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Ano XII • N.º 43 • 22 de junho a 21 de setembro de 2013

Portfolio BERÇO DE ESTRELAS Entrevista TRATAR AS DOENÇAS DAS PLANTAS Reportagem RESERVA BIOLÓGICA DO RIO TROMBETAS

3 euros

IVA incluído

Portfolio Astronomical Photography Contest Interview Taking care of plants Report Biological Reserve of the Trumpets river

CONCURSO DE FOTOGRAFIA + TURISMO E DIVERSIDADE NOVOS PARQUES DE GAIA + A RELEVÂNCIA DA FLORA DO LITORAL


EDITORIAL 3

Nuno Oliveira Diretor da revista "Parques e Vida Selvagem"

Coisas da Natureza urso-pardo (Ursus arctus), extinto em Portugal “oficialmente” em 1650, ainda ocorria nas serranias fronteiriças do Norte de Portugal em meados do século XX, tendo sido abatido um macho em junho de 1946, na Serra do Laboreiro, a menos de 5 km da fronteira portuguesa de Melgaçoi. Agora voltou a aproximar-se de Portugal: em maio, o “El Correo de Zamora” dava conta da sua presença na zona de Sanabria e em agosto passado o mesmo jornal publicou fotos de um urso em Muelas de los Caballeros, a 27 km da fronteira portuguesa de Bragança. Claro que do lado espanhol há áreas imensas florestadas e desabitadas, condições que o urso não encontrará do nosso lado. Quanto ao lince-ibérico (Lynx pardinus) foi visto e fotografado um em maio, em Vila Nova de Milfontes. O padrão de pele permitiu identificar o exemplar, que nasceu em 2011, perto de Sevilha e faz parte da população do Parque Nacional de Doñana. Desde 2010, quando outro lince de Doñana foi visto e capturado (para substituição do emissor) na zona de Moura-Barrancos, que não se via um lince em Portugal. Entretanto continuam a nascer linces no Centro Nacional de Reprodução em Cativeiro, em Silves, tendo sido já libertados na Andaluzia alguns animais ali criados.

O

MAIS UM RAMO DE EUCALIPTO A FERIR UMA CRIANÇA No passado mês de julho, noticiava o JN (“Jornal de Notícias”), um ramo de eucalipto caiu subitamente e feriu gravemente uma criança, no Parque da Cidade do Porto. Idêntico acidente ocorreu em agosto de 2006 na serra de Sintra, causando a morte

de um bebé a ferimentos graves em mais duas pessoas. O fenómeno parece estar a alastrar em Portugal, devido à seca e ao excesso de calor. Para além dos casos referidos, há três casos conhecidos em Vila Nova de Gaia, ocorridos em 8 para 9 de agosto de 2006: um no Parque Biológico e dois na Quinta de Stº. Inácio, todos sem consequências graves e outro em julho desde ano no Parque Biológico, também sem consequências. A queda de ramos de árvores, nomeadamente de eucaliptos, é um fenómeno natural e normal, que pode ocorrer com maior intensidade em épocas de calor. “Elevadas temperaturas das folhas, resultantes de intensa insolação, de altas temperaturas do ar ou de ambos os factores, podem provocar taxas de transpiração excessivas. Uma taxa relativamente elevada de perda de água, especialmente nas épocas em que a absorção é baixa, conduz muitas vezes à morte de algumas ou de todas as folhas ou ramos de uma planta, devido à dessecação.”ii Devido a este fenómeno da queda de ramos, que causam frequentemente ferimentos e morte de campistas, montanhistas e trabalhadores florestais, na Austrália alguns eucaliptos são designados por “widowmakers” (fabricantes de viúvas). De tal modo este fenómeno é habitual nesse país que criaram a lenda do “Drop Bear” (o urso que cai) para afastar as crianças dos eucaliptais. A lenda pode ter-se inspirado no koalagigante (Phascolarctos stirtoni), um marsupial arborícola, pertencente à designada Megafauna Australiana, extinto há mais de 50 mil anos. A medida possível para minorar a queda de

ramos de eucaliptos, em parques públicos, é proceder à rega da sua zona de inserção radicular, em épocas de maior calor.

NINGUÉM LIGA AO ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E, DEPOIS... “Prédio construído sobre linha de água está à beira do colapso”, noticiava o jornal “Público” em junho. O prédio foi licenciado em 1996, e localiza-se, ironicamente, na “Rua da Alagoa”, uma zona, obviamente, lagunar. Com o construtor e o diretor da obra já condenados a prisão (em recurso) o edifício apresenta uma inclinação superior a 30 cm.

AS DEZ FLORESTAS MAIS AMEAÇADAS NO MUNDO Um estudo divulgado em julho pela organização Conservation International revelou o decréscimo da área das 10 áreas florestas mundiais mais importantes para a biodiversidade: 1 – Regiões da Indo-Birmânia (Ásia-Pacífico): restam apenas 5% da vegetação original. 2 - Nova Zelândia (Oceânia): restam apenas 5% do bioma local. 3 – Sunda (Indonésia, Malásia e Bornéu – Ásia Pacífico): a área abriga 17 mil ilhas equatoriais; apenas 7% da vegetação original existe atualmente. 4 – Filipinas (Ásia-Pacífico): é considerado um dos países mais ricos em biodiversidade do mundo; 93% da vegetação do país foi destruída. 5 – Mata Atlântica (América do Sul): já esteve presente em praticamente toda a costa brasileira, abrigando 20 mil espécies de plantas. 6 – Montanhas do Centro-Sul da China (Ásia): inclui uma incrível diversidade de

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4 EDITORIAL

PRAGAS DE INSETOS EM GUIMARÃES E SILVES Um estudo da Universidade de Cornell (Nova Iorque), publicado em maio, demonstra o efeito dos pesticidas na diminuição da biodiversidade que, no caso dos invertebrados, pode chegar a 42% das espécies. Também um relatório da Agência Europeia do Ambiente, EEA, divulgado em julho, afirma que nas pradarias da Europa a população de borboletas caiu 50% entre 1990 e 2011. Hans Bruyninckx, diretor executivo da EEA, chama a atenção para a importância das borboletas e outros insetos na polinização. "O que eles transportam é essencial para os ecossistemas naturais e para a agricultura." Apesar disso, em julho o JN noticiava que “Silves intensifica combate aos mosquitos em Armação de Pêra” e a 15 de agosto que uma “Praga de insetos afeta 15 mil pessoas em Guimarães.” A “culpa” foi atribuída a fatores ambientais e provocados pelo homem, mas ninguém se lembrou de refletir sobre a diminuição dos predadores naturais das moscas e mosquitos, e das suas larvas e ovos, peixes, anfíbios, morcegos, aves e mesmo outros insetos. Ainda não há muitos anos, no fim do verão, Portugal era literalmente invadido por multidões de tralhões (nome que caiu em desuso) e se refere a duas espécies de pequenas aves insetívoras migradoras, o papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata) e o papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca). De tal modo eram abundantes,

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que a rapaziada os caçava em enormes quantidades. Não resistimos a transcrever parcialmente um texto do arqueólogo António Carlos de Varela, publicado em 30/1/2011 no seu blogue “Irrealidade prodigiosa”iii: “Mas o que mais me marcava eram as surtidas pelos campos, com os companheiros locais. E foi com eles que aprendi a caçar tralhões (o tralhão é a designação local para um pássaro tipo pardal). O ritual de preparação foi sempre o que mais me entusiasmou. Primeiro havia que encontrar o isco: as “haúdes” (não sei se é assim que se escreve) [na realidade designam-se por aúdes as formigas de asas]. São simplesmente formigas de asa. Com uma sachola escavase um formigueiro até as ditas aparecerem, as quais eram guardadas vivas numas caixas. Depois preparavam-se os “costilos” (também não sei se é assim que se escreve). São ratoeiras de arame, que se fecham sobre a cabeça do animal que come o isco preso ao centro. A preparação consistia nisso mesmo: prender as formigas de asa aos arames do centro da armadilha. Depois, de sachola ao ombro e “costilos” presos à cintura, lá íamos pelos campos. Quando se entendia que um local era bom, cavava-se uma pequena fossa, deixando a terra retirada em rampa, onde se armava o “costilo”, enterrado, deixando apenas visível a “haúde” [aúde] com as suas atraentes asas brilhantes ao sol. As armadilhas iam ficando ao longo de uma rota, a qual era depois percorrida várias vezes: recolhiam-se os tralhões capturados, remontavam-se armadilhas. Esta era a parte que sempre mais me custou. Não tanto quando eles estavam mortos, mas quando estavam feridos. Nessa altura havia que matá-los, o que nunca consegui fazer. Felizmente, havia sempre um local que me acompanhava e que, com um sorriso trocista nos lábios, fazia o que havia a fazer. Os tralhões eram um petisco muito apreciado naquelas bandas. Chegávamos ao final do dia com longos cordões de pássaros (ligados pelas patas ao bicos, através de um processo técnico que implicava a fractura de uma pata de um e o espetar do osso através do bico do outro). No dia seguinte o almoço era arroz de tralhões. Nunca comi.” Os tralhões, de que anilhei centenas, têm vindo a diminuir de ano para ano, disso sou

testemunha nos meus 30 anos de Parque Biológico de Gaia onde ainda há uma década eram abundantes, especialmente o papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca), aparecendo regularmente por volta de 15 de agosto e de que, este ano (estou a escrever a 18 de agosto) apenas ouvi dois ou três. Mas não foram só os tralhões: a generalidade das aves insetívoras tem visivelmente diminuído, e as moscas, mosquitos e pragas agrícolas agradecem! E o uso maciço de inseticidas ainda mais agrava esta situação pois, como são produtos não seletivos, tanto matam as pragas, como os seus predadores.

JG

habitats, a maior taxa de endemismo do mundo; restam apenas 8% da vegetação natural. 7 – Província Florística da Califórnia (América do Norte): possui clima mediterrâneo e abriga o maior organismo vivo do planeta, a sequóia gigante; restam 10% de sua área inicial. 8 – Florestas Costeiras da África Oriental (África): espalhadas por países como Quénia e Tanzânia possuem grande diversidade de espécies endémicas; sofrem com o crescimento populacional. 9 – Madagáscar e ilhas do oceano Índico (África): somente 10% do habitat original conseguiu resistir às pressões oferecidas pelo aumento populacional, mineração e extração de madeira. 10 – Florestas Afromontanas (África Oriental): a agricultura é a principal ameaça, seguida do comércio de carne, que resultou na destruição de 89% do habitat original.

Juvenil de rola-brava, tendo como fundo o JN de 19/08/2012

DE NOVO EM DEFESA DA ROLA-BRAVA Uma das espécies que está a sofrer maior declínio populacional na Europa é a rolabrava (Streptopela turtur) que em Portugal se pode caçar e que diminui na Europa 62% entre 1980 e 2005.iv O bem informado jornal inglês “The Independent” referia na sua edição de 8 de maio deste ano, que em Inglaterra desde 1970 a população de rolas desceu 93% e que em muitos locais onde era familiar é, hoje, uma memória. Num artigo de Jenny Dunn e Anthony Morris publicado na revista “Bird Study” (Vol. 59, n.º 4, 2012), os autores afirmam que “Com o ritmo atual de declínio, a rola-brava pode perder-se como ave nidificante em Inglaterra em 2012.” No Parque Biológico de Gaia, como nidificante, já se extinguiu! A 14 de agosto a Liga para a Proteção da Natureza (LPN) e a Federação Portuguesa de Caçadores (FPC) pediram, em comunicado, uma moratória de dois anos na caça à rola-brava.


OPINIÃO 5 Estava a escrever estas reflexões e eis que “cai” um e-mail com um comunicado da QUERCUS (Associação Nacional de Conservação da Natureza), datado de 16 de agosto, apelando aos Ministros da Agricultura e do Ambiente para que suspendam este ano a caça à rola, que começou exatamente hoje, 18 de agosto. Um dos argumentos invocados pela QUERCUS, e que também já uso há anos, é o facto de em final de agosto ainda haver rolas a nidificar, como bem ilustra a foto anexa. Ora como na época da caça à rola deste ano (3.º domingo de agosto a 30 de setembro) haverá 22 jornadas de caça nos terrenos cinegéticos ordenados (nos restantes é proibida), e podendo cada caçador abater até seis rolas por jornada, temos que, no limite teórico, os 130 mil caçadores que o JN refere na notícia acima poderiam abater mais de 17 milhões de rolas, número próximo do total da população de rola na Europa, que o Bird Life International estima em 10,5 a 21,6 milhões de indivíduos.v Claro que nem todos os caçadores se dedicam às rolas, nem todos caçam todos os dias, e muito menos seis rolas por dia, e também é verdade que só uma parte da população europeia de rola migra através de Portugal; mas qualquer que seja o número de rolas abatidas, terá um efeito muito significativo na população que nidifica em Portugal e que se estimava, há uma década, em 10 mil a 100 mil casais.vi

i. ÁLVARES, Francisco e DOMINGOS, José (2010). Presença histórica do urso em Portugal e testemunhos da sua relação com as comunidades rurais. AÇAFA On Line, no 3, Associação de Estudos do Alto Tejo, www. altotejo.org, acedido em 17/08/2013.

Luís Filipe Menezes Presidente da Câmara Municipal

de Vila Nova de Gaia

Dever cumprido ste é o último artigo de opinião que publicarei na revista “Parques e Vida Selvagem” enquanto Presidente da Câmara Municipal de Gaia, dado que a partir de outubro, por força da lei, terei de deixar de desempenhar essa função, a que me dediquei com determinação durante 16 anos. A avaliar pelas opiniões e resultados eleitorais, não desiludi os Munícipes. E muito do trabalho que desenvolvi na Câmara teve a ver, muito diretamente, com os objectivos desta revista, que são a defesa do ambiente e a conservação da biodiversidade. Se hoje o rio Febros, que nasce em Gaia e atravessa o Parque Biológico, tem Lontras, isso deve-se à total prioridade dada desde o início do meu primeiro mandato ao saneamento básico. Poderão alguns perguntar-me qual a importância das Lontras para o bem-estar dos Munícipes? São o melhor indicador de que a água que o rio Febros faz desaguar no rio Douro tem excelente qualidade, e é a boa qualidade das águas do Douro que garante a boa qualidades das águas das praias de Gaia e Porto. Sabemos que, de montante, o Douro ainda traz alguma poluição; mas também nisso estamos, indiretamente a agir, desde 2009 quando integramos a empresa pública

E

Simdouro, com 32,58% do seu capital, permitindo, assim, que municípios do interior, com maiores dificuldades, tenham neste momento em construção sistemas de saneamento e várias ETAR. O plano de investimentos da Simdouro, no montante total de aproximadamente 59,5 milhões de euros, a executar no período de 2010 a 2015 permitirá a construção de 22 Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR), de cerca de 113 km de interceptores, de 15 km de condutas elevatórias e de 12 estações elevatórias. Está ainda prevista a reabilitação de 13 ETAR já existentes. A área dos espaços verdes públicos e de conservação da natureza foi outra das minhas apostas e se não atingimos a meta desejada, 10 m2 por habitante, ficamos muito perto e com projetos em andamento que permitirão, ainda neste mandato, ficar ainda um pouco mais próximo daquele número, e ao próximo Executivo Municipal atingir e ultrapassar rapidamente essa meta. E para isso poderá contribuir a ideia que lancei, ao inaugurar o Parque de Ponte Maria Pia, no passado dia 1 de Agosto, da criação de uma empresa intermunicipal de parques e espaços verdes.

ii. MEYER et all. (1973). Introduction to Plant Physiology, USA. iii. VARELA, António Carlos de, http:// irrealidadeprodigiosa.blogspot.pt/2011/01/0328caca-aos-tralhoes.html, acedido em 17/08/2013. iv. Fonte: European Bird Census Council, RSPB e BirdLife International.

vi. Turtle Dove Management Plan 2007-2009, The European Commission (DG ENV B2).

João L. Teixeira

v. BirdLife International (2013) Species factsheet: Streptopelia turtur. Downloaded from http://www. birdlife.org, acedido em 18/08/2013.

Parques e Vida Selvagem verão 2013• 5


Na produção desta revista, ao utilizar um papel com 60% de ďŹ bras recicladas (Satimat Green) em vez de um papel nĂŁo reciclado, o impacto ambiental foi reduzido em:

VerĂŁo 2013

1762 kg de aterro

159

litros de ĂĄgua

1590

kg de CO2 (gases de efeito de estufa)

38170

kWh de energia

3804

kg de madeira

2863

km de viagem num automĂłvel europeu de consumo mĂŠdio

FICHA TÉCNICA Revista “Parques e Vida Selvagemâ€? Diretor Nuno Gomes Oliveira Editor Parque BiolĂłgico de Gaia Coordenador da Redação Jorge Gomes FotograďŹ as Arquivo FotogrĂĄďŹ co do Parque BiolĂłgico de Gaia Propriedade Ă guas e Parque BiolĂłgico de Gaia, EEM Pessoa coletiva 504763202 Tiragem 10 000 exemplares ISSN 1645-2607 N.Âş Registo no I. C. S. 123937 Dep. Legal 170787/01 Administração e Redação Parque BiolĂłgico de Gaia Rua da Cunha • 4430-681 Avintes Portugal Telefone 227878120 E-mail: revista@parquebiologico.pt Internet http://www.parquebiologico.pt Conselho de Administração JosĂŠ Miranda de Sousa Maciel, Nuno Gomes Oliveira, SeraďŹ m Silva Martins, JosĂŠ AntĂłnio Bastos Cardoso, Brito da Silva

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CONCURSO DE FOTOGRAFIA + TURISMO E DIVERSIDADE NOVOS PARQUES DE GAIA + A RELEVĂ‚NCIA DA FLORA DO LITORAL

Capa: Mellote 15, foto vencedora da categoria "Espaço Profundo" no concurso de fotograďŹ a de astronomia. Foto de JoĂŁo Vieira

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44 30

70

20

14 BERÇO DE ESTRELAS portfolio A exposição do concurso nacional de fotografia lançado pelo Observatório Astronómico do Parque Biológico de Gaia, na sua primeira edição, abriu dia 1 de junho com a entrega dos prémios. Face aos bons resultados desta experiência, a organização promete que haverá uma próxima edição deste concurso.

SECÇÕES 8

Cartoon

9 Ver e falar 12

Fotonotícias

22

Quinteiro

28

Dunas

DAS PLANTAS

34

Espaços verdes

entrevista

44

Recuperar

46

Voo das aves

62

Migrações

64

Retratos naturais

72

Atualidade

77

Crónica

82

Coletivismo

52 TRATAR AS DOENÇAS Bactérias, fungos, nemátodes: palavras umas mais familiares que outras, mas frequentes nos serviços da Divisão de Apoio ao Setor Agroalimentar, como explica a engenheira agrónoma Gisela Chicau — tudo para que as plantas não deitem a perder a sua saúde.

56 RESERVA BIOLÓGICA DO RIO TROMBETAS reportagem Um gigantesco tapete verde domina a porção setentrional da América do Sul: trata-se da Amazónia, o supra-sumo das florestas tropicais. São milhares de quilómetros de natureza no seu estado mais puro, refúgio do poderoso jaguar, da águia hárpia e de enigmáticas tartarugas de água doce, tema central desta reportagem.

Parques e Vida Selvagem verão 2013• 7


8 CARTOON Por Ernesto Brochado

CONHEÇA AS EDIÇÕES DO PARQUE Desejo adquirir os seguintes tĂ­tulos nas quantidades indicadas: Livro “Guia da Reserva Natural Local do EstuĂĄrio do Douroâ€?de vĂĄrios autores ...........................................â‚Ź5,00 Livro “JosĂŠ BonifĂĄcio de Andrada e Silva: Um Ecologista no SĂŠc. XVIIIâ€? de Nuno Gomes Oliveira............â‚Ź10,00 Livro “Ecoturismo e Conservação da Naturezaâ€? de Nuno Gomes Oliveira .................................................... â‚Ź10,00 Livro â€œĂ reas de Importância Natural da RegiĂŁo do Portoâ€? de Nuno Gomes Oliveira .................................â‚Ź25,00 Livro “Manual da Confecção do Linhoâ€? de Domingos Quintas Moreira...........................................................â‚Ź5,00 Livro “Empresas Municipaisâ€? de Catarina Siquet ...........................................................................................â‚Ź11,00 Livro “Conservação dos Sistemas Dunaresâ€? de vĂĄrios autores .......................................................................â‚Ź5,00 Livro “Cobras de Portugalâ€? de Jorge Gomes .....................................................................................................â‚Ź5,00 Livro “Uma Escola Sem Muros: DiĂĄrio de Um Professorâ€?, de Paulo Gandra..................................................â‚Ź7,00 Livro “Parque BiolĂłgico de Gaia - 1983/2013â€?............................................................................................â‚Ź23,00 Livro “Borboletas dos Parques de Gaiaâ€? de Jorge Gomes.............................................................................â‚Ź10,00 Livro “Mauro e EmĂ­liaâ€?, cĂĄgados em perigo, de Ana Mafalda e ilustrado por Ernesto Brochado e Delfina Sordo (Oferecido na compra de “Galvino e GalvĂŁo, a galinha-de-ĂĄgua e o galeirĂŁoâ€? (em baixo)

Livro infantil “Galvino e GalvĂŁo, a Galinha-de-ĂĄgua e o GaleirĂŁoâ€? de Manuel Mouta Faria ..................... â‚Ź15,00 Livro infantil “As HistĂłrias de D. Lavandisca AlvĂŠolaâ€? de Manuel Mouta Faria ..............................................â‚Ź2,50 IVA incluĂ­do Ă taxa em vigor

NOME _______________________________________________________________________________________________________________________________________________ MORADA ___________________________________________________________________________________________________________________________________ CĂ“DIGO POSTAL ____________________________ - _____ TELEFONE ________________ JUNTO COMPROVATIVO DE TRANSFERĂŠNCIA BANCĂ RIA PARA O NIB 

SOLICITO P. F. QUE ME ENVIEM Ă€ COBRANÇA (PORTES DE CORREIO NĂƒO INCLUĂ?DOS)

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8 • Parques e Vida Selvagem verão 2013


Palavras dos A revista anterior saiu em 20 de junho e os leitores escreveram...

Assinar a revista João Tomaz escreve: «Boa tarde, gostaria de receber informações para ser assinante da revista Parques e Vida Selvagem». Resposta: «Agradecendo a sua mensagem, mediante a mesma anexamos a informação, acrescentando que deverá pedir aos Amigos do Parque (telefone 227878120 ou amigos@parquebiologico.pt) para ser seu associado, o que lhe dará a garantia de receber prontamente por correio a revista PARQUES E VIDA SELVAGEM».

Lince-ibérico João Caçote envia em nome de um grupo de alunos a sua mensagem: «Somos alunos da Escola Secundária de Ermesinde, Porto. Estamos a realizar um trabalho sobre conservação de espécies a nível nacional para a disciplina de BiologiaGeologia A. Queríamos saber se o zoo tem e preserva a espécie Lince-Ibérico (Lynx pardinus). Desde já agradecemos a atenção». Nuno Gomes Oliveira responde: «Bom dia a todos, passo a responder à vossa questão. Há dois tipos de conservação de populações de espécies animais ou vegetais em perigo: in situ (no local) e ex situ (fora do local, em cativeiro). A primeira é á mais habitual e aconselhável, pois não produz alterações genéticas nem comportamentais nas populações. À segunda recorre-se em última instância. Por isso, são raros os casos em que os zoos e jardins botânicos contribuíram para a recuperação de espécies ameaçadas. Um caso célebre é do do Bisonte-europeu que só foi salvo por haver algumas dezenas de indivíduos em cativeiro. Quanto ao Lince-ibérico, os esforços para salvaguarda na natureza (in situ) falharam, especialmente em Portugal; com a população muito reduzida e a perder viabilidade genética, foi lançado

um programa luso-espanhol para reproduzir o Lince em cativeiro (ex situ), quer em Espanha, quer cá, em centros especialmente construídos para o efeito. Pretende-se constituir uma população cativa geneticamente viável e, então, começar a libertar linces na natureza; o programa está a dar bons resultados. Junto uma nota sobre este programa. Fico à disposição».

Queria a revista! Susana Fernandes, de Turquel, Alcobaça, escreve: «É possível receber a revista “Parques e Vida Selvagem” por correio? É necessário pagar alguma mensalidade? Se sim, enviem por favor, os exemplares de edições anteriores que puderem e o exemplar que vai sair neste inverno com a encomenda que estou a pedir! É que através do “Jornal de Notícias” é muito difícil arranjar! Sou Professora de Biologia e Geologia, e como tal gostava de a ter, e informar-me sobre estas questões».

Nem sempre possível De Portimão escreve Maria Margarida Almeida: «Gostava que me enviassem a revista "Parques e Vida Selvagem", por vós editada, que já não sai juntamente com o “Jornal de Notícias” no Algarve. Assim gostaria, caso ainda tenham disponíveis, que me enviassem as revistas que saíram a partir do n.º 35 (inclusive) do verão de 2011 até ao n.º 41 referente ao inverno de 2012. Agradecia que o envio das revistas fosse feito para a morada indicada.».

Reviistas tas ant nter erio iore res s Vários leitores continuam a enviar pedidos de aquisição de revistas mais antigas. Como entretanto já não há exemplares em armazém para atender a todos os pedidos, a alternativa de reunir uma coleção completa recai na internet: basta ir ao site www.parquebiologico. pt, procurar Recursos e aí Revistas — todas as anteriores edições da revista «Parques e Vida Selvagem» estão ali disponíveis.

após me ter sentado defronte! A luz estava de feição e não fiz grandes ajustes. Sendo estas aves já minhas velhas amigas, quando tive oportunidade, nem pestanejei». Mais adiante, diz, «quando finalmente cheguei ao cercado dos cabritos monteses confesso que pedi pornografia ao casal na fotografia, mas fiquei por uns longos 45 minutos encostado à rede (como se vê na imagem, as manchas vertical e horizontal) a fotografar comportamentos de acasalamento que não passaram de afetos».

