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Copacabana Club | André Dahmer | Vanessa Barbara | Marcelo Tas | Matheus Souza | Lady Gaga

Ano 0 | Nº 0 | Outubro 2010

Cachalote

O 3D veio para ficar? Rock in Rio² Saiba como é feito um e-book

Projeto ousado. Cinco histórias. Duas mentes e quatro mãos. Daniel Galera e Rafael Coutinho abrem portas para as graphic novels nacionais

Edição 0

R$ 10,90

Fernanda Viégas

A de sig em u ner bras i sobr m bate-p leira e in apo imag fográfico proje ens e se s, u to no Goog le


A vida está cheia de desafios, cabe a você transformá-los em grandes oportunidades

Criatividade é inventar, é experimentar, é crescer, quebrar regras e se divertir. Nós da Wezen focamos em ser criativos ao apresentar soluções online que atendam suas necessidade. Websites, blogs, redes sociais, SEO e animações em Flash. Contando com uma equipe de profissionais altamente qualificados, combinamos a tecnologia com o melhor do design, sendo a criatividade nossa principal ferramenta. Seja qual for a sua empreitada, brincamos de inovar. Wezen, criatividade e tecnologia como você nunca viu.

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criatividade e tecnologia


<índice> A Pop-Up............................................................................ 06

<opinião> Marcelo Tas está atrasado............................................ 08 O homem-múltiplo da televisão brasileira mostra não perder tempo quando o assunto é tecnologia, política, educação e, claro, muito humor

<bate-papo> Entre dados e gráficos................................................... 12 A brasileira Fernanda Viégas foi considerada pela revista Fast Company uma das mulheres mais influentes no mundo da tecnologia. Agora, é contratada do Google

<tech> Fantástica fábrica de aplicativos................................ 18 Empresas apostam no setor de aplicativos e a criatividade é o que comanda o mercado que já atinge a casa dos bilhões

Um clique brasileiro no Twitter.................................. 20 Vitor Lourenço, 23, conta como conquistou seu espaço no mundo dos 140 caracteres

<estilo> Lily antes de Chanel ...................................................... 22 Vintage . ............................................................................. 24

<literatura> InDica................................................................................... 28 E-books............................................................................... 34 Passo a passo de como é produzido um e-book no Brasil

Mil mundos em um lugar só....................................... 36 Salvo na repescagem da editora Cosac Naify, “O Livro Amarelo do Terminal” foi o trabalho de conclusão de curso da recém formada em jornalismo, Vanessa Barbara

Clube dos seis................................................................... 38 Seis autores na casa dos trinta poderiam ser a nova cara da literatura brasileira?

Sonho lúdico .................................................................... 46 Em projeto ousado, o escritor Daniel Galera e o quadrinista Rafael Coutinho abrem portas para as graphic novels nacionais

HqTwitter............................................................................ 52

a d n a n r Fe gas Vié


<cinema> InDica . ................................................................................ 56 Muito além dos caninos afiados ............................... 62 No sucesso da saga Crepúsculo eles são modernos, alguns vegetarianos e brilham ao sol. Não se fazem mais vampiros como antigamente

Apenas o começo . ......................................................... 64 Jovem e talentoso, Matheus Souza, provou que é possível produzir um filme com uma ideia e poucos recursos

Tecnologia que salta aos olhos ................................. 66 Bom para o público e para o mercado cinematográfico. O 3D veio para ficar!

CineTwitter . ...................................................................... 72

<música> InDica . ................................................................................ 76 Na garupa digital . .......................................................... 82 Acreditando no potencial convergente da internet, Móveis Coloniais de Acaju e gravadora Trama embarcam juntos na jornada do mercado digital brasileiro

Ás de Copas . .................................................................... 84 Em menos de três anos, os curitibanos do Copacabana Club tornaram-se uma das grandes promessas da música nacional. A vocalista Cacá V abre o jogo e conta como tem sido esse repentino sucesso

Gaga quer o mundo ...................................................... 86 Ela tem 24 anos, é loira e magra, mas o enorme nariz italiano não foi capaz de diminuir o sucesso de Stefani Germanotta, a garota por trás de Lady Gaga

MúsicaTwitter ................................................................... 92

<coluna> A reivenção de Orfeu .................................................... 94 Making Pop ...................................................................... 96 Expediente ....................................................................... 98

Crédito das fotos - Divulgação


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Revista POP-UP | Outubro>2010


Daniel Galera e Rafael Coutinho. Um escritor e um desenhista, juntos em um projeto de histórias em quadrinhos até então inédito no Brasil, o romance gráfico Cachalote. Para a primeira capa e primeira cara da Pop-Up não poderia ser mais ninguém. Até poderia, no entanto optar por jovens talentosos pareceu tentador. Gostamos disso e apostamos. A união de Galera e Coutinho é uma junção de texto e imagem que conversam entre si e tornaram-se únicas, uma fusão que é a cara da Pop-Up. Letras e ilustrações devem estar relacionadas, mas nunca apenas colocadas em seus devidos lugares: as letras podem ser imagens assim como as imagens tornam-se letras. Uma simbiose cultural e de resultado pop. Na verdade, falar da “cara da Pop-Up” é mais falar de uma colcha de retalhos moderna. São imagens, letras, sons e pensamentos agrupados, assim como na internet, mas que terão chance de se reinventarem e surpreenderem. Uma seleção de assuntos diversos e até mesmo contraditórios por opção. Revista altamente influenciada pela internet e de leitura menos rápida nos dias de hoje? Laerte se transformando em um personagem de si mesmo? Danny Trejo, um dos atores mais feios de Hollywoody, estrelando um filme no qual beija belas mulheres e prega uma vingança sanguinolenta? Nova musa do pop fora dos padrões de uma queridinha da América? Doidera sem limites que para nós é comum. Tratar Fernanda Viégas e Vitor Lourenço como autores, no sentido de produtores de cultura entre bits e pixels, faz todo sentido quando olhamos nossas escolhas de livros, filmes e bandas que têm seus trabalhos definidos e modificados pela internet. Gostamos de autores e produtores que se destacam pela inovação e atitude, independente da área que escolheu para se expressar. Da mesma simbiose cultural, a internet completa a Pop-Up e viceversa. Não há limites, e devemos saber disso. Os e-books apareceram com tudo especialmente em 2010; o cinema 3D explodiu com o sucesso de “Avatar”; a música digital nunca foi tão forte; Lady Gaga talvez jamais tivesse tamanho sucesso sem a integração da rede; jovens autores conquistando seu lugar ao sol. Seja qual for a época, rede social, ou a tecnologia usada, o leitor deve ser informado sem ser subestimado. Com um visual moderno e que misture harmonicamente texto e imagem, nós pretendemos trazer informação acompanhada de diversão a quem cresceu, cresce e crescerá numa era sem precedentes. Embarquemos nessa jornada. Avant-gard! Equipe Pop-Up

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Ilustra: Patrick de Andrade

<opini達o>


Marcelo Tas está

atrasado

Atrasado apenas para a entrevista, o homem-múltiplo da televisão brasileira mostra não perder tempo quando o assunto é tecnologia, política, educação e, claro, muito humor <Por Debora Nogaroli, Flávia Rodrigues, Isabelle Ribeiro e Rafael Roncato> Marcelo Tas está atrasado. Além de nós, um jornalista da Saraiva Conteúdo também o aguardava pacientemente para uma rápida entrevista. Armado de uma bolsa com camuflagem militar, óculos de armação grossa, paletó tom verde musgo e um par de tênis que poderia muito bem ter sido produzido por Andy Warhol em sua coloração pop-art, ele chega ao estúdio do “CQC” apenas 30 minutos fora do cronograma. Ainda se recuperando da correria, cumprimenta a todos enquanto pede mil desculpas pelo atraso. O outro jornalista pede para entrevistá-lo primeiro. O foco das perguntas é o mais recente projeto do homem múltiplo da televisão brasileira: um apanhado de frases cômicas dos discursos do presidente Lula, o livro “Nunca Antes Na História Desse País”. “Me sinto de outro planeta ao lançar um livro que ironiza o Lula. Ninguém faz isso”, brinca ao responder sobre o conteúdo de sua divertida coletânea. Tas está visivelmente confortável como entrevistado, as respostas fluem com tanta rapidez e clareza que até parecem serem pensadas antes mesmo de saber qual é a próxima pergunta. Devem ser anos de treinamento diante das câmeras. Treinamento não, mas prática.

Várias copas atrás, em 1986, um tímido e atrapalhado repórter perguntou ao vice-presidente da CBF, Nabi Abi Chedid qual seria sua próxima jogada, numa clara alusão às negociatas na quais o experiente político estaria envolvido. Sem esperar resposta, Ernesto Varela, acompanhado por seu câmera e braço direito Valdeci, foi embora sem preocupar-se com a irritação do entrevistado. A missão estava cumprida e a carreira de impertinência de Tas estava firmada.

Da mesma maneira que Super-Homem tem Clark Kent, Marcelo Tas tinha como um de seus alter egos o também repórter Ernesto Varela. Ele nasceu, em 1983, durante uma brincadeira de homem do tempo na produtora Cérebro Eletrônico, para disfarçar sua timidez frente às câmeras. O personagem cara-de-pau dos óculos de armação vermelha foi aperfeiçoado em conjunto com o cineasta Fernando Meirelles, que logo seria Valdeci, o câmera oficial de Varela. Na mistura entre jornalismo e humor irônico, Varela e Valdeci conquistaram a atenção nacional, além de entrevistarem Deus e o mundo, de políticos como Lula e Fernando Henrique Cardoso, até grandes jogadores de verdade, como Pelé e Sócrates. Tornou-se um repórter “cult” sem papas na língua, que já levou bolo e cantou parabéns para Paulo Maluf, emendando a pergunta: “É verdade que o senhor é ladrão?” No entanto, quem termina de responder às perguntas relacionadas ao seu livro é Marcelo, mais desenvolto e um pouco menos ácido que sua criação. Mesmo após encerrar a entrevista, ele não para: “Ainda tenho que dar uma passadinha na rádio”, anunciando previamente, “É coisa de dois minutos, aproveitamos e apresento a Band”, completa sorridente. Percorremos os corredores da emissora Bandeirantes, agora levados pelo guia Marcelo Tas na frente: “Aqui é o Band News”, apontando para praticamente um aquário no meio do primeiro andar da emissora, na qual a âncora grava algumas das notícias do dia. “Vejam ali, ela que tem o controle do TP [Teleprompter]”, comenta enquanto esperamos a chegado do elevador. Ela nos nota, sorri e dá um tchauzinho contido. Agora é nossa vez de descobrir o que se passa na cabeça de Marcelo Tas.

Já imaginou uma reprise do programa da Xuxa, de 1989, hoje? É só ver no YouTube. Você vê ela gritando, jogando iogurte nas crianças e tal. É uma piada.

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Se você pegar o Varela, o “Rá-Tim-Bum”, o “Castelo [Rá-Tim-Bum]”, até mesmo o “Telecurso 2000” que é um projeto bem mais formal que eu fiz, tem ali um humor com educação e tentativa de mostrar como as coisas funcionam. O que é um pouco o meu DNA, de tentar entender um pouco as coisas. E aí também tem o “Vitrine”, tentando entender essa revolução digital, aí tem o blog, tem, enfim, o próprio “CQC”, que é uma coisa de entender o próprio noticiário. Eu acredito que eu tenho esse DNA que eu vou tentando aperfeiçoar ao longo do tempo. Tem horas que eu sou mais feliz ou menos feliz nessas tentativas todas, mas acho que o balanço é positivo.

“Rá-Tim-Bum” atualmente

Política

O Brasil, até hoje, não levou a educação a sério. Essa que é a realidade. Estou falando de países que eu conheço, não estou falando de teses; já morei e estudei fora do Brasil, já morei nos EUA, eu sei o que é investir estrategicamente. Ao entrar numa biblioteca norte-americana, você entende isso na hora, você sente o acesso à informação, sente o quanto aquele país coloca de esforço para prover aquela estrutura que está ali – independente dos alunos usarem. Não estou falando que os alunos americanos são geniais, porque não são. Mas existe um investimento estratégico em educação, tanto nos EUA, quanto no Japão, quanto na Coreia, na França... Aqui no Brasil não é. Aqui é um investimento de discurso, gente falando besteira. É choque de ideologia, gente falando que o sistema deveria ser X ou Y, quer dizer, fica uma coisa muito mental e pouco prática. Então, para responder essa questão, criaria Poupa Tempos de tecnologia; grandes estruturas onde as pessoas poderiam ter acesso as coisas, livros, conexões. Só com isso a gente conseguiria um enorme avanço. Você vê, o brasileiro sempre teve que se virar para correr atrás do que ele não ganha, não recebe, não conquista; ele não ganha o que é direito dele: educação, saúde, segurança, essa coisa toda. Se criasse esses Poupa Tempos, já acho que daria um choque de acesso nas pessoas. Agora, a mudança que eu vejo que se precisa, é ter uma postura diferente - o que não acontece -, é encarar a educação de uma forma estratégica e com seriedade. Nesse ponto nós não chegamos. Isso é ainda uma meta. Até hoje foi só bla bla bla.

Contribuição nas gerações Acredito que consegui. Não sei se consegui um lugarzinho no céu, mas pelo menos, talvez, tenha consegui escapar do inferno com essa pequena colaboração. Na verdade, eu não gosto de ficar muito olhando para trás, mas quando eu olho algumas coisas que eu fiz, elas têm, digamos, uma identidade. Você consegue enxergar que tem uma linha criativa que vai para uma direção.

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Ele funciona! E é reprisado até hoje e com audiência alta. É incrível o “Rá-Tim-Bum”, é um fenômeno. E eu acredito que ele só funciona porque ele foi criado com muita ousadia. As coisas que você não cria com ousadia elas não duram muito. É só você ver uma reprise, imagina uma reprise hoje do programa da Xuxa de 1989, quer dizer, é só você ver no YouTube, eles usam esses exemplos de piada: você vê ela gritando, jogando iogurte nas crianças e tal, é uma piada. Agora, o “Rá-Tim-Bum” é reprisado e ainda as crianças vêem com muito interesse, é um projeto que ainda está novo, digamos. Os estranhamentos vêm dos hábitos que mudaram muito. Aliás, a [TV] Cultura teve que reeditar algumas coisas do “Rá-TimBum”, porque, por exemplo, tinha muita gente fumando; mamãe dando banho no filhinho fumando um cigarro (risos). Aí você vê o quanto a gente já mudou. Tirando isso, os quadros são ainda muito frescos, muito novos.

Nova geração Criança é uma coisa que não muda muito porque o que eu acredito que caracteriza uma criança é a espontaneidade e a inteligência. Então, graças a Deus, as crianças continuam espontâneas e inteligentes; e sinceras também, que é uma coisa muito cruel com a gente. Elas falam o que elas pensam (risos). Acho isso muito legal. Então, aliás, isso foi o que me estimulou a fazer o “Plantão [do Tas]”, eu gosto muito de produzir para esse público, me sinto muito desafiado. Antes do “Castelo” eu fiz o “Rá-Tim-Bum”. Foi ainda naquela época que teve um impacto ainda mais chocante para mim, porque era uma televisão ainda muito viciada, cheia de Xuxas, uma televisão muito careta mesmo. Hoje, se é que há uma diferença, é


que as crianças tem muito mais opções, então é ainda mais difícil prender a atenção dos olhinhos deles porque eles tem tanta coisa boa para fazer que não vão perder o tempo deles se você ficar enrolando. Aliás, eu acho que é por isso que a Xuxa se aposentou, não da mais para enrolar as crianças com aquelas musiquinhas e aquelas coisinhas. O “Plantão” é um programa que é até muito sofisticado para criança porque ele fala de reportagem, de meio ambiente, às vezes de notícias absurdas e com uma linguagem que a gente tinha dúvidas se ele pegaria as crianças. Para nossa surpresa, a gente tem recebido sugestões de pautas muito sofisticadas, os caras não só entenderam o humor absurdo do “Plantão”, como agora vem com ideias ainda mais loucas que aquelas que a gente teve. Chegou uma essa semana de uma menina falando para a gente fazer uma matéria policial, porque não tem matéria policial. É mesmo, mas qual matéria? O assalto à geladeira (risos). É legal isso.

Tecnologia Sou um consumidor voraz dessas coisas, mas hoje sou um usuário do Kindle muito intenso. E acho que nós ainda não nos demos conta do tamanho da mudança que o Kindle trouxe até porque ainda tem poucos deles circulando aqui no Brasil. O Kindle é uma revolução ainda não absorvida, tanto que muita gente, quando lançou o iPad, começou a comparar o iPad com o Kindle e não tem nada a ver essa comparação, porque são dois animais totalmente diferentes. O iPad eu já experimentei, porque um amigo desses “tarados” foi lá e já trouxe um, mas o Kindle é uma gigantesca mudança na maneira como a gente acessa os livros e ele foi feito para isso: não emite luz, é um livro mesmo, você precisa de um abajur para ler; ele é leve, gostoso de segurar e pode achar qualquer livro de madrugada. Você baixa qualquer livro em um minuto. É uma coisa muito estranha que até hoje eu estou impactado por isso e sem falar nas revistas e jornais também. Eu já assino três jornais e duas revistas que eu não teria assinado se eu não tivesse o Kindle e por um preço relativamente baixo. Eu tenho acesso à informação e qualquer lugar que eu esteja – esteja no interior do Mato Grosso, esteja em Buenos Aires ou na casa da minha tia, onde o sinal do celular é ruim, mas eu leio o The New York Times todos os dias ou O Globo; ou leio um jornal da Índia que eu assinei, porque é um jornal de tecnologia ou a revista do MIT que é uma revista muito barata, custa três dólares por mês, uma revista incrível de tecnologia. É uma coisa até esquisita, ter acesso a uma informação de tal qualidade com tamanha facilidade, basta um sinalzinho vagabundo de celular e você baixa tudo isso, e ainda não paga esse sinal. Isso, pra mim, foi um choque. O iPad não, é um outro animal que tem uma missão muito maior; ele entra pelo entretenimento mesmo, dos games, dos vídeos, do cinema, menos do livro. Ler livro no iPad é um negócio muito chato, é uma luz virada na sua cara e ele é pesado, você não consegue ficar segurando o IPad igual você fica segurando um livro, porque começa a cansar, ou seja, você vai ter que deixar ele no colo, mas aí deixar um negócio no colo é complicado. O iPad pesa quase um quilo, é bem diferente a experiência de leitura dele.

É um momento que a gente está vivendo, outra revolução na publicação e no acesso a publicação, principalmente de material impresso. Eu acho que já aconteceu uma revolução mesmo no Brasil, porque o acesso é mais demorado, mas ele chega, igual à Internet. Eu comecei a fazer essa ligação de Internet com televisão em 98 quando eu fiz o “Vitrine” na TV Cultura. Foi o primeiro programa de TV aberta que falava de Internet e tinha um blog em 1998. A gente lia o blog no programa, no ar, lia os comentários, sugestões, e o público sabia quem estaria no programa e me ajudavam a entrevistar mandando perguntas através de um chat. Desde então, eu já senti o quanto que a gente estava sendo impactado por aquilo; claro, de uma maneira ainda muito pequena. Mas naquela época o pessoal falava: “Pô, vocês estão fazendo um programa elitista, porque vocês estão falando de Internet”. Eu acho que é a mesma coisa hoje, a gente pode olhar para o Kindle e dizer que é uma coisa elitista. É uma coisa que daqui a pouco é um tocador de MP3 que você ganha de brinde no posto de gasolina. Eu acho que vai acontecer a mesma coisa com o Kindle e com o IPad.

Saiba mais: marcelotas.blog.uol.com.br @marcelotas

Tas Top 5 Bandas ou músicos: Michael Jackson, Miles Davis e Mozart, pra ficar só na letra M.

Livros: “Cândido”, Voltaire

Lugares para conhecer: Istambul, Nova York e o rio Arapiuns, na Amazônia.

Artistas relevantes: Buster Keaton, Picasso e William Shakespeare

Quem seguir no twitter: David Lynch, Neil Gaiman e O Criador

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<bate-papo>

Entre dados e gráficos A brasileira Fernanda Viégas foi considerada pela revista Fast Company uma das mulheres mais influentes no mundo da tecnologia. À época, trabalhava na IBM. Agora, é contratada de outra gigante: o Google. Conheça a história dessa designer de sucesso e entenda por que a visualização de dados é hoje uma tendência no mundo digital <Por Isabelle Ribeiro> Vivemos cercados por números, códigos e dados que cada vez mais invadem a atmosfera social. Segundo relatórios divulgados esse ano, 90 milhões de novas mensagens diárias são postadas no Twitter, 5 bilhões de novos conteúdos são compartilhados semanalmente como links, posts em blog, fotos e vídeos – no Facebook e o mercado brasileiro de revistas conta com 4 mil títulos disponíveis, o dobro se comparado há 10 anos. Mas como entender melhor esse mar de informações? A resposta é bem simples e muitos já entenderam o recado: transformar dados complexos em imagens simples. Diante do caos informativo, o homem necessita de algum tipo de tradutor para que ele possa lidar com todos os números de uma maneira fácil e intuitiva. O trabalho de Fernanda Viégas, 38 anos, é exatamente esse: organizar e democratizar a tecnologia de visualização de dados. Ela sabe que não se trata somente de disseminar ferramentas e técnicas para trabalhar grandes conjuntos de dados. Em entrevista ao site Information Aesthetics no começo desse ano, a designer chegou a comentar: “a visualização de dados está pronta para se tornar um meio de massa”. Fernanda cursou linguística e engenharia química no Rio de Janeiro, mas não concluiu nenhuma das duas faculdades e decidiu partir para os Estados Unidos. Lá se formou em design gráfico e história da arte pela Universidade de Kansas, em Lawrence e entrou para o Media Lab, um laboratório de pesquisas e pós-graduação em tecnologia, no MIT (Massachusetts Institute of Technology). Foi neste período em que esteve no maior instituto de pesquisas em ciência e tecnologia do mundo que a brasileira se destacou com o projeto Themail, o primeiro passo para a designer mostrar que a visualização de dados nos permite entender melhor dos assuntos mais complexos aos mais simples e cotidianos. Com o passar do tempo, em 2007, resolveu democratizar essa experiência e criou o Many Eyes – em parceria com o designer Martin Wattenberg na época em que trabalhavam na IBM – uma ferramenta que possibilita a criação de gráficos sobre qualquer assunto. Para se ter ideia, na sua última palestra no Brasil, Fernanda quis mostrar a versatilidade do programa e criou um infográfico sobre os personagens da novela das oito. A imagem mostrava toda a trama da história, quais eram os protagonistas, como cada núcleo se organizava. Foi possível entender o enredo sem nem precisar assistir um episódio da novela.

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Além disso, o Many Eyes é mais uma oportunidade de interação entre as pessoas: a interface permite um debate centrado nos dados entre os usuários. Perguntas, discussões, comentários e hipóteses de todos os cantos do mundo podem ser vistos em seu site. Em entrevista por telefone à Pop-Up, Viégas falou sobre seus projetos na área de tecnologia e design. Confira abaixo.

Você cursou linguística e engenharia química no Brasil. Desistiu das duas e foi estudar nos EUA. Com qual idade tudo isso aconteceu e por que resolveu estudar fora? Isso aconteceu quando eu tinha uns 18 anos. Resolvi vir para os Estados Unidos porque fiquei sabendo que aqui você pode mudar de ideia e de área no meio de um curso de graduação. Isso para mim foi a salvação pois me possibilitou experimentar aulas em várias áreas até achar o que eu realmente gostava de estudar.

