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Esta Revista faz parte integrante da edição do Jornal de Notícias e não pode ser vendida separadamente • Distribuição gratuita

Ano XII • N.º 41 • 22 de setembro a 21 de dezembro de 2012

Contra-relógio DIVERSIDADE BIOLÓGICA DE MONTANHA Reportagem PARQUE NATURAL DO LITORAL NORTE Entrevista GATO-BRAVO Countdown MOUNTAIN BIODIVERSITY Report LITORAL NORTE NATURE PARK Interview EUROPEAN WILDCAT


SUMÁRIO 3

Gencianas: Parque Natural da Serra da Estrela

Outono 2012

Jorge Gomes

FICHA TÉCNICA Revista “Parques e Vida Selvagem” · Diretor Nuno Gomes Oliveira · Editor Parque Biológico de Gaia · Coordenador da Redação Jorge Gomes · Fotografias Arquivo Fotográfico do Parque Biológico de Gaia · Propriedade Águas e Parque Biológico de Gaia, EEM · Pessoa coletiva 504763202 · Tiragem 60 000 exemplares · ISSN 1645-2607 · N.º Registo no I.C.S. 123937. Dep. Legal 170787/01 · Administração e Redação Parque Biológico de Gaia · Rua da Cunha · 4430-681 Avintes · Portugal · Telefone 227878120 · E-mail: revista@parquebiologico.pt · Página na internet http://www.parquebiologico.pt · Conselho de Administração José Miranda de Sousa Maciel, Nuno Gomes Oliveira, Serafim Silva Martins, José António Bastos Cardoso, Brito da Silva · Publicidade Jornal de Notícias · Impressão Lisgráfica - Impressão e Artes Gráficas, Rua Consiglieri Pedroso, 90 · Casal de Santa Leopoldina · 2730 Barcarena, Portugal · Capa foto de Raul Comino/Fotolia

Esta revista resulta de uma parceria entre o Parque Biológico de Gaia e o “Jornal de Notícias”

18 Diversidade biológica

de montanha

contra-relógio A grande variedade de ecossistemas que se instalam nas montanhas geram uma atração peculiar. Isso acontece porque abrigam um vasto património natural, desenhado pelo clima, pela geologia e por numerosos seres vivos às mais diversas escalas.

42 Parque Natural do Litoral Norte

reportagem Ao longo de 16 quilómetros de costa no litoral norte, ocupando uma área de 7653 hectares de área marinha e 1237 de área terrestre, o Parque Natural do Litoral Norte abrange lagunas costeiras e dunas, manchas de carvalhal e zonas agrícolas, praias de mar e rio, estas últimas sob a égide do Cávado e do Neiva.

48 Gato-bravo sob ameaça

de extinção

entrevista André Silva, investigador, desenvolve trabalho numa região da Europa onde o gato-bravo sofre maior pressão, a Escócia: «Tenho como ponto central da minha investigação a conservação de carnívoros. Estou a desenvolver trabalho principalmente com populações de carnívoros consideravelmente ameaçadas».

SECÇÕES

9 Ver e falar 12 Portfolio 15 Fotonotícias 20 Quinteiro 24 Parques de Gaia 39 Voo das aves 40 Astronomia 52 Migrações 54 Retratos naturais 58 Atualidade 62 Crónica 65 Biblioteca 66 Coletivismo

Os conteúdos editoriais da revista PARQUES E VIDA SELVAGEM são produzidos pelo Parque Biológico de Gaia, sendo contudo as opiniões nela publicadas da responsabilidade de quem as assina.

Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 3


4 EDITORIAL

Por Nuno Gomes Oliveira Diretor da Revista “Parques e Vida Selvagem”

A conservação da natureza merece parabéns Conservação in situ e ex situ – em julho a QUERCUS criou a sua 13.ª micro-reserva de 10.500 m2 para proteger uma população de Leuzea longifolia existente em Azabucho, no concelho de Leiria (Sítio PTCON0046, da Rede Natura 2000)

A

Leuzea longifolia Hoffmanns. & Link foi descrita por estes dois botânicos, que a encontraram em Torres Vedras e Óbidos quando por ali andaram a herborizar em maio de 1798 e, já na altura, a descreveram como sendo muito rara. Maria de Lurdes Serpa Carvalho e Pedro Ivo Arriegas, nos Asientos para un atlas corológico de la flora occidental, (Revisa “Fontqueria” 42, 1995), indicam ainda a ocorrência nas localidades de Vale de Águias e Vale de Gavião, em Vendas Novas (1947), Pampilhosa e Luso (1886 e 1950), arredores de Sintra (1914 e 1953), lagoa de Albufeira, em Sesimbra (1943), Ramalhal, em Torres Vedras, (1938), entre Alcoentre e Rio Maior (1962), na estrada Marinha Grande-Leiria (1952, 1957 e 1960) e em Montargil (188?8), de acordo com registos de vários botânicos. É um endemismo lusitano protegido pelo Decreto-lei n.º 140/99, de 24 de abril e pela Diretiva 92/43/ CEE, hoje raríssimo, pelo que a QUERCUS está de parabéns por mais esta iniciativa. Mas outra Reserva Natural Local está em vias de ser criada, desta feita na Praia das Avencas, entre São Pedro do Estoril e a Parede, no concelho de Cascais. Trata-se de uma zona de areal com uma extensa plataforma rochosa, que cobre e descobre com as marés, com 340 espécies de

4 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

fauna e flora identificadas, e desde há décadas usada para trabalhos de campo pela Faculdade de Ciências de Lisboa. Já em 1973, no boletim n.º 14 da Liga para a Proteção da Natureza, o biólogo Professor Carlos Almaça (1934-2010) escrevia: “Desde 1957 que visitamos, regularmente, esta praia [das Avencas] e (...) temos vindo, de ano para ano, a observar um empobrecimento considerável da macrofauna” e, depois de justificar o valor desta praia, conclui: “Esperamos ter ficado bem explícito, nas linhas anteriores, o interesse da Praia das Avencas, pelo menos do ponto de vista científico e pedagógico.” Quarenta anos depois parece que se vai seguir o seu conselho, pelo que está de parabéns o Município de Cascais. De parabéns está, também, o Aquário Vasco da Gama por ter conseguido a reprodução ex situ (em cativeiro) do Ruivaco-do-oeste (Achondrostoma occidentale), com posterior libertação na natureza, em abril passado, de 400 indivíduos no rio Alcabrichel (Torres Vedras), de onde vieram os progenitores. Esta raríssima espécie apenas vive em três rios da Extremadura e está ameaçada pela poluição (ver artigo da página 61). Em agosto, uma equipa do CIBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Genética) da Universidade do Porto libertou na albufeira do

Alqueva (Reguengos de Monsaraz), oito Águiaspesqueiras (Pandion haliaetus), provenientes da Finlândia e Suécia. A Águia-pesqueira não cria em Portugal desde 1997, mas continua a ser vista com frequência durante as migrações, nomeadamente na “nossa” Reserva Natural Local do Estuário do Douro. Espera-se, com esta reintrodução, que a espécie volte a fixar-se como nidificante em Portugal graças ao CIBIO. Também uma equipa do Parque Biológico merece felicitações por ter conseguido a reprodução ex situ do Cágado-de-carapaçaestriada (Emys orbicularis) cujos juvenis serão devolvidos à natureza, no Algarve; esta espécie, considerada em perigo em Portugal, é protegida por lei, mas está ameaçada pela destruição das zonas húmidas, captura intencional e acidental e introdução de espécies exóticas que com ela concorrem, nomeadamente as diversas espécies de tartarugas-verdes.

Aquecimento global Mas não é apenas este peixe que está em perigo; mesmo a ainda vulgar truta (Salmo trutta) está ameaçada pelo aquecimento global como demonstram Ana Almodóver e colegas num artigo publicado na “Global Change Biology”, n.º 18


Búteo no Parque da Lavandeira

Diminuição das populações europeias de algumas aves, desde 1995 (Fonte: RSPB, Royal Society for the Preservation of Birds, 2011)

de 2012; a partir das temperaturas de 33 anos (1975-2007) e da evolução da espécie, fizeram projeções para as trutas da bacia rio Aragón (Pirenéus mediterrânicos) e concluíram que até 2040 a truta perderá, ali, metade do seu habitat e estará praticamente extinta em 2100. E para esse aquecimento global contribuíram os 11.966 incêndios florestais que tiveram lugar em Portugal no primeiro semestre de 2012 (1 de janeiro a 15 de julho) e que consumiram cerca de 40 mil hectares, fazendo deste ano o segundo pior da década, só ultrapassado por 2005. Fogos florestais que, segundo Jonston Fay, da Universidade da Tasmânia, Austrália e colegas, em artigo publicado no Environnement Health Perspect, n.º 120, de fevereiro de 2012, dão um contributo importante para a mortalidade global, que estes autores estimaram numa média de 340 mil mortes prematuras anuais no mundo, por exposição ao LFS (landscape fire smoke) que liberta anualmente para atmosfera cerca de 2 mil milhões de kg de carbono.

Espécies a desaparecer, espécies a aparecer A última atualização da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, da responsabilidade da IUCN - União Internacional para Conservação da Natureza, foi apresentada em junho, na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), e mostra que das 63.837 espécies avaliadas, 19.817 estão ameaçadas de extinção, das quais 41% são anfíbios, 33% corais, 25% mamíferos, 13% aves e 30% coníferas. A este propósito, afirmou Julia Marton-Lefèvre, diretora-geral da IUCN, que “Um futuro sustentável não pode ser alcançado sem conservação da diversidade biológica - espécies animais e vegetais, os seus habitats e genes - não só para a natureza em si, mas também para todos os 7 mil milhões de pessoas que dependem dela”, e acrescentou que “A sustentabilidade é uma questão de vida ou morte para as pessoas do planeta”. Entretanto cientistas espanhóis e britânicos com-

provaram, recentemente, a presença do Chacal do Egito ou Lobo Africano (Canis lupus lupaster) nas montanhas marroquinas do Atlas, onde era desconhecido, noticiou a revista espanhola “Quercus” em agosto. Também nas Filipinas, a ornitóloga americana Pamela Rasmussen, da Universidade Estatal do Michigan, ao estudar a Coruja-gavião (Ninox spilocephala) descobriu, essencialmente a partir das vocalizações das aves, que afinal não era uma única espécie como se julgava: identificou a Coruja-gavião-filipina (Ninox philippensis), a Coruja-gavião da ilha de Camiguin (Ninox leventisi), de íris azulada, e a Coruja-gavião da ilha de Cebu (Ninox rumpeseyi). Já na ilha de Tablas, foi identificada uma subespécie, com o nome Ninox spilonota fisheri. Lá como cá, Pamela Rasmussen lamenta a destruição do habitat. No Estuário do Douro os Flamingos regressaram de novo, um ano depois da primeira observação e foram fotografados pelo nosso leitor António Manuel Osório Cabral, em 31 de julho na zona da Lavandeira (Gondomar) e também observados por outras pessoas ao longo do rio Douro (página 25). No Parque da Lavandeira (Vila Nova de Gaia), o leitor José Pereira Dias fotografou, em junho, uma Águia-de-asa-redonda (Buteo buteo) que ali caça diariamente um ou outro rato. Outras espécies continuam a sofrer regressão acentuada e, mais anos menos ano, desaparecem destas paragens, como é o caso da Rolabrava (Streptopelia turtur) que continua a ser violentamente caçada em Portugal, apesar das informações disponíveis sobre a diminuição da sua população europeia. O mais ridículo é que alguns querem atribuir a culpa desta diminuição, não ao chumbo das caçadeiras, mas à... competição da Rola-turca (Streptopelia decaocto)!

Leuzea longifolia Hoffmanns. & Link, gravura 96 da Flore Portugaise publicada em 1825(?)-1828(?)

dade de Lisboa. Além da sua imensa atividade como professor, investigador e conferencista, foi diretor do Museu e Jardim Botânico da Universidade de Ciências de Lisboa durante 20 anos. Conheci Fernando Catarino em 1976, numa visita de estudo ao sapal da Ponta da Erva (Estuário do Tejo), promovida pela Liga para a Proteção da Natureza, de que ficou o registo fotográfico anexo; logo percebi que era, e é, um verdadeiro mestre da arte de ensinar e uma das pessoas mais bem dispostas que conheço: “A coisa melhor que há no mundo, é rir. Rir de nós mesmos. Sou perfeitamente capaz de rir de mim. E rio-me mesmo. Não me levo muito a sério. Mas sou sério. A vida ensinou-me a não ser arrogante, impositivo, convencido”, afirmou Fernando Catarino, que esteve no Parque Biológico em 7 de setembro de 2002 a inaugurar a exposição “Objetos naturais – Metamorfoses da Raiz, Caule e Folhas”, do Jardim Botânico de Lisboa e que por aqui queremos voltar a ver. Parabéns Fernando Catarino e obrigado pelo que nos ensinou! Arquivo PBG

Professor Fernando Catarino

Parabéns pelos 80 anos Completa 80 anos no próximo dia 9 de novembro o Professor Fernando Mangas Catarino, um dos nossos mais notáveis botânicos portugueses, que se jubilou em 2002, após 50 anos de docência na Faculdade de Ciências da Universi-

bro  Tejo), outu stuário do ss ando (E rn va Fe Er or da fe Ponta ao centro o Pro de 1976: Catarino Nuno Gomes Oliveira

Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 5


6 VISITA

Marco António Costa, Secretário de Estado da Solidariedade e da Segurança Social visita o Parque Biológico de Gaia

Arquivo PBG

Marco António Costa, Secretário de Estado da Solidariedade e da Segurança Social visitou, em 13 de outubro, o Parque Biológico de Gaia para se inteirar da obra social deste equipamento do Município de Gaia, sob gestão da empresa municipal Águas e Parque Biológico, EEM; à revista Parques e Vida Selvagem deixou a seguinte mensagem: “O Parque Biológico de Vila Nova de Gaia é, hoje, um referencial nacional e internacional enquanto equipamento ambiental. Importa, contudo, realçar a sua componente de responsabilidade social que se materializa em muitos exemplos, tais como o programa

6 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

de integração de deficientes intelectuais, que decorre há cerca de 20 anos, e que devido ao sucesso permitiu já a passagem aos quadros da empresa municipal de alguns cidadãos com deficiência, ou os muitos casos de reinserção social acolhidos pelo Parque Biológico no âmbito da substituição de penas de multa por trabalho a favor de comunidade. Igualmente são de realçar os programas e as iniciativas que promovem a participação dos cidadãos seniores proporcionando o seu envelhecimento ativo num permanente convívio com crianças e jovens que permanentemente povoam todo o espaço territorial do Parque Biológico.

Como Vice-Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia tive o privilégio de poder contribuir para a tomada de decisões que tornaram possível o desenvolvimento de vários projetos, como a Reserva Natural Local do Estuário do Douro ou o apelo ao mecenato com a Campanha de Sequestro de Carbono, programa pioneiro e inovador em Portugal, que permitiu alargar recentemente o Parque Biológico em mais sete hectares. É pois, para mim, enquanto gaiense, um orgulho poder ver este símbolo de excelência referenciado pelo seu papel no âmbito da responsabilidade social”.


OPINIÃO 7

Por Luís Filipe Menezes Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia

Continuamos a investir nos parques verdes Anunciei há dias na Imprensa as prioridades do Município de Vila Nova de Gaia para 2013 e não foi por acaso que entre os sete principais projectos de desenvolvimento se encontra a ampliação do Parque Biológico

É

que, em Gaia, damos mesmo uma enorme importância à sustentabilidade ambiental, aos espaços verdes e à educação ambiental como, de resto, a nossa prática anterior bem demonstra. Não foi por acaso que a Senhora Presidente da Câmara Municipal de Setúbal se deslocou há dias a Vila Nova de Gaia, com um grupo de técnicos, para observarem in loco o nosso trabalho nos espaços verdes que, segundo a Senhora Dr.ª Maria das Dores Meira afirmou à Imprensa, “É um exemplo excepcional, muito acima das nossas expectativas, muito acima das referências que tínhamos. De zero a 20, eu daria uma classificação de 21. Vou daqui maravilhada”.

E é assim que queremos que os nossos visitantes recordem Gaia! E é para isso que vamos iniciar dentro de dias a construção do Parque da Ponte Maria Pia, que na próxima Primavera já acolherá visitantes e, mais adiante, o Parque da Quinta das Devesas cuja abertura ao público se admite possa acontecer no Verão. E é por isso, também, que queremos neste mandato concluir a ampliação do Parque Biológico, no ano em que este equipamento municipal completa 30 anos de atividade ininterrupta e sempre em crescimento e ultrapassa os 2 milhões e meio de visitantes. Esperamos que nesta recta final do Quadro Comunitário de Apoio sejam, ainda,

Futuro Parque da Quinta das Devesas

consagrados fundos que permitam concluir ou renovar os equipamentos em falta no Parque Biológico, como o Centro de Recuperação de Fauna que presta um serviço único na região, reabilitando e restituindo anualmente à natureza milhares de aves e outros animais que de outro modo se perderiam, e ajudando a cumprir os objectivos de conservação da biodiversidade traçados pela União Europeia e pela ONU. A meta traçada em Março de 2009, de 6 m2 de espaço verde público por habitante foi já ultrapassada e esperamos, em 2013, chegar aos 7 m2, o que totaliza mais de 2 milhões de metros quadrados de espaços verdes de uso público, com todas as vantagens inerentes para a qualidade de vida das populações.

Parque Biológico de Gaia, recepção

Francisco Saraiva

Parque Biológico de Gaia

João L. Teixeira

Futuro Parque da Ponte Maria Pia

João L. Teixeira

João L. Teixeira

Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 7


CONCURSO

FOTOGRAFIA ASTRONÓMICA Observatório Astronómico do Parque Biológico de Gaia – OAPB Gaia 1.ª EDIÇÃO 2013 OBSERVATÓRIO ASTRONÓMICO

Consulta regulamento e boletim de inscrição em: http://www.parquebiologico.pt/doc.php?id=111&PAG=Astronomia ou consulta o facebook do Observatório em: http://pt-br.facebook.com/observatorioastronomicopbg Parque Biológico de Gaia | 4430-812 Avintes www.parquebiologico.pt | astronomia@parquebiologico.pt

AGUAS

DE

GAIA

Foto: Região de Antares, © Luís Lopes

ÁGUAS E PARQUE BIOLÓGICO DE GAIA, EEM

Dia Nacional da Cultura Científica Sábado, 24 de novembro

O ÇÃ PA ! I C I ITA RT PA RATU G

Programa 9h30 – S  aída do Parque Biológico de Gaia em autocarro em direção à RNLED (Reserva Natural Local do Estuário do Douro) 10h/11h00 – RNLED - Observação de aves 11h/12h0  0 –  Cais da Afurada - artes da pesca/ visita guiada  12h/13h00 – Almoço livre ou em restaurante (sob marcação prévia) 13h/14h0  0 – Granitos de Lavadores - Percurso a pé desde a RNLED até à praia de Lavadores 14h30 – Ribeiras de Gaia - Visita guiada ao

CEAR (Centro de Educação Ambiental das Ribeiras de Gaia) 15h30 – Dinâmica Litoral - Visita guiada ao Parque de Dunas da Aguda 16h30 – Museu e fauna Litoral - Visita guiada à ELA (Estação Litoral da Aguda) 17h30 – Regresso ao Parque Biológico de Gaia   Informações e inscrições Gabinete de Atendimento: Tel. 22 787 81 37/8; Fax 22 787 81 28; E-mail: atendimento@parquebiologico.pt

ELA - Estação Litoral da Aguda Rua Alfredo Dias, Praia da Aguda, 4410-475 Arcozelo • Vila Nova de Gaia

8 • Parques e Vida Selvagem outono 2012


VER E FALAR 9 Ano XI • N.º

D

e Pirescoxe, em Santa Iria de Azóia, João Tomaz envia o seu e-mail: «No dia 11 de julho procurei a vossa revista nas bancas na zona de Lisboa, em três quiosques e em duas bombas de gasolina, e não consegui adquiri-la. Gostaria que me enviassem a revista n.º 40. Se o envio tiver custos mandem-me à cobrança por favor. Muito obrigado!». A revista seguiu para a morada indicada. Como este surgiram muitos e-mails. O problema liga-se à regionalização da distribuição da revista, antes de âmbito nacional. Da Faculdade de Ciências e Tecnologia, na Caparica, Sandra Ferreira diz: «Bom dia, trabalho na Biblioteca do Departamento de Ciências da Terra e gostaria de receber a vossa revista se fosse possível para a integrar na nossa biblioteca». Seguiram os três números mais recentes da revista PARQUES E VIDA SELVAGEM, sem titubear.

Luís Pereira

Abetarda em Valongo Luís Pereira diz no seu e-mail: «No dia 16 de julho, numa volta em BTT ao final do dia, pela serra de Suzão, Valongo, encontrei morta a ave que as fotos documentam.