Visita fotográfica O leitor Cláudio Anes envia-nos uma mão-cheia de fotografias obtidas em março no percurso de descoberta da natureza do Parque Biológico de Gaia por e-mail e comenta duas: «Ia eu preparado para nesse dia só fotografar cabritos monteses quando parei para tirar a máquina da mochila e zás, fiz uma fotografia das limícolas

Parques e Vida Selvagem verão 2013• 9


Aprender com a Natureza Esta história, verídica, não pauta pela qualidade das fotos, mas sim pela singularidade da própria situação. Aparentemente inimigos, pois como se sabe, as borboletas são predadas pelos répteis, esta borboleta Vanessa atalanta e a lagartixa Podarcis bocagei, são um excelente exemplo para a humanidade em geral, seguir. E porquê? Vou contar uma breve história por mim presenciada, e que, tenho a certeza, tal como a mim, também vos vai ajudar a refletir um pouco, e, espero eu, a olhar para estes e outros animais como um exemplo de vida a ser seguido. Andava eu a fotografar borboletas, no Castro de São Lourenço, em Vila-Chã / Esposende, quando me deparei com uma fantástica imagem. Tratei logo de fazer

10 • Parques e Vida Selvagem verão 2013

uns registos, ainda que não muito bons, antes que a borboleta fosse comida pela lagartixa, pensava eu! Mas, para surpresa minha, o tempo foi passando e nada aconteceu. A borboleta voou para outro sítio e a lagartixa continuou a apanhar Sol. Depois de fazer mais uns registos, fui-me embora. Voltei no dia seguinte e, surpreendentemente, deparei-me com as duas novamente, mas desta vez, muito amigas! E porquê muito amigas? Porque, como se pode ver pela imagem (e não é composição), a borboleta levantou e voltou a pousar a uns 15 cm da lagartixa. Foi então que me aproximei um pouco mais, sob o olhar desconfiado da Pordacis bocagei. Todavia, ou porque estava insatisfeita com a distância, ou sabe-se lá porquê, e para meu espanto, a Vanessa levantou voo e pousou encostada à lagartixa, como se estivesse

a fazer-lhe sombra, pois o calor era muito! Incrédulo, e à espera de ver a borboleta ser devorada, sentei-me e esperei pelo terrível desfecho que, felizmente, nunca viria a acontecer. Foi assim durante quatro dias, sempre juntas a partilhar o Sol e o esplêndido espaço natural que os rodeava. Uma verdadeira lição de vida, que tenho sempre presente quando me deparo com estes magníficos seres. Mas, inimigos porquê? Aproveitemos, respeitemos e, sobretudo, aprendamos com tudo aquilo que nos rodeia, não esquecendo, como é óbvio, que os nossos ditos inimigos, afinal de contas, até podem ser os nossos melhores amigos.

Por Aires Pires


EspĂŠcies ExĂłticas Invasoras, EEI, sĂŁo todos os animais, plantas ou outros organismos introduzidos pela mĂŁo do Homem em locais fora da sua ĂĄrea de distribuição natural. Onde quer que se estabilizem e propaguem, possuem um efeito nefasto sobre os ecossistemas e as espĂŠcies autĂłctones. Desde o sĂŠculo XV que as espĂŠcies exĂłticas originĂĄrias de locais distantes, que normalmente nĂŁo teriam possibilidade de conquistar ambientes longĂ­nquos, sĂŁo introduzidas pelo ser humano recorrentemente, alterando ecossistemas e causando a extinção de um elevado nĂşmero de espĂŠcies nativas que nĂŁo tĂŞm como se adaptar a competidores menos especializados, com maior capacidade de dispersĂŁo e com um ciclo de vida mais rĂĄpido do que o seu. As EEI daniďŹ cam os ecossistemas, prejudicam a economia e atĂŠ a nossa saĂşde, alĂŠm de que o seu controlo ĂŠ, na maior parte das situaçþes, caro e difĂ­cil e a completa erradicação impossĂ­vel. Portanto, alĂŠm das medidas de controlo exequĂ­veis, cada pessoa deve ter conhecimento das espĂŠcies exĂłticas invasoras ou potencialmente invasoras existentes, nĂŁo as deve manter e muito menos libertar na natureza. A primeira espĂŠcie invasora aqui tratada ĂŠ uma planta: Hakea sericea (Proteaceae). Esta ĂĄrvore invasora, de caracterĂ­sticas que lhe conferem notĂĄvel resistĂŞncia e que pode atingir atĂŠ 4 metros de altura, ĂŠ nativa do Sul da AustrĂĄlia e, por causa das folhas persistentes em forma de agulha – daĂ­ a

Jorge Gomes

HĂĄquea-picante: cuidado!

designação comum de hĂĄquea-picante – foi introduzida noutras partes do mundo com ďŹ ns ornamentais assim como para criar sebes impenetrĂĄveis. AlĂŠm de Portugal, ĂŠ uma EEI em Espanha, Ă frica do Sul e Nova Zelândia. IncluĂ­da no mesmo gĂŠnero e tambĂŠm considerada invasora em Portugal, existe ainda por cĂĄ a Hakea salicifolia que se distingue facilmente da hĂĄquea-picante pelas folhas lanceoladas. A hĂĄquea-picante ĂŠ originĂĄria de um clima mediterrânico semelhante ao nosso, encontrase bem adaptada aos incĂŞndios e a sua estratĂŠgia de dispersĂŁo de sementes passa exatamente por aĂ­: apĂłs a ação do fogo e consequente morte da planta, os frutos, sem predadores nativos na nossa regiĂŁo, libertam as sementes que sĂŁo lançadas a distâncias considerĂĄveis. Este processo diminui a competição de recursos com o progenitor e, sobretudo, aumenta a ĂĄrea invadida. Encontra-se muitas vezes em ecossistemas alterados mas surge igualmente em locais naturais, como ĂŠ o caso do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, podendo os

espĂŠcimes dominar grandes extensĂľes de terreno. Consequentemente, condiciona a movimentação e abrigo da maior parte dos animais no interior da ĂĄrea afetada, tal como impede o crescimento da vegetação nativa. Texto Ana Gonçalves Foto Jorge Gomes Bibliografia Le Maitre D.C., Krug R.M., Hoffmann J.H., Gordon A.J. and Mgidi T.N. 2008. Hakea sericea: development of a model of the impacts of biological control on population dynamics and rates of spread of an invasive species. Ecological Modelling 212: 341-358. Marchante E, Freitas H, Marchante H (2008) Guia prĂĄtico para a identiďŹ cação de plantas invasoras de Portugal Continental. Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 183pp. Gordon AJ (1999) A review of established and new insect agents for the biological control of Hakea sericea Schrader (Proteaceae) in South Africa. African Entomology. Memoir n.°1: 35-43.

De segunda a sexta-feira

Aqu

das 10h00 Ă s 12h30 e das 14h00 Ă s 18h00

SĂĄbados, domingos e feriados das 10h00 Ă s 18h00

1SBJBEB"HVEBt7JMB/PWBEF(BJB E 7FOIBWJTJUBSOPT Parques e Vida Selvagem verão 2013• 11


Ritmos estivais Mesmo que os dias quentes já não convençam, a luz do sol pé ante pé começa a cair mais cedo: é altura de migrar para paragens mais tépidas ou de engordar para resistir, acordado ou a dormitar...

João L. Teixeira

O nome científico desta urze, X também conhecida por torga, é Erica umbellata

12 • Parques e Vida Selvagem verão 2013

David Guimarães

12 FOTONOTÍCIAS


Papas há muitos Como os dedos de uma mão contam-se cinco aves do património natural português cujo nome vulgar inicia com estas duas sílabas monótonas: papa. Alguns destes animais ligam-se a espécies afins mas dificilmente se verão nos parques. Não será o caso de outros, obrigatórios como os papamoscas – o preto e o cinzento – que desde fins de agosto vão passando com casaco outonal rumo a África, após concluírem a nidificação na Europa Central e do Norte. Difícil de ver por cá é, por exemplo, o papa-figos, Oriolus oriolus, bem como o papa-moscas-pequeno, Ficedula parva, sem insulto. Entre todos estes papas o mais difícil de avistar é o papa-amorascinzento, Sylvia curruca. Sem tanto prurido entra em cena o papa-amoras-comum, Sylvia communis, que gosta dos matos de montanha, acima dos mil metros. Se tiver a sorte — como aconteceu durante dias no Parque Biológico de Gaia faz pouco mais de um ano — de achar graça a esta garça, o papa-ratos, Ardeola ralloides, terá de saber que resta ainda referir um derradeiro papa, ao qual se junta a palavra mar e o nome de outra ave abundante nesta região, o gaio: é o papagaio-do-mar, Fratercula arctica. Esta ave marinha pertence ao grupo das espécies que mais sofrem com os derrames de petróleo. Ao acabar estas linhas poderá estar a pensar que nos esquecemos de um outro papa, aquele que encontrou o ano passado por esta altura, o papa-a-sorda. Mas, esse, ora dê-nos lá razão, não é animal de penas para conseguir entrar nesta fasquia!

Matos luminosos Vistos por vezes como imprestáveis, pela índole bravia que evidenciam, os matos reúnem numerosas espécies de plantas surgidas no plano normal da sucessão ecológica. Só de urzes, abrigam uma mão-cheia de diferentes espécies e, protegido pela profusão de corolas, este gafanhoto espreita para dar o próximo passo da sua sobrevivência. O facto é que representa uma importante fatia de biodiversidade, que se interliga na teia da vida a uma plêiade de outras tantas. Na verdade, está bem longe de questionar sobre o aproveitamento que os países estão a dar à Década da Biodiversidade. Pelo contrário, está é muito atento à emergência de algum ser que lhe esteja acima na cadeia alimentar.

Incêndios de todos os enganos

João L. Teixeira

TPapa-moscas-cinzento Muscicapa striata

Segundo dados oficiais de há três anos, a área ardida em 2010 ultrapassou os 133 mil hectares e contaram-se mais de 22 mil incêndios. Este ano ainda se juntam números. Era de esperar, infelizmente. Assim que o mapa apareceu na televisão, mesmo sem querer pensou-se: está dado o sinal de partida. No dia seguinte já havia florestas incandescentes. Quem ganha sempre com isso? O trabalho de detetive não deverá ser complicado. Quem perde? Fácil mais fácil não há: perdemos sempre todos. O fogo, o bosque autóctone e a água andam em equilíbrio. Mais fogo, menos bosque, logo, menos água. Simples silogismo que bate certo ano a ano. Os incêndios por causas naturais, raros, fazem parte da natureza, mas os incêndios ateados por interesses criminosos criam desertos a médio prazo. Nestes a água escasseia. E quantos seres vivos têm talento para sobreviver sem o precioso líquido?

Parques e Vida Selvagem verão 2013• 13


14 PORTFOLIO

1.º Concurso Astronómico

LUA

MELLOTE 15

Categoria Espaço Profundo, João Vieira

Categoria Terra e Espaço, Mário Rocha

THE LIGHTRAILS OF THE KNIGHTS TEMPLAR

Categoria Terra e Espaço, Miguel Claro

Berço de estrelas A exposição do concurso nacional de fotografia lançado pelo Observatório Astronómico do Parque Biológico de Gaia, na sua primeira edição, abriu sábado, dia 1 de junho às 21h30, com a entrega dos prémios. Segundo as condições do regulamento, o vencedor a quem foi atribuída a distinção de 1.º Prémio do concurso foi Paulo Lobão no valor de 500 euros. Os vencedores por categoria distinguiram-se: Terra e Espaço, vencedor, «The Lightrails of the Knights Templar» de Miguel Claro; segundo classificado, «Lua» de Mário Luís Domingues Rocha. Sistema Solar, vencedor, «Três planetas» de João Luís Cruz; segundo classificado, «The Spring Moon» de Miguel Claro. Espaço profundo, vencedor, «Nebulosa Tromba de Elefante» de Paulo Lobão; segundo classificado, «Nebulosa remanescente de supernova» de João Vieira. Júnior, vencedor, «Sol» de Daniel Diaz, de 16 anos. Face aos bons resultados desta experiência, a organização promete que haverá uma próxima edição deste concurso.

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Astronomical Photography Contest portfolio The Astronomical Observatory at the Biological Park in Gaia organized a new National Photography Contest which is being planned as an Annual Event. On June 1st, the Awards were presented by the Jury to the Winners in each Section. The themes were divided into various categories such as Deep Space, Earth and Space, Solar System and a Junior Prize.


THE SPRING MOON

Categoria Sistema Solar, Miguel Claro

NEBULOSA CABEÇA DE CAVALO

Categoria Espaço Profundo, João Paulo Vieira

NEBULOSA REMANESCENTE DE SUPERNOVA

Categoria Espaço Profundo, João Vieira

Paulo Lobão, à esquerda, recebeu o 1.º Prémio com a fotografia de uma nebulosa

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16 PORTFOLIO

NEBULOSA TROMBA DE ELEFANTE NA CONSTELAÇÃO DE CEPHEUS Paulo Lobão, vencedor geral

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18 PORTFOLIO

A INTEMPORALIDADE DOS ELEMENTOS

M42 NEBULOSA DE ORION

Categoria Terra e Espaço, Rui Silva

Categoria Espaço Profundo, Diogo Sant’Ana

18 • Parques e Vida Selvagem verão 2013

TRÊS PLANETAS

Categoria Sistema Solar, João Luís Cruz


SOL

Categoria Júnior, Daniel Diaz (16 anos)

GALÁXIA M101

Categoria Espaço Profundo, Ana Sofia Lopes

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20 CONTRA-RELÓGIO

Bando de flamingos na Reserva Natural do Estuário do Sado

20 • Parques 20 Par arqquues e VVida idda SSe ida Selvagem elvvaggem m ve verão erãão 20 2 2013 13 13

João L. Teixeira

As paisagens naturais que evidenciam maior diversidade biológica são as que mais atraem: nas zonas costeiras, os turistas apreciam nadar em águas límpidas entre peixes e rochedos cobertos de vida, esticando a vista no fito de observar aves marinhas e baleias...

João L. Teixeira

Turismo e diversidade utros enriquecem as férias palmilhando um trilho de descoberta da natureza para observar o mais possível a vida selvagem própria do local. Para que se possa fruir destas atividades é condição essencial que haja ecossistemas saudáveis. Os parques nacionais existem para conservar esses ecossistemas naturais, mantendo-os em funcionamento, de modo a que proporcionem serviços vitais e também recreio, educação, cultura e diversão aos visitantes. O turismo é uma das indústrias que crescem mais rapidamente e revela ser uma alternativa sustentável às atividades económicas que se tornariam normalmente prejudiciais à conservação da diversidade biológica. Em suma, pode ser uma alternativa sustentável a indústrias que degradam acentuadamente o meio ambiente.

O


biológica O dinheiro que os turistas gastam pode servir a natureza, a sociedade e a cultura mediante zonas protegidas, salvaguardando motivos de elevado interesse turístico. O turismo sustentável também pode fazer com que as comunidades se consolidem ao conservar e compartilhar as suas tradições, conhecimentos e arte, o que contribui para a utilização sustentável da diversidade biológica local. Por outro lado, o turismo pode ter uma série de impactos negativos sobre a diversidade biológica, particularmente quando há uma gestão inadequada. O turismo irresponsável e não sustentável pode danificar a natureza através da destruição de habitats e da sobreexploração dos recursos locais, derrame de efluentes e contaminação, somando-se a introdução de espécies exóticas invasoras e o desenvolvimento de infra-estruturas. Há

ainda as emissões acrescidas de gases de efeito-estufa que impõem um quadro preocupante. Os turistas são atraídos por um meio ambiente limpo e não voltarão a lugares contaminados ou degradados, o que inevitavelmente levará a perdas económicas. Tanto os viajantes como a indústria do turismo, os governos e entidades interessadas neste setor têm todo o interesse na conservação da natureza através do uso sustentável dos recursos. A diversidade biológica mantém o turismo em marcha, permitindo satisfazer as necessidades mais básicas do ser humano ao produzir alimentos, água potável e medicamentos, pelo que não é difícil concluir que o turismo sustentável é do interesse de todos. Fonte www.cbd.int

factos &números •

O turismo é responsável por cerca de 8% do produto interno bruto mundial e emprega um trabalhador em cada 12 empregos em todo o mundo.

Nos últimos anos o movimento turístico internacional caiu alguns milhões um pouco por toda a parte em comparação com anos anteriores. Porém, apesar da crise económica, não há motivo para alterar a projeção de crescimento a longo prazo, segundo a estimativa da Organização Mundial de Turismo.

Cerca de 45% da mão-de-obra no setor do turismo são mulheres, já que as suas percentagens de emprego na maioria dos países são melhores do que na mão-de-obra em geral — 34 a 40% são mulheres, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho.

As emissões de dióxido de carbono procedentes do turismo representam aproximadamente 5% das emissões mundiais, um problema que se agrava dada a natureza imprevisível das emissões na alta atmosfera.

Tourism and Biodiversity The Natural landscapes that show the greatest biological diversity are also usually the most attractive. In Coastal areas, Tourists enjoy swimming in clear water with the fish and may see rocks covered with living plants and animals, thus extending the bigger picture as they observe the seabirds and whales.

O Prémio de Melhor Sítio Web de Turismo Indígena e Biodiversidade do CDB (Prémio ITBW) é entregue anualmente a duas entidades. Para saber mais veja: http://planeta.wikispaces.com/itbw.

O conjunto de oficinas sobre comunidades indígenas, turismo e biodiversidade tem como objetivo apoiar a gestão das atividades turísticas que respeitam a diversidade biológica, a capacidade que têm os operadores de turismo de comunidades indígenas e locais para utilizar a internet, e a comercialização de aspetos culturais e biologicamente sustentáveis dos produtos de turismo das comunidades indígenas e locais.

PParques arrquuess e VVida i a Selv id SSelvagem Se elv lvag aggem em verão verã ve verã rãoo 2013• 2013 20 13•• 2 13 21 1


22 QUINTEIRO

Um estudo desenvolvido d por uma equipa de investigação da Universidade da Estremadura, em Espanha, concluiu que há uma dezena de espécies de aves selvagens que são mais afetadas do que as outras pela poluição acústica própria das cidades meio urbano em que se insere o seu jardim, caso o tenha, pode determinar de forma incontornável a lista de espécies de aves selvagens que observa no local. Os mais céticos serão capazes de desvalorizar esta afirmação perguntando algo do género: Já passou na auto-estrada que dá acesso a Aveiro? Se passar lá na primavera verá a quantidade de cegonhas que fazem ninho nas traves sinalizadoras suspensas sobre a rodovia». De facto, nidificar num sítio mais agitado e barulhento é difícil! Mas que dizer do efeito do ruído sobre a maioria das espécies? É neste item que as linhas de abertura desta página fazem todo o sentido, mais ainda quando se dá conta de que nenhum jardim existe isolado, refletindo o ambiente em que se insere, nomeadamente os habitats da proximidade. Quatro cientistas do Departamento de Botânica, de Ecologia e Ciências da Terra da Universidade da Estremadura, em Espanha, resolveram debruçar-se sobre 91 espécies de aves selvagens centrando a sua atenção em 27 parques de diversos centros urbanos ibéricos.

O

22 • Parques e Vida Selvagem verão 2013

Passados alguns anos de recolha de dados, entenderam que as espécies mais sensíveis ao barulho são estas, por ordem decrescente: estrelinha-de-poupa, Regulus regulus, 34,62% da variabilidade da sua presença explicada pelo nível de ruído; rola-brava, Streptopelia turtur, 24,24%; pica-pau-galego, Dendrocopos minor, 20,39%; águia-de-asa-redonda, Buteo buteo, 15,15%; andorinha-dáurica, Cecropis daurica, 13,15%; corvo, Corvus corax, 11,09%; papafigos, Oriolus oriolus, 10,23%; rouxinol-bravo, Cettia cetti, 6,47%; pardal-espanhol, Passer hispaniolensis, 6,33%; toutinegra-de-cabeçapreta, Sylvia melanocephala, 5,82%. Estes números sugerem que os espaços verdes podem ser otimizados através da utilização de barreiras acústicas capazes de reduzir ruído até ao limite de 50 dB. Se arquitetos e gestores dos espaços urbanos tiverem em linha de conta estes conhecimentos conseguirão conceber jardins e parques mais favoráveis à biodiversidade. Outro assunto que merece cuidado, sobretudo nesta época do ano, é a disponibilidade de água. Este tema sugere um lago de jardim. Não são só as aves selvagens que beneficiam deste recurso precioso: merece um destaque especial neste ponto o grupo dos anfíbios, terminologia que junta rãs, sapos, salamandras e tritões. Os lagos podem transformar-se em importantes pontos de reprodução destes animais com um ciclo de vida fantástico. Tudo isto parece muito bonito mas há condicionantes que devem ser observadas. Uma delas é a compreensão de que o lago não deve secar, sob pena de comprometer as formas de vida que acolheu. Outro ponto importante é a incoerência exemplificada pela introdução de peixes ornamentais. Não seria preciso dispor dos dados das investigações científicas existentes sobre esta singularidade recorrente, pois os chamados peixes-vermelhos, derivados de espécies asiáticas, alimentam-se dos ovos dos anfíbios e das suas larvas, esterilizando assim boa parte da biodiversidade que deseja hospedar no seu quintal. Fontes www.ornithomedia.com, www.froglife.org, www.charcoscomvida.org


Jorge Casais

Jorge Gomes

SSe reduzir a poluição sonora observará mais aves: pisco-de-peito-ruivo

SAs toutinegras-de-cabeça-preta são uma das dez espécies que mais se ressentem com o elevado barulho produzido pela vida citadina

Little Noise

A introdução de peixes exóticos ornamentais no seu lago reduz seriamente a diversidade da vida que poderia vir ali a observar

A Study developed by a Research Team from the University of Extremadura in Spain, concluded that there are a dozen species of wild birds that are more affected than others by the noise pollution created by Cities.

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24 QUINTEIRO

SBotões florais necrosados

SVaras enegrecidas

SLenha de poda deixada no pomar - prática incorreta

Pseudomonas syringae pv actinidiae

Nova bacteriose da Actinidea Pseudomonas syringae. pv. actinidiae Takikawa, Serizawa, Ichikawa & Goto (Psa) é o agente causal da doença designada “cancro bacteriano do kiwi” sta doença tem como hospedeiros as plantas do género Actinidia: A. deliciosa, A. chinensis, A. arguta e A. kolomita, sendo A. chinensis (polpa amarela) mais sensível do que A. deliciosa (polpa verde). Atendendo à sua perigosidade e aparecimento em diversos países do Sul da Europa, em 2009 este organismo foi incluído na lista de alerta da EPPO (European and Mediterranean Plant Protection Organization). A doença foi assinalada pela primeira vez no Japão (Takikawa, et al. 1989). Posteriormente foi referida na Coreia (Koh et al. 1994) e no Irão (Mazarei e Mostofipour 1994). Na Europa, surge em 1994, em Itália, na

E

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região de “Latium”, onde a bactéria é isolada em plantas de Actinidia deliciosa (Scortichini, 1994), mas apenas em 2008 é referida como causando prejuízos importantes. Neste momento está presente na Turquia, França, Espanha, Suíça, Nova Zelândia, Austrália e Chile. Em março de 2010 a bactéria é detetada pela primeira vez em Portugal, na região de Entre Douro e Minho. Face à situação detetada, nos últimos anos, a DRAPN (Direção Regional de Agricultura e Pescas do Norte) sob coordenação da DGAV (Direção Geral de Alimentação e Veterinária) tem desenvolvido diversas ações de prospeção e divulgação junto dos produtores e organizações no sentido de serem tomadas as devidas medidas de proteção aquando da deteção da Psa e ou prevenção da sua introdução nos pomares.

Sintomas A idade das plantas, a fase do ciclo cultural, as condições de temperatura e humidade relativa e a estirpe da bactéria presente são os fatores que determinam a severidade com que esta doença se manifesta no pomar. No final do inverno/início da primavera aparecem os primeiros sintomas da doença: exsudado bacteriano de cor avermelhada

(ferruginoso) nos ramos e tronco onde se observam cancros. Os ramos poderão secar, e, dependendo do grau de infeção, a planta morrer. Nas folhas são visíveis pequenas necroses castanhas, por vezes circundadas por halo amarelo. No período da floração observam-se necroses nos botões florais, o que tem como consequência a redução da produção. Os frutos já vingados podem sofrer deformações perdendo valor comercial.

Biologia Neste momento os dados disponíveis no que se refere à biologia de P. syringae pv. actinidiae são escassos. A bactéria penetra na planta através de feridas naturais ou dos cortes da poda, tendo capacidade de se movimentar através do sistema vascular. Na primavera, em condições de elevada humidade relativa e com temperaturas entre os 10 e 18º C, há produção de exsudado bacteriano, o que permite a dispersão da doença através de operações culturais inadequadas, da chuva e do vento. Invernos frios e húmidos, seguidos de primaveras húmidas, parecem ser favoráveis à doença.


SSintomas nas folhas

SExsudado bacteriano de cor avermelhada (ferruginoso)

A utilização de plantas infetadas na plantação de pomares novos é responsável pela transmissão da bactéria a grandes distâncias. Na polinização assistida também deverá usarse pólen isento da bactéria. A legislação fitossanitária prevê que a circulação de plantas e pólen no espaço comunitário seja acompanhada de passaporte fitossanitário que atesta o cumprimento dos requisitos especificados nos anexos da Decisão 2012/756/EU de 5 de dezembro. Com a publicação deste diploma comunitário foi criado um quadro legislativo, comum a todos os Estados-membros, que define um conjunto de medidas de proteção de forma a impedir a introdução e consequente dispersão da Psa no território da União Europeia.

próprio local pela sua queima ou enterrandoos em vala profunda (com mais de 50 cm de profundidade). A queima deve cumprir todos os dispositivos de segurança e regulamentares previstos no Decreto-lei n.º 124/2006, alterado e republicado pelo Decreto-lei n.º 17/2009 (o n.º 4 do artigo 28.º prevê a possibilidade de queima durante o período crítico, quando decorre de exigências fitossanitárias de cumprimento obrigatório). Os proprietários das plantas infetadas deverão contactar previamente o dispositivo da GNR (SEPNA), para agendamento da realização da queima e para obter informação sobre as condições para a sua realização. Devem ainda ser seguidas as seguintes recomendações: • As adubações deverão ter por base análises de solo e foliares, evitando o vigor excessivo das plantas. • Manter o controlo do coberto vegetal no pomar. • Na poda, as plantas com sintomas deverão ser podadas em último lugar, tendo-se o cuidado de desinfetar as tesouras e os serrotes com uma solução álcool a 70% durante dois minutos. Deve-se podar com tempo seco. • Nunca devem ser colhidas varas de pomares com plantas doentes, nem de áreas onde a bactéria esteja presente. • Restringir a circulação de pessoas no pomar (desinfeção do calçado por imersão em solução desinfetante). • Verificar se os tratores e pulverizadores estão limpos antes de entrar no pomar (sem folhas e ramos). Pulverizar os pneus com solução desinfetante (ex.º Virkon). • Na colheita, inspeccionar os palox, que não devem trazer folhas ou varas.

