares, onde se vê o rio Tejo a unir Portugal e Espanha

S Rio Erges, aldeia de Segura: moinho tradicional que, no inverno, pode ficar literalmente debaixo de água

S Dois veados agitam-se, talvez a 500 metros

silêncio vem do azul do céu e paira tranquilo sob o voo planado do grifo. Toda esta acalmia faz da paz um estado de espírito. Sobre ramos e troncos, falam também assim à margem do que os ouvidos permitem entender os líquenes com vocação de alpinista. Sem cobrança de qualquer jaez, há odores adocicados à mistura com uma paleta de plantas aromáticas selvagens, isentas de outro cuidado que não o da própria natureza, quando imiscuem na brisa mansa esteva e tomilho, aroeira e

jasmineiro-do-monte, rosmaninho e retama em flor. Defendem a terra os zambujeiros e a cornalheira, os adernos e o azinho que medram sem avareza. O sol é poderoso. Fala sem cansaço lá do alto, e não teme uma ou outra nuvem branca que pontilhe o céu. Toda a sombra é bem-vinda sobre um solo em que xistos formados em camadas horizontais já verticalizaram, enfartados da força entranhada na terra. Estamos no miradouro de Alares, diante do rio Tejo, que corre num canhão para sudoeste.

O

Na outra margem, não parece, mas já é Espanha. Ali Tejo é Tajo. Acompanham-nos vigilantes do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, António Marques e Rui Cáceres. De olhar treinado, apontam ninhos de grifo, na outra margem, distantes. Numa reentrância do rochedo, um deles ainda abriga uma cria tardia para a época, toda branca, como ditam os binóculos. Um cantorilar diferente faz-se ouvir além das copas das azinheiras, vindo de nenhures. São abelharucos, diz António. Aproximar-seão? Ainda não se veem... ah! Aí vêm eles, rodam agora sobre nós, asas pontiagudas, cores esfuziantes, alguns metros acima das nossas cabeças. Cantorileiros, parecem entreajudar-se a apanhar insetos no ar, tarefa mais fácil havendo coesão no pequeno bando. Acima deles um grifo plana em linha reta e copia o traçado geológico do rio. As serranias mais próximas vertem convexas sobre o generoso curso de água, vestidas de vegetação. Lá em baixo, a 500 metros talvez, dois veados dão uma corrida e detêm-se num antigo olival, agora ao abandono, como

Parques ParqueseeVida VidaSelvagem Selvagem primavera primavera2014 2016 • 59


60 REPORTAGEM

evidenciam os socalcos disfarçados pelo tempo. Emigração e inacessibilidade esvaziaram a rentabilidade de quem explorava ali a azeitona.

Segura

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S Abundam espécies aromáticas: na região conhecida por rosmaninho, espécies variadas do género Lavandula, e tomilhos, do género Thymus sp.

Jorge Gomes

Sisão? Sim, foi mesmo isso que António Marques acabou de dizer enquanto conduz o jipe que nos leva a locais-chave deste parque natural. Seara de um lado, seara do outro, não admira que de vez em quando atravessem a estrada. Agora estarão a criar em ninhos no solo, entre gramíneas, sejam de centeio ou de trigo. O sol está aberto na derradeira semana de maio e de tarde uma boa parte da vida selvagem esconde-se na quietude. Despachada vai a viatura todo-o-terreno. O recorte hidrográfico do Parque, se assim se pode dizer, com acessos pontuais e afastados, leva a percorrer estradas entre povoações. A pega-azul e a poupa voam sem recato viagem fora. Aparecem águias-cobreiras e milhafres. A dada altura, na abordagem da aldeia fronteiriça de Segura, é difícil deixar de ver que os muros rústicos começam a ser não de xisto, como até aqui, mas de granito, rocha que tão bem conhecemos no Norte. Não é caso isolado. Tem de haver magma emerso nas redondezas. As populações utilizam os materiais locais para aviar serviço sem maior despesa. Atravessada a aldeia, lá em baixo, o rio Erges. Se falasse, que velhas histórias de contrabando não iria revelar? Uma falha geológica sorveu a preferência deste curso de água pelo leito que leva, e é por isso que segue aqui, agora quase um fio. Dá a sensação de se conseguir atravessar a pé, como convinha há largas décadas, em noites sem luar. Quando o olhar trepa à margem próxima da aldeia, mais acima, os granitos polidos contam histórias de erosão prolongada em virtude do caudal alteroso do tempo frio. À medida que a vista se estende corrente fora, em ambas as margens há moinhos, tão diferentes dos das ribeiras do Norte. Com o telhado acoplado às paredes, parecem herméticos, sem frincha escondida à socapa, o que sugere um facto: a construção tradicional eficiente conseguia resguardar a azenha da imersão invernal. Foi também a força da água apoiada pela

S Tamujo, Flueggea tinctoria, planta endémica da Península Ibérica

paciência dos milénios que desenhou um monumento natural imponente: o canhão do rio Erges. A vida adapta-se e tira partido dos factos. Subindo em círculos vão grifos, aves necrófagas com uma envergadura inabitual de ver. Há uma coluna de ar quente. À medida que se veem as silhuetas repara-se que não são só grifos: há dois abutres-do-egipto, um tanto menores, de penas predominantemente brancas e bico amarelado. Esta espécie, também conhecida por britango, é um dos animais de cartilha que derrocou o mito de que só o ser humano utilizava ferramentas, tão à maneira da história anterior à primeira metade do século XX. Em África, partem ovos de

S O abutre-do-egito ou britango, Neophron percnopterus, também nidifica nestes habitats


Jorge Gomes Jorge Gomes

S Uma giesta mediterrânica, Retama sphaerocarpa, cuja flor atrai a borboleta Satyrium spini

S Libélula, Orthetrum chrysostigma

S Perpétua em flor, Helichrysum stoechas

T Abelharuco, Merops apiaster, ave migradora que nidifica em habitats mediterrânicos

avestruz com uma pedra que arremessam com o bico, e bebem clara e gema. Um arbusto ribeirinho endémico da Península Ibérica ergue-se ao meu lado, a evocar o tamujal, uma Flueggea tinctoria, e a seu lado um salgueiro. A poucos metros dos nossos pés passa uma sardanisca. Esconde-se estrategicamente, mas leva rota determinada. As cores vivas desta lagartixa-do-mato, Psammodromus algirus, apontam uma mudança de pele recente. Visto isso, não importa muito se a água dos rios separa ou une nações. Nem sequer para a vida selvagem se a água e a terra são portuguesas ou espanholas. Quando alteia dominante o teor mediterrânico da região, nem a dureza das rochas em que

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62 REPORTAGEM

assenta o fino solo deixa de fazer vénia ao clima.

Tejo e Tajo

Jorge Gomes

«Tengo una sorpresa para ti! He visto más abajo una águila pescadora», diz a Rui Cáceres Roberto, piloto do barco que nos apanha no cais. O vigilante da natureza fica curioso. Uma águia-pesqueira nesta época do ano? Bem, facto é que por vezes observa milhafres a apanharem peixe neste rio como autênticas águias-pesqueiras, mas esta espécie só de passagem se avista nas migrações. O barco faz um trajeto fluvial pelo rio Tejo centrado num turismo de natureza dito responsável. Os passageiros sentam-se sob uma cobertura que quase não deixa passar ruído para fora das janelas, apesar da sonoridade dos comentários feitos ao microfone. As palavras do piloto abrangem com propriedade aspetos multidisciplinares a preceito. Rui Cáceres em voz baixa diz que o leito do rio, nalguns pontos, tem a profundidade de 40 metros e a navegação aqui não é para qualquer um. Troncos submersos são escolhos com alvitre de rombo no casco e o mesmo se diz dos xistos aguçados que verticalizam da profundidade e se repetem até ao cume das margens. Há troços do rio que são abrangidos por um grau superlativo de proteção, não são visitáveis. Outras partes estão sob reserva parcial. O que agora percorremos, área contígua entre o Parque Natural do Tejo Internacional e o Parque Natural Tajo Internacional, do lado espanhol, tem estatuto de proteção, claro, mas permite o trânsito de barcos autorizados.