A causa de morte poderá ter sido um choque elétrico causado pelos cabos de alta tensão que se encontravam diretamente acima do local em que jazia a ave. Como nunca havia visto anteriormente uma ave de grande porte por esta zona, para além de lamentar a sorte desta, fiquei com curiosidade em saber de que ave se trata. Ocorreu-me enviar-vos este e-mail na expectativa de que me consigam esclarecer. Conseguem identificá-la? É comum na fauna nacional?». Nuno Gomes Oliveira, o diretor, respondeu: «A notícia que fez o favor de nos enviar é fantástica; presença de ABETARDA (Otis tarda) no Norte é uma informação raríssima. Trata-se de uma espécie das estepes cerealíferas, observável no Alentejo (particularmente comum na zona de Castro Verde), mas rara, pois estimou-se a população portuguesa, no ano 2002, em 1150 aves, com tendência para decrescer. No Norte é raríssima, podendo ocorrer em Trás-os-Montes, pois há uma população significativa na Reserva Natural de Vilafáfila (Zamora, Espanha), a uns 60 km, em linha reta, de Miranda do Douro. Agora, em Suzão (Valongo), é uma notícia absolutamente inesperada; poderá indiciar uma expansão natural da população de Vilafáfila ou poderá ser um mero acidente (uma ave que se perdeu). Teríamos muito interesse em recolher o cadáver, pois isso permitia, através de análises genéticas, tentar descobrir qual a população de origem. Será que tem a paciência de nos indicar o local exato, ou nos conduzir até lá? Entretanto, junto foto da abetarda e informações, e desde já lhe solicito autorização para usar as suas fotos e a sua informação na nossa próxima revista».

de setembro

de 2012

faz parte integran te da edição

do Jornal de

Notícias e não

pode ser vendida

separadamente • Distribui

Dunas ANIVERSÁR IO DO PROGRA MA LIFE Reportagem AQUAMUSE U DO RIO MIN HO Entrevista MICROFÓSS EIS

Dunes LIFE PROJEC T ADDS 15 YEARS Report AQUA MUSE UM OF THE MIN HO RIVER Interview MICROFOSS ILS

Esta Revista

Assim que a revista de verão foi distribuída com o “Jornal de Notícias” em 11 de julho os leitores começaram a reagir — quem a procurou fora da área de distribuição não hesitou, pergunta: Como posso ter acesso à revista?

junho a 21

ção gratuita

Os leitores escrevem

40 • 22 de

Susana Miranda

Osgas em Pedroso? Susana Miranda escreve: «Tenho uma praga de osgas no meu jardim. Todos os anos no verão vejo mais filhotes nos muros ao sol. É normal tão a Norte?». Resposta: «Diz que tem osgas no seu jardim mas não serão propriamente osgas, presumo. Talvez sardaniscas, não? Não serão uma praga, do nosso ponto de vista, uma vez que se elas não estivessem aí poderia ter, isso sim, verdadeiras pragas de espécies de invertebrados que dariam um sentido mais autêntico à palavra praga. Deixamos-lhe ligações para ver fotos da osga mais frequente no Sul e no Nordeste português e para ver a sardanisca que deverá estar a ver no seu quintal: Osga – http://pt.wikipedia.org/wiki/Osgamoura; Sardanisca – http://pt.wikipedia.org/ wiki/Podarcis_bocagei Disponha». Bem, afinal, como se vê na fotografia depois recebida, são mesmo osgas! Em Pedroso, Vila Nova de Gaia, e há já vários anos que ali existem. Escreve Susana Miranda: «Efetivamente parece ser uma osga-moura embora elas sejam um pouco mais escuras. Tenho uma enorme,

Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 9


10 VER E FALAR

talvez 10 cm, que entretanto perdeu o rabo que é assim clarinha, as outras (descendentes suponho) são mais escuras. No verão passado contei pelo menos 10 de tamanhos diferentes. Comecei por ver uma dentro da casota de madeira do cão há cerca de 3 anos e desde aí o número aumentou consideravelmente. São difíceis de ver, pois só aparecem em noites quentes e deslocam-se rapidamente. Já as vi apanharem insetos junto à luz, mas desconfio que também comem caracóis, pois aparecem muitas cascas vazias. Consegui apanhar duas grandes com uma rede e coloquei-as no jardim da minha mãe, pois tenho a casa à venda e receio que os novos proprietários destruam o jardim ou as matem».

Parque Biológico de Gaia, responde: «Pela fotografia diria, sem dúvida, que é uma alga incrustante do género Hildenbrandia, da família Hildenbrandiaceae. Parece-me a Hildenbrandia occidentalis Setchell, mas quanto à espécie já não estou assim tão certo».

Mais revistas Abílio Leite

Substância estranha nas rochas Abílio Leite escreve em 19 de julho: «Bom dia. Que substância será esta que está nas rochas que ficam descobertas na preiamar?». Henrique Alves, biólogo e técnico do

Os pedidos de aquisição de revistas mais antigas, por parte de vários leitores, continuam a chegar. Como entretanto já não há exemplares em armazém para atender a todos os pedidos, a alternativa de reunir uma coleção completa recai na internet: basta ir ao site www.parquebiologico.pt, procurar Recursos e aí Revistas — todas as anteriores edições da revista «Parques e Vida Selvagem» estão aí disponíveis.

Conheça as edições do Parque Desejo adquirir os seguintes títulos nas quantidades indicadas:

IVA incluído à taxa em vigor

Faça a sua encomenda, preencha com os dados:

Livro “Guia da Reserva Natural Local do Estuário do Douro” de vários autores Livro “José Bonifácio de Andrada e Silva: Um Ecologista no Séc. XVIII” de Nuno Gomes Oliveira Livro “Ecoturismo e Conservação da Natureza” de Nuno Gomes Oliveira Livro “Áreas de Importância Natural da Região do Porto de Nuno Gomes Oliveira Livro “Manual da Confecção do Linho” de Domingos Quintas Moreira Livro “Empresas Municipais” de Catarina Siquet Livro “Conservação dos Sistemas Dunares” de vários autores Livro “Cobras de Portugal” de Jorge Gomes Livro “Uma Escola Sem Muros: Diário de Um Professor” de Paulo Gandra Livro infantil “Galvino e Galvão, a Galinha-de-água e o Galeirão” de Manuel Mouta Faria Livro infantil “As Histórias de D. Lavandisca Alvéola” de Manuel Mouta Faria

€5,00 €10,00 €10,00 €25,00 €5,00 €11,00 €5,00 €5,00 €7,00 €15,00 €2,50

(PORTES DE CORREIO NÃO INCLUÍDOS)

sandra@parquebiologico.pt 10 • Parques e Vida Selvagem outono 2012


CARTOON 11

Por: Ernesto Brochado

Espaços verdes: Setúbal visita Gaia O ambiente e os espaços verdes atraíram a Vila Nova de Gaia uma comitiva da Câmara Municipal de Setúbal. “Viemos aprender com a Câmara de Gaia, de forma muito humilde, o que têm feito nas várias áreas que nos interessam. Viemos saber como fazem em relação aos espaços verdes, a forma de gerir, de tratar, a educação ambiental, enfim, viemos ver como tudo acontece”, explicou Maria das Dores Meira, Presidente da Câmara de Setúbal, eleita pela CDU, referindo-se ao propósito desta visita que se insere no âmbito do projeto municipal intitulado “Setúbal fora de portas”. A comitiva da Câmara de Setúbal foi constituída por Manuel Pisco Lopes, Vereador do Ambiente e Espaços Verdes, Elsa Lopes, Diretora das Atividades Económicas e Ambiente, e Sérgio Gaspar, Chefe de Divisão de Espaços Verdes, e foram acompanhados por Mercês Ferreira, Vereadora do Ambiente da Câmara de Gaia, e Nuno Oliveira, Diretor do Parque Biológico.

Durante todo o dia, a comitiva setubalense visitou o Parque da Lavandeira, o Parque de Dunas da Aguda, a Reserva Natural Local do Estuário do Douro, os jardins do Centro Cívico de Gaia, e o Parque Biológico de Gaia. Maria das Dores Meira fez o balanço: “É um

exemplo excecional, muito acima das nossas expectativas, muito acima das referências que tínhamos. De zero a 20, eu daria uma classificação de 21. Vou daqui maravilhada”. Texto e foto: Natália Lage

Nuno Oliveira, Diretor do Parque Biológico, Maria das Dores Meira, Presidente do Município de Setúbal, e Mercês Ferreira, Vereadora da Câmara de Gaia

Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 11


12 PORTFOLIO

Natureza viva Até nos dias de muito calor, em julho, o desafio lançado a Iara e a Marcos seguiu adiante. A ideia era durante alguns dias juntar imagens do Parque, com equipamento diversificado. O percurso de quase três quilómetros tornou-se um universo de muitos meandros, onde a luz por vezes parece uma serpente discreta, de múltiplas faces, difícil de reter. O tempo renovou oportunidades, viabilizou ajustes, elevou a autocrítica e, por fim, veio o resultado, uma mão-cheia de trabalhos de onde elegemos alguns para partilhar consigo.

Hipericão de jardim

12 • Parques e Vida Selvagem outono 2012


PORTFOLIO 13

Alfazema Iara Nascimento

Marcos Hazime

Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 13


14 PORTFOLIO

Iara Nascimento

Marcos Hazime

Iara Nascimento

14 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

Marcos Hazime


FOTONOTÍCIA 15

Dente-de-leão João L. Teixeira

Sementes que gizam o porvir

E

sta veio mesmo na direção do nariz! Sem recurso, a mão afasta-a… manda o instinto que o rosto deve ter contacto mínimo com objetos estranhos. Reside nele a sede da visão e de outros sentidos cujo papel é o de ficarem sempre alerta, como se aqui e agora não se pendurasse a nossa espécie no topo da pirâmide alimentar. Nem sempre foi, nem sempre é... assim. Pareceu-me ser esta uma semente de cardo. Daquelas flores de múltiplas pétalas macias, rosa-arroxeadas, cercadas de espinhos, adoradas pelos insetos polinizadores e pelas aranhas-caranguejeiras. Seguiu a semente a volitar, carregada no ar invisível, sem peso que se veja. Por ali jorra o sol, de olho nela com feição paternal. Como deusas da nano-engenharia, tabuas, cardos, dentes-de-leão e outras plantas conseguem meter um novo indivíduo em potencial, do princípio ao fim, numa cápsula mínima rodeada de abundantes plumas à sua medida, num requinte de ternura.

Tanto parecem agradar ao ar que este as leva consigo, em viagens imprevistas, cheias de eficácia. Outras sementes dispersam-se por diversos caminhos. É o caso das do pessegueiro ou da macieira. Estas árvores deixam-se de devaneios e sugerem um contrato salarial, tão atrativo que se atropelam os interessados em lhe acorrer. As plantas agradaram tanto ao parceiro humano, que este as cultiva à fartazana, dispersando espécies e indivíduos como nunca, nos pomares e na agricultura, tudo para que a semente receba o cuidado extremo gizado para cada novo ser. É em casos destes que não faz sentido um nosso olhar sobranceiro sobre as outras espécies. Herbívoros como corços e garranos, omnívoros como nós próprios ou os javalis, gostam de procurar a polpa gostosa, madura, de que se revestem tais frutos, tudo isso para que a semente pequenita, ali escondida, passe incólume nas substâncias escusas do aparelho digestivo, entre curvas e contracurvas, e saia

presenteada em solo adequado e devidamente agraciado pela luz. Mais estratégias existem, variadas, com engenho e arte em larga escala apontados para esquemas sábios de sobrevivência das espécies. Pelo mar ou pelos rios, vão outras sementes cercadas de esporos em busca de outras margens, variando a concorrência, e de olho nas oportunidades que vêm não no imediato mas sim em tempo certo, em sincronismo ideal. Não são transportes rodoviários os que um fruto tão bonito e tão gostoso como a castanha usa para se redistribuir. Envolvidas em espinhos, quais cerdas menos acutilantes para veados, javalis e quejandos, quando estes repousam sob a sombra de castanheiros encorpados, enredam-se os ouriços no pêlo, até que vão de boleia, a trote ou em passeio, caminho fora, para caírem algures. E o livro de estratégia está longe de estar fechado… Texto: Jorge Gomes

Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 15


16 PORTFOLIO FOTONOTÍCIA

Um castinçal era outra louça

S

outos e castinçais: bosquetes de castanheiro que levam nomes assaz diferentes. Souto é uma plantação de castanheiros com vista a obter rendimento da produção da castanha, fruto que tão bem sabe nesta época em que o frio se anuncia. Castinçal por sua vez é quase a mesma coisa, com a diferença da utilização da madeira de castanheiro para fins diversos. Utilizava-se esta madeira para móveis, bancos, socos, gamelas e muitos outros objetos. Castinçal e castiçal são palavras parecidas — depois do corte do tronco o rápido crescimento de novos ramos na árvore lembra a segunda palavra... No Centro da península Ibérica, quando acompanhávamos guardas da natureza na Reserva Natural Garganta de los Infiernos, ao subir a encosta não vimos acácias nem eucaliptos, espécies de origem australiana. Pelo contrário, naquele fim de inverno de há apenas quatro anos, enquanto o jipe galgava o trilho, via-se a rebentação de ramos castanhos, ainda sem folhas, a partir de tocos serrados. Em Portugal, plantariam eucaliptos provavel-

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mente... Obrigatório confirmar: que árvore é esta? Dominguez, adepto do Real Madrid, explicou que eram terrenos de proprietários privados situados já dentro da reserva. O que estava a ver eram plantações de castanheiro para aproveitamento da madeira. O guarda da natureza disse que os eucaliptos não eram permitidos. Segundo a lei espanhola, os proprietários estavam autorizados a cortar os troncos regenerados destes castanheiros de 20 em 20 anos, tal e qual como aqui se explora a cortiça num sobreiro de 9 em 9 anos, para não matar a árvore. As vantagens de optar por castinçais é notória: protege o solo e a água e são amigos da biodiversidade. E estes processos naturais ocorrem tão discretos como a queda de uma simples folha entre as muitas que se soltam nesta época. No chão, os nutrientes encarcerados nos seus tecidos têm de ser libertados. Esse trabalho é feito por fungos e micro-organismos do ecossistema. Graças ao seu esforço silencioso os nutrientes regressam à terra e podem ser novamente reutilizados por uma série de seres vivos. Quando se trata de árvores exóticas, como o

eucalipto, apesar de ser árvore de folha permanente, também deixa cair folhas. No seu ecossistema nativo, na Austrália, terá outros seres vivos que lhe desencarceram os nutrientes, mas na Europa os nossos fungos e auxiliares pouco podem face à indiferença da composição estranha dessas folhas, com químicos surdos à nossa linguagem. Resultado: a terra empobrece, sujeita-se a uma erosão acelerada, e mais ainda quando há incêndios em planos inclinados como as serranias... Assim se criam desertos a médio prazo, locais onde a vida é muito mais difícil. Como as árvores não são apenas tronco e ramos de folhas cantantes ao vento, as raízes, ocultas, são profundas no eucaliptal. Habituadas a correr terra fora em busca de rala humidade nos antípodas, são insaciáveis nos lençóis freáticos e sugam a água em fartos golos sem se engasgarem, num ritmo que deixa o solo desvalido. O oposto faz o carvalhal, o bosque nativo ex-líbris de Portugal, amigo das fontes de água pura e da terra fértil. Que tipo de futuro se está a construir? Texto: Jorge Gomes Foto: Jorge Casais


FOTONOTÍCIA 17

O fungo e a mosca

A

natureza está repleta de exemplos de seres belos, formas invulgares e comportamentos fascinantes. E é entre as mais fascinantes das criaturas que se encontram os fungos do género Entomophthora, um nome complicado que significa qualquer coisa como “destruidor de insetos”. Estes são parasitas obrigatórios de vários insetos – significa isto que o parasita não consegue viver sem o seu hospedeiro, sendo frequente uma espécie de fungo parasitar uma única espécie ou um grupo restrito de espécies. Uma das características mais interessantes nestes fungos é o modo como manipulam o comportamento do inseto a seu favor.

Se o inseto parasitado ao morrer caísse ao solo as probabilidades de dispersão dos esporos seriam bastante baixas. Assim, no decurso da evolução, o fungo “aprendeu” a manipular os insetos de forma a maximizar a dispersão dos esporos e deste modo chegar a um maior número de hospedeiros. Essa estratégia passa por obrigar o hospedeiro a dirigir-se para zonas mais altas, como a extremidade de uma planta, onde o inseto acaba por morrer. Aí, expostos ao vento, os esporos acabam por se dispersar por maiores distâncias assegurando assim a sobrevivência de uma nova geração de fungos. Durante a primavera e outono é frequente encontrar, sobretudo em zonas com maior

humidade como margens de rios e ribeiros, dezenas ou centenas de moscas mortas na extremidade da vegetação herbácea. As moscas morrem sempre em locais elevados e adotam uma postura característica: as asas afastam-se do corpo, as pernas esticam-se, o corpo inclina-se para a frente e o abdómen incha devido ao crescimento do fungo que irrompe através deste. É em casos como este que podemos ver os dois lados da mesma moeda em que o destino cruel dos insetos resulta de um dos mais belos e elaborados esquemas que a natureza produziu para manter viva a chama da vida. Texto e foto: Rui Andrade

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18 CONTRA-RELÓGIO

Muitas das paisagens que mais enchem os olhos e ficam na memória aninham-se nas montanhas

Diversidade biológica de montanha A grande variedade de ecossistemas que se instalam nas montanhas geram uma atração peculiar. Isso acontece porque abrigam um vasto património natural, desenhado pelo clima, pela geologia e por numerosos seres vivos às mais diversas escalas. Nem sempre se dará conta disso, apesar de estarmos na Década da Biodiversidade, mas dos cumes gelados às florestas tropicais, passando por áridos desertos, os habitats de montanha agregam alguns dos mais importantes biomas* do mundo. Também as áreas de montanha têm apresentado perdas de biodiversidade em resultado de atividades humanas, devido em grande medida a alterações no uso da terra. As ameaças surgem em todo o Gobo a partir da expansão da agricultura e da urbanização, somando-se a exploração florestal insustentável e os incêndios frequentes. As alterações climáticas afetam a diversidade biológica de montanha na medida em que reduzem a área disponível para os organismos adaptados a ambientes mais frios. Em muitos casos, e um pouco por todo o planeta, o ritmo a que as espécies vegetais ascendem nas encostas das montanhas sugere mudanças climáticas céleres.

Factos & números • Conhecidos como “torres de água do planeta”, os sistemas montanhosos cobrem cerca de 27% da superfície terrestre e deles depende diretamente 22% da população do mundo, já que proporcionam água doce a mais de metade da humanidade.

18 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

Isso quer dizer que nas zonas superiores destes relevos se irão juntar a curto prazo as espécies de seres vivos que consigam adaptar-se, estando em risco os organismos de habitats-limite do ponto de vista climático que não terão outros sítios para onde subir em busca das condições necessárias à sua sobrevivência. O Convénio sobre a Diversidade Biológica adotou um programa de trabalho precisamente nesta área, que inclui um conjunto de ações para abordar as características e problemas específicos dos ecossistemas de montanha. Esta medida tem por meta conservar a diversidade biológica das montanhas, sustentando a produção dos bens e serviços destes ecossistemas, contribuindo ainda para a redução da pobreza e, de acordo com os objetivos de desenvolvimento do milénio, melhorar a capacidade das instituições e das organizações para promover a conservação e a utilização sustentável da diversidade biológica. Fonte: www.cbd.int

* Bioma é um conjunto de diferentes ecossistemas que possuem um certo nível de homogeneidade. São as comunidades biológicas, as populações de organismos da fauna e da flora interagindo entre si e interagindo também com o ambiente físico chamado biótopo.

• É nas montanhas que se encontra aproximadamente um quarto da diversidade biológica terrestre mundial e são elas que englobam cerca de metade dos “pontos críticos” para a diversidade biológica mundial. • Das 20 espécies vegetais que proporcionam 80% dos alimentos do mundo, seis — milho,

Mountain Biodiversity countdown Mountains encompass spectacular landscapes; a wide variety of ecosystems, a great diversity of species, and distinctive human communities. The world’s principal biome types - from hyper-arid hot desert and tropical forest to arid polar icecaps - all occur in mountains. Almost every area that is jointly important for plants, amphibians and endemic birds is located within a mountain range.

Cervunal, Parque Nat

batata, cevada, sorgo, tomate e maçãs — têm origem em montanhas. • Os bosques tropicais perenifólios das nuvens, que albergam as variedades selvagens e as fontes de diversidade genética de importantes cultivos de primeira necessidade — como feijão, batata e café — são a parte mais frágil e


CONTRA-RELÓGIO 19

Endemismo reaparecido Carex furva

Carex fu

rva Modesto

Luceno

tural da Serra da Estrela José Conde

mais diminuída dos bosques de montanha. • Uma grande parte de mamíferos domésticos — ovelha, cabra, iaque domesticado, lama e alpaca — tiveram origem em regiões montanhosas. • A diversidade genética tende a ser maior em

O Centro de Interpretação da Serra da Estrela, do Município de Seia, e o Centro de Ecologia Funcional, da Universidade de Coimbra, submeteram no presente ano uma candidatura ao Kew’s Millennium Seed Bank Partnership. Este é o maior projeto de conservação ex situ de plantas do mundo cujo principal objetivo é contribuir para que as metas da Estratégia Global para a Conservação de Plantas sejam alcançadas (http://www.cbd.int/gspc). No decurso dos trabalhos de campo que decorrem no Parque Natural da Serra da Estrela, no âmbito deste projeto, foi redescoberta Carex furva, espécie que desde a década de 80 do século passado não era observada, apesar dos esforços de prospeção que decorreram ao longo das últimas três décadas. Este cárice, referenciado pela primeira vez para a serra da Estrela em 1880, é um endemismo orófilo ibérico da família Cyperaceae que ocorre em maciços montanhosos de algumas cordilheiras ibéricas que estiveram sob a ação glaciária do Quaternário, tais como Somiedo, Sanábria, Montes de Leão, Gredos, Guadarrama e serra Nevada, em Espanha, e serra da Estrela, em Portugal. Trata-se de uma espécie característica de cervunais, turfeiras e prados cuminais xerofíticos, localizados entre os 1900 e os 3100 metros de altitude, e que se encontra muito dependente da prolongada cobertura de neve. De caráter marcadamente alpino denota preferência por locais localizados no limiar da fusão da neve e, raramente, prospera abaixo dos 2000 metros de altitude, o que faz da serra da Estrela a localização de menor altitude da espécie e a área em que se encontra mais ameaçada. O atual cenário de alterações climáticas, os requisitos ecológicos da planta e o efetivo reduzido da população fazem de C. furva, uma das espécies mais ameaçadas da flora nacional, correndo sérios riscos de extinção. Os principais fatores de ameaça são o sobrepastoreio do gado bovino que se verifica actualmente na serra, a alteração da dinâmica natural dos cursos de água de montanha (drenagem e poluição) e a pressão turística. Encontrando-se a população da serra da Estrela no limite inferior de distribuição altitudinal da espécie, e atendendo aos fatores de pressão que colocam em causa o equilíbrio e a sustentabilidade dos frágeis habitats de ocorrência da espécie, revela-se a importância da conservação dos habitats de montanha para a manutenção da biodiversidade nacional. Por Alexandre Silva,técnico do Centro de Interpretação da Serra da Estrela – Município de Seia

montanhas associadas à diversidade cultural e à variação extrema das condições ambientais locais. • As montanhas são amiúde santuários de plantas e animais desaparecidos há bastante tempo das terras baixas mais transformadas. Por exemplo, os últimos gorilas de montanha

sobrevivem entre os vulcões de países como o Ruanda e o Uganda. • As montanhas são vulneráveis a muitas ameaças naturais e antropogénicas, incluídos os riscos sísmicos, os incêndios, os câmbios da crusta terrestre, a intensificação agrícola, a instalação de infra-estruturas e os conflitos armados.