Meios de controlo Não existem meios de luta curativos, pelo que se deve evitar a introdução da Psa no pomar. O pomar deverá ser inspecionado com regularidade, nomeadamente no início da primavera e no outono, quando os sintomas são mais evidentes. As medidas a aplicar, caso a doença se instale, estão definidas no “Plano de Ação Nacional para o Controlo da Psa”: • Arranque das plantas que revelarem sintomas no tronco, ou proceder ao atarraque do tronco até 1 metro abaixo do ponto de infeção desde que não sejam visíveis sintomas de infeção nos feixes. • Nas plantas que não tiverem sintomas no tronco, corte de todos os ramos que mostrem sintomas, pelo menos 70 cm abaixo do ponto de infeção e desde que não sejam visíveis sintomas de infeção nos feixes. • Nas plantas com sintomas apenas nas folhas, poda cuidada após colheita. • Desinfeção de todo o pomar utilizando um produto cúprico autorizado. • Destruição de todos os detritos vegetais no

SPlanta morta em pomar infetado

Bibliografia Balestra GM, Mazzaglia A, Quattrucci A, Renzi M, Rossetti A (2009) Current status of bacterial canker spread on kiwifruit in Italy. Australasian Plant Disease Notes 4, 34–36. Bulletin KiwiTech nº F68 (Abril 2009) Chancre bactérien du kiwi, Pseudomonas syringae pv. actinidia ( HYPERLINK "http://www.ctifl.fr" www. ctifl.fr) Bulletin KiwiTech nº N70 (Abril 2009) Guidelines for control of Kiwifruit Bacterial Canker Pseudomonas syringae pv. Actinidiae ( HYPERLINK "http://www.batteriosi.it" www. batteriosi.it) Ferrante P, Scortichini M (2009) Identification of Pseudomonas syringae pv. actinidiae as Causal Agent of Bacterial canker of Yellow Kiwifruit (Actinidia chinensis Planchon) in Central Italy. Journal of Phytopathology 157, 768-770. Hennion B, Brun S (2009) Pseudomonas syringae pv. actinidiae (Psa): une nouvelle menace pour le kiwi. Infos Kiwi Nº 12 (www.ctifl.fr) Koh JK, Cha BJ, Chung HJ, Lee DH (1994) Outbreak and spread of bacterial canker in kiwifruit. Korean Journal of Plant Pathology 10, 68–72 (cit. Balestra et al.2009). Mazarei M, Mostofipour P (1994) First report of bacterial canker of kiwifruit in Iran. Plant Pathology 43, 1055–1056. Plano de Ação Nacional para o Controlo da Pseudomonas syringae. pv. actinidiae do Kiwi (Psa) (Maio 2013). ( HYPERLINK "http://www. dgv.min-agricultura.pt" http://www.dgv.minagricultura.pt). Scortichini M (1994) Occurrence of Pseudomonas syringae pv. actinidiae in Italy. Plant Pathology 43, 1035–1038. (cit. Ferrante e Scortichini, 2009). Takikawa Y, Serizawa S, Ichikawa T, Tsuyumu S, Goto M (1989) Pseudomonas s. pv. actinidiae pv.

Por Gisela Chicau* (Eng.ª Agrónoma) e Miguel Rebelo* (Eng.º Agrícola) *DRAPN – Divisão de Apoio ao Sector Agroalimentar

nov.: The Causal Bacterium of Canker of Kiwifruit in Japan. Annals of the Phytopathological Society of Japan 55, 437–444.

Parques e Vida Selvagem verão 2013• 25


26 DUNAS

Ensino superior na Estação

Litoral

da Aguda

SMergulho científico

A Estação Litoral da Aguda (ELA) integra um Museu das Pescas, um Aquário e um Departamento de Educação e Investigação SLibertação de tartaruga marinha

ertence à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia (CMG), é gerida pela empresa municipal Águas e Parque Biológico de Gaia e está ligada ao Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar ICBAS da Universidade do Porto. Tendo aberto ao público em julho de 1999, recebeu até agora 325 mil visitantes. Em 1988 foi lançada a ideia da construção de um pequeno aquário público na praia da Aguda baseado na edificação de dois pré-fabricados de madeira, erguidos sobre estacas no terreno atual. A proposta foi apresentada ao então presidente da CMG, coronel Pinto Simões, que sugeriu uma construção sólida. A ideia do aquário foi reformulada e alargada, nascendo o projeto ELA em 1989. O projeto veio ao encontro da necessidade do ICBAS de ter uma estação exterior, à beira-mar, para fazer face às exigências do curso de Ciências do Meio Aquático (CMA) que decorria em instalações precárias num velho edifício no centro do Porto. As vantagens da ELA para o ensino e a investigação científica são múltiplas: a proximidade de um litoral rochoso com toda a sua biodiversidade; a frota pesqueira e as artes da pesca artesanal; a lota com o pescado de importância económica; um museu das pescas que

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26 • Parques e Vida Selvagem verão 2013

divulga a pesca artesanal aos níveis local, regional e mundial; e um aquário com a fauna e flora aquáticas da região. As vantagens para o Município são a consolidação do ensino superior público e a investigação marinha na costa do concelho de Vila Nova de Gaia, o prestígio e uma mais-valia para o desenvolvimento cultural, pedagógico e científico, associado ao impacto no turismo académico. Em 1993 começou a construção do edifício, sendo o financiamento do projeto garantido pela Secretaria de Estado do Turismo e Indústria (75%) e pela CMG (25%). Em 1996 deu-se início a uma série de atividades de educação ambiental para proporcionar às escolas da região um contacto direto com o mar. A praia da Aguda começou a tornar-se num ponto de encontro para muitas gerações de alunos do Norte e Centro do país. Em meados de 1997 foi celebrado um protocolo de colaboração, respeitante à ELA, entre a CMG e o ICBAS/UP, e começaram as aulas do ensino superior na ELA. Desde então, foram concluídos na ELA 18 estágios e oito teses de mestrado de várias universidades, duas teses de doutoramento e nove projetos de investigação científica. Em meados de 1999, a ELA abriu ao público e em 2004 foi classificada pela Direcção-Geral de Veterinária, pelo Instituto

SEstação Litoral da Aguda

de Conservação da Natureza e pelo Euro Grupo de Bem-Estar-Animal como o melhor “Aquário” de Portugal. Respeitando todos os pressupostos da legislação e considerado um exemplo de otimização de recursos, o projeto ELA serviu de inspiração para o «Aquamuseu do Rio Minho» em Vila Nova de Cerveira que abriu em 2005. Em 1981 o ICBAS criou o curso de CMA que é uma licenciatura na área da Biologia Aplicada. Tem como principais objetivos formar investigadores, docentes e quadros superiores de instituições e empresas, com uma preparação específica em Biologia Marinha, Ecologia e Produção Aquáticas, Gestão de Recursos Vivos e Tecnologia Alimentar. Com a nova reforma curricular do Processo Bolonha, a licenciatura em CMA passou a ter a duração de três anos. Além da admissão via regime geral de acesso ao ensino superior, podem também ingressar estudantes de outras licenciaturas que se candidatem às vagas disponíveis para mudança de curso. Os currículos de outras licenciaturas da área biológica permitem obter equivalências a diversas disciplinas de CMA. Os candidatos devem possuir o 12.º ano de escolaridade e ter completado, com sucesso, as provas específicas de Biologia e de Química. As saídas profissionais estão nas áreas da investigação científica, da gestão e educação


SMarcação de lavagante

http://www1.icbas.up.pt/cma/index.php/icbas-up

SCultivo de percebes

SLaboratório na Estação Litoral da Aguda

SInstituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar

ambientais, do ensino superior, profissional e secundário, de serviços, da aquacultura, e das pescas. Muitos licenciados em CMA têm optado por uma pós-graduação como mestrado e/ou doutoramento. Na ELA são lecionadas as seguintes disciplinas da licenciatura em CMA: Sistemática dos Vertebrados (1.º ano), Ecologia Aquática (2.º ano) e Tecnologia das Pescas (3.º ano). Ao nível de pós-graduação, o ICBAS oferece o curso do Mestrado em Ciências do Mar e Recursos Marinhos que conta com a estreita colaboração do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental CIIMAR, do Instituto Português do Mar e Atmosfera IPMA e da ELA. O curso está orientado para o estudo de organismos marinhos, encarandoos como elementos integrantes de um

ambiente dinâmico que importa preservar, e dos recursos cuja exploração é complexa e limitada e que necessita de meios humanos qualificados. O mestrado fornece conhecimentos e competências que garantem a formação de profissionais, capazes de intervir na investigação e na gestão do mar e das zonas costeiras, e no desenvolvimento sustentado da aquacultura e das pescas. Existem duas especialidades, uma em Aquacultura e Pescas e outra em Biologia e Ecologia Marinhas. Na ELA são lecionadas duas disciplinas, no âmbito da Biologia e Aquacultura: a disciplina Introdução à Biologia e Ecologia Marinhas foca aspetos como oceanos, mares e correntes; fatores abióticos e bióticos; métodos e instrumentos; bentos dos substratos rochosos e sedimentos; litoral, bactérias, produção primária e secundária,

estuários; e recifes de corais. A Produção de Peixes Ornamentais promove conhecimentos no âmbito das espécies ornamentais aquáticas e das metodologias utilizadas no cultivo das espécies mais procuradas no mercado, ensinando-se a avaliação autónoma e concetualização de sistemas de produção de espécies ornamentais, sob aspetos comerciais nacionais e internacionais. Por Mike Weber, Jaime Prata e José Pedro Oliveira

ESTAÇÃO LITORAL DA AGUDA Rua Alfredo Dias, Praia da Aguda 4410-475 Arcozelo • Vila Nova de Gaia Tel.: 227 536 360 / fax: 227 535 155 ela.aguda@mail.telepac.pt www.fundação-ela.pt

Parques e Vida Selvagem verão 2013• 27


28 DUNAS

s dunas enchem-se de sementes no final do verão. Depois das flores amarelas da perpétua-das-areias e das esporas-bravas, da de cor branca do lírio-das-praias e da silene-do-porto e das tonalidades róseas da chapeleta e do goivo-das-praias, entre tantas outras espécies de plantas dunares, vem o vento e dispersa as sementes caídas. Os insetos polinizadores fizeram o seu trabalho

A

Jorge Gomes

Cordão dunar e multiplicaram sementes a troco de um pouco de néctar extraído das corolas e frutos. Agora é tempo de acabar de amadurecer e aguardar tempo oportuno, capaz de otimizar as hipóteses de sobrevivência. O litoral compõe-se de habitats que é necessário preservar. Além do seu valor natural, enquadra importantes funções ecológicas na pesca costeira, na migração das aves, para além do seu valor turístico e de lazer.

SMorrião-das-areias

SOuriço-das-dunas, centáurea endémica

28 • Parques e Vida Selvagem verão 2013

SPaisagem dunar


Parque de Dunas da Aguda ábado, 2 de fevereiro, o Parque de Dunas da Aguda foi um dos locais do litoral de Vila Nova de Gaia que recebeu um grupo de visitantes estrangeiros, todos eles participantes na reunião do Conselho Diretivo do EUROPARC, federação europeia de parques nacionais e naturais, que decorreu em Portugal por esses dias. Trata-se da maior organização não governamental que federa os espaços protegidos e classificados de 36 países maioritariamente europeus com 430 associados e que afirma ser «a voz das áreas protegidas europeias». Ao todo seriam mais de uma dúzia de pessoas de várias nacionalidades, nomeadamente da Escócia, Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suécia, Letónia, República Checa, Espanha e Portugal.

Jorge Gomes

S

SGoivo-da-praia

Henrique N. Alves

Henrique N. Alves

SFalsa-mostarda-das-dunas, endémica

SSilene-das-dunas

SCardo-marítimo

Parques e Vida Selvagem verão 2013• 29


30 DUNAS

Estuário do Douro

Assim, 29 de março, marca o início da chegada dos primeiros migradores transarianos, em que se inclui a espécie referida. Este fenómeno migratório de regresso aos locais de nascimento designa-se de “homing”. Muitas das aves que passam o inverno na zona Afro-tropical todos os anos atravessam a grande barreira que representa o deserto do Sara, regressando aos locais em que nasceram. Muitas destas aves migram durante a noite. A 20 de março de 2013 tinha sido já observado o chasco-cinzento (Oenanthe oenanthe), um pequeno passeriforme de 28 gramas que normalmente serve de indicador desta deslocação de passeriformes - que inclui as aves canoras a caminho das suas áreas de reprodução no Ártico, Gronelândia, Nordeste do Canadá e Sibéria. A partir de então chegaram outras aves que passaram o inverno a sul do Sara. Muitas delas exigem atenção para a sua observação (felosas, papa-amoras, rouxinóis, papa-figos, torcicolos, noitibós, abelharucos, entre outras). Assim, ao fim de dois anos de melhoria contínua no espaço da RNLED, aumentam as probabilidades de observar estas espécies de passagem. Texto Paulo Paes de Faria

João L. Teixeira

Dia 29 de março, apesar de ter sido um dia de muita chuva, foi observada de manhã na RNLED a primeira das alvéolas-amarelas, Motacilla flava, chegada de África para aqui nidificar

Presidente do ICNF visita a RNLED Na tarde do passado dia 16 de julho, Paula Sarmento, presidente do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas esteve presente na Reserva Natural Local do Estuário do Douro. A visita surgiu na sequência da sua participação na sessão comemorativa do 30.º aniversário do Parque Biológico de Gaia e foi alargada também ao Parque de Dunas da Aguda e ao Centro Interpretativo do Património da Afurada.

30 • Parques e Vida Selvagem verão 2013


Paulo Paes de Faria

Final de Verão No final do estio começam a ver-se uma série de espécies a partir da Reserva Natural Local do Estuário do Douro rumo a África. É o que acontece com as andorinhas-do-mar e as alvéolas-amarelas, por exemplo, mas contam-se pelo menos em largas dezenas outras espécies que começarão a passar vindas do Norte da Europa. Já a abandonar as penas com colorido nupcial, chegam com cores da época baixa. A qualquer altura surgem, presenteando quem gosta de as observar.

Nova espécie de gaivota Subiu para 17 o número de espécies de gaivotas cuja ocorrência está registada para a RNLED. O estuário do Douro é assim: surpreende quando menos se espera. Já antes, dia 1 de março, tinha sido observado junto aos guinchos, Chroicocephalus ridibuntus, uma gaivota-de-bonaparte, Larus philadelphia, do primeiro inverno. É uma espécie do continente americano que se reproduz desde o Alasca ao Quebeque, no Canadá. Normalmente inverna na costa do Atlântico Oeste, até ao Norte da Florida e golfo do México, e costa do Pacífico. Texto Paulo Paes de Faria

Maria Rego

WA alvéola-amarela é uma ave migradora que se vê com facilidade no estuário do Douro na primavera e no verão

Pato-fusco Não havia antes registo de um pato-fusco, Melanitta fusca, ter estado na Reserva Natural Local do Estuário do Douro. Até que em 19 de janeiro deste ano aconteceu e, entre outros, Francisco Bernardo e Maria Rego, fotógrafos da natureza que residem na vizinhança, fizeram o registo. Trata-se de «uma espécie muito rara em Portugal: o pato-fusco nidifica na Escandinávia e na Sibéria e passa o inverno no mar Báltico e na zona costeira do Norte da Europa. Pode chegar a Portugal, de facto, mas só há quatro observações recentes confirmadas, todas a norte de Aveiro, em dezembro, a última das quais em 2007».

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32 MUSEU

Centro Interpretativo da

Afurada Após a requalificação de antigos armazéns ali existentes, um acervo das tradições piscatórias, concretizado nos mais diversos suportes de informação, está agora à vista e reflete a identidade desta aldeia piscatória nos seus aspetos culturais e naturais, sem esquecer que se encontra a um par de quilómetros da Reserva Natural Local do Estuário do Douro. Resultado de uma parceria entre o Parque Biológico de Gaia e a Administração dos Portos do Douro e Leixões, este centro está equipado com modernos meios tecnológicos, englobando áreas com exposições permanentes e temporárias. Trata-se de um lugar «identitário e relacional» que ajuda à dinamização da Afurada e incentiva a presença de turistas. O presidente do Município, Luís Filipe Menezes, referiu que «um investimento público qualificado também serve para os privados acreditarem» e ilustrou estas palavras com os hotéis e restaurantes que foram surgindo. No dia da abertura, um mar de gente afluiu ao evento. Luís Filipe Menezes inaugurou o Centro Interpretativo do Património da Afurada

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A Afurada conta desde 22 de março com o Centro Interpretativo do seu Património


Parque

da Ponte

Maria Pia

Arquivo PBG/MD

No final da manhã de 1 de agosto teve lugar a inauguração da primeira fase do Parque da Ponte Maria Pia, que se localiza na Alameda da Serra do Pilar, em Santa Marinha, Vila Nova de Gaia

Trata-se do mais recente parque de Vila Nova de Gaia. O espaço da antiga linha de caminho de ferro Porto/Lisboa, desativada com a construção da nova ponte ferroviária, ganhou novo uso de interesse público. Presente no local, o presidente do Município, Luís Filipe Menezes, disse que “seria vantajosa a criação de uma empresa metropolitana para a área da construção e manutenção de parques e jardins que conjugasse o saber-fazer de Gaia com o excelente “know-how” que o Porto tem na área dos hortos”. Aberto todos os dias das 10h00 às 18h00, o Parque da Ponte Maria Pia será ampliado numa fase posterior, prevendo-se uma ligação à ponte e a construção de um percurso ciclo-pedonal até à cidade do Porto.

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34 ESPAÇOS VERDES

Os jardins envolventes do solar do Conde das Devesas foram transformados num parque aberto ao público, que pode ser visitado desde o passado dia 10 de maio. A presença neste espaço de numerosas camélias, e até a existência de uma variedade de camélia designada “Conde das Devesas", motivou o desenvolvimento de um projeto de "parque das camélias". Estas plantas de origem asiática, as camélias ou japoneiras, terão chegado ao nosso país antes de entrarem em Inglaterra e daqui difundiram-se para a Galiza. No século XIX chegaram à Austrália, via Inglaterra. Neste novo parque é obrigatória também uma referência a uma monumental faia e a um tulipeiro com troncos antigos, que fazem o visitante sentir-se perante seres vivos especiais. O Parque das Devesas fica próximo do Cais de Gaia, na Rua D. Leonor de Freitas, n.º 162, e tem as portas abertas para si todos os dias, das 10h00 às 18h00. Se for adepto da eletrónica, pode chegar ali também através da orientação do seu GPS:

João L. Teixeira

Parque da Quinta do Conde das Devesas

41º7'58.98"N/8º37'8.36"W

jornadas arqueológicas Em 28 e 29 de junho decorreram no Parque Botânico do Castelo e no auditório do Parque Biológico de Gaia as primeiras Jornadas Arqueológicas do Castelo de Crestuma. O certame reuniu investigadores de várias proveniências, nomeadamente da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, da Faculdade de Letras de Lisboa, da University College of London e da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. As mais recentes escavações arqueológicas no Castelo de Crestuma, realizadas de há três anos para cá, têm revelado um sítio complexo, com uma fase de ocupação mais expressiva aparentemente centrada nos séculos V e VI. A importância dos dados já recolhidos levou à convocação deste evento. Entre 10 de agosto e 14 de setembro pode visitar neste parque uma exposição itinerante sobre o Castelo de Crestuma.

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Jorge Gomes

Parque Botânico do Castelo


João L. Teixeira

Parque da Lavandeira Aberto há já oito anos este parque oferece a quem o visita várias vertentes de recreio e lazer. Encontra, assim, percursos pedestres, jardins temáticos, zonas de merendas e uma série de iniciativas que constam da agenda ao lado. No Parque da Lavandeira há uma cafetaria e organizamse feiras de artesanato, venda de legumes, atividades de yoga, entre outras iniciativas. Situado em Oliveira do Douro, este parque de uma dezena de hectares localiza-se muito perto do centro de Gaia e resulta da aquisição, pelo Município, da antiga quinta da Lavandeira. Chega-se ao Parque da Lavandeira pelas Oficinas Municipais, na Estrada n.º 222, que leva os utentes da principal Avenida de Vila Nova de Gaia a Avintes. A entrada neste parque é grátis. Apesar de não ser a mesma coisa que pôr lá o seu pezinho, também pode visitar o Parque da Lavandeira através do seu computador, indo ao “Google Maps” e entrando no modo “Street view”!

Agenda As mulheres do campo vêm à vila Aos sábados de manhã, venda de legumes sem pesticidas.

Yoga A orientação é da responsabilidade da Dr.ª Luísa Bernardo, que proporciona a atividade em regime de voluntariado. Quartas e sextas-feiras às 9h45.

Pode seguir o Parque da Lavandeira no Facebook, no site www.parquebiologico.pt (botão Parque da Lavandeira), enviar uma mensagem pelo e-mail lavandeira@parquebiologico.pt ou telefonar para 227 878 138.

Tai Chi Às segundas e às quintas-feiras, aulas às 9h30. Participação e entrada grátis. Pode seguir o Parque da Lavandeira no Facebook, no site www.parquebiologico.pt (botão Parque da Lavandeira), enviar uma mensagem pelo e-mail lavandeira@parquebiologico.pt ou telefonar para 227 878 138.

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36 ESPAÇOS VERDES

Comemoração João L. Teixeira

30.º aniversário do Parque

Biológico de Gaia Em 25 de fevereiro Luís Filipe Menezes procedeu à abertura da celebração do 30.º aniversário de existência do Parque Biológico «Trinta anos, três novos espaços» foi o mote com que o presidente da Câmara Municipal de Gaia, Luís Filipe Menezes, iniciou a celebração do 30.º aniversário do Parque Biológico de Gaia, referindose à abertura do Parque da Quinta das Devesas, do Parque da Ponte Maria Pia e do Centro Interpretativo do Património da Afurada. O evento, que decorreu no edifício da Presidência, incluiu a síntese de alguns dos pontos mais significativos da história destas três décadas contadas pelo

Parque: «Conseguimos alavancar na última dúzia de anos um projeto único no país e passar de cerca de 3,5 m2 para quase 10 m2 de espaços verdes por habitante, o que significa muitos parques urbanos e a ampliação daquele que é uma referência nacional na educação ambiental, o Parque Biológico. Temos, em meio urbano, a primeira Reserva Natural Local reconhecida pelo Estado e pela União Europeia, o Estuário do Douro, e estamos, em fase final de mandato, a construir novos parques citadinos, numa lógica única no país». SEstas comemorações tiveram início no edifício da Presidência do Município gaiense

Selos comemorativos

Na tarde de sábado, 15 de junho, assistiu-se no Parque Biológico de Gaia à antestreia do documentário “José Bonifácio”, com produção e realização de Francisco Manso. Considerado o primeiro ecologista lusobrasileiro, José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), também patriarca da independência do Brasil e da libertação dos escravos no país irmão, foi alvo de uma sessão comemorativa alusiva à passagem de 250 anos sobre o seu nascimento. Aberta a solenidade com palavras do representante do Consulado do Brasil, no programa destacou-se a antestreia de um documentário de vídeo produzido e realizado por Francisco Manso para a RTP. No trabalho audiovisual assiste-se ao “relato da sua trajetória de aprendizagem científica”, que “é

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João L. Teixeira

Primeiro ecologista de Portugal e do Brasil

Da esquerda para a direita, Francisco Manso, Nuno Gomes Oliveira e Francisco Castro Rego, co-autor do documentário “José Bonifácio”

feito pelo próprio como secretário perpétuo da Academia Real das Ciências de Lisboa, numa representação ficcionada da preparação do seu discurso histórico de junho de 1819, que antecedeu o seu regresso ao Brasil”.

Em 3 de junho, às 15h00, abriu no Parque Biológico de Gaia a "Filexgaya 2013", mostra filatélica comemorativa dos 30 anos desta instituição. Nesse dia foram lançados dois selos personalizados editados pelo Clube de Colecionadores de Gaia. Os selos retratam um carvalho-comum (Quercus robur) e um pirilampo (Luciola lusitanica). Os interessados puderam adquirir estes selos e a marca do dia comemorativa dos Correios, no dia de abertura, nas instalações do Parque, das 10h00 às 17h00.

João L. Teixeira

José Bonifácio de Andrada e Silva


João L. Teixeira

Vinte anos de parceria

A Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) celebrou em 19 de março o 20.º aniversário da parceria estabelecida com o Parque Biológico de Gaia e o 30.º aniversário da abertura desta IPSS em Vila Nova de Gaia. Mercês Ferreira, vereadora do Pelouro do Ambiente da Câmara de Gaia, realçou o valor especial deste projeto que «permitiu que pessoas com diferenças fossem respeitadas e integradas em equipas de trabalho».

Prémios FAPAS Borboletas dos Parques Dia 6 de julho, sábado, às 15h00, houve lugar à apresentação do livro “Borboletas dos Parques de Gaia”. O livro, com cerca de 180 páginas, aponta uma centena de espécies de borboletas diurnas e noturnas, todas elas fotografadas nestes parques. As imagens mais antigas que serviram de fonte para a obra datam de 2004 e evocam as palavras de Mário Quintana: "O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até si".

O FAPAS - Fundo para a Proteção dos Animais Selvagens atribuiu os seus prémios a 27 de fevereiro, às 18h30, no auditório do Parque Biológico de Gaia. A entrega dos prémios distinguiu a categoria "Documentário Natureza" com o programa "Vida animal em Portugal e no mundo" - de Luís Henrique Pereira, jornalista da RTP - e a categoria "Divulgação Ambiente" com o programa "Biosfera", programa já com oito anos de vida, numa parceria entre a RTP e o Farol de Ideias.

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38 ESPAÇOS VERDES

Simpósio Internacional

Tartarugas de água doce Com início no próprio Dia Internacional da Biodiversidade, entre 22 e 24 de maio, decorreu no Parque Biológico de Gaia um Simpósio Internacional sobre Conservação de Tartarugas, no âmbito do Projeto LIFE-Trachemys, em que se encontra envolvido. Os parceiros deste projeto ibérico cofinanciado pela Comissão Europeia - LIFE-Trachemys 09NAT/ES/000529 são a Generalitat Valenciana - Conselleria de Infrastructuras, Territorio y MedioAmbiente (Valência, Espanha), e instituições como o CIBIOICETA da Universidade do Porto, o Parque Biológico de Gaia e a associação ALDEIA-RIAS. No encontro participaram cientistas de Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha, Letónia, Lituânia e Austrália. O evento, também no âmbito da Década da Biodiversidade preconizada pelas Nações Unidas, juntou investigadores de diversos países e abordou temas dos mais diversos, desde os programas de reprodução em cativeiro e a ecologia de populações em habitat natural aos problemas e eventuais soluções decorrentes das perdas inerentes à introdução de espécies invasivas, à epidemiologia e aos projetos de conservação em curso. SO certame juntou investigadores de várias nacionalidades

Encontro Internacional de Fitossocio ALFA-Associação Lusitana de Fitossociologia organizou, entre 9 e 12 de maio, em parceria com a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, o CIBIO-Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, e a empresa Águas e Parque Biológico de Gaia, o IX Encontro Internacional de Fitossociologia ALFA. O certame decorreu no Parque Biológico de Gaia, e teve por tema “Vegetação e paisagem: uma perspetiva socioecológica”. Nos dois últimos dias do evento fizeramse percursos interpretados nas serras do Marão e da Nogueira para observação e discussão dos aspetos mais notáveis da flora, da vegetação e da paisagem das montanhas de Trás-os-Montes e Alto Douro.