Conte como foi estudar no mais famoso instituto de tecnologia do mundo, o MIT. Estudar no MIT foi uma das experiências mais marcantes da minha vida, mas, ao mesmo tempo, foi um dos lugares mais frustrantes também. Nunca trabalhei tanto como lá. Também nunca aprendi tanto! Peguei aulas que estavam totalmente além da minha capacidade, tentei, falhei várias vezes e continuei tentando. Tive o privilégio de conhecer pessoas muito mais inteligentes do que eu. O MIT é realmente um lugar único e fico feliz em poder ter estudado lá.

Foi no MIT que você desenvolveu o Themail? O que é o projeto? Foi lá que desenvolvi o Themail, uma visualização de arquivos de email. O projeto surgiu quando percebi que, por estar longe do Brasil e de minha família, meu arquivo de e-mail havia se transformado em um registro das relações mais importantes na minha vida; todas as conversas, novidades, desabafos estavam lá. Apesar da importância dessa correspondência, não havia maneira de extrair o conteúdo dessas trocas, o tom das mensagens e como tudo isso havia mudado ao longo dos anos. Por isso resolvi criar uma visualização que me permitisse ver como as minhas relações via e-mail haviam evoluído.

wired_anniversary “Visualização feita para comemorar os 15 anos de vida da revista Wired: visualizamos o uso de cores nas capas. Cada círculo representa uma capa.”

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E o Many Eyes? O Many Eyes é um site público e gratuito onde qualquer pessoa pode carregar e visualizar dados. O site foi o primeiro a democratizar técnicas sofisticadas de visualização interativa. Foi lançado em 2007 e hoje conta com dezenas de milhares de usuários e visualizações. Os usuários vão desde jornalistas e cientistas até crianças, escritores e professores. É uma ferramenta interessante para os jornalistas conseguirem organizar e visualizar melhor toda a informação que está na rede, certo? Sim! O Many Eyes e um outro projeto chamado Times Blow que desenvolvi em parceria com o Martin Wattenberg, especialmente voltado para jornalistas. É interessante para o jornalismo investigativo, pois você pega todos os dados de uma apuração como pessoas envolvidas, lugares por onde passou, tempos diferentes e joga lá para gerar uma timeline. Com as informações organizadas em imagem, fica mais fácil entender uma história e tirar conclusões daqueles dados todos.

Então, a visualização de dados é uma solução para organizar a avalanche de informações disponíveis na rede? A proposta da visualização de dados é lidar com esse mundo de informações digitais numa escala mais humana. Muitas vezes a visualização funciona como um “tradutor” transformando esses milhares de dados “jogados” em algo inteligível para as pessoas. Fazer com que dados estejam disponíveis online é importante e é sempre o primeiro passo dessa revolução da informação. Mas é apenas isso: o primeiro passo. Para que, além de experts, cidadãos comuns consigam entender o que esses dados significam, precisamos de ferramentas que nos ajudem a revelar a mensagem dessas informações. Visualizações e gráficos tornam essas informações mais acessíveis para uma camada muito maior da população.


history_flow_chocolate “Visualização da Wikipedia que está no MoMA. Essa imagem mostra a evolução do artigo sobre ‘chocolate’ na Wikipedia em inglês. o zigue-zague é uma guerra de edição.”

Na sua opinião, a rede está pautando o jornalismo e, consequentemente, a sociedade? Sim, concordo. A rede começa a pautar os jornalistas não por dados específicos que estão presentes nela, mas sim a partir do momento em que as nossas vidas começam a acontecer na rede também. Há uma massa crítica de pessoas presentes na internet, os relacionamentos estão começando a acontecer, em grande parte, online. A partir do momento que as histórias estão se desenrolando ali, é pra lá que os jornalistas vão também. É uma questão natural diante desse desenvolvimento pelo qual a estamos passando.

É possível afirmar que as pessoas têm muito mais facilidade em lidar com imagem do que com texto e números? Tudo depende da escala de informações sobre a qual estamos falando. Se você me mostrar uma frase ou um número, provavelmente vou entender sem problemas. Mas se você me mostrar centenas de milhares de números ou centenas de milhares de livros, não pode esperar que eu entenda alguma coisa sobre toda essa informação em poucos minutos. No entanto, se você me mostrar uma visualização desses milhares de números ou livros, em poucos instantes poderei compreender aspectos importantes sobre essas informações. Não terei lido todos os livros nem memorizado todos os números, mas poderei ver relações entre as palavras usadas ou os números presentes. Isso acontece porque evoluímos para entender imagens. O canal visual é uma das maneiras mais importantes de que dispomos para interagir com o mundo a nossa volta. A visualização tira proveito da habilidade nata do nosso cérebro de captar padrões visuais imediatamente, sem esforço. Então, é fácil convencer as pessoas de que criar gráficos pessoais é legal? Não é difícil convencer as pessoas de que gráficos pessoais são interessantes. Na minha experiência, toda pessoa que vê uma visualização de seus dados fica imediatamente interessada em interagir com as imagens e aprender mais sobre si mesma. Se você pudesse ver quais as pessoas com quem você mais trocou e-mail no último ano, como o seu peso tem flutuado nos últimos tempos, quais são as palavras mais usadas em seu blog, você teria um espelho digital. Quem não gosta de espelhos? Por falar em espelhos, me conte como seu trabalho foi parar no MoMA. A curadora do museu entrou em contato comigo quando estavam montando uma exposição que tinha a ver com design contemporâneo. A ideia foi expor nosso projeto científico chamado History Flow, que consiste numa visualização de dados da Wikipedia. O gráfico adquiriu uma estética bonita, uma dinâmica legal entre as cores e por isso, chamou atenção do MoMA. Ele une dois aspectos; design e um retrato do que acontece na Wikipedia. Nós [Martin Wattenberg também desenvolveu essa pesquisa com Fernanda] topamos na hora! Hoje, o trabalho foi doado para a exposição permanente do museu.

O que vocês descobriram nessa pesquisa de dados da Wikipedia? Nós criamos uma técnica para visualizar o histórico de edições dos verbetes do Wikipedia. Com a nossa ferramenta você poderia escolher qualquer artigo do site e analisar quantas vezes ele foi modificado, o que exatamente foi editado, como o artigo foi se transformando. Começamos a ver muito claramente nessas visualizações as guerras de edições que acontecem nos verbetes, tanto é os gráficos ficam cheio de zigue-zagues. Você acompanha o desenvolvimento do Brasil nessa área de visualização de dados? Já temos alguns veículos de comunicação que estão investindo na área. Eu gosto muito do trabalho que está sendo feito no Estadão. Na época da Copa do Mundo eles fizeram um visualização muito bacana sobre todas as copas onde o Brasil já jogou; informações sobre cada um dos jogos, se o Brasil tinha vencido ou não, quantos gols contra, a favor. E ficou uma visualização belíssima, interativa. Eu aprendi muito olhando aquilo. O que falta é investimento nessa área. O The New York Times, por exemplo, tem uma equipe de 30 pessoas que trabalham nos infográficos interativos. Não é a toa que eles estão na frente e ganham prêmios através dos gráficos, visualizações, mapas, etc. Acredito que o Brasil ainda vai crescer muito nessa área. As pessoas estão começando a se ligar nisso, nós já recebemos muitas ligações de empresas brasileiras que queriam contratar nosso serviço de visualização. É muito importante todos entenderem esse avalanche de dados.

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É uma área que une design, informação, tecnologia... Sim, você junta coisas muito díspares e isso é extremamente legal! É ciência da computação com design, com jornalismo, com arte. Acho que o jornalismo tem tudo a ver com a visualização; há histórias que a gente só consegue contar com uma abundância de dados. A visualização toca campos que você pensa que são diferentes, mas na realidade têm muito a ver. Como foi ser escolhida como uma das mulheres mais influentes do mundo da tecnologia? Foi uma surpresa muito boa, me senti honrada porque as mulheres indicadas são todas inteligentes e capazes. Além disso, me senti três vezes mais feliz pelo fato de ser brasileira e por representar a área de visualização, por mostrar que a área que eu trabalho é influente, é interessante. Que conselhos você daria para um jovem que está se aventurando na área de design, visualização? Minha dica é não se acomodar nunca. Tem que ficar de olho, ficar atento para as conexões inesperadas. Eu, por exemplo, estudei design gráfico e nunca imaginei que ia fazer o que estou fazendo hoje. Na minha cabeça de estudante eu estaria desenhando capa de CD, DVD, pôster. Tem que tentar aplicar o que você aprendeu em coisas diferentes, em áreas diferentes. Isso é válido para todo o tipo de profissão; design, medicina, advocacia. As pessoas conseguem dar asas a imaginação e seguir seu caminho quando percebem que os caminhos se cruzam e estão abertos para todos. Quais são seus projetos futuros? Acabei de entrar no Google e estou criando, junto com Martin Wattenberg, um grupo de visualização de dados. Nos aguardem. O que você pode adiantar desse projeto com o Google? A base de trabalho do grupo é criar visualizações públicas que qualquer um na internet possa usar. Nós não sabemos ainda qual é a direção que esse trabalho vai tomar, estamos decidindo ainda quais serão os projetos que vamos desenvolver e quais dados vamos usar. Vai ser uma plataforma pública? Não posso nem dizer que será uma plataforma porque parece que já sabemos o que vamos fazer e não é bem assim. Estamos analisado muitos dados pra saber que tipo de visualização será feita. Tudo está muito no início ainda. Apenas esperamos que todos possam tirar proveito desse trabalho. Algo semelhante com o Many Eyes, mas com a marca Google seria interessante, não? Seria ótimo porque conseguiríamos popularizar ainda mais a técnica de visualização. Google é uma marca influente e incentivaria esse setor. Mas, como eu disse, ainda estamos analisando os milhões de dados para, depois, pensar no que pode ser feito.

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luscious_camel Visualização do uso de cores nos anúncios da grife Camel

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<tech>

Fantástica Fábrica de Aplicativos Empresas apostam no setor de aplicativos e a criatividade é o que comanda o mercado que já atinge a casa dos bilhões <Por Isabelle Ribeiro> Quem gosta de tecnologia e entretenimento, possui um iPhone, iPod touch, iPad ou Android, sabe que variedade é o que não falta nas lojas virtuais de aplicativos. A Apple Store, pioneira no setor, conta com 300 mil programas disponíveis para download. Com eles, o usuário pode acessar sua conta no banco, saber a situação do trânsito, calcular os ingredientes para um churrasco ou, até mesmo, se divertir com games que vão das damas aos mais complexos. É uma verdadeira febre ao redor do mundo: até agosto de 2010, 6,5 bilhões de aplicativos foram baixados na AppleStore. São 200 downloads por segundo e um setor que já movimenta 2,2 bilhões de dólares. Por se tratar de um mercado em ascensão, é claro que as empresas começaram a apostar suas fichas, ou melhor, seu “cliques”, neste novo modelo de negócio e de marketing. Já reparou na quantidade de programinhas disponíveis nas lojas virtuais que são assinados por grandes nomes? Pois é, eles vão de bancos a grandes grifes de moda, de livrarias a companhias áreas. O raciocínio é simples; o aplicativo fica o tempo todo disponível no celular, logo aquela marca será lembrada todos os dias pelo usuário. Indiretamente, conquista o chamado – e tão sonhado pelos marqueteiros - share of heart, ou seja, o vínculo afetivo que determinado produto possui na mente, ops, no coração, do consumidor. O diretor de planejamento e comunicação da FingerTips, empresa líder em desenvolvimento de aplicativos no Brasil, Fabrício Di Monaco, explica que os programas são excelentes canais para que haja uma conexão entre marca e público. “Além de povoarem um território extremamente íntimo de cada indivíduo, eles estão associados a uma sensação de propriedade por parte de seus usuários, sensação que os sites, por exemplo, não provocam naturalmente. Sites são acessados, já os aplicativos são baixados e ocupam a tela dos smartphones e, de certa forma, traduzem a personalidade e interesses de cada pessoa.”

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O interessante nisso tudo é observar as ideias mirabolantes que os desenvolvedores têm para possibilitar uma boa interação entre o programa e o usuário. Tudo isso porque se um aplicativo não tiver muita utilidade, a marca pode não ser lembrada positivamente pelo consumidor. Ou melhor, não fará parte do dia-a-dia da pessoa, logo – lembrando a lógica citada anteriormente – o objetivo maior que é conquistar espaço na mente do indivíduo, não vai acontecer. Renato Pessanha, desenvolvedor desses softwares, contou que a dificuldade é conseguir criar a melhor interação entre o programa e o usuário: “A interface é bastante importante, pois ela vai impactar diretamente na venda e no uso do produto. Além disso, a ideia precisa ser otimizada para uma tela pequena”. Pequenas empresas estão surgindo para terceirizar este serviço e fazem de tudo para apresentarem projetos inovadores. A ixp – interactive experience é uma delas. Fundada em 2009 já criou programas para a TAM, Vivo, Quatro Rodas. Um dos sócios fundadores, Bruno D’Angelo, conta que desenvolveu o Presença Bradesco e tem o maior orgulho do seu trabalho, “Eu amo meus ‘filhos’, o Presença é o primeiro de realidade aumentada no Brasil. A interação com o usuário é perfeita”. O programa permite que o cliente, através do iPhone, localize todas as agências Bradesco mais próximas e trace uma rota de onde ele está até o banco que deseja chegar, permitindo assim a integração do mundo real com elementos virtuais – principal característica da realidade aumentada.


Outros exemplos são marcas que se transformam em verdadeiros jogos para atrair downloads –segundo um estudo da Nielsen, o gênero mais baixado e procurados na loja virtual são os games, com 61% dos downloads. Por isso, a onda do momento é criar games usando as marcas. O mais recente dos casos é ação da marca Levi’s para promover o jeans em Hong Kong. No aplicativo Soundwash, o usuário pode escolher o tipo de jeans que deseja lavar e a música que escuta enquanto faz a “lavagem”. A brincadeira consiste em balançar o aparelho o mais rápido possível para lavar o maior número de calças. Para promover o aplicativo, foi criada uma lavanderia igual ao game na maior zona comercial de Hong Kong. E o resultado? Nos quatro primeiros dias, a nova coleção se esgotou e a lavanderia recebeu mais de dez mil visitas. Existem ainda aplicativos que combinam qualidade excepcional de design e alta tecnologia com e ideias geniais de interação. O premiado iButterfly – sim, ganhou o prêmio de melhor aplicativo na categoria Cyber no Festival de Cannes este ano –permite, por meio da realidade aumentada, que o usuário capture as borboletas virtuais com os seus próprios movimentos e com a paisagem de onde estiver no momento. Essa nova tecnologia e a interação que ela permite despertou o interesse das empresas no Japão e, agora, acaba de ser lançado no mercado brasileiro com uma plataforma comercial. A ideia é que em cada uma das borboletas capturadas tenha um pacote promocional com descontos, brindes, informações de lojas, cinemas e lançamentos de produtos. O tempo médio para desenvolver um programa é de 3 a 6 semanas, mas Renato Pessanha conta que pode levar bem mais que isso. “É interessante notar que aplicativos mais complexos podem consumir bem mais tempo. Há exemplos em que equipes com mais de 15 pessoas trabalharam por várias semanas”. Se esse tempo todo for usado para desenvolver aplicativos cada vez mais inovadores e criativos, as empresas topam esperar. É, definitivamente, um mercado que veio para ficar.

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Um clique brasileiro no

Twitter

Sabe aquela página que você acessa, no mínimo uma vez ao dia, para contar novidades da vida, publicar notícias, fofocar, comentar o assunto em pauta no momento ou simplesmente para republicar um link? Sim, é o Twitter. Nenhuma novidade até aqui. Agora, você saberia responder quem pensou nos detalhes da página mais acessada dos últimos tempos, você saberia a resposta? Nesta entrevista você vai conhecer Vitor Lourenço (@vl), jovem brasileiro que foi chamado para criar o layout que conhecemos hoje do Twitter. Natural de Campinas, interior de São Paulo, Vitor tem apenas 23 anos de idade, mas sete de carreira. Começou a criar ferramentas online de comunicação – uma delas semelhante ao Facebook – para uso pessoal. Aos 18 foi contratado pela Rede Globo e, em seguida, pelo Yahoo!. Hoje trabalha em São Francisco, na Califórnia, como designer de produto do Twitter. Vitor contou para a Pop-Up sobre sua carreira meteórica e curiosidades de sua rotina no escritório mais desejado do momento. Como foi o convite para trabalhar no Twitter? Recebi o contato do Evan Williams (co-fundador do Twitter) após ele conhecido um software que desenvolvi, chamado FoodFeed, e ter se interessado pelo conceito da aplicação e pelo meu trabalho disponível em portfólio online. Fechamos um contrato de trabalho remoto e posteriormente fui para São Francisco acompanhar a fase final do projeto de redesign [da plataforma do Twitter feita em setembro de 2008]. Quais foram as principais mudanças desse redesign? Você colaborou em que? O principal era deixar a página mais simples. Antes a navegação era confusa – o usuário checava suas respostas alternando abas acima do conteúdo postado, os favoritos e as DMs [Direct Message] ficavam em outros pontos. Com o redesign, centralizamos toda a navegação na lateral. Outro exemplo são os ícones de reply que antes apareciam em todas as mensagens e, agora, só surge quando você posiciona o mouse em cima do que deseja responder. Criei os 12 temas que o usuário escolhe para ter uma página mais bonita e personalizada, o visual do botão de uptade e o arredondamento dos cantos do layout, para melhor visualização no Firefox e Safari. Qual é, exatamente, o seu cargo no Twitter? Hoje trabalho full-time como designer de produto no Twitter e minha rotina divide-se entre o design, implementação de novas funções e melhorias na experiência do usuário com a plataforma. Trabalhamos em um ambiente ágil, com poucas interrupções, espaço para concen20

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Vitor Lourenço, 23, conta como conquistou seu espaço no mundo dos 140 caracteres <Por Isabelle Ribeiro> tração e foco. Ao mesmo tempo, temos um local bastante descontraído. Então, o escritório do Twitter é como no Google? Sem horário fixo, por exemplo? Não temos um horário específico. Cada um trabalha da maneira que considerar mais eficiente. Particularmente, prefiro chegar um pouco mais tarde, pois gosto de trabalhar durante a madrugada. Muitos usuários utilizam plataformas desenvolvidas por terceiros – como TweetDeck, HootSuite – ao invés do próprio site. Há projetos de mudanças da página do Twitter nesse sentido? Sem dúvida. O website é apenas uma forma de consumir tweets. Oferecemos uma API (estrutura de software) aberta, que permite a desenvolvedores integrar o Twitter em qualquer plataforma e dispositivo. Cada vez mais observamos usos criativos e inusitados. Por exemplo, já existem plantas que “twittam” quando precisam de água e fornos de padaria que avisam seus seguidores quando o pãozinho francês está saindo do forno. Não existem limites criativos para construir algo em cima da nossa plataforma. Das inúmeras funções que o Twitter foi ganhando com o passar do tempo, qual você considera a mais importante ou a mais inovadora? Desde que me juntei a empresa, lançamos diversas funções e aprimoramentos a interface do site. Entre os principais lançamentos posso citar a nova home, um site 100% novo para dispositivos móveis, novas sugestões de usuários baseadas em categorias, trending topics locais, a função de criar e seguir listas, compartilhar tweets com seus seguidores através dos retweets e, mais recentemente, a possibilidade de adicionar o posicionamento geográfico nas mensagens. Acho que a busca em tempo real e os trending topics são muito interessantes. Em nenhum outro site você consegue saber exatamente o que as pessoas estão pensando sobre determinado assunto naquele segundo. Oferecer uma camada


de inteligência que consegue extrair os termos mais mencionados em um determinado espaço de tempo é de extrema importância para os usuários. A que você atribui seu sucesso profissional? Acredito que o sucesso está inteiramente ligado à minha paixão por design e desenvolvimento de produtos interativos. Comecei desenvolvendo sites para uso pessoal. Em 2002, criei uma aplicação online para uso restrito de um grupo de amigos — uma espécie de Facebook — onde trocávamos mensagens e arquivos durante os últimos anos do ensino fundamental. Após uma grande repercussão no colégio, vi que realmente poderia construir coisas interessantes. Sempre fui fascinado pela comunicação online, e meus esforços e pesquisas pessoais sempre estiveram ligados a este tema. Você trabalha no Vale do Silício, região conhecida pela concentração de empresas de alta tecnologia. Como é o dia-adia dessa região? Você tem amizade com funcionários de outras empresas? Tenho contato diário com pessoas que sempre admirei - e que jamais imaginei que conheceria pessoalmente. Não existe lugar melhor no mundo para se trabalhar com internet do que o Vale do Silício, pois as empresas mais importantes do mundo estão aqui. A cultura de inovação é constante e as pessoas estão muito mais abertas a novas ideias e possibilidades. A maioria da equipe costuma se ver frequentemente fora do ambiente de trabalho. Também existem encontros constantes com profissionais de outras empresas. Mas, muita coisa acontece aqui mesmo dentro do escritório. É comum encontrar os engenheiros e designers compartilhando pizzas e cervejas durante a noite de quinta-feira, trabalhando em projetos paralelos chamados hackathon (maratonas noturnas onde o objetivo é construir coisas interessantes para o Twitter). É realmente muito divertido! Há muitos funcionários novos como você no Twitter e no Vale do Silício? Devo admitir que grande parte das histórias que são contadas sobre jovens empreendedores e milionários antes dos 25 anos são reais e acontecem muito por aqui. O Vale do Silício é um ambiente onde todos podem arriscar e construir algo do zero—pouco importa o background ou tempo de experiência. A atribuição do sucesso é dada ao resultado final do produto ou tecnologia desenvolvidos. Ou seja, os jovens aqui tem oportunidades para mostrar seu trabalho e seu potencial. E o mais legal; não existe um padrão específico de cultura e nacionalidade. Pelo contrário, a diversidade é enorme.

Nosso país ainda está muito atrasado? O Brasil tem muito há crescer quando comparamos as facilidades de se abrir uma empresa de tecnologia aqui no Vale do Silício. Mas o país está caminhando na direção certa e já é possível observar um grande aumento na quantidade de investimentos e iniciativas empreendedoras no setor de Internet. Entretanto, muitos dos produtos brasileiros ainda são uma adaptação de produtos criados por aqui. Acredito que iremos observar mais inovação e ideias criativas surgindo no Brasil nos próximos anos. E espero poder contribuir para que isso aconteça em um ritmo mais acelerado.

Você teve contato com grandes empresas brasileiras antes de partir pro Vale do Silício. Qual é a principal diferença?

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Lily antes de

Chanel

<Por Renata Assupção> Desde que despontou no cenário musical, em 2006, uma palavra caracteriza a britânica Lily Allen: autenticidade. Seja em suas letras ou na escolha de seu figurino, a irreverência tem presença constante garantida.