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20 QUINTEIRO

Rever as plantas Nesta altura do ano a flora entra em repouso vegetativo e a nidificação das aves já passou: uma boa altura para melhorar a biodiversidade do seu jardim Isso quer dizer que não corre o risco de expor ninhos durante a poda de uma sebe ou até de trucidar em pleno rejuvenescimento uma planta como ocorreria na primavera. É dentro deste ponto de vista que se diz ser esta altura do ano a melhor para rever as espécies de plantas que reúne no seu jardim. O quadro atual terá derivado de critérios estéticos — a beleza das flores ou das folhas no seu conjunto —, de valores pragmáticos — aquelas plantas que não exigem grande cuidado — entre outras motivações. Nessa altura não terá feito esta pergunta: são as espécies escolhidas, que vê agora no seu jardim, atrativas para os animais silvestres que gostaria de rever no seu jardim? O normal é que se tiver uma certa quantidade de plantas próprias da sua região — conhecidas como autóctones ou nativas — já está a atrair essa simpática vida selvagem. As aves que saltitam no seu jardim adaptam-se a uma ementa sazonal. Outono é época de sementes e frutos. O sabugueiro é um arbusto habitual na região e é suficientemente descarado, no bom sentido, para aparecer subitamente no seu quintal. Provavelmente uma toutinegra ou um melro que visita o seu pequeno espaço verde defecou por ali, depois de ter comido algumas bagas nas redondezas. A semente aquietou-se, discreta, e germinou. Acontece o mesmo com os loureiros, árvores típicas dos antigos jardins urbanos que costumavam ter a contento esta árvore 20 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

– com boa folha para temperar o assado domingueiro. Se tiver algum recanto viável, pode instalar ou simular uma sebe. Cabe aí a madressilva, outra bela presença, com interesse para a observação de vida selvagem. Se no estio dão flores do agrado de muitos insetos, no início do outono as bagas vermelhas servem muitos bicos. Nas sebes escondem-se aranhas e lagartas, mais larvas e formigas, caracóis e escaravelhos que atraem uma boa fasquia de aves selvagens. Outras plantas existem muito pouco valorizadas que pode deixar no sopé de um muro: as gramíneas espontâneas. No fundo as gramíneas são as ervas que dão grão. Na história, cativaram o ser humano de modo a serem plantas largamente cultivadas em todo o Globo. No Ocidente, foi o cultivo trigo. No Oriente, é o arroz. Há milhares de outras espécies deste largo grupo que se espalham por campos e caminhos, e também no seu quinteiro, gerando grãos a que as aves dedicam especial atenção. Além das plantas nativas outras há que podem aumentar significativamente o interesse dos animais silvestres. É o caso de alguns pés de girassol que agora dão inúmeras sementes, sem olvidar o medronheiro e a sorveira, Sorbus aucuparia. Contudo, uma vez que quando o frio se aproxima há maior necessidade de calorias,

Toutinegra-de-barrete

poderá instalar um comedouro dedicado à passarada que visita o seu jardim. Entre o estio e a primavera, as novas gerações de aves irão passar por testes duros após os quais só os mais adaptáveis e mais robustos conseguirão sobreviver. E até estes, com a escassez de habitats de alimentação, poderão ser apoiados por si. Basta instalar fora do alcance dos gatos um ou mais alimentadores com mistura de sementes. Isso irá fornecer o suplemento alimentar necessário à passagem das estações mais frias do ano. Texto: JG


QUINTEIRO 21

Chapim-carvoeiro

Pombo-torcaz

Tordo

Chapim-real

Pica-pau-malhado-gran

de

Verdilhão

Altos e baixos

Uma organização britânica de ornitologia* registou as espécies vistas em jardins de observadores de aves selvagens…

Plants in your garden Autumn signals the end of the nesting season. This a good time to think about the species of the plants you are using in your garden. Have you asked yourself this question already? Are the plant species you are using the best ones to attract birds into your garden or near your home?

– Pisco-de-peito-ruivo Desde meados da década de 80 que estes piscos de peito alaranjado aumentaram de número estando agora a ser vistos em 80% dos jardins. – Pombo-torcaz Aumentaram significativamente em meados da década de 70. Hoje é a quarta espécie mais observada nos quintais ingleses. – Verdilhão Desde 2006 que a quantidade de verdilhões vistos nestes jardins desceu 20%, muitos afetados por uma doença conhecido por tricomoníase. Agora só se veem em metade dos jardins.

Pisco-de-peito-ruivo

Estorninho

– Pica-pau-malhado grande Nos anos 70 esta ave terá beneficiado de doenças que atacaram algumas espécies de árvores e criaram aí novos ninhos. Estes picapaus são observados em 25% dos jardins. – Tordo-comum Nunca foram um visitante habitual dos jardins ingleses mas ainda assim nota-se que a população está a diminuir desde 1980. Vê-se em menos de metade dos jardins sob contagem. – Estorninhos Tem decrescido em toda a Europa desde a década de 80 e também se vê em menos de metade dos jardins britânicos. * British Trust for Ornithology.

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22 QUINTEIRO

O fogo bacteriano é uma doença que afeta fruteiras e plantas ornamentais da família das rosáceas, provocando importantes prejuízos económicos, com particular impacto na atividade agrícola

Fogo

bacteriano O agente causal da doença é a bactéria Erwinia amylovora (Burril) Winslow et al. E. amylovora é um dos organismos de quarentena que consta dos anexos do Decretolei n.º 243/2009 de 17 de setembro e suas alterações. Este diploma, que define as medidas de proteção fitossanitária destinadas a evitar a introdução e dispersão no território nacional e comunitário, incluindo nas zonas protegidas, de organismos prejudiciais aos vegetais e produtos vegetais qualquer que seja a sua proveniência, transpõe para o direito nacional a Diretiva 2000/29/CE, do Conselho de 8 de maio, e suas alterações. Conforme consta do Reg. (CE) n.º 690/2008 da Comissão de 4 de julho, Anexo I, b), ponto 2, relativamente à Erwinia amylovora (Burr.) Winsl. et al, Portugal é considerado zona protegida para a totalidade do seu território, isto é, uma região para a qual o organismo prejudicial não é endémico nem está estabelecido, apesar de existirem condições favoráveis ao seu estabelecimento. Assim, a partir de 1994, de forma a Portugal manter a sua situação fitossanitária perante os restantes Estados-membros, em cada campanha, sob a coordenação da autoridade fitossanitária nacional (actual DGAV- Direcção Geral de Alimentação e

22 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

Veterinária) tem sido implementado um programa de prospeção em todo o território nacional a fim de serem detectados eventuais focos da doença e se proceder à tomada das respetivas medidas de proteção. A metodologia seguida assenta essencialmente na observação da presença de sintomas em potenciais hospedeiros e na colheita de amostras para análise laboratorial. Na região Norte de Portugal este programa de prospeção tem sido da responsabilidade da Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte - Divisão de Protecção e Controlo Fitossanitário. Atendendo ao aparecimento de diversos focos da E. amylovora nos últimos dois anos em território português, com maior expressão na região do Oeste em pomares de pereiras, conforme consta nos editais publicitados, houve necessidade de serem implementadas medidas acrescidas de proteção de modo a erradicar e ou conter o Fogo Bacteriano. Neste contexto, foi publicada legislação complementar, Portaria n.º 287/2011 de 31 de outubro, que estabelece medidas adicionais de proteção fitossanitária destinadas ao controlo no território nacional, da referida bactéria, com vista à sua erradicação ou quando esta não for possível, à sua contenção. Assim, a fim de ser implementada no

terreno uma estratégia de controlo integrada contra o fogo bacteriano envolvendo diferentes entidades com recurso a diversos instrumentos, foi elaborado um plano nacional para o controlo do fogo bacteriano sob a coordenação da Direcção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV).

Sintomas Presença de necroses de cor castanha a negra, dependendo do hospedeiro, que lembram o aspeto de queima, daí a designação de “Fogo Bacteriano”. Os ramos necrosados, folhas e frutos, mantêm-se aderentes à planta, adquirindo uma posição arqueada em forma de bordão. Os frutos imaturos também podem apresentar necroses castanhas a negras, parciais ou completas, dependendo do seu estado de desenvolvimento, ficando desidratados, com aspeto “engelhado”, permanecendo aderentes ao corimbo. Nas folhas são visíveis manchas de cor castanha a negra ao longo da nervura principal e nas margens. Nos ramos e troncos desenvolvem-se cancros em depressão, com fendilhamento irregular da casca. Se a casca for removida observa-se uma coloração castanha-avermelhada dos tecidos.


Francisco Quirino

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Rui de So

Rui de Sousa

Pormenor

de raminho

morto Necrose nas folhas

Árvore afetada pela doe

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a de bordão

Necrose total dos frutos

Francisco Quirin

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Em todos os órgãos afetados é possível observar a presença de exsudado bacteriano (líquido viscoso de cor creme a alaranjada).

Hospedeiros Malus spp. (macieiras), Pyrus spp. (pereira), Cydonia spp. (marmeleiro), Eriobothrya japonica (nespereira), Rubus spp. (amorasde-silvas), Sorbus spp. (sorveira), Prunus salicina (ameixeira-japonesa), Amelanchier spp., Chaenomeles spp. (marmeleiro-dojapão), Cotoneaster spp., Crataegus spp. (escalheiro), Mespilus germanica (nespereirada-europa), Photinia spp., Pyracantha spp., Rosa rugosa e Pyrus amygdaliformis.

Biologia Na primavera a bactéria penetra na planta através dos gomos foliares e florais, das aberturas naturais (estomas, lentículas e hidátodos) e de pequenas lesões, sendo transportada pelo vento, chuva e insetos.

Rui de Sousa

Após a infeção primária dos raminhos, e na presença de elevada humidade relativa, produz-se o exsudado bacteriano, que permite a dispersão da bactéria pelos insetos polinizadores (nomeadamente as abelhas) e operações culturais incorretas. A plantação de material vegetal infetado e assintomático é um meio importante de introdução da bactéria.

s folhas

Necroses na

irino

Francisco Qu

Autores:Gisela Chicau - Engenheira Agrónoma - (DRAPN – DPCF), Leonor Cruz - Investigadora (INIAV), Miguel Rebelo – Engenheiro Agrícola (DRAPN – DPCF). BIBLIOGRAFIA Agrios, G. N. (2005) Plant Pathology, 5th Edition, Elsevier Academic Press, London, UK. 922pp

Meios de controlo

Cruz, L. (2010) Fogo Bacteriano –

Não existe tratamento curativo para o fogo bacteriano. Na plantação de pomares novos deverão usar-se as variedades menos suscetíveis e vigiar o aparecimento de sintomas. Realizar as operações culturais antes da rega e manter os níveis de fertilização equilibrados são medidas recomendadas. Em caso de suspeita da doença, deverá entrar de imediato em contacto com os técnicos da Direcção Regional de Agricultura da sua área geográfica.

INIA/UIPP (Boletim técnico 05).

Erwinia amylovora. Lisboa: INRB/LDGADR (2011) Manual de Boas Práticas para o Controlo do Fogo Bacteriano, Lisboa. 35pp. EPPO/CABI Data Sheets on Quarantine Pests – Erwinia amylovora (www.eppo.int/QUARANTINE/listA2. htm) (21-09-2012) Teviotdale, B. L. (2011) Fire Blight. University of California (Publication 7414) (www.ipm.ucdavis.edu) (2109-2012).

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24 DUNAS

Cordão dunar Se partir da Reserva Natural do Estuário do rio Douro rumo a sul, ao longo de cerca de 14 quilómetros palmilha a zona costeira do concelho de Vila Nova de Gaia. Nesse trajeto encontra um litoral rochoso, de que é exemplo o maciço granítico de Lavadores e um cordão de dunas, fundamental para travar o avanço do mar. Além dessa função, o corolário de dunas

é habitat de dezenas de espécies de plantas nativas e de múltipla fauna selvagem. É por isso que se encontram instalados regeneradores dunares, estruturas de madeira que ajudam a dar mais corpo às dunas, estabilizando-as. Também de madeira, os passadiços desempenham um papel insubstituível para

João L. Teixe

ira

que esta paisagem possa ser fruída pela população que a visita, seja para a apreciar seja para uma caminhada revigorante. Sem eles, as plantas morreriam e as suas longas raízes desfazer-se-iam nas dunas. Nalgumas destas dunas, ocorre o habitat prioritário n.º 2130, segundo a diretiva específica emanada da União Europeia.

Parque de Dunas da Aguda

João L. Teixeira

24 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

Quando o outono anuncia a chegada de um ar mais frio, as plantas das dunas já estão a soltar as suas sementes. Com estratégias das mais variadas, contam com uma mão-cheia de agentes dispersores. Em muitos casos basta o vento. Por exemplo, o lírio-das-praias, Pancratium maritimum, depois da grande flor branca murchar, solta as sementes envolvidas por uma matéria preta de aspeto esponjoso, parecida com um fragmento de pau

queimado, muito leve. Sob a ação do vento, dispersam-se dunas fora, até que encalham, ficam soterradas de areia e brotam em tempo útil. Outras plantas, como as artemísias e as da família das crucíferas, contam com seres vivos para esse efeito. Aves, migradoras ou residentes, alimentam-se delas e dispersam as sementes ao defecarem. O mesmo fazem as espécies de rato do campo que ali vivem e até insetos armazenadores de sementes.


Centro de Interpretação da RNLED

Reserva Natural Local do Estuário do Douro Os avistamentos de flamingos no rio Douro começam a ser recorrentes...

O

sório Cabral escreve em 9 de agosto: «Resido no Porto e faço caminhadas regulares na pista pedonal entre a marina do Freixo e Gramido. Desconhecendo a entidade mais indicada para divulgar o que relato a seguir, tomei a liberdade de vos contactar, convicto de que, caso vejam interesse nisso, o poderão divulgar. No passado dia 31 de julho de 2012, pelas 9h40, avistei, no meio do rio Douro, na zona da Lavandeira (Gondomar), um bando de aves pernaltas, de pé sobre um banco de areia submerso que sei existir no local. Em anexo envio a foto original que tirei na altura, com o zoom no máximo. Pareceram-me flamingos, bem como aos companheiros de caminhada que me chamaram a atenção para as aves. Recortei a foto e ampliei-a, mas a resolução possível não me permitiu uma identificação positiva. Enviei a imagem para um amigo de Lisboa, com experiência de fotografar flamingos no Tejo e com melhores ferramentas para tratar fotografias, e ele identificou as aves da foto como flamingos. Estou a reportar este avistamento por saber que é raro, mesmo no estuário do Douro,* pensando que pode ter interesse a sua divulgação. Caso não tenha interesse, desde já peço desculpa pela maçada de me lerem».

Nuno Gomes Oliveira respondeu: «Bom dia, Senhor Osório Cabral. Muito agradeço a sua informação, que para nós é preciosa. Já registámos outros avistamentos de flamingos no Douro, nomeadamente no Cabedelo, e este grupo que agora relata também foi visto por um nosso jardineiro que costuma ir pescar para o Douro.

“subir” ainda mais e a visitarem o rio Douro. Autoriza a publicação da foto que nos enviou na nossa revista “Parques e Vida Selvagem”, para registar o avistamento? Claro que com indicação do autor. Se fizer o favor de nos enviar o seu endereço postal, terei todo o gosto em lhe enviar o Guia do Estuário do Douro, com identificação de todas as espécies que ali ocorrem».

A migrar

Flamingos no rio Douro

Osório Cabral

Os flamingos, que até há 30, 40 anos eram raros, e apenas vistos entre o Algarve e o estuário do Tejo, começaram a “subir”; desde há alguns anos são presença regular, e em grande quantidade, na ria de Aveiro. Trata-se de indivíduos jovens, provenientes das colónias de nidificação de Espanha e França. Em 2010 foi, pela primeira vez, confirmada a nidificação de flamingos na Lagoa dos Salgados, no Algarve. Agora, desde há dois ou três anos, estão a

Nesta época do ano a atividade migratória das aves selvagens aumenta. Embora os primeiríssimos movimentos rumo a sul já se tenham iniciado em julho, com aves como os cucos, é entre outubro e novembro que se consegue ver mais espécies forçadas a migrar entre o Norte europeu e África. A Reserva Natural Local do Estuário do Douro é um ótimo local, muito acessível e bem apetrechado, para dar um gosto à vista no que toca à observação destes animais alados. Nos primeiros domingos de cada mês, entre as 10h00 e o meio-dia, há sessões de observação de aves selvagens com a presença de um ornitólogo. * ver http://www.google.com/hostednews/ epa/article/ALeqM5i1rm3owyRQ_r_6T_ Ua6K9WycLSXA

Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 25


26 LITORAL

Ensino e investigação na A Estação Litoral da Aguda (ELA) está localizada na praia da Aguda, uma pequena aldeia piscatória, 10 km a sul do estuário do rio Douro, no concelho de Vila Nova de Gaia

O

edifício envolve um Museu das Pescas, um Aquário e um Departamento de Educação e Investigação. A ELA pertence à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia (CMG), é gerida pela Fundação ELA e está ligada ao Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto (UP), onde o autor é docente há 30 anos. Aberta em julho de 1999, recebeu até agora 310 mil visitantes.

Educação ambiental A ELA disponibiliza oito programas pedagógicos com os mais variados conteúdos de Biologia e Ecologia Marinhas para jardins-de-infância, escolas e o público em geral, abrangendo todos os níveis de escolaridade e de faixas etárias.

Ensino superior No âmbito do protocolo de colaboração, celebrado em 1997, entre a CMG e o ICBAS/UP, são lecionadas várias aulas de licenciatura*: Sistemática de Vertebrados (15 horas); Tecnologia das Pescas (34 horas); Ecologia Aquática (49 horas); Lampreias, Tubarões e Peixes Ósseos, para Veterinários (2 x 2,5 horas); e Mestrado: Produção de Peixes Ornamentais (50 horas)*; Introdução à Biologia e Ecologia Marinhas (50 horas)*.

Libertação de lavagante marcado

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As vantagens para o ensino e a investigação são a proximidade de um Litoral rochoso com as suas espécies características, de uma frota pesqueira e artes de pesca artesanal locais, de uma lota com o pescado local de importância económica, de um Museu das Pescas com 2000 objetos, para conhecer a pesca artesanal, ao nível local, regional e mundial, e de um Aquário com 60 espécies da fauna e flora aquáticas locais, sobretudo marinhas.

Estágios Desde 1999, foram concluídos na ELA 18 estágios sobre vários temas no âmbito da Ecologia Marinha, Aquacultura e Pesca.

Supervisão de mestrados e doutoramentos Entre 1998 e 2012, foram elaboradas oito teses de mestrado e uma tese de doutoramento, estando atualmente um doutoramento em curso que analisa os impactos naturais e artificiais sobre os organismos da zona-entre-marés.