A

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SMesa de abertura do encontro: João Honrado, docente da Universidade do Porto, Nuno Oliveira do Parque Biológico, e Miguel Sequeira, presidente da ALFA e docente da Universidade da Madeira


Mauro e Emília: os cágados na Década da Biodiversidade

Jorge Gomes

Ilustrado por Ernesto Brochado e Delfina Sordo, o conto de Ana Mafalda Alves “Mauro e Emília, os nossos cágados estão em perigo! Vamos ajudá-los” foi lançado o no Parque Biológico de Gaia no Dia Mundial da Criança, celebrado a 1 de junho, pelas 17h30. A obra, com texto em português e castelhano, descreve aos mais pequenos a história de Emília, a primeira fêmea de cágadode-carapaça-estriada (espécie ameaçada) a integrar o programa de criação em cativeiro que decorre há já um par de anos no Parque. O programa em causa está incluído num projeto ibérico – LIFETrachemys 09NAT/ES/000529 – e envolve várias instituições da Península Ibérica. A obra foi apresentada por Luís Henrique Pereira, jornalista da RTP.

SMomento da apresentação da obra: da esquerda para a direita, Luís Henrique Pereira, Nuno Gomes Oliveira, Ana Mafalda e Ernesto Brochado

Jorge Gomes

Jorge Gomes

ologia

SRivas Martinez, conhecido investigador espanhol, esteve presente no evento: em 1.º plano, segundo a contar da direita

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40 ESPAÇOS VERDES

Livro comemorativo dos 30 anos do Parque Biológico Nos últimos 30 anos o Parque Biológico de Gaia recebeu a visita de 2,5 milhões de pessoas — em 15 de julho, em sessão comemorativa, foi apresentado o livro “Parque Biológico de Gaia: 1983/2013”

O programa arrancou de manhã, conforme sublinhou a presidente do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), Paula Sarmento: «Comecei o dia da melhor maneira, com um passeio no Parque Biológico, um local onde se observa fauna e flora do nosso país com um ótimo apoio didático». Paula Sarmento visitou também o Centro de Recuperação de Fauna Selvagem do Parque e ficou sensibilizada para o esforço de conservação da biodiversidade que ali se desenrola. Ainda houve oportunidade de libertar uma andorinhadas-chaminés reabilitada. Já em plena sessão, o presidente do Município de Vila Nova de Gaia, Luís Filipe Menezes, disse: “Sentimos orgulho por termos feito a diferença” e “é com muita honra que reparto este sucesso

Ainda houve tempo para libertar uma andorinha reabilitada

Agenda

Eis algumas das iniciativas a curto prazo que podem ser do seu interesse... Desfolhada

Com a ajuda do Rancho Folclórico Danças e Cantares de Santa Maria do Olival o milho vai ser rei no Parque Biológico de Gaia, a partir das 16h30. Uma hora antes esta iniciativa vai aquecer com diversas atividades centradas em burricos. Em torno da eira, as espigas vão ser despidas para que os grãos maduros possam luzir ao sol. De participação livre, as inscrições são feitas no próprio dia por ordem de chegada, havendo no entanto lugar no máximo para apenas cem participantes.

João L. Teixeira

Sábado, 5 de outubro, revivem-se alguns aspetos de uma desfolhada tradicional...

A recriação da desfolhada do milho X é uma atividade que sublinha a forte ligação do ser humano à terra

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Jorge Gomes

com as restantes pessoas que contribuíram para as metas alcançadas”. Adiantou também que “este Parque tem dos melhores técnicos do país e do mundo” e, salientou, “oxalá quem me suceder no Município saiba valorizar este facto”. No que toca ao livro apresentado, Nuno Gomes Oliveira, fundador e diretor do Parque Biológico de Gaia, explicou que “é um repositório de memórias, um trabalho coletivo que nas suas

Concurso Nacional de Fotografia da Quercus • Abre às 15h00 de 21 de setembro

últimas páginas termina com uma listagem das 2654 espécies selvagens, animais e vegetais, registadas até agora em Vila Nova de Gaia”. Após a sessão de autógrafos, e já ao início da tarde, a presidente do ICNF visitou também a Reserva Natural Local do Estuário do Douro, o Centro Interpretativo do Património da Afurada e o Parque de Dunas da Aguda.

a exposição relativa ao 1.º Concurso Nacional de Fotografia da Quercus, com entrega de prémios. A mostra pode ser visitada todos os dias, até 31 de outubro, no horário de funcionamento do Parque Biológico de Gaia.

condições meteorológicas o permitirem. Em 2 de novembro o destaque vai para a abertura da exposição do Concurso Nacional de Fotografia da Natureza Parques e Vida Selvagem, com entrega de prémios, às 15h00. De manhã, às 11h00, o atelier é preenchido com iniciação à fotografia da natureza.

de castanhas e magusto. Saiba mais no Gabinete de Atendimento do Parque.

Sábado no Parque • Dia 5 de outubro o Parque prepara

Percurso de descoberta • Sábado, dia 19 de outubro, há um

Oficinas de Inverno • Para crianças e jovens, dos 5 aos 15

algumas atividades especiais para os seus visitantes, com início às 11h00: atelier “Anilhagem científica de aves selvagens”. Depois do almoço, às 14h30, há a conversa do mês intitulada “Sete anos da estação de esforço constante de anilhagem científica em serviço no Parque Biológico de Gaia”, seguindose pelas 15h00 a visita guiada por técnicos do Parque e, simultaneamente, percurso ornitológico. Entre as 15h00 e as 17h00 há a recriação da desfolhada do milho. No mesmo dia, à noite, às 22h00 há observações astronómicas, se as

percurso no Geoparque de Arouca, com saída e chegada em autocarro a partir do Parque Biológico de Gaia.

anos, de 17 a 21, 26 a 28 de dezembro de 2013 e 2 e 3 de janeiro 2014 com entrada às 9h00 e saída às 17h30.

Anilhagem científica de aves selvagens • Nos primeiros e terceiros sábados

Observação de aves selvagens • Nos primeiros domingos e nos

de cada mês, das dez ao meio-dia, os visitantes do Parque podem assistir a esta atividade na Quinta do Chasco de passagem pelo percurso de descoberta da natureza, se não chover. Está em causa o bem-estar animal. Orientada por anilhadores credenciados, há uma dúzia de formandos que prosseguem no

segundos sábados de cada mês, das 10h00 às 12h00, leve, se tiver, um guia de campo de aves europeias e binóculos à Reserva Natural Local do Estuário do Douro. Com telescópio, estará um técnico do Parque para ajudar os presentes a identificar as aves do litoral a partir dos observatórios ali instalados.

objetivo de aprenderem sempre mais nesta iniciativa útil para um melhor conhecimento da população de aves da região.

Magusto • Sábado, 9 de novembro, há colheita

Receba notícias por e-mail Para os leitores saberem das suas atividades a curto prazo, o Parque Biológico sugere uma visita semanal a www.parquebiologico.pt A alternativa será receber os destaques, sempre que oportunos, por e-mail. Para isso, peça-os a newsletter@parquebiologico.pt

Mais informações Gabinete de Atendimento atendimento@parquebiologico.pt Telefone direto: 227 878 138 4430-861 Avintes - Portugal

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Jorge Gomes

42 ESPAÇOS VERDES

Fauna

m casal de milhafres selvagens já tinha ensaiado com êxito fazer o seu ninho no passado ano no Parque Biológico de Gaia. Uma árvore grande, junto ao açude em pleno rio Febros, tê-los-á atraído como um local adequado para nidificar, mas nunca se chegou a ver crias. Este ano, sem perturbar, embora não houvesse ângulo para ver a cria no ninho, foi possível observar uma a voar, inexperiente, com os progenitores no passado dia 11 de julho à hora de almoço. Quatro dias depois, mesmo em cima do gaiolão dos milhafres irrecuperáveis, posou para a fotografia, à distância, após um pedido de alimento a um dos pais. O juvenil é a ave à direita. Voltará este casal para o ano? É provável que sim, lá para início de março talvez.

U

42 • Parques e Vida Selvagem verão 2013

Também com asas mas muitíssimo mais pequena, uma outra espécie ganha lugar. Fotografada na quinta de Santo Tusso, no Parque Biológico de Gaia, é a segunda espécie de borboleta observada neste espaço verde da família dos Sesídeos, uma Pyropteron chrysidiformis (Esper, 1783), em 28 de junho, registo feito pouco antes das duas da tarde. Trata-se de uma borboleta discreta que se alimentava nesse dia nas flores amarelas das santolinas, à beira do percurso de descoberta da natureza na quinta de Santo Tusso. Este grupo de lepidópteros copia as formas e cores de vespas e com esse aspeto consegue prestar outros serviços — como o da polinização — durante mais tempo nos ecossistemas em que se integram, até que por fim marcam derradeira presença na cadeia alimentar.

Jorge Gomes

Novidades

As borboletas da família X dos Sesídeos tentam imitar pequenas vespas


Flora

Musgo-comum-de-caliptra-nua Atrichum undulatum (Hedw.) P. Beauv.

usgo de crescimento ereto, com frutificações no topo de cada indivíduo e, por isso, denominado de acrocárpico. Sendo um musgo robusto, até 7 cm de altura, de cor verde escura quando cresce na sombra ou amarelada quando cresce sob luz mais intensa e com tufos bem individualizados, torna-se fácil de distinguir no meio das outras plantas do mesmo habitat. Para além disso, é um musgo com filídeos (órgãos análogos a folhas) longos e pontiagudos, até 1 cm de comprimento e ligeiramente ondulados transversalmente (daí o nome “undulatum”), que quando secam ficam ainda mais característicos porque encaracolam. Quando se observa à lupa a nervura do filídeo, na zona central, observam-se linhas paralelas de colunas celulares que maximizam a superfície foliar e, por isso a capacidade fotossintética. Como plantas, os musgos têm células com clorofila e cloroplastos e as células dos filídeos têm os conteúdos celulares necessários para realizar a fotossíntese e fabricar a energia e os açúcares que necessitam para sobreviver, crescer e reproduzir-se. No caso dos musgos, a quantidade de luz, água e nutrientes necessários para este processo são tipicamente inferiores às das plantas vasculares, o que faz dos musgos plantas “low-cost”, ou seja com necessidades energéticas e nutritivas baixas. Quando este musgo dispõe de energia e nutrientes suficientes aposta na reprodução sexuada e produz uma ou várias cápsulas por

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indivíduo, inclinadas, cilíndricas, de 3-4 mm de comprimento e com opérculos (tampas das cápsulas) de comprimento igual ao da cápsula, uma característica típica da espécie. A caliptra, uma membrana que aparece sobre a cápsula e que deriva dos tecidos superiores do ovário, é desprovida de pelos, daí o nome do género (“Atrichum”- sem pelo) e nome comum (musgo-comum-de-caliptra-nua). Este musgo é frequente nos solos de florestas e taludes de caminhos, evitando os solos muito ácidos ou calcários. Geralmente, encontra-se em cantos sombrios, bem drenados e é um dos musgos terrestres mais amplamente distribuído nos países europeus. Pelo seu tamanho, fisiologia simples e fácil reconhecimento, este musgo, tal como outras espécies, é utilizado em experiências de pesquisa científica na área de fisiologia e genética vegetal. Vários investigadores tentaram cultivar este musgo em ambiente laboratorial (in vitro), de modo a reduzir o impacto nas suas populações, assim como reduzir o grau de contaminação com outros microorganismos. Porém, esta tarefa tem sido difícil, porque, tal como a maior parte dos musgos, esta espécie não cresce facilmente nem rapidamente fora do seu micro-habitat natural (in vivo), mesmo quando todos os nutrientes lhe são disponibilizados em grandes quantidades. Tal como muitos dos animais selvagens, também os musgos não são felizes em cativeiro… Texto Cristiana Vieira e Helena Hespanhol (CIBIO-UP) Foto Cristiana Vieira

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44 CENTRO DE RECUPERAÇÃO

As duas vidas da

águia-calçada ma centena de alunos assistiu em 12 de junho à libertação de uma águiacalçada que tinha entrado ferida em 20 de novembro do ano passado no Centro de Recuperação de Fauna Selvagem do Parque Biológico de Gaia. Sara Loio, médica-veterinária, disse que a ave «apresentava uma fratura no cúbito esquerdo», ficando assim com «a asa imobilizada cerca de três semanas». Em «17 de dezembro foi para o centro de recuperação do Parque Nacional da Peneda-Gerês completar o processo de reabilitação e regressou ao Parque Biológico em 19 de abril deste ano,

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onde permaneceu no túnel de voo até ao dia em que foi devolvida à natureza». As aves de rapina são espécies protegidas por lei e representam importante ponto de equilíbrio da cadeia alimentar do ecossistema. No caso destas águias, passam a primavera e o verão na Europa e o resto do ano em África. Estando o animal, depois de um tratamento de meio ano, em boas condições tornou-se necessário devolvê-lo à vida selvagem. Quem teve a honra de libertar a rapace foi a espanhola Isabel Ortega, então estagiária de um curso de zoologia do país vizinho.

Anilhagem científica de aves selvagens

O que se esconde por trás de um nome? uito se diz dos chamados nomes científicos dos animais e plantas: estranhos, impronunciáveis, complicados. Não seria mais fácil usar apenas os nomes vulgares, aqueles mais simples que atribuímos sem grandes pretensões? Ophrys tenthredinifera… porque não orquídea-vespa? Tarentola mauritanica… porque não osga? Mas a verdade é que se alguns de nós neste país veem “garças-boieiras”, e outros ainda “carraceiros”, um inglês vê “cattle egrets”, um alemão um “kuhreiher”, um letão um “lopu garnis” e um checo um “volavka rusohlavá”, todos estão a falar da mesma espécie de ave, e todos poderão comunicar através do nome científico dessa linda garça, Bubulcus ibis, pois este

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é independente da linguagem que se utiliza, e por isso universal. Embora estes nomes científicos pareçam por vezes algo demasiado exóticos, têm por base um sistema, a nomenclatura biológica (que foi impulsionada de forma decisiva pelo grande naturalista sueco Carl von Linné, também conhecido por Lineu), que se rege por alguns princípios, mais ou menos rígidos, como por exemplo a obrigatoriedade do nome de uma espécie ser representado por duas palavras (referentes ao género e espécie, formando a nomenclatura binomial), ou a recomendação de o nome ser latinizado. E quando os cientistas atribuem uma designação científica a uma espécie, ela esconde em si significados mais ou menos percetíveis. Vejamos o exemplo das aves. Alguns são fáceis de perceber, como o pardal-de-telhado Passer domesticus (“pardal doméstico”) ou o melro-

preto, Turdus merula (“tordo melro”); outros, mais descritivos, apontam para características físicas, como o caso do pato-real, Anas platyrhynchos (“pato de bico-achatado”),

Se passar um destes dias numa mesa de anilhagem científica de aves selvagens ouvirá nomes esquisitos: saiba porquê! da estrelinha-de-cabeça-listada, Regulus ignicapillus (“príncipe com cabelo-em-fogo”) ou do maçarico-real, Numenius arquata (“lua-nova arqueada”, devido ao longo bico em forma de quarto crescente).


João L. Teixeira

Muitos também são os casos em que os nomes foram atribuídos com base no estilo de vida e comportamento: casos como o picanço-real, Lanius meridionalis (“carniceiro do Sul”, dado ser uma ave sul-europeia que tem o peculiar hábito de espetar as presas em ramos com espinhos), o tordo-pinto, Turdus philomelos (“tordo aficionado-da-música”, pelo seu lindo canto), o gaio, Garrulus glandarius (“barulhento das bolotas”, por ser um ruidoso apreciador do fruto dos carvalhos, fruto esse classificado como glande) ou até do gansopatola, Morus bassanus (“tolo da ilha Bass Rock”, já que a sua atitude sem medo fez com que muitos fossem mortos por marinheiros, e referência também à ilha escocesa onde a maioria dos animais desta espécie nidifica). Outros casos curiosos envolvem figuras mitológicas ou lendas. É o caso do pobre noitibó, Caprimulgus europaeus (“ordenhacabras europeu”), que no tempo da Roma Antiga se pensava que voava até às cabras para lhes sugar o leite, lesionando os mamilos e induzindo nelas a cegueira – na realidade, o noitibó é apenas um inofensivo insetívoro noturno! Mais sorte teve o guarda-rios, Alcedo atthis (“guarda-rios de Atthis”), em honra de um lindo e bem-vestido filho de uma ninfa do rio Ganges. Bonita também a origem do nome das

João L. Teixeira

S A águia-calçada recebeu uma anilha mesmo antes da libertação: se algum dia for recapturada conseguir-se-á identificá-la

SO chasco-cinzento, Oenanthe oenenthe, é um habitual visitante de outono no Sul da Europa: já Aristóteles falava de uma ave com este nome que surgia na época das vindimas (oine: vinha; anthos: florescer), nome que Lineu aproveitou na designação desta espécie

garças do género Ardea (como a garçareal, Ardea cinerea): diz a mitologia romana que a cidade de Ardea, perto de Roma, foi arrasada pelas tropas do troiano Aeneas, e dos escombros nasceu uma ave elegante e pálida que afastava as cinzas das suas asas enquanto soltava gritos lamuriosos... E quanto às nossas amigas boieiras (ou carraceiros), Bubulcus ibis? O restritivo genérico provém do latim “bubulcus”, que significa pastor de vacas, o que não surpreenderá quem conhece esta ave bem adepta de acompanhar o gado nos campos à procura dos insetos levantados pelos ruminantes. Já o nome da espécie tem uma história mais complicada: numa viagem ao Egipto, no início da década de 1750, o naturalista sueco Fredrik Hasselqvist deixou-se convencer pelo seu guia que as garças-boieiras eram a mítica íbis-sagrada (que na realidade é uma outra espécie, Threskiornis aethiopicus), tendo esta ideia passado para o seu mentor, o próprio Lineu, que perpetuou a falácia quando nomeou a espécie. Dizem que até os grandes cientistas cometem lapsos... mas na altura também não havia internet para confirmar! Por Pedro Andrade

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João L. Teixeira

46 BATER DE ASA

SOs gansos-patola são aves marinhas da avifauna portuguesa

O voo das aves Foi encontrado em Espinho um ganso-patola, Sula bassanus, em 19 de dezembro do ano passado, portador de uma anilha originária da Islândia com o código Reykjavík 133004... purados os dados, veio a saber-se que esta ave foi anilhada por Hallgrímur Gunnarsson em 6 de julho de 2001 em Skrúður, S-Múl, na Islândia. Entre esse sítio e Espinho marca-se uma distância de 2674 quilómetros! Outro caso data de 18 de janeiro deste ano, quando chegou uma mensagem de correio

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eletrónico de Carlos Cação que assinalava a captura de uma outra ave com anilha: «Para os efeitos que julgarem convenientes informo que no dia 23 de dezembro de 2012, no decorrer de uma jornada de caça, que ocorreu na serra de Santo António, concelho de Alcanena, foi abatido um tordo, creio que "Turdus philomelos" com uma anilha, com a seguinte informação: 8X79519, MUSEUM SC. NAT. 1000 BRUSSELS». Informada a Central de Anilhagem, aguardar-se ainda no fecho desta edição pelos dados deste animal. Antes disso, já também Vítor Ramos, em 4 de dezembro do ano passado, comunicava: «Bom dia! Gostaria de informar que no passado dia 2-12-2012, quando me encontrava numa caçada na Reserva Municipal de Vale de Seda, abati um tordo anilhado. Na anilha constavam os seguintes dados: 7852296, HELGOLAND, GERMANIA. Agradecia informações sobre este tordo». Contactada a central de anilhagem alemã, aguarda-se ainda pela resposta. Mais recentemente, em 4 de fevereiro do corrente ano, escrevia Nuno Boto, do Algarve:

«Boa noite, foi encontrado um tordo numa jornada de caça em Estombar, Lagoa, no Algarve com uma anilha com a seguinte descrição: MUSSEUM SC. NAT. 1000, BRUSSELS, 23Z51964. O local exato por GPS é o seguinte — 37º 09´ 21 / 8º 29´ 48». Recebidas as informações pedidas, apurouse que a ave foi anilhada no ano em que nasceu, em 5/10/2012, em Ingooidem, na Bélgica, e recapturada em Estombar, 1793 km a sul, quatro meses e um dia depois da anilhagem.


OBSERVATÓRIO 47

O triângulo estival e as constelações de verão No período estival as noites são mais quentes e agradáveis, convidam a estar um pouco mais tempo ao ar livre para que possamos saborear a brisa noturna e porque não aproveitar para contemplar o céu e as miríades de estrelas que se podem observar?

esta época do ano o Sol atinge a sua máxima altitude ao meio dia solar no dia 21 de junho. É o momento do solstício de verão no hemisfério norte terrestre. Se fosse possível ver estrelas durante o dia, podíamos verificar que o Sol “vagueava” pelas constelações do Touro, Gémeos, Caranguejo e Leão deixando visíveis à noite, depois do pôr-do-sol, as constelações de verão do zodíaco que se encontram do lado oposto do céu e por onde passará a nossa estrela no período de inverno. As mais visíveis são Escorpião, Sagitário, Capricórnio e Aquário. Quem tiver a sorte de poder observar o céu num local isento de poluição luminosa, pode constatar que na direção da constelação do Sagitário irá notar um brilho mais intenso e uma concentração maior de estrelas: estará a olhar em direção do centro da nossa galáxia, a Via Láctea, apesar de observar que esta constelação nunca sobe muito alto às nossas latitudes. Se olharmos bem mais para cima veremos três estrelas brilhantes a formar um triângulo

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gigantesco a subir no céu a cada dia que passa vindo de nascente e que passará bem por cima das nossas cabeças onde está o ponto fictício no local mais alto da abóbada celeste, o zénite. Estas três estrelas formam o famoso asterismo visível ao longo deste período conhecido por “Triângulo estival”. As estrelas que formam o triângulo têm diferentes características e pertencem a constelações diferentes. Vistas a partir da Terra a mais brilhante deste trio é “Vega”, a estrela a (alfa) de Lira (Lyra), pertence ao tipo espectral A0V, Se estivesse no lugar do Sol a sua luminosidade seria 40 vezes maior que a nossa estrela, o seu raio é aproximadamente 2.5 o raio do Sol e está a cerca de 25 anos luz de distância. A estrela que se situa no vértice Sul deste triângulo chama-se “Altair”, o seu nome vem do árabe e significa “aquele que voa”, esta estrela é a mais brilhante da constelação da Águia (Aquila), o tipo espectral é A7V, tem 10 vezes a luminosidade do Sol, o seu raio é 1.8 vezes maior que o do Sol e é das três a mais próxima de nós, está a cerca

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Joaquim Gomes

48 OBSERVATÓRIO

Joaquim Gomes

SM13 Enxame globular de Hércules

Joaquim Gomes

S SM27 Nebulosa planetária do haltere

SM57 Nebulosa planetária de Lira

de 16 anos-luz de distância. Finalmente, a estrela mais oriental tem como nome “Deneb”, é a estrela mais brilhante da constelação do Cisne (Cygnus) e representa a sua cauda. Esta estrela, uma supergigante azul, é do tipo espectral A2Ia, a sua luminosidade é cerca de 200000 vezes a luminosidade do Sol, o seu raio é 200 vezes maior que o do

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Sol e a sua distância estima-se em cerca de 2600 anos-luz, por isso das três é a menos brilhante quando vista a partir da Terra.Nesta área do céu, podemos encontrar outras maravilhas celestes, mas neste caso iremos precisar de usar instrumentos de observação como um telescópio. Para tal o Observatório Astronómico do Parque Biológico de Gaia

(OAPB), está de portas abertas nos primeiros sábados de cada mês para quem as queira contemplar. Na constelação da Lira, relativamente perto da estrela Vega, podemos observar um astro que é a premonição do futuro do nosso Sol: trata-se da nebulosa planetária da Lira, ou a nebulosa do anel; Charles Messier catalogou-a com o nome de M57. As imagens deste artigo foram obtidas no OAPB. No fim de vida de uma estrela como o nosso Sol, as camadas exteriores da estrela são atiradas para o espaço circundante e a radiação intensa do núcleo central da estrela moribunda excita os átomos desses restos que foram lançados para o espaço que começam a emitir luz de diversas cores tornando assim visível a nebulosa. Esta nebulosa está a cerca de 2300 anos-luz de distância e as suas dimensões chegam a ter 1.3 anos-luz de raio. Entre as estrelas Deneb do Cisne e Altair da Águia, mais próximo de Altair, na constelação da Raposa (Vulpecula), encontramos outro astro do mesmo tipo, a nebulosa planetária do Haltere, cujo nome é devido à semelhança que este astro tem com a de um haltere; o nome atribuído por Charles Messier foi M27. Esta nebulosa encontra-se a cerca de 1360 anosluz de distância, com um raio de 1.44 anos-luz de extensão. Se olharmos um pouco mais para ocidente relativamente ao triângulo de verão, vamos encontrar uma outra constelação, Hércules (Hercules), nesta constelação vamos encontrar também outro objeto celeste de interesse, é o enxame globular de estrelas de Hércules: foi catalogado por Charles Messier com o nome M13 e situa-se a 1/3 da distância que separa a estrela n (eta) em direcção à estrela s (zeta) desta constelação. Trata-se de um aglomerado de estrelas unidas pela força de gravidade existente entre elas e este tipo de objetos situam-se espacialmente no halo da nossa galáxia, fora do plano onde se encontra o disco galático. O enxame é constituído por mais de 300000 estrelas, encontra-se a uma distância de cerca de 23000 anos-luz, cujo raio é tal que a luz demora cerca de 84 anos a viajar do seu centro à sua periferia. Aproveite bem este verão e observe as maravilhas do céu noturno, siga-nos no facebook em www.facebook.com/ observatorioastronomicopbg, informe-se das atividades desenvolvidas pelo OAPB através do telefone 227 878 138 ou pelo e-mail: atendimento@parquebiologico.pt Por Joaquim Gomes


REGISTO 49

Alfred Smith (1822-1898)

Pioneiro do turismo ornitológico em Portugal Alfred Smith foi, provavelmente, a primeira pessoa a fazer turismo ornitológico em Portugal, quando nos visitou em abril e maio de 1868 sta visita deu lugar a um artigo na conceituada revista inglesa de ornitologia “Ibis", em 1868 (A Sketch of the Birds of Portugal) e a um livro, em 1870 (Narrative of a spring tour in Portugal), cujo capítulo XV é dedicado às aves de Portugal, apresentando uma das primeiras listas de aves do país. O pastor protestante Alfred Charles Smith (1822-1898) era um dos, então, 40 membros honorários da prestigiada British Otnitologists´Union. Foi reitor da igreja de Todos os Santos, em Yatesbury, Wiltshire, em Inglaterra, de 1852 a c. 1878 (vendeu este título1 em 1882); foi, ainda, um amador da história natural, arqueologia e viagens, que se correspondeu com Charles Darwin.2 Veio a Portugal com o pai, “... tal como nas melhores viagens dos últimos anos” e “...carregava uma espingarda, um par de binóculos, e todos os utensílios necessários a um ornitologista, para obter e preservar espécimes de aves, ele [o pai] levou a sua câmara, e tudo o que um fotógrafo precisa.” Para esta viagem Smith calculou gastar cerca de 50 libras. Embarcou nas docas de Southampton no navio brasileiro “Shannon” por volta

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do dia de Páscoa de 1868. Visitou Lisboa, Sintra, Évora e Setúbal, e depois veio para o Norte, por Alcobaça, Batalha e Coimbra até ao Porto, de onde partiu para Braga e Viana. Smith usou o comboio expresso de Coimbra para o Porto, e nisso gastou três horas; na parte final desta viagem, após passar Ovar, anota que “... agora surgiu a costa, com o extenso Atlântico a oeste, e areia nos dois lados, e nada mais que areia, pura e simples, para ser visto. Isto foi no final da nossa jornada, e depressa chegamos ao términos em Vila Nova de Gaia.” Esta descrição faz sentido pois o revestimento florestal das dunas de Ovar, Cortegaça e Esmoriz iniciou-se, apenas, em 1930 (Lamy & Rodrigues, 2000), pelo que à data da viagem de Smith (1868, recorde-se) a linha da caminho de ferro de Ovar a Vila Nova de Gaia atravessava os areais costeiros, com uma paisagem idêntica à que hoje ainda podemos ver um pouco no troço de S. Félix da Marinha. Smith atravessou para o Porto pela Ponte Pênsil e instalou-se no Hotel Mary Castro que, nesta data, ainda seria na esquina da Rua de Sampaio Bruno com a do Bonjardim e, mais tarde, se mudou para a Rua das Motas, na Foz. Entre o muito que visitaram e os impressionou no Porto cabe destacar os jardins do último capelão da Feitoria inglesa, rev. Edward Whiteley, que, entre outras espécies, tinha um Tulipeiro (Liriodendron tulipifera), com cerca de 5,2 m de perímetro a 90 cm do solo, segundo as medições de Smith e do pai; atribuíram este excecional crescimento ao facto de ter um sistema de rega. Dizem que, no entanto, uma magnólia ali existente ainda era mais espetacular, com 18 m de altura. Também as camélias de diversas variedades chamaram a atenção de Smith. O rev. Whiteley tinha um colégio na Rua de Entre-Quintas (Gonçalves, 2001), perto do Palácio de Cristal, onde fica a conhecida

Casa Tait; a Casa Tait, anteriormente designada Quinta de Meio, foi adquirida em 22/04/1900 pelo negociante inglês William Tait. Será que o jardim do rev. Whiteley era o mesmo da futura Casa Tait?