© getty images

Vestidos retrô e tênis se tornaram a marca registrada de Lily, sempre com um tom urbano típico de garotas londrinas e, pode-se dizer, um “quê” de rap com muito bling bling dourado. “Chav” para uns, “fab” para milhares de outros. Fato é que toda essa autenticidade chamou a atenção de alguns dos mais importantes nomes da moda e a cantora passou a assistir os desfiles mais concorridos – na primeira fila, é claro. Resultado? Não demorou muito para ser convidada pela marca inglesa New Look para desenvolver uma linha de roupas com sua assinatura. O resultado foi a linha Lily Loves: cinco belíssimos vestidos no melhor jeito Lily de ser. A princesinha britânica deixou o tênis, subiu no salto Louboutin, passou a usar vestidos Chanel, trocou seus blings por um Rolex e caiu nas graças do mundo da alta moda. Em 2009, foi a estrela da campanha de handbags da Chanel da linha Coco Cocoon, onde aparece em momento wannabe Audrey Hepburn, fotografada por Karl Lagerfeld em pessoa. Em fevereiro deste ano, a it girl britânica anunciou que dará um tempo na música <dica> para apostar em uma carreira na Quer compartilhar seu estilo? moda. Ela abrirá uma loja vintage O site ByMK é febre entre os fashionistas brasileiros, de aluguel de roupas já batizada são mais de 100 mil inscritos e os looks criados pascomo Lucy In Disguise. sam da casa dos 500 mil.

É uma rede social onde você pode montar inúmeLily é referência quando o assunros looks e compartilhar com as pessoas. Por lá você to é estilo, ela é o que chamamos encontrará looks inspirados em Lily Allen. ;D de trendsetter, uma lança tendências. Para um visual Lily Allen look-alike, aposte em handbags charmosas, vestidos retrô, peeptoes, shorts com meia calça escura, muito dourado e, é claro, muito Chanel.

Saiba mais: moveiscoloniaisdeacaju.com.br myspace.com/moveis @moveis

Saiba mais:

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© getty images

lilyallenmusic.com/lily myspace.com/lilymusic @lilyroseallen


<estilo>

Vintage

Você sabia que é possível ser retrô e moderno ao mesmo tempo? No mundo da moda é comum encontrarmos características de outros tempos em peças atuais. Mas não é só no universo fashion que o antigo reaparece. A Pop-Up selecionou roupas, acessórios e, até mesmo, eletrodomésticos no melhor estilo vintage

Jaqueta Risca de Giz Cristine Ban R$ 459,00 >> (21) 2511.5591

Vinil She & Him – Volume Two Livraria Cultura R$ 97,60 >> (11) 3170. 4033

Vinil Nação Zumbi – Fome de Tudo Livraria Cultura R$ 83,20 >> (11) 3170. 4033

Porta-retrato digital Imaginarium R$ 498,90 >> (48) 3269-8396

Batedeira Retrô Artisan Spicy R$ 1690,00 >> 0800 16 83 88

Esmalte Doce de Leite Colorama R$ 1,85 >> 0800 701 0114 Esmalte Citrino Nude Risqué R$ 2,85 >> 0800 111 145

Frigobar Retrô 76L FastShop R$ 897,83 >> (11) 3232 3200 Linha Granado retrô Cera Nutritiva Unhas e Cuticulas (7g) R$13,15 >> 0800-940-6730

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Bola futebol de 1966 LigaRetrô.com.br R$ 119,90 >> (21) 2267-0546

Espanha 1986 LigaRetrô.com.br R$ 99,90 >> (21) 2267-0546

Sapatilha de boneca Corello R$ 139,00 >> (11) 5183 2622

Bolsas Anos 70 Eu amo vintage R$ 60,00 >> (21) 2221. 2855

Cabeçote Orange Knob Instrumentos Musicais R$10.090,00 >> (21) 3087-6914 WayFarer RayBan Rochester R$615,00 >> 0800 702 7999

*Preços pesquisados em Agosto de 2010

Aparador Azul/ Vermelho Ateliê Anelise Bredow R$ 800,00 >> (51) 3569.2220

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<literatura>


© Augusto Gomes/iG

<InDica>

Crônicas de um

Muchacho

Laerte, considerado pela crítica e pelo público como gênio dos quadrinhos, lança sua primeira ‘’graphic-folhetim’’, Muchacha, ao mesmo tempo em que adere ao guarda-roupa feminino A HQ “Muchacha”, lançada recentemente pelo selo de quadrinhos da Companhia das Letras, reúne as histórias do Capitão Tigre, Sulfana, Milhafre, Lairo, Djalma e Cabaya em um enredo que permeia os bastidores de um programa de televisão dos anos 50. Todos os personagens já apareceram nas tirinhas publicadas no jornal Folha de S. Paulo e tem em comum as suas histórias cotidianas, porém cômicas, traço característico nas criações do gênio Laerte. Com o folhetim gráfico, o ilustrador recupera alguns personagens que tinham sido abandonados há algum tempo e, mais do que isso, faz um paralelo com o sua vida pessoal. Na HQ, um dos personagens é o ator Gay Djalma que protagoniza apresentações musicais sob a pele de uma transexual cubana. É um personagem dentro de outro personagem e que acaba permeando

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o próprio Laerte. O que acontece é que ele criou o hábito de se vestir de mulher desde 2009; aderiu ao crossdressing, um costume que leva pessoas a se vestirem e se comportarem como o sexo oposto, não significando mudança na orientação sexual. O estilo já tomou conta da vida do cartunista que hoje tem seu guarda-roupa tomado de acessórios femininos, pinta as unhas de vermelho, deixou o cabelo com corte chanel e franjas, usa saia, brincos, pulseiras e colares. Tudo isso para tentar combater uma crise pessoal e profissional que Laerte afirma estar passando. Em entrevistas, contou que desde a morte de seu filho em 2005 e a do amigo Glauco [também cartunista, assassinado em março deste ano] não está satisfeito com seu processo criativo. Crise essa que o público não nota em seus trabalhos, principalmente após o lançamento de “Muchacha” onde consegue resgatar seus antigos personagens em um enredo animador e surpreendente.


MALVADO PROVOCADOR O quadrinista André Dahmer pode ser considerado um provocador por natureza com seu humor inteligente e cheio de sarcasmo. Com a série de tiras “Os Malvados”, ganhou reconhecimento e atraiu olhares com suas cômicas críticas à sociedade.

André Dahmer seguiu tardiamente pelo mundo dos quadrinhos. Formado em Desenho Industrial pela PUC-RJ, somente no ano de 2001 que esse carioca de 35 anos decidiu fazer do hobby uma necessidade de expressão. Nesse mesmo ano veio ao ar o site “Malvados”, com seus dois supostos girassóis de frases cínicas e atitudes reprováveis. Dahmer viu seu trabalho ganhar repercussão nacional com ajuda do boca-a-boca da internet. Logo foi convidado a ter tiras em grandes veículos como o portal G1 e o jornal Folha de S. Paulo. O humor negro e a crítica à moral e aos bons costumes ganhavam espaço e reconhecimento. Sem nenhum tipo de freio, Dahmer faz do cotidiano sua piada e sua alfinetada certeira, seja para quem for. “Dizem que faço humor político, mas não é verdade. Trabalho também com crítica de costumes e humor pastelão. Gosto de tudo, quero trabalhar com tudo, não gosto de rótulos”, conta o autor.

O que merece uma tira? Qualquer coisa com potencial para a tragédia e a comédia. Os seus personagens são inspirados em algo ou alguém em específico? Observo muito o cotidiano, mas não há algo ou alguém específico para alimentar meu trabalho. O mundo tem muito do caricato, do absurdo, do injusto. É possível buscar muitas referências nessas distorções. “A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados” - Witold Gombrowicz. É essa a base da sua arte? Considero a arte um agente transformador, uma forma de não estar sozinho no mundo, mas também uma maneira de alimentar o outro. A música é um grande exemplo de como é possível dar alento e prazer aos dois lados. Você acha que tem um olhar um pouco pessimista da sociedade? Temos salvação? Não me acho pessimista. Acredito muito na força do homem, da solidariedade, do esforço de amor ao próximo. Salvação é um conceito elástico, cada um tem a sua. O mundo tem muitas coisas ruins, claro. Mas temos muita gente boa e jovem para trilhar caminhos menos dolorosos, mais justos. Acredito que o maior problema da atualidade é a sociedade do consumo e a nossa tragédia hedonista, mas creio que vamos superar a alienação e caminhar para uma forma mais sadia de existência. Você postou no blog dos Malvados tiras do Rafael Sica dizendo: “o orgulho de todos nós”. Por quê?

© Marcelo Camelo

Rafael Sica é um dos grandes nomes da nova geração dos quadrinhos brasileiros. Busca elementos novos, todos nós temos muito respeito pelo trabalho que ele faz. Sica é um dos que gosta de ir na frente, abrindo a trilha no mato. Não o conheço pessoalmente, mas é um alento ter um garoto tão jovem produzindo com tamanha força.

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<InDica>

Ficção brasileira é um sucesso de vendas Lançada de forma independente pela internet, “A Batalha do Apocalipse”, de Eduardo Spohr, está hoje na lista dos livros de ficção mais vendidos no Brasil

Tudo começou no ano de 2001 quando o carioca, formado em comunicação social e em jornalismo, inscreveu-se em um concurso literário promovido pela PUC-Rio, ganhando o prêmio com o seu conto “O Último Anjo”. O sucesso veio anos depois, quando Sporh participou de um curso de roteiro - ministrado pelo escritor José Louzeiro - que o estimulou a transformar seu antigo projeto em um dos livros mais requisitados atualmente, “A Batalha do Apocalipse”. Sua obra, apesar de ter sido lançada e divulgada de forma independente pela internet, já repercutia de forma extraordinária. A primeira versão esgotou rapidamente e chegou a ser vendida em sites de leilão. Hoje, o livro pode ser encontrado em todo o Brasil através do selo Verus, da editora Record. Repleta de magia e suspense, “A Batalha do Apocalipse” acompanha os passos de Ablon, um dos muitos anjos exilados e condenados a vagar pelo mundo dos homens até o dia do Juízo Final. O motivo? Ter desafiado a tirania de poderosos arcanjos, como Miguel que deseja a destruição dos humanos por considerá-los inferiores e maus. Mas, a narrativa vai além disso. Histórias antigas como a queda da Torre de Babel são detalhadas no livro, já que Ablon – preso à Terra por várias eras - pode vivenciá-las de perto. Eduardo Spohr, em entrevista a Pop-Up, confessa que quando criança detestava ler e que só começou a se interessar pela leitura na adolescência, por conta do RPG [Role Playing Game]. Sobre o incentivo à leitura nas escolas, o autor afirma: “Acho que não pode ser nada forçado. E a escolha do título deve ser interessante para a criança.” Em relação ao que o inspirou na criação do livro, Spohr revela que sempre se interessou por religião e mitologia e que a grande inspiração veio do filme “Anjos Rebeldes”. No entanto, o autor conta que esse tipo de literatura que envolve fantasia ainda é pouco difundida no Brasil, o que explica o motivo no qual seu livro se encontra em muitas livrarias na seção de literatura estrangeira.

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Uma conversa com

Ozzy

Autobiografia “Eu Sou Ozzy” conta a vida desregrada do maior símbolo vivo do heavy metal “– Bem – falei. – Um avião quase me acertou uma vez. Mais ou menos. E quebrei o pescoço com um quadriciclo. Depois morri duas vezes durante um coma. Tive AIDS por vinte e quatro horas, também. E pensei que tinha EM [esclerose múltipla], mas acabou sendo um tremor parkinsoniano. Quebrei meu pinto uma vez. Ah, peguei chato algumas vezes. E um ou dois ataques, como quando tomei codeína em Nova York ou quando usei a droga do estupro em mim mesmo, na Alemanha. Isso é tudo, a menos que você queira conta o abuso de medicamentos com receita. O médico assentiu. Limpou sua garganta, afrouxou a gravata e disse: – Tenho uma última pergunta, sr. Osbourne. – Pode mandar, doutor. – Como o senhor ainda está vivo?” Considerado o pai do heavy metal em conjunto com os ex-companheiros do Black Sabbath, Ozzy Osbourne usa há mais de ininterruptos 40 anos todos os tipos de drogas, isso quando não são todas ao mesmo tempo. A lista de seus abusos é de impor respeito e dar medo, como diversos tipos de bebidas alcoólicas, cocaína, ácido, sedativos, cola, xaropes, heroína e medicamentos prescritos em doses cavalares. Resta a dúvida, como o “Príncipe das Trevas” ainda vive? O próprio sr. Osbourne, com a ajuda do escritor Chris Ayres, nos conta como ele foi um sobrevivente de suas próprias loucuras, antes e durante a fama, na autobiografia “Eu Sou Ozzy”. “Ele estava certo. Não há nenhuma razão médica plausível que explique como eu ainda es-

teja vivo”, escreve o cantor no livro. Mal sabia ele que essa dúvida também intrigava diversos leitores espalhados pelo mundo, fazendo com que sua vida permanecesse entre as mais lidas na lista do jornal The New York Times. Ozzy descreve os fatos mais absurdos – e não por isso mentiras – de sua vida desregrada como um desabafo ou apenas uma boa conversa de bar entre amigos, pouco se importando com julgamentos ou panos quentes. Ele conta em ricos detalhes como arrancou a cabeça de uma pomba à dentadas em uma reunião com altos executivos da rede de televisão americana CBS, apenas para causar uma impressão e ser tratado com o merecido respeito. Ou a história mais conhecida do rock n’ roll: a vez que Ozzy mordeu um morcego vivo durante uma apresentação, agora contada em precisa descrição das sensações e consequências de comer um animal em frente a centenas de pessoas. Já nas primeiras páginas, o músico adverte: “O que você vai ler aqui é o que consegui tirar da geleia que chamo de cérebro quando tentei lembrar a história da minha vida”. “Diziam que eu nunca escreveria este livro. Bom, que se fodam – porque aqui está ele”, alfineta. Revista POP-UP | Outubro>2010

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<InDica>

iBook

Neste mês, a Pop-Up seleciona os bons livros de cabeceira dos editores. Confira!

“Os Próximos 100 anos” George Fridman Cenário típico do filme “Guerra nas Estrelas”, fragmentação de países e queda da população mundial: “Os Próximos 100 anos” reúne as previsões de George Friedman para o próximo século. Friedman é cientista político e chefe executivo de uma companhia de inteligência global chamada STRATFOR. O livro até pode parecer uma viagem e um monte de besteiras escritas por mais um norte-americano, mas a leitura do livro é valiosa para quem quer entender melhor quais são as discussões e conflitos étnicos, políticos e religiosos do mundo. Friedman deixa bem claro que não tem uma bola de cristal, mas com seu conhecimento de geopolítica, história e de relações internacionais, ele diz que é possível identificar os acontecimentos fundamentais que ocorrerão no século XXI. Para Friedman, o rumo da humanidade não caminha a passos aleatórios e imprevisíveis, mas, muito pelo contrário: o futuro pode sim ser previsto se observarmos o passado. Em “Os Próximos 100 anos”, Friedman deixa a desejar quando se prende a teorias que mais se assemelham à histórias de ficção, porém ele explica o que aconteceu no passado em um contexto global. Aqui me refiro ao mundo mesmo; o autor não se prende somente à América como o centro de todo o universo, mas ao globo. <Debora Nogaroli>

“A Morte de Bunny Munro” Nick Cave Bunny Munro é um charmoso vendedor de cosméticos. Ele viaja pelo sul da Inglaterra convencendo mulheres que seus produtos são ótimos para reparar os anos perdidos, e ele é bom nisso. É mais tempo na estrada que em sua própria casa, com sua esposa Libby e seu estranho filho de nove anos Bunny Jr. São muitas rodovias, hotéis baratos e mulheres. Bunny Munro é um canalha, e ele sabe disso. Libby está fora de si por conta da depressão, claramente devido ao modo como é tratada por Bunny, um viciado em sexo, amante do álcool e das drogas, com tremenda fascinação pelo shortinho de Kylie Minogue. Ela se suicida, deixando Bunny Jr. aos cuidados do pai. Ao voltar para casa, Bunny fica desnorteado com os acontecimentos. Sem saber muito que fazer, ele e o filho abandonam tudo e partem para uma jornada sem rumo pelas estradas do Reino Unido. Nick Cave é músico há mais de trinta anos. Firmou-se como vocalista das bandas The Birthday Party, The Bad Seeds e Grinderman – que acaba de lançar Grinderman 2. Com uma narrativa musical bem trabalhada e pop, Cave conta magistralmente a obsessão pela morte. Não ligue em saber o final pelo título, isso não importa. O livro é sobre a decadência de um homem que parecia ter pleno domínio da vida. <Rafael Roncato>

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“O Sol Se Põe em São Paulo” Bernardo Carvalho Para os amantes de um bom livro de romance e suspense, “O Sol Se Põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho, é um prato cheio. No Japão, durante a Segunda Guerra, um triângulo amoroso envolve uma moça de família, um filho de industrial e um ator de Kyogen - teatro cômico japonês. Isso é o que Setsuko, uma senhora japonesa, relata ao narrador, um escritor contratado por ela que viu nisso a oportunidade de escrever seu primeiro livro. Mas, a trama que parecia tomar uma forma linear logo se desdobra, e sem dar mais explicações, somente pistas, a senhora japonesa desaparece, deixando o narrador totalmente envolvido e tomado pela vontade de descobrir o final daquela história. Assim, o personagem se vê disposto a ir ao Japão em um trabalho de investigação. O que se descobre? Tragédias, nomes falsos e identidades trocadas. Aliás, isso faz com que o leitor precise ter muita atenção para que não se perca, mas também faz a curiosidade ser aguçada a cada instante e a se sentir “presente” no enredo, característica que só os bons livros proporcionam. <Flávia Rodrigues>

“Na praia” Ian McEwan “Na Praia” é daqueles livros que despertam as mais variadas sensações; do riso às lágrimas. O romance, do escritor britânico Ian McEwan, narra a desastrosa noite de núpcias de Edward e Florence. Ele é um jovem recém formado em história, com uma família cheia de problemas. Ela, uma violinista talentosa, integrante de um quarteto de cordas e filha de uma professora universitária de Oxford. As primeiras linhas da obra já mostram o porquê ela merece a devida atenção. ‘’Eram jovens, educados e ambos virgens nesta noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível’’. Ian McEwan consegue utilizar do íntimo, do particular do casal, para retratar um momento às vésperas da revolução sexual da década de 60, que mudaria todos os costumes de uma geração. <Isabelle Ribeiro>

As várias fases de Frida Kahlo Fotobiografia mostra detalhes da vida de uma das mais famosas artistas do século passado A editora Cosac Naify lança “Frida Kahlo: Suas fotos”, de Pablo Ortiz Monasterio - um livro com mais de quatrocentas fotos inéditas que conta, de outros ângulos, a história da maior pintora mexicana e possivelmente a mais conhecida artista plástica mulher do século XX. Diego Rivera, já viúvo de Frida, pediu a uma amiga, Dolores Olmedo, que abrisse o acervo pessoal do casal somente após 15 anos de sua morte, fato que ocorreu em 1957, isto é, três anos depois de sua mulher. No entanto, os arquivos – entre eles 6 mil fotos - só foram revelados cinquenta anos depois, onde estiveram trancafiados em um banheiro da famosa Casa Azul – hoje Museu Frida Kahlo, na cidade do México.

A obra contém uma série de auto-retratos de seu pai fotógrafo, fotos de Frida ainda menina, seu estúdio, o encontro com Rivera, seu circulo cosmopolita de amigos e a intimidade da artista com grandes personagens, como Breton, Duchamp, Trótski, Henry Ford, e alguns brasileiros, como Adalgisa Nery. As fotografias do arquivo pessoal de Frida foram organizadas em sete temas principais. “O corpo dilacerado” e “Amores”, por exemplo, retratam tanto o que se tornou mais conhecido sobre a artista, como suas tragédias pessoais e suas relações passionais, quanto suas frustrações, como o processo de sua gestação que nunca de fato se concluiu.

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<infográfico>

Como é feito um

e-book

<Por Isabelle Ribeiro> <Gráficos: Daniel Furtado>

Ainda não é tão simples produzir um e-book no Brasil, é necessário refazer toda a diagramação e formatação para o digital. Veja como funciona:

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Como de costume o autor, ao finalizar sua obra, encaminha o texto para a editora responsável em publicar o livro. A editora vai corrigir os erros, formatar no padrão que preferir, criar a capa e finalizar o trabalho.

No Brasil, são poucas empresas que trabalham com a produção de e-books, pois a demanda ainda é baixa. Para se ter uma ideia, na Livraria Cultura encontra-se apenas 1.000 títulos nacionais contra 135 mil importados.

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As editoras ainda não fazem a conversão dos livros para o formato digital. Podemos citar quatro empresas pioneiras na criação de ebooks: Livraria Cultura, Simplíssimo (essa presente apenas na Internet), Geográfica Editora e Saraiva.

As editoras decidem quais obras desejam digitalizar e contratam o serviço terceirizado. O livro deve ser enviado em ARQUIVO ABERTO para o programador, ou seja, no próprio programa em que foi diagramado. ‘’Normalmente é usado o InDesign e o cliente deve me entregar neste formato. Na versão em PDF, por exemplo, fica complicado, pois não podemos editar. Ele é usado apenas para imprimir o livro’’, explica Ariel Vido da Geográfica.

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Com o livro em InDesign é o momento de exportar a obra para o formato ePub, o ‘’mp3’’ dos e-books.

O ePub é o padrão internacional utilizado para a maioria dos e-books. Foi criado e organizado pela IDPF – Internacional Digital Publishing Forum e baseia-se na linguagem ‘’XML’’ (um derivado do HTML) que é livre e aberta, significando que qualquer programador pode trabalhar nos códigos e, até mesmo, aperfeiçoar o programa. O formato permite, ainda, que o diagramador mude o tamanho da fonte, diminua ou aumente o tamanho da página, formate parágrafos entre outros. Sem contar que um livro em ePub roda na maioria dos leitores digitais.

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Saiba mais: simplissimo.com.br amazon.com gatosabido.com.br submarino.com.br livrariacultura.com.br

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Com o arquivo em ePub é o momento de formatar tudo. ‘’O arquivo gerado não é muito fiel à diagramação original, aquela que a editora faz e nos envia. Isso atrapalha porque é necessário um refinamento na formatação. Demanda um trabalho extremamente manual, pois não há um programa de edição de ePub. É nesse aspecto que os desenvolvedores sofrem; tem que mexer no código para conseguir arrumar um parágrafo errado, por exemplo’’, explica Mauro Widman, gerente de ebooks da Livraria Cultura.

‘’É bem parecido com um site, uma parte é programação pura, arrumar códigos. A outra é diagramação em que você deve criar uma identidade visual para aquele produto’’, acrescenta Ariel.

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Após acertar os códigos e o visual, chega a parte dos testes de e-readers. Cada leitor digital se comporta de uma maneira. ‘’As vezes, o que dá certo no Sony Reader, não fica legal no Positivo Alfa. Nós temos todos os dispositivos aqui na empresa para testar. Uma dica é pegar o Cooler – o aparelho mais barato e simples do mercado – e testar nele. Se der certo no Cooler, provavelmente vai ser bem melhor nos outros’’, afirma Ariel.

Feitos todos os testes, os ebooks são enviados para as editoras que encaminham para as lojas que já comercializam livros digitais no Brasil (Livraria Cultura, Saraiva, Submarino, Gato Sabido).