Investigação científica Em colaboração com o ICBAS, o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), o Instituto Hidráulico e de Recursos

Estação Litoral da Aguda, ELA

Hídricos (IHRH) da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), foram já concluídos nove projetos de investigação. Dos dois projetos que estão a decorrer atualmente, destaca-se “Pesca, recaptura, cultivo e repovoamento do lavagante europeu (Homarus gammarus)”. Esta espécie deu sinais de desaparecimento em muitos lugares ao longo da costa europeia, provavelmente devido à captura excessiva, à ausência de políticas de conservação e/ou à falta de fiscalização efetiva. É um crustáceo valioso, muito apreciado na gastronomia mas com um crescimento muito lento. São animais que à medida que envelhecem, crescem menos, ou seja, os mais novos crescem mais e em menos tempo do que os mais velhos. Um exemplar que ultrapassa os três quilos poderá bem ter 50 anos de idade. Vários programas de conservação, proteção e repovoamento nasceram nalguns países, como na Espanha, Inglaterra, Noruega, Irlanda e Alemanha. Como não houve nenhum estudo, nem projeto acerca do lavagante em Portugal, iniciouse em 2006 um estudo com o objetivo de tentar saber o grau de risco desta espécie na praia da Aguda, como exemplo para o Norte de Portugal, já que há bastante tempo os pescadores comentavam que estavam a apanhar cada vez menos


LITORAL 27

Estação Litoral da Aguda

Fêmea de lavagante com ovos

animais e de menores dimensões. Notou-se que poucos pescadores cumpriam os tamanhos mínimos previstos na lei (20 cm de comprimento total ou 8,5 cm do cefalotórax). Os primeiros trabalhos envolveram estudos sobre a biometria, proporção de sexos e a distribuição do lavagante. Procurou-se recolher estes dados para determinar a evolução e a situação atual da população do lavagante na praia da Aguda, bem como recolher informações sobre o crescimento em meio natural de animais recapturados na pesca (profissional e experimental) e libertar lavagantes juvenis criados em laboratório. Em 2006, iniciaram-se marcações e libertações de lavagantes juvenis, capturados na pesca experimental e provenientes da pesca comercial, adquiridos na lota, que não apresentavam o tamanho mínimo previsto na lei, evitando que fossem vendidos para consumo. Contando com mais 19 animais, que foram marcados e libertados em setembro de 2012, foram reintroduzidos no mar um total de 171 lavagantes, desde o início do projeto. A taxa de recaptura dos animais marcados e libertados chegou aos 10%. Entre os valores máximos mensais, encontrou-se um ganho de

Lavagantes juvenis com 6 semanas

Lavagantes juvenis com 3 meses

Lavagante juvenil com 6 meses

Lavagante europeu (Homarus gammarus)

peso de 51 g e um crescimento do cefalotórax de 0,4 cm. Em paralelo, surgiu a necessidade de avaliar o potencial desta espécie para a aquacultura, com o objetivo de aumentar o “stock” natural, através de animais cultivados em laboratório e posteriormente libertados no mar. O cultivo desta espécie é dificultado pelas altas mortalidades derivadas do canibalismo e da inadequada alimentação (até 95 %), que ocorrem durante as fases larvares desta espécie. Conseguiu-se atingir uma taxa de sobrevivência até à fase juvenil de 30,0% mas, no ensaio seguinte, essa taxa diminuiu para 3,3%, correspondendo a um lote de 185 juvenis. Destes animais, 12 sobreviveram e foram eles os primeiros a ser libertados pela ELA, em setembro de 2011, após completarem um ano de idade. Esta ação decorreu com a ajuda de um mergulhador que levou os pequenos lavagantes, separadamente, até ao fundo do mar, onde foram libertados entre 8 e 10 metros de profundidade, à frente de pequenos buracos e pedras sobrepostas. O objetivo deste projeto, a longo prazo, é adquirir conhecimentos sobre o estado da população local e o aperfeiçoamento de diferentes técnicas

de cultivo. Em paralelo, irá fornecer as condições necessárias para um repovoamento sistemático do lavagante no mar da Aguda. Publicações Desde a apresentação da ideia da ELA à CMG, em 1989, foram publicados pelo autor e seus colaboradores 19 livros de divulgação científica, 23 artigos e comunicações científicas em revistas e congressos internacionais, 4 artigos e comunicações científicas em revistas e congressos nacionais, 22 artigos de divulgação científica em revistas internacionais e nacionais, 13 cartazes, 17 folhetos informativos, um calendário e um catálogo. Os conteúdos destas publicações focam a fauna e flora marinhas da praia da Aguda, revelam a história e a vida social do núcleo piscatório da praia da Aguda, e dão a conhecer os ecossistemas aquáticos em geral. O vigésimo livro está previsto para 2013 e analisa a história do anzol no mundo, ao longo dos tempos. Por Mike Weber

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28 LITORAL

Um lavagante chamado Jorge O “Jorge”, um lavagante europeu (Homarus gammarus), foi capturado numa rede no dia 23 de fevereiro de 2012, por uma traineira em frente a Espinho, a cerca de 30 metros de profundidade. Chegou à Estação Litoral da Aguda no mesmo dia, à noite. Após uma quarentena de quatro meses foi transferido, no dia 5 de julho, para o aquário de exposição n.º 11, onde está a viver com dois robalos, um mero e um pequeno cardume de tainhas… recebendo sete refeições por semana, compostas por sardinhas, lulas e caranguejos. “Jorge” pesa neste momento 5,550 kg e mede 53 cm de comprimento total, do rostro até à cauda. O seu cefalotórax tem 23 cm, o que exclui as garras e o abdómen, inclusive o télson. Estas dimensões são muito raras. O “Jorge” teve muita sorte por não ter sido capturado antes. Provavelmente tinha um esconderijo seguro, talvez os destroços de um barco afundado, onde passava a sua vida, sobretudo noturna, longe das artes de pesca (que aí não eram lançadas devido ao risco de perda), até à madrugada do dia 23 de fevereiro, quando a sua última escapada, longe da toca, lhe traçou o destino.

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O tamanho mínimo legal de captura do lavagante em Portugal é de 20 cm de comprimento total, medido do rostro até ao télson, ou de 8,5 cm de comprimento do cefalotórax. A maioria de animais capturados pesa até 1.5 kg e indivíduos com mais de 3 kg são exceções. O recorde mundial pertence a um lavagante americano que foi capturado na Nova Escócia em 1977 com 20,14 kg e 1,06 m, medido do télson até à ponta da maior garra. O recorde europeu é detido por um lavagante com 9,3 kg e 1,26 m de comprimento total, que foi capturado em 1931 durante os trabalhos de reconstrução de um quebra-mar em Cornwall, na Inglaterra. Não é possível dizer exatamente quantos anos o “Jorge” tem mas pode tentar-se fazer uma estimativa. A idade de um lavagante americano (Homarus americanus) é calculada pelo peso, que aumenta cerca de uma libra (453 g) em cada 7 a 10 anos de vida. Esta espécie cresce mais rapidamente e atinge maiores dimensões do que o lavagante europeu. Aplicando estes valores, o “Jorge” poderia ter bem 80 anos, portanto teria nascido antes

da II Guerra Mundial. Será possível que um crustáceo decápode atinja uma idade tão avançada? Ao envelhecer, as pessoas e a maioria dos animais enfraquecem e perdem a fertilidade, sofrendo mudanças anatómicas e fisiológicas características. As células são constantemente substituídas por novas células, conforme as especificações no ADN. Com o tempo, o ADN altera-se, as células perdem a capacidade de divisão perfeita e os seres vivos envelhecem. A investigação científica mostra que os lavagantes não apresentam os mesmos sintomas da idade porque possuem uma enzima que repara naturalmente o ADN. De facto, se não fosse por captura, ferimentos ou doenças, tudo leva a crer que os lavagantes poderiam viver indefinidamente. Por Mike Weber ELA - Estação Litoral da Aguda Rua Alfredo Dias, Praia da Aguda, 4410-475 Arcozelo • Vila Nova de Gaia Tel.: 227 536 360 / Fax: 227 535 155 ela.aguda@mail.telepac.pt www.fundacao-ela.pt


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Parque Botânico do Castelo João L. Teixeira

Agora que as plantas avançam para o repouso vegetativo próprio desta estação do ano, no Parque Botânico do Castelo, em Crestuma, requer a sua visita. Também sítio arqueológico, no verão passado foi alvo de uma nova campanha arqueológica. Com esta intervenção abriu-se uma nova frente de trabalho que pôs a descoberto a implanta-

ção da torre nascente desta construção da Alta Idade Média, evidenciando o assentamento das estruturas defensivas de madeira cobertas por telhados cerâmicos. Confirmou-se também a existência de um cais romano em Crestuma. Campanha organizada pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confra-

ria Queirosiana, teve o patrocínio da Águas e Parque Biológico de Gaia, EEM e a colaboração do Solar Condes de Resende no apoio técnico e estudo, tratamento e divulgação do espólio exumado. No ano que vem prepara-se a realização de um colóquio internacional sobre estas construções de elevado interesse histórico.

Parque da Lavandeira

João L. Teixeira

Neste sol de outono o Parque da Lavandeira é um espaço de lazer que fica em Oliveira do Douro. Nos seus onze hectares, encontra percursos pedestres que serpenteiam por entre o arvoredo, com jardins temáticos de onde em onde. Aqui e ali encontra locais para merendar e as suas crianças podem divertir-se nos parques de jogos ou no labirinto de sebes, um verdadeiro desafio à deteção de pormenores visuais. Com entrada grátis, este espaço verde é a escolha certa de inúmeros visitantes. Semanalmente há várias iniciativas. Aos sábados de manhã, “As mulheres do campo vêm à vila” e há venda de legumes sem pesticidas. Com orientação da responsabilidade da Dr.ª Luísa Bernardo, que proporciona a atividade em regime de voluntariado, há yoga às quartas e sextas-feiras às 9h45. Às segundas-feiras e às quintas-feiras, pode participar em aulas de Tai Chi às 9h30. Tudo isto é grátis. Pode seguir o Parque da Lavandeira no Facebook, no site www.parquebiologico.pt (botão Parque da Lavandeira), e-mail lavandeira@parquebiologico.pt ou telefonar para 227 878 138.

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30 EVENTO

Diane Nelson, investigadora norte-americana da East Tenessee University, apresenta as conclusões do evento João L. Teixeira

Tardígrados: simpósio internacional Para o cidadão comum têm um nome pitoresco, os tardígrados — entre 23 e 25 de julho juntaram no auditório do Parque Biológico de Gaia uma centena de investigadores de todos os continentes

Vinte e um países, 79 participantes, 35 apresentações, 40 pósteres: a síntese foi descrita por Diane Nelson, cientista norte-americana, nas conclusões do evento, feitas de uma forma tão rigorosa quanto divertida. Mas, afinal, o que são estes bichos? «Os tardígrados são animais de pequenas dimensões (0,05 a 1,5 mm) que constituem um filo independente, aparentado com o grande grupo zoológico que inclui insetos, crustáceos, aracnídeos, miriápodes, que são os artrópodes», diz Paulo Fontoura, professor universitário, investigador e mentor do evento. Se se considerar a vida a uma escala significativa mais pequena encontramos este grupo, o dos tardígrados, seres pluricelulares aquáticos também conhecidos como

“ursos-de-água” devido ao seu aspeto ao microscópio. Têm quatro pares de patas, invariavelmente com garras e um aparelho bucal complexo. Paulo Fontoura, um dos poucos investigadores da área em Portugal, já contribuiu para a descoberta de uma dúzia de novas espécies nos últimos anos, tendo sido duas delas identificadas no Parque Biológico de Gaia. Em Portugal estão descritas perto de 66 espécies, mas o cidadão comum nunca ouviu falar tanto de tardígrados como quando a Agência Espacial Europeia os utilizou em experiências no Espaço, no âmbito do projeto TARDIS (TARDigrades In Space) e TARSE (TArdigrade Resistance to Space Effects). Estes animais participaram em várias missões,

Lorena Rebecchi. da Universidade de Modena e Reggio Emilia, Itália João L. Teixeira

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João L. Teixeira


EVENTO 31

Sigmer Quiroga, da Universidade de Magdalena, na Colômbia, apresenta o seu tema João L. Teixeira

«tendo sido submetidos a experiências sobre sobrevivência em condições extremas, em espaço aberto, suportando o vácuo, raios cósmicos e radiações ultravioleta mil vezes superiores às da Terra». Uma das características destes pequenos animais é referida como criptobiose, algo que refere uma incrível capacidade de sobrevivência em condições adversas. Há espécies de tardígrados que, elucida Paulo Fontoura, «podem sobreviver à secura extrema, a temperaturas da ordem de -270º C». Como se não bastasse para serem fantásticos, «os tardígrados também são capazes de resistir a altas concentrações de substâncias tóxicas (álcool absoluto, por exemplo), ao vácuo, etc.». E depois «podem

regressar ao estado ativo ao fim de cerca de uma dezena de anos em criptobiose». Estas capacidades típicas dos tardígrados abrem horizontes pragmáticos, «nomeadamente ao nível da reparação do ADN, com potencial aplicação em investigação médica (oncologia e envelhecimento) e biotecnológica». São muitos anos de evolução: aponta-se para uma «origem de há cerca de 600 milhões de anos, no Pré-Câmbrico». Tão antigos quanto atuais, o próximo simpósio internacional ficou marcado para dentro de três anos em Modena, na Itália. Organizado pelo Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e pelo Parque Biológico de Gaia o 12th International Symposium on Tardigrada

Sessão de pósteres

verá os seus temas publicados pelo “Journal of Limnology”(*). As conferências internacionais sobre tardígrados vêm já do século passado, tendo começado em 1974, na cidade de Pallanza, Itália, em homenagem a G. Ramazzotti, na época o investigador mais conceituado desta área científica. Desde então, esta iniciativa de índole internacional junta dezenas de investigadores oriundos dos mais variados países e é organizada por instituições prestigiadas, a fim de debater temas como a filogenia e biologia molecular, a taxonomia, a biogeografia, a fisiologia e ecologia destes peculiares “ursos-de-água”. Texto: Jorge Gomes (*) www.jlimnol.it

Shinita Fujimoto, da Universidade de Quioto, Japão João L. Teixeira

João L. Teixeira

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32 ESPAÇOS VERDES

Magusto Na véspera do dia de S. Martinho, assinalado pelo calendário, o magusto da época está a ser preparado no Parque Biológico de Gaia

João L. Teixeira

Sábado, 10 de novembro, entre as 14h00 e as 17h00, pode participar com a família na recriação de um magusto tradicional que já vem sendo habitual neste Parque nos últimos anos. Para as escolas, o magusto está marcado para sexta-feira, dia 9 de novembro. Para participar tem de fazer a inscrição no Gabinete de Atendimento, que funciona de outubro a fevereiro 9h00/18h00; os telefones diretos são estes: 227878137 e 227878138. E-mail: atendimento@parquebiologico.pt.

Agenda DIA DO ANIVERSARIANTE No dia em que cada visitante comemora o seu aniversário, o Parque Biológico de Gaia faz questão de o presentear oferecendo-lhe a entrada livre nesse feliz dia. Para esse feito terá apenas de mostrar o seu cartão de cidadão. Sábado no Parque Em 3 de novembro o Parque prepara algumas atividades especiais para os seus visitantes, sem custos a não ser o bilhete de entrada habitual neste equipamento de educação ambiental. Programa: 11h00/12h00, atelier “Iniciação à fotografia”; 14h30, conversa do mês “Fotografia da natureza”; 15h00, “Exposição do Concurso de Fotografia Parques e Vida Selvagem, com a entrega dos prémios aos

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A curto prazo o Parque Biológico de Gaia propõe-lhe vencedores – trata-se da 10.ª edição desta iniciativa e vão ser expostos cerca de meia centena de trabalhos distinguidos pelo júri; 15h30/17h30, visita guiada pelos técnicos do Parque e percurso ornitológico; 22h00/23h30, atividades de astronomia a partir do Observatório Astronómico do Parque Biológico de Gaia (inscrição necessária). Depende das condições atmosféricas. Oficinas de Inverno Estes espaços lúdicos e educativos criados para os seus filhos trazem atividades que se destinam a idades entre os 5 e os 15 anos. Decorrem de 17 a 21 e de 26 a 28 de dezembro, com entrada às 9h00 e saída às 17h30. Encontra mais informações indo a

www.parquebiologico.pt, clicando em Atividades e depois em Campos e Oficinas. Anilhagem científica de aves selvagens Nos primeiros e terceiros sábados de cada mês, das 10h00 às 12h00, os visitantes do Parque podem assistir de passagem pelo percurso de descoberta da natureza (Quinta do Chasco) a estas atividades, se não chover. GUIA DE ATIVIDADES O guia de atividades do Parque Biológico para 2012/2013 está disponível no site www.parquebiologico.pt. Ao longo das suas 12 páginas encontra tudo o que é essencial saber para visitar o Parque, seja com a escola seja com a família.


ESPAÇOS VERDES 33

Que será isto?

A

estas iniciativas... Receba notícias por e-mail Para os leitores saberem das suas iniciativas a curto prazo, o Parque Biológico sugere uma visita semanal a www.parquebiologico.pt. A alternativa será receber os destaques, sempre que oportunos, por e-mail. Para isso, peça-os a: newsletter@parquebiologico.pt

Mais informações Gabinete de Atendimento atendimento@parquebiologico.pt Telefone direto: 227 878 138 4430-681 AVINTES - Portugal www.parquebiologico.pt.

J. S. Claro Oliveira

revista PARQUES E VIDA SELVAGEM de verão, ao ser distribuída com o «Jornal de Notícias» em 11 de julho, levou nesse mesmo dia Duarte Silva a escrever no seu e-mail: «Hoje vi a revista on-line e vi as duas espécies para adivinhar. Reconheci a ave sem a menor das dúvidas: é um melro-d’água, cujo nome científico é Cinclus cinclus». Muito bem. Foi o primeiro a acertar numa das duas espécies propostas, o que lhe reservou em primeira mão um dos prémios. Viemos a saber que mora em Ponte de Lima e, na lista de obras publicadas pelo Parque Biológico de Gaia, escolheu o livro “Ecoturismo e conservação da natureza”, que lhe foi logo enviado. Vera Lúcia Fonseca foi quem se seguiu entre os mais rápidos a acertar na espécie que faltava: «Boa noite, a planta é uma Camarinha ou camarinheira, Ericaceae Corema». Dizia também, simpática, que «esta revista como todas as outras está com excelente qualidade». Obrigado pela simpatia! Nesta nova edição, quem sabe se não

Jorge Casais

chega a sua vez de alcançar algum prémio? Para esta edição de outono, ficam as fotografias em cima. É capaz de identificar estes seres vivos? Se for, não deixe de nos dizer! As fotografias publicadas são sempre de vida selvagem que já foi observada na região. As respostas mais rápidas recebem como prémio um dos livros editados pelo Parque Biológico de Gaia. Deve ser indicado um dos nomes vulgares reconhecidos ou, melhor ainda, o género ou o nome científico. Se acertar numa só de ambas as espécies, a sua resposta é igualmente considerada na lista das mais rápidas. Envie-nos o seu e-mail (revista@ parquebiologico.pt) ou carta (Parque Biológico de Gaia - Revista “Parques e Vida Selvagem” - 4430-681 Avintes)! O prazo para as respostas termina em 9 de novembro de 2012. Os leitores já premiados em edições anteriores só o serão se não houver outra resposta certa (este item só é válido durante um ano a partir da atribuição do prémio). Então, já sabe o nome de alguma destas duas espécies?

ObservaNatura: turismo de natureza

J

unto ao Moinho de Maré da Mourisca, no estuário do Sado, a ObservaNatura ocupou o fim-de-semana de 13 e 14 de outubro. Constituiu a 4.ª edição da feira dedicada ao turismo ornitológico, uma modalidade focada na atividade de observação de aves. O evento incluiu atividades de fotografia, pintura e ilustração da Natureza. O vasto programa da feira “ObservaNatura” propõe workshops, minicursos, passeios pela

Reserva Natural do Estuário do Sado, por terra e no rio para observação de aves, oficinas e sessões de anilhagem. Com entrada livre, esta Feira organizada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF)/ Reserva Natural do Estuário do Sado e pela Tróia-Natura, conta com vários parceiros, entre eles o Turismo de Portugal, a Câmara Municipal de Setúbal, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, a Associação Baía de Setúbal e a Birds & Nature.

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Novidades de flora

Musgo-sedoso dos muros Homalothecium sericeum (Hedw.) B.S.G. Este musgo predominantemente saxícola (que significa “amante de rocha”) é muito característico e fácil de distinguir com uma observação atenta. O seu nome comum deve-se ao facto de esta espécie ter uma textura sedosa e dos seus tufos se alastrarem e recobrirem densamente as rochas ou o cimento dos muros, paredes e lajes. Apesar disto, também é possível encontrá-lo sobre os troncos e ramos de muitas árvores, especialmente nas com mais idade. Quando os tufos estão secos têm uma cor amarela-acastanhada, especialmente dourada. Os caulóides (órgãos análogos a caules) crescem em várias direções e estão fortemente aderentes ao substrato por numerosos rizóides (órgãos análogos a raízes). Os pequenos ramos (com menos de 1 cm) ficam arqueados e enrolados quando secos, com os filídeos (órgãos análogos a folhas) muito justapostos e fechados. Os filídeos apresentam 2.5-3 mm de comprimento e são em forma de lança muito aguçada. Assim que chove ou orvalha, os ramos e filídeos rapidamente se abrem e estendem, ficando os tufos com uma aparência muito mais densa e fofa e de uma cor mais esverdeada e menos dourada.

As cápsulas (órgãos onde se formam os esporos envolvidos na reprodução sexual) têm 2-3 mm de comprimento e são cilíndricas. Apesar do seu tamanho relativamente pequeno, os seus tufos podem atingir dezenas de centímetros. Por outro lado, sendo uma espécie perene, pode estar viva e presente durante mais de 10 anos sem nunca desaparecer nem morrer desde que as condições favoráveis ao seu crescimento se mantenham. Tal como acontece com outras espécies de musgo, esta espécie era colhida para pôr no presépio, mas também foi outrora usada para calafetar paredes e impedir a entrada do frio nas casas do Norte da Europa. É uma espécie cosmopolita nas zonas de clima temperado a fresco (zona holártica do Globo terrestre), presente na Europa e Norte de África. Em Portugal, é uma espécie frequente um pouco por todo o país. No Parque Biológico de Gaia pode ser facilmente observada em todos os muros e em alguns troncos de carvalhos e freixos. Texto: Cristiana Vieira e Helena Hespanhol Foto: Sónia Ferreira (CIBIO-UP)

Novidades de fauna

Abetouro-galego «No passado sábado, 11 de agosto, na minha visita ao Parque Biológico tive a sorte de fotografar este exemplar quando aguardava o guarda-rios. Só na anilhagem tinha visto um rouxinol-grande dos caniços!», diz António Pereira, referindo-se ao lago junto à ponte de madeira no percurso de descoberta da natureza. Quanto a nascimentos o destaque vai, desta vez, para as crias de abetouro-galego, Ixobrychus minutus, que viram a luz do dia em julho no Parque. De quatro ovos, eclodiram três. Agora já estão do tamanho de adultos. Trata-se da espécie de garça de menor dimensão do património natural português, nem sempre fácil de observar no estado selvagem.

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João L. Teixeira


ESPAÇOS VERDES 35

João L. Teixeira

Centro de Recuperação Uma pardela-de-bico-amarelo era visitante habitual do estuário do Douro Num qualquer centro de recuperação de fauna selvagem há histórias de sucesso, sempre que os animais debilitados acabam por melhorar e reunir condições para a sua sobrevivência em liberdade. Outras vezes não é assim, pois não se fazem milagres. O Centro de Recuperação do Parque Biológico de Gaia recebeu das mãos de agentes da PSP, em 26 de agosto, vinda do cais de Gaia, uma pardela-de-bico-amarelo, Calonectris diomedea, em mau estado. O diagnóstico preliminar foi traumatismo crânio-encefálico e tudo foi feito para estabilizar a ave, disse Sara Loio, médicaveterinária. Apurou-se através de um frequentador de um dos cafés-bar do cais de Gaia e pela proprietária de um destes estabelecimentos

que desde há cerca de quatro anos, no verão, uma pardela visitava habitualmente o dito café. A ave entrava nas instalações e circulava entre os clientes. Segundo estas pessoas, num desses sábados, de noite, a pardela terá pousado no café em frente e alguém, violento, «pegou na ave, colocou-a no chão da esplanada, deu-lhe em cheio com um cabo de vassoura na cabeça e atirou-a do 1.º andar». Instalada a confusão geral, com polícia ao barulho, o dito homem desnorteado terá apagado as luzes e desapareceu, ficando a autoridade a empreender a identificação do indivíduo que agrediu a ave. Infelizmente, a pardela acabou por não reagir aos tratamentos e morreu. Desde julho que havia observação desta espécie no cais de Gaia. Na noite de 18 de agosto João Luís Teixeira fez o registo fotográfico. Esta espécie não estava ainda listada na biodiversidade do concelho de Gaia.