Capítulo XV – Aves de Portugal Na sua listagem de aves de Portugal Smith começa por dizer que, à época, sobre as aves de Portugal apenas existia uma listagem em português feita pelo Professor Barbosa du Bocage, em 1862, e umas notas do G. F. Matews, que foram publicadas na revista “The Naturalist”, do ano de 1864. Quanto ao trabalho do Professor Barbosa du Bocage, Smith refere-se à brochura publicada em 1862 “Instruções praticas sobre o modo de coligir e remeter productos zoológicos para o Museu de Lisboa” que inclui uma lista comentada de 326 espécies de aves que ocorriam ou podiam ocorrer em Portugal, das quais Bocage apenas pôde confirmar a ocorrência de 280, das 440 que se conhecem hoje3. Curiosamente, entre as espécies cuja presença não conseguiu confirmar, estão algumas que hoje são comuns, como a garça-branca-pequena (Egretta garzetta) ou a gaivota-parda (Larus canus). Por outro lado, a lista de Bocage de 1862 incluiu espécies cuja ocorrência em Portugal é duvidosa, como a perdizmourisca (Alectoris barbara) de que só há três referências para o nosso país; um exemplar que Tait (1924) diz ter um tio seu caçado anos antes em Vendas Novas e duas que António Themido (1944) diz integrarem a coleção rei D. Carlos e terem sido capturadas em Vila Viçosa em 14/12/1906. É uma espécie do Norte de África e na Península Ibérica a única população conhecida é em Gibraltar, embora haja alguns exemplares

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50 REGISTO capturados em Telleria (Cádiz), na primeira metade do século XX (Lorenzo et al, 2003). Alguns sites referem a introdução recente em Portugal, para fins cinegéticos, o que não se conseguiu comprovar. Quando acima Alfred Smith fala de G. F. Matews deveria estar a referir-se ao naturalista e arqueólogo que era vigário da igreja de S. Pedro, em Mancetter (Warwickshire, UK), secretário do clube de Cricket de Hayles (Kent, UK) e do Clifton Rugby Football Club (Bristol, UK) que publicou em 1865 na revista inglesa “The Naturalist” o artigo “Notes on the Azurewinged magpie (Pica cyanea) & c.” (Notas sobre a Pega-azul (Cyanopica cyanea), etc.); o autor acrescentou ao título “etc.” porque fala de diversas outras espécies de aves que viu nos arredores de Lisboa, ao todo três dezenas de espécies, quando ali esteve em fevereiro de 1863 e em janeiro de 1865, e no Funchal, em dezembro de 1863. Era, pois, esta a bibliografia que Alfred Smith dispunha sobre as aves de Portugal; mas, em Portugal, socorreu-se de outros métodos de pesquisa, desde a observação de campo “... armado com uma espingarda de dois canos e um binóculo - o último, não posso deixar de acrescentar, tão útil para o estudante de ornitologia como a primeira.” Além disso Alfred Smith também frequentou feiras e mercados, de manhã cedo, para inspecionar os “bouquets” de pequenas aves à venda; visitou, ainda, o Museu de Zoologia de Lisboa e o de Coimbra. Mas Alfred Smith também teve a colaboração de algumas pessoas da comunidade científica, como o já referido Professor Barbosa du Bocage, diretor do Museu de Zoologia de Lisboa, e o Dr. George Suche (ou Such) médico em Londres e coletor no Brasil, onde estava em 1825 e enviou, entre outras coisas, um tucanode-bico-verde (Ramphastos dicoloris) e um tucano-de-cinta ou araçarii-de-bico-branco (Pteroglossus aracari) para Nicholas Aylward Vigors (1785-1840), um zoólogo e político irlandês (Macgregor e Headon, 2000). Tal como Alfred Smith, Vigors era “Fellow of the Linnean Society”. Smith recolheu em Portugal uma “pequena” coleção de aves que embalsamou e, já em Inglaterra, recorreu ao conhecido ornitologista inglês Canon Henry Baker Tristram (1822–1906) (Baker, 1996) para a sua clara identificação. No artigo que publicou na revista “Ibis", em 1868, Alfred Smith enumera 193 espécies e acrescenta: “Também fiz menção

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acessória de 57 outras, que me afirmaram com confiança serem bem conhecidas em Portugal, pessoas em cujo rigor podia confiar.” Assim, Smith apresenta uma lista de 250 espécies.

O aditamento do Professor Bocage à lista de Smith Posteriormente o Professor Barbosa du Bocage fez uma revisão à lista de Smith e publicou-a no “Jornal das Sciencias matemáticas, physicas e naturais da Academia Real de Sciencias de Lisboa” (Tomo II, agosto de 1868 - dezembro de 1869, págs. 214-219); basicamente Barbosa du Bocage fala da reserva que Smith teve sobre a classificação de uma águia-imperial (Aquila heliaca) existente no Museu de Lisboa, e demonstra que é mesmo uma águia-imperial juvenil, espécie que segundo Barbosa du Bocage “...póde dizer-se comum; abunda nas serras da Beira e do Alemtejo. D´esta ultima província tenho recebido mais d´uma vez exemplares vivos d´ella.” Acrescenta, depois, uma listagem de 44 espécies de aves de Portugal não referidas por Smith, e começa com a Aquila naevia, cujo nome atual é Aquila clanga, referindo “Um exemplar proveniente de Traz-osmontes, morto nos arredores de Bragança.” A Aquila clanga é atualmente muito rara em Portugal, havendo apenas nove observações registadas desde 1998, todas no estuário do Tejo, salvo uma, no estuário do Sado4. Refere, em seguida, a Alauda lusitana Gm. dizendo que “Não existem ainda exemplares d´esta espécie no museu de Lisboa, porém sei que se encontra frequentemente no Alentejo e Algarve; d´esta província trouxe vários exemplares d´ela um ornitologista de Halle, o sr. E. Rey, que ali foi recentemente.” Barbosa du Bocage referia-se a Eugène Rey (1838-1909), ornitologista alemão que visitara Portugal no ano anterior (1869) e deu conta das suas observações no artigo “Zur Ornis von Portugal” (Para a Ornitologia de Portugal) publicado no “Journal für Ornithologie” (March 1872, volume 20, issue 2, pp 140-155). Na reedição da “Histoire Naturelle”, do conde de Buffon5, da autoria de Charles Sinnini6, feita em 1800-1801, este autor acrescentou uma nota intitulada “L´Alouette de Portugal” na qual, depois de descrever a espécie, diz que “É ainda ao Senhor Latham que devemos o conhecimento desta espécie de cotovia, natural de Portugal”. John Latham7 escreveu a “General History of Birds” e no

Ammomanes deserti, ilustração de Henry Eeles Dresser (1871)

seu vol. IV, pág. 283 (1822), fala da “Portugal Lark” de que faz uma pequena descrição que começa com a indicação de ter um “bico robusto” e termina dizendo que “habita Portugal”, informação que atribui ao “senhor Pennant”8, Thomas Pennant (1726-1798), um amador de antiguidades e naturalista britânico. Em 1810 A. F. Seabra, no seu “Catalogue des Vertébrés du Portugal” considera a Alauda deserti (Licht) (Oliv. 189, sinónimo de Alauda lusitanica Blyth (Oliv. 18); Gray ? e de Ammomanes deserti (Oliv. 18) e escreve que “Hab. Env. de Coimbra (Oliv. 18)”. Em 1816 o “Nouveau dictionnaire d´ histoire naturelle” registava: “A Cotovia de Portugal, Alauda lusitana, Lath. A côr geral da plumagem desta cotovia é um ruivo muito pálido, que fica ainda mais claro nas partes inferiores; as coberturas e as penas das asas tem uma bordadura cinzenta, e as penas da cauda são ruivas amareladas, mais claras nas penas exteriores; a ponta do bico e as unhas são pretas; o resto do bico é branco, e os pés são cor de carne. Esta ave tem tantas semelhanças com a alouette calandrelle (Alauda arenaria, Vieill,) depois da muda, que eu julgo que pertencem à mesma espécie”. (pág. 371, tradução do autor).


Hab. — Ha annos que ferimos uma cotovia perto de Coimbra, e presumimos não poder ser senão um ind. d'esta esp. Para a estudar vagarosamente mettemol-a n'uma passareira e no dia immediato tinha desapparecido”. — Cita-se do s. e e. de Hesp. — Afr. (Oliveira, 1896:139). Quer William C. Tait, no seu livro “The Birds of Portugal” (Tait, 1924), quer Reis Júnior, no seu “Catálogo Sistemático e Analítico das Aves de Portugal” (Júnior, 1930-1935), quer ainda António Armando Themido, no livro “Aves de Portugal” (Themido, 1952) ignoram a espécie. Atualmente esta espécie distribui-se desde o Sara à Península Arábica, Médio Oriente, Irão, Afeganistão e Paquistão, pelo que tudo indica que Henry Dresser, em 1871, tinha razão e a espécie nunca existiu em Portugal.

Nuno Gomes Oliveira Parque Biológico de Gaia nuno@parquebiologico.pt

A “Alouette calandrelle” tem o nome atual de Calandrella brachydactyla Leisler, 1814 e é a Calhandrina-comum, que ocorre em todo o território nacional, na primavera e verão, mas que nada tem a ver com a erroneamente chamada “Cotovia de Portugal”. No “Catálogo de las aves de España, Portugal é islas Baleares” Reys (1886) dá como sinónimo da Alauda lusitana Gm a Alauda deserti Licht e anota “Accidentalmente en Granada (Seoane10). Obetenida dos veces en San Ildefonso (Castellarnau) [Barcelona]” (Reys, 1886:66). Entre 1871 e 1882, o ornitologista inglês Henry Eeles Dresser (1838-1915) publica uma extensa história das aves da Europa e refere a Alauda lusitanica, a “Portugal Lark de Latham11”, considerando que houve um erro de identificação, e que se trata da Ammomanes deserti Licht.,12 nome atualmente aceite e acrescenta: “Nem mesmo parece que qualquer espécime autêntico de A. deserti tenha sido obtido em Portugal ou Espanha.” (Dresser, 1871: 329). Apesar disso, em 1896 Paulino d´Oliveira publica “Aves da Península Ibérica e especialmente de Portugal” e sobre a Alauda lusitanica faz a seguinte nota: “119 A. lusitanica, Blyth. (A. deserti, Calb.).

1. Este título, em inglês “advowson” ou “patronage” era um direito da lei inglesa. 2. Darwin Correspondence Project, http://www. darwinproject.ac.uk/all-darwins-correspondents 3. Fonte: http://www.avesdeportugal.info/ avesdeportugal.html, acedido em 7/7/2013. 4. Fonte: http://avesdeportugal.info/, acedido em 04/08/2013. 5. Georges-Louis Leclerc, Conde de Buffon (17071788) foi um naturalista, matemático, cosmólogo e enciclopedista francês. 6. Charles-Nicolas-Sigisbert Sonnini de Manoncourt (1751-1812) foi um naturalista francês. 7. John Latham (1740-1837) foi um médico e ornitólogo britânico. 8. Thomas Pennant (1726-1798), um amador de antiguidades e naturalista britânico. 9. Refere-se ao livro de Paulino d´Oliveira Aves da Peninsula Ibérica e especialmente de Portugal 10. Víctor López Seoane y Pardo-Montenegro (18321900) foi um naturalista galego. 11. Ver nota 7. 12. Martin Hinrich Carl Lichtenstein (1780-1857), zoólogo alemão.

Bibliografia ANÓNIMO (1816). Nouveau dictionnaire d´ histoire naturelle – ABA – ANI, Tomo 1, Paris. BAKER, R. A., (1996). The Great Gun of Durham Canon Henry Baker Tristram, F.R.S. (1822–1906). An outline of his life, collections and contribution to natural history. Archives of Natural History, vol. 23 (3):327-341. BUFFON, Leclerc de (1785). Histoite Naturelle, Generalle et particuliere. Redigé par C. S. Sonnini. Tom. 51, Paris. Clements, J.F.; Schulenberg, S.; Iliff, M.J.; Sullivan, B.L.; Wood, C.L.; Roberson, D. (2012). The

Clements Checklist. Cornell Lab of Ornithology. Retrieved 28 July 2013. DRESSER, H. E. (1871-1881). A History of the Birds of Europe, including all the sprecies inhabiting the Western Paleartic Region. Vol IV, Publicação do autor, Londres. GILLET, Claude C. e MAGNA, J. H (1873). Nouvelle Flore Française. Com 139 gravuras aguarelas de flores da Riviera, por Rev A. C. Smith, Paris. GONÇALVES, Maria Guilhermina Bessa (2001). Considerações a partir de uma dissertação centrada na comunidade britânica do Porto. Sociologia: revista da Faculdade de Letras do Porto, pp. 163-182. JÚNIOR, J. A. dos Reis (1931-1935). Catálogo Sistemático e Analítico das Aves de Portugal. Araújo & Sobrinho, Porto. LAMY, Alberto Sousa, e RODRIGUES, Augusto (2000). Furadouro uma terra com passado e com futuro. Comissão de melhoramentos do Furadouro, Ovar. LINNÉ, Caroli (1788). Systema Natura. Tom. I, Pars. II LORENZO, Juan Antonio y Martí, Ramón (2003). Ficha da perdiz-moruna. Atlas de las aves reproductoras de España. Ministerio de Agricultura, Alimentación y Medio Ambiente, Madrid. MATEWS, G. F. (1865). Notes on the Azurewinged magpie (Pica cyanea), &c. The Naturalist, vol I, Londres. 0LIVEIRA, M. Paulino d' (1896). Aves da Península Ibérica e especialmente de Portugal. Imprensa da Universidade, Coimbra PROSPEER, Ventura de los Reyes Y (1886). Catálogo de las aves de España, Portugal é islas Baleares. Anales de la Sociedad Espala de Historia Natural, Tomo décimoquinto, Madrid. SEABRA, A. F. (1910). Catalogue des Vertébres du Portugal. Bulletin de la Société Portugaise des Sciences Naturelles, Tome IV, Lisboa. SMITH, A. C. (1868). A Sketch of the Birds of Portugal. Íbis, revista da British Ornithologists' Union, Volume: 10, Issue: 4: 428-460, Peterborough, UK. SMITH, Alfred Charles (1870). Narrative of a spring tour in Portugal. Longmans, Green, Londres. SMITH, Alfred Charles (1873) Narrative of a modern pilgrimage through Palestine on horseback, and with tents. Society for Promoting Christian Knowledge. SMITH, Alfred Charles (1884). Guide to the British and Roman antiquities of the North Wiltshire downs in a hundred square miles round Abury. Being a key to the large map of the above. Marlborough college Natural history society. SMITH, Alfred Charlesb (1887). The birds of Wiltshire. Comprising all the periodical and occasional visitants, as well as those which are indigenous to the county. London. TAIT, William C. (1924). The Birds of Portugal. F. F. & G. Witherby, Londres. THEMIDO, António Armando (1944). Sobre a suposta existência em Portugal da perdiz da Barbaria, "Alectoris barbara barbara" (Bonnaterre). Memórias e Estudos do Museu Zoológico da Universidade de Coimbra, 156: 1-4, est. I. Aves. Galliformes. THEMIDO, António Armando (1952). Aves de Portugal (Chaves para a sua determinação). Coimbra Editora, Limitada, Coimbra.

Parques e Vida Selvagem verão 2013• 51


52 ENTREVISTA

Direitos Reservados

Tratar as doenças das

plantas

Observação de nemátode no sistema de aquisição de imagens

f

A flavescência dourada da videira é originada por um fitoplasma veiculado por um inseto

f

Direitos Reservados

Bactérias, fungos, nemátodes: palavras umas mais familiares que outras, mas frequentes nos serviços da Divisão de Apoio ao Setor Agroalimentar, como explica a engenheira agrónoma Gisela Chicau — tudo para que as plantas não deitem a perder a sua saúde...

«

oença?», diz com ênfase a dona da mercearia, «Ò minha senhora, as plantas lá têm doenças!». O assunto caiu ali mesmo, inapelável. Tudo porque uma maçã com as manchas do pedrado, uma perturbação causada por um fungo, sugeriu a Gisela Chicau um esclarecimento numa ida à mercearia. Os sinais vistos na casca esverdeada tinham levantado dúvidas à cliente que a antecedeu. Mais do que contraditar a afirmação, confessa, «quis explicar a quem ia comprar que bastava cortar à volta com a faca e tratar de comer a maçã, sem qualquer problema». Ainda assim ficou a pensar: «Meu Deus! O nosso trabalho não é minimamente conhecido das pessoas...». Tínhamos chegado sem dificuldade à quinta de S. Gens, que fica mesmo em frente ao quartel do Exército na Estrada da Circunvalação que une a cidade do Porto à Senhora da Hora. A conversa desenrolavase sem tropeço, como quando se puxa uma cereja e depois saem outras tantas enredadas. De facto, «todos os seres vivos podem

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Mafalda Felgueiras

D

SO fungo Phaeomoniella chlamydospora causa a degenerescência da vinha

f

Cultura de fungos em laboratório

adoecer», salienta, e no caso «das espécies vegetais cultivadas há entre dez a cem doenças descritas, sendo o limite superior ultrapassado no caso de um grupo dentro do qual se contam as macieiras».

Maus da fita Os problemas de saúde das plantas decorrem geralmente de agentes patológicos como «vírus, bactérias, fungos e nemátodes, mas também podem derivar de fatores ambientais entre os quais se contam os nutrientes do solo, a quantidade de água

Placas cromotrópicas amarelas utilizadas para captura e monitorização do inseto vetor da flavescência dourada em vinhas

f


flavescência dourada da videira que é um fitoplasma, temos o fogo bacteriano nos pomares que é outra bactéria, entre outros».

Apoio científico O assunto puxa o fio à meada e dá pano para mangas. Como se processa todo este trabalho? Há várias modalidades: «Por vezes começa nos próprios agricultores quando reparam que há uma elevada incidência de algo que lhes foge ao entendimento». Repare-se que «o agricultor já tem alguma sensibilidade para a generalidade dos problemas mais frequentes». É normal recolherem amostras das plantas com problemas e tratam de as levar a este serviço de interesse público. De facto, quando entrámos no edifício algumas plantas aromáticas perfilavam-se para exame fitossanitário, concretamente limonete e tomilho. Outras vezes, «é necessário ir ao campo: as situações têm de ser avaliadas uma a uma para sabermos o que se passa realmente». Com método, tudo se esclarece: «Aqui fazemos despiste de fungos, nemátodes e identificamos algumas pragas. Fazemos o diagnóstico e a análise, indicando os meios de luta a adotar. Quando a análise exige o recurso a métodos de biologia molecular (como no caso dos vírus, fitoplasmas e bactérias, por exemplo), encaminhamos as amostras para os laboratórios do INIAV, em Lisboa».

Gisela Chicau: «A mais-valia do nosso trabalho consiste em esclarecer o que se passa com as plantas»

e luz, ou até a poluição», sublinha. Gisela Chicau trabalha na Divisão de Apoio ao Setor Agroalimentar da DRAPN, que engloba a proteção das culturas agrícolas, prospeções e inspeções fitossanitárias, Avisos Agrícolas, entre outras funções. Nem sempre para um leigo será fácil distinguir uma planta doente, desde que não esteja claramente a caminho de morrer: «Há doenças que se detetam à vista desarmada através da alteração da cor dos tecidos, por terem as folhas murchas ou por apresentarem necroses»,

ou seja, tecidos mortos. O assunto é importante e pode descambar em prejuízo económico na agricultura, pelo que «algumas doenças são até regulamentadas por normas europeias, concretamente quando se trata de organismos que na realidade nem deveriam ter entrado na Comunidade Europeia». Quando isso ocorre, «ficam sujeitos a regimes de contenção ou até de erradicação. Depois temos de implementar na região esse tipo de procedimento». Por exemplo, «neste momento temos a PSA, uma bactéria que ataca os kiwis, temos a

Procedimento Na prática, trata-se então de detetar um problema, esclarecer a origem e determinar uma solução, correto? «Em traços gerais sim. Podem ocorrer vários tipos de tratamento, mas normalmente passa pela aplicação de medidas preventivas – nas plantas os problemas podem aparecer porque ou regamos em demasia, ou adubamos em excesso ou aplicamos um qualquer produto também que não é adequado à cultura... há um leque de hipóteses muito alargado». Bem, é do conhecimento comum que o excesso de químicos pode contaminar até o solo… «Sim, mas as medidas são cada vez mais apertadas para prevenir esse problema. Os pesticidas são discriminados numa listagem

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54 ENTREVISTA

própria para cada cultura e para cada finalidade, bem como as doses que devem ser aplicadas e as condições de aplicação. Isso está regulamentado».

Taking care of Plants Bacteria, virus, fungus, nematodes: some of this words are more familiar than the others to the readers, but all of them are very common in the Services Division of Support to Agriculture and Nutrition, explains Gisela Chicau, Agronomist – just so the plants do not become infected.

Mais ou menos Será frequente as pessoas menos informadas pensarem que mais vale aplicar a mais do que a menos para a colheita não diminuir? «Notamos que as pessoas estão cada vez mais esclarecidas» e, «além disso, fazem-se análises a resíduos de pesticidas e, quem produz para o mercado aplicando-os de forma errada, num desses rastreios pode ser identificado», explica Gisela Chicau. «Hoje existe a possibilidade de saber quem produziu uma alface que está à venda num supermercado (rastreabilidade do produto). Periodicamente são efetuadas colheitas de amostras para análises de resíduos de pesticidas, pelo que aplicações incorretas são detetadas e penalizadas. É compreensível que quem aplica tem de ter formação para o que está a fazer», adianta. Por exemplo, «se for a uma cooperativa verá que há um balcão que se dedica apenas a isso, ao fornecimento de determinados produtos, para não haver misturas. O mercado tem sido cada vez mais disciplinado». Porém, ninguém se iluda, «apesar dos produtos estarem estudados, quanto menos químicos se aplicar melhor!». Está a referir-se a soluções de ordem biológica? «Sim, trata-se de um mercado que emerge e, em Portugal, é relativamente recente: isso exige um consumidor mais esclarecido, mais exigente, e que tenha também mais algum poder de compra». Assinala: «É um mercado que vai ser muito interessante! Temos contacto com produtores que já utilizam meios de luta biológica, tanto em estufa, como em ar livre, e obtêm bons resultados. Tem é de se saber trabalhar...». Elucida: «Não se pode fazer uma largada de auxiliares e, em seguida aplicar um inseticida. O modo de produção biológico exige conhecimento técnico neste domínio». Já há livros de autores portugueses nesta área «que dizem muito sobre estes aspetos». Exemplifica: «Nos vinhos verdes já temos quintas em modo de produção biológica. É um produto muito valorizado, sobretudo para exportação».

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TTomilho e limonete no início do processo de investigação


eOs laboratórios ajudam a perceber que «andar a tentar acertar no tratamento de uma cultura por tentativas não é um bom método»

Ai o vizinho

Avisos agrícolas As doenças e pragas são influenciadas ano após ano pelas condições meteorológicas (temperatura e chuva). Isto é, num ano o míldio da videira pode ser muito preocupante, noutro ano nem tanto. Os técnicos da Estação de Avisos Agrícolas de Entre Douro e Minho fazem observações de campo em diferentes culturas na região

e dispõem de um conjunto de estações meteorológicas automáticas, o que lhes permite indicar a época mais oportuna de realização dos tratamentos fitossanitários. Os "Avisos Agrícolas" são enviados gratuitamente via internet, ou através do correio mediante o pagamento de uma taxa.

Por vezes, há histórias caricatas. É o caso de quando surgem pessoas «que chegam até nós e pensam que o problema que lhes apareceu resulta de um vizinho que quis estragar as suas plantas. Na maior parte dos casos não se trata de nada disso», acentua Gisela Chicau. Em nome da boa vizinhança, «são situações frequentes que tratamos de esclarecer: quando as plantas têm um problema na raiz é frequente secarem de um dia para o outro». Nenhum indivíduo normalmente tem essa perceção: «Quando os problemas se desenvolvem no sistema radicular, como ele está debaixo da terra, não os vemos. A raiz vai sendo progressivamente tomada e fica apodrecida – a planta perde capacidade de absorver água e de se alimentar, e de um dia para o outro seca. Em pleno verão acontece muito!». E «quando se trata de flora ornamental, própria de jardins, há a tendência de pensar que alguém foi ali derramar qualquer coisa mal-intencionada...». Além de qualquer dúvida, seja em casos de verniz social seja dentro da tipologia das culturas agrícolas com impacto económico na região, a Divisão de Apoio ao Setor Agroalimentar, sob a égide do Ministério da Agricultura, está a servir o país e quem lê estas páginas, mesmo que se desse o caso de crer que as plantas estariam sempre de boa saúde. Texto Jorge Gomes Fotos João L. Teixeira

Divisão de Apoio ao Setor Agroalimentar Quinta de S. Gens Estrada Exterior da Circunvalação, 11846 4460-281 Senhora da Hora Telefone 229 574 010

Correio eletrónico geral@drapn.min-agricultura.pt www.drapn.min-agricultura.pt

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Catarina Serra Gonçalves

56 REPORTAGEM

Biological Reserve of the Trumpets River A giant green carpet dominates the northern portion of South America: the Amazon, the pinnacle of the tropical forests. Thousands of kilometers of Nature in its purest form: the refuge of the mighty Jaguar, the Harpy Eagle and the enigmatic Freshwater Turtles, were the main reasons for my visit and the central theme of this story.