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<literatura>

Mil mundos

em um lugar só Salvo na repescagem da editora Cosac Naify, “O Livro Amarelo do Terminal” foi o trabalho de conclusão de curso da recém formada em jornalismo, Vanessa Barbara <Por Debora Nogaroli>

Aos 28 anos, a jovem paulistana atraiu os mais críticos olhos em uma área em que é difícil de conseguir reconhecimento: a literatura nacional. Além de exercer a sua profissão no diploma, trabalhando para a revista piauí, Vanessa foi convidada, em 2008, para participar da mesa dos jovens autores na sexta edição da Flip. “Amarelo” (como ela mesmo chama carinhosamente o seu primeiro livro) conta a história do maior terminal rodoviário da América Latina e segundo maior do mundo a partir de apenas uma pequena parte das pessoas que passam e que trabalham por lá. Para a PopUp, ela fala um pouco mais sobre a sua experiência com o livro e sobre o futuro. Quando pegou o seu primeiro livro? Não lembro que livro foi o primeiro, mas minha mãe costumava ler muito pra mim - e ela escolhia as coisas que lhe interessavam, então eu lembro de ler um livro de arqueologia bíblica, o romance “Dom Camilo e os Cabeludos”, Agatha Christie e outras coisas mais. Entre os primeiros que eu li sozinha, estão uma coletânea de contos dos Irmãos Grimm, uma série de livrinhos de bolso bem pequenos e com as letras minúsculas. Também gostava muito de Monteiro Lobato. Em “O Livro Amarelo do Terminal”, você conversou com várias pessoas que passavam pelo Terminal do Tietê, como você as abordava? Eu chegava, me sentava e puxava conversa. Me apresentava como estudante de jornalismo fazendo um trabalho sobre a rodoviária, usava um bloco cor-de-rosa e tentava anotar algumas frases da pessoa. É só deixá-la guiar o papo e falar sobre frango com quiabo, carrapatos e bijuterias. Às vezes durante horas, sem interferir ou fazer perguntas supostamente relevantes. Assim é mais fácil perceber o que realmente importa para a pessoa ou, no mínimo, conseguir respostas mais divertidas do que “como você se sente ao embarcar na rodoviária?”. De 2003 (quando o “Livro Amarelo do Terminal” foi escrito) até hoje, se você tivesse a chance de reescrevê-lo, mudaria algo? Gosto do “Amarelo” porque ele reflete a minha experiência e o meu jeito de escrever de sete anos atrás, então não mudaria nada. Quando fui revisar, tive vontade de mexer em algumas coisas, mas decidi respeitar a cara de “documento de época” que ele tem para mim.

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Você se assusta ao pensar que com apenas 28 anos já ser considerada uma das revelações da nova literatura brasileira? Esse novo “cargo” mudou alguma coisa na sua vida? Sim, hoje eu tenho um séquito de tartarugas para a minha diversão, um patinete com motorista e o montante de balas de goma que eu quiser. De onde veio a ideia de criar um almanaque virtual chamado “A Hortaliça”? O almanaque nasceu em 2002 e não tinha nome. “A Hortaliça” surgiu durante a apuração do “Amarelo”, veja só!, Mais exatamente na p. 136, quando sou levada à administração da Socicam para falar com o Homem de Bigodes. Taí uma coisa que ninguém sabe: pensei ali em criar um veículo imaginário de imprensa (“A Hortaliça”) só para me respeitarem um pouco mais, já que ao se apresentar como estudante ninguém te dá a menor bola e dificulta o acesso a tudo. Já tem algum novo projeto em mente? Vários. Estou escrevendo uma graphic novel com o ilustrador Fido Nesti chamada “A Máquina de Goldberg”, que vai sair ano que vem pela Companhia das Letras. Tenho um livro infantil já pronto, a sair pela editora 34, chamado “Endrigo, o Escavador de Umbigo”, com o Andrés Sandoval. E tenho um romance novo chamado “Noites de Alface”, em parceria comigo mesma. O que você tem lido atualmente? Estou com uma pilha muito saudável de livros pela metade, intercambiáveis segundo o estado de espírito da leitora. Vou alternando entre “Complexo de Portnoy”, do Philip Roth, “Em busca do tempo perdido”, do Proust (ainda no primeiro livro), “A conspiração franciscana” (não sei de quem é, estou numa fase de biografias franciscanas), “Contos Húngaros”, da ed. 34, e o último número da revista piauí.


Š Nino AndrÊs

Saiba mais: hortifruti.org/ @vmbarbara

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<literatura>

Clube dos Seis

Seis autores na casa dos trinta podem ser a nova cara da literatura brasileira? <Por Isabelle Ribeiro e Rafael Roncato>

Ingrata, perigosa e, ao mesmo tempo, prazerosa. Fazer uma lista na qual apontamos jovens destaques da literatura nacional é quase uma arte, afinal, jamais agradaremos gregos e troianos, ou melhor, escritores e leitores. Buscamos escritores na casa dos 30 anos, com dois ou mais livros lançados e que, de certa forma, já se destaquem pelo talento e como futuras promessas. Bons textos sempre se destacam. São três homens e três mulheres, com histórias e textos distintos, mas que parecem se unir na tentativa de formarem uma nova geração da literatura brasileira. A ideia de promover uma lista e uma conversa esses autores surgiu após a última seleção da revista New Yorker; ‘’20 under 40’’. A revista já tem certa tradição no tema – escolheram nomes em 1999 que estão consagrados hoje - e chega a provocar certa ansiedade nos jovens literatos. Sem pretensão de se igualar à tradição da New Yorker, a Pop-Up inaugura sua primeira, e tímida, escolha. Quem sabe não sirva de pontapé para um movimento desses no Brasil. Para esse ano, escolhemos Daniel Galera, Fabrício Corsaletti, Michel Laub, Carola Saavedra, Tatiana Salem Levy, e Vanessa Barbara. Conversamos com cinco deles sobre temas como início de carreira, processo de criação e livros favoritos. Veja como foi:

Carola Saavedra Idade: 37 anos Cidade: Santiago do Chile, Chile. Mas é naturalizada brasileira. Livros: Paisagem com Dromedário - 2010 Flores Azuis – 2008 Toda Terça – 2007 Do Lado de Fora – 2005

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Ilustras: Patrick de Andrade

Daniel Galera Idade: 31 anos / Cidade: São Paulo, São Paulo Livros: Cachalote - 2010 Cordilheira - 2008 Mãos de Cavalo - 2006 Até o Dia em que o Cão Morreu - 2003 Dentes Guardados - 2001

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Começo do escritor Carola – A maior parte das forças que movem um escritor são inconscientes. Mas posso afirmar que, entre diversos motivos, o que me levou a escrever foi a paixão pelos livros, pela leitura e pelo desejo de criar algo novo. Michel – Uma série de fatores me levaram a ser escritor, mas o porquê é e sempre será um mistério. Tatiana – Sempre li muito, pois cresci cercada de estantes; a vontade veio com mais força na adolescência, quando eu achava que só os livros me entendiam. Então eu quis escrever para poder colocar minhas próprias perguntas diante do mundo, buscar caminhos, e para fazer parte de uma rede de diálogos que foi fundamental na minha formação.

Tatiana Salem Levy Idade: 31 / Cidade: Lisboa. Veio para o Brasil com nove meses. Livros: A Chave de Casa - 2007

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Processo Criativo Carola - Não tenho um processo criativo único. Minha forma de trabalhar muda a cada livro e depende muito mais da minha vida no momento em que escrevo do que de uma escolha racional. No caso do “Flores Azuis”, por exemplo, eu tinha cada capítulo planejado desde o início, já no “Paisagem com Dromedário”, comecei sem saber muito bem onde iria chegar. O que permanece constante é o meu processo antes de começar a escrever realmente o livro, um trabalho que inclui cadernos de anotações, desenhos, recortes de jornais e revistas, fragmentos de diálogos, ou seja, uma espécie de brainstorming que precede cada livro e pode durar alguns anos. Fabrício - Com poesia acontece o seguinte: fico obcecado por algum tema e às vezes isso vira poema. Nem sempre. Com prosa, assim que encontro um tema, me disciplino pra acordar às seis da manhã todos os dias, que é quando minha cabeça funciona melhor. Escrevo das seis às oito. E no dia seguinte retomo de onde parei. Até terminar. Não deixo nunca um texto inacabado. Tatiana - Bastante caótico. Escrevo quando quero, quando sinto vontade e necessidade. Preciso de muito tempo para conseguir fazer um livro; as ideias, no meu caso, precisam de um tempo de decantação, tenho que conviver muito com os personagens e a história do livro, por bastante tempo, para então sentir que a história está madura e que o livro faz sentido. Vanessa - Eu sento e escrevo. Sei lá. Às vezes estou indo para algum lugar e penso num parágrafo, aí o problema é arrumar papel e caneta pra não esquecer.

Fim de um trabalho Carola - Acho que cada escritor estabelece seus próprios critérios. No meu caso, o livro está pronto quando tenho a sensação de que aquilo é o melhor que eu poderia fazer no momento, e que esse melhor vale a pena ser publicado. Cada vez que publico um livro tenho esse sentimento, de que atingi o meu limite e que se o meu trabalho não é melhor é porque naquele momento não havia em mim essa possibilidade. Ou seja, trabalho sempre no meu limite.

Michel Laub Idade: 37 anos / Cidade: Porto Alegre Livros: O Gato Diz Adeus - 2009 O Segundo Tempo - 2006 Longe da Água – 2004 Música Anterior - 2001

Fabrício - Mostro pra alguns - poucos - amigos que me conhecem bem. Eles sabem o que quero e me ajudam a perceber onde estão os problemas em determinado texto. A partir daí, retrabalho o conto, a crônica ou o poema até chegar ao resultado que desejo. Com poesia pode acontecer do poema já vir pronto, redondo. Mas é raro. Michel - Vários. Um deles é o cansaço mesmo – quando você não agüenta mais olhar para aquele texto. Há um momento na escrita em que você se dá conta de que o livro “para em pé”, o que não quer dizer que ele seja bom. É apenas a sensação de que a coisa “funciona”, num sentido técnico mesmo, de a narrativa ter coerência e levar para algum lugar. Revista POP-UP | Outubro>2010

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Editora Fabrício – Publiquei dois livros de poesia por pequenas editoras, antes de ter um livro publicado por uma editora maior. Esses livros chegaram às mãos da Heloísa Jahn, uma das editoras da Companhia das Letras, que, num lançamento de uma revista que eu editava, me sugeriu que enviasse meu próximo livro a ela. Fiz isso, anos depois. Ela gostou. Foi assim que o “Estudos Para o Seu Corpo” (2007) saiu pela Companhia das Letras. Tatiana – O Luiz Ruffato havia lido um conto meu na revista Ficções, da 7Letras, e me convidou para participar da antologia “25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira”, da Record. A Record gostou muito do meu conto e ficou interessada em ver meu trabalho. Quando o romance ficou pronto, enviei para eles, que toparam publicá-lo. Vanessa - Eu mandei para várias editoras e fui recusada por todas. Por sorte, na CosacNaify, existe um parecerista externo que avalia os originais recusados, numa espécie de repescagem. Ele leu o “Amarelo”e adorou, recomendou para a publicação, e foi assim. Vários anos se passaram entre a assinatura do contrato e a publicação do livro - nesse ínterim, deu pra revisar o texto, pensar em outras coisas, redigir uma atualização como epílogo.

Influência da Internet Carola - Não vejo uma influência direta da internet no meu trabalho. Nunca tive blog. Hoje em dia uso o Facebook como uma ferramenta de divulgação, mas não costumo escrever para a internet. Agora, acredito sim que a internet oferece um caminho alternativo para o escritor iniciante, tanto como uma fonte de informações, como um espaço de troca e de divulgação. Hoje em dia, é possível ler e ser lido mesmo morando fora do eixo Rio-São Paulo. Fabrício - Sim, a internet ajuda muito na divulgação do trabalho de qualquer escritor. Os blogs são uma maravilha, nesse sentido. Leio os blogs de muita gente. Agora, se a internet influenciou meu trabalho, não sei. Já fiz alguns poemas a partir de notícias que li na rede, mas acho que só. Michel - Facilita a divulgação, de certa forma. Mas o reconhecimento independe disso. É algo mais fácil para quem tem o talento, como sempre foi. Vanessa - A internet dá um tipo de liberdade que o escritor provavelmente não teria se começasse direto com o livro impresso. Nos sites, blogs e fanzines, não há necessidade de escrever com as mãos atadas, do alto de um guarda-roupa e com um vestido de festa: pode-se fazer um texto de pijamas sem umbigo nem cabeça. Essa falta de solenidade fica pro resto da vida – e não significa um texto desleixado, mas um texto que não se leva a sério, um texto que não se gaba de nada.

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Vanessa Barbara Idade: 28 / Cidade: São Paulo Livros: O Livro Amarelo do Terminal - 2008 O Verão do Chibo, co-autora com Emilio Fraia - 2008


Leituras Carola – Autores que me impressionaram, em diferentes épocas: Cortázar, Bolaño, Saer, Thomas Bernhard, W.G. Sebald, Clarice Lispector, Bernardo Carvalho. Fabrício – Poesia de um modo geral, prosa americana do século XX e prosa russa do século XIX. Alguns dos autores que mais me impressionaram: Baudelaire, Rimbaud, Apollinaire, Bandeira, Drummond, Faulkner, Salinger, Hemingway, Tchekhov, Dostoiévski, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Cortázar, Alejandra Pizarnik, César Vallejo, Neruda, Ferreira Gullar, Rilke, Augusto de Campos, Bob Dylan, Chico Buarque, Caetano Veloso, Angélica Freitas etc. Michel – Leio de tudo: ficção, não-ficção, quadrinhos, revistas, etc. Muitos autores me marcaram: desde os que li na infância/adolescência (Marcos Rey, Agatha Christie) até os que descobri nos últimos anos (J.M.Coetzee, Thomas Bernhard). Entre essas duas fases, uma infinidade de nomes (entre outros, Dostoievski, Kafka, Proust, Faulkner, Guimarães Rosa). Tatiana – Leio de tudo, de clássico a autores contemporâneos, e adoro reler meus preferidos. Os que mais me impressionaram: Pessoa, Faulkner, Melville, Clarice, Guimarães Rosa, Drummond, Woolf. Vanessa - Leio de tudo, contanto que me prenda a atenção suficientemente para me fazer continuar a ler mesmo depois que a sobremesa acabou. Meus autores preferidos são os mais lentos, como Flaubert, Kafka, Poe, russos em geral e também Cortázar, Vonnegut, Salinger, Sterne, LewisCarroll, Campos de Carvalho. Também adoro jornalistas e cronistas como Gay Talese, Joseph Mitchell, Truman Capote, Joel Silveira, Will Eisner, Rubem Braga, Drummond, Luis Fernando Verissimo, George Orwell e o Antonio Prata.

Fabrício Corsaletti Idade: 32 anos / Cidade: Santo Anastácio, São Paulo Livros: Esquimó - 2010 Zoo Zureta - 2010 Golpe de Ar – 2009 King Kong e Cervejas - 2008 Estudos Para Seu Corpo – 2007 Zôo - 2005 Sobrevivente - 2003 Movediço - 2001

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<literatura>

Sonho Lúdico <Por Rafael Rocanto>

E como cresce com nobreza em nosso conceito o poderoso monstro nebuloso, contemplado a navegar solene as águas calmas do mar tropical; sua cabeça imensa e suave, coberta por um dossel de vapor, engendrado por suas contemplações incomunicáveis, e esse vapor – como se vê por vezes – glorificado por um arco-íris, como se o próprio céu houvesse posto o seu selo sobre os seus pensamentos. Pois, como se sabe, os arco-íris não visitam o ar puro; apenas se irradiam no vapor. Assim, através da densa névoa das dúvidas obscuras do meu espírito, vez ou outra surgem intuições divinas, iluminando-me a neblina com um raio celestial. Agradeço a Deus por isso; pois todos têm dúvidas; muitos negam; mas entre dúvidas e negações, poucos têm ainda intuições. Dúvidas sobre todas as coisas terrenas e intuições de algumas coisas celestiais; essa combinação não faz de ninguém nem crente nem infiel, mas um homem que a ambas estima com os mesmos olhos. MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução por Alexandre Barbosa de Souza e Irene Hirsch. São Paulo: Cosac Naify, 2008. Cap. 85, p. 395.

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Em tempos de outrora, exatamente em 1851, Herman Melville mal poderia saber que seu nome e seu cachalote albino enfurecido entrariam para a história com a publicação de seu romance mais conhecido, “Moby Dick”. A partir da alta qualidade descritiva e imaginativa de Melville sobre as aventuras do marinheiro Ishmael e do vingativo comandante Ahab a bordo do navio baleeiro Pequod, Moby Dick tornou-se a emblemática baleia cachalote. Impossível de dissociar. Agora, em 2010, há um novo e ousado cachalote solta por esses mares, nada agressivo como Moby Dick, mas extremamente dócil e de uma leveza única. Prontos para uma nova viagem, o escritor Daniel Galera e o quadrinista Rafael Coutinho embarcaram juntos nas 320 páginas de “Cachalote” para contar seis histórias independentes de pessoas normais - ou não. Histórias e personagens unidos por uma sutileza encontrada nas entrelinhas de “Moby Dick”: uma ligação de temas fora do alcance do homem, como a criação, o universo, o oceano, o destino, o divino. O projeto que uniria literatura e quadrinhos começou no final de 2007, logo depois que Galera e Coutinho se conheceram. Com ideias muito parecidas, rapidamente os dois começaram uma amizade que os levariam a dois anos de produção e muito trabalho.

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“Eu estava em um momento que não sabia direito o que ia fazer e o Rafa queria um parceiro, na verdade um escritor, para criar uma graphic novel”, relembra Galera. No ano seguinte arregaçaram as mangas e deram início ao esboço dos desenhos e a criação do roteiro de “Cachalote” e seus personagens. “O que eu não sabia de quadrinhos, o Rafa me ajudava, e eu ensinava mais ele na parte de texto. A gente acabou se complementando”, conta o escritor. Mesmo havendo uma participa- Mas, novamente, o que a baleia teria a dizer? ção quase que democrática dos Raras vezes conheci um ser profundo que tiautores no desenvolvimento do vesse algo a dizer para este mundo, exceto roteiro e dos personagens, Coutinho vê na parceria com um ro- quando forçado a balbuciar alguma coisa para mancista algo complementar ao ganhar a vida. Oh! Que bem-aventurança que seu estilo: “Acho que só tenho o mundo seja um ouvinte tão excepcional! ferramentas pra ser roteirista, não tenho o perfil de um roman- MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução por Alexandre Barbosa de cista, a intimidade com a palavra. Souza e Irene Hirsch. São Paulo: Cosac Naify, 2008. Cap. 85, p. 394. Meus roteiros contam as minhas histórias o suficientemente bem pra que eu e outros as entendam, não tenho o lirismo necessário.” As referências de ambos os autores são perceptíveis ao longo dos quadros: uma estética quase cinematográfica, com detalhes e leveza de um romance descritivo que na verdade é visual. Há um diálogo positivo entre o estilo da escrita de Galera com o traço dos desenhos de Coutinho, desde páginas com mais elementos, como diálogos e ação, até mesmo em momentos mais reflexivos e sutis. “Existem histórias e existe a melhor maneira de contá-las. Os quadrinhos vão usar elementos do cinema, da literatura para contar a história da melhor forma possível”, explica Galera sobre a escolha narrativa de “Cachalote”. Essa escolha parece ter surtido efeito ao mostrar diversos personagens comuns arranjados em seis narrativas diferentes, porém tão próximas: uma velha e solitária mulher grávida e seu encontro com uma grande baleia branca; um decadente ator chinês suspeito de matar o astro do filme; um mimado e prepotente garoto enviado a Paris; um jovem vendedor adepto do kinbaku – dominação sexual com cordas – que se apaixona por uma frágil garota; um famoso escultor que aceita participar de um estranho filme; e por fim, um escritor deprimido que mantém contato com a ex-mulher e sua filha. São pessoas como nós em encontros e situações quase oníricas.

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“Não temos uma tradição com o formato de graphic novel, mesmo. Não sei dizer muito por que, acho que é pelo mesmo motivo por não termos uma produção intensa de blockbusters de entretenimento no cinema, não termos ‘Harry Potter’ e ‘Senhor do Anéis’... [Graphic novel] toma muito tempo e exige um comprometimento com algo que é muito desgastante e pouco lucrativo. Cada país tem suas particularidades quanto à essas coisas. Cinema cabeçudo é o francês, a pintura expressionista floresceu na Alemanha, a música italiana é de autor, o rap é americano. É cedo pra saber se a Cachalote influencia a produção nacional, acho que mostra só que é possível. Mas tem muita gente trabalhando em histórias longas, acho que vamos ver muitas saindo esse ano e ano que vem, acredito que seja um bom momento pra isso”, ilustra Rafael Coutinho. Influenciando ou não a produção nacional, “Cachalote” aparece num momento no qual o mercado brasileiro parece florir para as graphic novels e voltar aos quadrinhos de temáticas mais adultas. Aproveitando essa abertura de novas possibilidades, e também do aumento do poder aquisitivo do leitor nesses últimos anos, a editora Companhia das Letras criou seu próprio selo especializado em quadrinhos, a Quadrinhos na Cia, responsável pelo lançamento da parceria de Galera e Coutinho. Além da Companhia das Letras, editoras como a Conrad e a Devir já traduziam material estrangeiro, acreditando em um mercado brasileiro dos quadrinhos. “Eu acho que esse é o momento. Não aconteceu de uma hora para outra, mas é um processo que vem de uns 10 anos para cá. Eles publicaram bastante coisa de HQ deste tipo mesmo quando o mercado não era grande para isso, ou seja, eles foram importantes para alargar um pouco esse nicho e mostrar para o leitor que não há só quadrinhos de super-herói”, analisa Daniel Galera. A onda dos quadrinhos com temáticas adultas tem a importância de alargar a visão do senso comum, além de dar mais destaque às produções nacionais que nem todos se lembram: “Há pelo menos 40 anos, quadrinhos não é coisa de criança no Brasil”, ressalta Coutinho que exemplifica com artistas como Henfil, Jaguar, Millor, irmãos Caruso, Adão, Guazzelli, Allan Sieber, Jaca, Zimbres, Dahmer, Arnaldo Branco; e ainda as revistas “Metal Pesado, Porrada, Chiclete, Animal, Pasquim, Mad, Dum Dum... Podemos ir horas enumerando exemplos de quadrinhos de adulto aqui”, garante o desenhista.

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Rafael Coutinho Rafael Coutinho está com 30 anos e já fez de tudo um pouco. Começou a trabalhar aos 16 anos com o storyboard do filme “Bicho de Sete Cabeças”. Formou-se em artes plásticas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2004. Produziu curtas-metragens como animador e diretor (“Aquele Cara” de 2006 e “Ao Vivo” de 2008), e participou de importantes publicações como quadrinista (Bang Bang, em 2005 e “Irmãos Grimm em Quadrinhos”, em 2007).

caminhos por diferentes mídias. Desde a faculdade, Coutinho colaborava com uma revista independente de quadrinhos chamada “Sociedade Radioativa”. Foi nesse período que começou a levar os quadrinhos e a pintura mais a sério. Ao tentar fazer de tudo um pouco foi que “Cachalote” emergiu.