António Pereira

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Dia Mundial do Animal Ninguém sabe se o milhafre recuperado para uma vida em liberdade percebe o que de bom lhe vai acontecer: «não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe» Na Escola Básica de Susão, em Valongo, há cerca de 400 alunos e professores que ouvem a explicação de Alexandra Cruz, técnica do Parque Biológico de Gaia, prestes a soltar a ave de rapina debilitada que deu entrada no centro de recuperação em 7 de junho deste ano, entregue pelo SEPNA. É assim face à comemoração, em 4 de outubro, do Dia Mundial do Animal. Aliás, nada que o Centro de Recuperação de Fauna Selvagem do Parque não faça habitualmente durante todo o ano… Diante de tanta gente, de início a voz apoia-se num megafone, mas como a expectativa é grande, o silêncio de quem quer ouvir dispensa-o: «Os milhafres são aves protegidas, que nesta altura estão em deslocação migratória para sul, nomeadamente para África». Com cuidado, Alexandra retira por fim a ave da caixa de transporte. O animal reconhece o ambiente, vê o céu daquela manhã e quando as mãos o soltam abre as asas e retoma o prazer de voar. O momento breve fica na mente dos que assistem – quem sabe se não virá a ser uma história a ser contada aos netos dentro de algumas décadas? Ao longo deste dia, houve uma série de libertações, sendo a maioria em Vila Nova de Gaia. O primeiro local desta sucessão de animais libertados foi o Parque de Dunas da Aguda, às 10h30: dois borrelhos-de-coleira-interrompida. Seguiu-se meia hora depois a Reserva Natural Local do Estuário do Douro, onde uma rola-do-mar regressou a habitat adequado. Pelas 14h30, um milhafre reabilitado abriu asas no Parque Botânico do Castelo, em Crestuma, e às 16h00 em Matosinhos, na quinta da Conceição, outro exemplar desta espécie fez o mesmo. Em Oliveira do Douro, pelas 19h00, no Parque da Lavandeira teve lugar a libertação de uma coruja e de um ouriço-cacheiro recuperados. À mesma hora dois mochos-galegos recuperados retomaram a sua vida em liberdade no Parque Biológico de Gaia, e uma hora depois na Maia, no Parque de Avioso, seguiu-se a devolução à natureza de um mocho e de uma coruja. Por fim, já noite, às 21h00, dois mochos-galegos foram libertados em S. João da Madeira, na Casa da Natureza, no Parque do rio Ul. Regra geral estes animais foram entregues como juvenis, caídos de ninhos e encontrados por alguém. Acabaram de se criar, foram reabilitados, e regressaram à natureza. Este centro de recuperação recebe, em média, cerca de 3 mil animais por ano, e cerca de metade conseguem ser restituídos à natureza. Outros chegam ao Parque em mau estado, com tiros de caça, por exemplo, sem qualquer hipótese de sobrevivência. Nesta comemoração passou-se a ideia de que deve haver preocupação com a conservação da biodiversidade — esta não é só o lince da Malcata.

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Parque de Avioso, Maia Deborah Castro

Escola Básica de Susão, em Valongo Pedro Almeida

Em Valongo, Alexandra Cruz prestes a libertar um milhafre recuperado Pedro Almeida

Quinta da Conceição, em Leça da Palmeira Rosário Lóio


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Vânia Monteiro

Tartarugas exóticas ameaçam biodiversidade Em Mire de Tibães, perto de Braga, nasceram espontaneamente, no passado mês de março, no jardim da casa de Vânia Monteiro, seis crias de um casal de tartaruga-hieroglífica, Pseudemys concinna

Com cerca de dez anos de idade e 18 cm (macho) e 25 cm (fêmea) de comprimento de carapaça, este casal de cágados exóticos é prolixo — já em 2011 foram observadas pelos donos cinco posturas: “A fêmea começa por cheirar todo o jardim, dá voltas e mais voltas e, depois de libertar um líquido que molha a terra, escava um buraco com cerca de 15 cm, põe os ovos e tapa de forma que ninguém percebe que a terra foi mexida”. As seis tartarugas desta espécie, recém-nascidas, foram deixadas ao cuidado do Parque Biológico de Gaia e os donos, conscientes, estão atentos no sentido de impedirem novas incubações. Esta é uma das espécies atualmente comercializada no nosso país proveniente dos EUA e, embora as condições climáticas tenham sido alteradas (através da rega do jardim), aqui

está a prova que o perigo da reprodução desta espécie, através de libertações nos nossos cursos de água por proprietários mal informados, é mesmo real. Fica aqui o alerta: se tem uma tartaruga e não a consegue manter, entregue-a num centro de recuperação, como o RIAS-Olhão ou o Parque Biológico de Gaia. Ambas as instituições estão envolvidas no projeto LIFE-Trachemys, centrado na conservação da biodiversidade, que tem em vista proteger as duas espécies nativas de cágado da fauna ibérica da introdução de espécies exóticas, que acabam por diminuir a diversidade da vida nos habitats autóctones. Para saber mais pode visitar na internet www. cma.gva.es e www.facebook.com/lifecagados. Texto: Ana Mafalda

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38 ESPAÇOS VERDES

Libertação de um andorinhão anilhado Ricardo Vieira

Anilhagem científica: seis anos de dados As sessões de anilhagem científica de aves selvagens no Parque Biológico de Gaia contaram seis anos de atividade contínua em setembro. Em ação na quinta do Chasco, em pleno percurso de descoberta da natureza, o grupo dá formação a voluntários. Pedro Andrade, entre os vários formandos, é o primeiro a conseguir a Credencial de Aprendiz de Anilhador. Parece pouco, mas segundo a lei em vigor teve de processar mil aves de 40 espécies, passeriformes e não passeriformes. Esta credencial permite a captura e a anilha-

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gem sem estar presente anilhador credenciado, posse de material, mas sempre sob a supervisão e responsabilidade de um anilhador e com as anilhas pertencentes a este. Há outras credenciais, mas para alcançar a dita cuja foram muitas madrugadas nos últimos anos a erguer cedo e a bulir na instalação das redes que permitem a colheita de dados deste setor da biodiversidade. Isto é possível sob a supervisão de dois anilhadores científicos credenciados, Rui M. Brito, biólogo, e António C. Pereira, químico. Com seis anos de acumulação de dados será

possível ir começando a relacionar, através dos dados das anilhas, o domínio territorial, longevidade, hábitos migratórios, viabilizandose conclusões que ajudam a conhecer melhor a vida selvagem que existe na região. Caso queira assistir a uma parte da atividade deste grupo de anilhagem científica de ave selvagens basta visitar o percurso de descoberta da natureza do Parque Biológico de Gaia e encontrá-los-á na quinta do Chasco nos primeiros e terceiros sábados de cada mês, entre as dez e as 12h30, desde que não chova.


BATER DE ASA 39

Esta gaivota-de-asa-escura, com a anilha azul N-JAR, esteve na RNLED entre 8 e 25 de agosto deste ano e em 8 de julho de 2010 sabe-se que esteve na Bélgica Paulo Faria

O voo das aves Uma codorniz, Coturnix coturnix, marcada com a anilha n.º GA5272 em 22 de agosto de 2011 na República Checa por Horak Miroslav, foi recapturada em Azinhaga, na Golegã, distrito de Santarém, morta a tiro, em 24 de novembro de 2011. Entre um local e outro percorreu 1819 quilómetros em 94 dias. Um tordo-comum, Turdus philomelos, recebeu em França, das mãos de François Gossmann, em 27 de setembro de 2008, a anilha n.º JA555146. Foi recapturado em 31 de janeiro de 2010 em Bragança por Tiago Santos, de Mirandela. Este tordo deslocou-se em 491 dias 1198 quilómetros.

Na Reserva Natural Local do Estuário do Douro são mais que muitas as anilhas em trânsito. A anilha de cor HUA4 transportada por uma gaivota-de-cabeça-preta, Ichthyaetus melanocephalus, foi registada nesta Reserva entre 7 de agosto e 17 de setembro de 2012. Em 5 de junho de 2010 tinha-lhe sido aplicada a anilha metálica Budapest382069, na Hungria, por Domján András. Uma gaivota-de-asa-escura, Larus fuscus, marcada com a anilha de cor N-JAR esteve na RNLED entre 8 e 25 de agosto deste ano. Imagine onde andaria esta ave em 8 de julho

Esta gaivota-de-cabeça-preta – anilha de cor HUA4 – foi vista na Reserva Natural Local do Estuário do Douro entre 7 de agosto e 17 de setembro: 2012.8.11

de 2010? Na Bélgica, em Voorhaven! O ano passado, em 11 de julho, já tinha sido vista na RNLED... Foi também possível saber que outra gaivota-de-cabeça-preta permaneceu na RNLED de 7 de agosto até 17 de setembro deste ano. A anilha de cor verde 5MO, fácil de identificar, viabilizou a informação: esta ave já visitara a RNLED em 11 de junho do ano passado, estando em 1 de agosto de 2011 na Afurada. Em 2012, entre 5 de maio e 8 de junho pousava na Camarga, em França – bom gosto! Em 11 de agosto e em 17 de setembro foi novamente vista na RNLED.

Outra gaivota-de-cabeçapreta - anilha 5MO - visita no verão Vila Nova de Gaia há mais de um ano - perde a cor preta da cabeça no outono: 2012.8.10 Paulo Faria

Paulo Faria

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40 ASTRONOMIA

Júpiter: o planeta gigante Conhecido desde a Antiguidade, o planeta Júpiter deve o seu nome ao mais importante dos deuses romanos No início do século XVII, Galileu Galilei observou pela primeira vez Júpiter através de um telescópio rudimentar, detetando detalhes na atmosfera do planeta e as suas quatro maiores luas. Desde então o nosso conhecimento do planeta evoluiu muito. Júpiter é o maior planeta do Sistema Solar. Orbita o Sol a uma distância média de 778 milhões de quilómetros, pouco mais de cinco vezes a distância da Terra ao Sol. O ano joviano, período necessário para que o planeta percorra a sua órbita em torno do Sol, é de 11.8 anos terrestres, uma consequência da sua maior distância ao Sol. Trata-se de um planeta de dimensões colossais. No seu diâmetro equatorial de 143 mil quilómetros caberiam 11 Terras alinhadas. A sua massa, 318 vezes superior à da Terra, é constituída maioritariamente por hidrogénio e hélio, os elementos mais leves e abundantes no Universo. Por esta razão Júpiter é o protótipo de um tipo de planeta designado Gigante Gasoso. Apesar de receber menos radiação solar do que a Terra, Júpiter tem uma fonte de calor interna, resultante do seu processo de formação, que torna o interior do planeta e a sua atmosfera extremamente dinâmicos. Assim, e apesar do seu tamanho, Júpiter tem um período de rotação de apenas 9 horas e 55 minutos. Quando observado a partir da Terra, Júpiter apresenta-se no céu como um ponto luminoso branco-amarelado de brilho intenso e é dos primeiros astros a aparecer no céu após o crepúsculo, condições essas que vão ocorrer ao longo do outono. Será possível nos próximos meses observar Júpiter a aparecer cada vez mais

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cedo no horizonte Este: às 23 horas no início de outubro; às 21 horas no início de novembro e às 19 horas no início de dezembro. Para identificar o planeta basta orientar-se para o ponto cardeal Este e procurar o astro mais brilhante nessa zona do céu. A imagem em que se identificam algumas estrelas e constelações, mostra a localização atual de Júpiter, na constelação do Touro. Aldebaran, a estrela mais brilhante desta constelação, brilha com uma tonalidade alaranjada à direita de Júpiter. Mais acima e do lado direito, encontra-se Capella, a estrela mais luminosa da constelação do Cocheiro (Auriga). Por baixo observa-se a constelação do Orionte, onde se encontram Betelgeuse (alaranjada), Rigel (branca-azulada) e as três estrelas praticamente alinhadas que formam o cinturão de Orionte. Do lado esquerdo de Orionte observa-se ainda a constelação dos Gémeos (Gemini). Esta configuração do céu na direção do horizonte Este é visível cerca de duas horas depois do aparecimento de Júpiter. O Observatório Astronómico do Parque Biológico de Gaia vai realizar sessões de observação dedicadas a Júpiter ao longo do outono e do inverno. Irão ser realizadas palestras para divulgar os segredos que o planeta encerra, bem como a sua observação visual e através de câmaras de vídeo acopladas aos telescópios. Para acompanhar estas atividades pode seguir o facebook do OAPBG: http://www.facebook.com/observatorioastronomicopbg Texto: Joaquim Gomes

Imagens obtidas através do telescópio principal do OAPBG – 2011-10-22, em cima vê-se uma mancha avermelhada que é um enorme furacão que perdura há mais de 400 anos e à direita uma das luas, Io; em baixo, foto obtida em 2011-11-26.

Observatório Astronómico  do Parque Biológico de Gaia João L. Teixeira

Jupiter The Biological Park at Gaia, has an Astronomical Observatory that was created in order to serve the Visitors to the Park and the community of amateur Astronomers. It provides a place for regular observations. With this issue of the Magazine we start a new section dedicated to this area of ​​knowledge. This time, the subject is the planet Jupiter.


ASTRONOMIA 41 Cocheiro

Touro Júpiter

Orionte

Gémeos

Betelgeuse Rígel

Lebre

E

Júpiter

Marte Terra

Lua

Vénus Mercúrio Sol

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42 REPORTAGEM

Parque Natural do Litoral Norte Com uma biodiversidade que mete respeito, esta área protegida atrai o ser humano desde a noite dos tempos: engloba manchas de carvalhal e zonas agrícolas, lagunas costeiras e dunas, estuários, praias de mar e rio, estando estas últimas sob a influência do Cávado e do Neiva — são 7653 hectares de área marinha e 1237 hectares emersos Assim que o vaivém das ondas alisa a areia ao luar, pela alvorada várias espécies de aves deixam ali pegadas, à cata de pulgas-do-mar e das primeiras moscas atraídas pelo sargaço. Veem-se as de gaivota, maiores, com membrana interdigital, e muitas de borrelhos, as pequenas aves limícolas que configuram o ex-líbris do Parque Natural do Litoral Norte. Estamos em Montedor, perto de Afife. Basta espreitar acima dos rochedos para ver o mar a bramir ao sol. Lenço posto na cabeça, Joana Marques, bióloga, explica ao grupo: «Estamos diante de matos atlânticos caracterizados por uma formação arbustiva típica. Se observarem bem, esta vegetação dispõe-se de uma forma almofadada». No limite do estreito trilho de terra batida

Um feto endémico: Ophioglossum lusitanicum

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sobe a uma rocha e diz: «Este habitat, dominado por tojo e urze, tem a particularidade de estar perto da zona costeira, batida a vento. A humidade vem pelo ar carregada de sal». Percebe-se que este feitio de moita arredondada não surge por acaso. O desenho natural permite a estas plantas protegeremse mutuamente quando o clima se torna mais rigoroso: «Podem atingir um metro de altura. Entre os ramos que estão protegidos nesta forma almofadada cria-se uma microatmosfera onde permanece alguma humidade e onde a vegetação se protege da ventania», completa. É por isso que não quebram facilmente… Nos meandros do mato não é difícil imaginar uma espécie de submundo, com ratos-docampo e doninhas, pequenas aves que ali

se protegem, numerosos insetos, répteis e quejandos. O sol é uma festa e não corre uma brisa no ar tépido. De manhã a luz já é cúmplice do outono. As flores amarelas do tojo juntam-se aqui e ali, em conluio, e apelam à cooperação dos insetos polinizadores. Entre várias espécies de urze, domina agora a queiró, Calluna vulgaris, uma flor outonal sincronizada com a biodiversidade migradora, alada com certeza. A uma dúzia de metros, num rochedo próximo das ondas, um chasco em migração espreita o grupo e volteia no ar enquanto apanha um moscardo azarado. À medida que os matos atlânticos nos acompanham os passos, passada a floração de corola branca e estames amarelos, surgem frutos avermelhados de Cistus, uma outra

Habitat dunar em Montedor


REPORTAGEM 43

Os matos atlântic

os são protegidos

pela Diretiva Habit

ats, emanada da

União Europeia e

ratificada pelo Es

tado português

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44 REPORTAGEM

Habitat rochoso em Montedor: armérias

planta que compõe este habitat protegido, parente da esteva alentejana, mas longe de exalar o mesmo odor. O trovisco e as madressilvas esparsas já ostentam bagas avermelhadas. Emerge um problema grave. Aqui e ali, espécies exóticas ameaçam os matos atlânticos de Montedor: as acácias são infestantes que podem retirar espaço vital a este habitat se não houver intervenção inteligente.

Canivete pré-histórico À medida que se caminha, o chão cobre-se de seixos espalhados, nem todos perfeitos.

Agora é difícil ver uma arméria colorida

Guia o grupo também João Pedro Tereso, arqueobotânico. Enquanto caminha numa cascalheira, em pleno trilho, tira da bolsa que traz a tiracolo uma pedra que evidencia um gume: «Este é o primeiro canivete-suíço da pré-história — um biface», acentua. De cócoras pega numa pequena pedra do trilho, fraturada: «Neste local em que nos encontramos foram inventariadas peças deste tipo». Os bifaces tinham múltiplas utilizações, explica: «Serviam para rasgar carne, para raspar a pele dos animais, para martelar, para picar...». Imagina-se que no clã, seria até melhor não

Nesta época ainda consegue ver os tons amarelos do tojo

44 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

Funcho-marítimo

abusar da paciência de quem estivesse a usar tal ferramenta, não fosse dar-se o caso de um arremesso de ocasião! Aparentemente simples, a verdade é que esta pedra lapidada «corresponde a uma tecnologia bastante interessante que surgiu em África há cerca de um milhão e meio de anos». Descortina-se o porquê de tantas lascas de quartzo em redor. Tereso mostra uma das pedras do chão e elucida: «Isto era um seixo deste tipo, ao qual começam a ser retiradas lascas na ideia de construir um gume cortante. Parece fácil mas não é! Saltam pedaços por todo o lado. Eles não tinham óculos, podiam ferir a vista. Para fazer uma peça des-

Percurso de Montedor


REPORTAGEM 45

Urzela

tas produzem-se muitas lascas pequeninas. Encontramo-las por aqui...». Passo a passo o caminho abeira-se do mar guardado por rochedos onde se agacham plantas especiais.

Arribas protegidas Na fenda da rocha granítica, uma planta viçosa regozija-se ao sol. Joana faz-se ouvir: «As arribas costeiras do litoral Norte são outro dos habitats protegidos deste parque». Ressurge a par e passo nestes nichos «uma planta que já fomos vendo ao longo do percurso», sempre nos interstícios da rocha.

«Tem uma flor discreta, parecida com a flor da cenoura – chama-se funcho-marítimo, Crithmum maritimum». Ali ao lado, colorida, uma flor rósea, arredondada, sugere outro comentário: «E aqui vemos muito outra espécie característica que é a arméria, são várias espécies». A floração já passou, foi-se a beleza que apreciamos, ficou o mais importante, as sementes. Protegidas da maré e dos ventos marítimos estas armérias são mais pequeninas do que as de outros habitats. Têm também «este crescimento em forma de almofada, rígido, para evitar danos». A flor já é rara nesta época do ano…

Biface e fragmentos arqueológicos da sua produção

Na face protegida do mar, um rochedo imita os mamíferos e ergue-se com uma barba cinza: «Vemos aqui este líquen especial – ele cresce exclusivamente não só em rochas perto do mar como também requer uma parede vertical, mais ou menos protegida da luz e do vento», diz Joana Marques. Sublinha que é um dos poucos líquenes com nome vulgar em português: «Chama-se urzela, Roccella tinctoria. O nome comum indica um historial de utilização em tinturaria – aparece nos registos de matérias-primas que o nosso povo comercializava sobretudo a partir dos Açores». Os vestígios arqueológicos abundantes e variados num trilho sucinto

Pias, na verdade, salinas primitivas para extrair sal da água do mar

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46 REPORTAGEM

Litoral Norte Nature Park This Nature Park runs along the 16 km coast of the Esposende Municipality, between the River Neiva and the region of Apúlia. The environment of the Esposende coastline is also determined by a large number of creeks and streams running directly to the sea, and particularly by the Câvado and Neiva Rivers, which are the main waterways. Most of the villages in this municipality, where people first settled in prehistoric times, have archaeological remains which were originally bases for agriculture, fishing and collecting the of sea plants.

O sargaço foi adubo natural para as produtivas masseiras, um sistema peculiar de produção de produtos hortícolas típico da região

evidenciam uma antiga utilização do sítio pelo ser humano ao longo de múltiplas épocas.

Ao pé do mar A elevada biodiversidade tornava viável viver ali, entre a pesca, a caça, a recolha de frutos sazonais e, depois, através da agricultura artesanal e do comércio. O sargaço, plantas marinhas atiradas à praia pelas ondas, era recolhido como fertilizante num sistema produtivo próprio da região: as masseiras. Escavada uma ligeira depressão no terreno, o vento passava por cima das culturas e o lençol freático próximo do solo hi-

dratava os produtos hortícolas que dali saíam em época própria com rotundo êxito. Já antes tinha surgido um alerta de João Pedro Tereso: «Podem não ter dado por isso, mas estamos a caminhar sobre um dos elementos patrimoniais mais importantes deste trajeto». Aos nossos pés, a rocha cortada em depressão servia para retirar sal: «Uns são romanos e outros anteriores a essa época», comenta e remata: «Chamam-se pias», e estão à distância de mais de mil anos das primeiras masseiras. Sob as ondas a biodiversidade renova-se em novos habitats, ocultos do olhar de quem passeia ali perto, noutros ritmos.