S Roberto, o homem do leme

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S Ninho de grifo

S Cegonha-preta, Ciconia nigra


S Entre as aves de grande envergadura, os grifos, Gyps fulvus, são fáceis de observar no Parque Natural do Tejo Internacional

À medida que o barco desliza sobre a água, Roberto, o homem do leme, interpreta com competência a paisagem. Percebe-se que a margem do país vizinho está coberta por matagal mediterrânico, de elevada biodiversidade. Rui explica que está menos exposta ao sol, retém mais humidade. Na margem portuguesa abundam, dominados por xistos, afloramentos rochosos, bem mais atrativos para os ninhos das aves de grande porte que ali se observam, sem que se sintam incomodadas com a nossa passagem pelo meio do rio. Aqui e ali, atracado há um ou outro bote de pesca artesanal. Algum do peixe destas águas vende-se como alimento em Castelo Branco, a cerca de 30 quilómetros. Pelo rio há de longe a longe bóias brancas: são as armadilhas dos pescadores para os lagostins, diz Rui. Trata-se de uma espécie exótica americana, o lagostim-da-louisiana. Tinha-os visto, ordenados num prato, numa tasquinha de Malpica que leva o nome da canção popular celebrizada por Zeca

Afonso, “Maria Faia”, que terá sido colhida ali mesmo. Ocultas estão as lontras que vivem nestas margens. Alimentam-se dos numerosos peixes que vivem no rio, com destaque para o barbo e uma série de exóticos como o lúcio e o achigã, muito difíceis de erradicar, e que impõem perdas de espécies nativas mais pequenas como o bordalo e a bogade-boca-arqueada, o barbo-judeu e o escalo-do-sul, entre outros. Longe, na margem, vê-se um ninho de grifo. As aves olham para o barco com indiferença: «A cria está diante da ave adulta», diz o piloto a serviço dos Barcos del Tajo que força um sotaque lusitano, passando depois a repetir a informação em castelhano. Continua a referir-se aos grifos: «Son los mejores equipos de limpieza del Parque. Elimine los restos de cadáveres donde la caza es derribada y previne la propagación de enfermedades que podrían propagarse a través del bosque. Ellos tienen un pobre sentido del olfato, pero una gran vista». Explica ainda melhor estas aves: «Cabe

señalar que para la alimentación utiliza un sistema conocido como simbiosis. Una especie con el pico más fuerte abre los cadáveres y deja la mesa puesta para otras aves», inclusive para o abutre-do-egito. Depois de uma pausa em que se desfruta a paisagem agreste, o piloto alerta: «Ahora hay que callar y no puede mover sus brazos mucho. Vamos a ver a continuación un nido de cigüeña negra. El buitre leonado (grifo) no se inquietan mucho com el paso de la gente, pero la cigüeña negra es más tímida». Vão cerca de 30 pessoas no barco e o recado surtiu efeito. O ruído de conversas fortuitas cessa. Pouco a pouco começa a conseguir distinguir-se numa pequena plataforma rochosa um ninho próximo da água do rio. Os binóculos mostram uma pequena cria branca à sombra de um dos progenitores. Momento raro este da cegonha-negra, há silêncio. Mais adiante, a barragem de Cedilho. Cabenos desembarcar. Antes de visitar o Parque, convém passar pelo centro de interpretação desta área protegida em Castelo Branco. As vertentes geológicas, climáticas e biológicas vão ajudar a uma compreensão integrada do parque natural. Com o pé posto no caminho, o Sol continua a brilhar, e promete aquecer! Em breve, toda esta avifauna juvenil vai alçar voo. Umas tantas procurarão longínquas regiões, a sul do Mediterrâneo. Outras não. Como nós próprios muitas voltarão numa nova primavera. Texto Jorge Gomes Fotos João L. Teixeira

Parque Natural do Tejo Internacional Centro de Interpretação Rua da Bela Vista, s/n (junto ao Governo Civil) 6000-458 Castelo Branco Horário de Funcionamento: Dias úteis, 9h00-12h30/14h00-17h30 (351) 272 346 068 pnti@icnf.pt www.icnf.pt

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64 BLOCO DE NOTAS

Avifauna do Estuário do

Cávado esperta-me grande curiosidade a descrição Sempre apressados, não fossem as suas distintas das aves através das suas vocalizações, vocalizações de voo, como campainhas de prata, porém não conheço quem tenha pior nem sequer me apercebia da sua rápida visita pelas memória auditiva do que a minha. nossas dunas e galerias ripícolas. No inverno as Assim, vejo-me agora especialmente confrontado notas mais ouvidas são das limícolas no sapal e nos com uma dificuldade que, apesar dos contratempos, lodaçais expostos na maré baixa. O perna-verde encaro como um interessante desafio e que me (Tringa nebularia), com vocação para sentinela, Jorge Araújo está sempre pronto a lançar o aviso de perigo recorda os primeiros anos de observação de aves da Silva dada a necessidade de voltar a esforçar-me para aos seus pares com os “quiuquius” repetidos que ECOLOGISTA, OBSERVADOR DE AVES E DIVULGADOR reconhecer algumas das espécies com que me cruzo. desencadeiam os “piuis” da tarambola-cinzenta DA VIDA SELVAGEM A par de muitos outros voluntários, estou a participar (Pluvialis squatarola) e o alarme ainda mais aflito da na equipa do III Atlas das Aves Nidificantes de Portugal debandada do maçarico-das-rochas (Actitis hypoleucos). 2015/2018. A metodologia adotada neste tipo de trabalhos Quando das margens ecoarem as matutinas melodias de campo consiste, no caso dos registos sistemáticos, em aflautadas do tordo-músico (Turdus philomelos) a primavera percorrer uma determinada área, num espaço de tempo não tardará. É nesta época que do impenetrável prado juncal a limitado e num passo regular. Ora, nestas circunstâncias, ao alvéola-amarela (Motacilla flava) ensaia uns timbres arranhados passar por zonas com vegetação densa são mais as aves e quase monocórdicos nada dignos da exuberância lútea da que só se deixam escutar do que as que se avistam e como sua plumagem. Sabemos, assim, do seu regresso de África. desde sempre privilegiei a identificação das aves através da A aproximação ao estio abrevia a passagem para norte do sua morfologia externa receio que os dados obtidos no âmbito maçarico-galego (Numenius phaeopus) que, desse modo, daquele projeto venham a pecar por defeito. apenas se denuncia com fugazes gorjeios assobiados lá E esta minha impreparação não se reflete apenas nos projetos bem alto sobre o mar onde não passa de um mero ponto no atlas. Por desenvolverem hábitos discretos, foram várias as céu. No verão o estuário está mais sossegado. Mas da orla espécies que só muito tardiamente inscrevi no meu inventário entre os campos de cultivo e as matas chegam-nos outras das aves do estuário do Cávado, mas assim que aprendi e me particularidades acústicas. É daqui que, após o crepúsculo, habituei a identificá-las pelos seus cantos logo percebi que, irradia com muitos “erres” o grito abafado do noitibó afinal, grande parte delas até é comum na região. Exemplo (Caprimulgus europaeus), a coruja-do-mato (Strix aluco) faz disto é o pequeno rouxinol-bravo (Cettia cetti) que, embora ecoar um pio melancólico e, como escreveu Aquilino, a poupa raramente abandone a proteção dos meios arbustivos, onde (Upupa epops) diz “poupa-o-pão”. se torna invisível, revela-se muitas vezes através de um típico Curiosamente, este jeito prosaico de descrever as vozes das chamamento explosivo. De igual modo, até agora foram aves é-me mais útil para as guardar na memória do que as poucas as ocasiões em que consegui vislumbrar a presença do referências à intensidade das notas, à estrutura das sílabas ou à frango-d’água (Rallus aquaticus) nesta zona húmida, no entanto, forma das estrofes de um modo mais técnico. quando descobri que aqueles guinchos que irrompem entre os Por tal, encontro amiúde nos meus cadernos de campo juncos a lembrarem um porco em agonia são produzidos pelo apontamentos, como «a narceja despede-se com beijos; a ralídeo, não demorei a perceber que também estas aves se coruja-das-torres à caça chia como a correia lassa de um encontram aqui bem distribuídas. carro e as crias ressonam a suplicar por alimento; a garça Além daquelas espécies, muitas outras de temperamento arrota; o peto-verde ri às gargalhadas…» entre outros que tímido povoam de sons todo o estuário do Cávado. Atrevo«miam; brindam; sacam rolhas; tocam tambor; estilhaçam me até a afirmar que será possível traçar a sua caraterização vidros; espetam a enxada...», todos férteis em imaginação. Mas só através dos seus chilreios, trinados, grasnidos ou pios. seja qual for o método escolhido, o que importa é estarmos Relativamente comuns em todo o país, o pintassilgo (Carduelis familiarizados com os seus chamamentos ou cantos, pois o carduelis) e o lugre (Carduelis spinus) não procuram o sucesso de uma jornada de observação de aves depende, em litoral de Esposende se não durante a migração de outono. muito, da nossa capacidade para os decifrar.