Filho de Larte, um dos principais quadrinistas brasileiros, Coutinho teve desde cedo uma grande proximidade com as artes. Íntimo do universo e da biblioteca do pai, tinha facilidade com o desenho e acabava usando como uma forma de fazer amigos mais rápido, devido às constantes mudanças de cidades durante a infância. Os anos se sucederam com diversos trabalhos, na tentativa e erro de em empregos e subempregos variados que duravam semanas. Foi demitido inúmeras vezes.

Descobri um artista francês chamado Bezian que mexeu comigo bastante, um outro chamado Bastien Vivés também. Gosto do Paul Pope, do Jason, Killoffer, do Michelanxo Prado. Hugo Pratt, Manara, Alberto Breccia, Bill Waterson, El Cerdo, Grampá, Mutarelli. Ou seja, quadrinho que anda entre o realismo e o estilizado, gente com uma pegada mais adulta mesmo, mais dramático, mas não necessariamente sério... Gosto quando se aproxima do cinema autoral, independente, quando flerta com outras linguagens, artes plásticas, os desenhos e estudos de artistas e pintores, quando brinca com coisa séria. Gosto desse momento, certo perigo flutua das páginas, uma força meio viril. Exagerei?”

Com mais três amigos montou o estúdio de design experimental, a Base-V, sempre mexendo com artes. Nessa mesmo época começou a pintar quadros, participar de algumas exposições coletivas, procurando

“Gosto muito do trabalho do meu pai, admiro bastante. Sou muito influenciado pelo Jaime Hernandez, gosto do trabalho do Sampayo e Muñoz, do Gipi, do Taiyo Matsumoto. Ainda tenho uma obsessão pelo Katsuhiro Otomo, pelo Moebius, pelo Crumb.

Daniel Galera Daniel Galera tem 31 anos e é sua primeira aventura nos quadrinhos. Entre os anos de 1996 e 2001, antes de “Cachalote”, bem antes de ser amigo de Rafael Coutinho, Galera já publicava na internet e também era colunista do mailzine “Cardosonline” (COL). Em parceria com Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla, criou o extinto selo independente “Livros do Mal”, no qual lançou seu trabalho de estreia: “Dentes Guardados”, também em 2001.

“Eu nunca fui muito de ler quadrinhos de super herói. Não gosto tanto e nem me emociona tanto como as graphic novels que, em geral, são livros mais compridos, histórias mais longas, com uma arte mais trabalhada. Essas graphic novels eu lia desde criança, na verdade eu não lia as séries e, sim, os álbuns encadernados e tal.

De 2003 a 2008 lançou mais três livros: “Até o Dia em que o Cão Morreu”, “Mãos de Cavalo” e “Cordilheira”. Nesse tempo, além de trabalhar como escritor de ficção, Galera atuou como tradutor de autores ingleses e norte-americanos, como Zadie Smith (“Sobre a Beleza”), Hunter S. Thompson (“Reino do Medo”) e, novamente em parceria com Daniel Pellizzari, Irvine Welsh (“Trainspotting” e “Pornô”). O contato do escritor com os quadrinhos também ocorreu ao fazer versões brasileiras das publicações de do quadrinista Robert Crumb.

Depois, me afastei um tempo dos quadrinhos para ler mais literatura. Em 2005, quando me mudei para São Paulo, eu conheci muitos quadrinistas e ilustradores e isso fez com que eu me reaproximasse com força dos quadrinhos. Principalmente, os da cena alternativa americana. Mas, sempre lia as histórias que se aproximavam com a literatura, com o dia-adia e não de super-heróis.

Eu gostava muito de tirinhas como Calvin e Haroldo, até mesmo as do Laerte e Angeli. Eu gostava muito também do ‘Groo – o erante’, na época em que ele ainda era publicado em série. O que mais... Ah, o Frank Miller também. Isso quando eu era adolescente.

Não tenho nenhum projeto concreto agora. Mas, com certeza, quero fazer mais HQs, a experiência foi incrível.” Revista POP-UP | Outubro>2010

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hq What’s happening? @CoraRufino: Ganhei a HQ “Cachalote” de @ranchocarne e @rafa_coutinho. Aqui em Roraima não se vê em canto algum. Temos que pedir pela internet. @wag Cachalote é surpreendente. É um desses quadrinhos que eu sei que vou ler várias vezes. @fabiomoon Indo pra loja Cachalote encontrar o maestro. @Gabriel_Ba É agora! Lançamento de “Muchacha” do Laerte na loja Cachalote http://j.mp/cSUUpp @dAn_Cesar acabei de ler Cachalote. Muito bom! :) @bistrocultural Teaser Animado de Cachalote http://migre.me/1rzri @berbus inclusive, comecei minha coleção “Peanuts Completo”, do Schulz, e comprei “Cachalote” de @Raffa_Coutinho e @ranchocarne! to ansioso pra ler! @thesunrises Cachalote, de Rafael Coutinho e Daniel Galera http:// tinyurl.com/2dx4hch Post Novo no @ocafebr @carolbensimon Completamente destroçada com Cachalote. Parabéns a @ranchocarne e @raffa_coutinho. @dovale_ @solnumacaixa Olha, o cara também não sacou Cachalote. http://migre.me/1qn6e @tartarosa ainda estou ignorando cachalote porque 60 reais é uma coisa séria @forastieri No blog: Encalhado no Cachalote http://bit.ly/dAZbNm @malvados Deus e Jesus Cristinho na mesma mesa >>> Laerte e Rafael Coutinho no Rio de Janeiro - http://tinyurl.com/2e7e8c8 (via @ raffa_coutinho)

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@revistaPopUp: A Pop-Up selecionou os melhores comentarios do twitter relacionados com a matéria que você acaba de ler.

Search: “Cachalote”


<cinema>


<InDica>

PRONTAS PARA EXPLODIR

Na cinebiografia de The Runaways, uma das mais importantes bandas femininas de rock, Kristen Stewart e Dakota Fanning esbanjam sensualidade e agressividade no papel das polêmicas Joan Jett e Cherie Currie “Rock and roll é um esporte sangrento, um esporte de homens. Para pessoas do lado negro, gatos mortos, masturbadores, marginalizados que não tem voz e não tem como dizer: ‘Ei, eu odeio esse mundo fodido! Meu pai é um viado! Vá se foder! Foda-se a autoridade! ’ Eu quero um orgasmo! Agora rujam! Urrem!” Nos loucos anos 70, cinco inocentes garotas tiveram a essência do rock injetada nas veias. Elas suaram, gritaram e urraram. Entraram em êxtase. Foram, ao mesmo tempo, sexies e agressivas. Mostraram que rock podia ser feito por quem não tem um pênis, mas sabe usá-lo. Eram as Runaways que, em 1975, mudariam as regras do jogo. Depois de longos quatro meses, The Runaways finalmente chega às telonas brasileiras. A cinebiografia trata a história da primeira banda de rock composta apenas por mulheres, que alcançaram o precoce estrelato, assim como a decadência. Tendo o relacionamento da guitarrista Joan Jett e a vocalista Cherie Currie em foco, as estrelas de Eclipse, Kristen Stewart, 19, e Dakota Fanning, 16, dão voz e semelhança à guitarrista e à vocalista. Elas surgiram e explodiram numa época na qual os homens afloravam o lado feminino: subiam nos saltos, jogavam gliter na cara e nas extravagantes roupas e jamais se esqueciam de retocar a maquiagem. 56

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Todo esse glamour foi completamente esquecido por essas garotas selvagens de apenas 15 anos, que de inocentes não tinham nada. Tem sexo, claro. Tem drogas, sim senhor. E tem muito rock and roll. É postura, atitude, látex e peso: da despretensiosa ascensão à autodestruição no abuso das drogas e a inflação de egos, resultando na saída de Cherie em 1977 e o término da banda em 1979. O filme faz uma interpretação do livro de memórias de Cherie, Neon Angel, e conta com a direção de Floria Sigismondi. Mesmo novata na direção de longasmetragens, Floria é uma renomada fotógrafa e diretora de clipes, tendo grandes nomes como The Cure, Incubus, David Bowie e Marilyn Manson na lista.


DO DESKTOP PARA

OS CINEMAS As histórias dos criadores das redes mais poderosas do mundo vão virar filme. O primeiro já tem data de lançamento enquanto o outro ainda nem passou do processo de produção Na metade de julho caiu na rede o trailer de “A Rede Social” o filme sobre a fundação da mais nova queridinha rede social do mundo. A maneira como o coral belga, Scala & Kolacny Brothers, trouxe à vida a música “Creep” do Radiohead deixou os primeiros segundos do teaser deslumbrante. E as imagens retiradas do Facebook, então? Que introdução perfeita para uma história que traça um caminho da amizade para a alienação! Baseado no livro de Bem Mezrich, “The Accidental Billionaires: The Founding of Facebook, a Tale of Sex, Money, Genius and Betrayal”, o filme é estrelado por Jesse Eisenberg, Justin Timberlake, Andrew Garfield e Joe Mazzelo. O longa-metragem conta a história dos amigos Mark Zuckerberg e Eduardo Saverin, os fundadores do Facebook Antes mesmo de “A Rede Social” sair nas telonas, o estúdio britânico, Groundswell Production, já adquiriu os direitos autorais para produzir “Googled: The End of the World As We Know It” (“Googled: O Fim do Mundo Como Nós Conhecemos”), escrito por Ken Auletta, colunista da revista New Yorker, a história conta como foi a fundação do mais popular site de busca do mundo. Ao contrário das traições envolvendo amigos de faculdade, as festas nas repúblicas de Harvard, brigas milionárias na justiça envolvendo os criadores do Facebook, o que envolve uma maior carga de ação, o Google foi criada por estudantes e amigos de Stanford, Sergey Brin e Larry Page. Os roteiristas querem apostar no famoso lema da empresa, “don’t be evil” (“não seja mau”), como base para um filme mais atrativo, se o homem consegue manter a sua personalidade e princípios quando a sua empresa se torna a mais poderosa do mundo. CURTIR

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Treze anos mais velho, capitão Nascimento (Wagner Moura) volta como coronel em “Tropa de Elite 2” para enfrentar um novo inimigo dentro da própria corporação: as milícias. Enquanto são mostradas no trailer imagens de tiroteios nas favelas cariocas entre traficantes e policiais, Nascimento revela: “Eu transformei o B.O.P.E. numa máquina de guerra.”

O FILME AGORA É

OUTRO Novo filme de José Padilha traz capitão Nascimento com fios brancos e dois duelos para lidar: o crime dentro do B.O.P.E. e o filho adolescente

José Padilha assume novamente a direção do filme ganhador do Urso de Ouro, do Festival de Berlim, e afirma que Nascimento não só enfrentará o combate contra o crime organizado, mas também terá que trabalhar com seu o lado mais intimista: o filho adolescente interpretado pelo estreante Pedro Van Held. “Ele agora tem uma família. Como um policial explica para seu filho o que faz no trabalho? É essa reflexão que queremos levantar”, comentou o diretor. Quando esses dois lados ousam em se misturar, “agora é pessoal”, como o próprio capitão Nascimento diz no trailer. Em “Tropa de Elite”, estima-se que mais de 10 milhões de pessoas assistiram à versão pirata. Dessa vez, Padilha afirma que a produção está mais atenta à segurança e que o orçamento estimado em R$ 16 milhões também cuidará disso.

Com outros olhos Ao estilo de “Todo mundo em pânico”, “Os inocentes” pretende satirizar as produções nacionais que exploram o tema da violência e das drogas nos morros do Rio de Janeiro Com filmagens marcadas somente para março de 2011, a comédia - dirigida pelo cineasta Rodrigo Bittencourt - contará a história de três adolescentes que buscam se tornar donos da favela onde moram sem a mínima vocação para a criminalidade, resultando em várias situações engraçadas. A produtora, Mariza Leão, garantiu que não há a intenção de atacar os enredos de sucessos como “Cidade de Deus” ou “Tropa de Elite” que mostram a violência nos morros cariocas. Mas, afirmou também que a favela não é só banho de sangue. Há também famílias, pessoas trabalhadoras, que podem inspirar histórias divertidas. A atriz Nanda Costa é uma dos poucos nomes confirmados no elenco. Sua personagem, a menina mais bonita do morro, se encanta com o poder do chefe do tráfico, fazendo com que os meninos queiram ser bandidos também a fim de conquistá-la.

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Rodrigo Bittencourt, diretor de “Os inocentes”

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“ Eles o chamam de Machete” Em homenagem do diretor Robert Rodriguez aos filmes B, Danny Trejo é um sanguinário vingador mexicano

Um renegado ex-agente federal mexicano, após ter sua vida destruída por um contrabandista de drogas, passa a viver ilegalmente no Texas. Lá ele é contratado por um homem para assassinar um senador corrupto que deseja expulsar os imigrantes do estado, mas, ao tentar completar a missão, é traído. Ninguém pode detê-lo em sua busca por vingança. O único erro que cometeram foi não saber que seu nome era Machete. Tudo começou há três anos, quando o diretor Robert Rodriguez criou um simples trailer falso inserido no filme “Grindhouse”, tributo dele e de Quentin Tarantino aos filmes B. A repercussão de “Machete” foi tamanha que os pedidos para que o trailer se transformasse em um filme real não paravam de chegar, então Rodriguez percebeu que era hora do personagem mostrar suas lâminas e não poupar sangue nas telas. Com cara de poucos amigos, tatuagens ao melhor estilo presidiário latino e sempre lembrado por fazer papéis de bandidos, o ator Danny Trejo não poderia ter sido mais bem escalado para o papel do vingador mexicano. Sua história daria um filme à parte: passou 11 anos de sua vida preso por diversos crimes como roubo à mão armada e tráfico de drogas. Na cadeia de San Quentin, na Califórnia, foi campeão de duas divisões de boxe e, em 1985, enquanto passava por programas de reabilitação conheceu um homem que o convidou a participar do filme “Expresso para o Inferno”. O diretor Andrei Konchalovski gostou tanto do trabalho de Trejo que acabou aumentando seu papel. Desde então, o ator passou a ser famoso pelos vilões que fez ao lado de grandes atores, como Al Pacino, Johnny Depp, George Clooney e John Malkovich.

Agora, em seu primeiro papel como protagonista, Trejo não poupa ação, sangue e estilo canastrão na homenagem aos filmes B de Rodriguez. Tirando sangue, tripas e risadas, Machete faz qualquer coisa em busca de justiça com as próprias mãos. Mãos habilidosas quando se trata de objetos cortantes e capazes de usar o intestino de um capanga como corda para a fuga. Atuando ao lado de Robert De Niro, Steven Seagal e até beijando belas atrizes como Michelle Rodriguez, Lindsay Lohan e Jessica Alba, Danny Trejo jamais irá esquecer-se de Machete. Cara de sorte.

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“A Origem” (“Inception”) é um daqueles filmes que de tempos em tempos surgem trazendo promessas de revolucionar o cinema. Entretanto, revolução é uma palavra forte e traiçoeira. Veja, Alfred Hitchcock revolucionou a maneira de fazer suspense com “Psicose”. Kubrick, em “2001 - Uma Odisséia do Espaço”, elevou os efeitos especiais a um novo patamar, desenhando um futuro fictício, mas bastante realista (ele mostrou a Terra vista do espaço antes da primeira missão tripulada fotografar o planeta a partir da órbita lunar). Outra revolução. Uma década depois, veio George Lucas e sua ópera espacial “Guerra nas Estrelas”, bebendo da fonte do que veio antes e definindo novos padrões. A lista segue. Chamar o filme “A Origem” de revolucionário é exagero. Nada mudou nem vai mudar por causa dele. Mas é um filmão. Engenhoso, como seu diretor (e autor), Christopher Nolan, gosta de ser. “Amnésia”, que lançou em 2000, também embaralha linhas do tempo e explora uma mente perturbada, incapaz de reter memórias recentes. É tão bom quanto “O Grande Truque”, longa que ele rodou antes de fazer seu primeiro Batman, cuja franquia salvou da pasteurização a que se arrisca um filme de super-herói. “Batman Begins” e, especialmente, “Cavaleiro das Trevas” trazem o justiceiro para um mundo profundamente perturbado. Sua versão do Coringa, por Heath Ledger, mostra bem qual é a linha mestra de sua carreira. Um dos méritos de Nolan em “A Origem” é ter conseguido criar uma história autoral, interessante e com possibilidades de expandir sua mitologia em sequências e prequências em outras plataformas (ele já planeja lançar um game baseado no universo do filme). Isso pode acontecer porque “A Origem” é um conto moderno que reverencia as traquitanas e explicações da ficção científica clássica ao mesmo tempo em que se aventura pelo terreno escuro do inconsciente humano. Entrar e afundar pelas várias camadas de um sonho para roubar ou implantar informações? É uma viagem louca, longa e que precisa de cautela para não virar um imbróglio sem pé nem cabeça. Bem ao estilo do diretor, o filme é cheio de explicações, algumas dispensáveis, sobre como tudo funciona. Ariadne, vivida por Ellen Page, é a personagem novata da vez que nos serve de muleta para entender a mecânica dos sonhos dentro de sonhos e nos preparar até que estejamos aptos a embarcar sozinhos na montanha russa do subconsciente. E, quando conseguimos, o filme engata e começa uma contagem regressiva para que os personagens cumpram

seu principal objetivo: plantar uma ideia na mente de Robert Fischer, herdeiro de um império corporativo. Até fazerem isso, abusam das viradas complexas - pero no mucho - da trama, promovendo no percurso show-offs de efeitos especiais. Alguns espetaculares, como a luta em gravidade zero dentro do hotel e as mudanças de perspectiva nas ruas de Paris, que dobram sobre si mesmas. Outros destoam da textura geral da trama, como a cena da avalanche de neve e o tiroteio subsequente, num momento tipicamente hollywoodiano para assegurar que quem estiver boiando não levante e saia da sala. Delírios visuais vertiginosos à parte, talvez a faceta mais fascinante de “A Origem” seja o desequilíbrio interno do personagem de Leonardo Di Caprio, Dom Cobb, o invasor profissional de sonhos alheios. Sua jornada pessoal tentando impedir que sua consciência sucumba num caldeirão mal resolvido de remorsos e tentativas frustradas de ajudar a falecida esposa nos lembra o que Christopher Nolan sabe fazer de melhor: pormenorizar o caos. Questionando a natureza da realidade até o último instante, “A Origem” é uma aventura psicológica muito bem montada e divertida. Mas não tem força o suficiente para deixar um rastro significativo de teorias e “filosofices” - como fez o primeiro “Matrix” ou o seriado “Lost”, por exemplo. Uma semana depois de assistido e discutido, o assunto “A Origem” cansa. Vai pra prateleira de filmes legais e permanece lá, junto com tantos outros. Talvez essa seja a diferença entre o que é bom e o que é revolucionário.

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Vertigem

“A Origem” promete muito, entrega o que pode e diverte o suficiente

<Por Ricardo Cruz>

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<cinema>

Muito além dos caninos afiados

No sucesso da saga Crepúsculo eles são modernos, alguns vegetarianos e brilham ao sol. Não se fazem mais vampiros como antigamente

<Por Flávia Rodrigues, Rafael Roncato e Debora Nogaroli> Nosferatu Primos não tão distantes dos morcegos. Sugadores de sangue. E, claro, imortais. Os vampiros sempre foram o tema ideal para histórias de horror desde a sua criação em contos mitológicos. De lá para cá, suas biografias foram contadas e recontadas em diversas formas, sempre mantendo alguns padrões intactos, como a necessidade do sangue, os caninos afiados, a imortalidade e, muitas vezes, o tom de romantismo. Na literatura eles já completaram mais de 200 anos de terror; na experiência cinematográfica miram o centenário - 88 anos em busca de pescoços de belas donzelas. A jornada cinematográfica dos vampiros começou em 1922, ainda no cinema mudo e tornando-se um clássico do expressionismo alemão. “Nosferatu”, dirigido por F.W. Murnau, é uma adaptação nãoautorizada do romance “Drácula”, de Bram Stoker, que servirá de base para muitas outras versões. Em 1931 aparece o intérprete e o estereótipo mais famoso do Conde Drácula, o imortalizado Bela Lugosi, em “Drácula”, de Tod Browning. A longa capa preta, o penteado, o rosto extremamente pálido e as expressões dramatizadas de Lugosi tornaram-se marca registrada, mesmo com os vampiros-galãs dos dias de hoje. A cada ano esses seres ganham mais espaço nas mídias. A partir dos anos 90 o número de produções desse tipo aumentou 117%, tendo até os dias de hoje um total de 78 filmes. Em 2008, a mais nova febre se resume ao romance entre Edward Cullen e Bella Swan na saga Crepúsculo, da escritora Stephenie Meyer, um sucesso de vendagem e também de bilheterias pelo mundo (mais de 400 milhões de dólares). Mas nesse caso estamos falando de vampiros mais modernos, versão 2.0 dos clássicos. A Pop-Up selecionou filmes vampíricos que merecem respeito pelo sucesso que fizeram em suas épocas. Agora resta saber se você tem coragem. Então assista e não se esqueça de proteger o pescoço.

Fome de Viver Os Garotos Perdidos

Drácula de Bram Stoker

Entrevista com o Vampiro

Blade

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Underworld

Nosferatu - 1922 Direção: F.W. Murnau Origem: Alemanha Duração: 94 minutos Bilheteria: ?

Drácula - 1931

Direção: Tod Browning Origem: Estados Unidos Duração: 75 minutos Bilheteria: ?