Um gigantesco tapete verde domina a porção setentrional da América do Sul: trata-se da Amazónia, o supra-sumo das florestas tropicais. São milhares de quilómetros de natureza no seu estado mais puro, refúgio do poderoso jaguar, da águia hárpia e de enigmáticas tartarugas de água doce, razão da minha visita, e tema central desta história

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Ricardo Rocha Ricardo Rocha

SCapivara, Hydrochoerus hydrochaeris

SArara-canindé, Ara ararauna

Reserva Biológica do Rio Trombetas aventura começou com uma longa viagem de avião. Seguiuse outra, desta vez mais curta. Mudaram-se as malas para um barco e serpenteamos pelo imponente Amazonas. Somos regados por chuvas torrenciais, sacudidos pelo vento até que, dois dias depois e debaixo de um implacável calor equatorial, alcançamos o nosso destino no coração da Amazónia brasileira. Esta é a Reserva Biológica do Rio Trombetas, lar de algumas das mais importantes populações de tartarugas de rio do continente sul-americano. No primeiro dia tudo era novidade. Apesar do cansaço, todo e qualquer movimento suscitava curiosidade, aguçando-nos os sentidos. A ânsia de descobrir os primeiros animais era muita, afinal de contas, a reserva, com uma área quatro vezes e meia superior ao nosso Parque Nacional do Gerês, abriga uma fatia considerável das mais populares espécies amazónicas. Algumas destas não se tardaram a revelar, as anhingas, aves

primitivas semelhantes aos nossos corvosmarinhos, deixavam-se avistar facilmente enquanto pescavam junto à margem, e por vezes mantendo-se em cima de um tronco de asas abertas a secar as suas penas. O seu nome, “anhinga”, tem origem no Tupi (língua nativa) e significa ave-cobra. Quando a vemos a nadar apenas com o seu longo

A

Ricardo Rocha

TAnhinga, Anhinga anhinga: o nome tem origem numa língua nativa e significa ave-cobra

pescoço baloiçando fora de água facilmente percebemos o porquê de tão exótica denominação. As conspícuas ciganas Opisthocomus hoazin também não passam despercebidas enquanto saltitam de árvore em árvore junto à margem. Partilham com as anhingas o ar préhistórico, parecendo resultar de uma exótica mistura entre um faisão e uma galinha, de faces azuis e uma grande crista avermelhada. Têm baixas habilidades de voo e as suas crias possuem um par de garras funcionais que apenas desaparecem quando chegam à maturidade permitindo que, em caso de queda do ninho, consigam facilmente trepar de regresso à segurança – os predadores que patrulham as águas fazem com que o leito do rio não seja um lugar amistoso para pequenas aves indefesas. Desfeitas as mochilas está na hora de organizar os trabalhos de campo. Os próximos meses serão passados na companhia da equipa do projeto "Tartarugas da Amazónia: Conservando

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58 • Parques e Vida Selvagem verão 2013

SIaçá, Podocnemis sextuberculata

motor abafava o chilrear dos pássaros que saltitavam nos arbustos junto à margem. À medida que éramos impelidas rio fora ganhávamos uma visão panorâmica da floresta. Víamos verde, muito verde, apenas rasgado pelo azul das águas do rio Trombetas que, conjugado com o amarelo da areia depositada nas suas margens e com o vermelho do céu matinal se combinava numa paleta de cores digna do mais requintado dos artistas. O rio é o lar das tartarugas mas estas estão longe de constituir os seus únicos habitantes. Lontras, ariranhas, capivaras, golfinhos, manatins (aqui conhecidos como “peixesTJacaré-de-lunetas, Caiman crocodilus

Ricardo Rocha

para o futuro". O projeto, desenvolvido pela Associação de Icitiólogos e Herpetólogos da Amazónia (AIHA) em conjunto com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia (INPA) e em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão que administra a reserva, combina investigação sobre a história natural das espécies com sensibilização das populações locais para a problemática do comércio ilegal de ovos e carne de tartaruga, uma das principais ameaças à conservação destes répteis ancestrais. São diversas as espécies de tartarugas que podem ser ali encontradas. A estrela da reserva é a maior, a tartaruga-da-amazónia Podocnemis expansa. Trata-se da maior tartaruga de água doce da América do Sul, chegando a pesar 90 kg. Entre as tartarugas de água doce há uma particularidade interessante: é das poucas espécies em que a desova ocorre em grupo. Todos os anos, centenas de tartarugas-fêmea emergem do rio para depositar os seus ovos nas praias ao longo do rio Trombetas, uma espécie de arribada, mais característica das praias da América Central do que das margens de um rio. Mas não será com esta espécie que irei trabalhar. As “minhas” tartarugas são as tracajá Podocnemis unifilis e as pitiú P. sexturbeculata - parentes próximas das tartarugas-da-amazónia que, apesar das suas dimensões mais modestas, são igualmente apreciadas na gastronomia local. A caça destes animais não é um fenómeno recente - já os índios utilizavam tartarugas na sua alimentação. Contudo, após a chegada dos europeus o consumo excessivo de ovos e adultos de ambas as espécies levou a uma redução drástica dos seus números, elevando-as atualmente à categoria de vulneráveis no que toca à sua extinção. Trabalhar com tartarugas de água-doce na Amazónia implica acordar cedo, muito cedo. Todos os dias despertávamos antes das seis da manhã, tomávamos um rápido “café-damanhã” e somente quando chegávamos ao pequeno cais em frente à estação o sol começava timidamente a dar sinais da sua graça, pintando o horizonte numa gradação de vermelho torrado. Na reserva não existem estradas, as viagens fazem-se de lancha (“voadeira” como por lá eram apelidadas) e assim que começávamos viagem o som do

Ana Romero

58 REPORTAGEM

boi”), anacondas e jacarés também se banham por estas águas. Destes os únicos que vislumbramos com frequência são as duas espécies de golfinho, o tucuxi Sotalia fluviatilis e o boto-rosa Inia geoffrensis, que não rara vez nos brindam com os seus saltos e os jacarés, tanto o jacaré-de-lunetas Caiman crocodilus como jacaré-açu Melanosuchus niger, o maior crocodiliano da América do Sul que, sendo capaz de chegar aos cinco metros e meio de comprimento, é senhor incontestável destas águas. A todos estes juntam-se centenas de espécies de peixe, largas dezenas de aves aquáticas e anfíbios e eis que temos uma das mais ricas e complexas faunas fluviais do planeta. Para trabalhar para a conservação das tartarugas temos de trabalhar com as populações locais. Aqui os locais são os Quilombolas, descendentes de escravos que terão fugido das antigas plantações de açúcar e encontrado refúgio em quilombos à beira-rio. São pessoas simples, acolhedoras, de conversa fácil e de sorriso rasgado. Trabalhamos em nove praias. Todas as praias têm uma família, todas as famílias têm crianças, todas as crianças ajudam no


Rafael Bernhard

Catarina Serra Gonçalves Ana Romero

STracajá, Podocnemis unifilis

SIaçá, Podocnemis sextuberculata

trabalho com as tartarugas – assim se forma a próxima geração de conservacionistas amazónicos! Ajudam-nos a encontrar os ninhos, a contar os ovos e as crias, a pesar e a fazer medições – são verdadeiros cidadãoscientistas, guardiões de praias e protetores das tartarugas. Sem eles tamanha tarefa nunca seria possível, apenas com a sua colaboração é possível realizar investigação em tão larga escala.

Numa das praias que visitamos diariamente vivem o senhor Manuel e a dona Margarida. Os seus filhos já se mudaram para a cidade faz muito, mas o casal por cá permaneceu. “Gosto é de estar entre a natureza”, diznos o senhor Manuel enquanto bebemos um (doce) café preparado pela sua esposa. Acrescenta: “Aqui estamos muito melhor, temos os nossos bichinhos, a nossa casinha, isto é uma maravilha!”. Foram dos primeiros

STracajá, Podocnemis unifilis

a colaborar no projeto… pelas suas mãos já terão passado milhares de pequenos tracajás e pitiús, partilham de um amor imenso pelas tartarugas refletido todas as manhãs na alegria com que nos recebem. Os pais e avós que coordenam o trabalho das famílias nas praias estão bem cientes que as tartarugas estão a desaparecer dos rios. “Contam os antigos que na época seca os barcos não conseguiam subir o rio por bater em tanta tartaruga”, conta Manuel dos Santos (Socó como é conhecido pelos seus), adicionando: “Se não as conservarmos acabarão… não passarão de uma lenda para os nossos netos, uma lenda como tantas outras que existem por essa Amazónia fora”. Felizmente Socó, o senhor Manuel, a dona Margarida, todos os outros Quilombolas e as várias entidades envolvidas no projeto viram o seu trabalho árduo e dedicação recompensados. Em 2012 o Trombetas ganhou 50 mil filhotes de tartarugas… e eu, eu ganhei a experiência de uma vida. Texto Catarina Serra Gonçalves e Ricardo Rocha

TCardeal-da-amazónia, Paroaria gularis

Reserva Biológica do Rio Trombetas Praça da Feirinha s/n.º Porto Trombetas Oriximiná CEP 68 275-000 Brasil

www.icmbio.gov.br

Ricardo Rocha

(0055)+(93)+3549-7698/7377

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60 BLOCO DE NOTAS

Avifauna do Estuário do Cávado Muitos se interrogarão sobre o significado do estatuto fenológico das aves, mas quem não sabe que as andorinhas chegam na primavera para se reproduzirem, os melros estão entre nós todo o ano, os bandos de patos povoam as nossas zonas húmidas durante o inverno e os pintassilgos passam em migração pelo Litoral Norte no outono? fetivamente, a fenologia trata de um aspeto da vida das plantas e dos animais a que todos estamos acostumados, em particular se nos referirmos às aves e à época do ano em que habitualmente ocorrem na nossa região. Porém, para lá deste saber mais ou menos proverbial, desde cedo os principiantes em observação de aves selvagens sentem necessidade em desenvolver este tema, até porque disso depende o seu êxito na localização e identificação das diferentes espécies. Aprendem, assim, a chamar de estivais ou nidificantes às andorinhas-das-chaminés (Hirundo rustica) e às que as sucedem nos seus esforços reprodutores, como as poupas (Upupa epops) ou as alvéolas-amarelas (Motacilla flava). Também descobrem que algumas só procuram abrigo no nosso país enquanto invernantes, ou seja, nos meses frios, tais como as marrequinhas (Anas crecca), os abibes (Vanellus vanellus) ou as petinhas-dosprados (Anthus pratensis). Neste vaivém constante, outras há que pouco se demoram. São as migradoras de passagem que embora possam ser detetadas em trânsito em quase todos os meses do ano, se avistam sobretudo em abril e maio a caminho do Norte para criarem a descendência, como as seixoeiras (Calidris canutus) ou os fuselos (Limosa lapponica),

E

e desde agosto ou setembro de regresso a África, como os chascos-cinzentos (Oenanthe oenanthe) ou os papa-moscas-pretos (Ficedula hypoleuca). Se não considerarmos as tão ansiadas espécies ocasionais, raras ou acidentais, restam, por fim, as residentes, das quais se destacam pela abundância ou maior visibilidade as fuinhas-dos-juncos (Cisticola juncidis) ou os cartaxos-comuns (Saxicola rubicola). Outras espécies, porém, estão representadas no nosso território por mais do que um tipo de população. Exemplo disto são as águiaspesqueiras (Pandion haliaetus). Algumas ocorrem como invernantes e outras apenas passam em migração. Assim, desde que em finais do século passado morreu um dos membros do último casal nidificante em Portugal, por regra apenas são observadas entre setembro e abril. Mas em janeiro de 2012 juntaram-se duas invernantes no estuário do Cávado, uma delas ostentando no tarso esquerdo uma anilha de cor preta com a inscrição «3SP». A partir de então foram aqui vistas quase diariamente a capturarem tainhas e grandes solhas e faziam-no a tal ritmo que pareciam estar a acumular energias para uma longa viagem. Nada disto provocaria espanto se, como seria esperado, tivessem debandado no desencadear dos primeiros eventos fenológicos associados ao período reprodutor. As crias dos borrelhos-de-coleiraSEsta águia-pesqueira apanhou uma tainha

60 • Parques e Vida Selvagem verão 2013


Alberto Calheiros

SPerspetiva da águia-pesqueira a caçar

interrompida (Charadrius alexandrinus) começavam a eclodir, todos os grandes bandos de maçaricos-galegos (Numenius phaeopus) já tinham passado para as núpcias e ambas as rapinas teimavam em continuar por cá em pleno mês de maio. Houve até quem sugerisse tê-las visto em rituais de cortejamento. Estaríamos prestes a testemunhar o regresso da águia-pesqueira como nidificante? Facilmente se pode confirmar neste estuário ao longo de um ciclo anual que alguns indivíduos de outras aves também invernantes e migradoras, como os pilritos-comuns (Calidris alpina) ou os borrelhos-grandes-decoleira (Charadrius hiaticula), se detêm pela nossa faixa costeira quando já “deveriam” estar no Norte a acasalar.

É sabido, no entanto, que se trata de imaturos não aptos para a reprodução e que, por tal, não encetam aquela viagem ou apenas a cumprem parcialmente. E a chegada dos dados da anilha «3SP» enquadrava aquele indivíduo nesta explicação. Era, de facto, um juvenil anilhado no ninho em junho de 2011 no Nordeste da Alemanha. Entretanto sem par, continuou pelo Cávado, foi-se cruzando com outras congéneres mais fugazes, voltou a partilhar estas águas com a mesma companheira na época seguinte e, enfim, sem descendência, acabou por partir na primavera de 2013. Esperemos que até breve! Por Jorge Araújo da Silva www.verdes-ecos.blogspot.com

SÁguia-pesqueira: captura de uma solha

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62 MIGRAÇÕES

Petromyzon marinus (Linnaeus, 1758)

Lampreia-marinha A lampreia-marinha (nome científico: Petromyzon marinus Linnaeus, 1758) é uma espécie migradora dita “anádroma”, isto é, nasce no rio, vive durante a fase adulta no mar e volta ao rio para se reproduzir: está presente no Atlântico Norte e na parte Ocidental do mar Mediterrâneo enquanto adulta

s lampreias nascem nas águas límpidas e rápidas dos rios europeus e da América do Norte. Os ovos são muito sensíveis à poluição e servem de alimento a várias espécies aquáticas. Estes ovos darão origem às larvas, que se denominam por “amocetes”. Por serem tão diferentes ao longo da vida, no passado os amocetes e as lampreias eram considerados espécies distintas! É que os amocetes vivem enterrados no fundo dos rios durante cerca de quatro anos e não têm olhos, nem dentes e alimentam-se de seres microscópicos. Posteriormente, com cerca de 15 cm de comprimento, é que sofrem uma metamorfose e já conseguem ver e nadar melhor. Além disso, durante esta transformação física, as “novas” lampreias desenvolvem um “disco oral”, com várias filas de dentes. Com este disco, as lampreias começam a alimentar-se por parasitismo, fixando-se a peixes, dos quais sugam sangue para retirar os nutrientes. Nesta fase, as lampreias também já estão prontas para viver em zonas com mais salinidade, tais como os estuários ou o mar. A alimentação por parasitismo continua assim durante a fase adulta propriamente dita, já em alto mar, por um ano ou mais! Há diversas espécies que são hospedeiras de lampreias, tais como os sáveis, salmões, e até tubarões ou mamíferos marinhos como baleias!

A

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A viagem das lampreias durante a vida adulta depende da viagem dos seus hospedeiros, no entanto alguns estudos científicos sugerem que as populações de lampreias estarão delimitadas dentro de “grandes bacias oceânicas”. Após a fase marinha, as lampreias adultas com cerca de um metro de comprimento, conseguem detetar os rios saudáveis onde já crescem amocetes em grande abundância. É nesses rios que elas preferem realizar a migração reprodutora, podendo não ser exatamente os mesmos rios onde elas próprias nasceram. Nesta fase, as lampreias já não se alimentam e apenas consomem as reservas energéticas acumuladas durante a fase marinha. A migração normalmente ocorre entre finais de dezembro e maio, mas depende de várias condições, tais como a temperatura da água ou o caudal dos rios.

No nosso país, ocorre com maior frequência entre finais de fevereiro e meados de abril. É de salientar que o acesso às zonas de postura está muitas vezes limitado pela existência de barragens e outros obstáculos! É por esta altura que as lampreias são capturadas pelos pescadores nos rios portugueses, por serem tão apreciadas gastronomicamente. Para isso, são utilizadas várias artes de pesca, tais como as redes verticais (por exemplo, os tresmalhos ou lampreeiras) ou armadilhas (por exemplo, os botirões). Por estas razões, o seu estatuto de conservação é de Vulnerável em Portugal. As lampreias que conseguem superar com êxito todas as dificuldades para alcançar as zonas de postura têm aí um comportamento bastante interessante. Fixam e arrastam seixos com o disco oral, formando autênticos “ninhos” com cerca de um metro e meio de diâmetro no leito dos rios. Daqui vem o nome em latim “Petromyzon”, ou seja, sugadora (“myzon”) de pedras (“petro”). É o macho que inicia a formação do ninho, sendo depois acompanhado pela fêmea, com a qual realiza várias vezes a cópula, enrolando-se à volta dela e fecundando os ovos. O macho e a fêmea investem muito na reprodução e acabam por morrer para garantir a preservação da sua espécie! Texto Mário Jorge Araújo/CIIMAR


Fase larvar e metamorfose + fase reprodutora

Fase larvar e metamorfose + fase reprodutora Fase adulta parasitária

Migração reprodutora do mar para o rio Migração do rio para o mar

Curiosidades “Lampreia, a invasora” f Apesar de não ser nativa nos Grandes Lagos, a lampreiamarinha está presente nestas grandes massas de água do continente norte-americano. Nessa região, as lampreias passam toda a vida em água doce.

as distinguem evolutivamente dos peixes comuns, e por isso diz-se que são autênticos fósseis vivos! Ao contrário dos peixes “verdadeiros”, as lampreias possuem uma boca sem mandíbula, não possuem escamas nem barbatanas pares e têm sete pares de orifícios branquiais em vez de um par.

“A lampreia, um peixe que não é bem um peixe”

“Histórias…”

f Apesar de também ser um vertebrado aquático, as lampreias possuem características que

f Plínio no seu livro Naturalis Historia IX contava que um antigo imperador de Roma torturava até

à morte os escravos em lagos com lampreias. Esta era uma história fantasiosa que explorava o lado desconhecido e o aspeto estranho das lampreias, mas era tão exagerada que nem os seus contemporâneos acreditavam nela…

“Consumo da lampreia e outras histórias” f Desde o tempo dos romanos que se consomem lampreias marinhas. Por ser um alimento de difícil digestão e fortemente

apreciado nas cortes reais, a morte do rei Henrique I de Inglaterra foi atribuída ao exagerado consumo de estufado de lampreia. Talvez por essa razão se tenha perdido o hábito do consumo de lampreia-marinha no Norte da Europa...

Alguma bibliografia utilizada: «Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal», edição ICNB. «Lampreys Life without Jaws», Forrest Text, Reino Unido.

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64 RETRATOS NATURAIS

Vamos desenhar...

(macro)algas

Microalga (Dunaliella sp.)

Macroalga (Undaria pinnafitida)

Desenhar plantas, como já vimos, é poder traduzir em linha e cor todos os seres fotossintetizantes (autotróficos), independentemente da sua dimensão (visível, ou não, a olho nu), ou meio em que vivem (terrestres, ou aquáticas, dulciaquícolas/marinhas)

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m termos de evolução, dita o conhecimento atual que os primeiros ensaios e “esboços” das plantas começaram a desenhar-se sob a redoma protetora da água, na forma multi-expressiva que hoje denominamos como algas. Parece pois justo dedicar um dos capítulos desta rubrica à ilustração destes seres e à luz dos cânones da ciência e da sua objetiva figuração — a ilustração ficológica, um dos vários subdomínios da ilustração científica. As macroalgas fascinam o Homem desde tempos imemoriais, graças em muito à forma como ondulam ao sabor das correntes e marés, numa dança hipnótica e ritmada. Por outro lado, os arranjos das suas frondes e talos depositadas num fundo homogéneo de areias amarelo-esbranquiçadas, assim dispostas ao acaso pelas ondas que as humedecem e lhes dão brilho anímico, criam o necessário enlevo bucólico capaz de evocar um quadro sem

E

moldura. Fluem assim cadências de design, de que o Homem desde cedo se procurou apropriar levando-as consigo e incutindo-lhes o seu próprio e egoístico conceito de ordem e/ou estética — primeiro colhendo sistematicamente as que são diferentes na cor, na forma e na arquitetura orgânica, criando os seus algários de algas secas e prensadas em papel, e também acabando por as perpetuar através da ilustração, gravura e/ou pintura. Olhando para aquilo que obras seculares nos mostram, as algas só começaram a ser vistas, através do objetivo prisma de enfoque científico e como modelo diferente do adorno ilustrado, em finais do século XIX, principalmente. Por esta altura a obra impressa era dominada essencialmente pela florescente e mais produtiva estampagem litográfica de sempre, como se comprova pela edição de várias e maravilhosas obras, um pouco por toda a Europa (França, Suíça, Alemanha, Holanda, Dinamarca, Portugal).


4

Nelas, as algas e as macroalgas, em particular, acabam por explodir num boom gráfico nunca antes visto, com obras a elas dedicadas, em exclusivo, ou então mistas e intercaladas entre outras espécies de plantas terrestres e com elas competindo visualmente. É então que começam a ser instituídas — e paulatinamente a ser aceites pela comunidade científica (até porque muitos dos ficologistas acumulavam em si a responsabilidade da sua figuração nas obras que editavam e eram o corolário de uma vida dedicada ao seu estudo, como aconteceu com o eminente William Henry Harvey, autor da renomada “Phycologia Britannica”, publicada em cinco volumes profusamente ilustrados, entre 1846 e 1851) — as regras e convenções que hoje delimitam esta categoria da ilustração botânica e as pranchas ficológicas. Curiosamente e apesar de o domínio da ilustração ficológica ter mais de 250 anos, gera alguma incredibilidade o constatarse que praticamente nenhuma das obras especializadas e publicadas mundialmente nos últimos 70 anos sobre ilustração científica, ou mesmo sobre ilustração biológica, lhe devotou a necessária atenção. Essa lacuna foi recentemente preenchida pela obra “Macroalgas marinhas da costa portuguesa — biodiversidade, ecologia e utilizações” (Leonel Pereira & Fernando Correia; em publicação e Prémio do Mar Rei D. Carlos, da edição de 2013). Sendo as macroalgas formas vegetais com relativamente baixa complexidade anatómica externa, é certo que para se criar uma estampa ficológica será preciso ter em conta que poderá existir variabilidade entre formas reprodutoras

Chondrus crispus (Filo Rhodophyta, Ordem Gigartinales)

A

B 5

6

3 7

1

Anatomia externa de macroalgas de talo ereto A - Palmaria palmaria B - Laminaria ochroleuca 1. Disco de fixação 2. Rizóides 3. Proliferações

e não-reprodutoras de uma mesma espécie e/ ou entre espécies de grupos diferentes (tipo de talos, maciços ou não, tipo de ramificação, com ou sem estipe, etc.); poderá ter que se desenhar um habitat (pelo menos o substrato de fixação – se por meio de ápteros, disco de fixação, epífitas ou não, etc.); por vezes, como auxiliar identificativo, é também necessário desenhar detalhes diagnosticantes ampliados, geralmente das estruturas/células reprodutoras (oogónios e anterídeos contidos nos concetáculos; esporófitos/esporângios; gametófitos/gametângio, cistocarpos, etc.) e/ ou das paredes celulares (tipo de células do córtex, presença/ausência de mucilagem no talo, filamentos, etc.) observadas à lupa, ou em cortes e ao microscópio ótico composto. Regra geral, a ilustração científica de uma macroalga começa sempre com um desenho preliminar a grafite (obtenção do contorno/ silhueta e pormenores morfológicos mais significativos, respeitando a escala métrica), a partir da observação direta de um exemplar da espécie em causa, fresco ou então seco e conservado em algário (que pode ser conveniente re-hidratar em água do mar, por forma a ter uma percepção volumétrica mais próxima de como seria in vivo). Nesta fase de ensaios gráficos deve-se decidir qual o tipo de visualização a imprimir ao talo/hábito da macroalga — ou mais estático e próximo de modelo conservado em algário, ou então mais “dinâmico”, natural e ondulante, como se estivesse a acompanhar as ritmadas correntes marinhas, que esbracejam as suas ramificações, frondes ou lâminas. De seguida

2

4. Ápices 5. Lâminas 6. Axilas 7. Estipe

devem ser pormenorizados os detalhes anatómicos: como terminam as frondes, qual a sucessão e ritmo de divisão das ramificações e/ ou divertículos, como são as nervuras (de onde partem, sua espessura, cor e onde terminam), ou a espessura do talo (nas suas várias partes, como estipe, frondes, lâminas, etc.), ou os aerocistos, ou as estruturas reprodutoras (posição, forma, textura e densidade), etc. Só depois devem ser feitos os primeiros estudos de volumetria/textura/ornamentação/ transparência, recorrendo à dicotomia contrastante entre as áreas iluminadas e as ensombradas (umbra, ou sombra; penumbra — geralmente utilizando lápis de grafite, em traços, ou mancha), bem como de tintagem (ou com tinta-da-china, ou com a cor do risco dos lápis, ou das pinceladas de aguarela, guache ou acrílicos, ou ainda através das técnicas de pintura digital). Convém ter sempre em mente que este tipo de ilustração não é de pendor artístico e tem como objetivo que quem aprecie essa ilustração científica consiga aferir informações pertinentes sobre a espécie em causa, como auxiliar visual comparativo capaz de futuramente agilizar a diagnose e identificação das algas, encontradas num qualquer passeio à beira-mar.