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«O pássaro-das-cem-línguas destaca-se por possuir qualidades canoras nitidamente superiores às de qualquer outra ave da região. Em boa verdade, é praticamente a única espécie sul-americana que vi procurar poiso com a finalidade de cantar. O canto pode comparar-se ao chilreio da carriça, mas mais potente, com algumas notas muito agudas e outras mais ásperas intercaladas numa melodia agradável.» (Charles Darwin, n’A Viagem do Beagle)

Rouxinol-bravo (Cettia cetti)

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66 MIGRAÇÕES

Ciconia nigra (Linnaeus, 1758)

Cegonha-preta Enquanto a cegonha-branca chega a fazer ninho até em postes à beira da estrada, a preta foge a sete pés da proximidade do ser humano

m Portugal existirão cerca de cem casais de cegonha-preta distribuídos sobretudo pelo interior do território. Com uma envergadura que ronda os dois metros, faz ninho na primavera em escarpas ou árvores. Em meados de setembro, a maioria das cegonhas-pretas, juvenis e adultas, voa além do maior deserto africano, com exceção de uma minoria que vai contra a corrente – não quer atravessar o mar Mediterrâneo. Serão indivíduos nascidos na nossa Península que não arredam pé daqui ou serão aves nascidas no Norte europeu que se deslocam com o frio até às nossas bandas, e aqui ficam a aguardar melhor clima? Provavelmente a derradeira hipótese é de maior verosimilhança, mas nada que uma futura pesquisa não consiga vir a deslindar. Classificada nos dias que correm como Vulnerável,1 a cegonha-negra conta-se entre as espécies da fauna lusitana que boa grande parte dos portugueses nunca observou. Isso não ocorre por ser difícil de distinguir, nem tão pouco pelo tamanho, que iguala a conhecida cegonha-branca. Os movimentos migratórios desta discreta e rara cegonha-preta têm sido alvo de exame por parte de equipas de pesquisa europeias.2 Por processos de registo eletrónico, articulado com satélites, sabe-se que as cegonhas-pretas assim controladas seguem normalmente as rotas das demais aves migradoras. Por mais estranho que possa parecer, enfrentam ainda a caça ilegal: investigadores checos detetaram aves abatidas em França, Itália e Espanha... Por sua vez, o espanhol Luís Santiago Cano encabeça uma

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equipa que seguiu os movimentos de dez aves, incluindo oito juvenis, um imaturo e um adulto. Estes animais foram seguidos desde o período pós-reprodução, até que finalizaram as rotas migratórias de outono. Alguns seguiram para África pelo estreito de Gibraltar, mas outros indivíduos, ao todo três, morreram na península que os viu nascer antes de atravessarem Gibraltar: um tombou imediatamente, depois de abandonar o ninho, e dois durante os movimentos através de Espanha, antes de chegarem ao Norte de África. Os restantes migraram para a invernada em pleno continente africano. Dizem os cientistas que, antes de cruzarem o estreito de Gibraltar, a distância total pela qual se deslocaram no período pós-reprodutivo variou consideravelmente entre indivíduos, com um intervalo de 100 e de mais de 800 km. Por outro lado, a média dos movimentos diários variou entre 1,5 e 26,1 km. As cegonhas-pretas ibéricas controladas começaram a


migração outonal entre meados de setembro e princípio de outubro. Por sua vez, aves controladas por uma equipa de cientistas da República Checa, chefiada por Miroslav Bobek, atingiram o Sul do Sara desde fins de setembro até dezembro, entre 5 e 15 semanas. Curiosamente, verificaram que os juvenis não partiram rumo a África na mesma altura que os progenitores. Terão ficado ainda a fortalecer mais um tanto a musculatura de voo. Fora isso, além do facto de os casais reprodutores não terem migrado juntos, até houve casos em que seguiram rotas migratórias diferentes. Entre diversas dificuldades, estas aves enfrentam escolhos como um eventual mau tempo nos Pirenéus e tempestades de areia no grande deserto africano, que lhes retardam a migração de invernada. Para o ano, assim que o frio der sinal de abrandar, talvez em meados de fevereiro, os sobreviventes irão abandonar as distantes terras africanas onde se abrigaram para atingirem, entre março e maio, mais uma vez, os seus habitats de nidificação. Texto Jorge Gomes

1 - “Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal”, edição ICNF. 2 - Post-Breeding Movements of Iberian Black Storks Ciconia nigra as Revealed by Satellite Tracking, Luis Santiago Cano et all; Migration Patterns of Black Storks (Ciconia Nigra) from the Czech Republic as Revealed by Satellite and VHF telemetry, Miroslav Bobek et all.

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68 RETRATOS NATURAIS

Vamos desenhar...

uma planta "carnívora" A carnivoria é algo que causa algum horror e mais ainda se nos apercebermos que algumas plantas, esses “pacíficos” seres presos ao solo, afinal são também capazes de caçar e comer carne animal as, a verdade é que elas existem, mesmo que surpreendentemente antagonizando o que se conhece da Lei da Vida: os animais alimentam-se de plantas, mas pelos vistos as plantas também comem animais... Claro que tal descoberta causou celeuma para alguns do mundo científico e inflamou a imaginações de muitos outros mais, como os criptobotânicos (estudiosos das evidências sobre seres escondidos, ou de pendor mítico). Assim o atesta a crónica de um explorador inglês do período pós-descobrimentos, o capitão Arkright, que relata notícias oriundas da ilha El Bannor, ou Ilha da Morte, onde se dizia existir uma planta com uma gigantesca flor, capaz de emanar um soporífero aroma, de tal forma que todo homem que se deitasse sobre as suas pétalas, acabava por ser por ela frugalmente digerida. Ou ainda o mito das árvores devoradoras de homens trazido pelo explorador alemão Carl Liche, em 1878, mais uma vez presa ao exotismo isolado das ilhas, desta feita, na exótica Madagáscar. Já no século XX, perduravam ainda histórias mirabolescas sobre a mítica árvore de Kepe (ou árvore assassina de Kumanga), sobre as árvores-vampiras (na selva da América Central e designada localmente como a “ya-te-veo”), ou então empolgando as narrativas sobre a argentina

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Erva-pinheirinha-orvalhada (Drosophyllum lusitanicum)

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“juy-juy “e as brasileiras “árvore-do-demónio” e a “árvore-caça-macaco”. Curiosamente todas estas histórias seguem padrões idênticos: são árvores, presas ao solo, mas com capacidade de atrair as suas vítimas faunísticas, aprisionando-as de forma passiva ou ativa, e delas se alimentando em festim. Erram apenas num facto – na realidade não são árvores, mas pequenas e inofensivas herbáceas. E mais do que carnívoras, elas são é insetívoras, ou melhor, caça-invertebrados. Na realidade a carnivoria botânica é uma resposta evolutiva complementar à fotossíntese e a uma deficiente nutrição,

já que vivem em solos encharcados e deficientes em sais de azoto (como as turfeiras), ou então em solos secos, siliciosos e xistosos. A solução adoptada foi a do oportunismo, desenvolvendo zonas glandulares específicas, de elevada atividade enzimática, de modo a que os aminoácidos resultantes da digestão de pequenos animais possam assim ser imediatamente incorporados no seu próprio metabolismo. Em Portugal, ocorrem oito espécies de plantas-insetívoras e a erva-pinheirinhaorvalhada (Drosophyllum lusitanicum) foi a primeira a ser estudada de entre todas, muito antes sequer da hipótese


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Apanha-moscas natural Passo a passo da construção de uma ilustração em técnica digital: 2. desenho preliminar, a grafite; 3. recorte e isolar do hábito da planta, com eliminação do fundo; 4. inicio da pintura de cada estrutura em particular, com base na paleta de cores predominante observado em espécimes na natureza; 5. Pormenor exemplificativo da ilustração das glândulas: a) sem filtro, b) com filtro bevel/emboss.