Fome de Viver - 1983

Direção: Tony Scott Origem: Inglaterra Duração: 97 minutos Bilheteria: $ 5.979.292 (apenas nos EUA)

Os Garotos Perdidos - 1987

Direção: Joel Schumacher Origem: Estados Unidos Duração: 97 minutos Bilheteria: $ 32.222.567 (apenas nos EUA)

Drácula de Bram Stoker - 1992 Direção: Francis Ford Coppola Origem: Estados Unidos Duração: 128 minutos Bilheteria: $ 215.862.692

Entrevista com o Vampiro - 1994 Direção: Neil Jordan Origem: Estados Unidos Duração: 123 minutos Bilheteria: $ 223.664.608

Blade – 1998

Direção: Stephen Norrington Origem: Estados Unidos Duração: 120 minutos Bilheteria: $ 131.183.530

Underworld - 2003

Direção: Len Wiseman Origem: Alemanha/Estados Unidos/Hungria/ Reino Unido Duração: 121 minutos Bilheteria: $ 95.708.457 Bilheterias: boxofficemojo.com

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Apenas o começo Jovem e talentoso, Matheus Souza, provou que é possível produzir um bom filme com poucos recursos <Por Flávia Rodrigues> Ator, roteirista e diretor, surpreendeu a todos com o seu primeiro longa lançado em 2008, “Apenas o Fim” - premiado no Festival do Rio e na 32ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo em 2008, e exibido em Rotterdam, Miami, Polônia, Paris e Nova York. Na época, estudante do terceiro período da faculdade de cinema da PUC-Rio, decidiu produzir um filme que teve como orçamento uma rifa de garrafa de uísque. “Apenas o Fim” é baseado no diálogo dos atores principais Erika Mader e Gregório Duvivier que interpretam o casal de namorados Adriana e Antonio. Paradoxalmente, os dois, mesmo se amando, discutem pelos jardins da PUC o término do relacionamento, decisão tomada pela garota que resolve fugir em busca de não se sabe o que. Em meio a essas cenas, flashbacks em preto e branco intercalam a narrativa com conversas íntimas do casal a respeito de temas, como “Transformers”, “Cavaleiros do Zodíaco”, Britney Spears, Nsync, entre muitos outros elementos da cultura pop. Recentemente, neste mês de outubro, Matheus lança seu primeiro seriado de televisão, “Vendemos Cadeiras”, no Multishow. O programa promete retirar muitas gargalhadas e tem como elenco Gregório Duvivier, Wagner Santisteban, Rodrigo Arruda, Clarice Falcão e Augusto Madeira. No entanto, não para por aqui, outro trabalho já está a caminho: “Malditos Argentinos”, próximo longa oficial que terá início a gravações no ano que vem. O cinema sempre foi uma paixão? O cinema é uma paixão pra mim desde os três anos de idade, quando entrei numa sala de exibição pela primeira vez, para assistir “A Bela e a Fera”. Achei aquilo tudo muito legal, sabe? Tinha relógios cantando! E a paixão foi crescendo comigo. Meus pais são separados desde que sou muito pequeno e vivia naquele esquema de passar com o meu pai “fim de semana sim, fim de semana não”. Só que meu pai é a pessoa mais calada do mundo. Logo, quando ele me buscava, passava numa locadora e alugava uns 10 filmes para assistirmos ao longo do final de semana. Assistíamos calados, era o nosso diálogo. E bom, os filmes sempre estiveream muito presentes nos principais momentos da minha vida.

clima no set era muito bom, e toda dificuldade era superada com uma ideia improvisada criativa que acabava por ser mais interessante que os caminhos originais. A minha maior dificuldade foi mesmo a de fazer um filme enquanto eu ainda estava aprendendo o que era fazer um filme. Quais as referências cinematográficas utilizadas no filme? A obra superou suas expectativas? As principais referências foram filmes marcados pelos diálogos, como parte da obra do Woody Allen e os filmes de Richard Linklater, “Antes do Amanhecer” e “Antes do Pôr-do-sol”. O filme acabou superando minhas expectativas sim, até porque sempre pensei que só minha mãe e minha avó acabariam por assisti-lo. É verdade que o filme foi rodado com o dinheiro de uma rifa de uísque? É verdade. E o ganhador da rifa estava na Europa quando o sorteio foi feito e nunca recebeu o prêmio. É a maior fraude do cinema nacional recente (risos). A escolha de um único cenário e poucos personagens focando mais no diálogo entre o casal foi uma escolha proposital ou não? Foi. Queria fazer um filme possível, dentro dos limites que se apresentavam. A câmera que arranjamos era da faculdade e só estava disponível nas férias. Só que, durante as férias, ela não podia sair de dentro da faculdade. Logo, escrevi o roteiro de um filme que se passava todo dentro de uma faculdade. O quanto o filme tem de autobiográfico?

Como surgiu a ideia de produzir “Apenas o Fim” e quais foram as principais dificuldades? Estava no terceiro período da faculdade de cinema e queria fazer um filme. Mas o pessoal só estava interessado em filmar com a galera dos períodos mais adiantados. Pensei que, se eu tivesse uma ideia maluca, como a de fazer um longa como meu primeiro filme ao invés de um curta, as pessoas acabariam embarcando na loucura. O

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Costumava responder a essa pergunta na época do lançamento do filme dizendo que o personagem principal tinha muito de mim, mas que nunca tinha passado por aquela situação. Mas acredita que, depois do filme, eu passei exatamente por aquilo exatamente naquele lugar? Estranho, né?


“Apenas o Fim” mesclou os melhores elementos da cultura pop da última década. O que você poderia dizer sobre isso?

Teria algum filme e/ou série no qual você gostaria de ter feito?

Que garotos que não se dão bem em esportes podem mergulhar no cinema, na televisão, nos livros, quadrinhos e games, porque isso tudo pode vir a ser útil um dia.

Muitos. Pra citar um, gostaria de ter escrito o roteiro de “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, que é uma das melhores coisas já escritas.

Por você ter sido um diretor jovem, com 20 anos quando lançou seu primeiro longa, houve algum preconceito inicial por parte de grandes cineastas com grande bagagem profissional e também por parte de outras pessoas?

Depois de “Apenas o Fim” quais trabalhos e projetos estão em execução?

Os profissionais da área, na verdade, sempre se mostraram abertos e curiosos sobre mim e o filme. Várias pessoas do meio me apoiaram muito, como a Mariza Leão, o Domingos Oliveira e o Grupo Estação. Sou muito grato a eles. Hoje você faria algo diferente nessa produção? O filme tem milhões de defeitos claros, mas acho que isso acabou virando parte da graça dele. O que você teria a dizer sobre o cinema brasileiro de uns anos pra cá? Você acha que os filmes independentes estão ganhando mais espaço? Eu gosto do cinema brasileiro recente. Acho que, apesar dos defeitos, temos hoje uma produção plural. Acho que também que temos grandes diretores, mas a maior parte dos roteiros ainda deixam a desejar.

Estou num calmo processo de finalização de um documentário sobre jovens artistas e de uma animação em rotoscopia. Decidi fazer tudo sem pressa após o meu primeiro trabalho, para não cair na clássica armadilha da “segunda obra”. Está no ar agora o meu primeiro seriado de televisão, “Vendemos Cadeiras” e ano que vem gravo meu próximo longa oficial, “Malditos Argentinos”. De tudo que você já fez (escrever roteiros, dirigir, atuar), o que mais gostou? Eu sempre gosto muito de tudo. Quando eu tinha doze anos de idade conheci o Woody Allen. Eu era todo errado, tinha aparelho, espinhas, era gordinho, baixinho. Aí vi um filme no qual um cara pior que eu se dava bem com a Julia Roberts. A primeira coisa que pensei foi: “É isso que eu quero fazer da minha vida”.

Saiba mais: @omatheussouza multishow.globo.com/Vendemos-Cadeiras

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Bom para o público e para o mercado cinematográfico. O 3D veio para ficar! <Por Flávia Rodrigues>

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Cinema mudo, branco e preto, falado, colorido. Foram várias as etapas que a chamada 7ª arte passou durante os mais de cem anos de sua existência no mundo. No entanto, apesar de ser uma boa forma de lazer e entretenimento, de algumas décadas para cá teve seu espaço disputado com outros meios, como a televisão e a Internet. No site Filme B - um portal especializado no mercado de cinema no Brasil - há um gráfico que mostra a evolução do público no país. Nele se vê que no ano de 2005 havia 93,6 milhões de pessoas, um número que foi diminuindo aos poucos até chegar em 2008 a 89,1 milhões. Já no ano seguinte, esse número deu um grande salto, tendo um total de 112,7. Coincidentemente, o ano de 2009 teve a estreia do filme “A Era do Gelo 3”, campeão de bilheterias e que teve também sua versão em 3D; aliás, foi nesse período que a tecnologia começou a ser um grande sucesso, inaugurando mais uma etapa no setor. Essa tecnologia teve um longo processo de aprimoramento, isto é, nos anos 2000 a experiência tridimensional já existia, mas os óculos usados eram os chamados anaglíficos (aqueles com lentes azuis e vermelhas) e os projetores não eram digitais. Em outras palavras, existia o efeito 3D, mas não existia um maior aproximação ao realismo como existe atualmente. Mas, apesar de não ser a melhor forma de ver imagens 3D, o interessante é que esses óculos podem ser feitos em casa com material barato e fácil de encontrar. O uso deles possibilita ver vídeos na Internet e até mesmo imagens em mídia impressa. Hoje, no entanto, as salas de cinema possuem projetores digitais, telas apropriadas para uma melhor exibição de filmes 3D e óculos polarizados (com filtro cinza) que permitem uma melhor noção de profundidade e preservam as cores originais. A primeira projeção 3D no Brasil dessa nova geração aconteceu em dezembro de 2006, em São Paulo, com o filme “A Casa Monstro”. Depois disso, finalmente, o cinema conseguiu trazer ao espectador uma experiência mais próxima ao que nossos olhos vêem naturalmente – sem grandes desconfortos visuais, limitações ou complicações que impediram o sucesso do 3D no passado.

“A tecnologia de antes não funcionava tão bem. Usávamos aqueles óculos anaglíficos que até funcionavam, mas não se comparam aos que temos hoje. A impressão que se tem é que você está dentro do filme.” , afirma Mariana Caltabiano, fundadora e diretora da MC Criações. O sucesso é visível. Neste ano o ranking de bilheterias, segundo o Filme B, foi “Avatar”, “Shrek para Sempre”, “Eclipse”, “Alice no País das Maravilhas” e “Toy Story”. Isto é, dos cinco filmes aqui mencionados, quatro tiveram versões em 3D. Segundo Mariana Caltabiano, as crescentes produções em 3D nos últimos tempos se devem a dois motivos. O primeiro é que não é tão complicado produzir um filme desse tipo com as técnicas disponíveis atualmente. O segundo é que há uma grande procura pela experiência de ver filmes em três dimensões no cinema e, consequentemente, um aumento no faturamento nesse setor, já que, o valor do ingresso é de 25% a 50% mais caro e os produtos com a tecnologia ainda não foram difundidos nos domicílios. No entanto, apesar do sucesso, a compra do projetor e da tela especial para a exibição em 3D é um problema para o Brasil. Os empresários donos de cinemas arcam sozinhos com os custos que são altos. Para se ter uma ideia de qual é o custo, a exibição em 3D só é possível se houver a substituição dos atuais equipamentos de projeção, que exibem cópias em película no formato 35 milímetros, por um sistema digital que oferece imagens com alta definição. Mas, ainda sim é preciso que o exibidor adquira softwares e filtros necessários, o que eleva ainda mais o valor do investimento. Dessa forma, com as taxas de importação, um projetor digital chega a custar em torno de R$ 320 mil e se o sistema for comprado com o kit 3D, chega a R$ 520 mil. “Quem mais se beneficia com a adoção do projetor digital são os distribuidores, pois tem seus gastos com cópias, transporte e armazenagem reduzidos. Já os exibidores não têm seus custos reduzidos pela adoção do

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projetor digital”, afirma Pedro Henrique Marques, do departamento de economia da cultura do BNDES. Nos EUA, há uma taxa que deve ser paga por cada filme lançado em uma sala com projetor digital e os distribuidores arcam com a maior parte dos custos. Já no Brasil, o BNDES tem um programa de financiamento específico para o setor audiovisual desde 2007 e, recentemente, uma linha específica para a expansão e modernização do parque exibidor que mescla empréstimos e investimentos. Mesmo as empresas que tem condição de comprar os projetores precisam enfrentar uma grande fila e aquelas que já têm a tecnologia raramente dispõem mais de uma sala no cinema. Por isso que é difícil ver duas produções 3D em cartaz ao mesmo tempo. Os filmes que poderiam ficar mais tempo em exibição acabam saindo cedo de cartaz para dar espaço a outro lançamento, prejudicando distribuidores e exibidores que acabam deixando de lucrar mais com ingressos, sem contar com o público que sofre com a falta de oferta. De acordo com o professor do instituto de economia da UFRJ, Fabio de Silos Sa Earp, o 3D veio para ficar, pois os cinemas precisam enfrentar a concorrência da TV e do DVD tendo que oferecer algo mais. Além disso, Fabio Earp afirma que os proprietários de cinema em melhores condições financeiras estão experimentando em poucas salas, testando a reação do público. A partir de dados divulgados pelo Filme B, foram contabilizados, até o mês de maio, 140 complexos de cinema no Brasil equipados com projetores 3D, num total de 549 salas. Para se ter um parâmetro, segundo a ANCINE, há no Brasil cerca de 2.200 salas.

Além dos cinemas! Com tanta tecnologia chegando cada vez mais para perto dos consumidores, o 3D não deverá ficar restrito somente às salas dos cinemas por muito tempo, pois a sua popularidade também atraiu o interesse da indústria de eletrônicos que já comercializa alguns modelos de monitores especiais. Aliás, a Samsung recentemente anunciou a venda de óculos 3D com prescrição e há também empresas que estão desenvolvendo até mesmo Tvs que exibem imagens tridimensionais sem necessidade de óculos. Além disso, alguns grupos de comunicação também estão investindo no setor. A SkyB, por exemplo, anunciou recentemente o lançamento em 2010 do primeiro canal de TV da Europa com programação integral em 3D.

Para Pedro Marques, há muitas vantagens para os agentes de mercados – produtores, distribuidores, exibidores. Os filmes 3D atraem mais espectadores, gerando, portanto, mais receitas de bilheteria e mais receitas de bombonière. Segundo ele, os estúdios americanos estão apostando muito nesse tipo de tecnologia. O número de filmes 3D aumentou 150% em 2009. O aumento na bilheteria dos filmes 3D foi de 375% e isso representa uma participação da bilheteria total de 11% (contra 2% em 2008). “Quando a TV 3D pegar, será uma febre, o que pode aumentar ainda mais o número de lançamentos 3D nas salas de cinema”, disse. Revista POP-UP | Outubro>2010

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Mas, engana-se quem pensa que o 2D perderá espaço nas produções. “Eu acho que o 3D veio pra ficar, mas não adianta ter os melhores efeitos possíveis e não ter uma história e personagens cativantes. O público não vai gostar. Acho que uma coisa não substitui a outra, na verdade acrescenta. O 2D vai sempre existir, porque tem histórias que não faz sentido usar o 3D, a não ser que tenha cenário, lugares bonitos”, afirma Mariana Caltabiano, da MC Criações.

Risco! O que ninguém imaginava é que a tecnologia 3D pudesse trazer alguns problemas. A falta ou a má higienização dos óculos podem causar doenças, como a conjuntivite. De acordo com o oftalmologista do Instituto Penido Burnier, Leôncio Queiroz Neto, a contaminação dos olhos acontece por vírus ou bactéria e pode deixar sequelas na visão se não for tratada adequadamente. Por isso, a Câmara Municipal de Campinas, interior de São Paulo, aprovou um projeto que obriga os cinemas a higienizar os óculos utilizados nos filmes a cada sessão. Caso o cinema não se ajuste à lei, terá que pagar uma multa de R$ 2 mil, chegando até a pagar o dobro no caso de acontecer mais uma vez.

Também há aqueles que reclamam do desconforto dessa tecnologia. “Muitos pacientes relatam que após dez minutos assistindo um filme 3D já começam a sentir desconforto visual e dor de cabeça, sintomas que só ocorrem depois de duas horas de trabalho no computador”, comenta Queiroz. As telas especiais exigem um maior esforço do

Um levantamento feito pelo próprio médico na primeira semana de “Avatar” mostrou que 35% das 93 pessoas entrevistadas não gostaram do filme em 3D, pois saíram cansadas. “Eu tenho minhas dúvidas se isso não vai ser um modismo”, afirma.

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Queiroz conta que nos primeiros dez dias de lançamento de “Avatar” houve em seu consultório um registro de dezenas de casos de conjuntivite devido aos óculos 3D. Esse tipo de problema não acontecia antes porque os óculos eram descartados e hoje, com o custo elevado do acessório (cerca de R$ 160,00), tornou-se inviável. Mas esse problema não acontece apenas no Brasil. Em fevereiro deste ano, sete mil óculos 3D foram confiscados na Itália pelo Mistério da Saúde.

cérebro para focalizar com nitidez as imagens de fundo e as mais próximas que saltam das telonas. Esse esforço causa a “3D fobia” e atinge até mesmo as pessoas com boa visão. Os principais sintomas são as dores de cabeça, náusea, olho seco, irritação ocular e cansaço visual. O problema fica maior quando se usa óculos de grau. Os óculos 3D colocados sobre as lentes podem alterar a distância e prejudicar o foco. Por isso que muitos preferem colocar lentes de contato e é o que o médico indica.

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CHEGOU A VEZ DO BRASIL!

Marcelo de Moura, animador e um dos fundadores da LightStar Studios e da escola ArtAcademia, revelou estar produzindo também um longa em 3D que ainda está em fase de concepção. “Acredito que no final do ano que vem começa a pré-produção. Eu ainda não posso falar mais sobre isso, sobre o que é, mas adianto que é um projeto muito bacana. A história está ficando bem sólida, muito legal”, contou. Marcelo, que também foi animador de “A Era do Gelo 3” e de “O Segredo de Kells”, disse que não há dificuldades maiores ao se fazer um filme com essa tecnologia, desde que haja um planejamento antes da produção começar e não depois, como aconteceu em alguns filmes. Para Mariana, a grande dificuldade na produção de “Brasil Animado” foi o peso dos equipamentos. As imagens ao vivo foram feitas com duas câmeras EX3, cada uma representando um olho do espectador. Além disso, as câmeras ficam acopladas em um equipamento que se chama Rig - uma espécie de suporte com um jogo de espelhos que junta as imagens captadas. Esse jogo de espelhos permite que as filmagens sejam exibidas ao acabar de fazê-las. “A gente assistia no monitor já com o óculos 3D pra ver como que aquela cena ia se comportar na sala de cinema. Para cada cena que se vai fazer, tem de calcular a distância do objeto que vai estar mais próximo e o que vai estar mais distante das câmeras”, explica. De acordo com Mariana, a distância entre as câmeras é ajustada seguindo esse cálculo que é feito pelo estereógrafo, um matemático. “Tem que se planejar. Não dá pra fazer muitas coisas de improviso. Por exemplo, a gente fez cenas na Amazônia; então, não dá pra falar: ‘Ah, olha o macaquinho, vira a câmera para o lado!’. Até pode arriscar, mas é possível que não funcione depois no 3D, porque não foi feito o cálculo da distância”, disse.

© reprodução

O sucesso dos filmes em três dimensões vem resultando recordes e mais recordes de bilheteria no mundo, despertando, assim, o interesse da indústria cinematográfica. Esse interesse vem gerando novas produções desse tipo - a maioria, claro, americanas. E o Brasil? Quando lançará seu primeiro longa-metragem em 3D? A resposta é: em breve! Há pelo menos cinco projetos que estão na busca desse título e o que mais se aproxima dele é “Brasil Animado”, de Mariana Caltabiano, que tem previsão de lançamento para janeiro do ano que vem. O filme, em fase de pós-produção, mescla animação com cenários reais e conta a história de dois personagens que viajam pelo país a procura de uma árvore rara, descobrindo diversas belezas naturais. Outros longas 3D também previstos para 2011 são “O Golpe”, de Márcio Garcia (sim, aquele ator e apresentador na televisão), “Tainá 3 – A Origem”, de Rosane Svartman, e “Quem Tem Medo de Fantasma”, de Cris D’Amato. Já a produção “Terapia do Medo”, do cineasta Roberto Moreira, está com filmagens previstas para o ano que vem e estreia em 2012.

RIO “Rio”, a próxima animação de Carlos Saldanha (diretor de “A Era do gelo” 2 e 3), como o próprio nome já diz, terá sua trama ambientada nos principais pontos turísticos da cidade maravilhosa. Rodrigo Santoro, Neil Patrick Harris e Anne Hathaway farão parte do elenco de dubladores. Previsto para estrear em abril do ano que vem, o filme conta a história de Blu, uma arara-azul macho da cidadezinha de Minnesota, nos Estados Unidos, que nunca aprendeu a voar e não sabe como é o mundo fora de casa. Um dia, o pássaro resolve deixar o conforto da sua jaula e se aventurar no Rio Janeiro. Blu, no entanto, não está sozinha nessa jornada, no caminho terá a companhia de mais dois personagens: um Tucano e uma arara-azul fêmea.

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cine What’s happening? @rafinhabastos: Só eu tive um derrame assintindo Avatar em 3D?

@revistaPopUp: A Pop-Up selecionou os melhores comentarios do twitter relacionados com a matéria que você acaba de ler.

Search: “3D” @FajerYousif Why is every movie turning 3D? @hometheaterbr Toshiba também mostra TV 3D sem óculos! @celucine Primeira TV com tela 3D que não precisa de óculos especiais é apresentada na Ásia. @ebertchicago Lucas plans to release of “Star Wars” in 3D. May the Force prevent him @LunaPontone Alice no País das Maravilhas. nossa, muito, muito bom MESMO. depois fiquei vendo como eles fazem aquelas paradinhas em 3D @Guzz_Lightyear wow, acabei de ler que vai passar todos os Star Wars no cinema de novo, só que 3D, igual toy story. dahora :D (embora na ordem 1, 2, 3, 4, 5, 6) @jackyramires_ podem falar o que quiser, mas ‘A Bela e a Fera’ marcou minha infância e eu vou pro cinema assistir em 3D @durao A Disney finalmente conseguindo fazer uma animação 3D com cara de Disney. Tangled (Enrolados) @Daslei o diretor de #Enrolados queria um textura parecida com os clássicos da #Disney? Pq ele não fez em #2d então? #Fail #3D Sei não, visse! @Erika_Cereja O filme “Piranhas” mtoo #FODA ainda mais em #3D @MiStephanne Adoro filme de desenho quero ver um que chama Rio em #3D

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Samba, maxixe, maracatu, ciranda, coco e afoxé Em parceria com o Madeira Brasil – trio de cordas formado por Marcello Gonçalves, Zé Paulo Becker e Ronaldo do Bandolim– Roberta Sá propõe um trabalho que passa por diferentes ritmos brasileiros ‘’Quando o Canto É Reza’’, lançado em agosto pela Universal Music, é um disco de 13 faixas compostas pelo baiano Roque Ferreira. O álbum passa por canções inéditas e ganha releituras especiais na voz de Roberta Sá, como a conhecida “Água da Minha Sede”, gravada por Zeca Pagodinho. O que diferencia este trabalho dos já feitos pela cantora é a mistura de sons e linguagens. O samba continua presente como nos seus discos anteriores, mas Roberta se arrisca em ritmos como o maxixe, maracatu, afoxé e consegue provar que veio para ficar na música brasileira.

© Murillo Meirelles

As letras se misturam com as cordas do Trio Madeira Brasil e nos levam para um Brasil rico em cultura, porém ainda desconhecido por muitos. Em Cocada, por exemplo, Roque mostra a simplicidade de sua região: “Trepe no coqueiro / tire o coco e vá quebrar / Quebre o coco e tire a casca / Pegue o coco e vá ralar”.

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A ideia de fazer um trabalho todo dedicado ao compositor baiano veio da admiração da cantora. ‘’Quando estava pesquisando canções para o meu segundo disco, liguei para o Roque pedindo repertório. Ele me mandou várias e fiquei com aquelas pérolas nas mãos. Mostrei as composições para Marcello Gonçalves, violão de 7 cordas, que também se apaixonou pelas músicas. Assim nasceu o projeto’’, contou Roberta. ‘’Quando o Canto É Reza’’ é um álbum que nos permite conhecer o belíssimo trabalho do trio carioca, a versatilidade de Roberta Sá e a pureza das canções de Roque Ferreira, que já ganhou voz com Maria Bethânia, Martinho da Villa, Beth Carvalho, mas que continua ‘escondido’ lá na Baía de Todos os Santos.


ELES VOLTARAM! Para os mais apaixonados pelo quarteto, o Los Hermanos anunciou cinco shows em uma mini-turnê que passa pelo Nordeste e pelo Sudeste

CHICO DE PERTO

Para os fãs de Chico Buarque, a Abril Coleções reuniu 20 CDs acompanhados por livretos de 44 páginas. Além disso, a coleção traz comentários exclusivos de intérpretes, músicos e parceiros de Chico, como Caetano, Toquinho e Miúcha, e reproduzem as capas e gravações originais dos LPs. A obra permite que o leitor conheça as histórias que estão por trás de cada faixa, sobre o momento histórico em que o disco foi composto e detalhes sobre a vida do cantor. Entre os álbuns escolhidos está “Chico Buarque” – disco homônimo lançado em 1978. Com mensagens contra o regime ditatorial, o álbum traz músicas de protesto como “Cálice” e “Apesar de você”.