Texto e ilustrações

Fernando Correia Biólogo e ilustrador científico Dep. Biologia, Universidade de Aveiro fjorgescorreia@sapo.pt www.efecorreia-artstudio.com

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Madalena Madeira

66 PESQUISA

S Lagoa dos Cântaros

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Ainda há

sapos

no topo da serra as esta história já havia começado há um tempo atrás. Estávamos no verão de 2009 e Ibone Anza, estagiária no CERVAS, fazia uma caminhada por entre os trilhos que desbravam a serra. Já ao aproximar-se da lagoa do Covão das Quelhas deparou com o mais devastador dos cenários… a manchar a deslumbrante paisagem glaciar, dezenas de pequenos sapos mortos polvilhavam as águas e margens da lago, em pleno coração do Parque Natural da Serra da Estrela. O alerta foi dado de imediato ao investigador espanhol Jaime Bosch do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid, com vasta experiência neste tipo de casos. As análises

M

Gonçalo M. Rosa

Ao passear pela serra da Estrela no cair da noite, um estranho silêncio é notório… os típicos “assobios” que melodiosamente enchiam os nossos ouvidos deixaram de se escutar… inconfundíveis coros do sapo-parteirocomum (Alytes osbtetricans) durante a reprodução já não dominam a banda sonora que se fazia sentir nos meses de primavera

aos cadáveres revelaram uma infeção causada por um fungo, tornando-se este o principal suspeito de tal mortalidade. A quitridiomicose é uma doença provocada por um fungo microscópico, Batrachochytrium dendrobatidis, sendo reconhecida, na atualidade, como uma das mais preocupantes ameaças globais ao frágil grupo dos anfíbios. O fungo, que se pensa ter tido origem na África do Sul, ter-se-á posteriormente espalhado pelo resto mundo com a “ajuda” do Homem. Segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), este tem o potencial de causar declínios populacionais massivos numa questão de semanas, tendo conduzido já a extinções, não só de populações mas mesmo de espécies, com


SLarva de sapo-parteiro-comum

Gonçalo M. Rosa

TSapo-parteiro-comum morto na água

T S Indivíduo adulto de sapo-parteiro-comum

o primeiro caso de infeção na Europa a ser registado em 1997 na serra de Guadarrama, em Espanha. De acordo com registos e relatórios relativos à década de 90, o sapo-parteiro-comum era uma das espécies de anfíbios mais abundantes na serra da Estrela! Em certos pontos de água na zona do Planalto Superior da serra era possível contar milhares de girinos de grandes dimensões! Nos dois anos que se seguiram, iniciouse então uma monitorização em riachos, tanques, lagoas e represas da serra, onde se sabia ter ocorrido sapo-parteiro. O objetivo era perceber a distribuição do fungo na zona e qual o impacto que teria este tido nas populações de sapo-parteiro, olhando para a

atual distribuição e abundância da espécie. Os resultados deste estudo recentemente publicado na revista «Animal Conservation» apontam para um cenário bastante preocupante: hoje em dia os números de girinos encontrados não vão além de uma ou duas dezenas, para os poucos lugares onde ainda é possível encontrá-los. Em poucos anos desapareceram da maioria dos pontos onde habitavam (quase 70%), e o quitrídio terá tido um maior impacto na população dos sapos-parteiros acima dos 1200 metros de altitude. Este fungo aquático, que se fixa na boca dos girinos e na pele dos pequenos sapos metamorfoseados, têm uma predileção por temperaturas mais baixas, tirando partido dos verões amenos tendencialmente mais longos da serra. Daí se explica também o seu maior impacto a maiores altitudes. Este é considerado o primeiro caso de declínio de uma espécie de anfíbios em Portugal mediado por uma doença. Em poucos anos, o sapo-parteiro-comum criou um vazio no maior “hotspot” de biodiversidade do país, deixando um silêncio pairar durante a época de acasalamento, altura em que machos e fêmeas faziam as suas “cantorias”. O Alytes obstetricans é um sapo bem conhecido pelos cuidados parentais dos machos que transportam os ovos às costas até à sua eclosão (daí o seu nome comum). É nesta altura que se aproximam de um ponto de água para libertar os girinos. Quando por

fim completam a metamorfose, os pequenos sapos saem da água e passam a ter uma vida totalmente terrestre, procurando abrigo debaixo de pedras e troncos. Os anfíbios desempenham um papel essencial no ecossistema, situando-se no meio da cadeia alimentar. Milhares de girinos invernantes, “grandes e gordos”, numa lagoa representam uma parte considerável da biomassa e são um recurso nutricional para um elevado número de espécies, desde invertebrados a serpentes e aves. Estes novos dados colocam as populações de anfíbios de altitude, em particular o sapoparteiro-comum, em estado crítico. Dada a semelhança deste caso com o cenário na serra de Guadarrama, prevê-se que nas zonas mais altas da Estrela a população possa sofrer uma redução ainda maior. Um acompanhamento contínuo no local bem como análises de viabilidade populacional são essenciais. Mais amplamente, o risco que a quitridiomicose manifesta nas comunidades de anfíbios em toda a Península Ibérica representa um desafio crucial para os gestores da vida selvagem e levanta uma necessidade urgente de otimização das estratégias de conservação, que poderá passar por uma componente de reprodução em cativeiro e protocolos de tratamento para indivíduos infetados. Por Gonçalo M. Rosa – CBA-UL, DICE-UK

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68 EXÓTICOS

Rã-de-unhas-africana

fungo cítrico “Está uma rã amarela na ribeira, já viste?”, comenta a técnica do CEARGaia. “Não será uma rã-verde mais amarelada?” ma pesquisa visual pela ribeira do Espírito Santo (Miramar, Vila Nova de Gaia) não deu resultados. Para além das habituais rãverde (Pelophylax perezi), só tinham sido identificados no local o tritão-de-ventrelaranja (Lissotriton boscai) e a salamandra-depintas-amarelas (Salamandra salamandra). Alguns dias passados e surge uma família na exposição “Fauna e Flora das Ribeiras de Gaia” interessada em saber se existia alguma rã amarela na nossa anfibiofauna, pois tinham acabado de observar uma lá fora na ribeira. Analisada a foto, compreende-se a urgência em capturar aquela rã amarela, uma espécie exótica, ou seja, não nativa do nosso país. Galochas nos pés e camaroeiro na mão, a rã de coloração amarela clara e olhos vermelhos confirmou ser um adulto albino com 10 cm de Xenopus laevis, a rã-de-unhas-africana. Com honras de selo na Tanzânia e Ilhas Comores, e tendo sido o primeiro animal a ser clonado, esta é uma rã originária da África subsariana facilmente identificável. Se não fosse albina apresentaria cor castanha ou olivácea com pequenas manchas. Não possui pálpebras, língua, dentes ou ouvido externo, captando as vibrações pela linha lateral, tal como os peixes. O corpo achatado dorsoventralmente adquire uma forma hidrodinâmica ajudando-a a ser uma boa nadadora, visto ser uma rã aquática. Tem garras negras em três dedos das patas traseiras para ajudar a despedaçar

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João L. Teixeira

U

o alimento e uma boca larga que atesta a sua voracidade, alimentando-se de insetos, moluscos, lagostins, peixes e anfíbios. Atingem os 13 cm, sendo as fêmeas maiores que os machos. Devido ao exaustivo estudo e conhecimento da sua biologia é largamente utilizada como modelo em estudos científicos e também para testes de gravidez em humanos (anos 40 e 50), o que explica a sua exportação, dispersão pelo mundo e existência de populações não controladas iniciadas por indivíduos que escaparam de laboratórios. Atualmente, encontra-se dispersa como espécie exótica invasora em França, Sicília, Reino Unido, Alemanha, Holanda, Israel, Chile, México, EUA, Venezuela, Brasil e Indonésia. A introdução desta espécie na natureza representa uma ameaça à conservação dos anfíbios nativos, não só através da competição e da predação mas também por ser um vetor do fungo cítrico (Batrachochytrium dendrobatidis) que provoca

ameaça à a quitridiomicose, fatal para os anfíbios e ao qual esta espécie é imune. Por estes motivos, qualquer indivíduo desta espécie encontrado na natureza deverá ser capturado, mantido em cativeiro e a ocorrência comunicada ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. Em Portugal foram já localizadas populações invasoras, em duas ribeiras no concelho de Oeiras, cujo plano de erradicação e deteção de quitridiomicose foi posto em prática pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) desde 2010. Indivíduos albinos desta espécie podem ser encontrados à venda em lojas de aquariofilia, por um módico preço, sem que haja informação de base e teste prévio ao fungo


Ana Jervis Cunha

SXenopus laevis em quarentena no CEARGaia (17.jun.2009)

anfibiofauna portuguesa da parte do vendedor. O facto de só serem vendidos albinos justifica-se para em caso de fuga para a natureza, aumentar a possibilidade de controlo natural da rã por predadores devido à ausência de camuflagem e também pelo interesse acrescido do público por animais coloridos fora do comum. Infelizmente, sabemos que muitos animais comprados em lojas, à semelhança do que se passa com as tartarugas aquáticas, acabam por ser libertados ou por fugir para a natureza, provocando grandes impactes nos nossos ecossistemas. É preferível encaminhar estes animais exóticos para uma instituição competente, como o Parque Biológico de Gaia, do que abandonálos na natureza. Como exemplo, à custa desta

atitude está em curso o programa LIFE Cágados, numa parceria do Parque Biológico, CIBIO-UP e RIAS, entre outras instituições, com o objetivo de capturar os cágados exóticos das nossas águas e reproduzir e reintroduzir as duas espécies de cágados autóctones. O investigador da FCUL, Gonçalo Rosa, fez o teste de despistagem de fungo cítrico à rãde-unhas-africana capturada em Gaia, bem como a três outras, provenientes de cativeiro e entregues pelo proprietário no Parque, tendo os resultados sido negativos. No entanto, chama-se a atenção do leitor para a importância de colaborar na prevenção da disseminação de doenças, evitando qualquer contacto de animais exóticos e do

material associado (aquários, redes, água, etc.) com os anfíbios nativos ou com os seus habitats. Recomenda-se também a todas as pessoas que visitam habitats de água doce que desinfetem (lixívia/álcool/calor) as mãos e todo o material que tenha tido contacto com a água ou com anfíbios, quer entre diferentes locais quer no final de cada visita. Texto Ana Jervis Cunha (1) e Jael Palhas (2) (1)

Curadora de aquários da Estação Litoral da Aguda (ELA) na exposição Fauna e Flora das Ribeiras de Gaia no CEARGaia e monitora de Educação Ambiental na ELA.

(2)

Investigador do CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto.

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70 EXÓTICOS

Caranguejo-verde-europeu

quando são de cá as espécies invasoras que estão lá A colonização de novos ecossistemas por espécies invasoras é um processo que pode ocorrer naturalmente, contudo tem aumentado de intensidade nos últimos anos com o auxílio do Homem esde há muitos anos que ocorre a introdução intencional de espécies exóticas, seja por motivos estéticos, recreativos, ou no sentido de potenciar a economia local. No entanto, há introduções que são consequência do comércio internacional de organismos vivos e do tráfego internacional de navios, que descarregam as “águas de lastro” em países afastados da sua origem. As espécies aquáticas acabam por ser aquelas que têm uma maior capacidade de dispersão e de uma forma pouco visível. Quando estas espécies se multiplicam para além da nossa capacidade de controlo, estamos perante uma invasão biológica. As invasões biológicas são dos principais fatores responsáveis pela alteração global da biosfera, modificando a estrutura e funcionamento dos ecossistemas. Neste sentido, discute-se atualmente sobre a eventual “homogeneização” dos

D

70 • Parques e Vida Selvagem verão 2013

ecossistemas à escala global, onde apenas as espécies mais resistentes prevalecerão. O caranguejo-verde-europeu (Carcinus maenas) é considerado uma espécie invasora em vários locais do mundo, causando avultados prejuízos económicos e ecológicos. Encontra-se, inclusivamente, na lista das “100 Piores Espécies Invasoras do Mundo” da Organização Internacional de Conservação da Natureza (IUCN). No entanto, esta espécie é nativa em Portugal e tem por cá valor conservacionista, pelo que interessa preservá-la! O caranguejo-verde nasce em mar aberto, migrando posteriormente para o fundo das zonas costeiras e estuarinas, onde passa a fase adulta. Esta espécie atinge os nove centímetros de largura e pode viver até sete anos. Caracteriza-se por comportamentos agressivos e hábitos alimentares omnívoros vorazes. O caranguejo-verde encontra-se presente

ao longo de toda a costa portuguesa e nos estuários. A nível global, a sua distribuição nativa estende-se desde o Leste do mar Báltico, Sul da Islândia e Noruega Central até aos países do Norte de África (Marrocos e Mauritânia). Enquanto espécie invasora, a sua dispersão ter-se-á iniciado por volta de 1817 e intensificou-se nos últimos 25 anos, estando presente em ambas as margens do Atlântico, Pacífico Leste, assim como nas costas da África do Sul, Austrália e Ásia. A dispersão das larvas deste crustáceo é por si só bastante eficiente, mas os fenómenos naturais extremos (tais como o “El Niño”) e outros fatores de origem humana também terão contribuído para o seu estabelecimento em novos ecossistemas. Em alguns locais, o caranguejo-verde não conseguiu estabelecer populações com sucesso (tais como no Mar Vermelho, Sri Lanka, Hawaii ou Paquistão) devido às


SCaranguejo-verde-europeu Foto de Allan Souza O caranguejo-verde-europeu habita o sapal do rio Minho durante a fase adulta Foto de Carlos Antunes

condições inadequadas para o recrutamento e crescimento. As invasões pelo caranguejo-verde tornaramse num motivo de grande preocupação uma vez que a introdução desta espécie em determinadas áreas do Globo tem provocado impactos significativos na pesca, na aquacultura e nos ecossistemas. O impacto económico do caranguejo-verde na pesca e aquacultura de bivalves e crustáceos nos Estados Unidos e Canadá é estimado em várias dezenas de milhões de dólares por ano. A teoria da “Facilitação das Invasões Biológicas” tem justificado várias sequências de invasões, sugerindo que algumas espécies exóticas, ao entrarem num determinado ecossistema, facilitam a invasão por outras espécies exóticas. Assim, a invasão pelo caranguejo-verde em determinados locais terá resultado da invasão de outras espécies, e além disso também terá contribuído para a introdução de espécies onde previamente não existiam. Por outro lado, também já foi registado o desaparecimento de espécies nativas de moluscos devido às invasões pelo caranguejo-verde. O seu potencial invasor deriva, em grande parte, da ampla resistência a diversos fatores ambientais, tais como a capacidade de tolerar elevadas gamas de temperatura e salinidade e de escassez de oxigénio na água. Texto Mário Jorge Araújo/CIIMAR

Bibliografia: Lowe, S., M. Browne, S. Boudjelas. 2000. 100 of the world’s worst invasive alien species: A selection from the Global Invasive Species database. The World Conservation Union (IUCN). Klassen, G., A. Locke. 2007. A biological synopsis of the European green crab, Carcinus maenas. Can. Man. Rep. Fish. Aquat. Sci. 2818: 75 pp. Simberloff, D., B. Von Holle. 1999. Positive interactions of nonindigenous species: Invasional meltdown? Biological Invasions 1(1): 21-32.

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72 ATUALIDADE

Os olhos das libélulas Segundo um estudo realizado por cientistas de Adelaide, na Austrália, os insetos da ordem Odonata demonstram possuir capacidades cerebrais conhecidas até à data em primatas, nomeadamente a atenção seletiva. Esta característica faz com que consigam concentrar a atenção numa presa inserida num enxame de alternativas, sem a perderem de vista durante a captura. Sendo assim, conseguem evitar reagir a visualizações mais atrativas durante o processo predatório, o que lhes atribui o condão de conseguirem ser predadores com elevados níveis de êxito. Os cientistas confessam que não esperavam deparar com um dispositivo neurológico complexo nas libélulas. Se se der o caso de avançarem nesta linha de investigação, acreditam poder contribuir para um melhor domínio científico do funcionamento neuronal: este “know-how” tem várias aplicações práticas, sendo uma delas a robótica.

No universo dos insetos X as libélulas enquadram-se no grupo Odonata

Peixes reproduzidos em cativeiro Gafanhoto novo para a ciência Um estudo relatado num artigo da publicação “Zoological Journal of the Linnean Society”, 2013, 168, 29–60, levou à descrição de duas novas espécies de gafanhoto, sendo uma delas nova para a ciência e nova para Portugal. Ficou a chamar-se Sphingonotus nodulosus.

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O Aquário Vasco da Gama, o Centro de Biociências do ISPA e a Quercus procederam à libertação no meio natural de alguns milhares de peixes autóctones reproduzidos em cativeiro. Estas ações ocorreram em diversos cursos de água do Oeste, da Grande Lisboa e no Sul do país. Em 2 de abril do corrente ano, em S. Luís, Odemira, libertaram-se escalos do Mira e bogas do Sudoeste na ribeira do Torgal, afluente do rio Mira. Em 6 de abril, foi a vez


João L. Teixeira

Interligar a natureza e as pessoas Está em prática na Bélgica a ideia de transformar velhas áreas industriais em áreas verdes, no fito de criar postos de trabalho para a população local e reintegrar a natureza nas atividades humanas. A entidade que está por trás desta filosofia é a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Em 2012 o Governo belga estimulou o retorno da natureza aos cenários urbanos criando legislação para esse efeito. Trata-se de uma filosofia de coexistência pacífica entre a cidade e a vida selvagem. Um exemplo prático desta ideia costuma ser representado pelo já existente Hoge Kempen National Park, criado há meia dúzia de anos na região Leste deste país, com cerca de 5700 hectares. Tornou-se um raro exemplo de cooperação entre unidades industriais, governo e organizações ambientalistas. Apesar do seu pequeno tamanho, a Bélgica acolhe muita biodiversidade. São mais de 35 mil espécies de animais, plantas, fungos e outros seres vivos. Perto de dois terços destas espécies são animais, sendo os insetos os mais numerosos: 4500 espécies de escaravelhos, 4500 espécies de moscas e mosquitos, 2400 espécies de borboletas diurnas e noturnas, entre outros.

da localidade de Odelouca, em Silves, que recebeu escalos do Arade na ribeira de Alferce, afluente desse rio. Em 9 de abril, em Oeiras decorreu a libertação de bogaportuguesa na ribeira da Lage. Por fim, em 16 de abril, em Canal Caveira, Grândola, houve libertação de boga-portuguesa na ribeira de Grândola, afluente do rio Sado.

No Bombarral, na região Oeste de Portugal, foram encontrados numerosos fósseis de tartaruga correspondentes à espécie Testudo hermanni datados do Paleolítico Médio (29000/26500 anos). O achado deveu-se ao trabalho dos investigadores Emiliano Jiménez Fuentes, João Luís Cardoso e Eduardo Gonçalves Crespo. Esta presença amplia consideravelmente a área de distribuição desta espécie de réptil no passado, embora atualmente não conste das listagens lusitanas de biodiversidade.

Jorge Gomes

Fósseis de tartaruga no Bombarral

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74 PROJETO PAR Cada dia que passa há mais empresas e cidadãos a confiarem ao Parque Biológico de Gaia o sequestro de carbono Ajude a neutralizar os efeitos das emissões de CO2, adquirindo área de floresta em Vila Nova de Gaia com a garantia, dada pelo Município, de a manter e conservar e de haver em cada parcela a referência ao seu gesto em favor do Planeta

Para mais informações pode contactar pelo n.º (+351) 227 878 120 ou em carbono@parquebiologico.pt Parque Biológico de Gaia, Projeto Sequestro do Carbono 4430-681 Avintes • Vila Nova de Gaia

Sequestro de Carbono Agrupamento de Escolas Ovar Sul - Curso EFA B3 • Agrupamento Vertical de Escolas de Rio Tinto • Alice Branco e Manuel Silva • Alunos do 9.º ano (2012/13) da Escola Secundária do Castelo da Maia • Amigos do Zé d’Adélia • Amigos do Zé d’Adélia e Filhos • Ana Filipa Afonso Mira • Ana Luis Alves Sousa • Ana Luis e Pedro Miguel Teixeira Morais • Ana Miguel Padilha de Oliveira Martins • Ana Paula Pires • Ana Rita Alves Sousa • Ana Rita Campos, Fátima Bateiro, Daniel Dias, João Tavares e Cláudia Neves do 11.º A (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Ana Sofia Magalhães Rocha • Ana Teresa, José Pedro e Hugo Manuel Sousa • António Miguel da Silva Santos • Arnaldo José Reis Pinto Nunes • Artur Mário Pereira Lemos • Bárbara Sofia e Duarte Carvalho Pereira • Bernardete Silveira • Carolina de Oliveira Figueiredo Martins • Carolina Sarobe Machado • Carolina Birch • Catarina Parente • Cipriano Manuel Rodrigues Fonseca de Castro • Colaboradores da Costa & Garcia • Cónego Dr. Francisco C. Zanger • Convidados do Casamento de Joana Pinto e Pedro Ramos • Cursos EFA Básicos (2009/10) da Escola Secundária Dr. Joaquim Gomes Ferreira Alves • Deolinda da Silva Fernandes Rodrigues • Departamento Administrativo Financeiro da Optimus Comunicações, SA DAF DAY 2010 • Departamento de Ciências Sociais e Humanas da Escola Secundária de Ermesinde • Departamento de Matemática e Ciências Experimentais (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Dinah Ferreira • Dinis Nicola • Dulcineia Alaminos • Eduarda e Delfim Brito • Eduarda Silva Giroto • Escola Básica da Formigosa • Escola Dominical da Igreja Metodista do Mirante • Escola EB 2,3 de Valadares • Escola EB 2,3 Dr. Manuel Pinto Vasconcelos, Projecto Pegada Rodoviária Segura, Ambiente e Inovação • Escola EB 2,3 Escultor António Fernandes de Sá • Escola Secundária Almeida Garrett - Projecto Europeu Aprender a Viver de Forma Sustentável • Escola Secundária Augusto Gomes • Escola

74 • Parques e Vida Selvagem verão 2013

Secundária do Castelo da Maia • Família Carvalho Araújo • Família Lourenço • Fernando Ribeiro • Francisco Gonçalves Fernandes • Francisco Saraiva • Francisco Soares Magalhães • Graça Cardoso e Pedro Cardoso • Grupo ARES - Turma 12.º B (2009/10) da Escola Secundária dos Carvalhos • Grupo Ciência e Saúde no Sec. XXI - Turma 12.º B (2009/10) da Escola Secundária Dr. Joaquim Gomes Ferreira Alves • Grupo de EMRC da Escola Básica D. Pedro IV - Mindelo • Guilherme Moura Paredes • Hélder, Ângela e João Manuel Cardoso • Inês, Ricardo e Galileu Padilha • Joana Fernandes da Silva • Joana Garcia • João Guilherme Stüve • João Monteiro, Ricardo Tavares, Rita Mendes, Rita Moreno, e Sofia Teixeira, do 12.º A (2011/12) da Escola Secundária Augusto Gomes • Joaquim Pombal e Marisa Alves • Jorge e Dina Felício • José Afonso e Luís António Pinto Pereira • José António da Silva Cardoso • José António Teixeira Gomes • José Carlos Correia Presas • José Carlos Loureiro • José da Rocha Alves • José, Fátima e Helena Martins • Lina Sousa, Lucília Sousa e Fernanda Gonçalves • Luana e Solange Cruz • Manuel Mesquita • Maria Adriana Macedo Pinhal • Maria Carlos de Moura Oliveira, Carlos Jaime Quinta Lopes e Alexandre Oliveira Lopes • Maria de Araújo Correia de Morais Saraiva • Maria Guilhermina Guedes Maia da Costa, Rosa Dionísio Guedes da Costa e Manuel da Costa Dionísio • Maria Helena Santos Silva e Eduardo Silva • Maria Joaquina Moura de Oliveira • Maria Manuela Esteves Martins Alves • Maria Violante Paulinos Rosmaninho Pombo • Mariana Diales da Rocha • Mário Garcia • Mário Leal e Tiago Leal •

Marisa Soares e Pedro Rocha • Marta Pereira Lopes • Mateus de Oliveira Nunes Miranda Saraiva • Miguel Moura Paredes • Miguel Parente • Miguel, Cláudia e André Barbosa • Nuno Topa • Paula Falcão • Pedro Manuel Lima Ramos • Pedro Miguel Santos e Paula Sousa • Professores (2010/11) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Professores e Funcionários (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Protetores do Ambiente Professores e Alunos da Escola Básica de Canidelo • Regina Oliveira e Abel Oliveira • Ricardo Parente • Rita Nicola • Sara Pereira • Sara Regueiras, Diana Dias, Ana Filipa Silva Ramos do 11.º A (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Serafim Armando Rodrigues de Oliveira • Sérgio Fernando Fangueiro • Tiago José Magalhães Rocha • Tiago Pereira Lopes • Turma A do 6.º ano (2010/11) do Colégio Ellen Key • Turma A do 8.º ano (2008/09) da Escola EB 2,3 de Argoncilhe • Turma A do 9.º ano (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turma A do 11.º ano (2010/11) da Escola Secundária de Ermesinde • Turma A do 10.º ano e Professores (2010/11) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turma A do 12.º ano (2010/11) da Escola Secundária de Ermesinde • Turma C do 10.º ano (2010/11) da Escola Secundária de Ermesinde • Turma D do 10.º ano e Professores (2010/11) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turma D do 11.º ano (2010/11) da Escola Secundária de Ermesinde • Turma E do 10.º ano (2008/09) da Escola Secundária de Ermesinde • Turma E do 12.º ano (2010/2011) da Escola Secundária de Ermesinde • Turma G do 12.º ano (2010/11) - Curso Profissional Técnico de Gestão do Ambiente do Agrupamento de Escolas Rodrigues de Freitas • Turma IMSI do Curso EFA - ISLA GAIA (2008/09) • Turmas A e C do 10.º ano (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turmas A e C do 11.º ano; A e B do 12.º ano e Professores (2010/11) da Escola Secundária de Oliveira do Douro •Turmas B e C do 12.º ano - Psicologia B (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turmas B e D do 11.º ano (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turmas A, B e G do 12.º ano; G e H do 11.º ano e F do 10.º ano (2010/11) da Escola Secundária de Ermesinde • Vânia Rocha


Posto de Abastecimento de Avintes

Para aderir a este projeto recorte o seguinte rectângulo e remeta para: Parque Biológico de Gaia • Projeto Sequestro do Carbono • 4430 - 681 Avintes • Vila Nova de Gaia O regulamento encontra-se disponível em www.parquebiologico.pt/sequestrodocarbono

Pretendo/Pretendemos aderir à Campanha Confie ao Parque Biológico de Gaia o Sequestro do Carbono apoiando a aquisição de

m2 de área florestal X € 50 =

Junto se envia cheque para pagamento

euros.