do carnivorismo ganhar consistência no universo de botânicos portugueses. O interesse por esta planta é ainda maior ao constituir um género monotípico (inclui uma única espécie) e ser uma raridade biológica (endemismo ibero-marroquino). É, de todas as plantas-insetívoras portuguesas, a maior – esta planta bianual terrestre, de caule semi-lenhoso, mais ou menos ramificado, pode assumir um porte subarbustivo de até 50 cm! Não é pois precisa mais nenhuma justificação para a desenharmos... se a encontrarmos num qualquer passeio por locais de solo xistoso. Neste exercício gráfico iremos procurar explorar a ideia de ir um pouco mais além da mera ilustração taxonómico-descritiva da estampa botânica. Procuraremos colocar o ênfase visual nas suas particularidades e na sua estratégia para capturar os insetos com os quais se banqueteia – capaz de capturar até 200 insetos, num único dia, consegue digerir e absorver completamente um mosquito, em somente 24 horas. É importante retratar que as folhas, esguias e filiformes, quando jovens se encontram enroladas em forma de báculo, na extremidade apical. Cada folha contém três feixes vasculares (oriundos de um feixe simples) e cada um deles é encimado por glândulas. Esta insetívora passiva atrai as suas presas utilizando dois subterfúgios: a cor vermelha, nos báculos apicais, e o odorífico aroma, relembrando o do mel, emanado a partir das mucilagens produzidas pelas glândulas pediculadas. Uma das

imagens a desenvolver é o processo de captura (1): os insetos mais gulosos que tentam poisar na planta, instantaneamente ficam aderentes a essa mucilagem, como se de papel-apanha-moscas se tratasse. Na aflita movimentação de se procurarem soltar fazem que o glóbulo de cada glândula da mucilagem se destaque por inteiro e adira ao corpo, enquanto outras na sua proximidade estabelecem contacto, numa ação com o mesmo efeito. Ao fim de pouco tempo, o inseto acaba por ficar praticamente coberto com esta película, acabando por morrer sufocado colado de encontro à epiderme. A ilustração do hábito deve começar, como sempre, por um desenho preliminar de linha de contorno (2), a lápis de grafite sobre papel vegetal de 45gm2, tendo por base a observação direta de exemplares vivos, ou herborizados, ou em fotografias. Terminado este e após importação para o Adobe Photoshop/APS (600 dpis, RGB), utiliza-se o lasso tool para remover o fundo e isolar a planta, numa layer de fundo transparente (3). A textura do papel servirá para se trabalhar a textura das várias partes da planta, que depois serão pintadas recorrendo ao brush e a filtros de cor (4), com variações de transição entre o verde e o amarelo. A dificuldade maior reside no preenchimento das nervuras com inúmeras pequenas gotículas das glândulas, que felizmente recorrendo ao APS é simplificado ao se utilizarem filtros como Bevel/Emboss na nova layer “glândulas” (5), onde se pintaram simples pontinhos, a vermelho-vivo ou a

branco. Para as primeira experimente-se os seguintes parâmetros: Structure – Style Emboss>Technique Smooth> Depth 190 > Direction UP> Size 21 > soften 8; Shading: Angle 135> Global Light on > altitude 48° > Gloss Contour: Cone Inverted> Highlight Mode Color: Dodge, white, opacity 100%> Shadow Mode: multiply, color (43/C-88/M80Y-67K), opacity 52%. Para as de mucilagem transparente incolor aplique-se o filtro Bevel/Emboss (experimentar a parametrização anterior ou pequenas variações da mesma) a que se acresce novo filtro: Stroke – Position: outside> Size 1> Color White). Finda a arte-final do hábito da planta (6), para acrescer um maior realismo à composição e planta, pode-se pintar a projeção da sombra, bem como criar uma textura que mimetize um corte do solo em perfil – tal ajuda a diferenciar a raiz do caule em si, entre o que está à superfície e o que se esconde abaixo dela. Boas descobertas, melhores pinturas e não se deixem apanhar por estas terríficas devoradoras... de insetos e outros invertebrados.

Texto e ilustrações

Fernando Correia Biólogo e ilustrador científico Dep. Biologia, Universidade de Aveiro fjorgescorreia@sapo.pt www.efecorreia-artstudio.com

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70 ATUALIDADE

Ilustração de Joana Bruno – Creative Commons License CC BY-NC-SA

Salamandra gigante Uma nova espécie de fóssil de anfíbio foi descoberta em Portugal. Vivendo durante a ascensão dos dinossauros, terá sido um dos maiores predadores da Terra, diz um novo estudo recentemente publicado. A equipa de paleontólogos identificou uma nova espécie de anfíbio que recebe o nome dedicado à região, Metoposaurus algarvensis, depois de escavar os ossos em rochas de um antigo lago do tempo dos dinossauros, no concelho de Loulé, Algarve. Para o paleontólogo que participou neste estudo, Octávio Mateus, "esta descoberta é um exemplo de um achado de uma época sobre a qual conhecemos muito pouco em Portugal, o Triásico, há cerca de 200 milhões de anos, altura em que viveram alguns dos primeiros dinossauros". Além deste paleontólogo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e colaborador do Museu da Lourinhã, o estudo inclui investigadores das universidades de Edimburgo, Birmingham e Museu de História Natural de Paris. As criaturas assemelham-se a salamandras gigantes, algumas com 2 metros de comprimento, que viveram em lagos e rios durante o Período Triásico, de forma semelhante aos crocodilos de hoje, dizem os investigadores. Estes anfíbios primitivos, que pareciam salamandras gigantes, foram contudo parentes distantes das verdadeiras salamandras de hoje. Os metopossauros faziam parte do grupo ancestral do qual anfíbios modernos – tais como sapos e salamandras – evoluíram, diz a equipa. A descoberta revela que a distribuição geográfica deste grupo de animais era maior do que se pensava anteriormente. Restos fósseis deste tipo de animais foram encontrados em África, na Europa e na América do Norte, mas as diferenças na estrutura do crânio e mandíbula dos fósseis encontrados em Portugal revelaram que eles pertenceram a uma nova espécie. Esta foi descoberta numa camada repleta de ossos onde dezenas de animais podem ter morrido quando o lago secou.

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Na Grã-Bretanha, segundo a BBC, diferentes espécies de abelhão (Bombus sp.) estão a diminuir e a própria extinção não está fora de contexto. Há grupos de conservação da natureza que pedem uma regulamentação mais apertada na importação de abelhamelífera para utilização comercial. Este vetor será um dos importantes corredores de contágio para inúmeras doenças que afetam estes insetos produtores de mel e que, com as trocas comerciais patentes em todo o Mundo, viabilizam um contágio fácil e sem tempo para uma resposta imunitária adequada. Investigadores da Universidade de Londres recolheram centenas de abelhas-melíferas e abelhões em 26 áreas da Inglaterra, País de Gales e Escócia. Ao analisá-las verificaram que cinco viroses conhecidas causadoras de doenças em abelhas-melíferas contagiaram abelhões selvagens. Mark Brown, da Escola de Ciências Biológicas Royal Holloway, da dita universidade, afirma que é necessário fazer mais para proteger todas estas espécies cujo trabalho de polinização é tão importante para a vida na Terra. Adiantou ainda que este fator associado ao impacto dos pesticidas e demais químicos agressivos introduzidos pelo homem nos ecossistemas, bem como a perda de habitat, poderá vir a ter um impacto profundo num futuro próximo em todas as espécies afins.

Jorge Gomes

Abelhões ameaçados


Joaquim Aurélio

Simpósio de Botânica Criptogâmica O XX Simpósio de Botânica Criptogâmica decorreu pela primeira vez no Porto, nos dias 22 a 25 de julho de 2015. Trata-se de um encontro bienal de especialistas no estudo de fungos, algas, líquenes, briófitas (musgos) e pteridófitas (fetos) e é a mais importante reunião científica da área a nível ibérico. Visa a apresentação e discussão dos progressos alcançados até à data, realçando a crescente importância do estudo da flora criptogâmica para a gestão dos ecossistemas e sustentabilidade dos recursos terrestres, aplicações biotecnológicas e desenvolvimento de metodologias de previsão dos efeitos de alterações ambientais locais, regionais e globais. A presente edição foi uma organização

conjunta do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO/ InBIO), grupo "Predictive Ecology" e do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), ambos associados à Universidade do Porto. A comissão organizadora encorajou a participação de todos os profissionais que desenvolvam a sua atividade na área da Botânica Criptogâmica, incluindo para além de investigadores e estudantes universitários, empresários e representantes de outros sectores de atividade, para fomentar o intercâmbio técnico-científico e a troca de competências. Para mais informações, por favor consultar: http://criptogamia.up.pt

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72 PROJETO PAR Cada dia que passa há mais empresas e cidadãos a confiarem ao Parque Biológico de Gaia o sequestro de carbono Ajude a neutralizar os efeitos das emissões de CO2, adquirindo área de floresta em Vila Nova de Gaia com a garantia, dada pelo Município, de a manter e conservar e de haver em cada parcela a referência ao seu gesto em favor do Planeta

Para mais informações pode contactar pelo n.º (+351) 227 878 120 ou em carbono@parquebiologico.pt Parque Biológico de Gaia, Projeto Sequestro do Carbono 4430-681 Avintes • Vila Nova de Gaia