LANÇAMENTO DUPLO

Nina Becker, conhecida pelos vocais da banda Orquestra Imperial, estreia em carreira solo com dois álbuns ao mesmo tempo; o “Azul” e o “Vermelho”. A cantora, que já foi classificada com uma das mais influentes de sua geração, assina nove das vinte faixas dos CDs – que também ganhou canções de Rômulo Fróes, Quito Ribeiro, Moreno Veloso. A contradição das cores representam a diferença de sonoridade entre os discos. “Azul” levou cerca de três anos para ser concluído e nos apresenta um som simples com poucos instrumentos e a voz de Nina é a mais suave possível. “Vermelho” foi gravado em quatro dias e as influências são o rock brasileiro e o pop francês dos anos 60.

No começo de agosto o músico Bruno Medina anunciou em seu blog que o Los Hermanos estariam de volta para uma miniturnê no Nordeste. Mas e no Sudeste? E o resto do Brasil? Nada foi confirmado até o início de setembro quando foi anunciada a apresentação da banda no SWU. “Lembrem-se de que a proposta inicial era a de fazer 2 apresentações, que já viraram 5!”, afirmou Medina. Os fãs da região sul do país agradeceram, pelo menos agora a viagem será menor – e mais barata. Quem quisesse ver o quarteto carioca teria que viajar no mês de outubro para Recife (15), Fortaleza (16) ou Salvador (17 e 18). A volta inesperada da banda que estava parada desde 2007 – com exceção de duas apresentações em 2009 - fez com que os ingressos em Salvador evaporassem em apenas uma hora depois que a bilheteria ser aberta. A cidade ganhou uma nova data logo depois da venda-relâmpago. Os ingressos em Recife também acabaram, mas não em questão de horas. Antes de confirmar a apresentação em São Paulo, vários pedidos foram feitos na internet por um show no Sudeste. “Nossa expectativa também é atender, ainda que parcialmente, à demanda dos fãs da região sudeste, que reclamaram bastante da distância geográfica em relação aos locais que tinham sido anunciados.” Assim que confirmou a notícia dos shows, o tecladista da banda escreveu: “Da minha parte – e acho que falo também pela banda – estamos bastante felizes com essa oportunidade de cair na estrada juntos, tocar nossas músicas e nos divertir, como nos velhos tempos”. Não só você, Medina, todos os fãs de Los Hermanos também estão.

Deu vontade de conferir essa mistura? myspace.com/ninabecker

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Expandindo horizontes

Christopher Amott, guitarrista da banda de death metal Arch Enemy, lança seu primeiro disco solo, que de metal não tem nada O nome do sueco Chirstopher Amott está ligado ao heavy metal desde 1995 - quando, em conjunto com seu irmão e também guitarrista, Michael Amott, fundou o Arch Enemy, um dos expoentes do death metal. Agora, com o lançamento de seu primeiro disco solo, “Follow Your Heart”, Amott desvencilha-se parcialmente do som pesado e expande como músico. “Não peguei nenhuma influência do metal. Apenas tentei ir o mais distante possível, como sempre fiz”, explica o guitarrista. “Acho divertido fazer outros tipos de música, você pode explorar tantos estilos por aí”, conta Amott sobre a mistura de estilos do disco. Com influências principalmente do rock, o guitarrista misturou a pegada do blues, o groove do rock dos anos 70 e um pouco de psicodelia: “Eu escuto tantas bandas que eu realmente não sei ao certo”, revela. Além de mostrar versatilidade na mudança de estilo e em assumir os vocais, Amott também se expressou com a pintura da própria capa: “É legal, mas não tenho nenhuma formação em pintura ou desenho”, diz, “Nas guitarras eu tenho mais prática, estive treinando por toda minha vida”, completa.

Ainda sem planos para tocar suas músicas ao vivo, Amott pensa primeiro em lançar o novo disco do Arch Enemy e depois seu segundo solo. “Estamos compondo o novo disco agora. No próximo ano teremos muitos shows, tenho que ver quando terei tempo para fazer o meu disco, que provavelmente será mais alegre”.

“11:59”, o momento é agora Com seu primeiro disco por uma grande gravadora, Ryan Star se vê no melhor momento da carreira. “Está tudo em 11:59” Após cinco anos desde seu último disco de estúdio - “Songs From The Eye Of An Elephant” – Ryan Star mostra aos fãs que, realmente, paciência é uma virtude. Na verdade, ele não se vê preocupado com a demora, mas sim com o cuidado dos detalhes, da criatividade e das “burocracias” de uma produção. “Não penso no tempo como a maioria faz. É uma ideia, e não um relógio contando”, diz Star, “’11:59’ veio quando estava pronto e esse momento é agora”, completa. Aos 32 anos, o músico nova-iorquino parece viver um momento único na carreira com o lançamento do novo disco, “11:59”, pela gravadora Atlantic Records, nos EUA. Mesmo com o crescente sucesso, Star não se esquece do passado, muito menos de todos que o ajudaram a crescer como músico. “Acredito que seja uma combinação de todos os anos antes de me tornar vocalista, até as coisas independentes que fiz sozinho. Está tudo em ‘11:59’”, explica.

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Depois de participar do reality show “Rock Star Supernova”, no qual um supergrupo de músicos procurava um vocalista, e ser eliminado nas semifinais, Star disse que um dia o veriam fazer sucesso. Prepotência com base. Ele conseguiu a ajuda de Mark Burnett, produtor do programa, e anos mais tarde de David Cook, ganhador da sétima temporada da série “American Idol”. Apenas na primeira semana do lançamento de “11:59”, ele alcançou a 31ª posição no Top 200 da Billboard e a 10ª de Melhores Discos de Rock. “Está sendo um momento mágico ver as pessoas reagirem tão bem ao disco”, conta Star, acrescentando o que talvez seja a fórmula de seu sucesso: “É um disco sobre esperança e positividade pessoal e universal. Seja quem você quiser ser e tire o seu melhor em todos os momentos”. E, por enquanto, ele apenas tem uma única certeza, “É hora de cair na estrada e atingir as pessoas. Vejo vocês do outro lado”.


Raspa a franja e deixa a barba

Com o lançamento do novo disco da Fresno, Revanche, e o sucesso de um de seus projetos, o Beeshop, o vocalista Lucas Silveira se vê no momento mais maduro da carreira. “Dá mais vontade de trabalhar e fazer acontecer” Lucas Silveira é pontual ao falar de “Revanche”, o mais recente álbum da Fresno: “O novo disco deve surpreender os mais desavisados”. Após 10 anos de estrada, cincos discos de estúdio e diversos prêmios, a revanche do quarteto gaúcho marca uma nova fase. “Estamos em outro momento das nossas carreiras. Julgamos necessário arriscar mais, e as músicas saíram naturalmente diferentes de tudo que a gente já fez”, explica Lucas. Agora com o nome consolidado entre os fãs e no cenário nacional, a banda larga a sonoridade extremamente pop de “Redenção”, 2008, e segue por um caminho mais pesado, dando espaço para riffs de guitarra mais trabalhados. Em “Deixa o Tempo”, primeiro single do novo disco que já tem cara de hit, transparece um clima mais “sombrio”, juntamente com o amadurecimento musical dos integrantes. A introspecção e auto-análise parecem maiores que nunca em suas roupas pretas e jaquetas de couro. “Acho que agora as pessoas conhecem meu outro lado como músico, compositor e também produtor”, analisa Lucas ao fazer o balanço do espaço conquistado nesses anos. Através dessa oportunidade que um dos alteregos do vocalista ganhou forma e disco, o “The Rise and Fall of Beeshop”. Compondo e gravando grande parte do eclético material da Beeshop, Lucas explica seu Frankenstein privado: “Tudo partiu de devaneios que venho registrando ao longo dos últimos cinco anos. É uma produção chefiada por mim”. As influências de bandas norte-americanas e o gosto pessoal na composição são evidentes. A sonoridade transita do tradicional rock jovem de Copeland e Dashboard Confessional ao jazz das big bands de grandes cantores como Frank Sinatra, até o rock clássico dos Beatles. “O que as músicas pediam, eu colocava. Por isso é que o disco tem uma sonoridade tão ampla e as músicas são tão diferentes entre si”, explica. Impressionando a crítica e garantindo um novo sucesso, o músico começa a ser enxergado com maior seriedade que antigamente, quando era considerado apenas mais um vocalista de banda adolescente. “Estou muito feliz com a recepção do disco, especialmente entre as pessoas que não ouvem ou não gostam de Fresno. Isso mostra que a minha intenção de fazer algo diferente realmente surtiu um efeito”, reflete Lucas, que não se sente nenhum pouco intimidado com o futuro. “É excitante não saber como vai ser. Dá mais vontade de trabalhar e de fazer acontecer”, completa.

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2 ROCK IN RIO Após 10 anos, o bom filho à casa retorna. Em 2011, o Rock In Rio volta às terras brasileiras depois de passagens por Portugal, com quatro edições (2004, 2006, 2008 e 2010), e Espanha, com duas (2008 e 2010). O evento acontecerá em Jacarepaguá, mesmo bairro onde estreou em 1985, no Parque Olímpico Cidade do Rock, uma área de 150 metros quadrados doada pela Prefeitura do Rio de Janeiro, que futuramente será usada como parque de lazer para os atletas nas Olimpíadas de 2016.

Já contando com data marcada, entre os dias 23 de setembro e 2 de outubro, a quarta edição nacional do festival começa a ter suas especulações de possíveis artistas. Roberto Medina, criador do festival, já mostrou seu interesse em trazer músicos como Shakira, Lady Gaga, Radiohead, Iron Maiden, Guns N’ Roses, sendo Metallica a primeira confirmação do festival. No embalo de possíveis nomes para o festival, os editores da Pop-Up indicam seus favoritos.

Green Day O trio punk-rock, Green Day, é um sucesso mundial desde 94 quando lançou o disco “Dookie” e o single “Basket Case”. O grupo é dono de oito álbuns, quatro Grammys e mais de 20 milhões de cópias vendidas somente nos EUA. O disco “21st Century Breakdown”, de 2009, recebeu o Grammy de melhor álbum de rock neste ano e conquistou três estatuetas no último MTV Video Music Awards. Há 12 anos sem pisar em palcos brasileiros, a banda norte-americana fará quatro shows pelo país no mês de outubro. Mas, como tudo que é bom sempre deixa um “gostinho de quero mais”, que venha Green Day novamente em 2011. <Flávia Rodrigues>

David Cook O vencedor da 7ª temporada do American Idol faz rock direto e de qualidade. Mesmo pouco conhecido nacionalmente, ele já conquistou um bom número de fãs com seu disco atual e também com trabalhos anteriores ao programa. Não poderia faltar no Rock in Rio espaço para quem faz o bom e velho rock americano com o coração. Grande músico, cantor e compositor que merece ser divulgado. <Rafael Roncato>

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John Mayer O cantor e guitarrista já mostrou que tem talento. Está no seu quinto álbum, ganhou o Grammy em 2003 de melhor performance masculina, com a faixa ‘’Your Body Is Wonderland’’ e suas maiores influências são Steve Ray Vaughan e Jimi Hendrix. Apesar da carreira de sucesso e das turnês ao redor do mundo, John Mayer ainda não esteve no Brasil, mas já declarou no twitter que vontade não falta: ‘’Amor imenso aos meus fãs brasileiros. Vocês têm a minha palavra, eu vou tocar no Brasil na próxima turnê’’. <Isabelle Ribeiro>

The Strokes Considerados como “a salvação do rock” quando surgiram em 2001, os Strokes serviram de influência para algumas das bandas vindas logo em seguida. Em 2005, eles estiveram pela única vez no Brasil, mas, em 2011, os Strokes já estarão definitivamente em turnê com o tão aguardado quarto disco e não podem deixar de passar por aqui. Quem sabe, de quebra, não se apresentam Julian Casablancas com o seu trabalho solo e Fabrizio Moretti com Little Joy, sua banda paralela com Rodrigo Amarante, vocalista do Los Hermanos. <Debora Nogaroli>

Katy Perry Acreditamos que todo festival que preze tem que ter artistas pop de qualidade tocando. Katy Perry consegue preencher muito bem essa lacuna. Os seus shows nos Estados Unidos e na Europa não deixam a desejar e cativam qualquer um que esteja somente passando por ali. A garota sabe mesmo como levantar o público! Além disso, é impossível você dizer que não conhece nenhuma música, nem o refrão chiclete “I kissed a girl and I like it....” <Debora Nogaroli>

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Na garupa digital Acreditando no potencial convergente da internet, Móveis Coloniais de Acaju e gravadora Trama embarcam juntos na jornada do mercado digital brasileiro <Por Rafael Roncato> Apertados num pequeno Palio negro, Esdras Nogueira e André Gonzales relembram nostálgicos a boa culinária das cidades que visitaram com os outros integrantes do Móveis Coloniais de Acaju. Enquanto Esdras disserta despreocupado sobre as peculiaridades do macarrão de Campo Grande ou do sabor de um lanche gigante em São Carlos, André duela com a falta de espaço para atender o celular. “A gente tá perdido tentando achar o hotel”, diz André tranquilamente a namorada - que também parece não se importar –, e completa: “É, pegamos uma carona”. Ele se despede mandando um beijo para a família toda. Retribuímos a gentileza da entrevista aceitando dar uma carona, o que parecia ser trabalho simples. Agora, rodamos as ruas de Sorocaba há 15 minutos, parando de posto em posto, para desvendar o caminho para o hotel no qual a banda já está hospedada. Após alguns quilômetros rodados no sentido oposto de nosso destino, finalmente chegamos: “Valeu mesmo e desculpa incomodar”, despedem-se quase que de maneira uníssona, enquanto se dirigem ao saguão do tão desejado hotel. Por sorte os outros oito integrantes do Móveis não precisaram passar por essa pequena odisseia. Se existe uma carona que todos da banda souberam aproveitar, foi a do estranho e desconhecido caminho que a indústria fonográfica tomou nos últimos anos com o aumento desenfreado do download. Em 2003, cinco anos desde a criação da banda, os integrantes do Móveis decidiram que suas músicas seriam disponibilizadas na internet de forma gratuita, acreditando no poder do download livre. “A gente vê o resultado disso em shows: aumentam as vendas de discos, aumenta merchandising, aumenta o conhecimento das pessoas em relação à banda, e isso é muito legal pra gente”, explica Esdras, acrescentando, “Foi a melhor coisa que a gente fez”.

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Em 2007, os ingleses do Radiohead também acreditaram no potencial democratizador e revolucionário da internet, lançando seu sétimo disco, “In Rainbows”, através de downloads nos quais os próprios usuários escolhiam quanto pagar. “Isso é uma puta jogada de marketing. Os caras mandaram muito bem, acho que esse é o caminho mesmo: entender como funciona o mercado”, garante Esdras. Tendo como um dos pilares a tecnologia a favor da música, e buscando adaptar-se o mercado, a gravadora Trama é a precursora no mercado de música digital nacional. “Realmente as vendas dos discos caíram - a gente não pode esquecer que foi uma decisão do público -, mas acho que o digital apareceu não tomando espaço do físico; o físico entrou num processo de desaceleração e de queda - e hoje de acomodamento - como já acontecera com outras mídias”, explica João Marcello Bôscoli, presidente da gravadora. Com a entrada e a solidificação da cultura da internet, a indústria fonográfica se viu em maus lençóis, e agora busca maneiras de reinventar-se para sair da atual crise. No entanto, Bôscoli acredita que uma das possíveis soluções não está em tentar salvar o formato físico ou partir de vez para o digital, deve-se pensar em música como unidade. “Enquanto pensarmos em uma coisa ou outra,


a gente vai trabalhar meio que dando um tiro no pé. Uma coisa alimenta a outra”, argumenta Bôscoli. Os Móveis Coloniais de Acaju também compartilham da mesma ideia de convergência: “A gente não pode ser refém de uma regra que acabou nos anos 90. Ela dura hoje por conta de interesse de grandes empresas que ainda sobrevivem de um mercado arcaico. Hoje é muito diferente, e quem não souber se adaptar vai ficar estagnado”, ressalta Esdras. Mesmo o Brasil não contando com um mercado digital tão solidificado quanto países como Estados Unidos e Japão, os números de vendas digitais são expressivos. De acordo com a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), o mercado nacional cresceu 159% em 2009; enquanto no mundo teve um crescimento de 12%, com o Brasil sendo considerado o principal mercado na América Latina, segundo dados do “Digital Music Report”, divulgado pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI). Esse resultado pode indicar uma mudança e maior aceitação do consumo de música digital legalizada. Quando não se pode vencê-los, junte-se a eles. A Trama percebeu a oportunidade de um novo tipo de mercado e resolveu expandir o leque de acesso às músicas dos artistas da gravadora com a Trama Virtual, o Álbum Virtual e a TV Trama. Muito além da simples disponibilização do conteúdo, a gravadora optou por um formato que ao mesmo tempo ajudasse o artista e também fosse bom para o consumidor. “Desde 2004, mais de 50% do faturamento da Trama não vem de CD e DVD”, revela o presidente da gravadora. Funcionando desde 2008, o download do Álbum Virtual, por exemplo, é gratuito, legal e livre de proteções, dando total liberdade de reprodução. Através de patrocínios com empresas privadas como a Volkswagen ou a VR, o artista é pago para que o disco completo fique disponível no acervo da gravadora. “Somos do tempo em que o trabalho é remunerado. Não quer dizer que o que o artista receba tenha que vir só do bolso do público”, explica Bôscoli, e exemplifica: “Você nunca pagou para ver um telejornal da TV Globo, ou uma novela, e mesmo assim dando de graça o conteúdo, a Globo conseguiu com os patrocinadores se tornar uma grande potência de comunicação mundial”.

Neste ano, pensando nas mudanças do mercado, a Trama lançou seu projeto mais recente, o Trama TV, seguindo por um caminho que parece dar bons frutos em termos de divulgação: o streaming. Com diversas câmeras espalhadas pelos estúdios da gravadora, a novidade tem por conceito transmitir em tempo real os ensaios e gravações, permitindo, assim, que o artista tenha mais um meio de divulgação, além do maior contato com os fãs. Com duas horas por dia de transmissões ao vivo, cerca de 60 bandas já passaram por essa nova experiência e também voltaram para casa com as sessões gravadas. “Temos quase 100 milhões de streamings e um milhão e setecentas mil pessoas já assistiram nosso conteúdo no YouTube. É uma relação que a gente tem com música, a gente nasceu como uma empresa multidisciplinar”, conta Bôscoli. Acreditando na experiência do ao vivo pela internet, o presidente da Trama conta que já possui uma próxima novidade engatada: “Vamos começar a transmitir ao vivo alguns shows das casas de espetáculo. Você consegue através do pay-per-view ver o show por streaming”, releva. Para os shows nos quais os ingressos estavam caros ou acabaram muito cedo, o pay-per-view por streaming aparece como uma mão na roda nos tempos de bandalarga. Com parcerias já feitas, como com o grupo Tom Brasil e também com o clube Tom Jazz, em São Paulo, Bôscoli parece entusiasmado com a novidade, e garante: “Acho que se não fosse o digital, a Trama não estaria aqui”.

Saiba mais: moveiscoloniaisdeacaju.com.br myspace.com/moveis @moveis

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Ás

de Copas

Em menos de três anos, os curitibanos do Copacabana Club tornaramse uma das grandes promessas da música nacional. A vocalista Cacá V abre o jogo e conta como tem sido esse repentino sucesso <Por Rafael Roncato> Com uma mistura de sons extremamente dançantes, nome tropical e uma simpatia contagiante, o Copacabana Club nasceu em 2007 de forma despretensiosa. E o que antes parecia ser uma banda entre amigos por pura diversão, agora passa a ser assunto sério com a chegada do primeiro disco – ainda sem nome – e uma recente passagem pelos EUA. A vocalista Camila Cornelsen, a Cacá V, explica a democrática mistureba sonora dos Copas e como o ano de 2010 tem sido inesperado para a banda. “Não imaginava que em tão pouco tempo a banda tomasse tanto da minha vida”, revela. Vocês voltaram recentemente de uma pequena turnê pelos EUA que passou pelo festival South by Southwest. Como foi essa experiência? Foi a primeira vez que a gente viajou com a banda para fora do país. Fizemos a inscrição para o festival no final do ano passado. Apesar de pagar e fazer a inscrição, isso não significa que você está dentro; tem de receber o convite. Por ser um festival independente, eles não te pagam nada: ou você banca sua ida, ou você não vai. Recebemos o convite no início de dezembro e a gente já tinha decidido que iríamos de qualquer maneira. Juntamos cachês e economias para poder fazer essa viagem, e o mais difícil era conseguir o visto, porque não podíamos ir com visto de turista e os prazos estavam bem apertados. Conseguimos o visto uns cinco dias antes da nossa viagem; foi meio tenso. Fizemos duas apresentações no festival e como temos um amigo aqui no Brasil que já tinha feito turnê lá fora, ele nos ajudou a marcar outros shows. A gente foi para Nova York, Boston e Filadélfia. Em Nova York foram três shows.

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E a recepção das pessoas? Foi bem legal ver justamente a reação das pessoas, porque lá ninguém conhecia nada. É como se a gente tivesse que tocar todas as nossas músicas no nível zero. Você vê a que músicas eles reagem, já que aqui o pessoal gosta mais de “Just Do It” e “Come Back”, porque tem o comercial, o vídeoclipe e foram as músicas que a gente colocou para download no Myspace. Tivemos outra perspectiva das próprias músicas. E todo mundo gostou, vieram falar da banda depois, conheceram a gente, mandaram mensagem e saíram algumas críticas legais. Foi melhor do que a gente esperava. Por falar em show, ao vivo vocês são uma experiência única. Vocês conseguiram passar toda animação do ao vivo para o estúdio? Acho que o nosso produtor, o Dudu Marote, tem conseguido explorar essa força que a gente tem no palco. Por mais que seja legal ao vivo, transmitir isso sem soar estranho ou cafona é, às vezes, difícil. Por eu não ter tanta experiência como cantora, e até de estúdio, eu acho que ele tem feito um trabalho bem legal comigo, de deixar bem à vontade, e explorar dentro da minha capacidade.


O Copa apareceu na Ilustrada, foi indicado ao VMB 2009, passou por comercial da Fox, tocou com o Moby e agora disputaram o prêmio Multishow com outros artistas de peso, tudo isso com apenas um EP e o recente lançamento de “Just Do It” na Europa. Vocês esperavam toda essa exposição em pouco tempo?

O Tile é rock n’ roll, ele gosta de Primal Scream, Beatles, Rolling Stones. O Alessandrinho gosta de Stevie Wonder, Stereolabs. E a Claudinha traz para a bateria umas coisas mais atuais, rap, LCD Soundsystem. São mais referências para bateria, ela gosta outras coisas.

A gente não esperava, tanto que entre meus amigos eu falo que não imaginava que em tão pouco tempo a banda tomasse tanto da minha vida. Porque quando a gente começou, eu mal sabia cantar e tocar instrumento, eu nunca tinha tido uma banda antes. Era meio que um projeto pra gente se divertir e ser um escape.