Sargos e robalos, ruivos e bodiões juntam-se a uma longa lista de espécies. Pelos estuários do rio Neiva e do Cávado em épocas diferentes migram enguias e lampreias. São protagonistas entre peixes migradores, estando há anos o sável e o salmão do Atlântico reduzidos a populações escassas ou até desaparecidas. Ainda assim, este património natural continua a atrair. Sob o olhar cauteloso do borrelhode-coleira-interrompida, imagem de marca do parque, há que renovar a visita: depois de ali ir vai querer sempre voltar. Texto e fotos: Jorge Gomes

PARQUE NATURAL DO LITORAL NORTE Sede Rua 1.º de Dezembro, n.º 65 4740-226 Esposende Correio eletrónico pnln@icnb.pt Telefone (351) 253965830/1 Site www.icnf.pt

46 • Parques e Vida Selvagem outono 2012


BLOCO DE NOTAS 47

Avifauna do Estuário do Cávado E os freixos da outra margem também estão com algum “mal” – dizia-me o senhor Gaspar, enquanto nos lamentávamos a olhar o magro caudal do Cávado, incapaz de diluir tanta poluição e com os patos a jazerem pela zona ribeirinha ao ritmo do aumento do calor Os banhistas chegavam e sucediam-se as enfermidades que ameaçavam o nosso rio. Os problemas com os efluentes já são antigos e as autoridades, alertadas pela população preocupada, também acompanhavam os recentes episódios de morbilidade continuada entre as aves aquáticas. Mas esta notícia das árvores doentes despertou a curiosidade que me levou até à margem direita onde as galerias ripícolas servem de cortina aos campos de cultivo. Aqui, um autêntico exército de lagartas da borboleta Abraxas pantaria cobria alguns daqueles freixos (Fraxinus spp.) e desfolhavaos com tal voracidade que até esqueci a minha costela verde e logo me pus a calcular as quantidades de DDT necessárias para

eliminar a praga. Neste sobressalto, nem considerei os perigos que os tratamentos químicos acarretam para a saúde pública e para a sustentabilidade dos ecossistemas. Teria de ser a própria Natureza, e ali mesmo, a dar-me a Grande Lição enquanto me revelava alguns brindes ornitológicos. Naqueles dias longos também por aqui se multiplicavam as aparições de cucoscanoros (Cuculus canorus), espécie estival cujo nome e histórias associadas nos são muito familiares, mas que, porém, não é muito comum na povoada foz do Cávado. Intrigado com a súbita procura destas aves pelos habitats estuarinos, segui-lhes os movimentos que novamente me levaram aos mesmos freixos em que se banqueteavam

aos pares das “nocivas” lagartas. Atraídas por este alvoroço inicial, outras espécies acabariam por chegar e transformar aquelas copas num carnaval de aves tão excentricamente emplumadas como os cucos-rabilongos (Clamator glandarius) ou os papa-figos (Oriolus oriolus), nunca vistos por estas paragens e que, além de terem deliciado os muitos amantes do birdwatching, controlaram com notável eficácia o surto epidémico que debilitava os nossos freixos, mantendo o equilíbrio ecológico sem qualquer tipo de intervenção humana desadequada. Texto e foto: Jorge Araújo da Silva www.verdes-ecos.blogspot.com

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48 ENTREVISTA

Gato-bravo sob ameaça de extinção André Silva, biólogo, desenvolve trabalho numa região da Europa onde o gato-bravo sofre maior pressão, a Escócia: «Tenho como ponto central da minha investigação a conservação de carnívoros. Estou a desenvolver trabalho principalmente com populações de carnívoros consideravelmente ameaçadas»

C

om a neve, tudo é mais difícil. A necessidade de instalar câmaras de foto-armadilhagem seguida da recolha de excrementos de gatobravo não se compadece. Num desses dias «dei por mim a caminhar aproximadamente 20 km, com a neve a chegar a um metro de altura e as temperaturas a descerem a 18º C negativos». Arrependeu-se: «Triste escolha a minha de caminhar no inverno rigoroso da Escócia com botas compradas em Portugal». André já não sentia os pés e os líquidos «na minha mochila tinham congelado», o que equivalia a ficar sem água o resto do dia. Apesar de tudo, o trabalho seguia de forma lenta e árdua, mas o plano cumpria-se. Quando «regresso ao carro o sol escondiase, e ainda a cerca de 5 km de distância comecei a reparar que o meu suor e o meu muco nasal começavam a congelar». A qualquer momento «poderia perder o telemóvel, ou mesmo o GPS, e ainda estávamos a uma distância considerável do carro». O ânimo não era muito, mas «a determinado momento lembro-me de ter feito uma pergunta, talvez a pior que poderia ter feito naquele momento — estaria o combustível do carro congelado como acontecera a muitos que vira na manhã anterior?». Teve sorte! No final, «chegaríamos ao carro desgastados mas vivos». A felicidade «de rodar a chave e ver que o motor do carro funcionava» tudo compensou. Na adversidade, quem sabe se também o gato-bravo não acaba também por sobreviver às ameaças que lhe têm colocado em estado crítico as populações? As perguntas são mais que muitas... 48 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

Em que contexto desenvolve a sua pesquisa? André P. Silva — O trabalho que estou a desenvolver debruça-se sobre as determinantes ambientais que condicionam a distribuição do gato-bravo na Escócia, pesquisa que apresentei para obter o grau de mestre, na Faculdade de Ciências. Este trabalho conta com a colaboração do Dr. Luís Miguel Rosalino, também da Faculdade de Ciências, e integra-se num projeto de maior André P. Silva

dimensão que está a ser levado a cabo pela investigadora Kerry Kilshaw, da Wildlife Conservation Research Unit (WildCRU), da Universidade de Oxford.

Que meta deseja atingir? André P. Silva — O principal objetivo é determinar a situação populacional e o nível de hibridação da população de gato-bravo na Escócia. Para isto, estão a ser utilizadas principalmente duas técnicas: a foto-armadilhagem e análise genética através de amostras não invasivas, como por exemplo os excrementos. Especificamente, no meu trabalho utilizei capturas fotográficas e registos da espécie a nível nacional para comparar os fatores ambientais que influenciam a presença da espécie a nível local e nacional. Resumidamente, conseguimos identificar que o fator mais importante para a presença da espécie é a presença de presas, coelhos e micromamíferos. Adicionalmente e como tem vindo a ser identificado noutros países europeus, concluímos que, ao contrário do que a literatura mais antiga sugeria, a espécie não é estritamente florestal, e de facto beneficia mesmo com um habitat heterogéneo, uma vez que este lhe permite explorar uma maior diversidade e abundância de presas. Temos registos fotográficos e outros dados que apontam para a utilização de habitats abertos e mais expostos como pradarias, pois é aí que caçam coelhos junto à orla da floresta. Em termos de conservação estes resultados apontam no sentido de a persistência do gato-bravo passar em grande medida pela conservação das suas presas. Porém, atualmente os dados sobre estas são reduzidos. Por isso sugerimos que, no caso de ser necessário tomar decisões urgentes, se selecionem áreas com maior probabilidade de ocorrência das suas presas, pois é aí que o gato-bravo estará maioritariamente concentrado e isso poderá ser


ENTREVISTA 49

/Wild CRU

Kerry Kilshaw

inferido indiretamente através da estrutura da paisagem. É uma espécie bem estudada? André P. Silva — Podemos considerar que existe bastante informação disponível quando comparada com outras espécies de felídeos fora do continente europeu. No entanto, quando comparada com outros carnívoros com distribuição na Europa existem lacunas importantes por resolver. Diria que podemos considerar que temos um bom conhecimento de uma espécie quando possuímos informação suficiente para empreender estratégias de conservação eficazes. Isto envolve identificar as ameaças a que a espécie está sujeita e a magnitude de cada uma destas, a sua situação populacional no presente e o conhecimento de estratégias de conservação que se saibam ser eficientes para a espécie em questão. Ora, este conhecimento é tanto mais difícil

quanto mais elusiva e menos numerosa for uma espécie. É exatamente neste patamar de dificuldade que se encontra o gato-bravo. Se por um lado a comunidade científica tem uma ideia concreta das atuais ameaças que pendem sobre esta espécie, já não existe tanta informação na importância relativa destas, até porque variam de região para região. O conhecimento da situação populacional em cada país é também neste momento muito heterogéneo por toda a Europa, com a maior parte do conhecimento a vir de um número reduzido de

André P. Silva

países como por exemplo Alemanha, Espanha, França ou Reino Unido. O que distingue o gato-bravo dos gatos domésticos? André P. Silva — É precisamente nesta questão que reside uma das maiores dificuldades da conservação do gato-bravo. Até agora o gato-bravo e o gato-doméstico têm vindo a ser mencionados na literatura, quer como duas espécies diferentes quer como Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 49


50 ENTREVISTA

duas subespécies. Em termos biológicos e de proximidade genética escolher entre uma hipótese ou outra depende dos critérios utilizados. É portanto uma questão arbitrária. Porém, existem questões práticas que são importantes. Por exemplo em termos de legislação para a proteção do gato-bravo é necessário definir à partida se esta se aplica a gatos-bravos mas também a gatos-domésticos por serem considerados a mesma espécie, embora uma diferente subespécie, ou se não se aplica ao gato doméstico por esta ser considerada uma espécie diferente. O que se pode dizer concretamente hoje em dia é que existe uma proximidade genética muito grande entre o gato-bravo e o gato-doméstico, mas que ainda assim existe evidência para um grupo geneticamente distinto que corresponde a animais domesticados. A questão torna-se ainda mais confusa perante a existência de indivíduos híbridos, uma vez que estes transportam informação genética de origem doméstica e selvagem. Ultrapassando estas questões existem diferenças morfológicas, comportamentais e fotoecológicas que têm vindo a ser observadas entre gatos considerados domésticos e bravos. Na Escócia é atualmente utilizado, para questões práticas de conservação, um critério de classificação da pelagem que se sabe conseguir separar gatos geneticamente distintos, embora o sistema não seja perfeito e possam existir situações em que falhe, este é capaz de dar uma indicação importante de qual o grupo (doméstico, híbrido ou bravo) a que um indivíduo a viver em estado selvagem pode pertencer. O gato-bravo consegue ser diferenciado do gato-doméstico também pela sua morfologia: por exemplo possui um porte mais robusto, uma linha dorsal negra que termina junto à base da cauda e da qual surgem várias faixas negras laterais ao longo do corpo. A sua cauda termina numa ponta larga e apresenta anéis negros bem diferenciados. Ao contrário, gatos híbridos e domésticos apresentam usualmente o padrão de faixas negras ao longo do corpo interrompido por manchas negras e a linha dorsal interrompida ou estendida até à cauda. A cauda destes gatos termina normalmente numa forma mais estreita. A nível comportamental, o gato-bravo apresenta também uma maior agressividade e numa situação normal evita qualquer aproximação ao contacto humano. Este comportamento refletese também na sua ecologia, uma vez que os gatos-bravos tendem a utilizar zonas mais inóspitas com uma menor densidade populacional para se estabelecerem, embora possam utilizar 50 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

zonas alteradas para se movimentarem. Em que regiões há ainda gato-bravo? André P. Silva — O gato-bravo é uma das espécies de pequenos felídeos com maior distribuição a nível mundial, estando presente na Europa, mas também em África e na Ásia. Na Europa, a espécie ocupa principalmente os países do Sul, Centrais e de Leste. O gatobravo não ocorre nos países nórdicos, sendo a população escocesa aquela que se localiza a maior latitude no hemisfério Norte. A espécie chegou ao atual Reino Unido quando esta porção de terra ainda estava ligada à plataforma europeia, ocupando toda a ilha. Contudo, a população ficou isolada após a separação destas regiões durante a subida da água do mar após, o último máximo glaciar (cerca de 7000-9000 anos). Mais recentemente, durante o século XIX e primeira metade do século XX, a espécie foi perseguida devido à sua reputação como predadora de animais domésticos e aves de caça e sofreu consideravelmente com a desflorestação que ocorreu durante as duas guerras mundiais, devido às necessidades urgentes de obtenção de madeira. Desde a Idade Média, a espécie terá vindo a diminuir a sua área de distribuição, assistindo simultaneamente à extinção do urso-pardo, do lobo e do lince-euroasiático. A população está atualmente restringida à Escócia e, devido a hibridação com o gato-doméstico, estima-se que gatos-bravos possam apenas ser encontrados nas áreas mais remotas a norte, nas denominadas “highlands” da Escócia. De facto, esta pergunta é exatamente um dos objetivos do projeto em que estou inserido. Para responder a esta pergunta o projeto está a levar a cabo campanhas de foto-armadilhagem em vários pontos da Escócia, de forma a ser possível identificar a presença ou ausência da espécie e posteriormente calcular a densidade em que ocorre. Estes dados vão permitir elaborar uma estimativa mais correta do número de gatos-bravos que persistem na Escócia. Como se desenvolve o ciclo de vida deste gato? André P. Silva — As crias de gato-bravo, normalmente 3 a 4 crias nascem entre abril-maio depois de um período de gestação de cerca de 60 dias. As crias aproveitam o melhor clima do ano para se prepararem fisicamente para o seu primeiro inverno e isto envolve não só uma boa alimentação como aprender a ser autónomo na atividade da caça. Durante os primeiros 6 meses ainda sob cuidado da progenitora, a

maior parte do tempo é passada entre a toca (usualmente localizada em zonas rochosas, ou antiga toca de raposa) e a aprendizagem de técnicas de caça. A alimentação é constituída principalmente por coelhos e pequenos roedores, embora ocasionalmente aves e répteis possam ser predados. No final dos primeiros 6 meses, os jovens adultos atingem a independência e estão prontos para abandonarem os cuidados da progenitora, dispersando para estabelecerem os seus próprios territórios. A partir deste momento a vida de um gato-bravo é maioritariamente solitária, uma vez que os machos só sobrepõem os seus territórios aos das fêmeas durante o período de acasalamento e os territórios das fêmeas tendem a não se sobrepor. Durante o período de dispersão tem de encontrar novas áreas para se estabelecerem, o que implica não só evitar territórios já estabelecidos por outros indivíduos, bem como evitar algumas adversidades: por exemplo atravessar estradas onde muitas vezes são atropelados ou predadores como águias e raposas. Devido a estes fatores, mas também devido à presença de neve, o gato-bravo tende a evitar deslocarse em ambientes expostos, utilizando zonas florestais. Contudo, para caçar tende a visitar a orla das florestas e ambientes ripários, onde a diversidade de presas é maior. É também muitas vezes durante os movimentos de dispersão que se aproximam de agregados populacionais, onde existe um maior risco de contacto com gatos-domésticos. A viver em estado selvagem,


ENTREVISTA 51

European wildcat The Scientist André Silva is working on the conservation of this species in Scotland, one of the places in the World were the Wildcat is under serious threat. It is Dr. Silvas’ goal of a lifetime to work on the conservation of a carnivorous species.

Direitos reservados

poucos são os indivíduos que conseguem ultrapassar os 6 anos de idade. É do gato-bravo que se originam os gatos domesticados? André P. Silva — A domesticação do gatobravo é uma questão há muito debatida mas segundo os dados mais recentes tudo aponta para que o gato-doméstico tenha tido origem há cerca de 9000 anos no Médio Oriente através da domesticação de indivíduos selvagens. Durante este período no crescente fértil as populações humanas começaram a deixar um estilo de vida nómada, começando a estabelecer as primeiras vilas e a sobreviver através da agricultura. O gato-bravo poderá ter beneficiado com algumas das atividades humanas, por exemplo predando roedores que se acumulam nas zonas de armazenamento de cereais, abandonando posteriormente os seus comportamentos mais agressivos. No entanto, a domesticação terá incidido em indivíduos de uma subespécie diferente da que existe hoje na Europa. O que se percebeu é que o ADN dos gatos-domésticos é mais próximo da subespécie de gato-bravo do Médio Oriente, cientificamente denominada por Felis silvestris lybica. Posteriormente a expansão dos gatos domésticos por todo o planeta está relacionada com proliferação da população humana que tem transportado indivíduos para todos os cantos do planeta. Há 20 anos estimava-se a existência de 400 milhões gatos-domésticos em todo o mundo.

Caminha para a extinção em Portugal? André P. Silva — Em Portugal os dados existentes apontam para que a situação não seja tão critica como na Escócia. Porém, o conhecimento sobre a situação populacional da espécie no nosso país é reduzido. Sabe-se que o problema da hibridação é uma ameaça séria, uma vez que os estudos já realizados apontam que em cada 100 gatos-bravos, 14 possam ser híbridos. Embora se desconheça se estes valores apresentam tendência para diminuir ou aumentar, a verdade é que não tem sido feita uma forte campanha educacional a nível nacional no sentido de os donos dos gatosdomésticos terem um maior controlo sobre as atividades do seu gato, principalmente em áreas onde o gato-bravo ocorre. Assim, será difícil diminuir estes valores se o número de gatos-domésticos se mantiverem altos e se o comportamento destes não for controlado. Por outro lado, alguns dados apontam para que a espécie tenha reduzido o seu número em cerca de 30% nos últimos 20 a 30 anos, apresentando uma distribuição limitada no litoral do país onde existe uma maior densidade populacional humana. Desta forma, tudo aponta para que o gato-bravo tenha as suas “populações-chave” no interior do país, nomeadamente em áreas protegidas como o Gerês, Montesinho e o vale do Guadiana. Suspeitando-se que os seus números estão a declinar e devido às ameaças que ainda persistem, particularmente hibridação com gato doméstico, perseguição direta e atropelamentos, a espécie é considerada em Portugal como vulnerável à extinção. Quando aplicados os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza a espécie apresenta-se como um dos carnívoros mais ameaçados de Portugal, ficando atrás do lobo e do lince-ibérico, respetivamente em perigo e criticamente em perigo de extinção. E no resto da Europa, o cenário é igual? André P. Silva — No resto da Europa as situações diferem. Na Escócia a situação é realmente má e é pelo que se sabe hoje a pior da Europa, existindo referências que apontam para que 88% dos indivíduos a viverem estado selvagem sejam híbridos ou domésticos, o que a confirmar-se poderá significar que existem apenas cerca de 400 indivíduos com as características morfológicas normalmente associadas a gatos-bravos puros. Caso se confirme a população estará criticamente ameaçada de extinção. Na Hungria existem dados que apontam para

elevados níveis de hibridação e na Holanda a espécie é considerada extinta embora tenham surgido recentemente alguns registos prováveis da presença da espécie. Já em Espanha a espécie deverá estar a declinar na maior parte do território. Contudo, por exemplo, na Alemanha e Bélgica, parece ainda subsistir uma população saudável e que poderá estar mesmo a expandirse, embora possa sofrer com alguns problemas de fragmentação do habitat. Outro núcleo forte da população europeia poderá estar localizada nos países mais orientais, nomeadamente parecem existir populações com elevado número de indivíduos na Roménia, Bulgária, Rússia, Macedónia, Sérvia e Eslováquia, mas a informação é ainda muito reduzida nestes países e não existem números nem tendências fiáveis. Quais as principais ameaças? André P. Silva — As principais ameaças do gato-bravo são a hibridação com o gatodoméstico, a perseguição direta por exemplo através de morte a tiro ou envenenamento e a mortalidade nas estradas devido aos atropelamentos. A falta de presas naturais, nomeadamente coelhos e roedores, é também uma séria ameaça. Uma excessiva fragmentação do habitat poderá ser ainda prejudicial mas os nossos estudos, bem como outras evidências bibliográficas, sugerem que a espécie pode ter uma certa tolerância a habitats heterogéneos. Diria que temos uma probabilidade de conservar esta espécie se conseguirmos preservar zonas onde ocorram populações saudáveis de gatos-bravos com abundância de presas, que simultaneamente sejam livres da presença de gatos domesticados e de perseguição direta. Mesmo que exista alguma fragmentação do habitat, a espécie parece conseguir persistir desde que sejam implementadas medidas específicas para minimizar o impacto de estruturas artificiais. É interessante olhar para estes fatores e ver que o cidadão comum, nomeadamente aqueles que vivem em áreas onde ainda existe gato-bravo, podem nesta espécie até mais do que em outras ter um papel ativo para a sua preservação. Entender como controlar os impactos dos seus gatos domésticos, entender o gato-bravo como um agente biológico regulador das populações naturais de coelhos e roedores e ver esta espécie como um emblema para a conservação da biodiversidade é um paradigma para o qual podemos caminhar se apostarmos principalmente na formação da nossa comunidade rural. Texto: Jorge Gomes Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 51


52 MIGRAÇÕES

Almirante-vermelho: migração outonal

Sob o bafo tardio do outono, esta borboleta abandona o Norte da Europa: na verdade, pertence a um grupo minoritário que dá à asa milhares de quilómetros, podendo deslocar-se até África... Na Finlândia, 35 quilómetros a sudoeste de Helsínquia, um grupo de observadores de aves selvagens instalou-se numa torre para contemplar as migrações de outono. Munidos de binóculos uns e outros de telescópios, conseguiram distinguir cerca de 1200 borboletas almirante-vermelho em deslocação para sul, sobre as copas da floresta, numa frente de 500 metros por 100 metros de altura. Não foi caso único. Durante estas migrações, o radar da Universidade de Helsínquia registou uma vez pontos equivalentes a insetos do género enxame de abelhas, o que foi interpretado pelos investigadores, dada a altura do ano, como deslo-

52 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

cações massivas desta espécie de borboleta. Se se comparar o pico da migração deste inseto na Finlândia com o pico de chegada à península Ibérica no mesmo ano de estudo, conclui-se que, em média, as almirantevermelho demoram perto de cinco semanas a deslocar-se ao longo de 3 mil quilómetros, ou seja, dos países nórdicos ao Mediterrâneo. Numa tradução direta da língua inglesa desde miúdos que nos habituamos a designar a espécie Vanessa atalanta por almirantevermelho. De voo fluido, autoritário, não dá abébia a nenhum curioso em matéria de confiança e proximidade, qualquer que seja a sua idade. Neste setor de biodiversidade esta espécie de

borboleta pertence à minoria que tem coragem suficiente para passar as estações mais frias do nosso país no estado adulto. Durante as migrações, apesar de diminuírem o desgaste ao aproveitarem vento favorável, estes insetos agradecem à natureza as flores outonais que despontam nas serras, como urzes e tojos. Nas cidades, as floreiras em terraços, varandas e jardins, são o refazimento imprescindível para que estas longas viagens continuem a ocorrer. Texto: JG Bibliografia: «The red admiral butterfly (Vanessa atalanta, Lepidoptera) is a true seasonal migrant», de Kauri Mikkola


João L. Teixeira

Red Admiral migration Mediterrâneo

Europa Central

Escandinávia

inverno nov. – fev.

primavera mar. – jun.

estação

In Finland, a group of Birdwatchers had a big surprise in September when they saw with their binoculars maybe 1,000 Red Admiral butterflies migrating south. In autumn, the Red Admiral, Vanessa atalanta, leaves the North of the Europe to find warmer climate in the south – even as far as Africa.

região

verão jul. – ago.

outono ago. – out.

Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 53


54 RETRATOS NATURAIS

Vamos desenhar... uma libélula

Poucos animais, e menos ainda no grupo dos invertebrados, têm tão grande conotação com o sobrenatural, como as libélulas, ou libelinhas. Na Europa são vários os mitos e lendas que mancharam a reputação destes formidáveis insetos, transformando-os em temíveis flagelos para o Homem Não é rara a associação a Satanás: ora por ele mandadas diretamente do Inferno a este mundo, para trazer o mal (Itália), ora seriam cavalos por ele possuídos (Roménia), ora infernais animais capazes de arrancar olhos, depois de 54 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

Cordúlia-de-corpo-estreito (Oxygastra curtisii)

lhes pesarem a alma e avaliarem o grau de malvadez (Suécia), ora temíveis “agulhas-do-diabo” que coseriam a boca e remeteriam ao silêncio os pobres “diabos” que pecassem. Contudo, situação inversa se observa no Oriente ou nalguns povos do continente americano: no Japão, são considerados invencíveis e mortíferos oponentes, capazes de garantir o sucesso e a vitória nas batalhas vencidas à força da espada (sendo um símbolo ostensivamente usado como ornamento); na China, são anúncio vivo da chegada do Estio e, simbolicamente, da fragilidade da Vida; nalgumas culturas ameríndias eram considerados seres com poderes sobrenaturais capazes de zelar pelo bem estar humano. Portugal, sendo o mais ocidental dos países europeus herdou a conotação negativista e, em muitas localidades, é vulgarmente conhecida como cavalinho-do-diabo, ou das bruxas, ou ainda como tira-olhos. A verdade é que estes odonatas — cuja morfologia típica dita a presença de um abdómen muito alongado num corpo fusiforme, dotados

de duas asas membranosas alongadas e muito reticuladas, com as quais agilmente controlam insuperáveis manobras durante o seu vertiginoso voo (cada uma das 4 asas pode ser controlado separadamente), e ainda seis patas que servem mais para agarrar (colocadas em forma de cesto), do que para andar — são organismos predadores, altamente vorazes e que controlam as populações de insetos (geralmente dípteros, como as moscas e os mosquitos), embora também possam ser canibais (papel atribuído essencialmente às fêmeas, em fase de postura), que vivem e se reproduzem nas imediações de corpos de águas (ribeiros, rios, lagos ou albufeiras), contribuindo assim para o aumento da qualidade de vida das populações humanas ribeirinhas e no controlo de pragas aladas. São produto de uma evolução que os configurou para uma arquitetura de elevada eficácia na caça das suas presas em pleno


RETRATOS NATURAIS 55

Construção das asas, em vista dorsal (passos 1 a 4)

voo (de tal forma que estes “dragões” pré-históricos, externamente pouco mudaram desde o seu período florescente no Carbonífero, da Era Paleozóica, regredindo praticamente e apenas no tamanho — os 75 cm de uma Meganeura monyi passaram para uns actuais 2 a 12 cm de comprimento). As libélulas destacam-se também pelos enormes olhos compostos e facetados (que praticamente ocupam toda a cabeça, reunindo de 10.000 a 30.000 omatídeos hexagonais) e que lhes conferem uma acuidade visual apuradíssima e um campo de visão que chega aos 360°, sendo que as facetas superiores são para enxergar ao longe, e as inferiores, na proximidade (para além dos 3 ocelos superiores, que apenas avaliam a intensidade luminosa). Para além das cores brilhantes (do vermelho ao amarelo, ao verde e azul ou ainda o castanho), é o aparelho de voo aquele que, em termos de complexidade, mais retém a atenção de quem as admira. Este é um dos aspetos morfológicos com maior relevância na figuração deste taxa, já que suas asas exibem numerosas nervuras longitudinais ligadas entre si por um abundante entrelaçado de nervuras transversais, criando uma rede de suporte capaz de suportar extremas pressões longitudinais, durante o voo, sem se dobrarem ou partirem ante a torção. Como esta enervação alar varia consoante as 5680 espécies de libélulas em todo o mundo (em Portugal ocorrem 65 das 138 espécies descritas para Europa), esta é uma característica com elevado valor discriminativo na diagnose e identificação — aspeto a que o ilustrador deve devotar a máxima atenção e cuidado. A pose típica a ilustrar, como já referimos para outros grupos, procura reproduzir a vista mais comum em que são observadas, quando em

repouso — será assim a vista lateral, para os zigópteros (cabeça, em forma de haltere, encaixando transversalmente ao corpo, onde sobressai um abdómen cilíndrico e fino; asas praticamente iguais, juntas na vertical, quando paradas), e a de topo, para os anisópteros (as “grandes” libélulas, apresentam uma cabeça quase hemisférica, em que os olhos se podem tocar; abdómen de forma muito variável, longo e cilíndrico, mais largo do que o dos zigópteros; asas posteriores mais largas na base do que as anteriores, mantidas abertas quando poisadas). Para figurarmos um destes invertebrados, a título de exemplo, escolheu-se a espécie Oxygastra curtisii, uma das 4 espécies presentes em Portugal que consta na Lista Vermelha das Libélulas Europeias, com o estatuto de ameaçada, e está abrangida pela Convenção de Berna e pela Directiva Habitat. Uma das vantagens deste odonata, e dos anisópteros em geral, é que a sua simetria bilateral poupa imenso trabalho, pelo que numa das fases da sua criação gráfica — seja na fase da execução do desenho preliminar (em que precisamos apenas de desenhar uma das metades, invertendo-a para a sua especular, para completar o corpo e asas), seja na fase de adição de cor e construção de padrões na arte-final, se a técnica escolhida for digital (flip espelhado horizontal, depois da duplicação da metade arte-finalizada). Neste último caso e para o desenho das asas, a utilização da caneta vetorial (pen tool), presente no módulo vetorial do Adobe Photoshop é de suma importância e utilidade. Esta permite criar paths, ou curvas de Bezier (lineares, formam retas; quadráticas ou cúbicas, formam curvas), nas quais se criam vários pontos de controlo (anchor points — permitem controlar

a posição espacial — ladeados por duas retas extensíveis — direction points — que permitem controlar o comportamento da curva), a cada clik do rato e que acabam por criar um work path, ajustável ao contorno da silhueta, o qual deve ser gravado (paths window>save path). O path pode depois, entre outras operações, ser convertido numa seleção (path window > make selection> new selection (ou outra opção), feather radius 0px, antialiased; opção esta que é extremamente útil quando se pretende fazer seleções perfeitamente ajustadas a faces curvas ou retilíneas de um determinado modelo) e/ ou preenchido diretamente em mancha de cor (fill path) — ações que permitem criar o fundo ou membrana. A rede de nervuras, depois de criada em paths, é feito recorrendo à opção stroke path, escolhendo como riscador, o pincel (), depois de parametrizado adequadamente — sempre com opção antialiased, ou antisserilhamento, ativa para suavizar a linha; controlar o tamanho do traço (master diameter) e a dureza do pincel (hardness: 100%) através do Brush Presets picker (também pode ser controlado na brushes palette, clicando em cima do Brushes presets); de seguida, ativam-se os parâmetros shape dinamics e smoothing no comutador da palete dos pincéis (brushes pallete toggle) e desativam-se todos os outros controlos (off) — o que permite construir linhas contínuas, de espessura uniforme, e anastomasadas, ou não. De resto, é dar “asas” à cor para insuflar vida aos nossos cavalinhos aéreos pintados... Texto e ilustrações: Fernando Correia Biólogo e ilustrador científico Dep. Biologia, Universidade de Aveiro fjorgescorreia@sapo.pt | www.efecorreia-artstudio.com

Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 55


56 CARBONO

Cada dia que passa há mais empresas e cidadãos a confiarem ao Parque Biológico de Gaia o Agrupamento de Escolas Ovar Sul - Curso EFA B3 •

Castelo da Maia • Família Carvalho Araújo • Família

(2009/10) da Escola Secundária de Oliveira do Douro

Agrupamento Vertical de Escolas de Rio Tinto • Alice

Lourenço • Fernando Ribeiro • Francisco Gonçalves

• Protetores do Ambiente Professores e Alunos da

Branco e Manuel Silva • Amigos do Zé d’Adélia • Ana

Fernandes • Francisco Saraiva • Francisco Soares

Escola Básica de Canidelo • Regina Oliveira e Abel

Filipa Afonso Mira • Ana Luis Alves Sousa • Ana Luis

Magalhães • Graça Cardoso e Pedro Cardoso • Grupo

Oliveira • Ricardo Parente • Rita Nicola • Sara Pereira

e Pedro Miguel Teixeira Morais • Ana Miguel Padilha

ARES - Turma 12.º B (2009/10) da Escola Secundária

• Sara Regueiras, Diana Dias, Ana Filipa Silva Ramos

de Oliveira Martins • Ana Paula Pires • Ana Rita Alves

dos Carvalhos • Grupo Ciência e Saúde no Sec. XXI

do 11.º A (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira

Sousa • Ana Rita Campos, Fátima Bateiro, Daniel Dias,

- Turma 12.º B (2009/10) da Escola Secundária Dr.

do Douro • Serafim Armando Rodrigues de Oliveira •

João Tavares e Cláudia Neves do 11.º A (2009/10) da

Joaquim Gomes Ferreira Alves • Grupo de EMRC da

Sérgio Fernando Fangueiro • Tiago José Magalhães

Escola Secundária de Oliveira do Douro • Ana Sofia

Escola Básica D. Pedro IV - Mindelo • Guilherme Moura

Rocha • Tiago Pereira Lopes • Turma A do 6.º ano

Magalhães Rocha • Ana Teresa, José Pedro e Hugo

Paredes • Hélder, Ângela e João Manuel Cardoso •

(2010/11) do Colégio Ellen Key • Turma A do 8.º ano

Manuel Sousa • António Miguel da Silva Santos •

Inês, Ricardo e Galileu Padilha • Joana Fernandes

(2008/09) da Escola EB 2,3 de Argoncilhe • Turma A

Arnaldo José Reis Pinto Nunes • Artur Mário Pereira

da Silva • Joana Garcia • João Guilherme Stüve •

do 9.º ano (2009/10) da Escola Secundária de Oliveira

Lemos • Bárbara Sofia e Duarte Carvalho Pereira •

João Monteiro, Ricardo Tavares, Rita Mendes, Rita

do Douro • Turma A do 11.º ano (2010/11) da Escola

Bernadete Silveira • Carolina de Oliveira Figueiredo

Moreno, e Sofia Teixeira, do 12.º A (2011/12) da Escola

Secundária de Ermesinde • Turma A do 10.º ano

Martins • Carolina Sarobe Machado • Carolina Birch

Secundária Augusto Gomes • Joaquim Pombal e

e Professores (2010/11) da Escola Secundária de

• Catarina Parente • Cipriano Manuel Rodrigues

Marisa Alves • Jorge e Dina Felício • José Afonso e Luís

Oliveira do Douro • Turma A do 12.º ano (2010/11) da

Fonseca de Castro • Colaboradores da Costa & Garcia

António Pinto Pereira • José António da Silva Cardoso

Escola Secundária de Ermesinde • Turma C do 10.º

• Cónego Dr. Francisco C. Zanger • Convidados do

• José António Teixeira Gomes • José Carlos Correia

ano (2010/11) da Escola Secundária de Ermesinde •

Casamento de Joana Pinto e Pedro Ramos • Cursos

Presas • José Carlos Loureiro • José da Rocha Alves

Turma D do 10.º ano e Professores (2010/11) da Escola

EFA Básicos (2009/10) da Escola Secundária Dr.

• José, Fátima e Helena Martins • Lina Sousa, Lucília

Secundária de Oliveira do Douro • Turma D do 11.º

Joaquim Gomes Ferreira Alves • Deolinda da Silva

Sousa e Fernanda Gonçalves • Luana e Solange Cruz

ano (2010/11) da Escola Secundária de Ermesinde •

Fernandes Rodrigues • Departamento Administrativo

• Manuel Mesquita • Maria Adriana Macedo Pinhal •

Turma E do 10.º ano (2008/09) da Escola Secundária

Financeiro da Optimus Comunicações, SA - DAF DAY

Maria Carlos de Moura Oliveira, Carlos Jaime Quinta

de Ermesinde • Turma E do 12.º ano (2010/2011) da

2010 • Departamento de Ciências Sociais e Humanas

Lopes e Alexandre Oliveira Lopes • Maria de Araújo

Escola Secundária de Ermesinde • Turma G do 12.º

da Escola Secundária de Ermesinde • Departamento

Correia de Morais Saraiva • Maria Guilhermina Guedes

ano (2010/11) - Curso Profissional Técnico de Gestão

de Matemática e Ciências Experimentais (2009/10)

Maia da Costa, Rosa Dionísio Guedes da Costa e

do Ambiente do Agrupamento de Escolas Rodrigues

da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Dinah

Manuel da Costa Dionísio • Maria Helena Santos Silva

de Freitas • Turma IMSI do Curso EFA - ISLA GAIA

Ferreira • Dinis Nicola • Dulcineia Alaminos • Eduarda

e Eduardo Silva • Maria Joaquina Moura de Oliveira •

(2008/09) • Turmas A e C do 10.º ano (2009/10) da

e Delfim Brito • Eduarda Silva Giroto • Escola Básica

Maria Manuela Esteves Martins Alves • Maria Violante

Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turmas

da Formigosa • Escola Dominical da Igreja Metodista

Paulinos Rosmaninho Pombo • Mariana Diales da

A e C do 11.º ano; A e B do 12.º ano e Professores

do Mirante • Escola EB 2,3 de Valadares • Escola EB

Rocha • Mário Garcia • Mário Leal e Tiago Leal • Marisa

(2010/11) da Escola Secundária de Oliveira do Douro

2,3 Dr. Manuel Pinto Vasconcelos Projecto Pegada

Soares e Pedro Rocha • Marta Pereira Lopes • Miguel

•Turmas B e C do 12.º ano - Psicologia B (2009/10)

Rodoviária Segura, Ambiente e Inovação • Escola

Moura Paredes • Miguel Parente • Miguel, Cláudia e

da Escola Secundária de Oliveira do Douro • Turmas

EB 2,3 Escultor António Fernandes de Sá • Escola

André Barbosa • Nuno Topa • Paula Falcão • Pedro

B e D do 11.º ano (2009/10) da Escola Secundária de

Secundária Almeida Garrett - Projecto Europeu

Manuel Lima Ramos • Pedro Miguel Santos e Paula

Oliveira do Douro • Turmas A, B e G do 12.º ano; G

Aprender a Viver de Forma Sustentável • Escola

Sousa • Professores (2010/11) da Escola Secundária

e H do 11.º ano e F do 10.º ano (2010/11) da Escola

Secundária Augusto Gomes • Escola Secundária do

de Oliveira do Douro • Professores e Funcionários

Secundária de Ermesinde • Vânia Rocha

Para aderir a este projecto recorte o seguinte rectângulo e remeta para: Parque Biológico de Gaia • Projecto Sequestro do Carbono • 4430 681 Avintes • V. N. Gaia

1 m2 = € 50 = menos 4 kg/ano de CO2 apoiando a aquisição de

euros.

Junto se envia cheque para pagamento

Procedeu-se à transferência para NIB 0033 0000 4536 7338 05305

Nome do Mecenas Recibo emitido à ordem de Endereço N.º de Identificação Fiscal

Telefone

Email O Parque Biológico pode divulgar o nosso contributo

Sim

Não

O regulamento encontra-se disponível em www.parquebiologico.pt/sequestrodocarbono

56 • Parques e Vida Selvagem outono 2012


CARBONO 57

o sequestro de carbono

CONFIE AO PARQUE BIOLÓGICO DE GAIA O SEQUESTRO DE CARBONO Ajude a neutralizar os efeitos das emissões de CO2, adquirindo área de floresta em Vila Nova de Gaia com a garantia dada pelo Município de a manter e conservar de haver em cada parcela a referência ao seu gesto em favor do Planeta.

1 m2 = € 50 = menos 4 kg/ano de CO2 Um diploma personalizado certificará o seu contributo para a plantação de floresta. Para mais informações pode contactar pelo n.º (+351) 227 878 120 ou em carbono@parquebiologico.pt Parque Biológico de Gaia Projecto Sequestro do Carbono 4430-681 Avintes • Vila Nova de Gaia

Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 57


58 ATUALIDADE

Arvoredo urbano e aves migradoras As árvores das cidades ajudam sobremaneira as aves selvagens durante a sua migração. Um estudo realizado recentemente por uma equipa de investigadores norte-americanos, de uma universidade do Ohio, concluiu que até um bosquete urbano pode ser essencial na sobrevivência das aves migradoras. O estudo teve sob observação sete áreas urbanas arborizadas, sendo a mais pequena um arboreto que cobria um espaço menor que um campo de futebol! Descobriu-se que as aves utilizam as linhas de arvoredo que veem a partir do céu para repousar, aproveitando a pausa para se alimentarem, quanto possível, durante a viagem migratória. A dieta das aves inclui insetos, sementes, bagas e outros frutos. Estes dados foram obtidos através de tordos. As aves transportaram dispositivos capazes de registar os seus movimentos. Estas conclusões são relevantes quando se verifica que o mundo está cada vez mais urbanizado e os próprios jardins em muitas cidades, ao sofrerem obras, viram a antiga vegetação substituída essencialmente por pedra. Um dos investigadores, Stephen Matthews, disse que com a expansão das áreas urbanas, as aves encontram paisagens fragmentadas onde os habitats que deveriam encontrar pelo trajeto migratório estão encastrados numa matriz urbana. Fica em aberto uma boa parte das respostas que as aves dão à superfície urbanizada. Na pesquisa, os investigadores perceberam que não era propriamente o tamanho da área arborizada em meio urbano que atraía as aves, mas sim a quantidade de gordura corporal ainda acumulada. Começaram então a entender a importância destes pequenos aglomerados de árvores. Os investigadores confirmaram que a migração é um período crítico no ciclo anual das aves. Em migração, nestes locais de refazimento os pássaros passam 90% do tempo a descansar e a repor energias, pelo que estes habitats se tornam essenciais na defesa da biodiversidade. Em jeito de desabafo, diz um dos investigadores que florestas maiores seriam bastante melhores, mas se as houver pequenas e muitas é sempre bem melhor do que nada. João L. Teixeira

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ATUALIDADE 59

Água potável acabará mais depressa do que o petróleo No nosso país a água que temos como garantida, a médio prazo poderá surpreender pela escassez, estendendo-se o drama a todo o planeta. Michel Brunet, um conhecido paleontólogo, disse que «a água faltará antes de faltar o petróleo». Segundo dados oficiais a agricultura industrial intensiva consome 70% dos recursos disponíveis. Mesmo que a NASA tenha descoberto vestígios de água em Marte ou que seja possível fabricar água

potável a partir do mar, dados os custos, a maior parte da população não terá acesso a esse bem essencial à vida. A água potável é resultado dos ecossistemas naturais e seminaturais, engrenagens complexas que funcionam de modo cíclico, em função dos quais toda a diversidade da vida evoluiu até aos dias de hoje. Bosques nativos, turfeiras, cervunais e outros viabilizam processos de retenção da água, um bem mais que essencial à vida.

Congresso Ibérico de Entomologia A cidade de Angra do Heroísmo, nos Açores, acolheu entre 1 e 6 de setembro o XV Congresso Ibérico de Entomologia. Do programa constaram simpósios sobre biodiversidade e, entre outros temas, sobre conservação, biogeografia, ecologia e biologia subterrânea.

A conferência de abertura esteve a cargo de Paulo Borges, que discursou sobre os padrões macroecológicos em sistemas insulares, concretamente sobre os artrópodes açoreanos. Após o congresso decorreram ainda vários workshops.