Sequestro de Carbono Agrupamento de Escolas Ovar Sul - Curso EFA B3 • Agrupamento Vertical de Escolas de Rio Tinto • Alice Branco e Manuel Silva • Alunos do 9.º ano (2012/13) da Escola Secundária do Castelo da Maia • Amigos do Zé d’Adélia • Amigos do Zé d’Adélia e Filhos • Ana Filipa Afonso Mira • Ana Luis Alves Sousa • Ana Luis e Pedro Miguel Teixeira Morais • Ana Miguel Padilha de Oliveira Martins • Ana Paula Pires • Ana Rita Alves Sousa • Ana Rita Campos, Fátima Bateiro, Daniel Dias, João Tavares e Cláudia Neves do 11.º A (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Ana Sofia Magalhães Rocha • Ana Teresa, José Pedro e Hugo Manuel Sousa • António Miguel da Silva Santos • Arnaldo José Reis Pinto Nunes • Artur Mário Pereira Lemos • Bárbara Sofia e Duarte Carvalho Pereira • Bernadete Silveira • Carolina de Oliveira Figueiredo Martins • Carolina Sarobe Machado • Carolina Birch • Catarina Parente • Cipriano Manuel Rodrigues Fonseca de Castro • Colaboradores da Costa & Garcia • Cónego Dr. Francisco C. Zanger • Convidados do Casamento de Joana Pinto e Pedro Ramos • Cursos EFA Básicos (2009/10) da Escola Secundária Dr. Joaquim Gomes Ferreira Alves • Deolinda da Silva Fernandes Rodrigues • Departamento Administrativo Financeiro da Optimus Comunicações, SA DAF DAY 2010 • Departamento de Ciências Sociais e Humanas da Escola Secundária de Ermesinde • Departamento de Matemática e Ciências Experimentais (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Dinah Ferreira • Dinis Nicola • Dulcineia Alaminos • Eduarda e Delfim Brito • Eduarda Silva Giroto • Escola Básica da Formigosa • Escola Dominical da Igreja Metodista do Mirante • Escola EB 2,3 de Valadares • Escola EB 2,3 Dr. Manuel Pinto Vasconcelos, Projecto Pegada Rodoviária Segura, Ambiente e Inovação • Escola EB 2,3 Escultor António Fernandes de Sá • Escola Secundária Almeida Garrett - Projecto Europeu Aprender a Viver de Forma Sustentável • Escola Secundária Augusto Gomes • Escola

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Secundária do Castelo da Maia • Família Carvalho Araújo • Família Lourenço • Fernando Ribeiro • Francisco Gonçalves Fernandes • Francisco Saraiva • Francisco Soares Magalhães • Graça Cardoso e Pedro Cardoso • Grupo ARES - Turma 12.º B (2009/10) da Escola Secundária dos Carvalhos • Grupo Ciência e Saúde no Sec. XXI - Turma 12.º B (2009/10) da Escola Secundária Dr. Joaquim Gomes Ferreira Alves • Grupo de EMRC da Escola Básica D. Pedro IV - Mindelo • Guilherme Moura Paredes • Hélder, Ângela e João Manuel Cardoso • Inês, Ricardo e Galileu Padilha • Joana Fernandes da Silva • Joana Garcia • João Guilherme Stüve • João Monteiro, Ricardo Tavares, Rita Mendes, Rita Moreno, e Sofia Teixeira, do 12.º A (2011/12) da Escola Secundária Augusto Gomes • Joaquim Pombal e Marisa Alves • Jorge e Dina Felício • José Afonso e Luís António Pinto Pereira • José António da Silva Cardoso • José António Teixeira Gomes • José Carlos Correia Presas • José Carlos Loureiro • José da Rocha Alves • José, Fátima e Helena Martins • Lina Sousa, Lucília Sousa e Fernanda Gonçalves • Luana e Solange Cruz • Manuel Mesquita • Maria Adriana Macedo Pinhal • Maria Carlos de Moura Oliveira, Carlos Jaime Quinta Lopes e Alexandre Oliveira Lopes • Maria de Araújo Correia de Morais Saraiva • Maria Guilhermina Guedes Maia da Costa, Rosa Dionísio Guedes da Costa e Manuel da Costa Dionísio • Maria Helena Santos Silva e Eduardo Silva • Maria Joaquina Moura de Oliveira • Maria Manuela Esteves Martins Alves • Maria Violante Paulinos Rosmaninho Pombo • Mariana Diales da Rocha • Mário Garcia • Mário Leal e Tiago Leal •

Marisa Soares e Pedro Rocha • Marta Pereira Lopes • Mateus de Oliveira Nunes Miranda Saraiva • Miguel Moura Paredes • Miguel Parente • Miguel, Cláudia e André Barbosa • Nuno Topa • Paula Falcão • Pedro Manuel Lima Ramos • Pedro Miguel Santos e Paula Sousa • Professores (2010/11) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Professores e Funcionários (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Protetores do Ambiente Professores e Alunos da Escola Básica de Canidelo • Regina Oliveira e Abel Oliveira • Ricardo Parente • Rita Nicola • Sara Pereira • Sara Regueiras, Diana Dias, Ana Filipa Silva Ramos do 11.º A (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Serafim Armando Rodrigues de Oliveira • Sérgio Fernando Fangueiro • Tiago José Magalhães Rocha • Tiago Pereira Lopes • Turma A do 6.º ano (2010/11) do Colégio Ellen Key • Turma A do 8.º ano (2008/09) da Escola EB 2,3 de Argoncilhe • Turma A do 9.º ano (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turma A do 11.º ano (2010/11) da Escola Secundária de Ermesinde • Turma A do 10.º ano e Professores (2010/11) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turma A do 12.º ano (2010/11) da Escola Secundária de Ermesinde • Turma C do 10.º ano (2010/11) da Escola Secundária de Ermesinde • Turma D do 10.º ano e Professores (2010/11) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turma D do 11.º ano (2010/11) da Escola Secundária de Ermesinde • Turma E do 10.º ano (2008/09) da Escola Secundária de Ermesinde • Turma E do 12.º ano (2010/2011) da Escola Secundária de Ermesinde • Turma G do 12.º ano (2010/11) - Curso Profissional Técnico de Gestão do Ambiente do Agrupamento de Escolas Rodrigues de Freitas • Turma IMSI do Curso EFA - ISLA GAIA (2008/09) • Turmas A e C do 10.º ano (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turmas A e C do 11.º ano; A e B do 12.º ano e Professores (2010/11) da Escola Secundária de Oliveira do Douro •Turmas B e C do 12.º ano - Psicologia B (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turmas B e D do 11.º ano (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turmas A, B e G do 12.º ano; G e H do 11.º ano e F do 10.º ano (2010/11) da Escola Secundária de Ermesinde • Vânia Rocha


Colégio Luso-Francês

Posto de Abastecimento de Avintes

Para aderir a este projeto recorte o seguinte rectângulo e remeta para: Parque Biológico de Gaia • Projeto Sequestro do Carbono • 4430 - 681 Avintes • Vila Nova de Gaia O regulamento encontra-se disponível em www.parquebiologico.pt/sequestrodocarbono

Pretendo/Pretendemos aderir à Campanha Confie ao Parque Biológico de Gaia o Sequestro do Carbono apoiando a aquisição de

m2 de área florestal X € 50 =

Junto se envia cheque para pagamento

euros.

1 m2 = €50 - 4 kg/ano de CO2

Procedeu-se à transferência para o NIB 0033 0000 4536 7338 05305

Nome do Mecenas Recibo emitido à ordem de Endereço N.º de Identificação Fiscal

Telefone

e-mail

O Parque Biológico pode divulgar o nosso contributo

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74 BIBLIOTECA

Flora e fauna Filipe Vieira

Nesta edição, pela proximidade das respetivas edições, escolhemos dois novos livros

Pirilampos de Portugal Fireflies and Glow-worms of Portugal

A Flore Portugaise e as Viagens em Portugal de Hoffmannsegg e Link (1795 A 1801).

Raphaël de Cock, Henrique Nepomuceno Alves, Nuno Gomes Oliveira, Jorge Gomes. Águas e Parque Biológico de Gaia, EEM/CMG, 2015.

Oliveira, Nuno Gomes. Chiado Editora, 2015.

sta publicação/guia bilingue (português/ inglês) de pirilampos, o primeiro em Portugal, e talvez dos poucos existentes no mundo, saiu da escuridão e vê a luz do dia. Com a participação de Raphaël de Cock, um conhecido investigador deste grupo, os Lampyridae, o Parque Biológico editou um guia de campo que reúne informação, até então dispersa, e descrições das várias espécies de pirilampos existentes em Portugal, o seu ciclo de vida, anatomia e um olhar sobre a bioluminescência, que torna o pirilampo tão distintivo das outras espécies da ordem Coleoptera. Inclui fotografias de várias espécies assim como os atuais mapas da sua distribuição em Portugal continental.