O Rafa [Martins, guitarrista], que entrou ano passado, agora que o Luciano saiu, trouxe uns refinamentos para as guitarras que são bem legais. Ele tem uma característica que é o que a gente queria no Copa: uma guitarra bem brasileira para as melodias, com influências da década de 70, como Jorge Ben Jor. É isso, a balada do Copacabana.

Eu trabalho com fotografia, então a banda era sempre um plano C, eu acho, e a partir do momento que as coisas começaram a acontecer, hoje eu não consigo fotografar tanto quanto eu gostaria. Agora falando mais do começo da banda. Como surgiu o Copacabana Club? A gente começou em 2007. O Alessandro [Oliveira, guitarrista,] tinha passado uma temporada em Londres, e voltando ele se encontrou com o Luciano [Frank, guitarrista], que não está mais na banda. Eles se juntaram e resolveram fazer um som, chamando a Claudinha [Bukowski, baterista,] que também tocava com o Luciano numa outra banda. Na hora que eles foram convidá-la, eu estava junto e me convidei para entrar na banda e a gente começou a ensaiar (risos). Depois de uns meses entrou o baixista, o Tile [Douglas], em junho de 2007, e no comecinho de 2008 a gente gravou nosso EP.

O que cada um trouxe de ideias e influências para chegar nessa “mistureba” dançante de vocês? A “mistureba” é exatamente o que cada um da banda traz. Cada um tem suas influências e gosta de um tipo de som, e acho que no final essa soma é legal.

Você teve contato desde pequena com música? Tinha o sonho de ganhar a vida com isso? Quando eu era pequena minha mãe era professora de piano, mas ela sofreu um acidente de carro e depois não pode mais tocar, então vendemos o piano. Mas em casa, meus pais sempre me estimularam muito com música, sempre ouvi muita coisa. Aliás, também queria ter uma banda, e foi por esse motivo que me convidei para entrar no Copacabana; eu não admitia que eles ficassem falando de montar uma banda sem me convidar (risos). De certa forma eu sempre tive vontade de fazer música, só não sabia como. De repente o Copa foi a oportunidade perfeita para isso.

Saiba mais: myspace.com/copacabanaclubmusic copacabanaclub.tumblr.com @copacabanaclub

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<música>

Gaga quer o mundo Ela tem 24 anos, é loira e magra, mas o enorme nariz italiano - o tipo de nariz que raramente sobrevive ao show business - não foi capaz de diminuir o sucesso de Stefani Germanotta, a garota por trás de Lady Gaga <Por Debora Nogaroli>

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No final de 2008, Lady Gaga lançava a música “Just Dance”, o primeiro single do seu álbum de estréia, o The Fame. Em março do ano seguinte ela continuava a ser somente mais uma loira no cenário pop americano, mas que, apesar de tudo, era vista pela imprensa internacional como quem tinha boas perspectivas de futuro: pouco mais de mil cliques no seu Myspace e uma mini-tour com o grupo New Kids On The Block. Então, o videoclipe de “Just Dance” foi lançado e a partir daí a sua carreira no mercado fonográfico deslanchou e nunca mais parou de crescer. Pouco mais de um ano depois, Lady Gaga já tinha seis sucessos fixados no topo das paradas e era considerada a mais nova estrela do pop mundial. Muitas pessoas reivindicaram os seus créditos por terem descoberto Gaga: moldando-a, nomeando-a e a fazendo ser quem ela é hoje. Rob Fusari, quem co-escreveu e produziu as suas primeiras músicas, a processou por 30 milhões de dólares, alegando que, entre outras queixas, detinha um contrato de 15% do seu merchandising. É claro que Lady Gaga se defende e assume o crédito só para ela. Seu sucesso não foi tão repentino como muitos pensam. Filha de um casal italiano de classe média alta, Lady Gaga, ou melhor, Stefani Germanotta, já estava acostumada a frequentar gravadoras na época em que produzia o seu primeiro álbum. Antes de se tornar cantora, ela já havia escrito músicas para artistas como Britney Spears que na época ocupava as páginas dos tablóides americanos correndo pelas ruas de Los Angeles com a cabeça raspada e atacando paparazzi.

Em uma época em que poucos conseguem reconhecer os rostos das pessoas que fazem a maioria das músicas que ouvimos, Lady Gaga consegue se sobressair principalmente pelo seu visual icônico. Ela encerrou a era das celebridades chatas que não tem nada a acrescentar como Paris Hilton e Jessica Simpson; também virou o centro das atenções entre as cantoras em ascensão que por algum motivo não alcançam tanto sucesso no mundo do show business quanto Gaga, como Katy Perry, Rihanna, Fergie e Kelly Clarkson. Ainda assim, ela não é nenhuma cantora teen, como Miley Cyrus e Taylor Swift. O jornalista e editor da Rolling Stone do Brasil, Paulo Terron, acha que Gaga consegue se destacar por algo que ela faz, enquanto as outras se destacam mais pelo o que acontece com elas. “A Gaga se veste, vira notícia. A Rihanna é notícia quando apanha. O que, claro, não quer dizer que a música da Gaga seja melhor. Ela supriu uma carência. Nada do que ela faz é exatamente novo, mas uma artista desse tipo aparentemente estava fazendo falta no mercado.” È mais ou menos o

© LadyGaga

Um ano antes de estourar com “Just Dance”, Stefani foi mandada pelo seu produtor para o festival Lollapalooza, em Chicago. Foi ali que começou a reviravolta em sua vida. Em uma das suas apresentações no palco lateral (aquele onde bandas independen-

tes costumam tocar), alguém da plateia chamou de Amy Winehouse. Uma mudança no visual foi então obrigatória: de cabelos pretos para o loiro gema de ovo. Este ano, Gaga deixou para trás os palcos laterais e se apresentou no palco principal do festival com a turnê Monster Ball.

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que pensa presidente do fã-clube da Madonna no Brasil, Fabio Freire. “Acredito que se fale tanto na Gaga ultimamente porque ela surgiu em um momento de escassez no mundo pop. Não há nada de novo nos últimos anos, sempre os mesmos personagens teens e femininos surgindo e sumindo.” Então, como defini-la? Ao mesmo tempo em que se enquadra no patamar das estrelas do pop feminino, ela inaugurou o seu próprio espaço no mundo. “Nenhuma delas (Britney, Rihanna, etc) tem tanta ousadia ou coragem quanto Gaga tem em suas músicas e roupas”, comenta Diego Costa, fundador do site da cantora no Brasil, o LadyGagaFan.org.br.

Quando observamos Lady Gaga, vemos uma artista que parece não buscar esse padrão de belo. A premissa que a norteia é a referência ao monstro, ao feio.

Gaga soma recordes desde então: ela se auto-intitulou como a “rainha do Twitter” quando desbancou a outra estrela do pop, Britney Spears, em agosto deste ano. Atualmente, ela é a pessoa que tem mais seguidores na rede: mais de sete milhões de usuários acompanham diariamente os passos da cantora. “Alejandro”, vídeo lançado no começo de junho deste ano, tinha atingido mais de 50 milhões de visualizações um pouco mais de mês depois no canal oficial da cantora no YouTube. Não é para todo mundo. O único que conseguiu ultrapassar a marca deixada por Gaga como a artista com o vídeo mais acessado no site foi o fenômeno teen, Justin Bieber e sua música-chiclete, “Baby”. A presença de Gaga também introduz a ideia de Madonna, outra ambiciosa garota italiana. Coincidência ou não, o seu novo visual tem certa relação com a estrela pop dos anos 80, especialmente em “The Girlie Show” e em “Blonde Ambition”: as sobrancelhas escuras, o cabelo extremamente loiro e os lábios marcados em vermelho. Mas as duas são muito diferentes: Madonna certamente não tem o mesmo senso de humor sobre si mesma, enquanto que a outra é só diversão. Gaga diz que ela é uma menina que gosta de meninos que parecem meninas, mas que também é uma garota que gosta de olhar como um menino. Conseguiu entender? Ela se define como uma drag queen, um menino fingindo ser menina. Não é a toa que no começo do ano surgiram boatos de que ela era hermafrodita. Isso não é algo que Madonna faria.

Ranking Gaga

A comparação e entre a artista pop deste século e a dos anos 80 ganhou força quando “Alejandro” foi divulgado para o mundo. De certa forma, algumas referências e semelhanças à Madonna podem ser identificadas, principalmente porque quem dirigiu o novo videoclipe de Gaga foi Steven Klein, o mesmo que dirigiu no ano passado os vídeos da turnê de Madonna. Vamos às semelhanças: a luz azul que ilunima os bailarinos de Gaga é muito parecida com imagens de “Express Yourself”; assim como a rainha do pop fez em seu vídeo “Like a Prayer”, a jovem popstar também apostou em utilizar uma sutil referência religiosa. Mas a conexão entre as duas artistas não aparece somente nesses dois momentos: as labaredas que aparecem ao fundo de Gaga também estão presentes em Madonna. Por fim, a coreografia em “Alejandro” (em especial o movimento das mãos dos bailarinos) lembra a de “Vogue”, assim

- A Billboard destaca o “The Fame” como o álbum dance mais vendido de todos os tempos

- É a mulher mais procurada na Internet de acordo com o Guiness. Ocupando a mesma posição que Michael Jackson - Gaga tem mais de 20 milhões de fãs no Facebook. Isso significa que ela recebeu mais cliques no botão “curtir” de sua página do que o rei do pop, Michael Jackson - Tem um bilhão de visualizações de todo o seu material postado no YouTube, a primeira artista a conseguir tamanho feito

- Para a MTV americana, Gaga tem a segunda tatuagem mais linda entre as mulheres famosas - Foi recorde de indicações no VMA 2010. Ao todo, Gaga poderia levar até 18 prêmios para casa, mas apenas recebeu 8 astronautas de prata - Gaga faturou mais que Madonna entre 2009 e 2010, algo em torno dos 62 milhões de dólares

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como o top que Gaga usa, um sutiã-metralhadora, traz à memória aquele que Madonna usa no mesmo vídeo. A polêmica ganhou ainda mais força quando Ingrid Casares, amiga íntima de Madonna, escreveu em seu Twitter que “Alejandro” não era uma homenagem, mas roubo: “Como minha amiga Madonna diz: é com esse vídeo que ela pensar em ser eu?” e ainda completou: “Estou vendo Alejandro. Isso não é uma homenagem, é roubo! Tudo o que Lady Gaga faz é enganar. Quando Madonna fez isso há 25 anos atrás era inovador, hoje é apenas uma cópia”. Jesus Luz, namorado (ou ex-namorado?) da cantora, também deu a sua opinião e defendeu sua amante: “Coincidência, inspiração ou cópia?” Pois é, Jesus Luz, essa é uma pergunta que não tem resposta. Há aqueles que defendem Madonna e aqueles que defendem Gaga, como o próprio Diego: “A única semelhança que vejo nas duas é que Gaga representa a nossa época, já Madonna significou muito na sua época”, defende. Ao contrário dos radicais defensores da cantora de “Vogue”, há aqueles que preferem não assumir uma posição extremista: “Tentar surpreender, chamar a atenção quando alguém já fez isso é muito fácil. Lady Gaga chegou agora, tem talento!”, comenta Patrícia Prudente, coordenadora geral do site da Madonna “mas não há nada que mereça ou possa ser comparado a Madonna!”. Essa é a mesma opinião de Fabio Freire: “Um jornalista amigo meu fez uma observação muito interessante certa vez: ‘Lady Gaga não existiria se Madonna não tivesse existido antes. Particularmente, acredito que haja espaço para todos, mas revolucionários ainda não apareceram para essa última década”, comenta.

Um jornalista amigo meu fez uma observação muito interessante certa vez: ‘Lady Gaga não existiria se Madonna não tivesse existido antes. Particularmente, acredito que haja espaço para todos, mas revolucionários ainda não apareceram novos para essa última década

A ideia Gaga ser “a nova Madonna” é, para Thiago Soares, jornalista e doutor em e Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), uma ação da mídia. Para ele, as duas cantoras são muito diferentes realmente. “Madonna tem foco em suas ações: quer ser pautada na agenda dos assuntos midiáticos e ser inserida com relevância nos temas contemporâneos como o sexo, crítica à religião racismo e o feminismo.” O discurso de Gaga segue outra linha, ele é “vazio”. “Uso aspas porque o termo pode ser forte e pejorativo, o que não é o caso. Em vez de ela falar sobre grupos sociais, a cantora se refere ao seu público como ‘monstrinhos’. Os monstros são as minorias, mas é ela também”, explica. Como uma “monstra”, se assim pode-se dizer, Gaga não se prende aos padrões de beleza que as cantoras pop devem se enquadrar por exigência do mercado. Ela quebrou paradigmas. “Se observarmos a trajetória de Madonna, veremos uma artista se aproximando de ícones legitimados da beleza, assim como Britney Spears, Christina Aguilera, Kylie Minogue, entre outras”, afirma o jornalista. “Quando observamos Lady Gaga, vemos uma artista que parece não buscar esse padrão de belo. A premissa que a norteia é a referência ao monstro, ao feio.” Aliás, é a mesma opinião de Diego: “Gaga quebrou várias regras do cenário musical, aquela de que não precisa ser linda para ser um grande ícone e também ser a pessoa mais influente do mundo”.

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Saiba mais: @Ladygaga ladygaga.com


Soares também destaca as origens diferentes de cada artista. Madonna saiu de Detroit e chegou a Nova York, nos anos 80, apenas com alguns dólares no bolso para se aventurar na cidade grande, enquanto que Gaga, antes de se tornar cantora, já trabalhava para vários outros artistas. “Madonna tem uma trajetória que evoca o sonho americano e, ao contrário dela, Lady Gaga não teve histórias ‘cinematográficas’ em torno de sua aparição”, comenta. Para muitos, parece que ontem mesmo ela era anônima e hoje é inevitável entrar na internet e não ver alguma notícia sobre a jovem cantora. Tanto é que parece ser impossível não saber quem é Gaga. “Nessa altura do campeonato acredito que quem não sabe quem ela é está mentindo. Se fosse ainda ano passado eu até poderia acreditar, mas hoje em dia quem nunca ouviu falar de Lady Gaga? Alô, ela usou um vestido de carne!”, se espanta Diego. Mas é essa a genialidade da “monstrinha”: sua vontade de ser mutante, um desenho. Ela tem um incrível senso de humor: quem mais sairia para jantar usando um chapéu de lagosta ou usaria latas de refrigerante como bobs para o cabelo? Então, até onde vai Lady Gaga? “Depende dos próximos discos dela”, comenta o editor da Rolling Stone. “Por mais interessante que uma cantora seja visualmente, ela ainda precisa de músicas minimamente aceitáveis. E as faixas da Gaga são exatamente assim: niveladas por baixo. Se ela conseguir não piorar, deve ficar por aí um bom tempo ainda.” A história de Gaga já foi escrita, mas o futuro ninguém consegue prever. O nome do próximo disco já foi anunciado em setembro deste ano no VMA após a cantora levar oito prêmios para casa, incluindo a categoria Melhor Vídeo do Ano. Na premiação, Gaga também cantou um pequeno trecho da música em homenagem aos seus fãs: “I’m beautiful in my own way, cause God makes no mistakes. I’m on the right track. Baby, I was born this way”. Mas ainda pouco se sabe sobre as faixas, “Living on the Radio” e “You and I” já podem ser caçadas em apresentações “cruas” e ao vivo no Youtube. Os curiosos para saber as cenas dos próximos capítulos terão que esperar até ano que vem, data de lançamento do seu terceiro disco, o “Born This Way”. Revista POP-UP | Outubro>2010

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música What’s happening? @ladygaga: http://twitpic. com/31332d - I’ll never forget writing those “ra-rahs” on my tourbus hoping it would be a hit #BadRomance1Year

@bmazzeo: Eu tava amarradão com o Rock in Rio. Até ver o Medina dizer que as atrações do seu sonho são Shakira e Lady Gaga. #orockerrou @rafinhabastos: Hey @LadyGaga, this Alejandro guy is dead. Now shut you motha’fuck up! @leticiarial: Vou começar a dar uma de Lady Gaga, chamar todos os bofes pra mim. “Alejandro, Fernandoo, Roberto” @orgastic_desire: Lady Gaga grávida? Gugu morreu? Então vote no Tiririca, pior que tá não fica! @gabesimas: Fã de Lady Gaga é tudo desempregado né? Galera tem um tempo livre pra babar ovo dela que vou te contar. Sobre ela ser lider no twitter: uau. @hugogloss: Primeira foto que a Lady GaGa sai bonita e não estranha... não fosse essa presepada rosa na cabeça... http://migre.me/ adFy @mukasweb: Este mundo tiene que estar mal, como es posible que Justin Bieber y Lady Gaga sean los cantantes mas vendidos ! @twittess: Lady GaGa quer ser “Ministro” e realizar casamento entre fãs Gays http://migre.me/19zGg Ainda me perguntam pq gosto tanto dela! (L) @DGLuiz: Lady Gaga copiou 100% Madonna e ainda dizem que Madonna tá de¬sesperada pra trabalhar com ela, esse jornais e revistas de baixo custo, viu! @taata_moraes: ¬¬’ lady gaga passou a britney no twitter, nem acredito *o*

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@revistaPopUp: A Pop-Up selecionou os melhores comentarios do twitter relacionados com a matéria que você acaba de ler.

Search: “Lady Gaga”


<coluna>

A reinvenção de Orfeu <Por Fábio Mariano> Há um determinado grupo de homens e mulheres cuja imagem preserva um frescor eterno. Não interessa aonde se vá ou em que classe social se procure, seus rostos estão lá em algum canto. Buda, Che Guevara, Kurt Cobain... Figuras que não apenas preservam-se enquanto selo, mas que em alguma medida permitem, a quem quer que os olhe, o vislumbre de uma ideia. Claro que apenas algumas pessoas terão acesso a esse pensamento, e que haverá visões diferentes sobre ele. Afinal, um Buda colocado por uma típica desperate housewife em sua casa é, a rigor, um objeto decorativo para trazer paz e equilíbrio. Para um iogue, no entanto, aquele homem sentado na posição da flor de lótus representa uma série de conhecimentos e um caminho a ser trilhado pelo corpo e pelo espírito. A imagem de Arthur Rimbaud é em si completamente atípica entre os ídolos de juventude. Em primeiro lugar por se tratar de um homem do século XIX, quando via de regra as estampas nas camisetas e nos álbuns de Orkut são de fotografias do século XX. Afinal, as pessoas do século XIX parecem ter uma característica unificadora: todas são essencialmente feias (vide Rainha Victoria, Charles Darwin, Leon Tolstoi e Dom Pedro II). A exceção é um moleque de olhos profundamente azuis e tez muito clara, que escandalizou e encantou Paris com sua poesia, seu comportamento e sua beleza. Rimbaud nunca pareceu ter nascido para integrar as fileiras da normalidade.

Adoecia e era ele próprio a explosão do que definha.

Se o poeta francês se tornou o estereótipo do jovem escritor, isso se deve, mormente, ao poder de sua escrita, que encantou completamente uma outra figura pop bastante cultuada: Jim Morisson, vocalista da banda The Doors. Morisson não apenas escrevia poesia, mas acreditava ser a reencarnação de Rimbaud. Fez, com sua música, sua imagem e sua performance delirante no palco, com que os adjetivos que foram cunhados para seu ídolo lhe fossem perfeitamente aplicáveis: enfant térrible e poète maudit, o cantor trazia a seu público uma vontade de explosão e de libertação. Morisson retomava o verso de Rimbaud que serve de epígrafe a esse texto e que, uma vez escrito, permaneceu parado e incômodo entre duas fases da vida: a infância e

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a vida adulta. Os poetas não queriam mais voltar à primeira, e a segunda era entediante demais. Esse grito parado no ar parecia chamar leitores e não leitores a algo outro. Não mais as besteiras da infância, com suas brincadeiras que preenchem a mimese porca da vida adulta. Não mais os caprichos dos deuses diante das necessidades de pagar aluguel, ter companhia e ser o oposto de imprestável. Dado do ponto mais alto de um entreposto, o brado rimbaudiano rompia com toda uma tradição que queria voltar à infância. Adoecia, e sua doença era a juventude; era estar louco, e nessa loucura encontrar a lucidez de antes da morte. Adoecia e era ele próprio a explosão do que definha. Antes de se tornar adulto, queria permanecer aquilo, todos os sentidos desregrados através de uma disciplina férrea. O grito que erguia no ar não era, como muitos pensam, uma afirmação conclusiva típica de um adulto que sabe o que está falando. Era antes uma resposta, ensaiada por tantos, no momento em que as regras e as obrigações atingiam um auge cruel (com o ritmo da vida sendo cada vez mais ditado pelo relógio da torre). Não se pode ser sério aos dezessete anos. O verso que antecede esse primeiro verso (quase sempre o verso mais importante de um poema, essa presença invisível e imprescindível) é um simples clamor de seja sério, cresça. Não, Rimbaud não crescerá. E num momento em que se é necessário escolher “a carreira pro resto da vida” exatamente aos dezessete anos, sua imagem continuará sendo cultuada; seus versos continuarão sendo lidos e declamados. E cada vez com força e frescor maiores.


dc ec els ofu rtad o.org /


Making Pop Nos últimos dez meses vivenciamos o que é ser um pauteiro, editor, repórter e redator; todas as funções de um jornalista. Uma aventura que concretizou a ideia de quatro jovens estudantes, a revista Pop-Up.

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41 entrevistados 244 e-mails trocados 47 e-mails trocados na madrugada 300 dias sem dormir 53 reuniões 53 almoços no Salsinha & Cebolinha 5 quilos a mais na balança 15 novos bonecos 29 PDF’s gerados 1 carona para Móveis Coloniais de Acaju 45 horas na estrada 347 fotos re-esticadas no indesign 2 apelos ao GPS

@furts

10 novas piadas internas

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<expediente> Isabelle Ribeiro Editores: Debora Nogaroli, Flávia Rodrigues, Isabelle Penha Ribeiro, Rafael Roncato Diretor de Arte e Designer: Daniel Furtado Diagramação: Debora Nogaroli Ilustrador: Patrick de Andrade Orientador: Bia Abramo Co-orientador: Daniela Bertocchi Colaboradores: Fábio Mariano, Renata Assumpção, Ricardo Cruz Coordenador de TCC: Mário Vitor Santos

Estrada Municipal Unicamp – Telebrás km 1, s/n – Cidade Universitária, Campinas, SP Fundadores: João Manuel Cardoso de Mello, Liana Aureliano, Luíz Gonzaga Belluzzo, Eduardo da Rocha Azevedo Trabalho de Conclusão de Curso Jornalismo Multimídia - turma de 2007

@bellepr belle.pribeiro@gmail.com

Rafael Roncato @rroncato rafael.roncato@gmail.com

Flávia Rodrigues fla.rsilveira@gmail.com

AGRADECIMENTOS

www.wezen.com.br

Debora Nogaroli deboranogaroli@gmail.com

www.8-bitstudios.com Silva Marts Gráfica e Editora João David People Educação Ibarra & Nogaroli Advogados Clínica São Camilo Daniel Furtado Maria Rita Palmeira Edmar Tetsuo Yuta A todos os entrevistados e assessores Aos que colaboraram com a revista Às nossas famílias e amigos

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Daniel Furtado @furts daniel.furtado@gmail.com


Pop-Up  

A ''Pop-Up'' é um trabalho de conclusão de curso dos alunos de Jornalismo Multimídia da Facamp. A revista aborda música, cinema, literatura...

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