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BOM DIA, DIA Acordei esta manhã com uma frase na boca: “Bom dia, dia”. E pensei: que bom é acordar, é abrir a janela, é ver o sol entrar, é olhar a árvore na rua, é ver uma criança que passa, é ouvir alguém na casa vizinha com o rádio bem alto, ou será que é a televisão? Que bom estar viva e ver que cada dia é um novo dia, é uma nova vida. Ë a minha vida que se renova e da qual tantas vezes me queixo, por pura falta de gratidão. Sem reparar que a vida melhora. Acreditem. Nossos netos são mais sadios do que fomos, antes de existirem as vacinas.Nossos pais não duraram tanto, quanto estamos durando. A vida humana está mais longa. Nossas avós andavam de coquinho em seus penteados e jamais mostravam as canelas. Hoje nos misturamos aos jovens. Vamos aos cinemas, aos teatros sozinhos e até saímos para dançar. Temos o Estatuto do Idoso, que nos permite andar de ônibus sem pagar. E não agradecemos. Vemos atores de nossa idade fazendo bonito na tevê, merecidamente. Claro que não são todos. Nem haveria espaço. Mas já há respeito por nós, os que nasceram antes.Pensei neste momento na palavra “velho”, não gosto. Nem da palavra idoso. Somos apenas os que nasceram antes. E estamos aqui: independentes, sadios, vivos, felizes. Nossos filhos e nossos netos nos tratam por você e nos contam suas primeiras façanhas amorosas. Rimos. Rimos deles ou de nós? Que perdíamos tanto tempo caraminholando um flerte à distância. E então respeitamos a moral deles, pois sabemos que eles têm moral, embora diferente da nossa. E eles, os jovens, nos amam tanto... Acreditem. Bom dia, dia. A você, dia, que chega diferente a cada vez, a você que é benfazejo e vem me acordar carinhosamente, dizendo ao meu ouvido: “Acorda, levanta, viva”. E a quem só tenho que obedecer e viver. V.A.


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BOM DIA, DIA