Borboletas em meio nuclear O colapso da central nuclear de Fukushima, no Japão, gerou um acidente nuclear em março de 2011 que terá morto mais de 19 mil pessoas, somando-se 326 mil desalojados. Uma equipa de investigadores da Universidade de Ryukyus quis avaliar o impacto através de mutações numa espécie de borboleta da família dos licenídeos, Zizeeria maha. Não foi obviamente só este inseto que foi afetado mas estes dados irão juntar-se a outros de forma a indicar a influência que a libertação desse material radioativo teve no meio ambiente. Ficou verificado que o acidente causou danos fisiológicos e genéticos nestas borboletas. Os cientistas recolheram indivíduos da primeira geração desta

espécie em maio de 2011. Registaram anomalias ligeiras. Isso acentuou-se com as borboletas colhidas em setembro que mostraram mais alterações do que as de maio. Anomalias idênticas às observadas foram reproduzidas experimentalmente em borboletas oriundas de uma área não contaminada, com pequenas doses de exposição a nível externo e interno. A equipa concluiu o que se esperava: o acidente nuclear provocou mesmo danos genéticos e fisiológicos a estes animais. No verão do corrente ano surgiu a autorização para abrir ao público a primeira praia, desde a data da tragédia. Mais: www.nature.com/scientificreports

Peixe sem valor comercial Na Década da Biodiversidade um pequeno peixe de origem asiática, Danio rerio, habitual na aquariofilia, serve de exemplo: existem espécies sem valor comercial que são importantes no quadro da investigação científica. Os dânio-zebra, nome vulgar do pequeno peixe, continua a ser utilizado em experiências das mais diversas com vista a obter mais e melhores conclusões sobre o desenvolvimento neurológico destes animais. Os investigadores atribuem a esta espécie de peixe um amplo espetro de aquisição de comportamentos de aprendizagem, mas hoje ainda não é claro quando se inicia esse processo no seu desenvolvimento. Na ideia de obter respostas a problemas desta ordem, André Valente, do Centro da Ciência do Cérebro, da Universi-

dade de Harvard, nos EUA, e bolseiro da Fundação Bial, conseguiu caracterizar com maior pormenor a ontogénese dessa capacidade de aprendizagem e de memorização que se verificou estar já presente desde a fase juvenil. Desde a formação dos Pirenéus, as bacias hidrográficas ibéricas viram surgir numerosas espécies que não existem em mais nenhum lado do mundo. Sem aparente valor comercial, desempenham papéis úteis ao bom funcionamento dos ecossistemas em que vivem e cuidar da sua conservação é uma obrigação face às gerações futuras, apesar das más notícias que a introdução de espécies exóticas nos nossos rios deixa no ar, tendo como resultado perdas de biodiversidade.

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60 ATUALIDADE

Aves marinhas em declínio Segundo a organização não governamental Bird Conservation International, 97 das 346 espécies de aves marinhas do planeta estão globalmente ameaçadas, e 10% estão perto de ficarem ameaçadas. John Croxall, cientista responsável do Programa Global de Aves Marinhas da BirdLife, afirmou que «as principais ameaças no mar são causadas pela pesca comercial – devido à competição e mortalidade causada pelas artes de pesca – e pela poluição, enquanto em terra, as espécies invasoras e predadoras, a degradação do habitat e a perturbação humana são as ameaças mais representativas». Neste momento, considera-se que os albatrozes são o grupo de aves mais ameaçado mas quase metade das espécies continua em declínio. Ameaçadas de extinção contam-se hoje 17 das 22 espécies. «As aves marinhas são um grupo diverso com distribuição mundial e como predadores de topo são um indicador valioso da saúde marinha», disse Croxall. Medidas que levem à proteção dos locais onde as aves marinhas se agrupam tanto em terra, onde se reproduzem, como no mar, onde se alimentam, poderão ajudar a reverter a situação de crise. Esta organização irá apontar em breve vários locais importantes no mar e irá publicar um inventário a esse respeito.

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em Tordas-mergulhadeiras

recuperação Jorge Gomes


CONSERVAR 61

Larva recém-nascida de ruivaco-do-oeste, 6,2 mm

Tanques de reprodução de peixes no Aquário Vasco da Gama Arquivo AVG

Arquivo AVG

Conservação ex-situ de organismos fluviais O Aquário Vasco da Gama (AVG) libertou, no dia 14 de abril de 2011, 400 exemplares de ruivaco-do-oeste (Achondrostoma occidentale), uma espécie de peixe de água doce endémica de Portugal cuja área de distribuição se limita aos rios da região Oeste, Sizandro, Alcabrichel e Safarujo

Estes exemplares foram reproduzidos em cativeiro no AVG, no âmbito de um projeto de conservação de espécies e plantas criticamente em risco, aprovado pelo Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade, que junta através de colaboração celebrada em protocolo assinado em 15 de julho de 2008, a Quercus, a Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto de Psicologia Aplicada, a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa e a Marinha Portuguesa. Numa primeira fase o projeto visava apenas garantir a manutenção em cativeiro de um repositório genético de um conjunto de espécies fluviais, entre as quais o ruivaco-do-oeste. O grupo original de exemplares desta espécie foi utilizado nos ensaios preliminares realizados no AVG que permitiram estabelecer as condições de manutenção e reprodução posteriormente aplicadas nas restantes espécies de peixes abrangidas pelo projeto e transferidas para a estação de aquacultura da Quercus para

reprodução em maior escala. A reprodução em cativeiro do ruivaco-do-oeste foi realizada pela primeira vez no AVG e foi descrita num artigo publicado em 2010 no n.º 41 da revista Journal of the World Aquaculture Society. Na segunda fase do projeto previa-se a utilização das populações criadas em cativeiro em ações de repovoamento dos rios, associadas a projetos de recuperação de linhas de água. Após a intervenção dos parceiros ISPA e Quercus junto das autoridades locais e no campo, a recuperação da vegetação de um troço do rio e a criação de ressaltos para arejamento da água, e com a autorização da Autoridade Florestal Nacional, estavam criadas as condições para a libertação dos primeiros grupos de peixes. Os peixes foram libertados no rio Alcabrichel, entre as localidades de Ramalhal e Abrunheira (coordenadas: 39°8’10.19”N - 9°12’55.36”W), perto do local onde foram capturados os seus progenitores. Texto com colaboração do Aquário Vasco da Gama

Ruivacos-do-oeste adultos nascidos no Aquário Vasco da Gama

Libertação no rio Alcabrichel Arquivo AVG

Arquivo AVG

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62 CRÓNICA

Por Jorge Paiva Biólogo, Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra jaropa@bot.uc.pt

Eucaliptado o país eucaliptar o acordo ortográfico Já várias entidades [ex.: Associação Lusitana de Fitossociologia (ALFA), Liga para a Protecção da Natureza (LPN) e Quercus], algumas pessoas e alguma da nossa comunicação social (sou português e, portanto, não utilizo o termo “media”) publicitaram opiniões sobre a desastrosa (para não a designar com o termo vernáculo que merece) “Proposta de alteração legislativa sobre acções de arborização e rearborização” elaborada pela ex-Autoridade Florestal Nacional, de maio de 2012

P

ortanto, apesar de ser biólogo (devo saber um pouco mais sobre seres vivos do que um industrial), com carreira científica em plantas vasculares (devo saber um pouco mais de eucaliptos do que um empresário), ter visitado alguns dos Centros de Biodiversidade (Biodiversity “Hotspots”) mais relevantes do Globo Terrestre (devo saber um pouco mais sobre biodiversidade do que os defensores da “biodiversidade” dos eucaliptais) e ter sido docente de Botânica Farmacêutica (devo saber um pouco mais sobre a relevância de biodiversidade na saúde e vida humana, do que os economistas e financeiros), não me cabe arguir sobre a hecatombe que esta alteração legislativa de arborização e rearborização vai causar neste país já tremendamente eucaliptado. Durante a década de 80 (1981-1990) alertei para as consequências da “eucaliptização” desenfreada que decorria nessa altura. Considero que não vale a pena enumerar essas consequências, pois toda a gente as conhece. Aliás, como prova disso, transcrevo o período 62 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

Eucaliptais no rio Paiva, perto de Alvarenga, 22.09.1999


CRÓNICA 63

Eucaliptização: São João do Deserto, Penela, 07.02.1998

do referido parecer elaborado pela LPN: “A expansão do eucalipto em Portugal – desregrada, contínua, sem compartimentação, sem respeitar as galerias e as espécies protegidas – está na origem de problemas diversos que passam pela descaracterização da paisagem, pelo consumo elevado de água, pelos problemas causados ao nível dos incêndios (inflamabilidade da folhagem, combustibilidade dos povoamentos e dificuldades acrescidas no combate), pela diminuição da biodiversidade e pelo seu carácter invasor. Todos estes problemas estão abundantemente identificados em diversos documentos de natureza técnica e científica.” A maioria das pessoas, particularmente os empresários, industriais, economistas, financeiros e políticos, consideram que a economia e o poder financeiro são o melhor suporte para o futuro de um país. Esquecem-se de que quanto mais elevada for a biodiversidade de um país, mais seguro e promissor será o seu futuro. Os exemplos estão à vista. Os países árabes vivem atualmente na abastança, mas não estão a acautelar o futuro, pois quando se lhes acabarem as reservas petrolíferas, não têm biodiversidade suficiente para sobreviver, nem terão poder económico, que agora têm, para a importar (no Gabão, também rico em petróleo, chegam a importar alface de Paris…). Há poucos anos, numas Jornadas na Região Centro, o Presidente de Câmara de Mortágua

(não sei o nome, nem o partido político a que pertence) afirmou que o que era importante para o seu concelho eram os eucaliptais. Depois saiu, acompanhado dos seus apoiantes, sem querer ouvir outras opiniões, o que é habitual de quem não tem argumentos válidos, nem sabe o que é democracia. Eu tinha intenção de lhe perguntar se, no seu concelho, se produziam alimentos suficientes para a população que lá reside ou se ele comia eucaliptos. É bom lembrar que os outros seres vivos (a biodiversidade) não são apenas as nossas fontes alimentares, fornecem-nos muito mais do que isso, como, por exemplo, substâncias medicinais (cerca de 90% dos medicamentos são de origem biológica), vestuário (praticamente tudo que vestimos é de origem animal ou vegetal), energia (lenha, petróleo, ceras, resinas, etc.), materiais de construção e mobiliário (madeiras), etc. Até grande parte da energia elétrica que consumimos não seria possível sem a contribuição dos outros seres vivos pois, embora a energia elétrica possa estar a ser produzida pela água de uma albufeira ou por aerogeradores, as turbinas precisam de óleos lubrificantes. Estes óleos são extraídos do “crude” (petróleo bruto), que é de origem biológica. Portanto, temos de assumir o compromisso de preservar ao máximo a biodiversidade, pois sem os outros seres vivos (biodiversidade) perderemos o ensejo (oportunidade) da

sobrevivência da nossa espécie. Portugal, tem, pois, de preservar os ecossistemas que possui com elevada biodiversidade e não substituí-los por ecossistemas de biodiversidade quase nula, como são os eucaliptais. Portugal tem de produzir mais produtos alimentares e não deixar ao abandono campos agrícolas ou arborizálos com eucaliptos. Se não fizermos isso, o país não tem futuro, pois nunca terá poder económico para importar toda a alimentação, produtos farmacêuticos, vestuário, etc. Poderá estar repleto de eucaliptais, mas a maioria da população morrerá à fome ou por falta de cuidados de saúde. Durante a referida década de 80, fui terrivelmente vilipendiado, ameaçado e prejudicado, pois os promotores da eucaliptização não perdoaram (nem perdoam) a minha “ousadia”. Devo dizer que não retiro nem uma palavra a tudo quanto escrevi sobre este assunto. Lembro-me que nessa altura houve um Ministro que afirmou publicamente que considerava os eucaliptos o nosso “petróleo verde”. Tal como nos países ricos em crude (vulgo petróleo), essa riqueza serviu para o enriquecimento de uma minoria oligárquica, mas o povo continua pobre, tal com em Portugal. Continuo a não acreditar nos políticos e dirigentes florestais que apoiam ou elaboram legislação sobre arborização do país, pois os da referida década que me vilipendiaram e quiseram levar-me a tribunal Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 63


64 CRÓNICA

foram, depois, colocados na indústria de pasta para papel (um Ministro da Agricultura para administrador e alguns elementos dos “Serviços Florestais” para outros cargos). Como estamos não só numa época de “reformulação” linguística, em que uns estão de acordo (particularmente os políticos que legislaram, sem perceberem nada de linguística) e outros em desacordo, por serem linguistas e gostarem do português, como também porque o português é uma língua dinâmica, considero que se deve aproveitar a “onda” e incorporar na nossa língua (portanto, referenciados nos novos dicionários) muitos dos termos (senão todos) que propus nalguns textos publicados nessa década (ex.: A eucaliptização da língua portuguesa - Jornal de Coimbra 66: 8-9, 1988; A eucaliptização - Quercus (Bragança), 11 pág., 1989; Eucaliptado o país, eucaliptar a língua. – Zimbro, Sér. 2, 6: 14-18; (1989). Exemplificamos apenas com uma dezena desses novos termos a adoptar em português: EUCALIPTOMANIA: Tipo de esquizofrenia incurável, que faz com que o doente destrua todas as plantas para as substituir por eucaliptos. O doente não pode ver um carvalho, uma oliveira, um sobreiro, enfim, qualquer árvore que não seja eucalipto. Entra imediatamente em crise e se não substituem logo as árvores da propriedade que adquiriu ou da zona que o rodeia, torna-se violento, chegando a incendiar, para assim fazer desparecer as outras árvores e depois eucaliptar. EUCALIPTIA: Doença infeciosa provocada por uma bactéria, mas controlada por vacinação. EUCALIPTITE: Doença virulenta e gravíssima, que tendo já atacado alguns governantes e muitos dos grandes defensores da nossa economia “independente”, pode vir a alastrar por todo o país. Propaga-se, tal como a eucaliptia, não por contágio pessoal direto, mas através de moeda em papel (vulgo notas de banco). EUCALIPTOCOCOS: Bactéria que provoca a eucaliptia. EUCALIPTINA: Medicamento que ameniza a eucaliptia e a eucaliptite, mas não as cura. EUCALIPTEIRA: Aguardente de eucalipto, de péssimo sabor, mais alcoólica do que a medonheira e muito apreciada por eucaliptólicos. EUCALIPTÓLICO: Viciado em eucaliptos. Alguns eucaliptólicos têm conseguido tratar-se, não porque existam centros de recuperação específicos em Portugal, mas por vontade própria, depois de verem como o eucalipto os levou à miséria. Infelizmente, isso só acontece 64 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

quando a pessoa atinge idade avançada, pois os efeitos maléficos do eucalipto não são imediatos. EUCALIPTOL: Vocábulo já em uso, que serve para designar um produto químico aromático, extraído dos eucaliptos, havendo até no mercado rebuçados de eucaliptol. ÓCALIPTO: Vocábulo derivado do termo latino eucalyptus por síncope popular. EUCALIPTOFESTA: Ou Festa “Tradicional” da Flor de Eucalipto, tal como já houve (felizmente já extinta) a Festa “Tradicional” da Flor da Mimosa. Proponho que esta Festa decorra na Serra d’Ossa ou no concelho de Mortágua e, para a tradição ser mais marcante, devem mandar vir uns coalas, pois estes animais são o símbolo da Austrália e o eucalipto mais cultivado no nosso país, o Eucalyptus globulus, é a árvore nacional da Tasmânia, que, como se sabe, é parte integrante da Austrália. Cumpreme esclarecer que, na referida década de 80, as celuloses chegaram a distribuir um autocolante pela população escolar, para os incentivar a apoiarem a eucaliptização desenfreada que processaram. Estes são apenas exemplos de um amplo leque de vocábulos a incorporar na língua portuguesa, com base no termo latino eucalyptus. P.S.: Cumpre-me esclarecer que não sofro de EUCALIPTOFOBIA. Sou Botânico, por isso não sou inimigo de nenhuma árvore, como é o eucalipto. Sou é contra a eucaliptização desenfreada e desordenada.

Os coalas são um símbolo da Austrália: foto obtida em Queensland, Lone Pine

Póster da década de 80 quando das  primeiras campanhas de eucaliptização

Um eucaliptal tem uma biodiversidade muito baixa – Pombal, 11.04.1998


BIBLIOTECA 65

Ciência e tradição portuguesa A Apenas Livros, uma editora com 15 anos é gerida por três sócios e foi criada com a finalidade de divulgar, a baixo custo, a cultura portuguesa principalmente no meio universitário. Com muita perseverança a editora foi amadurecendo e enfrentando dificuldades até que, alguns anos mais tarde, lançou um projeto editorial intitulado “Apenas de cordel”. Trata-se de singulares coleções de pequenos livros, 21x15, de design gráfico simples e conteúdo valioso que versam sobretudo temas da ciência e da tradição portuguesa, a modernidade, os costumes, as receitas, os dizeres que nos preenchem vazios da memória coletiva com a cultura que tende a desaparecer da tradição escrita. Cerca de 400 autores, entre estudantes, professores, especialistas, mestres e outros já viram os seus trabalhos publicados pela editora, que avalia o interesse do trabalho que lhes é enviado e decide a sua publicação ou não. Estão já constituídas neste projeto editorial mais de 30 coleções temáticas onde encontramos desenvolvidos assuntos como: Os queijos portugueses com tradição; Plantas medicinais e condimentares; Remédios naturais, etnobotânica das plantas medicinais; Arquitetura de terra; Cogumelos; O pão através dos tempos; A cerâmica de Rafael Bordalo; A manteiga em Portugal; A pastorícia em Montalvão; A xerojardinagem, jardins com pouca

rega, e muitos, muitos outros. O projeto “Apenas de cordel” constitui de momento o setor mais importante da editora. A distribuição já foi feita em todo o país, mas de momento efetua-se só em Lisboa. As pequenas livrarias ultrapassam uma turbulência financeira que tem vindo a prejudicar a editora e a distribuição. Estas coleções não se encontram à venda nas grandes superfícies mas pode encontrá-las, bem como o restante catálogo da editora, no sítio da Apenas Livros na internet, e se calhar ainda encontra o livro em que está aquele tema da cultura ou tradição portuguesa que sempre lhe despertou interesse. A título de curiosidade, um projeto com a mesma finalidade, instalou-se recentemente no Brasil pela mão da Arte-Livros Editora. Por Filipe Vieira

Praia da Aguda • Vila Nova de Gaia

Aquário e Museu das Pescas

De segunda a sexta-feira das 10h00 às 12h30 e das 14h00 às 18h00; Sábados, domingos e feriados das 10h00 às 18h00

Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 65


66 COLETIVISMO

O seu voto fará este projeto voar mais alto A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) apresentou este ano, pela 1.ª vez, um projeto candidato ao Orçamento Participativo 2012 da Câmara Municipal de Lisboa. Aliar a recuperação de um edifício histórico à criação de um centro de interpretação ambiental dedicado às aves, é a nossa proposta. O nome do projeto é “Dar Asas ao Património Urbano” e acreditamos que esta proposta tem, de facto asas, pois encontra-se já na lista definitiva de projetos a serem votados. É nesta fase que precisamos do seu voto. As votações terminam a 31 de outubro. Muitas pessoas desconhecem a grande variedade de aves que habitam em zonas urbanas. Bem perto do coração de Lisboa, no Lumiar, o parque edificado na Quinta das Conchas é atravessado diariamente por muitas pessoas no seu percurso matinal a caminho do trabalho, e muitas outras elegeram-no como espaço de

Clara Ferreira

Birdwatching

lazer para os passeios em família ou para fazerem exercício físico. Mas a Quinta das Conchas e dos Lilases, no seu conjunto, também ganha vida com largas dezenas de melros, alguns patos-reais, chapins, pardais, periquitos-de-colar, piscos-de-peito-ruivo, rabirruivos, gaios, falcões, águias-de asa-redonda, garças-cinzentas que adormecem no topo das árvores, andorinhas e andorinhões que, na altura da primavera, aproveitam o final da tarde para altos voos. No meio deste bonito refúgio natural em plena cidade, um antigo palacete em ruínas, aguarda um final feliz. Antiga casa de verão de Faria Mantero, o palacete da Quinta das Conchas tem gerado, pelo seu estado de conservação atual, alguma contestação pública. Pela sua essência histórica e pela sua envolvente natural, este é um edifício que merece ser recuperado e ganhar vida. Recuperar e dinamizar um espaço com essência histórica, aproximar a população do patri-

Quer fazer parte deste projecto? Quer divulgar os seus produtos a mais de um milhão de leitores?

Garanta a sua presença na próxima revista!

Parques e Vida Selvagem Parque Biológico de Gaia | 4430 - 757 Avintes Telemóvel: 969 105 613 | e-mail: pub@parquebiologico.pt 66 • Parques e Vida Selvagem outono 2012

mónio natural que a envolve, desenvolver ações de educação ambiental para crianças e jovens, disponibilizar uma biblioteca e um local que funcione como centro de educação e interpretação ambiental, é a proposta que a SPEA gostaria de ver concretizada. Ganha o património, ganham a natureza e as aves, ganha a população local e quem visita ou trabalha na cidade. Para isso, precisamos que as pessoas votem e, para isso, basta ao cidadão comum inscrever-se no site da C.M.Lisboa, procurar este projeto na lista de candidatos e votar. Vote em: http://www.lisboaparticipa.pt Texto: Susana Alves/Clara Ferreira

Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves Avenida João Crisóstomo, n.º 18 - 4.º - Dir. 1000-179 Lisboa spea@spea.pt • www.spea.pt


GAIA 2013

– Impostos + solIdArIedAde + desenvolvImento – Impostos

· Isenção totAl de tAxA de urBAnIzAção no InterIor do concelho e centro hIstÓrIco; · menos ImI: tAxA máxImA(0,5%) GAIA(0,475%); · menos derrAmA: 2012 – 1,50%; 2013 – 1,25%.

+ solIdArIedAde · lIvros escolAres GrAtuItos pArA 14 mIl crIAnçAs; · novAs escolAs púBlIcAs de excelêncIA pArA 1500 Alunos; · medIcAmentos mAIs BArAtos pArA os mAIs cArencIAdos; · 500 postos de trABAlho pArA Jovens Ao ABrIGo do “Impulso Jovem”.

+ desenvolvImento · requAlIfIcAção de vIlA d’ este; · 2.ª fAse de reABIlItAção dA orlA mArítImA; · centro de Alto rendImento olímpIco; · reABIlItAção dA orlA rIBeIrInhA (ponte d. luIs I/AreInho de olIveIrA do douro); · cIrculAr do centro hIstÓrIco; · duplIcAção do pArque BIolÓGIco munIcIpAl; · novos pArques de estAcIonAmento no centro urBAno. Parques e Vida Selvagem outono 2012 • 67


Centro de Congressos Hospedaria Self-service Parque de Auto-caravanas Audit贸rio e muita, muita Natureza!

a apenas 15 minutos do centro de Vila Nova de Gaia


Revista PARQUES E VIDA SELVAGEM n.º 41