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á disponível no mercado está a edição “A Flore Portugaise e as Viagens em Portugal de Hoffmannsegg e Link (1795 a 1801)" da Chiado Editora. Esta nova publicação de Nuno Gomes Oliveira relata, entre muitos outros assuntos, a “aventura” que Hoffmannsegg e Link, naturalistas e autores da primeira descrição iconográfica da flora portuguesa, que terão vivido entre 1779 e 1801. Nessa época andaram, por terras de Portugal e realizaram explorações de levantamento e estudo preparatórias para a obra entretanto em curso. Esta oferece por isso ao leitor um interessante panorama natural de Portugal, com excelentes relatos, num conturbado período da história, a viragem do séc. XVIII para o séc. XIX. Embora esta obra, a “Flore Portugaise”, já tenha sido objeto de análise de outros autores portugueses, os quais naturalmente o autor evoca, há assuntos e factos novos relevantes de que Nuno Oliveira nos dá conta, como é o caso do projeto “Flore Lusitaniae”, que Hoffmannsegg e Link tinham em preparação e que nesta edição o autor apresenta transliterado do latim um prefácio nunca antes publicado. Aborda também de forma cuidada, a relação entre os naturalistas e o botânico e professor Félix Avelar Brotero, entre os quais se evidenciava certa rivalidade, uma vez que ambos quereriam naturalmente ser os primeiros a publicar a flora portuguesa. Trata-se de um livro que obrigou a cuidada investigação, no âmbito de preparação do doutoramento do autor e que ao mesmo tempo assinala os 200 anos da edição da “Flore Portugaise”.

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CRÓNICA 75

Jorge Paiva Biólogo

Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra jaropa@bot.uc.pt

Fitoterapia, panaceias e plantas aromáticas Basta consultar qualquer bom dicionário de português para se saber que Fitoterapia é uma palavra de origem grega que significa prática terapêutica baseada em preparados derivados de plantas e Panaceia é uma palavra, igualmente de origem grega, que significa planta imaginária a que se atribui a virtude de curar todas as doenças ortanto, panaceia nada tem a ver com atributos medicinais e fitoterapia é uma prática da medicina e há especialistas nesta matéria. Na panaceia os “especialistas” são indivíduos que se aproveitam do mal dos outros para ganharem dinheiro. O pior é que há, infelizmente, muita gente que, ingenuamente, acredita que há plantas que curam quase tudo. Normalmente, eu argumento que se uma planta tivesse tantos atributos ou um atributo “miraculoso”, a indústria farmacêutica não deixava uma “mina” dessas nas mãos de um indivíduo qualquer. É importante referir que a nossa espécie utiliza plantas medicinais quase desde que apareceu na Terra. Conhecem-se documentos sobre plantas medicinais há mais de cinco mil anos, como são os documentados sistemas médicos chineses e o “ayurvédico” indiano. Antes da fabricação dos medicamentos pela indústria farmacêutica, que não tem mais do que século e meio, as

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S Tomilho-do-mar (Thymus camphoratus)

enfermidades eram tratadas diretamente com “mezinhas” das plantas ou dos animais. Foi, por isso, que a 5 de outubro de 1773 o marquês de Pombal escreveu ao então reitor da Universidade de Coimbra, rejeitando o grandioso plano para o Jardim Botânico

de Coimbra, que este lhe enviara, dizendo: “Debaixo d’estas regulares medidas deve, V. Ex.ª fazer delinear outro plano, reduzido somente ao numero de hervas medicinais que são indispensáveis para os exercícios botânicos, e necessaras para se darem aos

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estudantes as instruções precisas para que não ignorem esta parte da medicina...”. Ultimamente, temos assistido a “ondas” periódicas de panaceias, e após a verificação de que tudo não passa de um logro, aparece logo outra. Senão, vejamos alguns exemplos. No final do século XX, princípio deste século, foi a panaceia do Aloe vera, que ainda perdura, embora já haja muitíssima gente que não cai nessa fraude. A panaceia foi tal que passou para a indústria de cosméticos e até, criminosamente, para a indústria alimentar, que, felizmente, tem regras e leis apropriadas e os produtos alimentares com Aloe vera (particularmente iogurtes) já desapareceram do mercado. Na altura até alertei para essa burla, em entrevistas (rádio, televisão) e na publicação de alguns artigos, um deles nesta revista (Aloe vera: mitos e realidades. – Parques e Vida Selvagem 21: 48-50; 2007). A panaceia do Aloe vera foi tal, que todo o aloé que por aí é cultivado nos jardins públicos e privados era utilizado como se tivesse os mesmos atributos ou até comercializado como Aloe vera. Enfim, os atributos do Aloe vera são conhecidos há muitos séculos (desde A. C.), tendo sido uma das plantas utilizadas na mumificação pelos egípcios e, também, para a mumificação de Jesus Cristo (Jo 19, 39). À panaceia “aloeífera” seguiu-se e ainda continua, a do mangostão (Garcinia mangostana), uma espécie arbórea nativa da região tropical do Sudeste Asiático. O fruto tem uma polpa saborosíssima e, como acontece com quase todas as plantas alimentares cultivadas, a nossa espécie pesquisa atributos medicinais nessas plantas de que se alimenta. Por exemplo, come-se milho, mas utiliza-se medicinalmente o chá de “barbas de milho” (estiletes e estigmas). Por isso, o mangostão é já referido como planta medicinal por Garcia de Orta nos seus “Colóquios dos Simples e Droga da Índia”, no volume 2 (1563), “Coloquio Trigesimo Oitavo. Das Mangostães”. Portanto, os atributos medicinais desta planta são conhecidos desde antes dos Descobrimentos. Atualmente a panaceia “mangostânica” é tal, que é remédio para emagrecer rapidamente, para retardar o envelhecimento físico e mental, para algumas doenças infeciosas (gripe e tuberculose), para doenças cardiovasculares, para reduzir o colesterol elevado, como anti-inflamatório, como regulador da tensão arterial, como preventivo de cancro

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S Aloé (Aloe vera)

e atenuante de doenças degenerativas (por exemplo, a Alzheimer). Francamente, a indústria farmacêutica anda a “dormir” e ainda não descobriu esta planta miraculosa, deixando que este “filão” seja explorado por outros? É interessante que estas panaceias têm normalmente a sua origem no Brasil, para depois se difundirem comercialmente em Portugal. A razão disso é que elas são difundidas em português pela rede informática global (internet). A do aloé foi iniciada por um frade brasileiro e a do mangostão basta ir à internet para se perceber que a negociata teve início no Brasil, pois a Garcinia mangostana é uma árvore que exige clima tropical. Deve haver por lá uma “multinacional de panaceias”. Pelas solicitações que me têm feito e pelo que já se encontra na internet, estou à espera

que a próxima panaceia seja a moringueira ou acácia-branca (Moringa oleifera), outra planta de origem asiática (da Arábia à Índia) e já naturalizada em muitas outras regiões, a que, por conveniência, até já chamam a “árvoremilagrosa”, e que também recomendam como planta alimentar. Igualmente, pergunto se a indústria alimentar anda a dormir e deixa um alimento destes, de tão alta qualidade, nas mãos de pequenos produtores. É claríssimo que se tivesse esses extraordinários atributos alimentares que divulgam, a indústria alimentar já estava a produzir alimentos em massa, com base na moringueira. Outra panaceia, difundida logo a seguir à do aloé é a da figueira-da-índia (Opuntia ficus-indica), que não tem nada a ver com a Índia, pois é uma Cactácea originária do México. Há uma enorme profusão de atributos anunciados na internet e até


S Moringueira (Moringa oleifera), flor

S Mangostão (Garcinia mangostana), fruto

já ouvi programas de rádio a propósito desta planta “milagrosa”, que até devia ser proibido o seu cultivo, pois é uma invasora, não tão agressiva como a mimosa (Acacia dealbata) mas com o inconveniente de invadir ecossistemas vulneráveis, como são os das regiões secas. Mas a panaceia de plantas afrodisíacas deve ser a mais lucrativa. As pessoas que se atormentam por estarem a perder a líbido, em vez de procurarem tratamento através de plantas afrodisíacas, devem consultar um médico, particularmente um psiquiatra. Plantas consideradas afrodisíacas são conhecidas há muitos séculos, mas durante muito tempo, por imposição de crenças religiosas, eram “proibidas”, como foi o caso do coco-do-mar (Lodoicea maldivica), já referido por Garcia de Orta nos Colóquios (Coloquio Decimo Sexto:

S Moringueira (Moringa oleifera), fruto

Do Coquo chamado, Scilicet, do Coquo Comum e do das Maldivas) e por Camões em “Os Lusíadas” (Canto X, 136) e na Lírica (ex. no soneto “Depois que viu Cibele o corpo humano…”), mas sem afirmarem abertamente que era uma planta afrodisíaca, pois estavam em plena época da Inquisição e o Santo Ofício não lhes perdoaria a “afronta”. Também já tratamos deste coco nesta revista (O fabuloso coco do mar – Parques e Vida Selvagem 18: 48-50; 2007). Há uma grande quantidade de plantas consideradas como tendo atributos afrodisíacos, tanto na Europa, como, particularmente, nas regiões do Globo mais pobres, de menor escolaridade e onde curandeiros e curandeiras, muitos deles sem escrúpulos, têm enorme poderio e credibilidade. A única planta que conheço com esses

atributos é a yohimbe (Pausinystalia johimbe), uma árvore da família das Rubiáceas [família dos cafeeiros (ex. Coffea arabica, Coffea robusta e Coffea liberica) e das quineiras (ex.: Cichona pubescens e Cinchona calisaya)], nativa das florestas tropicais do Gabão, Ocidente dos Camarões e Sudoeste da Nigéria. É evidente que a indústria farmacêutica não anda a dormir e desde 1949 obteve da casca destas árvores vários alcalóides (yohimbina, mesoyohimbina, yohimbinina, corynanthina, alloyohimbina e ajamalicina), que foram sendo estudados cuidadosamente até à produção do “famoso” viagra. Panaceias deste tipo, também ocorrem com plantas alimentares. Atualmente, ocorre aquilo a que eu designo pela “panaceia das plantas aromáticas”, com a utilização de plantas aromáticas em todos os pratos e

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78 CRÓNICA

em tudo que é salada. Ora, isso nunca foi assim em Portugal. As plantas aromáticas são características de regiões secas. As plantas, tal como nós, “transpiram” vapor de água através de uns “poros” designados por estomas. Ora, nas regiões secas e quentes, as plantas não suportariam a perda de água a que essas regiões de clima seco e quente obrigariam. Assim, exsudam produtos aromáticos (gorduras) que saturando a atmosfera, fazem com que elas não percam tanta água. Assim se compreende que as plantas referidas na Bíblia e no Corão sejam maioritariamente plantas aromáticas. Por isso, em Portugal, há muitíssimo mais plantas aromáticas nativas no Alentejo do que no Norte, particularmente no Norte do Minho montanhoso, onde nem o louro (Laurus nobilis) ocorre espontaneamente. Desta maneira, a cozinha alentejana utiliza muitas plantas aromáticas e em quantidade, pois são as plantas que, nessa região, têm com abundância no campo. A cozinha do Alto Minho não utiliza plantas aromáticas, a não ser as vulgares condimentares (alho, cebola e raramente salsa). Por isso, uma vitela barrosã assada no forno, tipicamente minhota, não pode levar plantas aromáticas, pois estarão a adulterar o prato típico. Muita gente se admira que, sendo eu botânico, não goste de comida e saladas com plantas aromáticas. Acontece que a minha Mãe era minhota e até cozinhava muito bem. Nestas circunstâncias, quando vou ao Norte e me servem pratos típicos dessa região do país, com profusão de plantas aromáticas, contesto sempre e procuro explicar a quem os cozinhou, o disparate que faz ao confecionar uma refeição tipicamente nortenha daquela maneira. Claro que se vou ao Alentejo, não vou cometer a estupidez de pedir que me sirvam uma açorda alentejana sem coentros (Coriandrum sativum), ou uma caldeirada sem aromáticas. Por outro lado, com este abuso das aromáticas, podem acontecer intoxicações. Todas as plantas aromáticas são tóxicas, sem excepção. Algumas tão tóxicas que matam, como, por exemplo, a cicuta (Conium maculatum), planta da mesma família (umbelíferas) da salsa (Petroselinum crispum), que até já se utilizou como abortiva (início da gravidez) e da cenoura (Daucus carota). Sabemos que a maioria dos medicamentos são produzidos a partir de produtos descobertos nas plantas

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S Rosmaninho (Lavandula luisieri)

(mais de 80%), geralmente alcalóides e produtos aromáticos. Sabemos que todos os medicamentos têm alguma toxicidade; alguns são tão tóxicos que só se vendem com receita médica e alguns de elevada toxicidade nem se vendem nas farmácias e são administrados por um médico ou um enfermeiro (ex.: a quimioterapia oncológica). Também nenhuma farmácia vende medicamentos a uma criança. Como as plantas aromáticas são tóxicas, assim como muitas outras produtoras de alcalóides de elevada toxicidade, considero que no comércio de plantas medicinais deveria haver as mesmas regras e leis que há nas farmácias. Há países em que assim é. Infelizmente em Portugal como esse comércio não está bem regulamentado, até se chega a “vender “gato por lebre”, como é o caso, por exemplo do hipericão-do-gerês (Hypericum androsaemum). Todo o hipericão que se vende no Parque Nacional, como hipericão-do-gerês, não é esse hipericão,

que, por ser protegido, é proibida a colheita. O que se vende é outro hipericão, a milfurada (Hypericum peroforatum). O hipericão-do-gerês tem atributos hepatoprotetores e para distúrbios digestivos e a milfurada não. Mas muita gente diz sentir-se bem ao tomar chá da milfurada. Acontece que a milfurada tem atributos antidepressivos. Por isso, a pessoa sente-se melhor, mas não está a tratar os seus distúrbios digestivos ou hepáticos. Há famílias de plantas em que todas as espécies são aromáticas, como, por exemplo, as Labiadas [ex.: hortelã-pimenta (Mentha arvensis ou Mentha x piperita)], manjerico (Ocimum minimum), poejo (Mentha pulegium), alecrim (Rosmarinus officinalis), rosmaninho (Lavandula luisieri) e tomilhos, como, por exemplo, o tomilho-do-mar (Thymus camphoratus)], as Rutáceas [ex.: laranjeiradoce (Citrus sinensis), limoeiro (Citrus limon) e arruda (Ruta chalepensis)], Lauráceas [ex.: loureiro (Laurus nobilis), caneleira (Cinnamomum verum) e canforeira (Cinnamomum camphora)]


S Milfurada (Hypericum perforatum)

W Hipericão-do-gerês (Hypericum androsaemum)

e as Umbelíferas [ex.: coentros (Coriandrum sativum), cenoura (Daucus carota), salsa (Petroselinum crispum), cominhos (Cuminum cyminum) e aipo (Apium graveolens)], assim como há famílias de plantas em que todas produzem alcalóides, como é o caso da família das Solanáceas em que todas produzem atropinas, que são alcalóides extremamente tóxicos. Mas, estas plantas não produzem ou acumulam as atropinas sempre no mesmo órgão. Por isso, algumas são utilizadas na alimentação, pois a espécie humana selecionou, durante milénios, aquelas que não os acumulam nos órgãos comestíveis. Assim acontece, por exemplo, com o tomateiro (Lycopersicon esculentum), que dá frutos sem atropinas, por isso os comemos, mas não aproveitamos as folhas por terem elevado teor de atropinas. Isso é facilmente percetível pela quantidade de insetos mortos que as folhas apresentam. Aliás, os índios secavam-nas, moíam-nas e utilizavam o “pó” de folhas secas moídas, para desparasitarem o cabelo e o pêlo dos animais domésticos. Também, por isso, ninguém dá folhas dos tomateiros ao gado ou às galinhas. A batateira (Solanum tuberosum) tem um fruto com atropinas (ninguém come os frutinhos das batateiras), assim como as folhas também têm algum teor atropínico, mas o rizoma não tem, por isso o comemos. Mas comemos as beringelas (Solanum melongena), pois estes frutos não têm atropinas, que estão nas folhas. Algumas Solanáceas têm flores muitos vistosas, por isso, são utilizadas como ornamentais. Mas, algumas delas exsudam elevado teor de atropinas nas flores, como, por exemplo, as trombeteiras (Brugmansia suaveolens; Brugmansia x candida e Brugmansia sanguinea), que já têm causado graves intoxicações, com manifestações alucinogénicas violentas (caso de um jardineiro que as podava e alucinado, com a tesoura de podar, decepou o pénis) e até a morte (caso de um rapaz de 16 anos, no Funchal). Enfim, podem utilizar-se plantas medicinais (aromáticas ou não) e alimentares (aromáticas ou não), mas é preciso saber como as utilizar e não acreditar que são milagrosas. Tal como qualquer medicamento, qualquer planta medicinal tem sempre contra-indicações e eu já vi venderem plantas medicinais com a informação que não tinham contraindicações.