1 m2 = €50 - 4 kg/ano de CO2

Procedeu-se à transferência para o NIB 0033 0000 4536 7338 05305

Nome do Mecenas Recibo emitido à ordem de Endereço N.º de Identificação Fiscal

Telefone

e-mail

O Parque Biológico pode divulgar o nosso contributo

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76 BIBLIOTECA

“Os Pescadores” de Raul Brandão Não é uma publicação científica esta obra de Raul Brandão, pelo menos na correta aceção da palavra, é, isso sim, uma dedicada obra aos homens do mar

D

onde se retira para a Casa do Alto, quinta próxima de Guimarães, onde viria a produzir a maior parte da sua obra literária. Em paralelo desenvolveu uma intensa atividade jornalística com frequentes deslocações a Lisboa onde colaborava em diversas publicações. Considera-se que a par de Fernando Pessoa, Brandão foi figura tutelar na evolução da literatura portuguesa do século XX, influenciando gerações de escritores e novelistas contemporâneas e posteriores à sua. Esta obra está entre as centenas de obras que o Parque Biológico mantém no seu fundo bibliográfico. Através de compra ou doação, o Parque está a juntar um espólio ilustrativo da história natural portuguesa. Sob marcação pode consultar estas obras. Encontra o catálogo completo no sítio do Parque Biológico no botão Biblioteca: www.parquebiologico.pt Quando lhe for conveniente, pode marcar a sua visita através do e-mail atendimento@ parquebiologico.pt ou através do 227878120. Por Filipe Vieira

Acompanhe este Concurso CONCURSO NACIONAL no site do Parque Biológico de Gaia DE FOTOGRAFIA DA NATUREZA

PARQUES E VIDA SELVAGEM

www.parquebiologico.pt Indo a Atividades/Fotografia da natureza Veja aí o Regulamento e os Prémios!

O prazo de entrega das fotografias concorrentes termina já em 30 de setembro!

2013 • 11.ª edição

O projeto Raízes Bibliográficas da História Natural de Portugal (RBHNP), em desenvolvimento pelo Parque Biológico desde 2008, visa reunir publicações antigas sobre a história natural de Portugal e das ex-colónias portuguesas, com as quais o Parque tem protocolos de cooperação. Pode consultar o catálogo de publicações em www.parquebiologico.pt clicando em Biblioteca.

ou no Facebook www.facebook.com/parquebiologicodegaia

Pedro Caldas Cardoso

o extremo norte ao Algarve, toda a costa reluz em cores de frescura admirável... São os seus irmãos pescadores, gente do mesmo sangue que o seu e que o escritor conhece e compreende à maravilha” como diz Manuel Mendes no prefácio desta obra de Raul Germano Brandão, prosador, ficcionista e dramaturgo, pintor, militar e jornalista, famoso pelo realismo das suas descrições. Este livro reúne num conjunto de crónicas o exigente labor dos pescadores e a vida nas principais comunidades piscatórias portuguesas, recorrendo muitas vezes a uma linguagem pitoresca e poética num estilo que caracteriza tão bem o autor nascido em 1867 no Porto, filho e neto de homens do mar (esta obra é dedicada ao seu avô, morto no mar), com uma infância marcada pela paisagem física e humana da zona da Foz do Douro. Este livro espelha bem as memórias e ainda acrescenta retratos falados de uma atividade económica humana típica da costa portuguesa e que nem sempre conhecemos bem. Raul Brandão frequentou o curso superior de Letras e ingressou mais tarde na carreira militar, tendo sido colocado em Guimarães, de


CRÓNICA 77

Jorge Paiva Biólogo

Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra jaropa@bot.uc.pt

Ecossistemas rupícolas II

A relevância da flora do Litoral

Como referimos (Introdução) as plantas dos ecossistemas rupícolas do litoral marítimo são aerohalinas, apresentam um característico hábito em coxim, são predominantemente xerófitas e aromáticas, variando a composição florística dos ecossistemas consoante as condições climáticas do Norte para o Sul do país, assim como com a altitude e natureza do material rochoso onde vegetam

as, seja qual for a composição do maciço rochoso, a planta mais comum nos alcantilados marítimos e capaz de suportar imersões esporádicas das ondas é o funcho-marítimo (Crithmum maritimum). Como é uma planta simultaneamente aromática [pertence à família das umbelíferas, que são todas aromáticas, sendo muitas utilizadas para aromatizar a comida, como a salsa (Petroselinum crispum) e os coentros (Coriandrum sativum)] e salgada

M

SPlantas com hábito em coxim; Echo Valley, Table Mountain National Park, África do Sul TPlantas com hábito em coxim - Açores, Santa Maria, miradouro de São Lourenço

(aero-halina) é utilizada em saladas nalguns países. É também conhecido por perrexildo-mar, particularmente nos Açores, onde, por ser muito comum e abundante no litoral predominantemente rochoso deste arquipélago, ainda é muito utilizado como alimento ou como condimento, geralmente conservado em vinagre (conserva denominada nalgumas ilhas por curtume). Antigamente, os pescadores açorianos levavam-no como alimento para o mar, podendo também ser consumido frito. Ainda hoje, muitos dos emigrantes açorianos, depois de visitarem a respetiva ilha natal, levam consigo frascos desta conserva (curtume), assim como o levam os familiares que visitam os emigrantes nos países onde labutam. O litoral marítimo rochoso em Portugal Continental encontra-se principalmente a Norte de Espinho, um pouco na Beira Litoral (Serra da Boa Viagem), Estremadura Meridional, Sudoeste Alentejano e Barlavento Algarvio. Aí predominam plantas rupestres xerófilas e aero-hialinas, que só recebem águas dos nevoeiros, do orvalho e das chuvas. Devido à intensidade do vento na costa ocidental, frequentemente em regime de nortada, nos ecossistemas rupícolas, as plantas lenhosas (subarbustos, arbustos e até as pequenas árvores que aí vegetam), para não perderem muita da água orgânica, apresentam hábito em coxim, como, por exemplo, o comum tojo-arnal (Ulex europaeus), o tojo-gatunho (Ulex densus) das arribas calcárias da Arrábida e arredores de Lisboa e o endémico tojo-de-sagres (Ulex

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78 CRÓNICA

SCynomorium coccineum, parasita de quenopodiáceas, Praia da Rocha

erinaceus) e pequenas árvores como a aroeira (Pistacia lentiscus). Nestes ecossistemas estão sempre presentes leguminosas, como, por exemplo, os referidos tojos, que enriquecem o solo de azoto, por terem uma simbiose radicular (nodosidades) com cianobactérias (fixadoras de azoto). O mesmo acontece nos ecossistemas dunares, mas com outras leguminosas, particularmente herbáceas, como, por exemplo, as luzernas-das-areias (Medicago marina e Medicago littoralis) e o trevo-rasteiro-das-praias (Lotus arenarius). Nas arribas calcárias existem muitas plantas calcícolas como, por exemplo, o alecrim (Rosmarinus officinalis), o sal-puro ou belaluz (Thymus mastichina) e o tomilho-algarvio (Thymus camophoratus) e nas graníticas, areníticas ou metamórficas, as silicícolas, como, por exemplo, a sabina-das-praias (Juniperus turbinata). Muitas das plantas herbáceas e lenhosas na base, que ocorrem nestes ecossistemas rupícolas litorais, também apresentam hábito em coxim, como, por exemplo, algumas das nossas maçacucas [a erva-marítima (Armeria welwitschii) dos rochedos e areias marítimas entre o Cabo Mondego e Cascais; o craveiro-romano (Armeria pseudarmeria), um endemismo dos substratos graníticos ou basálticos do Cabo da Roca, e o craveirodas-berlengas (Armeria berlenguensis), um endemismo dos rochedos graníticos das Berlengas] e o, já citado, funcho-marítimo (Crithmum maritimum). Nas arribas litorais calcárias há diferenciação florística nítida não só entre as do Norte e as do Sul, como entre as da costa ocidental e as da costa sul algarvia. Assim, por exemplo, as assembleias-bravas (Iberis procumbens subsp. microcarpa) ocorrem apenas nas arribas marítimas da Beira Litoral e da Estremadura (a subsp. procumbens é das areias); as arribas

78 • Parques e Vida Selvagem verão 2013

SPlantas com hábito em coxim e icnofósseis de dinossauro (iguanodonte), no cabo Espichel

calcárias viradas a sul da Serra da Arrábida apresentam plantas tipicamente macaronésicas, como a malva-marítima (Lavatera maritima), a juliana-laciniada (Hesperis laciniata), o endemismo (Convolvulus fernandesii) e a Fagonia cretica, enquanto que nas falésias calcárias expostas a Norte do Cabo Espichel não apresentam plantas macaronésicas, mas atlânticas, como a rasteira (Frankenia laevis), o cardo-azul (Eryngium dilatatum) e a eufórbia (Euphorbia portlandica) e as falésias calcárias do Barlavento Algarvio apresentam plantas tipicamente mediterrânicas, muitas delas endemismos, como o já citado tomilhoalgarvio (Thymus camophoratus) e onde ocorre uma planta parasita muitíssimo rara na nossa costa, nas arribas calcárias da Praia da Rocha, parasitando a salgadeira (Atriplex halimus), ali conhecida pelo vernáculo piça-de-mouro (Cynomorium coccineum). Finalmente, o Promontório Vicentino, essencialmente calcário, é muito rico em endemismos, como Centaurea vicentina, Hyacinthoides vicentina e Biscutella sempervirens subsp. vicentina. Nas arribas marítimas, rochosas e vulcânicas das ilhas dos Açores e Madeira, ainda não delapidadas de vegetação, as plantas nativas apresentam igualmente hábito em coxim, mas são componentes da Laurisilva. Para os Açores exemplificamos com típicos endemismos lenhosos, como a subarbustiva vidália (Azorina vidalii), pequenas árvores ou arbustos como o pau-branco (Picconia azorica), a urze (Erica azorica), até a murta (Myrtus communis) e herbáceas, como a erva-leiteira (Euphorbia azorica) e o bracel-da-rocha (Festuca petraea), algumas leguminosas, como a serradelarasteira (Ornithopus pinnatus). Para a Madeira são exemplos o barbuzano (Apollonias barbujana), o marmulano (Sideroxylon marmulano), o zambujeiro (Olea maderensis), os bucho-da-rocha (Chamaemeles coriacea

e Maytenus umbellata) o jasmineiro-branco (Jasminum azoricum), o jasmineiro-amarelo (Jasminum odoratissimum), o maçaroco (Echium nervosum), uma eufórbia nas ravinas junto ao mar (Euphorbia piscatoria), as estreleiras (Argyranthenum pinnatifidium subsp. succulentum) e (Argyranthemum haematomma) e o piorno endémico (Teline maderensis), pertencente às leguminosas, plantas muito relevantes nestes ecossistemas, como já foi referido. Tal como nos Açores também ocorrem gramíneas nas arribas do litoral madeirense, como, por exemplo, os bracel-da-rocha (Festuca jubata e Festuca donax). Nos ecossistemas rupícolas do litoral das regiões tropicais e subtropicais, as plantas apresentam as mesmas características, mas pertencem a outras espécies e até a famílias que não vegetam na Europa (a não ser introduzidas), como, por exemplo, as


SAzorella compacta, Reserva Nacional de Salinas y Aguada Blanca, no Peru

SMangal na maré baixa - Parque Nacional las Baulas, Costa Rica

Proteáceas e as Aizoáceas na África do Sul e na Austrália. Também aí ocorrem leguminosas nitrificantes, como, por exemplo, acácias (todas as espécies da acácias que ocorrem em Portugal foram introduzidas, pois não há acácias nativas europeias). Nas falésias das regiões árticas e antárticas, as plantas apresentam igualmente hábito em coxim, mas são herbáceas como, por exemplo, nas falésias das ilhas Kerguelen, situadas no Oceano Índico, a Sul de Madagáscar (48º-50ºS e 68º-71ºE), entre a África do Sul e a Austrália, em que as plantas são idênticas às que vimos nos Andes, como a Azorella selago (o que aliás testemunha que a ilha esteve ligada ao Continente Sul-americano), entre as quais se estabelecem outras plantas, como a famosa crucífera Pringlea antiscorbutica. Realmente o género Azorella ocorre no Continente Sul Americano (ex.: Azorella andina e Azorella

compacta), ilhas dos mares do Sul (ex.: Azorella caespitosa das ilhas Malvinas) e Azorella macquariensis das ilhas Macquarie, entre a Tasmânia e Nova Zelândia).

TSapal do estuário do rio Sado, Tróia (zona do parchal)

Sapais e mangais Sapais e mangais são ecossistemas implantados em plataformas abrigadas das costas marítimas, particularmente na orla de sedimentos areno-lodosos de estuários, lagunas e até baías protegidas do impacto das ondas, por “ilhas-barreiras”. Os mangais são ecossistemas predominantemente arbóreos das regiões tropicais e subtropicais, enquanto os sapais são predominantemente herbáceos e subarbustivos das regiões temperadas. Qualquer destes ecossistemas é de elevada biodiversidade sendo extremamente relevante a sua conservação por funcionarem não só como “maternidades” piscícolas (muitas espécies marinhas desovam neles), como também como “creches” (muitas espécies marinhas crescem neles até ao estado adulto). Por outro lado há um elevadíssimo número de seres vivos aquáticos (inúmeros quase invisíveis à vista desarmada) que ali vivem, constituindo a base de cadeias alimentares de muitos animais (moluscos, peixes, aves e até mamíferos, o homem incluído). Destruir sapais e mangais é, no mínimo, acabar com muitas espécies de peixes que fazem parte da alimentação diária da Humanidade. Nestes ecossistemas há muitos endemismos, alguns muito característicos, como os caranguejosviolinos (Uca, com cerca de 100 espécies) dos sapais e mangais, em que o macho tem uma das pinças do 1.º par, muito maior e, muitas vezes, vermelha, com que atrai as fêmeas [no Algarve são utilizadas como marisco (designamnas por “bocas”); arrancam-nas e devolvem o caranguejo ao sapal, onde ele regenera nova

pinça] e, nos mangais, os peixes-cabeçudos (Periophthalmus, com cerca de 15 espécies), anfíbios (respiração cutânea) e barbatanas muito largas que lhes permitem andar no lodo, saltar e subir (pelos rizóforos) às árvores.

Sapais Como referimos, os sapais são predominantemente herbáceos e subarbustivos das regiões temperadas (latitudes entre o Círculo Polar Ártico e o Trópico de Câncer no Hemisfério Norte e entre o Círculo Polar Antártico e o Trópico de Capricórnio no Hemisfério Sul). Tal como no litoral arenoso, estes ecossistemas também apresentam comunidades vegetais diferenciadas do mar para o interior e do Norte para o Sul do continente português. Como a orla dos sapais não é batida pelas ondas, completamente imersas na água salgada vegetam espermatófitas (monocotiledóneas) como o sirgo ou limo-mestre (Ruppia maritima e Ruppia cirrhosa) e o limo-de-fita (Zostera marina, particularmente na costa ocidental e Zostera noltii, na costa sul). O parchal, a zona baixa do sapal, onde a vegetação chega a ser coberta pelas águas da maré-alta, é praticamente colonizado por uma gramínea, a morraça (Spartina maritima), frequentemente acompanhada por algas. Por vezes, é quase substituída por outra gramínea, a Puccinellia maritima e, nas margens do estuário do Guadiana, pela Spartina densiflora. A partir do parchal segue-se uma zonação de sucessões vegetais, com predomínio de quenopodiáceas halófitas, herbáceas (ex.: a erva anual, Salicornia ramosissima), subarbustivas e arbustivas. Junto da morraça instalam-se as gramatas (Sarcocornia perennis em todo o litoral, com duas subespécies: a subsp. perennis nas zonas banhadas pela maré-alta e a subsp.

Parques e Vida Selvagem verão 2013• 79


80 CRÓNICA alpini nos locais não atingidos pela água do mar; e a Sarcocornia fruticosa a sul do Tejo), frequentemente acompanhadas pela gramatabranca (Halimione portulacoides), pelo valverdeda-praia (Suaeda albescens), em todo o litoral e, no litoral sul a partir do estuário do Tejo, pela barrilha ou valverde-dos-sapais (Suaeda vera) e pelo Arthrocnemum macrostachyum. Entre estas quenopodiáceas halófitas, vegetam, muitas vezes, herbáceas de outras famílias, como, por exemplo, o malmequer-das-praias (Aster tripolium), o mata-jornaleiros (Aster squamatus), a madorneira-bastarda (Inula crithmoides) e os sapinhos (Spergularia marina e Spergularia media). No Norte, no sapal médio e alto, já não alcançado pelas marés, devido à diminuição da salinidade, resultante da maior pluviosidade nessa região, verifica-se uma rápida substituição da vegetação halófita pelos juncos (Juncus acutus e Juncus maritimus), enquanto que no Centro e Sul, os juncos só ocorrem nas orlas mais afastadas do alto sapal. Frequentemente, os juncos são acompanhados por gramíneas adaptadas à salinidade, como a Festuca rubra subsp. littoralis e Agrostis stolonifera e ciperáceas, como Scirpus holoschoenus e Schoenus nigricans. Nestas zonas dos sapais do litoral ocidental do Centro e Sul e no Algarve ainda predominam quenopodiáceas que, embora halófitas, estão adaptadas a solos com menor salinidade, como a salgadeira (Atriplex halimus), e a barrilheira (Salsola vermiculata) e plumbagináceas arbustivas (Limoniastrum monopetalum) e herbáceas (Limonium daveaui e Limonium plurisquamatum, endémicos da Estremadura e Limonium algarviense, endémico do Algarve e Sul de Espanha). Como as quenopodiáceas são produtoras de biomassa de elevado rendimento (plantas C4), nos sapais do Sul (do Tejo ao Algarve) aparece parasitando-as a Cistanche phelypaea, de vistosas flores amarelas. Nos sapais das rias, a seguir à área dos juncos, onde a água salgada e a doce se misturam, predominam as ciperáceas, como o triângulo (Bolboschoenus maritimus), frequentemente acompanhado pelo bunho (Scirpus lacustris). Com o aumento da proporção de água doce, vão aparecendo as higrófitas características dos pauis, como o já referido bunho, o caniço (Phragmites australis) e as tabuas (Typha domingensis, Typha angustifolia e Typha latifolia). Noutras regiões ocorrem outras espécies de Spartina, de gramíneas, de quenopodiáceas e de outras famílias, como, por exemplo, a Spartina alterniflora que é nativa dos sapais

80 • Parques e Vida Selvagem verão 2013

SPeixe-trepador Periophthlmus barbarus do mangal de Malanza, São Tomé

SCaranguejo Uca tangeri - sapal de Pedras d’el Rei, Algarve

SPneumatóforos de Sonneratia alba, Pemba, Moçambique

das costas atlânticas do continente americano (desde o Canadá ao Norte da Argentina).

adaptações não só para a oxigenação das raízes (rizóforos que elevam a planta acima do nível médio intermareal e pneumatóforos que expõem as raízes ao ar durante a baixa-mar), como para aproveitarem a água “expelindo” o sal através da superfície foliar. Aliás, esta característica também está presente nas plantas dos sapais, por isso alguns povos (holandeses, por exemplo) utilizam-nas na alimentação, particularmente em saladas. Uma outra característica de algumas árvores dos mangais é a viviparidade, pois os frutos começam a germinar ainda na árvore e, quando se desprendem, levam já uma relativamente longa raiz que perfura o lodo a direito, pois leva no topo oposto uma coroa de sépalas que funcionam como as penas de uma flecha (ex.: espécies de Rhizophora, Ceriops, Bruguiera e Pelliciera). Apesar do género Rhizophora estar presente em todos os mangais, as espécies variam consoante o oceano que banha as costas. Assim, nas costas atlânticas do continente Americano e do continente Africano, ocorre Rhizophora harrisonii, Rhizophora mangle e Rhizophora racemosa; nas costas índicas africanas e asiáticas, a Rhizophora mucronata, nas costas pacíficas americanas e asiáticas, a Rhizophora mangle e a Rhyzophora stylosa

Mangais Como referimos, os mangais são ecossistemas predominantemente arbóreos das regiões tropicais e subtropicais, principalmente entre as latitudes 25ºN (atingem os 30ºN no Sul do continente Norte-americano e Antilhas) e 25ºS (40ºS na Austrália e Nova Zelândia), dependendo fundamentalmente da salinidade e temperatura das correntes oceânicas. Assim, por exemplo, os africanos atingem a costa sudeste da África do Sul e na costa ocidental não chegam ao litoral da África do Sul, ocorrendo apenas até à costa central de Angola, devido à corrente fria de Benguela, que abrange o Sul da costa africana ocidental; os americanos da costa pacífica não chegam mais a Sul que o extremo Nordeste do Peru, por causa da corrente fria de Humboldt. Os mangais ocorrem no litoral de cerca de 120 países e, embora pareçam ecossistemas homogéneos, compõem-nos cerca de 80 espécies de árvores (algumas até 80 m de altura) e arbustos, com as rizoforáceas (géneros Rhizophora, Bruguiera e Ceriops) presentes em todos eles. As árvores dos mangais possuem


SViviparidade, fruto a germinar na árvore: Rhizophora mucronata TCistanche phelypaea

SCistanche phelypaea, parasita de quenopodiáceas, estuário do Tejo TMangal, maré-alta, Tanganangue, Moçambique

desde as costas da Índia até às da Australásia. Com alguns dos outros géneros (Avicennia e Lumnitzera, por exemplo) acontece o mesmo (Avicennia germinans nas costas atlânticas e Avicennia marina nas costas do Índico: Lumnitzera racemosa, nas costas do Índico e Lumnitzera littorea do Sul da Ásia à Austrália) e alguns géneros não estão presentes em todos os mangais, como, por exemplo, os géneros Pelliicera (com uma única espécie Pelliciera rhizophorae na costa pacífica americana), Xylocarpus (Xylocarpus granatum nas costas africanas e asiáticas do Índico, Xylocarpus rumphii desde as costa africanas até às ilhas Tonga e Xylocarpus moluccensis das Molucas), Ceriops (Ceriops tagal das costas do Índico e asiáticas do Pacífico e Ceriops decandra com uma área mais restrita, desde a costa oriental da Índia até à Malásia) e Conocarpus (Conocarpus erectus das costas atlânticas e pacíficas e Conocarpus lancifolius das costas do Índico). Nos mangais também ocorrem fetos (Acrostichun aureum) e plantas herbáceas (exemplo, Acanthus ilicifolius, desde as costas indianas às da Austrália e ilhas do Pacífico e Acanthus ebracteatus, do Sudeste asiático à Austrália). (Continua no próximo número)

Parques e Vida Selvagem verão 2013• 81


82 COLETIVISMO

Abetarda Embaixadora de uma agricultura sustentável A abetarda é uma das mais belas aves de Portugal. São muitos os birdwatchers que visitam o nosso país apenas para ver esta ave, que impressiona pelo porte, pela dança dos machos e pelas plumagens coloridas e vistosas. No ano em que se discute a política agrícola comum, a abetarda junta-se à SPEA no apelo por uma agricultura mais sustentável. A abetarda Otis tarda é uma ave de grande porte. O macho, com os seus 16 quilos de peso, é a maior ave voadora da Europa. As abetardas nidificam no solo e os pintos nascem já com capacidade de seguir os progenitores. São gregárias todo o ano e, durante o acasalamento, os machos juntam-se nas planícies alentejanas, exibindo uma plumagem branca, extremamente visível, que usam para atrair as fêmeas. É herbívora, consumindo folhas tenras, rebentos, flores e também sementes. Os pintos alimentam-se, numa fase inicial, de insetos e outros invertebrados, e com o crescimento passam para uma dieta vegetal. Vivem em meios agrícolas abertos, normalmente em mosaicos de cereal de sequeiro, leguminosas, restolhos, pastagens e pousios. Em Portugal, ocorre quase exclusivamente na planície alentejana, onde pode ser observada em Castro Verde, Cuba, Capo Maior, Vila Fernando e Mourão.

As ameaças No espaço da União Europeia, as maiores populações de abetarda encontramse em Espanha e em Portugal. Aqui, a abetarda é classificada como espécie “Em Perigo”. As principais ameaças estão relacionadas com a alteração do uso do solo e com a mortalidade por causas não naturais. A intensificação agrícola é particularmente grave devido à substituição dos cultivos de sequeiro por regadio e culturas permanentes. A mortalidade causada por colisão com cabos de transporte de eletricidade é localmente muito negativa. É fundamental que os troços mais negros da rede elétrica nacional sejam sinalizados e que

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Ave do Ano 2013

a instalação de novas linhas seja bem planeada.

A Política Agrícola Comum A Política Agrícola Comum (PAC) é determinante para a conservação da abetarda e das outras espécies ameaçadas dos sistemas agrícolas extensivos. Necessitamos de uma PAC que promova o desenvolvimento rural e que tenha instrumentos para os agricultores que queiram fazer uma agricultura com a conservação da natureza e a proteção do ambiente. Há mais de 50 anos que práticas agrícolas nocivas poluem o nosso solo, água e ar, e são subsidiadas e incentivadas pela União Europeia, enquanto a agricultura sustentável é esquecida. Acreditamos que é hora de mudar a PAC, de modo a apoiar as práticas agrícolas que respeitem a natureza, produzam alimentos saudáveis e de modo sustentável, para as gerações futuras. Os eurodeputados e o Governo português, neste ano, têm o poder de votar uma PAC que não desperdice o dinheiro dos contribuintes e apoie a produção de alimentos através de práticas agrícolas que salvaguardem o solo e água e da existência de medidas agroambientais eficazes. Acreditamos que isso vai beneficiar os agricultores, a sociedade atual e as gerações futuras.

Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves Avenida da Liberdade, n.º 105 - 2.º - esq. 1250 - 140 Lisboa Tel.: 21 322 0430 / Fax: 21 322 04 39 spea@spea.pt • www.spea.pt

Dia Mundial do Vigilante da Natureza Celebrou-se no passado dia 31 de julho o Dia Mundial do Vigilante da Natureza. Nesta data realizaram-se atividades de educação ambiental no percurso pedestre do Pisão de Cima no Parque Natural de Sintra-Cascais. A ação teve em vista prestar uma homenagem aos Vigilantes da Natureza de todo o mundo e nela participaram crianças com idades compreendidas entre os seis e os 13 anos, segundo informação da APGVN. O ICNF já recebeu uma proposta para que, numa futura revisão do Regime Jurídico da Conservação da Natureza, se preveja a possibilidade de haver vigilantes da natureza nas Reservas Naturais Locais, nomeadamente no estuário do Douro. É oportuno dar nota da relevância deste serviço quando, noutro país europeu, o duque de Cambridge envia uma mensagem deste teor no dia em pauta: “Sinto-me honrado em assinalar hoje nestas linhas o valoroso trabalho dos Vigilantes da Natureza em todo o mundo, com risco da sua própria vida. Estou ciente da importância deste serviço que consiste em proteger as paisagens e as espécies de atividades danosas como o abate ilegal de árvores ou a caça furtiva, a localização de incêndios ou a deteção precoce de doenças, bem como o incentivo prestado à visita de turistas a locais espantosos da Terra. Sem os Vigilantes da Natureza o mundo seria muito diferente. (...) Quero que saibam que neste dia o meu pensamento está convosco - tendes a minha total admiração. Feliz Dia Mundial!”


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Revista PARQUES E VIDA SELVAGEM n.º 43  

A edição de verão da revista PARQUES E VIDA SELVAGEM está a ser distribuída a partir de hoje, 2013-9-6, no Parque Biológico de Gaia. As sua...

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