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80 SABER

Falando dos

solos rande amigo pessoal do professor Joaquim Vieira Botelho da Costa (19101965), Orlando Ribeiro, o seu colega professor catedrático do Instituto Superior de parisiense Pierre Birot, professor Agronomia (ISA), vulto maior na ciência do solo, no Institut de Géographie de Paris, se referiu, em 1960, como “Fazendo a transição visitava frequentemente o nosso país a fim entre esse manto vivo (a vegetação) e o esqueleto de aqui proceder a trabalhos de campo em mineral do substrato geológico.” colaboração com o seu colega português. A par da modelação das formas de relevo por Ainda como finalista de Geologia, na Faculdade erosão (gliptogénese), da formação das rochas de Ciências da Universidade de Lisboa, e a sedimentares (sedimentogénese) e da origem convite do professor Orlando, tive o privilégio de e evolução dos seres vivos (biogénese), a os acompanhar numa excursão de vários dias pedogénese (do grego pédon, solo), ou seja, a à chamada Bacia do Mondego, na região de origem e evolução do solo, não pode, pois, deixar Coimbra, uma experiência riquíssima que, estou de ser considerada um fenómeno geológico. certo, abriu o caminho ao que foi a minha opção Sendo a alteração das rochas (meteorização) e A. M. Galopim de Carvalho no âmbito das Ciências da Terra a dialéctica a formação do solo as respostas da litosfera ao Professor catedrático jubilado do Departamento possível de estabelecer entre a geomorfologia e ambiente externo, e sendo a erosão a resposta de Geologia da Faculdade de Ciências a sedimentologia ou, mais especificamente, entre dos produtos dessa alteração à atracção gravítica, da Universidade de Lisboa a erosão e a sedimentação. a existência de um solo testemunha sempre Nesta excursão, as geografias física e humana uma situação de equilíbrio entre as taxas de O solo, surgido no e a geologia interligaram-se num todo meteorização e de erosão. multidisciplinar, harmonioso e atraente, fruto E, assim, como escreveu, em 1980, outro nome Silúrico superior, há do muito saber dos dois notáveis geógrafos e grande da ciência do solo, o professor João cerca de 425 milhões ilustres humanistas. Manuel Bastos de Macedo, do ISA, o solo é “uma de anos, por força Nesta saída de campo aprendi a olhar o solo (do solução de compromisso entre a meteorização latim, solum, solo, chão, base) como resultado e a erosão” e, como tal, fruto de um evidente de um processo de um dos processos geológicos ocorrentes processo geológico à escala do planeta. dinâmico, a um à superfície do planeta, com ligações muito Recurso fundamental à sobrevivência da tempo geológico e estreitas a múltiplas disciplinas (geomorfologia, humanidade, o solo, surgido no Silúrico superior, geoquímica, prospecção mineira, agronomia, há cerca de 425 milhões de anos, por força de biológico, alimentado economia, etnografia e sociologia, entre outras). um processo dinâmico, a um tempo geológico e pela energia solar, Pouco tempo depois, na minha passagem por biológico, alimentado pela energia solar, está cada está cada vez mais Paris, nos anos de 1962 a 1964, frequentei, vez mais sujeito ao impacto da actividade humana com redobrado interesse, as aulas do professor exponencialmente crescente. sujeito ao impacto da Birot, no referido Institut de Géographie. Com Na sua imensa capacidade tecnológica, o homem actividade humana início pelas oito horas da manhã, bem de noite pode destruir em horas um bem colectivo cuja no frio Inverno parisiense, o n.º 191 da Rue formação necessita de milhares de anos a ser Saint Jacques, a dois passos do Panthéon, era desenvolvido. um formigueiro de gente, oriunda de todos os cantos do mundo, a Urge pois trazer este conhecimento ao cidadão, a começar na caminho do grande auditório para ouvir o mestre. escola, onde os curricula estão longe de dar ao solo a importância Foi nessas aulas que conheci a obra de outro grande geógrafo científica, económica e social que, na realidade, tem. francês, Henri Herhart (18981982), “La genèse des sols en tant Pelo valor que lhe é atribuído, como um dos principais recursos que phénomène géologique: Esquisse d’une théorie géologique et naturais de que dispomos, ao lado da água e do ar e bem acima géochimique, biostasie et rhexistasie”, publicada, em 1956. Este da maioria das matérias-primas minerais, o seu estudo, isto é, a magnífico trabalho que fez escola entre geógrafos e geólogos, pedologia1, para além da sua importância em ciências fundamentais, como a Geologia (em especial a geodinâmica externa) e a Biologia, despertou em mim o interesse que, à margem da minha actividade constitui complemento indispensável em domínios do saber ligados profissional, sempre nutri pelo “chão que nos dá o pão” a que

G

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à economia, como são, entre outros, a agricultura, a silvicultura, o ordenamento do território e a prospecção geológica e mineira. A pedologia recorre a meios que vão desde os mais simples, como seja a observação no terreno em amostra de mão, 0aos mais sofisticados, postos à disposição dos pedólogos, com destaque para a difractometria de raios X, as microscopias óptica e electrónica, os diversos equipamentos de análise química mineral, a fotografia aérea, a teledetecção via satélite, etc., sem esquecer

os da biologia e da bioquímica, indispensáveis ao conhecimento da componente orgânica viva e morta do solo. (1) A mesma palavra, com a mesma grafia, significa também a ciência que estuda a criança (do grego paidós, criança). Os nossos vizinhos espanhóis evitam esta ambiguidade usando o termo edafologia, do grego édaphós, solo, para referir a ciência dos solos. Nota: Por vontade do autor o texto não segue o acordo ortográfico em vigor. Este texto é uma adaptação dos artigos publicados nos blogues sopasdepedra.blogspot.com e no De Rerum Natura.

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82 CARTOON Por Ernesto Brochado

Coletivismo

Decorreu no passado verão uma campanha de “crowdfunding” para financiar o combate à captura ilegal de aves migradoras em Portugal. O objetivo era chegar aos 6 mil euros. A campanha foi lançada no site português PPL (http://ppl.com.pt) e teve por objetivo reunir 6 mil euros para que se possa procurar de modo mais eficaz os locais onde se pratica esta atividade ilegal, investindo-se numa sensibilização da população, bem como no desenvolvimento de ações de lóbi que pressionem as autoridades a alterar a lei em vigor. A campanha “Diga NÃO aos passarinhos na gaiola e no prato” tem vindo a detetar cada vez mais situações ilegais ou potencialmente ilegais que acabam por passar despercebidas tendo em conta o

82 • Parques e Vida Selvagem primavera 2016

vazio existente na lei portuguesa em relação a alguns aspetos. Este tipo de prática, tanto a colocação de armadilhas para captura como para consumo de aves – muitas destas acabam por ser vendidas em feiras ou em sites de venda on-line (OLX, por exemplo), – leva a uma estimativa que se situa entre as 20 e a 130 mil aves capturadas ou abatidas só em Portugal. Um número insustentável. Em Portugal, a lei é explícita – estas práticas constituem um crime ambiental. Na prática, grande parte dos prevaricadores passa impune, ou pela isenção de pagamento da respetiva multa ou pelo simples facto de nunca serem apanhados. As aves capturadas são facilmente vendidas

em feiras ou através de sites de venda on-line. Através de um clique é possível comprar um chapim-real, um pisco-depeito-ruivo ou uma coruja. Esta campanha é coordenada pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves e tem como parceiros a Aldeia, o Cervas, o Rias, A Rocha, a Quercus, a Liga para a Proteção da Natureza, o Parque Biológico de Gaia e a Associação Transumância e Natureza. A campanha esteve disponível durante 60 dias. Seja também uma voz ativa na defesa da biodiversidade – visite www.spea.pt/ pt/participar/campanhas/captura-ilegal/ como-ajudar/ – e adira a campanhas deste género, pois as gerações futuras agradecer-lhe-ão. Texto: adaptação de colaboração de Maria Silva

Luís Ferreira

A SPEA também quer acabar com a captura ilegal de aves

Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves Avenida João Crisóstomo, 18 – 4º Dto 1000-179 Lisboa – Portugal Tel.: 21 322 0430 / Fax: 21 322 04 39 spea@spea.pt • www.spea.pt


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Revista PARQUES E VIDA SELVAGEM n.º 49  

As traves-mestras desta publicação são a educação ambiental e a conservação da natureza. A revista PARQUES E VIDA SELVAGEM é produzida trim...

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